O Sári Vermelho

Javier Moro · Capítulo 2 de 6 · parte 1/6

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O Sári Vermelho

Ato I - a Deusa Durga Cavalga um Tigre

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

ATO I - A DEUSA DURG A CAVALG A UM TIG RE

A função do poder é proteger. Pascal

 

Sônia tinha dezoito anos, a idade em que decidira ir para a Inglaterra aprender inglês, quando se apaixonou por Raj iv. Era tão bonita que as pessoas se voltavam na rua para olhá-la. Andava m uito ereta, e seu cabelo castanho-escuro e liso em oldurava seu rosto de m adonna. Josto Maffeo, um colega de classe que nos fins de sem ana dividia com ela o traj eto de ônibus do povoado de Orbassano, onde m orava com sua fam ília, até o centro da cidade de Turim , hoj e um conhecido j ornalista, recorda-a com o "um a das m ulheres m ais bonitas que conheci na vida. Além de bonita era interessante, m uito am iga de seus am igos, tranqüila e equilibrada. Não gostava de participar de grandes farras e sem pre m antinha certa reserva em relação aos outros".

Não é de se estranhar, então, que o pai de Sônia, um hom em robusto cuj o rosto de m ontanhês tinha a m arca de um passado duro de trabalho ao ar livre, se opusesse com tanta veem ência a que sua filha fosse estudar inglês em Cam bridge. O bom Stefano Maino, com seu cabelo curto penteado para trás, seu bigode grosso que fazia coceguinhas em suas filhas ao beij á-las e suas faces encarnadas, era feito à m oda antiga. Tanto assim que anos atrás, ao se instalar em Orbassano e saber que a escola do povoado era m ista, não perm itiu que suas filhas a freqüentassem e optou por m andá-las a Sangano, um povoado a 10 km de distância, para um colégio exclusivam ente fem inino. Quando foram crescendo, sem pre queria saber onde e com quem estavam suas três filhas. Tam bém não via m uita graça em que saíssem nos fins de sem ana, e isso porque não eram saídas noturnas, o que não teria tolerado.

Eram idas a Turim , a m eia hora de trem ou de ônibus, para passear por suas belas avenidas, ou, se o tem po não estivesse bom , para lanchar com as am igas em um a das fam osas cretnerie da cidade. Stefano era um hom em de princípios estritos e irrem ediavelm ente e chocava com suas filhas adolescentes. Quem costum ava enfrentá-lo era Anushka, a m ais velha, um a garota de caráter forte, rebelde e briguenta. Com parada a ela, Sônia era um anj o. A m ais nova, Nadia, ainda não dava problem as.

Sua esposa, Paola, um a m ulher de feições regulares, sorriso franco e ar m ais refinado, com pensava com sua flexibilidade a severidade de Stefano. Era m ais aberta, m ais tolerante, m ais com preensiva. Talvez por ser m ulher, era m ais capaz de entender suas filhas, m esm o que sua adolescência houvesse sido m uito diferente, em um a aldeia m ontanhosa que não chegava aos seiscentos habitantes, e em um a época em que a Itália era um país pobre. Muito pobre. Suas filhas nunca tiveram que ordenhar vacas por obrigação, ou cuidar das tarefas do cam po ou servir c a fé no bar da fam ília. Elas eram fruto do pós-guerra, filhas do Plano Marshall, da expansão econôm ica, do ressurgim ento da Itália na Europa. Só conheceram a pobreza de passagem , quando eram pequenas, porque nos anos do pós-guerra era im possível escapar do espetáculo dos aleij ados e m endigos que buscavam o calor do sol e a caridade pública apoiados nos m uros da praça. E esse contato as m arcou para sem pre, principalm ente a Sônia.

Em Vicenza, a cidade grande m ais próxim a da aldeia em que m oravam , a pobreza era vista antes de se chegar ao centro, nesses bairros de barracos, onde as crianças brincavam nuas ou andavam com roupa esfarrapada.

Por que as m ães deles deixam que andem assim , sem roupa? - perguntava perplexa a pequena Sônia. Essas crianças andam assim porque não têm roupa. Não andam assim porque querem , e sim porque não têm outro j eito. Porque são pobres.

A m enina entendeu pela prim eira vez quão terrível era a pobreza. Além do m ais, acrescentou sua m ãe, algum as fam ílias passavam fom e. Todos os m eses não vinha o padre do povoado em casa pedir leite em pó, com ida e roupa, que depois distribuía aos m ais necessitados? Aquele padre sabia que sem pre podia contar com a fam ília Maino, que apesar de tam bém passar apertos era católica devota e praticava a caridade.

O Evangelho diz que os pobres serão os prim eiros a entrar no Reino dos Céus... Não lhe ensinaram isso na catequese?

