O Primo Basílio

Eça de Queirós · Capítulo 16 de 18

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O Primo Basílio

Capítulo XVII



Ao outro dia Jorge foi ao ministerio, onde não tinha apparecido nos ultimos tempos. Mas demorou-se pouco. A rua, a presença dos conhecidos ou dos estranhos torturava-o; parecia-lhe que todo o mundo sabia; nos olhares mais naturaes via uma intenção maligna, e nos apertos de mão mais sinceros uma ironica pressão de pezames; as carruagens mesmo que passavam davam-lhe a suspeita de a terem conduzido ao rendez-vous, e todas as casas lhe pareciam a fachada infame do Paraiso. Voltou mais sombrio, infeliz, sentindo a vida estragada. E logo do corredor ao entrar ouviu Luiza cantarolando, como outr'ora, a Mandolinata!

Estava-se a vestir.

—Como estás tu?—perguntou, pondo a um canto a sua bengala.

—Estou boa. Hoje estou muito melhor. Um bocado fraca ainda...

Jorge deu alguns passos pelo quarto, taciturno.

—E tu?—perguntou-lhe ella.

—P'ra aqui ando—disse tão desconsoladamente que Luiza pousou o pente, e com os cabellos soltos veio pôr-lhe as mãos nos hombros, muito carinhosa:

—Que tens tu? Tu tens alguma cousa. Estranho-te tanto ha dias! Não és o mesmo! Ás vezes estás com uma cara de réo... Que é? Dize.

E os seus olhos procuravam os d'elle, que se desviavam perturbados.

Abraçou-o. Insistia, queria que dissesse tudo á «sua mulherzinha».

—Dize. Que tens?

Elle olhou-a muito, e de repente, com uma resolução violenta:

—Pois bem, digo-te. Tu agora estás boa, pódes ouvir... Luiza! vivo n'um inferno ha duas semanas. Não posso mais... Tu estás boa, não é verdade? Pois bem, que quer dizer isto? Dize a verdade!

E estendeu-lhe a carta de Bazilio.

—O que é?—fez ella muito branca. E o papel dobrado tremia-lhe na mão.

Abriu-a devagar, viu a letra de Bazilio, n'um relance adivinhou-a. Fixou Jorge um momento d'um modo desvairado, estendeu os braços sem poder fallar, levou as mãos á cabeça com um gesto ancioso como se se sentisse ferida, e oscillando, com um grito rouco, cahiu sobre os joelhos, ficou estirada no tapete.

Jorge gritou. As criadas acudiram. Estenderam-na na cama. Elle quiz que Joanna corresse a chamar Sebastião; e ficou, como petrificado, junto ao leito, olhando-a, em quanto Marianna toda tremula desatacava os espartilhos da senhora.

Sebastião veio logo. Felizmente havia ether, fizeram-lh'o respirar; apenas abriu lentamente os olhos, Jorge precipitou-se sobre ella:

—Luiza, ouve, falla! Não, não tem duvida. Mas falla. Dize, que tens?

Ao ouvir a voz d'elle desmaiou outra vez. Movimentos convulsivos sacudiam-lhe o corpo. Sebastião correu a buscar Julião.

Luiza parecia adormecida agora, immovel, branca como cera, as mãos pousadas sobre a colcha; e duas lagrimas corriam-lhe devagar pelas faces.

Um trem parou. Julião appareceu esbaforido.

—Achou-se mal de repente... Vê, Julião. Está muito mal!—disse Jorge.

Fizeram-lhe respirar mais ether; despertou outra vez. Julião fallou-lhe, tomando-lhe o pulso.

—Não, não, ninguem!—murmurou ella, retirando a mão. Repetiu com impaciencia:—Não, vão-se, não quero...—As suas lagrimas redobravam. E como elles sahiam da alcova para a não excitar contrariando-a, ouviram-na chamar:—Jorge!

Elle ajoelhou-se ao pé da cama, e fallando-lhe junto do rosto:

—Que tens tu? Não se falla mais em tal. Acabou-se. Não estejas doente. Juro-te, amo-te... Fosse o que fosse, não me importa. Não quero saber, não.

E como ella ia fallar, elle pousou-lhe a mão na bocca:

—Não, não quero ouvir. Quero que estejas boa, que não soffras! Dize que estás boa! Que tens? Vamos ámanhã para o campo, e esquece-se tudo. Foi uma cousa que passou...

