O Sári Vermelho
Abertura
Conduze-me das trevas à luz, da morte à imortalidade. Oração védica
Nova Délhi, 24 de maio de 1991
Sônia Gandhi não consegue acreditar que o hom em de sua vida está m orto, que não m ais sentirá suas carícias, nem o calor de seus beij os. Que não tornará a ver esse sorriso tão doce que um dia arrebatou seu coração. Tudo foi tão rápido, tão brutal, tão inesperado que ainda não assim ilou o fato. Seu m arido m orreu em um atentado terrorista há dois dias. Cham ava-se Raj iv Gandhi, havia sido prim eiro-m inistro, e estava prestes a voltar a sê-lo, segundo as pesquisas, se sua cam panha eleitoral não houvesse sido truncada de m aneira tão trágica. Tinha 46 anos.
Hoj e, a capital da índia se prepara para se despedir desse filho ilustre da pátria. O féretro que contém o corpo está exposto no grande salão de Teen Murti House, a residência palaciana onde passou sua infância, quando seu avô, Jawaharlal Nehru, era prim eiro-m inistro da índia. É um palacete colonial, branco, cercado por um parque com grandes tam arindeiros e flam boy ants, cuj as flores verm elhas se destacam sobre um gram ado am arelado de tanto calor. Originalm ente proj etado para abrigar passou a ser a residência do m áxim o m andatário da nova nação indiana. Nehru instalou-se ali, com sua filha Indira e seus netos. Para os j ardineiros, cozinheiros e dem ais em pregados que hoj e, j unto com os m ilhares de com patriotas vêm prestar tributo ao líder assassinado, é difícil acreditar que os restos m ortais que j azem nessa capela ardente sej am daquele m enino que brincava de esconde- esconde nesses aposentos grandes com o cavernas, com tetos de seis m etros de altura. Ainda ouvem o eco de seu riso quando corria perseguindo seu irm ão por aqueles longos corredores, enquanto seu avô e sua m ãe atendiam a algum chefe de governo em um dos salões.
Um a grande foto de Raj iv com um a guirlanda branca está colocada sobre o féretro envolvido em um a bandeira açafrão, branca e verde, as cores nacionais. Seu sorriso cheio de frescor é a últim a im agem que levam na lem brança os m ilhares de pessoas que desfilam por Teen Murti House, a despeito dos 43 graus indicados pelo term ôm etro.
É a im agem que tam bém seus fam iliares levarão, porque o corpo desse hom em , que as m ulheres achavam tão bonito, ficou tão destruído que os m édicos, a despeito de terem tentado reconstruí-lo, não conseguiram dar form a à m assa de carne que a bom ba deixou. Dizem que, no esforço para em balsam á-lo, um deles desm aiou. De m odo que se lim itaram a pôr algodão e faixas, e m uito gelo para que agüente até o dia da crem ação.
Por favor, tenham cuidado, não lhe façam m al, diz sua viúva, exibindo um a expressão de dor àqueles que periodicam ente vêm repor o gelo, porque o calor aum enta inexoravelm ente, e continuará aum entando até os prim eiros dias de j ulho, até que caiam as chuvas das m onções. Seu único consolo - que poderia ter acabado do m esm o m odo se o houvesse acom panhado, com o tantas vezes fazia - não lhe serve, porque nesse m om ento gostaria de m orrer tam bém . Queria estar com ele, sem pre com ele, aqui e na eternidade. Am ava-o m ais que a si m esm a.
É verdade, tem seus filhos. A pequena, Priy anka, de dezenove anos, m orena, alta, é um a garota forte tanto de caráter quanto fisicam ente. Cuidou dos preparativos dos funerais e está m uito atenta a sua m ãe. Insiste para que com a algum a coisa, m as a sim ples evocação de com ida lhe dá náuseas. Está há dois dias à base de água, café e suco de lim a. Sua velha am iga, a asm a, essa que a acom panha desde que era m uito pequena, tornou a aparecer. Duas noites atrás, quando a notificaram de que seu m arido havia sido vítim a de um atentado, teve um a crise tão violenta que quase perdeu a consciência. Sua filha deu-lhe seus anti-histam ínicos, m as não a conseguiu consolar. Tem e que, por causa do calor e da dor, entre em crise de novo.
Rahul, o m ais velho, tem 21 anos e acaba de chegar de Harvard, onde estuda. Em seu filho reconhece seu m arido: as m esm as feições suaves, o m esm o sorriso, a m esm a expressão de bondade. Ela o olha com infinita ternura. Ele lhe parece j ovem dem ais para acender a pira funerária de seu pai, com o cabe ao filho pela tradição hindu.
Às 13h, a chegada de três generais, representantes de seus respectivos exércitos, indica o início oficial do funeral de Estado. Mom entos antes de os m ilitares erguerem o féretro com a aj uda de Rahul e outros am igos da fam ília, Priy anka aproxim a-se para acariciá-lo, com o se quisesse, assim , despedir-se de seu pai antes que em preenda sua últim a viagem . Sua m ãe, que esteve ocupada cum prim entando tantas personalidades, m antém -se a certa distância, assistindo à cena com lágrim as nos olhos. Usa um sári branco im poluto, com o cabe às viúvas na índia. Está há m ais da m etade de sua vida m orando aqui, de m odo que se sente indiana. Em fevereiro passado, com em orou seus 23 anos de casam ento com Raj iv j antando em um restaurante em Teerã, onde o acom panhava em um a viagem oficial. Continua sendo m uito bonita, com o era aos 18 anos, quando o conheceu.
O cabelo preto, filetado de incipientes fios grisalhos, está cuidadosam ente penteado para trás, preso com um laço e coberto com um a ponta do sári.
Se não estivessem inchados pelo pranto, seus olhos seriam grandes. São castanho-escuros, com longas sobrancelhas finam ente depiladas. Tem um nariz reto, lábios carnudos, a pele m uito bra nc a e um m axilar bem m arcado. Hoj e, parece um a dessas heroínas aflitas de um a superprodução do cinem a indiano, m as sua silhueta e seu porte altivo evocam um a deusa do panteão rom ano, talvez porque o sári que usa com grande desem baraço parece com as túnicas das m ulheres da Antigüidade. Ou talvez por seu corpo.
Nasceu e foi criada na Itália. Seu nom e de solteira é Sônia Maino, m as é conhecida com o Sônia Gandhi, agora viúva de Raj iv.