Sônia assentia, enquanto aj udava sua m ãe a preparar um pacote de roupa usada. Na casa dos Maino não se j ogava nada fora, não se desperdiçava nada. As m enores herdavam das m aiores. O que não se usava era dado aos pobres. A lem brança da guerra estava m uito próxim a para que se esquecesse o valor das coisas.

Os PAIS DE SÔNIA ERAM ORIUNDOS da região do Vêneto, especificam ente da aldeia de Lusiana, nos m ontes Asiago, às faldas dos Alpes, um a zona pecuarista que dá seu nom e a um dos queij os m ais apreciados da Itália, e conhecida tam bém por suas pedreiras de m árm ore. A fam ília paterna, os Maino, eram de m odos rudes, honrados, diretos e m uito trabalhadores. Um a qualidade que não passou despercebida à m ãe de Sônia, Paola Predebon, filha de um ex-carabineiro que tocava o bar do avô na aldeia de Com arolo di Conco, no fundo do vale. Stefano e Paola casaram -se na bela igrej a de Lusiana, consagrada ao apóstolo são Tiago, com sua torre alongada com o um a flecha que aponta para o céu e que parece o m inarete de um a m esquita, sem dúvida influência dos otom anos que andaram por ali há séculos.

Sônia nasceu às 9h30 da fria noite de 9 de dezem bro de 1946 no hospital civil de Marostica, um a cidade m uito antiga e pequena am uralhada aos pés dos m ontes Asiago.

"É nata una bim baaa!", a boa-nova alcançou rapidam ente a aldeia de Lusiana, e o eco retum bou nos m uros de pedra das casas, nos estábulos, nas escarpas rochosas e nas m ontanhas dos arredores até perder-se ao longe, em cascata. Com o hom enagem à recém -chegada e seguindo a tradição, os m oradores am arraram laços de tecido cor-de-rosa nas grades das j anelas e nas portas da aldeia. Poucos dias depois, foi batizada pelo padre de Lusiana com o nom e de Edvige Antonia Albina Maino, em hom enagem à avó m aterna. Mas Stefano queria outro nom e para sua filha. A m ais velha, batizada com o Ana, era cham ada de Anushka, e Antonia se cham ou Sônia. Cum pria, assim , a prom essa que havia feito a si m esm o depois de escapar vivo do front russo. Com o m uitos italianos que viviam na pobreza, Stefano havia se deixado seduzir pelas idéias fascistas e pela propaganda

de Mussolini, e no início da guerra havia se alistado na divisão de infantaria 116 de Vicenza, um regim ento que pertencia ao corpo de bersaglieri, de grande reputação no Exército italiano e no qual tam bém o Duce havia servido.

Os bersaglieri, que eram conhecidos por sua rápida cadência ao desfilar, m ais de 130 passos por m inuto, e principalm ente pelo capacete de aba larga do qual pendia um penacho de penas de galo pretas e brilhantes que caíam de lado, estavam cercados por um a aura de coragem e invulnerabilidade que a cam panha da Rússia fez cair por terra. A divisão perdeu três quartos de seus hom ens no prim eiro confronto com os soviéticos. Houve m ilhares de prisioneiros, dentre os quais se encontrava Stefano, que conseguiu fugir com outros sobreviventes. Conseguiram se refugiar em um a chácara na estepe russa, onde ficaram sem anas sob a proteção de um a fam ília de cam poneses. As m ulheres curaram suas feridas, os hom ens lhes deram víveres, e a experiência, além de lhes salvar a vida, transform ou-os por com pleto. Com o m ilhares de soldados italianos, retornaram desiludidos com o fascism o e agradecidos aos russos por tê-los salvado.

A partir de então, Stefano parou de falar de política; para ele, era feita de m entiras. Em hom enagem à fam ília que lhe salvou a vida, decidiu pôr em suas filhas nom es russos. E, para não discutir com a fam ília de sua esposa nem com o padre, para quem o nom e Sônia não fazia parte do santoral - Sofia era aceitável; Sônia, não - Stefano aceitou registrá-la com nom es plenam ente católicos. Depois do batism o, convidaram vizinhos e fam ília para um prato de bacalhau à vicentina, o favorito da região, com m uita polenta para passar no m olho. Foi um a dificuldade arranj ar bacalhau, porque naqueles tem pos de pós-guerra havia escassez de tudo, até em Vicenza, a capital da região situada a 50 km de distância, em baixo, na planície.