Ella disse apenas com a voz sumida:

—Oh! Jorge! Jorge!

—Bem sei... Mas agora vaes ser feliz outra vez... Dize, que sentes?

—Aqui—disse ella, e levava as mãos á cabeça.—Dóe-me!

Elle ergueu-se para chamar Julião, mas ella reteve-o, attrahiu-o; e devorando-o com olhos onde a febre se accendia, adiantando o rosto, estendia-lhe os labios. Elle deu-lhe um beijo inteiro, sincero, cheio de perdão.

—Oh! minha pobre cabeça!—gritou ella.

As fontes latejavam-lhe, e uma côr ardente, sêcca, esbrazeava-lhe o rosto.

Como era habituada a enxaquecas, Julião traquillisou-os; recommendou um socego immovel e sinapismos de mostarda aos pés,—até que elle voltasse.

Jorge ficou junto do leito, taciturno, cortado de presentimentos, de sustos, suspirando ás vezes.

Eram então quatro horas; cahia uma chuva miudinha, ennevoada; a alcova tinha uma luz lugubre.

—Não ha-de ser nada...—dizia Sebastião.

Luiza agitava-se no leito, apertando as mãos na cabeça, torturada pela dôr crescente, cheia de sêde.

Marianna acabava d'arrumar em pontas de pés, vagamente assombrada d'aquella casa, onde só vira desgosto e doença: mas só o pousar subtil dos seus passos fazia soffrer Luiza, como se fossem martelladas sobre o craneo.

Julião não tardou; logo da porta do quarto, o aspecto d'ella inquietou-o. Accendeu um phosphoro, aproximou-lh'o do rosto; e aquella luz fez-lhe dar um grito como se um ferro frio lhe trespassasse a cabeça.

Os olhos dilatados tinham um reluzir metallico. Conservava-se muito quieta, porque o gesto mais lento lhe dava na nuca dôres penetrantes que a dilaceravam. Só de vez em quando sorria para Jorge com uma expressão d'afflicção serena e muda.

Julião fez logo pôr tres travesseiros, para lhe conservar a cabeça alta. Fóra cahia o crepusculo humido. Andavam em bicos de pés, com cuidado; e mesmo tiraram o relogio da parede para afastar o tic-tac monotono. Ella começava agora a murmurar sons cançados, e a voltar-se com movimentos bruscos que lhe arrancavam gritos; ou immovel gemia d'um modo continuo e angustioso. Tinham-lhe envolvido as pernas n'um longo sinapismo; mas não o sentia. Pelas nove horas começou a delirar; a lingua tornára-se-lhe branca e dura, como de gesso sujo.

Julião fez logo applicar na cabeça compressas d'agua fria. Mas o delirio exacerbava-se.

Ora tinha um murmurio espesso, um vago rosnar modorrento—onde os nomes de Leopoldina, de Jorge, de Bazilio voltavam incessantemente: depois debatia-se, esgaçava a camisa com as mãos; e, arqueando-se, os seus olhos rolavam, como largos bugalhos prateados onde a pupilla se sumia.

Socegava mais; dava risadinhas d'uma doçura idiota; tinha gestos lentos sobre o lençol, que aconchegavam e acariciavam, como n'um gozo tepido: depois começava a respirar anciosamente, vinham-lhe expressões torturadas de terror, queria enterrar-se nos travesseiros e nos colxões, fugindo a aspectos pavorosos: punha-se então a apertar a cabeça phreneticamente, pedia que lh'a abrissem, que a tinha cheia de pedras, que tivessem piedade d'ella!—e fios de lagrimas corriam-lhe pelo rosto. Não sentia os sinapismos; expunham-lhe agora os pés nús ao vapor d'agua a ferver, carregada de mostarda; um cheiro acre adstringia o ar do quarto. Jorge fallava-lhe com toda a sorte de palavras consoladoras e supplicantes: pedia-lhe que socegasse, que o conhecesse; mas de repente ella desesperava-se, gritava pela carta, maldizia Juliana—ou então dizia palavras d'amor, enumerava sommas de dinheiro... Jorge temia que aquelle delirio revelasse tudo a Julião, ás criadas: tinha um suor á raiz dos cabellos—e quando ella, um momento, julgando-se no Paraiso e nas exaltações do adulterio, chamou Bazilio, pediu champagne, teve palavras libertinas, Jorge fugiu da alcova allucinado, foi para a sala ás escuras, atirou-se para o divan a soluçar, arrepellou-se, blasphemou.