Mais de m eio m ilhão de pessoas desafiam o calor para ver passar o cortej o fúnebre que se dirige ao local da crem ação, a um a distância de cerca de 19 km , por trás das m uralhas que os im peradores m ongóis erigiram para Proteger a antiga Delhi, em m aravilhosos j ardins situados às m argens do rio Yam una. Escoltada por cinco pelotões de 33 soldados cada um , a plataform a sobre rodas que leva o féretro enfeitado com calêndulas é rebocada por um cam inhão m ilitar tam bém coberto de flores. Nas banquetas de seu interior vão sentados os chefes do Estado-Maior. É seguida pelos autom óveis que transportam a fam ília. Alguns curiosos conseguem ver Sônia retirar seus enorm es óculos de sol para passar um lenço no rosto e, com m ão trêm ula, enxugar as lágrim as. O cortej o tom a a avenida Raj path, m argeada de j ardins bem cuidados, onde gerações de habitantes passearam à som bra de suas grandes árvores, em sua m aioria j am elões de m ais de cem anos, com frutos pretos com o figos.
A m aioria das árvores foi plantada para lutar contra o calor, quando os ingleses decidiram fazer de Délhi a nova capital do Im pério em detrim ento de Calcutá. Ergueram um a agradável cidade-j ardim com largas avenidas e perspectivas grandiosas, com o cabia a um a capital im perial. A grande vista central de Raj path, transbordante de um a m ultidão portando cravinas cor de laranj a, a cor sagrada dos hindus, traz lem branças a Sônia de um passado de felicidade, tão próxim o no tem po, porém tão distante agora... Nessa m esm a avenida e em frente à Porta da índia, versão local do arco do triunfo parisiense, encontrava-se no últim o dia 26 de j aneiro, dia da festa nacional, presenciando o desfile m ilitar ao lado de Raj iv...
Quantas vezes presenciou isso? Quase tantas quanto os anos que estava na índia. Um a vida inteira. Um a vida que se acaba.
P a ra som ar ironia à tragédia, seu carro para e não consegue arrancar de novo. Os m otores sofrem com essa tem peratura e essa cadência. Sônia e seus filhos abandonam o veículo e a m ultidão cai im ediatam ente sobre eles, forçando os Gatos Pretos, os com andos especiais de segurança vestidos de preto, a se m obilizar com rapidez e a form ar um a corrente hum ana para protegê-los enquanto trocam de carro. Logo o cortej o parte de novo, ao ritm o com passado dos guardas de honra. Mais tarde, nas ruas estreitas próxim as à Connaught Place, a m ultidão se transform a em m aré hum ana disposta a invadir tudo, com o se quisesse engolir o cortej o, e o sistem a de segurança consegue a duras penas m antê-la na linha. Os rostos dessa m ultidão m ostram esgotam ento, gotej am pérolas de suor, e os olhos pretos param diante de quatro cam inhões m ilitares cheios de j ornalistas do m undo inteiro. Hom ens e m ulheres, crianças e idosos com sem blantes de desconsolo e lágrim as nos olhos j ogam pétalas de flores no féretro.
O cortej o chega ao local da CREMAÇÃO às quatro e m eia da tarde, com um a hora de atraso. Há tanta gente que hoj e não se vêem as j ardineiras floridas, só as grandes árvores, com o sentinelas da eternidade que proj etam sua benévola som bra sobre os presentes, m uitos traj ando terno preto, com o John Maj or ou o príncipe de Gales; outros de uniform e m ilitar, com o Yasser Arafat, todos pingando suor. A pira funerária com posta por dés quintais de m adeira está pronta. Atrás, em um a plataform a especialm ente construída para a ocasião que dom ina a pira, colocam -se os fam iliares m ais próxim os. A uns trezentos m etros de distância ao norte encontram -se os m ausoléus de Nehru e de sua filha Indira, erguidos no local exato onde ocorreram suas crem ações, e que nunca m ais poderá ser destinado a outro uso, conform e a tradição. Raj iv logo terá o seu, de pedra lavrada em form a de folha de lótus. A fam ília reunida na m orte.
Uns soldados retiram o corpo de Raj iv do féretro e o colocam sobre a pira funerária, a cabeça orientada para o norte, segundo o ritual. A seguir, os generais dos três exércitos dobram cuidadosam ente a bandeira que envolve o cadáver m utilado e cortam as cordas da m ortalha branca que o retém . A fam ília está em pé, lado a lado.
O sacerdote, um senhor de barbas longas e brancas com o a neve que parece saído de um a lenda antiga, m arca as pautas dos ritos védicos e reza um a curta oração: "Conduze-m e do irreal ao real, das trevas à luz, da m orte à im ortalidade..." É um velho conhecido. Ele tam bém presidiu os funerais de Indira. Entrega a Rahul, que traj a um a kurta branca, um a pequena j arra cheia de água sagrada do Ganges. O j ovem , descalço, cabisbaixo e ensim esm ado por trás de seus óculos de arm ação preta, dá três voltas na pira enquanto vai vertendo um as gotas sobre seu pai, cum prindo, assim , o rito purificador da alm a. A seguir, aj oelha-se diante de seus restos e chora por dentro, sem que ninguém o vej a. Chora por um pai que sem pre foi tolerante e com passivo e que adorava seus filhos. Brotam lágrim as secas de um a ferida que, intui, nunca cicatrizará.
Sua m ãe e sua irm ã Priy anka, cuj a digna serenidade com ove os presentes, aproxim am -se da pira e colocam m eticulosam ente troncos de m adeira de sândalo e contas de rosário sobre o corpo, com gestos que são gravados pelas redes de televisão do m undo inteiro.
Chega a hora de se despedir. Sônia deposita um a oferenda sobre o corpo à altura do coração. É feita de cânfora, cardam om o, cravo e açúcar e dizem que aj uda a erradicar as im perfeições da alm a. A seguir, toca seus pés em sinal de veneração, com o é costum e na Índia, j unta suas m ãos à altura do peito, inclina-se pela últim a vez diante de seu m arido e se retira. Pelas câm aras de televisão, o m undo descobre essa m ulher estoica que lem bra Jacqueline Kennedy, 28 anos antes em Arlington. São 17h20.
Cinco m inutos depois, seu filho Rahul, sério e decidido, dá três voltas à pira antes de colocar a tocha acesa que tem na m ão entre os troncos de m adeira de sândalo.