A alegria dos Maino teria sido total não fosse pelas dificuldades que Stefano tinha para criar sua crescente prole. Nesses anos, era m uito difícil fugir das garras da m iséria. Tinham para com er, para vestir, e pouco m ais. Os Maino não tinham terras, só um as vacas e um a casa de pedra que ele m esm o levantara com suas m ãos, a últim a da rua Maino, a rua onde gerações de parentes seus, que originalm ente haviam chegado da Alem anha, foram construindo suas m oradas. Eram e spa rta na s, m as tinham um as m agníficas vistas para o vale. Pequenos m uros de pedra separavam os prados onde pastavam as vacas, cuj a cria era o recurso principal da região, porque a terra era ruim para a agricultura, havia pedra dem ais e ladeiras dem ais. Sônia e suas irm ãs cresceram diante do espetáculo sublim e do vale de Lusiana, que m udava de cor conform e as estações. Todas as tonalidades e m atizes de verde e pardo desfilavam diante de seus olhos, da cor esm eralda das árvores na prim avera até o am arelo dos cam pos no verão, passando pelo acobreado do outono e o branco do inverno. Para as crianças, a prim eira nevada do ano era com o um a grande festa que celebravam com j úbilo; faziam bonecos de neve e j ogavam bolas pelas ruas brancas. Mas, em Sônia, a m istura de exercício físico e frio provocava um a fadiga no peito que a obrigava a voltar logo para casa. Gostava de se refugiar no calor do aquecedor de ferro fundido da cozinha, enquanto o vento assoviava pelas frestas das j anelas.

Aos dom ingos pela m anhã, o tilintar dos sininhos das vacas m isturava-se aos repiques dos sinos da igrej a, enquanto a fam ília endom ingada se dirigia à m issa, que nunca perdiam . Rezavam para que Stefano arranj asse em prego, para que a asm a de Sônia desaparecesse, para que a situação geral m elhorasse, para que as m eninas tivessem todo o necessário e se criassem saudáveis e felizes. No início dos anos 1950, Stefano acabou arranj ando em prego, m as não em seu povoado, e sim do outro lado das m ontanhas, na Suíça. Sua experiência com o pedreiro e seriedade fizeram com que fosse contratado em várias tem poradas. Ia por no m ínim o dois m eses e voltava com os bolsos cheios de liras, que duravam m enos do que teria esperado. Em 1956, Stefano tom ou a decisão de em igrar, com o estavam fazendo seus três irm ãos e tantos conterrâneos. O polo industrial turinês, que havia crescido em torno à Fiat, agia com o um ím ã para m ilhões de italianos que queriam fugir da pobreza do cam po. Os Maino atravessaram de trem todo o norte da Itália e instalaram -se em Orbassano, um povoado industrial na periferia de Turim . Assim fizeram porque Giovanni, um dos irm ãos de Stefano, cham ado de "o Mouro" pela cor de sua pele, havia se casado com um a garota de um povoado próxim o e garantia que o boom da construção precisava de m uitos braços. Além do m ais, Stefano conhecia a região porque, nos anos 1930, havia trabalhado para o Exército na reconstrução de fortes m ilitares na fronteira com a França, nos Alpes, gostava dos piem onteses, talvez por tam bém serem m ontanheses: gente direta, franca, que não perde tem po em contem plações.

Trabalho, trabalho e trabalho, essa era a receita de Stefano para prosperar rapidam ente. Não fazia outra coisa, não se sabia que tivesse hobbies nem era apaixonado por esportes, m as gostava de ir ao bar de Pier Luigi para ver na televisão as finais da Juventus. A esse m esm o bar ia assiduam ente sua filha Sônia, porque Pier Luigi vendia os m elhores sorvetes da região. "Era m olto vivace, m olto biricchina", diria da m enina. Quando chegou a Orbassano, Stefano j á era m estre-de-obras, e ali passou a m ontar sua própria em presa de construção. Com eçou com reform as, a seguir construiu chalés, pequenos palazzi e m ais adiante casas gem inadas. "Era um hom em m uito direito", dizia seu am igo Danilo Qua-iri, um m ecânico que consertava as avarias de suas betoneiras e dem ais m aquinarias, e que acabou se tornando seu grande am igo. Todos os dias se viam na hora do café no Bar do Nino, na praça em frente à prefeitura, um edifício de dois andares com pórticos, um relógio na fachada e um a bandeira italiana na varanda. Ao lado ficava a Igrej a de São João Batista, com seu torreão característico e seus telhadinhos bicudos turquesa, aonde iam à m issa aos dom ingos com suas respectivas fam ílias. Stefano era um hom em de horários fixos, am ante da rotina.

