O Sári Vermelho
Ato Iii - a Solidão e o Poder
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.
Cada vez que você dá um passo adiante, está destinado a perturbar algo. Agita o ar enquanto
avança, levanta pó, altera o chão. Vai atropelando coisas. Quando uma sociedade inteira avança,
esse atropelo se faz em uma escala muito maior; e cada coisa que transtornar, os interesses
criados que quiser suprimir, tudo se transforma em um obstáculo.
Mahatma Gandhi
Vinte anos antes, depois da m orte de seu m arido, Indira foi ao fundo e levou m uito tem po para voltar. Quando seu pai m orreu, entrou em outra crise existencial profunda, que durou longos m eses. Mas agora, m enos de 72 horas depois da m orte de seu filho, estava de novo em seu escritório. "A gente vai e vem , m as a nação continua viva", declarou à im prensa, situando a tragédia fam iliar em um contexto nacional, com o se dessa m aneira pudesse transcender a desgraça. Havia se convencido de que a tarefa hercúlea de governar a índia não podia ser ne glige nc ia da . Mas sua atitude e autocontrole eram só superficiais. No fundo, estava irrem ediavelm ente ferida. Sônia a percebia desfeita por dentro, com o espírito em frangalhos. À noite, ouvia-a se levantar e em sonhos procurava Sanj ay e, quando acordava, chorava repetindo o nom e de seu filho. Seu rosto envelheceu, seu olhar se fez m ais duro e ela com eçou a arrastar um pouco os passos ao cam inhar. Já não era tão caprichosa com sua aparência, nem pedia a Sônia conselhos sobre seu penteado ou sobre os acessórios que deviam com binar com os sáris. Ao contrário, usava o cabelo esticado para trás de form a descuidada, e não parecia se im portar.
A sua im ensa tristeza som ava-se sua preocupação com Maneka, que passava os dias sem fazer nada.
- Tem o que a am bição da m ãe dela leve Maneka a querer ocupar o lugar de Sanj ay - confessou a sua am iga Pupul.
Alé m de m elancólica, Maneka estava desconfortável porque sua posição nessa casa havia se tornado m uito delicada. Sem a proteção de seu m arido, sentia-se vulnerável. Já não o podia usar com o escudo para defender-se de sua sogra ou de seu cunhado, que no fundo continuavam intim idando-a. Sua única força era o bebê. Por outro lado, Indira estava tão devastada que não tinha energia para consolar os outros. Em outras circunstâncias, teria se devotado a sua nora, m as, agora, sua própria dor a absorvia por com pleto. Mas, ao ver a j ovem viúva tão sozinha e tão perdida, em um arroubo de com paixão Indira lhe ofereceu aj uda. Na realidade, tem ia que Maneka, entediada e isolada, acabasse indo em bora de casa, e então não teria m ais seu neto por perto. Essa eventualidade a atorm entava:- Quer trabalhar com o m inha secretária? Eu poderia levá-la nas viagens com igo, e acho que isso a distrairia... No início, a oferta pareceu satisfazer Maneka. A seguir, talvez influenciada por sua m ãe ou sim plesm ente porque a coisa lhe subiu à cabeça ou porque era im atura, viu nisso um a m anobra para afastá-la de seu direito natural de assum ir a herança do m arido. Sua vida ao lado de Sanj ay dera-lhe a ilusão do poder, e a oferta de sua sogra, depois de pensar bem , pareceu-lhe quase insultante. Nem sequer respondeu ao oferecim ento. "Olhe só para ela! O que ela estava pensando?", confessou a um dos am igos m ais próxim os de seu m arido falando de Indira. Sônia tam bém não viu com agrado essa oferta. Em bora houvesse perdoado Maneka por seu tratam ento grosseiro dos prim eiros tem pos, não queria im aginá-la controlando a agenda de Indira. Via a inexperiência e a arrogância de sua cunhada com o um problem a potencial para sua sogra, e um a am eaça para o delicado equilíbrio fam iliar. O fato de não aj udar nas tarefas de casa podia ser aceito, m as que se entrincheirasse por trás do poder de Indira e com eçasse a m exer pauzinhos para beneficiar sua própria fam ília, a quem Sônia tanto tem ia, era um perigo que se devia evitar a todo custo. Contou a Raj iv. Falarei com m inha m ãe - disse ele.
Melhor eu lhe deixar um bilhete - respondeu Sônia. Ao lê-lo, Indira percebeu que Sônia tinha razão. Maneka de secretária, tão perto, podia de fato ser m ais um problem a que um a aj uda. Tem ia sua im pulsividade, que a tornava ainda m ais im previsível. E ela tam bém desconfiava da fam ília Anand e de suas m anobras. Porém , do que Indira tinha m uita consciência, ainda envolvida em sua nuvem de sofrim ento, era da necessidade que tinha de Raj iv e de Sônia. Ao fim e ao cabo, Raj iv era seu sangue; e am ava Sônia com o um a filha. De m odo que não insistiu m ais, e a oferta caiu no esquecim ento. A j ovem viúva, de sua parte, encontrou um a m aneira de se distrair que ao m esm o tem po dava sentido a sua vida: concentrou-se no proj eto de fazer um livro fotográfico sobre seu m arido, um a espécie de hom enagem que incluiria fotos de fam ília e de sua vida política. Perguntou a sua sogra se gostaria de escrever o prefácio. Indira concordou. Mas então aconteceu um desafortunado incidente, que teve um a longa e indesej ada repercussão. O escritor Kushwant Singh, que havia aj udado Maneka e sua m ãe a lançar a revista Sury a, publicou em sua coluna de j ornal um texto em que sugeria que o m anto de Sanj ay devia recair naturalm ente nos om bros de sua j ovem esposa, "que o apoiara e que havia com partilhado sua visão da índia, j á que Raj iv nunca dem onstrou interesse algum pela política e sua m ulher a detesta". A idéia tinha seu fundam ento.