Seu pulso não trem e: é seu dever de bom filho aj udar a alm a de seu pai a se libertar do envoltório m ortal e alcançar o céu. Durante alguns segundos, parece que o tem po para. Não se vê fum aça nem cham as, só se ouvem os cantos védicos na m ultidão. Sônia tornou a proteger o rosto atrás de seus óculos de sol para que não a vej am chorar. Tem que se m anter inteira, com o fez até agora, custe o que custar. Inteira com o se m anteve Raj iv quando lhe coube acender a pira funerária de sua m ãe Indira Gandhi, há apenas sete anos, enquanto o pequeno Rahul chorava em seus braços. Inteira com o a própria Indira quando assistiu à crem ação de seu pai Jawaharlal Nehru, e depois a de seu filho Sanj ay, seu olho direito, seu herdeiro designado, m orto quando seu avião caiu num a m anhã ensolarada de dom ingo, há onze anos. Um a data que Sônia não pode esquecer, porque a partir daquele dia nada tornou a ser com o antes.
Te ve que tirar forças das profundezas de seu ser para estar hoj e aqui, porque os sacerdotes hindus se negavam a perm itir que presenciasse a crem ação. Não é costum e que a viúva assista, m enos ainda se for de outra religião. Mas nisso Sônia se m ostrou inflexível. Reagiu com o sua sogra Indira teria feito, não se deixando avassalar nem por preconceitos nem por costum es arcaicos. Em hipótese algum a ficaria em casa enquanto o m undo inteiro ia assistir à segunda m orte de seu m arido. Assim disse aos organizadores do funeral. Nem sequer teve que am eaçar levar o caso à m áxim a autoridade do país porque, diante da força de sua determ inação, conform aram -se. Sônia Gandhi bem m erece um a exceção.
Mas agora tem que estar à altura. Não hesitar, não desm aiar, não m ostrar fraqueza. Continuar vivendo, m esm o que sej a difícil, pois o que ela quer é m orrer. Com o é difícil não se deixar sufocar pela em oção quando os salm os védicos dão lugar a salvas de canhão, e os soldados, em perfeita form ação, apresentam suas arm as e apontam para o chão, em sinal de luto, fazendo soar suas cornetas. Quando os dignitários vindos do m undo inteiro, os generais com suas sam arras coloridas de tantas condecorações e os representantes do governo indiano, com suas roupas de algodão am assadas e ensopadas depois de ter esperado tanto tem po na canícula, levantam -se ao m esm o tem po e ficam im óveis, feito pedra, em um a breve e últim a hom enagem . Quando os am igos vindos da Europa e da Am érica para dar o últim o adeus não conseguem conter o pranto, Sônia reconhece dentre eles Chris-tian von Stieglitz, o am igo que a apresentou a Raj iv quando eram estudantes em Cam bridge, e que veio acom panhado de Pilar, sua esposa, espanhola.
E, a seguir, o m urm úrio que sobe de repente, com o um m ar de fundo que vem de longe, dos confins da cidade e talvez dos quatro cantos do im enso país, e que se transform a em um único grito, im pressionante, gutural, o grito de m ilhares de gargantas que parecem tom ar consciência da irreversibilidade da m orte quando a fogueira se acende subitam ente em um a explosão de cham as e em poucos m inutos envolve o sudário em um abraço fatal. Rahul dá uns passos para trás. Sônia cam baleia. Sua filha passa o braço por cim a de seus om bros e a segura até que recupera as forças. Através do m uro de cham as, os três assistem ao espetáculo antigo e im pressionante que é ver a pessoa que m ais am am se consum ir e se transform ar em cinzas. É com o outra m orte, lenta, penetrante, para que os vivos sem pre recordem que ninguém escapa do inevitável destino. Porque é um a m orte que entra pelos cinco sentidos. O cheiro de queim ado, as cores diáfanas dos vivos por trás do ar abrasador que sobe da fogueira erguendo rem oinhos de cinza, o sabor de suor, de pó e de fum aça que fica colado nos lábios e a seguir os gritos de "Viva Raj iv Gandhi!" que brotam da m ultidão configuram um a cena renovada e eterna ao m esm o tem po. A m edida que as cham as sobem , Rahul se prepara para efetuar a últim a parte do ritual. Arm ado de um pau de bam bu de uns três m etros de com prim ento, dá um golpe sim bólico na cabeça de seu pai, para que sua alm a suba ao céu à espera de sua próxim a reencarnação.
P a ra Sônia, não existem palavras para descrever o que está vendo, a representação do atroz sentim ento de perda que a rasga por dentro, com o se um a força invencível estivesse destruindo suas entranhas. Nunca com o nesse m om ento entendeu o profundo significado desse costum e ancestral. Lem bra que fez um a careta de desgosto quando, assim que chegou à índia, soube da existência do sati. Que horror, que barbárie! - pensou. Antigam ente, o povo adorava as viúvas que tinham a coragem de se j ogar na pira funerária do m arido para em preender j unto ao ser am ado viagem rum o à eternidade. As que se entregavam heroicam ente às cham as passavam a ser consideradas divindades e a ser veneradas com o tais durante anos, algum as durante séculos. O rito do sati, que tem sua origem nas fam ílias nobres dos Raj put, a casta guerreira da índia do Norte, logo se popularizou nas classes m ais hum ildes, e acabou por se corrom per. Os ingleses o proibiram , assim com o o prim eiro governo dem ocrático da índia, pelos abusos que se com etiam em seu nom e. Mas, na origem , transform ar-se em sati era um a prova de am or suprem o que só um a m ulher quando vê arder o cadáver do m arido que adora pode com preender. Com o Sônia nesse m om ento, que vê o fogo com o um a libertação, com o a única m aneira de acabar com essa dor tão total que sufoca sua alm a.
"Reaj a", diz a si m esm a. Não deve deixar-se arrastar pela m orte. A vida é um a luta, ela bem sabe. O contato físico com seus filhos a reconforta. Então, com forças renovadas, brotam sentim entos diversos: desej o de j ustiça, desej o de revanche pelo que fizeram com seu m arido e um a rebeldia profunda, porque o que aconteceu é inaceitável. Poderia ter sido evitado? -pergunta-se sem cessar. Ela tentava, na m edida de suas possibilidades, escrutando os rostos de todos os que se aproxim avam de seu m arido nos com ícios eleitorais, buscando adivinhar o vulto revelador de um a arm a por baixo de um a cam isa ou a expressão suspeita de um assassino potencial. Porque sem pre soube que algo assim podia acontecer. Soube desde o dia em que Raj iv cedeu aos apelos de sua m ãe, Indira Gandhi, então prim eira-m inistra, e se m eteu em política.