Depois de seu encontro diário com seu am igo Danilo, voltava andando para casa pela Via Frej us, flanqueada por edifícios sem graça nem estilo, onde um bloco de apartam entos surgia ao lado de um a vila antiga, em um a m istura m uito característica do urbanism o popular do pós-guerra. Sua casa ficava no núm ero 14 da Via Bellini, a um a distância de aproxim adam ente 1,5 km da praça do povoado. Aquela vila de três andares cercada de um pequeno j ardim havia sido o sonho de sua vida. Quando saldou as dívidas contraídas ao com eçar sua em presa, procurou um terreno a bom preço que ficasse perto da estação do trenino e da de ônibus, e com prou-o à vista. Stefano ergueu sua casa em tem po recorde, com a típica tavernetta que ocupava todo o térreo. Não havia um a casa que se prezasse que não tivesse sua tavernetta, m uito cuidada, com seu balcão, seu bar, sua lareira, que os pais utilizavam para se reunir com am igos ou para com em orar aniversários, e os filhos para seus bailinhos. Fez a casa grande com idéia de dividi-la com suas filhas quando fossem m aiores. Além do trabalho, a fam ília era um valor fundam ental na vida de Stefano Maino, com o bom italiano.

E, evidentem ente, a religião. Valores todos que dividia com sua m ulher Paola, e que se esforçavam para transm itir às m eninas.Sônia tinha dez anos quando chegou a Orbassano. A m udança de um a aldeia de m ontanha a um subúrbio de um a grande cidade com o Turim foi im pactante. Era um a vida m uito m ais fácil, m ais divertida, que oferecia possibilidades infinitas.

A única som bra nessa nova vida tinha a ver com sua origem . Eram paesani, com o cham am pej orativam ente aos im igrantes do cam po no norte da Itália. Um estigm a que a fez se sentir m enos que os outros e que criou nelas um com plexo que duraria a vida inteira. Na aldeia, nunca haviam se sentido diferentes; aqui sim , principalm ente no início, no colégio, onde outras m eninas as cham avam de paesani por se vestirem à m oda antiga ou com roupa "de aldeia". Orbassano nã o era alheia ao am biente classista de Turim , um a cidade conservadora onde se alm oça ao m eio-dia, tom a- se o capuccino às cinco em grandes doçarias de estilo art déco e se j anta às sete. Onde as m ulheres estão sem pre m uito bem penteadas, e os hom ens se vestem na últim a m oda. Onde o trabalhador quer viver com o o patrão e o im ita, o patrão com o a rica burguesia, da qual que r fazer parte, e a burguesia com o a aristocracia, a quem secretam ente adm ira. Naquela época, não existiam veleidades de rebelião; ninguém queria enforcar o chefe, todos queriam ser com o ele.

A prosperidade parecia não ter fim e perm itia que todos perseguissem seu sonho de m obilidade social. Pouco a pouco, à m edida que o pai prosperava, o status social da fam ília Maino foi se elevando. De filhas de "pastor de vacas e pedreiro", as m eninas passaram a ser filhas de um construtor que vivia bem . De filhas de cam ponês im igrante a filhas de em presário. Paola, a m ãe, um a m ulher m ais sensível ao entorno social que seu m arido, logo captou os gostos da burguesia turi-nesa - o estilo de vestir, os gestos etc. - e transm itiu-os a suas filhas, que rapidam ente se tornaram um as "senhoritas". Nunca a ponto de renegarem suas origens; eram m uito honradas para isso. Mas sem pre souberam que nunca alcançariam o status dos turineses de pura cepa porque não haviam nascido ali.

DEP OIS DE TERMINAR O ENSINO FUNDAMENTAL no colégio de m eninas da aldeia de Sangano, Sônia queria ter continuado seus estudos na escola de Orbassano, m as seu pai se opôs. "Nada de escola pública para m inhas filhas. Para elas, sem pre o m elhor." O m elhor, segundo os Maino, era o colégio das irm ãs Maria Auxiliadora em Giaveno, um a bela cidade m edieval a uns 20 km de casa, conhecido local de lazer de m uitos turineses. Ali teriam a possibilidade de se m isturar com m eninas de um "am biente m elhor" que na escola pública de Orbassano. Além de valorizarem m uito a educação religiosa, tam bém queriam se livrar do estigm a de paesane. De m odo que deixavam as m eninas na segunda-feira pela m anhã e as pegavam na sexta. Não era um internato rígido; ao contrário, estava cheio de freiras salesianas am áveis que logo se afeiçoaram a Sônia. "A m ais velha era m uito geniosa e difícil, m as Sônia era a bondade em pessoa", diria a irm ã Dom enica Rosso, que foi nom eada sua tutora. "Che bel carattere, sem pre gioviale", lem bra a irm ã Giovanna Negri, antes de acrescentar: "Estudava só o necessário, m as e r a risonha e sem pre m uito solícita." Sônia j á m ostrava um a qualidade que se revelaria de grande im portância em sua idade adulta: era conciliadora. "Tinha um talento especial para que duas colegas que brigassem parassem de fazer isso, ou para pôr de acordo um grupo e fazer um a atividade em grupo. Era um a garota m uito serena, desde pequena, talvez por causa de seu problem a, que a fez am adurecer antes do tem po..."