—Está em perigo?—perguntou Sebastião.

—Está—disse Julião.—Se sentisse os sinapismos, ao menos! Mas estas malditas febres cerebraes...

Calaram-se vendo Jorge entrar na alcova, com o rosto manchado, esguedelhado.

E Julião tomando-o pelo braço, levando-o para fóra:

—Ouve lá, é necessario cortar-lhe o cabello, e rapar-lhe a cabeça.

Jorge olhou-o com um ar estupido:

—O cabello?—E agarrando-lhe os braços:—Não, Julião, não, hein? Póde-se fazer outra cousa. Tu deves saber. O cabello não! Não! Isso não, pelo amor de Deus! Ella não está em perigo. P'ra quê?

Mas aquella massa de cabello era o diabo, impedia a acção da agua!

—Ámanhã, se fôr necessario. Ámanhã! Espera até ámanhã... Obrigado, Julião, obrigado!

Julião consentiu, contrariado. Fazia então humedecer constantemente as compressas da cabeça, e como Marianna tremula, desgeitosa, molhava muito o travesseiro, foi Sebastião que se collocou á cabeceira da cama, toda a noite, espremendo sem cessar uma esponja, d'onde a agua gotejava lentamente; tinham jarros fóra da varanda, na sala, para dar á agua uma frialdade gelada. O delirio alta noite acalmára um pouco. Mas o seu olhar injectado tinha um aspecto selvagem: as pupillas pareciam apenas um ponto negro.

Jorge, sentado aos pés da cama, com a cabeça entre as mãos, olhava para ella: lembravam-lhe vagamente outras noites de doença assim, quando ella tivera a pneumonia: e melhorára! Até ficára mais linda, com tons de pallidez que lhe adoçavam a expressão! Iriam para o campo quando ella convalescesse: alugaria uma casinha: voltaria á noite no omnibus, e vêl-a-hia de longe na estrada vindo ao seu encontro, com um vestido claro, na tarde suave!... Mas ella gemia, elle erguia os olhos sobresaltado: e não lhe parecia a mesma: afigurava-se-lhe que se ia dissipando, desapparecendo n'aquelle ar de febre que enchia a alcova, no silencio morbido da noite, e no cheiro da mostarda. Um soluço sacudia-o, e recahia na sua immobilidade.

Joanna, em cima, rezava. As velas, com uma chamma alta e direita, extinguiam-se.

Emfim uma vaga claridade desenhou nos transparentes brancos os caixilhos da vidraça. Amanhecia. Jorge ergueu-se, foi olhar para a rua. Não chovia; a calçada seccava. O ar tinha uma vaga côr d'aço. Tudo dormia: e uma toalha, esquecida á janella das Azevedos, agitava-se ao vento frio, silenciosamente.

Quando entrou na alcova Luiza fallava com uma voz extincta: sentia muito vagamente os sinapismos, mas a dôr de cabeça não cessava. Começou a agitar-se—e o delirio d'ahi a pouco voltou. Julião, então, determinou que se lhe rapasse o cabello.

Sebastião foi acordar um barbeiro na rua da Escóla—que veio logo, com um ar transido, a gola do casaco levantada; e batendo o queixo começou a tirar immediatamente d'um sacco de couro as navalhas, as tesouras, devagar, com as mãos molles da gordura das pomadas.

Jorge foi refugiar-se na sala: parecia-lhe que grandes pedaços mutilados da sua felicidade cahiam com aquellas lindas tranças, destruidas ás tesouradas; e com a cabeça nas mãos recordava certos penteados que ella usava, noites em que os seus cabellos se tinham desmanchado nas alegrias da paixão, tons com que brilhavam á luz... Voltou ao quarto, attrahido irresistivelmente; sentiu na alcova o ruido secco e metallico das tesouras; sobre a mesa, n'uma caixa de sabão, estava um velho pincel de barba, entre flocos d'espuma... Chamou Sebastião baixo:

—Dize-lhe que se avie! Estão-me a matar a fogo lento! É de mais. Que ande depressa!

Foi á sala de jantar, errou pela casa: a manhã fria clareava; erguera-se vento, que ia levando, aos pedaços, nuvens d'um tom alvadio.