O artigo acabava com um a frase que, m ais que qualquer outra, desatou a paranóia de Indira: "Maneka é com o seu falecido m arido, valente e decidida, a reencarnação de Durga cavalgando um tigre". Essa im agem de Durga, que havia sido extensam ente atribuída a Indira e que encarnava um sim bolism o que lhe pertencia, transtornou-a profundam ente. Com o duas Durgas podiam viver sob o m esm o teto? Pensou que Maneka havia confabulado com o escritor para urdir esse artigo, que estava m anobrando pelas costas para com petir com ela, para lhe roubar a herança de Sanj ay . Com eçou a vê-la com o um a inim iga em sua própria casa.
INEVITAVELMENTE, E DIANTE DO DESGOSTO de Sônia, todos os olhares dirigiam -se para o herdeiro natural, Raj iv. Indira tinha suas dúvidas: "Ninguém pode ocupar o lugar de Sanj ay ", confessou a sua am iga Pupul. "Era m eu filho, m as tam bém m e aj udava com o um irm ão m ais velho". Achava Raj iv m uito m ole e sensível para o m undo da política. Alé m do m ais, ele era casado com um a estrangeira, o que era considerado, em term os de política nacional, um obstáculo infranqueável. E se saísse da Indian Airlines, de que viveria? Sanj ay era m uito frugal, porém Raj iv e Sônia gostavam de viver bem , à m oda européia, sem excessos, m as confortavelm ente.
Nesse cenário de um a fam ília ferida na cúpula do poder, não apenas os indivíduos decidiam , por m ais poderosos que fossem . Tão im portante quanto a vontade de Indira era a opinião de seus acólitos, seus am igos, seus parentes, seus com panheiros de partido, seus conselheiros, seus aduladores, seus gurus, o país inteiro. Depois de ter entoado a m archa fúnebre pela m orte de Sanj ay, esse coro de vozes com eçou a salm odiar um a m elodia fam iliar, a m esm a que tocou quando Indira foi cham ada pela prim eira vez a presidir o partido ou quando a cortej avam para que aceitasse qualquer cargo no prim eiro governo depois da m orte de seu pai. A m esm a voz que lhe havia dito "você é filha de Nehru, valiosa dem ais para não estar no governo", exigia agora um sucessor, com o se, em vez de um a dem ocracia, se tratasse de um a antiga corte im perial. Era um coro tão antigo quanto a própria índia, cuj a m itologia contava a história de um a saga ininterrupta de m onarcas hereditários. Era um apelo que vinha das profundezas desse país continente, tão inclinado a confundir o poder tem poral com o divino. Com o nas tragédias da Grécia clássica, o coro exigia um a vítim a propiciatória.
Devia atender à necessidade urgente que o povo tinha de estabilidade, de continuidade e, por que não, de eternidade. Isso só um a dinastia garantia. Quanto a Raj iv, m antinha-se o m ais distante possível. Sua relação com a m ãe era diferente da de Sanj ay . O carinho era m uito profundo, m as quase britânico na form a, sem relação íntim a. Ele não se ofereceu espontaneam ente para aj udá-la, e ela tam bém nunca lhe pediu, pelo m enos diretam ente. Mas quando Indira foi se dando conta da enorm idade do vazio que Sanj ay havia deixado, bem com o da urgente necessidade que tinha de apoio e proxim idade física, confessou um dia a sua am iga Pupul: "Raj iv não tem o dinam ism o e as preocupações que Sanj ay tinha, m as poderia ser de grande aj uda para m im ". "Poderia ser de grande aj uda para m im ": não eram necessárias m ais palavras para pôr em funcionam ento a engrenagem que o coro de vozes j á havia anunciado.
Foram os am igos da fam ília que com eçaram a falar, a ele e a Sônia, da solidão de Indira, da necessidade que tinha de se apoiar em alguém em quem pudesse confiar cegam ente, de contar com um a pessoa que m antivesse abertas as j anelas do m undo para ela... E esse alguém só podia ser seu filho. Sônia se rebelava contra essa idéia.- Sabem os o que a política é, o suposto glam our, a adulação - dizia alterada. - Vim os de perto os políticos, com sua linguagem dúbia, o puxa-saquism o constante, as m anipulações, as traições, a inconsistência da m ídia e do povo... Vim os o que o poder fez com Sanj ay e Maneka. Sabem os perfeitam ente com o será a vida de Raj iv caso se m eta em política. Seu m arido se calava; e quem cala, consente. Estava com pletam ente de acordo com os argum entos de Sônia. Mas não podia im pedir: a im agem de sua m ãe sozinha, arrasada, com o fardo de um país com o a índia nas costas, pesava em sua consciência.