O problem a a que se referia irm ã Giovanna era a asm a. Lem bra que os ataques de tosse eram de tal intensidade que tiveram que acom odá-la em um quarto individual. Era a única interna que dorm ia sozinha, sem pre com as j anelas abertas, até no inverno, a despeito do vento glacial que soprava dos Alpes.

O internato, que contava com duzentas alunas, ficava em um m orro que dom inava a cidade: as torres de suas igrej as m edievais em ergiam entre um m osaico de telhados antigos, e do outro lado do rio havia um grande penhasco cuj o cum e costum ava estar coberto de neve. Quando os ataques de tosse cediam , Sônia, em baixo de seu edredom de penas, ficava olhando para essa m ontanha levem ente ilum inada pelo reflexo das luzes da cidade e que lhe lem brava sua Lusiana natal.

Sônia aprendeu a esquiar, com o todos os piem onteses, para quem o esqui é o rei dos esportes. Mas nunca foi um a grande fã, com o de nenhum esporte, por tem er que o exercício desencadeasse um ataque de asm a. Para com pensar, entusiasm ou-se m uito com a leitura, um a paixão que duraria toda sua vida. No início, com o era de praxe nos colégios católicos, lia a vida dos santos. Gostava principalm ente das histórias dos m issionários que davam tudo pelos pobres em países distantes. Ser m issionária lhe parecia um a vida heróica, cheia de sentido, porque havia que se entregar aos outros, e excitante, porque estava cheia de aventura. As freiras do internato proj etavam regularm ente film es que contavam as grandes façanhas e m itos do cristianism o -com o a vida de são Francisco de Assis, por exem plo - que deixavam as m eninas, principalm ente Sônia, petrificadas de em oção. Mas o prazer dos livros durava m ais que o dos film es, e ela podia relê-los e recriá-los enquanto aprendia com as experiências e com os pensam entos dos personagens.

A leitura lhe abria as portas do m undo. Graças a ela, e a sua curiosidade inata, a adolescente Sônia desenvolveu um sentim ento que as freiras cham avam de am or m undi, am or do m undo, segundo a sublim e descrição de santo Agostinho. Nas aulas, teve que aprender a vida dos grandes heróis da história m oderna de seu país, com o o filósofo e político Mazzini, que contribuiu para que a Itália fosse um a república dem ocrática; ou as andanças do peculiar Garibaldi, idealista e guerreiro que lutou pela unificação do país. Aprendeu sobre o Risorgim ento, o m ovim ento nacionalista do século XIX, m as do resto do m undo as freiras ensinavam pouco. Por exem plo, da índia, de sua luta pela independência e de sua irrupção com o um Estado m oderno nem sequer ouviu falar. A vaga figura de Gandhi lhe dizia algum a coisa, m as tam bém não teria podido dizer de quem se tratava, com o a m aioria dos estudantes não só italianos, m as tam bém europeus. Nehru, porém , lhe era m ais fam iliar. Vislum brou a silhueta desse hom em elegante, com seu característico turbante, algum as vezes a cam inho da cam a, j á de cam isola, no noticiário noturno que seus pais viam na televisão.

De qualquer m aneira, Sônia não se interessava particularm ente por história, nem pelas m atérias científicas ou que tivessem a ver com a política. Sem pre gostou de idiom as, para os quais tinha um a certa facilidade. Seu pai a havia estim ulado a aprender russo e pagara um professor particular. Sônia entendia e falava o idiom a, m as tinha dificuldade para lê-lo. Tam bém aprendeu francês, em casa. Além do m ais, os idiom as serviam para viaj ar, para conhecer outras pessoas, outros costum es, outros m undos, para descobrir esses lugares que pudera vislum brar nas vidas dos m issionários.

Mais tarde, quando deixou o internato de Giaveno e se m atriculou em um a escola de Turim para fazer o pré-universitário, seus sonhos infantis foram se transform ando. Foram se adaptando à realidade.

A idéia de ser com issária de bordo da Alitalia, de ganhar a vida viaj ando pelo m undo, chegou a seduzi-la. Não requeria um esforço excessivo e, quando term inasse os estudos, preencheria quase todos os requisitos: tinha boa aparência, bons m odos, a altura certa, sabia russo e francês, tinha tudo...

Só faltava aperfeiçoar seu inglês.

Papai, quero ir para a Inglaterra aprender bem inglês... Nem pensar.

Para Stefano, a idéia de que sua filha vivesse entre aviões e hotéis daqui para lá não tinha a m enor graça, e tam bém não lhe parecia algo sério. Se queria aprender inglês, j á lhe pagava aulas em um a escola, não precisava ir em bora de casa. Não havia aprendido russo com um professor particular? Não havia aprendido francês sem j am ais ir à França? Sônia, que conhecia be m a teim osia de seu pai, evitava enfrentá-lo, m as no fundo era igualm ente cabeça-dura quando tinha certeza do que queria.