Quando tornou a entrar no quarto, o barbeiro guardava as navalhas com a mesma lentidão molle; e tomando o seu chapéo desabado, sahiu em bicos de pés, murmurando n'um tom funerario:

—Estimo as melhoras. Deus ha-de permittir que não seja nada...

O delirio com effeito d'ahi a uma hora acalmou:—e Luiza cahiu n'uma somnolencia prostrada com gemidos fracos, que sahiam de seus labios como a lamentação interior da vida vencida.

Jorge tinha então dito a Sebastião que desejava chamar o doutor Caminha. Era um medico velho que tratára sua mãi, e que curára Luiza da pneumonia, no segundo anno de casada. Jorge conservára uma admiração agradecida por aquella reputação antiquada; e agora a sua esperança voltava-se sofregamente para elle, anciando pela sua presença como pela apparição d'um santo.

Julião condescendeu logo. Até estimava! E Sebastião desceu correndo, para ir a casa do dr. Caminha.

Luiza, que sahira um momento do seu torpôr, sentiu-os fallar baixo. A sua voz extincta chamou Jorge:

—Cortaram-me o cabello...—murmurou tristemente.

—É para te fazer bem—disse-lhe Jorge, quasi tão agonisante como ella.—Cresce logo. Até te vem melhor...

Ella não respondeu; duas lagrimas silenciosas correram-lhe pelos cantos dos olhos.

Devia ser a sua ultima sensação: a prostração comatosa ia-a immobilisando, apenas a sua cabeça rolava n'um movimento dôce e vagaroso sobre o travesseiro, gemendo sempre com um cansaço triste; a pelle empallidecia como um vidro de janella, por traz do qual lentamente uma luz se apaga; e mesmo os ruidos da rua que começavam não a impressionavam, como se fossem muito distantes e abafados em algodão.

Ao meio dia D. Felicidade appareceu. Ficou petrificada quando a viu tão mal: e ella que a vinha buscar para irem á Encarnação, talvez ás lojas! Tirou logo o chapéo, installou-se; fez arranjar a alcova, tirar as bacias, os velhos sinapismos que arrastavam, compôr a cama—«porque não havia peor p'ra um doente que desarranjo no quarto»: e muito corajosamente animava Jorge.

Uma carruagem parou á porta. Era o doutor Caminha, emfim!... Entrou atabafado no seu cachenez de quadrados verdes e pretos, queixando-se muito do frio;—e tirando devagar as grossas luvas de casimira, que pôz dentro do chapéo methodicamente, adiantou-se para a alcova com um passo cadenciado, acamando com a mão as suas repas grisalhas já muito colladas ao craneo pela escova.

Julião e elle ficaram sós na alcova.

No quarto os outros esperavam calados, ao pé de Jorge, pallido como cêra, com os olhos vermelhos como carvões.

—Vai-se-lhe pôr um caustico na nuca—veio dizer Julião.

Jorge devorava com o olhar ancioso o doutor Caminha, que se pozera a calçar tranquillamente as suas luvas de casimira, dizendo:

—Vamos a vêr com o caustico. Não está bem... Mas ha ainda peor. E eu volto, meu amigo, eu volto.

O caustico foi inutil. Não o sentia, immovel e branca, com as feições crispadas; e tremuras passaram-lhe de repente nos nervos da face como vibrações fugitivas.

—Está perdida—disse Julião baixo a Sebastião.

D. Felicidade ficou muito aterrada, fallou logo nos sacramentos.

—P'ra quê?—resmungou Julião impaciente.

Mas D. Felicidade declarou que tinha escrupulos, que era um peccado mortal; e chamando Jorge para o vão da janella, toda tremula:

—Jorge, não se assuste, mas seria bom pensar nos sacramentos...

Elle murmurava como assombrado:

—Os sacramentos!

Julião chegou-se bruscamente, e quasi zangado:

—Nada de tolices! Qual sacramentos! P'ra quê? Ella nem ouve, nem comprehende, nem sente. É necessario deitar-lhe outro caustico, talvez ventosas, e é o que é! Isso é que são os sacramentos!

Mas D. Felicidade escandalisada, muito abalada, começou a chorar. Esqueciam Deus, e em Deus é que está o remedio!—dizia, assoando-se com estrondo.