A SITUAÇÃO DE INDIRA COM MANEKA, depois do artigo que saiu no j ornal, não podia m elhorar. A j ovem ficou nervosa ao sentir a hostilidade de sua sogra e ver que sua presença não era desej ada. Passara sua vida de casada em um am biente de altíssim a excitação política, e agora não estava disposta a cair no anonim ato. Percebia, m esm o não sendo capaz de verbalizar, que essa era a condição que devia cum prir para conviver com Indira sob o m esm o teto. Era o preço da paz. Mas ela não era Sônia, odiava a sim ples idéia de ser um a dona de casa, de passar o dia trancada entre quatro paredes dando ordens aos em pregados ou recebendo-as de sua sogra. Cuidar do filho, com a aj uda que as fam ílias ricas têm a seu alcance na índia, deixava-lhe m uito tem po livre. Durante todos esses anos, havia observado com o seu m arido e sua sogra funcionavam , com o planej avam cada m anobra com m uita antecedência, e ela tam bém com eçou a planej ar seu futuro, levada por seu próprio coro de vozes, o de sua fam ília e dos antigos am igos de Sanj ay . "Por que você não teria direito de ser a herdeira de seu m arido? Você não lhe deu os m elhores anos de sua vida? Não participou de tudo o que ele fez? Ele não a am ava? Você sabe m ais de política que o irm ão dele..." Queriam que reagisse antes que Raj iv fosse obrigado a isso. E o coro de vozes se infiltrava no espírito m aleável da j ovem .
O LIVRO SOBRE SANJAY FOI o CAVALO de batalha das relações entre Indira e Maneka, que quase não se atrevia a falar com sua sogra. Notava-a distante e fria, e tinha m ais m edo dela que nunca. Quando se dirigia a ela, as palavras não saíam , com o quando chegara a essa casa. Só obtinha de Indira a atenção devida quando falava do m enino. De resto, nada. Um dia, atreveu-se por fim a sugerir-lhe a idéia que rondava sua cabeça. Com o a vej o tão atarefada, pensei que, para aj udá-la, em vez de você escrever o prólogo, seria m elhor que o j ornalista Kushwant Singh o fizesse baseando-se em um a entrevista com você. Indira ficou olhando para ela m uito tem po, em um de seus silêncios que não perm itiam pressagiar nada de bom .
Nem pensar - disse por fim . - Você devia ter feito isso im ediatam ente após a m orte de Sanj ay. Eu teria tido tem po então de escrever algum a coisa. Mas você não m e consultou. Agora não vou escrever nada e esse hom em não vai m e entrevistar. Era sua peculiar vingança contra o artigo que tanto a havia irritado. Era, tam bém , um a m aneira de pôr sua nora em seu lugar. A guerra havia com eçado. Maneka saiu arrasada da conversa com sua sogra. "Se ela não escrever o prólogo, nunca m ais lhe dirigirei a palavra", am eaçava diante de quem a quisesse ouvir. Depois, na solidão de seu quarto, pôs-se a chorar. O boneco do livro, com fotos que havia escolhido com extrem o cuidado e am or, estava aberto em cim a de sua cam a. "Por que não quer m e aj udar? Trata-se do filho dela", perguntava-se em m eio às lágrim as.
Quando se acalm ou, Maneka tentou um a últim a abordagem . Levou o boneco do livro ao quarto de Indira e deixou-o em cim a da cam a. Talvez, ao vê-lo, sua sogra reconsiderasse. Haviam se passado m ais de seis m eses desde a m orte de Sanj ay , e tornar a ver essas fotos depois de um a j ornada extenuante no Parlam ento abalou profundam ente Indira. A cara de anj o que Sanj ay tinha quando pequeno, as fotos de suas brincadeiras de m enino, de quando acariciava seu m ascote preferido - seu tigre - de seus carros de brinquedo, de seus passeios a cavalo com Nehru, dele e Indira abraçados... todo esse passado que de repente voltava aos borbotões, com o um a ferida reaberta, deixou-a em ocionalm ente devastada. Não pregou o olho a noite toda.
Disse a sua am iga Pupul que o livro estava bem concebido, m as que estava decidida a não escrever o prólogo. "Havia apagado Maneka dentre seus entes queridos", escreveria Pupul, que notou um detalhe sim bólico e revelador: a porta que dava para o quarto de Sanj ay estava fechada, e a que dava para o quarto de Raj iv, aberta. Indira havia virado um a página de sua vida e preparava-se para abrir outra.
Raj iv, fico aterrada de saber que você está voando... - disse Indira um dia na sala de casa. Mam ãe, você é um a pessoa inteligente e sabe perfeitam ente que, estatisticam ente, há m ais probabilidade de se m orrer atropelado atravessando um a rua que andando de avião. Eu sei, m as não posso evitar pensar em ...
Raj iv ficava olhando para ela. Sua m ãe, enrolada em um sári branco de luto, parecia um a ruína de si m esm a. E não estava fingindo; notava-se que estava realm ente preocupada. A m orte de Sanj ay , que proj etava sua longa som bra sobre o presente, havia transform ado Indira em um ser inseguro, e os m edos que sem pre a haviam atorm entado agora aum entavam . Para Raj iv, vê-la assim era um a dor infinita. O sim ples pensam ento de que ela precisava dele e que ele não a podia - ou não queria - aj udar com eçava a atorm entá-lo. Indira prosseguiu: Sabia que um j ornal de Guj arat predisse que Sanj ay m orreria em j unho? Mam ãe, por favor... Se fôssem os acreditar nas previsões de todos os astrólogos da índia, ninguém poderia viver.
Estou recebendo incontáveis cartas avisando-m e que o perigo o ronda, por isso tenho m edo de saber que está no ar.
Sabe a m elhor coisa que se pode fazer com essas cartas? Jogá-las ao fogo... Não diga bobagens, Raj iv - replicou com o rosto alterado por um a expressão de som bria desesperança. - O que aconteceu com Sanj ay foi porque não fizem os nada para evitar, não dem os ouvidos às previsões, que acertaram a data exata. Não, m am ãe. O que aconteceu com Sanj ay foi porque ele procurou. Indira ficou olhando para ele. Não estava acostum ada a Raj iv a contradizer. Ele prosseguiu:
Ele fazia o que tinha vontade, e quando o diretor de aviação civil o adm oestou por não cum prir o regulam ento e pôr em risco sua vida, Sanj ay o m andou em bora do cargo em vez de ouvi-lo. Você tem que ver a realidade com o ela é, m am ãe. Fico m uito preocupado por você se deixar influenciar assim pelos astrólogos...