Tal pai, tal filha...

De m odo que granj eou o apoio de sua m ãe e, enquanto term inava seus estudos, trabalhava esporadicam ente em Fieratorino, a organização encarregada dos congressos e feiras industriais, com o o fam oso Salão do Autom óvel. Sônia fez pequenos trabalhos com o com issária de bordo, e até com o intérprete de russo em um cam peonato de golf. Gostava do contato com gente diferente. Tinha tanta curiosidade pelos idiom as quanto pela cultura e pelo espírito das pessoas que os falavam . O m undo era definitivam ente m aior que a pequena Orbassano, e esses trabalhinhos expandiam seu horizonte. Pouco a pouco, seu sonho de ser com issária de bordo foi se transform ando no de ser professora de idiom as ou, m elhor ainda, intérprete em algum órgão internacional, com o as Nações Unidas.

Com o bom m ontanhês, Stefano era autoritário e rígido, m as não tão obtuso a ponto de não perceber as necessidades de suas filhas. Vivia um dilem a com um às pessoas de sua geração: por um lado, sentia a necessidade de m antê-las sob controle e de educá-las à m aneira tradicional (as garotas podiam fazer certas coisas; os rapazes, porém , podiam fazer tudo o que quisessem ), e, por outro lado, sentia que os tem pos m udavam e que j á não se tratava de esperar que encontrassem m arido. E, m esm o assim , m elhor que fossem financeiram ente independentes para nã o ter que viver sob a autoridade de um hom em . De m odo que, diante da pressão de sua m ulher, que estava em penhada em que as filhas tivessem um a profissão, transigiu e aceitou pagar a viagem e os estudos de Sônia na Inglaterra. Mas não estavam dispostos a que a filha fosse de au pair m orar com qualquer fam ília em um a cidade qualquer. Escolheram Cam bridge, berço de um a das m ais prestigiosas universidades e colleges. Na idade em que Sônia estava, m ais valia cercá-la do m elhor am biente possível... Ela lhe agradeceu abra-çando-o e beij ando-o com o quando era pequena, buscando as coceguinhas de seu bigode.

Em 7 de j aneiro de 1965, despediu-se de suas irm ãs e deu um forte apertão em Stalin, o velho cão que havia sido seu com panheiro de brincadeiras durante toda a infância. Os pais a acom panharam até o aeroporto de Milão, a um a oretta de distância. A neblina da m anhã deu lugar a um dia ensolarado e frio. Sônia se debatia entre a excitação de viaj ar sozinha pela prim eira vez e o m edo do desconhecido. Tinha dezoito anos e a vida toda pela frente. Um a vida que nem em seus sonhos m ais absurdos poderia ter im aginado.

"Para elas, sem pre o m elhor..." Stefano nunca foi m esquinho com suas filhas. A Lennox Cook School era um a das m elhores e m ais caras escolas de idiom as de Cam bridge, situada em um a bela rua um pouco afastada do centro. Orgulhava-se de ter tido o fam oso escritor E. M. Foster e n tr e seus professores de literatura, m as naqueles anos ele era m uito velho e só ia esporadicam ente para dar algum a palestra. Pelo preço da m atrícula, a escola se encarregava tam bém de encontrar um a fam ília inglesa para cada estudante que assim solicitasse, para que pudesse viver com o hóspede.

Com parado com o de Turim , o clim a de Cam bridge pareceu deprim ente a Sônia: o frio congelava os ossos por causa da um idade, caía um a garoa constante e anoitecia às quatro da tarde. Além do m ais, era um frio penetrante, porque, para econom izar, os aquecedores da casa eram m antidos desligados a m aior parte do dia. Para sua surpresa, o de seu quarto funcionava só com m oedas. Havia pensado que m orar no seio de um a fam ília inglesa seria com o m orar com qualquer fam ília italiana, onde tudo se dividia. Mas isso era desconhecer os costum es locais. Hospedar alguém era um negócio com o outro qualquer e, com o tal, tudo era contabilizado. Descobriu horrorizada que tinha de pagar cada vez que quisesse tom ar um banho, e que ia sair caro m anter o nível de higiene diária a que estava acostum ada. Mas o pior eram as refeições.

Nunca havia com ido couve fervida nem carne com geléia nem tortilla de batatas acom panhada de... batatas. Levantar-se pela m anhã e encontrar-se diante de um a torrada com feij ão branco em m olho de tom ate tirava seu apetite. E a torrada com espaguetes m oles e grudentos que lhe deram um dia pareceu-lhe um a piada de m au gosto, m as, ao ver que os outros lhe fincavam os dentes com prazer, percebeu que assim eram as coisas nesse país tão estranho. A isso se som ava a dificuldade que tinha de se expressar: era incapaz de m anter um a conversação fluente com a fam ília que a acolhia. Na realidade, sabia m enos inglês do que havia im aginado.