Por isso, quando há dois dias tocou o telefone às 22h50, um a hora tão insólita, Sônia virou-se na cam a e tam pou os ouvidos para se proteger do golpe que sabia que estava prestes a receber. A pior notícia de sua vida era, no fundo, um a notícia esperada. Ainda m ais desde que Sônia soube que o governo havia retirado de Raj iv o grau de m áxim a segurança que lhe cabia por ter sido prim eiro-m inistro. No j argão burocrático, tinha a categoria Z, e isso lhe dava direito à proteção do SPG (Special Protection Group), o que o teria protegido do atentado terrorista. Por que lhe retiraram a categoria, por m ais que ela exigisse? Por indolência?
Ou porque esse pretenso "esquecim ento" satisfazia os desígnios de seus adversários políticos?
UM RUÍDO SECO, DURO, INDESCRITÍVEL, devolve-a à realidade. Parece um tiro. Ou um a pequena explosão. Todos os que j á assistiram a um a crem ação sabem do que se trata.
Uns baixam a cabeça, outros olham para o céu, outros estão tão cativados pelo espetáculo que parecem hipnotizados e continuam olhando. A cabeça estourou por efeito da pressão do calor. A a lm a do falecido j á é livre. O ritual acabou. As pessoas j ogam pétalas de flores às cham as, enquanto surge outra visão perturbadora. As m ãos longas e finas que tanto acariciavam seus filhos com o consertavam um aparelho eletrônico ou assinavam acordos internacionais ficam expostas, e m ostram uns dedos pretos que se erguem e se retorcem , em um a despedida im pressionante do além . Adeus, até sem pre.
Sônia rom pe em soluços. Onde está o consolo? Em que Deus há de buscá-lo? Que Deus perm ite que um hom em bom com o Raj iv exploda em m il pedaços por causa do fanatism o de outros hom ens, que tam bém têm fam ília, que tam bém têm filhos, que tam bém sabem acariciar e am ar? Que sentido dar a toda essa tragédia? Seus filhos, receosos de que a m istura de fum aça, cinzas e intensa em oção lhe provoque um novo ataque de asm a, colocam -se cada um de um lado, enquanto ela se acalm a e contem pla, arrasada por dentro, seu sonho de viver longos anos de felicidade j unto a seu m arido se transform ar em fum aça. Ciao, am ore, até outra vida. A índia inteira a lem brará assim , em pé e im óvel com o um a pedra, estoica, alheia aos gritos da m ultidão que delira, enquanto o fogo consom e o cadáver de seu m arido. É a im agem viva da dor contida. O rugido de um helicóptero do Exército sufoca os cânticos e os gritos da m ultidão. As pessoas erguem os olhos para o céu esbranquiçado de calor e pó para receber um a chuva de pétalas de rosa que caem do aparelho que dá voltas sobre a pira. Enquanto o corpo acaba de arder, a fam ília desce os degraus da plataform a. Com andar vacilante e rostos transfigurados, recebem palavras de condolência do presidente da República. Em um a desordem m uito indiana, as dem ais personalidades se aglom eram , todos querem dizer algum as palavras a Sônia: o vice-presidente norte-am ericano, o rei do Butão, os prim eiros-m inistros do Paquistão, do Nepal, de Bangladesh, o antigo prim eiro-m inistro Edgard Heath, os vice-presidentes da União Soviética e da China, a velha am iga Benazir Bhutto etc.
Mas ninguém consegue se aproxim ar da viúva porque de repente estoura o caos. É que o cadáver não pertence só à fam ília, ou aos dignitários estrangeiros. A m ultidão, que em suas prim eiras filas é com posta por m ilitantes e responsáveis do partido de Raj iv, sente que o cadáver pertence tam bém a eles. São só um a ínfim a parte dos 40 m ilhões de afiliados ao partido que, sob a denom inação banal e pouco cham ativa de Congress Party (Partido do Congresso), representa a m aior organização política dem ocrática do m undo. Nasceu na m etade do século XIX com o um a associação de grupos políticos para exigir igualdade de direitos entre indianos e ingleses dentro do Im pério. O Mahatm a Gandhi transform ou-o em um sólido partido cuj a m eta era conseguir a independência pela via da não-violência. Nehru foi seu presidente, depois sua filha Indira, e Raj iv foi o últim o.
A despeito do ar abrasador e irrespirável, agora os m ilitantes querem ver de perto os restos m ortais de seu líder transform ados em cinzas. Todos querem lam ber as cham as da m orte e da lem brança, de m odo que arrancam as grades m etálicas com o se fossem fibras de palha e correm para a fogueira aos gritos de: "Raj iv Gandhi é im ortal!”
Os Gatos Pretos, com andos de elite, são obrigados a intervir. Form am um a barreira hum ana ao redor da fam ília e decidem bater em retirada, passo a passo, em m eio aos gritos de histeria de um a m ultidão descontrolada, até chegarem aos autom óveis e estarem a salvo.
Nos DIAS SEGUINTES, SÔNIA, em estado de choque, refugia-se em si m esm a. Vive ensim esm ada em suas lem branças com Raj iv, rom pendo em soluços quando sai da fantasia e se encontra diante da terrível realidade de sua ausência. Não consegue parar de pensar em seu m arido, não quer parar de pensar nele, com o se fazer isso fosse outra form a de m atá-lo. Nem sequergostaria de se separar dessas duas urnas que contêm as cinzas, m as é parte do ritual que a m orte volte à vida. Quatro dias depois da crem ação, em 28 de m aio de 1991, Sônia, acom panhada por seus filhos, entra em um com partim ento especial de um trem que os leva a Allahabad, a cidade dos Nehru, onde tudo com eçou há m ais de cem anos. No com partim ento totalm ente recoberto de tecido branco salpicado de m argarida e j asm ins, as urnas estão colocadas em um a espécie de estrado j unto à foto em oldurada de um Raj iv sorridente. Sônia, P riy a nka e Rahul viaj am sentados no chão. O trem para em um a infinidade de estações abarrotadas de gente que vem prestar tributo à m em ória de seu líder.