Indira baixou a cabeça, com o dando a entender que se dobrava aos argum entos do filho. Raj iv entendia que sua m ãe tentava encontrar um sentido para tragédia que se abatera sobre ela, e encontrava esse sentido nas forças ocultas que seus inim igos haviam j ogado contra a fam ília. Essa sua velha paranóia estava m ais viva que nunca. Mam ãe - disse Raj iv para am enizar - se existem forças m alignas, com certeza tam bém existem forças positivas que nos protegem ... Ou não?
E foram capazes de proteger seu irm ão? - perguntou ela. Raj iv levantou os olhos para o céu com o dizendo: "Outra vez!". Indira prosseguiu: Se eu houvesse m orrido, teria sido parte de um processo natural... Tenho 62 anos, vivi um a vida plena, m as seu irm ão era tão j ovem ...
Raj iv ficou cabisbaixo. Sua m ãe era inconsolável. Guardaram silêncio por um bom tem po. De repente, Indira se levantou:
Restam três horas de trabalho ainda. Vou em bora. Você está esgotada e deveria descansar - disse Raj iv. Se não fizer esse trabalho agora, terei que m e levantar às quatro da m adrugada para isso. Boa noite.
Raj iv ficou pensativo. Viu sua m ãe ir para o quarto com o um a ave encurvada, arrastando levem ente os pés. Parecia andar à deriva, parecia um náufrago... Onde estavam sua energia transbordante, seu eterno otim ism o? Era desolador vê-la nessas condições. E a pergunta que o assediava era a lógica conseqüência disso: "Tenho realm ente direito a m e negar a aj udá-la?".
QUANDO DIVIDIU COM SÔNIA seus sentim entos em relação a sua m ãe, os olhos da italiana se encheram de lágrim as, talvez porque, em m om entos de lucidez, percebia que travava um a batalha perdida de antem ão. Além disso, sentia que seu m arido vivia um dilem a que o estava fazendo sofrer.
-Você vai j ogar fora tudo o que conseguim os? Sua carreira, o tem po com seus filhos, seus hobbies, nossa felicidade?
Pela prim eira vez, havia tensão no casam ento. Tanta que um dia, desesperada, Sônia disse a ele:- Se você pretende se m eter em política, vou pedir a separação e voltarei para a Itália. Nunca, em quinze anos de casam ento, haviam tido um a briga. Nunca trocaram um a palavra m ais alta. Nunca Sônia havia chegado tão longe. "Lutei com o um a tigresa por ele, por nós e por nossos filhos, pela vida que havíam os construído, por sua vocação de voar, por nossas sim ples am izades e, principalm ente, por nossa liberdade: esse sim ples direito hum ano que tão cuidadosa e consistentem ente havíam os conservado", escreveria m ais tarde.
MAS AS FORÇAS CONTRA AS QUAIS SÔNIA lutava eram m uito m ais poderosas que seus argum entos a favor da felicidade individual e da harm onia fam iliar. Que peso podia ter o bem -estar burguês de um a fam ília de quatro m em bros com parado com o destino da índia? Essas forças, que surgiam da história profunda da nação, falavam em nom e de um país de m ais de 700 m ilhões de pessoas. Eram as m esm as forças que haviam levado Indira à roda da política e que agora exigiam a presença de Raj iv. Dois m eses depois da m orte de Sanj ay, trezentos
parlam entares, todos m em bros do Congress, assinaram um a petição rogando-lhe que assum isse o posto de seu irm ão e se candidatasse em sua circunscrição. O fato de ser casado com um a estrangeira não parecia representar um problem a, talvez porque, na m entalidade popular, um a m ulher adquire a identidade da fam ília do m arido.
Foi o início de um a intensa e constante pressão pública. A partir desse m om ento, não havia dia em que a im prensa não vaticinasse sua entrada na política. Quando os j ornalistas perguntavam a Indira sobre o tem a, ela se m antinha im passível: "Não posso falar sobre isso. Raj iv é quem tem que decidir". Os deputados com eçaram a assediar a casa. Iam "visitá-lo", ou sej a, tentar convencê-lo. Sônia via-se obrigada a preparar chá com cardam om o para todos esses "abutres" que, segundo ela, iam esquartej ar, diante de seus olhos, a felicidade fam iliar. Não apenas a pressão pública com eçou a ser notória; a pessoal tam bém . T. N. Kaul, tio de Raj iv, diplom ata de inatacável reputação, não era um hom em cuj os conselhos se tom assem levianam ente. Kaul era o sobrenom e da m ulher de Nehru e T. N. sem pre fora m uito ligado a Indira. Sua lealdade havia resistido aos em bates dos últim os anos. Seu filho era um indivíduo sim pático e vivaz, estudara em Cam bridge com Raj iv e fazia parte do círculo de am igos íntim os do casal. Os Kaul eram parentes m uito próxim os e m uito queridos. A vida de sua m ãe e a de seu irm ão estavam estreitam ente entrelaçadas, m ais ainda do que parecia disse T. N. Kaul a Raj iv no prim eiro encontro que tiveram . - Sanj ay era seu elo de com unicação com os líderes do partido, por isso ela está tão isolada desde a m orte dele. Precisa de alguém perto, alguém que sej a capaz de agir de form a eficaz para m anter a lealdade do partido. E você sabe que ela não confia em ninguém , exceto nos m uito próxim os. Eu sei, m as tam bém sei, e todo o m undo sabe, que não fui feito para a política... Além do m ais, você conhece a postura de Sônia sobre o assunto. Entendo que Sônia tenha essa visão, porque esteve exposta aos piores aspectos da vida pública, m as nem tudo é desprezível nem ruim em política. Supõe-se que é a m ais nobre das tarefas... Raj iv fez um a expressão de ironia. Kaul prosseguiu: Trata-se de servir ao povo, de dedicar-se de corpo e alm a aos outros... com o fez seu avô, com o fez seu irm ão, com o está fazendo sua m ãe.