No início, pensou que nunca se acostum aria. Sua tim idez constituía um obstáculo para se relacionar. Evitava ver outros italianos porque estava ali para estudar, e não para se divertir. Dedicou os prim eiros dias a descobrir a cidade. A igrej a gótica do King's College e o rio cheio Je canoas com turistas eram dois de seus lugares preferidos. Mas havia m uitos lugares interessantes, com o a capela do Trinity College, com suas estátuas e placas em honra aos grandes personagens que haviam estudado ou pesquisado ali, com o Isaac Newton, Lord By ron ou o próprio Nehru. "ponte m atem ática", a prim eira ponte do m undo proj etada segundo a nálise das forças m atem áticas que agem sobre sua estrutura... Não lhe pareceu estranho que Cam bridge fosse considerada um a das cidades m ais belas da Inglaterra, m as isso não deixava de ser um pobre consolo para sua solidão. Depois das aulas costum ava andar pelas ruas do centro.

De vez em quando, entrava em um a das num erosas livrarias, principalm ente nas que tinham j ornais estrangeiros, para folhear algum a revista ou j ornal italiano. Esse fugaz contato com seu país era com o um bálsam o. Sentia tanta saudade, tanta falta dos seus, que, ao voltar a seu quarto gelado, seu coração se apertava. Mas por que diabos fui querer estudar em um lugar assim ? -perguntava-se enquanto dava um a forte inspirada em seu inalador.

Por m ais tím ida que fosse, era im possível não fazer am igos aos dezoito anos em um lugar com o Cam bridge, onde um em cada cinco habitantes era estudante. Havia de todas as nacionalidades e todas as raças e dedicavam -se a todo tipo de atividades durante o tem po livre, do esporte à arte dram ática, passando por ouvir m úsica ao vivo ou fazer piquenique no Orchard Tea Garden, uns j ardins em um a paragem idílica que parecia saída de um rom ance de Thom as Hardy e cuj o café servia um delicioso cheesecake. Eles é que im prim iam à cidade esse am biente cosm opolita, divertido e ao m esm o tem po interessante, pelo qual Cam bridge era m undialm ente conhecida. E m uitos eram com o Sônia, ou sej a, estrangeiros sem fam ília nem am igos. Precisavam uns dos outros.

Foi um rapaz alem ão quem lhe falou pela prim eira vez de um restaurante onde se com ia decentem ente. Christian von Stieglitz era um estudante de direito internacional do Chrisfs College, um rapaz alto, bem apessoado, com olhos de um azul intenso e olhar m alicioso. Meio inglês, m eio alem ão, falava vários idiom as, m as sentia predileção pelo italiano e pelo francês. E pelas italianas e francesas, de m odo que... que m elhor m aneira de unir o útil ao agradável que pululando pelas escolas de idiom as, cheias de belas estudantes! Foi assim que conheceu Sônia, e convenceu-a a conhecer o único lugar em Cam bridge onde se com ia decentem ente. Não era m uito caro, e tam bém não ficava longe da escola. O Varsity era conhecido por ser o restaurante m ais antigo da cidade e j actava-se de ter tido com o ilustres com ensais o príncipe Faissal e o duque de Edim burgo em sua época de estudantes. Dez anos antes, havia sido com prado por um a fam ília greco-cipriota, e desde então oferecia pratos m editerrâneos a sua num erosa clientela, que incluía tanto professores quanto alunos. Ficava em um edifício antigo de fachada de tij olo aparente pintada de branco, com duas grandes j anelas quadriculadas no andar superior. Era anunciado por um a placa discreta de letras pretas. Era um local estreito e das j anelas que davam para a rua era possível ver os edifícios do Em m anuel College, outra instituição m uito tradicional, onde o próprio Mr. Harvard havia estudado, e que lhe serviu de inspiração para fundar a universidade que leva seu nom e, perto de Boston.

Para Sônia, foi um a verdadeira revelação, e um consolo para seu pobre estôm ago. Era o m ais próxim o da com ida caseira que havia provado desde que chegara à cidade, de m odo que logo se afeiçoou aos m ezze, os aperitivos que incluíam m olhar pão em taram a, um crem e feito à base de ova s de peixe e lim ão, espetos de carne na grelha ou a especialidade da casa, o cordeiro ao forno, que derretia na boca com o se fosse m anteiga. Além disso, gostava do am biente. A pessoa podia ir sozinha com er no Varsity e não se sentir solitária. Mais de um a vez cruzou com um personagem que m ancava um pouco naquela época e sem pre estava carregando livros. Fazia pesquisas sobre cosm ologia na universidade e anos depois seu nom e daria a volta ao m undo. Cham ava-se Stephen Hawking, e tam bém era assíduo do Varsity .