O transbordam ento de em oção deixa Sônia esgotada, m as por nada no m undo deixaria de cum prim entar esses pobres de rostos ossudos m anchados de suor e lágrim as que, a despeito de tudo, sorriem para lhe oferecer seu consolo. Os sorrisos dos pobres da índia são um presente im aterial, m as que se aninha no coração. Diziam Nehru, sua sogra e seu m arido: a confiança do povo, o calor das pessoas, a veneração e, por que não, o am or que nos professam com pensam todos os sacrifícios. Esse é o verdadeiro alim ento de um político de raça, a j ustificativa de todos os seus dissabores, o que dá sentido a seu trabalho, a sua vida. Durante as 24 horas que o trem , batizado pela im prensa com o nom e de heartbreak express - expresso do coração partido - tarda em percorrer os 600 km de traj eto, Sônia é capaz de m edir a intensidade do afeto do povo por sua fam ília política - "a fam ília", com o a conhecem os indianos, tão popular que não é necessário esclarecer de qual se trata. Um a fam ília que governou a índia durante m ais de quatro décadas, m as que está há quatro anos fora do poder. Sônia contem pla seu filho Rahul, que adorm eceu entre duas estações. Tom ara que a fam ília nunca volte ao poder. Priy anka olha com ar ausente, tam bém está esgotada.
Te m um a grande sem elhança com Indira, o m esm o porte, os m esm os olhos brilhantes e inteligentes.
Deus nos protej a.
Em Allahabad, as cinzas são depositadas em Anand Bhawan, a m ansão ancestral dos Nehru, que Indira, quando foi nom eada prim eira-m inistra, transform ou em m useu aberto ao público. Um pá tio de estilo m oruno com um a fonte no centro lem bra o proprietário original, um j uiz m uçulm ano da Corte Suprem a que em 1900 vendeu a m ansão a Motilal Nehru, bisavô de Raj iv, um advogado brilhante que ganhava tanto dinheiro que, dizia a lenda, m andava sua roupa por barco a um a tinturaria de Londres.
Aquele hom em corpulento, que tinha um espesso bigode e se vestia com o um gentlem an, era extrovertido, m aravilhoso, bon vivant e espirituoso; adorava seu filho Jawaharlal, talvez porque este fosse o últim o que lhe restava, pois havia perdido dois filhos e um a filha antes. Esse am or, intenso e recíproco, esteve na origem da luta pela independência da sexta parte da hum anidade. Motilal quis que seu filho desenvolvesse todo seu potencial, o que significava dar-lhe a m elhor educação possível, m esm o que isso im plicasse separar-se dele: "Nunca pensei que o am ava tanto com o quando o tive que deixar pela prim eira vez na Inglaterra, no colégio interno", escreveu-lhe, porque não conseguia se recuperar da angústia de tê-lo deixado sozinho, tão longe, aos treze anos de idade. O que Motilal ganhava em um ano teria bastado para m ontar um negócio para ele e resolver-lhe a vida para sem pre. Mas, para o pai, isso era um a postura fácil e egoísta: "Penso, sem som bra algum a de vaidade, que sou o fundador da fortuna dos Nehru. Vej o você, m eu filho querido, com o o hom em que será capaz de construir sobre esses alicerces que criei e espero ter a satisfação de ver surgir, um dia, um a nobre em presa que se erguerá para o céu...". A nobre em presa acabou sendo a luta pela independência do país, na qual pai e filho se envolveram com toda a força de suas convicções.
A vida dos Nehru m udou quando Jawaharlal apresentou a seu pai um advogado que acabara de retornar da África do Sul e estava organizando a resistência contra o poder colonial dos ingleses. Er a um hom em singular, vestindo dhoti, calças de algodão cru tecido à m ão. Tinha braços e pernas desproporcionalm ente longos que o faziam parecer um a ave pernalta. Seus olhinhos pretos fechavam -se quando, por trás de seus óculos de arm ação m etálica, esgrim ia seu típico sorriso, entre m alicioso e bondoso.
Venerado com o um santo por seus discípulos, era, porém , um político hábil que possuía a arte dos gestos sim ples capazes de se com unicar com a alm a da índia. O j ovem Nehru o considerava um gênio.
Foi assim que o Mahatm a Gandhi entrou em contato com aquela fam ília e transform ou-a para sem pre. O extravagante Motilal abandonou a sofisticação pela sim plicidade, trocou suas roupas de flanela de Saville Row e os chapéus por um dhoti, com o Gandhi. Ofereceu sua casa e sua fortuna à causa da independência. O enorm e salão foi transform ado por Motilal em sala de reunião do Partido do Congresso. O lar dos Nehru transform ou-se, pouco a pouco, no lar da índia inteira. Sem pre havia um a m ultidão de sim patizantes no portão querendo ver pai e filho, desej ando ter seu darshan, a antiga tradição de origem religiosa que consiste em buscar o contato visual com um a pessoa altam ente venerada, para, assim , receber sua bênção, à falta de poder tocar seus pés ou m ãos.
No final de sua vida, Motilal, vítim a de fibrose e de câncer, dividiu cela na prisão de Nainital com seu filho, que cuidava dele com o podia. O patriarca m orreu sem chegar a ver a independência, sem saber que seu filho - que o m undo conheceria com o Nehru - seria eleito prim eiro m andatário da nova nação. Morreu nessa casa de Anand Bhawan, em um dia de fevereiro de 1931, acom panhado por sua m ulher e com seu filho apoiando a cabeça em seu regaço.
Os aposentos, pintados de azul-claro e crem e, conservam os m esm os m óveis, os m esm os livros, as m esm as fotos e lem branças dos que m oraram neles. O do Mahatm a Gandhi tem um colchonete no chão, um a côm oda e um a roca que ele utilizava para fiar algodão e que transform ou em sím bolo de resistência contra os ingleses. O quarto de Nehru tem um a cam a sim ples de m adeira, um tapete, m uitos livros e um a estatueta dos três m acacos que sim bolizam os m andam entos budistas: não vej a o m al, não ouça o m al, não diga o m al.
Sônia lem bra a prim eira vez que visitou esse lugar. Foi sua sogra Indira quem o m ostrou. Naquela ocasião, não reparou na im ensa carga sim bólica que essa casa tem na história da índia. Sim plesm ente, estava visitando o lar dos antepassados da fam ília de seu m arido, a casa onde haviam nascido e se casado prim eiro Nehru e depois sua filha Indira. Não havia sido capaz de calibrar, em sua j usta m edida, todo o significado que as paredes dessa m ansão encerravam , a despeito de Indira ter lhe m ostrado o quarto de reunião secreto, em um porão, que Nehru e seus com panheiros do incipiente Partido do Congresso utilizavam quando se escondiam para escapar das blitzen da polícia britânica. Agora que volta com as cinzas de seu m arido, vê tudo com outros olhos. Essa m ansão vitoriana não é o sim ples palco de um a vida fam iliar intensa; suas paredes contam as intrigas, os sonhos, as esperanças e os reveses da luta pela independência. Suas paredes são a índia m oderna. A urna com as cinzas de Raj iv, o últim o obj eto que hoj e vem se j untar aos dem ais, é com o um ponto no fim de um a longa frase que Motilal Nehru com eçou a escrever no século XIX quando fundou, aqui, a seção local de um a organização política cham ada Partido do Congresso.