Com o querem que eu faça.
Claro. Está no seu sangue.
Não tenho certeza de que sej a tão hereditário com o você acha. Tenho tudo a perder... Se você tem tudo a perder, você que viveu no am biente da política desde sem pre, im agine os outros... Ao contrário, você tem tudo a ganhar. Pode ser prim eiro-m inistro, um dia. Não, obrigado. Vi m inha m ãe chorar depois que seus m ais antigos, fiéis e queridos colaboradores a denunciaram para salvar-se, vi com panheiros dela, gente em quem havia depositado toda sua confiança, dar-lhe as costas e tornar-se críticos viscerais... Obrigado, m as prefiro continuar vivendo m inha vida tranqüila ao lado de m inha m ulher e de m inha fam ília, que m e dão tudo o que necessito.
Raj iv, você sabe tão bem quanto eu que existem dois tipos de pessoas que se m etem em política: poucos são os que consideram o poder com o um m eio de fazer a sociedade avançar, e m uitos os que o vêem com o um a arm a para obter vantagens para si e para seu grupo. Para esse segundo tipo, o que im porta é tudo o que cerca o poder: o brilho, a adulação, ter os pés beij ados e ser venerado com o um deus, tudo o que Sônia detesta. E qual é a recom pensa para os outros?
Só um a. A satisfação de se ver realizado com o ser hum ano. Raj iv deu de om bros. Era um a resposta m uito difusa e abstrata para seu gosto. A seguir, perguntou: O que m am ãe diz?
Ela disse literalm ente que não quer influenciar sua decisão, que você faça o que achar que deve. Ela sabe que você veio falar com igo?
Sim . Eu lhe perguntei... e ela disse que se eu quisesse falar com você, por ela não havia problem a. Houve um silêncio. Raj iv m ostrou-lhe uns cadernos e livros que estavam sobre a m esa.
Sabe que estou prestes a realizar um dos sonhos de m inha vida? É m esm o?
A Indian Airlines está acabando de renovar a frota, e só haverá j atos. Até agora, eu voava com o segundo piloto no Boeing 737. Mês que vem , farei o exam e para com andante. Meu salário vai subir e poderei pedir a rota Délhi-Bom baim , o que m e perm itirá ter uns horários m ais decentes. Kaul passou o olhar sobre o com passo, a calculadora, os m apas desdobrados com anotações de correções de rum o e cálculos escritos a lápis nas m argens... Depois, com o sem blante grave, voltou- se para Raj iv:
Então, devo entender que sua resposta é "não"? Raj iv assentiu com a cabeça, e acrescentou: Para m im , entrar na política seria com o entrar na prisão. - Ao sentir o olhar de seu tio fixo nele, acrescentou: - Além do m ais, nem sequer tenho a carteirinha do Congress. Pense bem , Raj iv. Pense em todos os sacrifícios que a fam ília fez pelo país. Quando vocês eram pequenos e foram m orar na Teen Murti House, foi porque seu avô estava sozinho e precisava de aj uda. Com o sua m ãe agora. Ela sacrificou sua vida pessoal para servi-lo. Fez isso porque era um a m ulher. Seu dever com o hom em é aj udá-la e apoiá-la no que puder. Os argum entos do tio Kaul eram contundentes e apelavam ao dever filial e a certo sentido de predestinação, a um a suposta m issão fam iliar e nacional inscrita nos astros. Os de Raj iv eram racionais e práticos. Falavam de coisas sim ples com o a vida cotidiana, a vocação, o carinho fam iliar. Mas a realidade era m ais com plexa, era um a m istura de em oções e am bições de m uita gente, de tem ores e dúvidas, de sonhos e ocultas pulsões, de história e política. Durante m eses, a pressão continuou sobre Raj iv e, consequentem ente, sobre Sônia. "Passei horas e horas tentando convencê-la a deixar seu m arido se m eter na política, m as nenhum argum ento lhe parecia suficientem ente bom ", diria Nirm ala Deshpande, um a am iga da fam ília. "A cada tentativa, Sônia, m uito educada, m as com firm eza, dizia que não." Um dia, a italiana chegou a confessar: "Prefiro ter m eus filhos m endigando na rua a que Raj iv se m eta em política".