—Pelo que Deus faz por mim...—exclamou Jorge, sahindo do seu torpôr. E batendo as mãos, como revoltado por uma injustiça:—Porque realmente, que fiz eu p'ra isto? Que fiz eu!...

Julião ordenára outro caustico. Havia agora na casa um movimento allucinado. Joanna entrava de repente com um caldo inutil que ninguem pedira, os olhos muito vermelhos de chorar. Marianna soluçava pelos cantos. D. Felicidade ia, vinha pelo quarto, refugiando-se na sala para rezar, fazendo promessas, lembrando que se chamasse o doutor Barbosa, o doutor Barral.

E Luiza no entanto estava immovel; uma côr macilenta ia-lhe dando ás faces tons cavados e rigidos.

Julião extenuado pediu um calix de vinho, uma fatia de pão. Lembraram-se então que desde a vespera não tinham comido, e foram á sala de jantar onde Joanna, sempre lavada em lagrimas, serviu uma sopa, e ovos. Mas não achava os colheres, nem os guardanapos; murmurava rezas, pedia desculpa; em quanto Jorge, com os olhos inchados, fitos na borda da mesa, a face contrahida, fazia dobras na toalha.

Depois d'um momento pousou devagarinho a colhér, desceu ao quarto. Marianna estava sentada aos pés do leito: Jorge disse-lhe que fosse servir os senhores: e apenas ella sahiu, deixou-se cahir de joelhos, tomou uma das mãos de Luiza, chamou-a baixo; depois mais forte:

—Escuta-me. Ouve, pelo amor de Deus. Não estejas assim, faze por melhorar. Não me deixes n'este mundo, não tenho mais ninguem! Perdôa-me. Dize que sim. Faze signal que sim ao menos. Não me ouve, meu Deus!

E olhava-a anciosamente. Ella não se movia.

Ergueu então os braços ao ar n'uma desesperação allucinada.

—Sabes que creio em ti, meu Deus. Salva-a! Salva-a!—E arremessava a sua alma para as alturas:—Ouve, meu Deus! Escuta-me! Sê bom!

Olhava em roda, esperando um movimento, uma voz, um acaso, um milagre! Mas tudo lhe pareceu mais immovel. A face livida cavava-se; o lenço que lhe envolvia a cabeça desarranjára-se, via-se o craneo rapado, d'uma côr ligeiramente amarellada. Pôz-lhe então a mão na testa, hesitando, com medo; pareceu-lhe que estava fria! Abafou um grito, correu para fóra do quarto, e deu com o doutor Caminha que entrava, tirando pausadamente as luvas.

—Doutor! Está morta! Veja. Não falla, está fria...

—Então! Então!—disse elle—Nada de barulho, nada de barulho!

Tomou o pulso de Luiza, sentiu-o fugir sob os dedos, como a vibração expirante d'uma corda.

Julião veio logo. E concordou com o doutor Caminha que as ventosas eram inuteis.

—Já as não sente—disse o doutor, sacudindo o tabaco dos dedos.

—Se se lhe désse um copo de cognac?...—lembrou de repente Julião. E vendo o olhar espantado do doutor:—Ás vezes estes symptomas de coma não querem dizer que o cerebro esteja desorganisado: podem ser apenas a inacção da força nervosa exhausta. Se a morte é irremediavel não se perde nada; se é apenas uma depressão do systema nervoso, póde-se salvar...

O doutor Caminha, com o beiço descahido, oscillava incredulamente a cabeça:

—Theorias!—murmurou.

—Nos hospitaes inglezes...—começou Julião.

O doutor Caminha encolheu os hombros com desprezo.

—Mas se o doutor lêsse...—insistiu Julião.

—Não leio nada!—disse o doutor Caminha com força—tenho lido de mais! Os livros são os doentes...—E curvando-se, com ironia:—Mas se o meu talentoso collega quer fazer a experiencia...

—Um copo de cognac ou d'aguardente!—pediu Julião á porta.

E o doutor Caminha sentou-se commodamente «para gozar o fracasso do talentoso collega».

Levantaram Luiza; Julião fez-lhe engulir o cognac; quando a deitaram ficou na mesma immobilidade comatosa: o doutor Caminha tirou o relogio, viu as horas, esperou: havia um silencio ancioso: emfim o doutor ergueu-se, tomou-lhe o pulso, apalpou a frialdade crescente das extremidades; e indo buscar silenciosamente o chapéo começou a calçar as luvas.