O círculo se fecha.
AO MEIO-DIA, SÔNIA E SEUS FILHOS, acom panhados por um pequeno cortej o, abandonam a casa fam iliar para dirigir-se à periferia, ao Sangam , um dos lugares m ais sagrados do hinduísm o, onde as águas m arrons do Yam una se j untam às claras do Ganges, na confluência de outro rio im aginário, o Sarasvati. Chegam a um a enorm e esplanada de areia que vai dar à m argem , dom inada por um antigo forte m uçulm ano cuj os m uros estão cobertos de hera e que contém em seu interior um ficus engali centenário que, segundo a lenda, é capaz de libertar do c ic lo de reencarnações tudo o que saltar de seus ram os. Nessa esplanada celebra-se
sucessivam ente, a cada três anos, a Kum bha Mela, um a festividade à qual com parecem m ilhões de peregrinos de toda a Índia para lavar seus pecados, transform ando-a na m aior concentração religiosa do m undo.
Hoj e há m uita gente tam bém , m as o lugar é tão im enso que parece deserto. Em um a plataform a sobre o rio, um sacerdote am igo da fam ília, o pandit Chuni Lal, faz um a oferenda e entoa um as orações acim a do ruído de fundo do tilintar de m ilhares de sininhos e o eco das conchas, antes de entregar a urna de cobre a Rahul. O rapaz a tom a em suas m ãos, aproxim a-se da m argem e verte-a devagar, espalhando as cinzas nas águas tranqüilas que refletem os raios dourados do sol, as m esm as águas que acolheram as cinzas de Motilal, do Mahatm a Gandhi e tam bém de Nehru. A certa distância, Sônia e Priy anka observam a cena, os rostos crispados, e a seguir aproxim am -se de Rahul e, de cócoras, acariciam a água com as m ãos. As testem unhas da cena, dentre as quais se encontra o secretário de seu m arido, levarão na lem brança a im agem dos três j untos à beira da água. Rahul soluçando sobre sua m ãe, Priy anka apoiando sua cabeça no om bro de Sônia e esta, inconsolável, com os olhos banhados em lágrim as que form am outro afluente que se une ao Ganges, o grande rio da vida.
"Senhora, estes são os horários dos vôos para Milão." Sônia não lem bra de ter pedido essa inform ação ao secretário de seu m arido. Talvez o tenha feito quando, na confusão do início e diante da enorm idade da tragédia, buscava proteção. Quando de repente pensou em fugir desse país que devora seus filhos, buscar o consolo de sua fam ília, o calor dos seus, a segurança da pequena cidade de Orbassano, na periferia de Turim , onde viveu sua j uventude até o dia de seu casam ento. Lem bra que, assim que retornou do local do atentado, no sul da índia, com os restos m ortais de seu m arido, falou pelo telefone com sua abalada fam ília na Itália. Sua irm ã m ais velha, Anushka, disse que j á não atendia ao telefone porque ligavam j ornalistas do m undo inteiro perguntando detalhes do que havia acontecido e ela não sabia o que lhes dizer.
"Ainda não se sabe", explicou Sônia, "podem ter sido os siques que m ataram Indira, ou os fundam entalistas hindus que m ataram Gandhi, ou extrem istas m uçulm anos de Caxem ira... vai saber. Ele estava na lista negra de pelo m enos um a dúzia de organizações terroristas..." E agora Sônia se arrepende de não o ter obrigado a exigir do governo m aiores m edidas de proteção. Raj iv não acreditava nelas: "Se querem m atar, m atam ", dizia.
Quando falou com sua m ãe, Sônia desm oronou. A m ãe estava em Rom a, na casa de Nadia, a irm ã m ais nova, separada de um diplom ata espanhol. "Talvez você devesse voltar para a Itália", disse ela.
- Não sei... - respondeu Sônia com a voz entrecortada pelo pranto.
São tantas as dúvidas! Acha que ir em bora seria com o m atar um a parte de si m esm a. É verdade que veio para a Índia, adotou seus costum es, apaixonou-se por sua gente por am or a Raj iv, m as, agora, que sentido teria ficar? Não está cansada de viver assediada por guarda-costas que, ao chegar hora fatídica, se m ostram incapazes de evitar o pior? Vem a sua lem brança o dia em que Raj iv, preocupado com a segurança das crianças, pensou em m andá-las estudar na Escola Am ericana de Moscou. Sônia não via nenhum a graça em se separar delas. A tradição britânica, logo adotada pelas classes abastadas da índia, de m andar os filhos para um colégio interno chocava-se com sua condição de m am m a italiana. De m odo que os deixaram em casa, em Nova Délhi; prim eiro iam tutores todas as m anhãs e, m ais tarde, iam escoltados ao colégio para serem educados em um am biente "norm al", o que na sociedade foi considerado um ato de audácia, tam anho o peso das am eaças que recaíam sobre a fam ília do prim eiro-m inistro.
A sugestão de sua m ãe de voltar à Itália toca um a ferida que dói. Sônia enfrenta um conflito que se vê incapaz, por enquanto, de resolver. Um conflito cruel, porque, por um lado, tem a preocupação m áxim a, a segurança de seus filhos, e pareceria lógico m udar-se de volta à Itália, um a m udança total de vida, o abandono de toda a tradição fam iliar de seu m arido; e, por outro, a inércia de tantos anos aqui carregando o peso esm agador dos sobrenom es Nehru-Gandhi, e ficar com o estão, na m esm a casa, com o guardiões da m em ória, cercados pelos am igos fiéis de sem pre, do carinho de tantos, sabendo com o é difícil escapar da teia de aranha da política indiana.
Em sum a, escolher entre a segurança, a vida anônim a e o desarraigam ento de um exílio autoim posto, ou continuar no estrelato, o que poderia levar um de seus filhos a ser, um dia, prim eiro-m inistro e, talvez, a tam bém ser assassinado. Com o Indira ou Raj iv. Então, pensa que sim , que é m elhor m udar de vida para se salvar, esquecer-se da política que detesta, fugir do poder que sem pre desdenhou e que a está destruindo.