Para o casal, foi um ano terrível, no qual am bos se sentiam cada dia m ais im potentes à m edida que se aproxim avam do abism o. Invadia-os a sensação estranha e perversa de que, de repente, sua vida não lhes pertencia. Haviam passado de donos de sua existência a vítim as de um a m anobra de acosso em nom e de grandes princípios e nobres causas, das quais nesse m om ento, sentiam -se alheios. Com o se esse país tão gigantesco não pudesse viver sem eles. Raj iv estava angustiado pelo conflito entre o dever de filho e a própria felicidade. Sônia estava dividida entre o m arido e a sogra, duas pessoas que adorava. "Ao m esm o tem po", escreveu m ais tarde, "estava furiosa e ressentida contra um sistem a que, tal com o eu o via, exigia um cordeiro para o sacrifício. Um sistem a que o esm agaria e o destruiria - disso tinha absoluta certeza." Raj iv em agreceu e m al dorm ia. Seu senso de dever levava-o a aj udar sua m ãe. Seu am or por Sônia e o com prom isso que havia adquirido com ela puxavam -no na direção oposta. Todos tinham suas razões, todas eram válidas, e ele estava no m eio, confuso e infeliz. Então, refugiava-se em seus estudos para o exam e de com andante do Boeing 737, a única coisa que lhe perm itia abstrair-se de um a realidade que se tornava insuportável. Ele, que sem pre havia fugido de conflitos e confrontações, vivia angustiado sendo o alvo de todas as exigências. "Essa pressão não v a i dim inuir nunca? Esse inferno nunca vai acabar?", perguntava-se ao ver que os m eses passavam e o coro de vozes se tornava ensurdecedor. "Eu esperava um m ilagre", diria Sônia, "um a solução que fosse aceitável e j usta para todos nós." Mas esse m ilagre não acontecia. Ao contrário, a cada dia que passava, os principais atores desse dr a m a sentiam -se pior: Indira, cada vez m ais sozinha e oprim ida pelos problem as, que se am ontoavam , Raj iv e Sônia cada dia m ais atorm entados. Não posso continuar vendo-o assim - disse Sônia um dia, abra-çando-o com força não quero vê-lo tão m al...
É com o se houvessem nos roubado a vida...
Raj iv, esqueça o que lhe disse quando estava tão irritada. Esqueça tudo. Se você acha que deve aj udar sua m ãe, faça isso... Não quero vê-lo tão infeliz. Estam os nos consum indo. Não pretendo tom ar nenhum a decisão sem você. Aceite - disse Sônia chorando, a cabeça apoiada no peito de seu m arido - vam os em frente. A vida m uda, e para m im é m uito difícil aceitar... no fundo, acho que vou acabar perdendo-o, m as talvez sej a egoísm o m eu, não sei... O que sei é que não podem os continuar assim . "Era m eu Raj iv", diria Sônia, "nós nos am ávam os, e se ele achava que devia oferecer aj uda à m ãe, eu cederia diante dessas forças que j á eram m uito poderosas para que eu as pudesse com bater, e iria com ele aonde quer que o levassem ." Sônia dem onstrou, m ais um a vez, que seu am or pelo m arido im portava m ais que qualquer outra consideração. A lealdade era a essência do am or. Sem pre o acom panhara. Deixara sua fam ília e seu país por ele. Transform ara-se em um a im pecável nora indiana por ele. Se toda sua vida havia girado em torno dele, se um dia havia lhe prom etido segui-lo até o fim do m undo, agora cabia cum prir aquela prom essa. Acom panhá-lo-ia aonde quer que fosse, ao inferno da política, se necessário. Mesm o que am bos acabassem ardendo em suas cham as.
DEPOIS DE QUATRO LONGAS E MUITO INTENSAS visitas do tio T. N. Kaul, Raj iv acabou dizendo:
Se m am ãe quer que eu a aj ude, aj udarei. Kaul suspirou. É um a decisão aj uizada - disse. - Tem os certeza de que pode ganhar as eleições de Am ethi, a circunscrição de seu irm ão, o que lhe dará a legitim idade necessária para trabalhar ao lado de sua m ãe.
Mas não quero fazer parte do governo, essa é m inha condição. Só estou disposto a trabalhar dentro do partido, porque percebo que há um vazio e não vej o ninguém que o possa preencher. O im portante é que você ganhe seu assento por Am ethi. E se perder?
Vai deixar o cam po aberto para Maneka e os seguidores de Sanj ay , e isso é m uito perigoso. Maneka não tem 25 anos, a idade regulam entar para ser deputada do Parlam ento. Mas terá nas próxim as eleições. Não pode haver dois herdeiros diferentes de Sanj ay Gandhi. Por isso a pressa de você aceitar. E é fundam ental que ganhe em Am ethi. Houve um silêncio. O rosto de Raj iv havia envelhecido. Quase em um sussurro, acrescentou: Há um sentido de inevitabilidade em tudo isso, não? Quando sua m ãe foi aj udar seu avô - disse Kaul - tam bém não fez parte do governo - fez um a pausa, consciente do enorm e sacrifício que essa decisão exigia da fam ília. O que diz Sônia?
Eu não teria tom ado a decisão sem ela. Tentarei harm onizar m inha carreira de piloto com a política enquanto puder. Depois, verem os o que acontece. É um a solução sensata - concluiu Kaul.
Depois de tanta angústia acum ulada, a decisão foi um a espécie de libertação, m as sem alegria. Com o sem pre na história fam iliar dos Nehru, o que havia triunfado era o sentido do dever acim a das dem ais considerações. Sônia trancou-se em seu quarto e não saiu durante quatro dias. Seus filhos não a conseguiam consolar. Diziam que passava o tem po todo chorando. Quando em ergiu daquele poço de sofrim ento, estava abatida e puro osso. Durante os dias seguintes, m al com eu e deixou de se vestir da m aneira elegante e cuidadosa que costum ava.
Raj iv acabou realizando seu velho sonho e foi aprovado nos exam es para obter o título de com andante do Boeing 737, m as o prazer de singrar os céus em aviões a j ato ia durar m uito pouco. O prazo para apresentar sua candidatura pela circunscrição de Am ethi, a que se preparava para herdar de seu irm ão, aproxim ava-se inexoravelm ente. A lei de incom patibilidades im pedia que Raj iv tivesse um em prego público (a Indian Airlines era um a com panhia do Estado) e, ao m esm o tem po, se candidatasse a deputado.