Jorge foi com elle até á porta:

—Então, doutor?—disse, agarrando com uma força desvairada o braço.

—Fez-se o que se pôde—disse o velho, encolhendo os hombros.

Jorge ficou estupido no patamar, vendo-o descer. As suas passadas vagarosas nos degraus cahiam-lhe com uma percussão medonha no coração. Debruçou-se no corrimão, chamou-o baixo. O doutor parou, levantou os olhos; Jorge pôz as mãos para elle, com uma anciedade humilde:

—Então não é possivel mais nada?

O doutor fez um gesto vago, indicou o céo.

Jorge voltou para o quarto, encostando-se ás paredes. Entrou na alcova, atirou-se de joelhos aos pés da cama, e alli ficou com a cabeça entre as mãos n'um soluçar baixo e continuo.

Luiza morria: os seus braços tão bonitos, que ella costumava acariciar diante do espelho, estavam já paralysados; os seus olhos, a que a paixão dera chammas e a voluptuosidade lagrimas, embaciavam-se como sob a camada ligeira d'uma pulverisação muito fina.

D. Felicidade e Marianna tinham accendido uma lamparina a uma gravura de Nossa Senhora das Dôres, e de joelhos rezavam.

O crepusculo triste descia, parecia trazer um silencio funerario.

A campainha, então, tocou discretamente; e d'ahi a momentos appareceu a figura do Conselheiro Accacio. D. Felicidade ergueu-se logo; e vendo as suas lagrimas, o Conselheiro disse lugubremente:

—Venho cumprir o meu dever, ajudar-lhes a passar este transe!

Explicou «que encontrára por acaso o bom doutor Caminha, que lhe contára a fatal occorrencia»! Mas muito discretamente não quiz entrar na alcova. Sentou-se n'uma cadeira, collocou melancolicamente o cotovêlo sobre o joelho, a testa sobre a mão, dizendo baixo a D. Felicidade:

—Continue as suas orações. Deus é imperscrutavel em seus decretos.

Na alcova, Julião estivera tomando o pulso de Luiza; olhou então Sebastião, fez-lhe o gesto d'alguma cousa que vôa e desapparece... Aproximaram-se de Jorge, que não se movia, de joelhos, com a face enterrada no leito:

—Jorge—disse baixinho Sebastião.

Elle levantou o rosto desfigurado, envelhecido, os cabellos nos olhos, as olheiras escuras.

—Vá, vem—disse Julião. E vendo o espanto do seu olhar:—Não, não está morta, está n'aquella somnolencia... Mas vem.

Elle ergueu-se, dizendo com mansidão:

—Pois sim, eu vou. Estou bem... Obrigado.

Sahiu da alcova.

O Conselheiro levantou-se, foi abraçal-o com solemnidade:

—Aqui estou, meu Jorge!

—Obrigado, Conselheiro, obrigado.

Deu alguns passos pelo quarto; os seus olhos pareciam preoccupar-se com um embrulho que estava sobre a mesa; foi apalpal-o; desapertou as pontas, e viu os cabellos de Luiza. Ficou a olhal-os, erguendo-os, passando-os d'uma das mãos para outra, e disse com os beiços a tremer:

—Fazia tanto gosto n'elles, coitadinha!

Tornou a entrar na alcova. Mas Julião tomou-lhe o braço, queria-o afastar do leito. Elle debatia-se dôcemente; e, como uma vela ardia sobre a mesinha ao pé da cabeceira, disse, mostrando-a:

—Talvez a incommode a luz...

Julião respondeu commovido:

—Já não a vê, Jorge!

Elle soltou-se da mão de Julião, foi debruçar-se sobre ella; tomou-lhe a cabeça entre as mãos com cuidado para a não magoar, esteve a olhal-a um momento; depois pousou-lhe sobre os labios frios um beijo, outro, outro, e murmurava:

—Adeus! Adeus!

Endireitou-se, abriu os braços, cahiu no chão.

Todos correram. Levaram-no para a chaise-longue.

E em quanto D. Felicidade n'um pranto afflicto fechava os olhos de Luiza, o Conselheiro, com o chapéo sempre na mão, cruzava os braços, e oscillando a sua calva respeitavel, dizia a Sebastião:

—Que profundo desgosto de familia!