Mas... é possível lutar contra o destino? Sente-se m uito indiana, aprendeu a am ar a gente desse país, e sabe que é querida por eles. Com o rom per essa conexão com a m em ória de seu m arido representada pelos am igos, com panheiros, pelo afeto das pessoas da índia? Seria um pouco com o perder a alm a. Além do m ais, o corpo não m ente: seus gestos, sua form a de andar, de m over a cabeça de lado a lado para dizer sim parecendo dizer não - tão típico dos indianos - sua m aneira de j untar as m ãos, de olhar, de ouvir, seu sotaque... toda sua linguagem corporal evoca um a pessoa genuinam ente indiana. Que faria ela na Itália? Que vida a espera em Orbassano, afora a com panhia de sua fam ília m ais próxim a? Aqui está seu círculo de am igos, aqui está seu m undo, aqui estão 23 anos de vida intensa - e feliz. Além do m ais, seus filhos j á não são crianças...
E eles gostariam de viver em um lugar que só visitaram de férias? Depois de terem sido criados nas casas de dois prim eiros-m inistros da índia, a da avó Indira prim eiro, e a do pai deles, Raj iv, com tudo o que isso significa, poderão se acostum ar a um a vida anônim a na periferia de um a cidade italiana de província? É verdade, falam italiano com fluência, são m eio italianos, m as sentem -se indianos pelos quatro lados. Aqui se criaram , aqui aprenderam com o pai a am ar esse im enso, difícil e fascinante país; aqui assum iram os valores do bisavô Nehru, o grande herói da independência e fundador da índia m oderna, valores que têm a ver com a integridade, a tolerância, o desprezo ao dinheiro e o culto ao serviço aos outros, principalm ente aos m ais necessitados. Aqui se criaram , com o um a grande fam ília indiana, na casa da avó Indira, que tanto lhes fazia um carinho enquanto tom ava chá com Andrei Grom iko ou Jacqueline Kennedy quanto os aj udava a fazer os deveres na m esa da cozinha. Será que seus filhos se conform ariam c om um a vida próspera e confortável na m elhor das hipóteses, m as afastada de tudo o que am aram desde que nasceram ? E, para ela, não seria um a derrota retornar ao povoado de onde saiu?
- Acho que m inha vida está aqui, m am ãe... - Sônia acaba dizendo quando recupera a capacidade de falar.- Senhora, tem um a visita.
O secretário que a interrom peu perm anece na porta até que Sônia faz um gesto dizendo "j á vou", e então o hom em se retira. Ela se despede de sua m ãe e desliga o telefone, enxugando as lágrim as. Ao levantar-se, aj eita as dobras do sári e dirige-se ao escritório de seu m arido, no térreo da vila colonial onde m oram desde que abandonaram a residência do prim eiro-m inistro. Ao ver todos os obj etos em seu lugar, suas câm eras fotográficas, seus livros, suas revistas, seus papéis, seu rádio, parece por um instante que ainda está vivo, prestes a chegar de viagem , que o que está vendo não é m ais que um sonho ruim , que a vida continua igual porque é m ais forte que a m orte.
Mas não é Raj iv quem entra pela porta, sorridente, cansado e pronto para abraçá-la, e sim três de seus com panheiros do partido, três veteranos com sem blante triste e desconsolado, dois deles usando cam isas indianas de gola alta, o outro com um terno tipo safári. arque, se esse atentado devastou a fam ília, tam bém deixou o Partido do Congresso sem cabeça. E alguém tem que liderar o partido. Quem será o próxim o? - essa é a pergunta que se fizeram aqueles que agora visitam Sonia, horas depois de saber da tragédia.
Soniaj i - diz o porta-voz da com itiva utilizando o sufixo j i, que denota carinho e respeito - quero que saiba que o Com itê de Trabalho o Partido do Congresso, reunido sob a presidência do velho am igo de seu m arido, Narashim a Rao, elegeu-a presidente do partido. A escolha foi unânim e. Parabéns. Sônia fica olhando para eles, im passível. Não é o luto algo puro e sagrado? Nem a deixaram enxugar as lágrim as pela m orte de seu m arido os políticos j á estão aqui. A vida continua, e é cruel. Incapaz de sorrir, não tem nem vontade nem forças para fingir que está honrada pelo resultado da votação.
Não posso aceitar. Meu m undo não é a política, vocês sabem . Não quero aceitar. Soniaj i, não sei se percebe o que o com itê está lhe oferecendo. Oferece-lhe o poder absoluto do m aior partido do m undo. E faz isso de bandej a. Oferece-lhe a possibilidade de liderar, um dia, este grande país. Acim a de tudo, oferece-lhe a possibilidade de assum ir a herança de seu m arido, para que sua m orte não tenha sido em vão...
Não creio que sej a o m om ento de falar disso... O Com itê de Trabalho deliberou durante longas horas antes de lhe fazer esta proposta. Garanto que pensam os m uito. Você tem as m ãos livres e conta com todo nosso apoio. Nós lhe pedim os que continue com a tradição fam iliar. É seu dever de boa filha da índia. Você é a única que pode preencher o vazio deixado por Raj iv - acrescenta outro. A índia é um país m uito grande - responde Sônia. - Não posso ser a única entre m ilhões.-Você é a única Gandhi…
Sônia ergue a vista para o céu, com o se estivesse esperando esse argum ento. Sem contar com seus filhos, claro.
Meus filhos são m uito j ovens ainda, e tam bém não estão para falar de política hoj e. Não é pouca coisa, na índia, cham ar-se Gandhi... - acrescenta outro. Se i o que quer dizer - interrom pe Sônia. - É um sobrenom e que obriga, m as que tam bém condena. Vej a o que aconteceu.
Na realidade, Sônia se cham a assim porque sua sogra Indira se casou com um parse cham ado Firoz Gandhi, não porque tivesse algum a relação de parentesco com o pai da nação, o Mahatm a Gandhi. Podia se cham ar Kum ar, ou Bosé, ou Kapur, ou ter qualquer um dos sobrenom es com uns da índia. Mas o acaso quis que seu sobrenom e coincidisse com o do m ais célebre indiano, o hom em m ais querido por seu povo por tê-lo guiado pelo cam inho da liberdade. O hom em que ficou tão íntim o dos Nehru que era considerado m ais um da fam ília. Juntos, conseguiram a independência, e fizeram isso graças a um poderoso instrum ento, o Partido do Congresso, que hoj e está órfão. Isso dá aos Gandhi, incluindo Sônia, um a aura diante das m assas, o que tem um incalculável valor para os políticos de seu partido. Vej a... você é a herdeira dessa foto.