Com o estava claro que a partir daí não poderia harm onizar sua carreira com a política, não lhe restou m ais rem édio que fazer da política sua carreira. De m odo que, em um dia quente de m aio de 1981, tom ou sua decisão. Chegou em casa depois de ter passado o dia voando, tirou a gravata, a j aqueta e a calça do uniform e, vestiu um a kurta branca, o "uniform e dos políticos", e foi aos escritórios centrais da com panhia de aviação entregar seu certificado de piloto e despedir-se de seus colegas e chefes. Sônia viu-o sair com o coração apertado. Era o adeus definitivo à vida que ele escolhera na Inglaterra, quando procurava um a m aneira de ganhar a vida para se casar, porque estava louco por ela.
Com o era previsível, a vida do casal m udou a partir daquele dia. Já não podiam ir aos sábados à noite à Casa Mediei, o restaurante italiano do luxuoso Hotel Taj , ou ao Orient Express, no novo hotel Taj Palace. Mudaram desde os horários até a m aneira de se vestir. Raj iv usava kurtas por que lhe haviam sugerido que seria bom passar um a im agem m ais "indiana", e não tão européia. De m odo que se despediu para sem pre dos j eans que usava quando não estava de uniform e, disse adeus aos sapatos italianos que Sônia lhe com prava quando estavam de férias e calçou sandálias, m as conservou seus óculos de sol Ray -Ban, ovalados e de arm ação m etálica, que estavam na m oda naqueles dias. Na verdade, a roupa indiana era m ais confortável e m ais apropriada para esse calor desapiedado que a ocidental. As kurtas de algodão eram usadas sobre calças tipo pij am a ou chowridars, calças largas no quadril que vão estreitando até acabar em dobras sobre o tornozelo. Usava tam bém o gorro típico dos m em bros do Congress, e Indira achava que, com a idade, estava ficando igualzinho ao pai, Firoz. Depois que Raj iv tom ou a decisão, não m ais se voltou para trás. Se o destino o punha nesse lugar, m elhor tirar proveito e fazer direito, o m elhor possível. Os antigos ideais, dos quais seu avô falava na m esa quando eram adolescentes - a luta contra a pobreza, a favor da igualdade, o aconfessionalism o etc. - esses princípios que sua m ãe havia herdado, tornou-os seus tam bém . Ele não entrava para a política para acum ular riqueza ou poder, porque nunca o haviam atraído. Não tinha am bição pessoal, m as tinha ideais para a índia. Se agora podia colaborar com seu grão de areia para a vida da nação, m elhor fazer isso bem inform ado. Mas custava-lhe desprender-se de seu m undo, que era o da tecnologia, dos fatos provados, das coisas concretas regidas por leis conhecidas e com prováveis. Um avião voa porque o ar sustenta suas asas. O que sustenta o sucesso de um político? Eram m uitas as respostas possíveis, m uitas as variáveis, m as nenhum a certeza, exceto em seu caso: tinha um sobrenom e que era um a m arca reconhecível. Os intelectuais e os adversários de Indira j ogavam -lhe na cara: "a única qualificação que Raj iv possui são seus genes". As classes privilegiadas estavam desconcertadas com o que consideravam um novo ato de nepotism o por parte de Indira. Mas a "grande m assa de hum anidade indiana" via isso a sua m aneira, sob o prism a da tradição, segundo a qual os filhos seguem as vocações de seus progenitores. Durante séculos, nas aldeias e nas cidades da índia, m estres artesãos, m úsicos, escrivães, cozinheiros, palafreneiros, curandeiros, arquitetos e políticos transm itiam a seus filhos os segredos de sua profissão.Ao atrair Raj iv para a vida política, Indira e seus correligionários do partido não fizeram m ais que seguir um a tradição bem estabelecida.
DURANTE SUA PRIMEIRA CAMPANHA, Raj iv teve que fazer um grande esforço para lutar contra sua tim idez. Para alguém tão zeloso de sua privacidade, era difícil ser constantem ente foco de atenção e enfrentar as perguntas dos m eios de com unicação. "A política nunca foi m inha praia", declarou um dia a um j ornalista que lhe perguntava por que estava se candidatando. "Eu m e candidato porque, de algum a m aneira, tinha que aj udar m inha m ãe..." Sua inocência transform ou-o em obj eto de escárnio, e logo aprendeu a m edir suas palavras, a dar sem pre respostas claras que não pudessem se prestar a m al-entendidos ou a interpretações distorcidas.
Falar em público sem anotações tam bém não era fácil, porque precisava encontrar a m aneira não só de dizer o que queria, com o tam bém de se conectar com os que o iam ouvir. Os com ícios aconteciam na praça e os organizadores nem sem pre dispunham de m eios para colocar um toldo que os resguardasse do calor. A m aioria das vezes, Raj iv se encontrava diante de um a m ultidão de m il pessoas em pleno sol. Muitos estavam sentados sobre esteiras no chão, a m aioria em pé ao fundo, e todos iam para ter o darshan de um hom em que j á fazia parte do elenco de personagens da m itologia indiana. Havia m uitos cam poneses pobres, porque Am ethi era um a região m uito atrasada do estado de Uttar Pradesh. Mas tam bém havia com erciantes, trabalhadores, notáveis do povo, em presários siques cuj os turbantes se destacavam entre a m ultidão, m uitos j ovens desem pregados, enxam es de crianças, algum as com o uniform e puído inspirado nos uniform es das escolas inglesas, m ulheres m uçulm anas com o rosto coberto, cam ponesas hindus com sáris m ulticoloridos... Estavam todos m uito apertados, apesar dos m ais de 40 graus de calor.
Havia cheiro de suor, de flores, de pó e de fum aça dos bidis, esses cigarros feitos à base de fum o picado conhecidos com o "cigarros dos pobres". Antes de falar, Raj iv retirava as guirlandas de cravinas alaranj adas que haviam desbotado sobre a brancura de sua kurta e as colocava em cim a de um a m esa ou entregava-as a um aj udante. Tinha um estilo m uito diferente do de seu irm ão. Nã o era grandiloqüente nem arengava à m ultidão. Ao contrário, sua hum ildade e curiosidade levavam -no a fazer m uitas perguntas. Em suas constantes viagens, dentro da cabine do avião, Raj iv havia sonhado com um país m ais j usto, m ais próspero, m ais m oderno, m ais hum ano. Agora, no chão, via a realidade de outra m aneira: o atraso era im enso; a falta de recursos desesperadora, e a pobreza extrem a. Com o era possível? Onde o sistem a estava falhando? Nos m om e ntos de descanso, tirava de um a bolsa preta um a invenção prateada que causava adm iração:
É um a invenção revolucionária - disse Raj iv. - Um dia, será tão popular quanto um a calculadora ou um a m áquina de escrever, vocês vão ver.
Para que serve? - perguntou-lhe um j ovem m em bro do partido. Para m uitas coisas. Eu quero usá-lo para ter um a base de dados e fazer o acom panham ento das m elhorias que vam os fazer aqui em Am ethi.
Er a um notebook, um dos prim eiros que se viram na índia. O m étodo de Raj iv consistia em identificar as carências para, a seguir, saber onde poderia intervir para saná-las. Alguns problem as eram óbvios, com o a falta de estradas, que obrigava a pequena caravana eleitoral a cam inhar, às vezes durante um a hora ou m ais, por estreitos cam inhos de terra entre cam pos lavrados por bois descarnados, para chegar às pequenas aldeias. A m aioria das casas eram choças de adobe que os cam poneses tinham que levantar de novo depois de cada tem porada de chuvas. Essas aldeias não dispunham de nenhum tipo de com unicação com o exterior. "Se pelo m enos pudéssem os pôr um telefone conectado via satélite para eles!", pensava Raj iv. Porém , havia um a luz de esperança: quando perguntavam aos m ais pobres o que m ais precisavam , nunca pediam com ida, dinheiro, um a choça onde se aloj ar ou um poço de água potável na aldeia- todas necessidades urgentes. Os m ais pobres queriam principalm ente escolas para seus filhos. Em prim eiro lugar educação, e im ediatam ente depois, am bulatórios m édicos. Com o era de se esperar, Raj iv ganhou por um a am pla m argem . Sônia foi a prim eira a cum prim entá- lo. Fundiram -se em um abraço. Esse triunfo dava a seu m arido um reconhecim ento m uito necessário, e Sônia percebeu isso na expressão de seu rosto, de repente m ais relaxado e confiante. Era a j ustificativa para m uitos m eses de torm ento. Sônia sentiu que Raj iv com eçava a gostar da experiência, m as ela tinha saudade do passado. "Antes, nosso m undo era reconhecível, íntim o", contaria Sônia. "Havia dias de atividade concentrada e a seguir longos períodos de ócio. Agora era o contrário.
Nossa vida se encheu de gente, centenas a cada dia, políticos, m em bros do partido, todos pressionando com suas exigências e seus problem as urgentes. O tem po deixou de ser flexível e a hora que Raj iv passava conosco era cada vez m ais valiosa."
Mas Raj iv não se acostum ava com o assédio dos m eios de com unicação. Respondia com hesitações e interrupções. "Vocês, j ornalistas, caem sobre os políticos com o tigres", disse um a vez, oprim ido. Mas, ao m esm o tem po, sentia que com eçava a ser apreciado por um núm ero cada vez m aior de pessoas. O contraste com a personalidade de seu irm ão era tão refrescante que o fazia ganhar adeptos. Se Sanj ay havia deixado a lem brança de um indivíduo abrasivo, desapiedado e vulgar na ostentação do poder, Raj iv era exatam ente o contrário: um hom em suave e de m odos im pecáveis, um conciliador nato que utilizava o bom senso para dirim ir conflitos, e sobretudo um hom em sem contatos estranhos nem associações suspeitas. "Quero atrair um novo tipo de gente para a política", declarou ao Sunday Tim es, "gente inteligente, j ovens ocidentalizados sem idéias feudais, que queiram fazer a índia prosperar m ais que a si próprios." Mostrava sem pre sua verdadeira face, a de um hom em honrado, am ável e de bom coração.
Logo o cham ariam de Mr. Clean. Com o se fosse pouco, tinha um a fam ília bonita e fotogênica, m as Sônia era m uito m ais reticente que ele a se deixar fotografar e ainda m ais a dar entrevistas. Se u m edo e ódio à im prensa e aos m eios de com unicação haviam se transform ado em um a constante em sua vida.
Ra j iv foi em possado com o deputado três dias antes de com pletar 37 anos, declarando-se abertam ente a favor da m odernização, da liberdade de im prensa e de abrir o país para os investim entos estrangeiros. Pingava suor sob a m esm a abóbada que havia devolvido o eco dos discursos de seu avô e de sua m ãe. Nehru provavelm ente teria se sentido desconcertado ao ver seu neto nessa enorm e sala com o m ais um representante do povo. Mas tam bém contente de ver que, com o ele, Raj iv achava que a solução para m uitos m ales da Índia estava na ciência e na tecnologia devidam ente aplicadas.