Um deles aponta um a foto em cim a de um a m esinha ao lado do sofá. Está em um a m oldura de prata, e m ostra Indira, ainda m enina, sentada ao lado do Mahatm a. Eu agradeço m uito, de verdade, por terem pensado em m im para esse cargo. É um a grande honra, m as eu não m ereço. Sabem que detesto a notoriedade. Além do m ais, não pertenço à fam ília direta, sou a nora...
Você se casou com um indiano, e sabe que aqui a nora passa a fazer parte da fam ília do m arido quando se casa... Você respeitou religiosam ente nossos costum es. Você é tão indiana quanto qualquer um de nós, e não é qualquer indiana que é a m ulher de um Nehru-Gandhi. Vej a esta foto... esse sári verm elho que usava no dia de seu casam ento não é o que Nehru teceu na prisão?
Sim , m as isso não m uda o fato de eu ser estrangeira... P a ra o povo dá na m esm a o local onde você nasceu. Não seria a prim eira estrangeira de nascença a ser presidente - interrom pe o terceiro. - Lem bre que Annie Besant, um a das prim eiras líderes do partido e a prim eira a liderá-lo nacionalm ente, era irlandesa. A idéia não é tão absurda.
Eram outros tem pos. Sou vulnerável dem ais para assum ir esse posto. Im aginam os ataques da oposição? Instrum entalizariam o povo contra m im , e seria um desastre para todos. Soniaj i, estam os fazendo um a oferta incondicional... - diz o m ais velho de todos, um astuto político conhecido por sua habilidade de m anipular, e que parece estar prestes a tirar um ás da m anga. - Talvez o m ais im portante para você sej a que vai voltar a dispor do grau m áxim o de proteção, com o quando Raj iv era prim eiro-m inistro. Lam ento, m as bateram na porta errada. Não tenho am bição de poder, nunca gostei desse m undo, eu m e m ovo m al nele, detesto ser o foco das atenções. Raj iv tam bém não gostava. Ele se m eteu em política porque sua m ãe lhe pediu. Senão, continuaria sendo um piloto da Indian Airlines, estaria vivo hoj e e seríam os, provavelm ente, m uito felizes... De m odo que sinto m uito, m as não contem com igo.
Você é a única que pode evitar que o partido caia. E se o partido se desfizer, é m uito provável que o país inteiro desm orone. O que m anteve a índia unida desde a independência? Nosso partido. Quem é a garantia dos valores que perm item que todas as com unidades convivam em paz? O Congress. Desde que não estam os no poder, vej a com o ganham terreno os velhos dem ônios: o ódio entre com unidades, entre religiões, as tentações separatistas de tantos estados... O país inteiro corre para a ruína, só você pode nos aj udar a salvá-lo. Você tem prestígio e as pessoas a am am . Por isso viem os pessoalm ente... para apelar a seu senso de responsabilidade. Responsabilidade? Por que esta fam ília deve pagar com o sangue de seus m em bros um tributo constante ao país? Será que j á não bastou com Indira e Raj iv? Querem m ais? Pense bem , Soniaj i. Pense em Nehru, em Indira, em Raj iv... Sua fam ília está tão intim am ente ligada à índia quanto um cipó em volta do tronco de um a árvore. Vocês são a índia. Sem vocês, nã o som os nada. Sem você, não há porvir para esta grande nação. Essa é a m ensagem que viem os lhe transm itir. Sabem os que são horas am argas, e pedim os perdão por interrom per seu luto, m as não nos abandone. Não j ogue fora tanto sacrifício e tanta luta. Você tem em suas m ãos a tocha dos Nehru-Gandhi, não deixe que se apague.
Palavras, palavras, palavras... Sem pre há um propósito m aior, um a m eta m ais alta no fim do cam inho, um a razão m ais nobre, um a j ustificativa m elhor para enfeitar o fim últim o, que não deixa de ser tom ar o poder. Os políticos sem pre encontram argum entos e desculpas para falar da única coisa que lhes interessa, o poder.
Por ter vivido tantos anos à som bra de dois prim eiros-m inistros, Sônia sabe com o é. Im agina perfeitam ente a desolação de todos os cabeças de lista que iam se candidatar às eleições e que hoj e tam bém se sentem órfãos. O assassinato de seu m arido acabou com os sonhos de m uita gente, não só com os seus. Im agina todas as conj ecturas, as m anobras, as rasteiras, os enganos de todos os que lutam pela sucessão de Raj iv no seio do partido. É m uito o que está em j ogo, por isso vê m os m andachuvas rogar-lhe, sem perder um m inuto sequer. Não pensam nela com o ser hum ano, nem m esm o nessas horas tristes, e sim com o instrum ento para m anter as rédeas do poder. É hora de se posicionar no partido porque o poder não suporta o vazio. Em um país de poucos recursos, onde as oportunidades são poucas, o poder político é a chave da prosperidade individual.
Sônia aprendeu com Raj iv e Indira a m anter os políticos na linha, a não se deixar usar por eles. Mas eles são astutos e acham que Sônia acabará cedendo, que o fará, se não por ela, por seus filhos, para m anter vivo o nom e da fam ília, porque o poder é um ím ã do qual é im possível escapar. Não dizem os poetas védicos que nem m esm o os deuses podem resistir aos elogios?
No dia seguinte, Sônia m anda um a carta à sede central do partido: "Estou profundam ente com ovida com a confiança depositada em m im pelo Com itê de Trabalho. Mas a tragédia que se abateu sobre m eus filhos e sobre m im não m e perm ite aceitar a presidência dessa grande organização". É um balde de água fria para os fiéis que não aceitam sua rej eição e que decidem continuar pressionando- a com todos os m eios a seu alcance. Toda m anhã, sim patizantes do partido m anifestam -se em frente a seu dom icílio, um a vila colonial situada no núm ero 10 da rua Janpath, um a avenida do centro de Nova Délhi.
Levam cartazes e gritam "Viva Raj iv Gandhi; Soniaj i presidente".
Sônia, irritada, roga ao secretário de seu m arido que expulse os m anifestantes, que ponha fim a esse espetáculo que lhe parece estúpido e sem sentido. "Que procurem um sucessor", pensa ela. "Minha fam ília j á fez o bastante..."
Os que realm ente se sentem tranqüilizados quando lêem a notícia no j ornal são seus parentes em Orbassano, perto de Turim . "Na cidade, respiram os todos aliviados", declara um a m oradora. "Ainda bem que não aceitou o cargo de seu m arido; isso teria representado um grande risco para ela e para seus filhos."