Outro personagem que via ali ganharia fam a m undial, m as por outras razões. Sônia reparara nele várias vezes porque ocupava, j unto com um grupo de estudantes bagunceiros, um a m esa longa próxim a à sua. "Um daqueles rapazes se destacava por seu aspecto e por seus m odos", contaria Sônia. "Não era tão escandaloso quanto os outros, era m ais reservado, m ais gentil. Tinha grandes olhos pretos e um sorriso m aravilhoso, inocente e desconcertante ao m esm o tem po."

Uns dias depois, quando Sônia estava alm oçando com um a am iga suíça em um a m esa em um canto do andar de cim a, viu-o se aproxim ar acom panhado de Christian von Stieglitz, seu am igo alem ão. Depois da habitual troca de cum prim entos e gracinhas, o europeu disse:- Quero lhe apresentar m eu colega de apartam ento. Ele é da índia, cham a-se Raj iv... Apertaram -se as m ãos: "À m edida que nossos olhares se cruzavam pela prim eira vez", diria Sônia, "eu sentia m eu coração bater". Raj iv estiver a observando-a durante todo o alm oço, encantado com sua beleza serena.

Gosta dela? - havia perguntado Christian. - É italiana, eu a conheço... Então, apresente-a.

O alem ão estava surpreso, porque Raj iv não era m ulherengo, e sim bastante distante e tím ido. "A prim eira vez que a vi", contaria Raj iv, "soube que era a m ulher da m inha vida."

Nessa m esm a tarde decidiram ir os quatro a Ely , um a aldeia a 20 km de Cam bridge conhecida por sua soberba catedral rom ânica erigida dentro dos m uros de um m osteiro beneditino. Foram no velho Volskwagen azul de Christian, cuj o teto parecia m arcado de varíola. O responsável por isso havia sido Raj iv, que capotara duas vezes um dia em que saíra para dar um a volta. Dirigir era um a de suas paixões. Com o não tinham dinheiro para levá-lo a um a funilaria para arrum á-lo, tiveram que entrar no veículo e endireitar o teto a pontapés. De resto, o fusca era o sonho de todo estudante, porque significava ter um m eio de transporte particular para sair da rotina e descobrir o país a seu bel- prazer.

O passeio a Ely não teve nada de extraordinário, porém foi o m ais especial dos que Raj iv e Sônia fizeram j untos em toda sua vida. Aquele que nunca esqueceriam . Era um a tarde sem chuva, e parecia que os raios de sol acariciavam o m usgo dos m uros e ilum inavam os telhados de ardósia pretos e brilhantes pela um idade. Ely era um m aravilhoso povoado conhecido por abrigar o m aior conj unto de edifícios m edievais ainda em uso em toda a Inglaterra. Um lugar m ágico, onde era

fácil perder-se por entre as casas velhas e os j ardins antigos; lá, desfrutaram de vistas espetaculares da cam pina inglesa do alto dos torreões. Christian, que o conhecia bem , fazia as vezes de cicerone e lhes m ostrava os recantos m ais bonitos rom ânticos, com o um m ago tirando prodígios de sua cartola. Foi um a tarde tranqüila, na qual Raj iv e Sônia falaram pouco, deixando-se em balar por um sentim ento de plenitude que parecia ser m aior que eles. "O am or de Raj iv e Sônia com eçou ali m esm o, nos j ardins da catedral, nesse exato nom ento. Foi algo im ediato. Nunca vi dois seres se conectarem dessa form a, e para sem pre. A partir desse m om ento até o dia de sua m orte, foram inseparáveis", lem braria Christian m ais tarde.

PODE O AMOR SURGIR DE UMA MANEIRA tão instantânea, quase insolente? Quando Raj iv pegou a m ão dela enquanto passeavam à som bra dos m uros etustos da catedral, Sônia não teve forças para retirá-la. Pensou em fazer isso, m as não fez. Essa m ão quente e suave transm itia-lhe um a segurança, por que não dizer, um prazer im enso e profundo. Com o se durante toda sua vida estivesse esperando esse contato envolvente. Não a pôde retirar, m esm o que sua consciência lhe dissesse que devia fazer isso. Nos dias seguintes, tentou lutar contra esse sentim ento que deixava seu coração a galope e lhe provocava certa ansiedade, por ser incontrolável.

Em penhava-se em dom iná-lo, em não se deixar consum ir por esse fogo que o sorriso de Raj iv havia acendido dentro dela. As m ulheres não cedem às tentativas de sedução do prim eiro que chega, haviam lhe ensinado isso desde a m ais tenra infância. E ela havia cedido, m esm o que fosse só dando-lhe a m ão, passeando com o se fossem nam orados da vida toda. Não devia se conter, disfarçar os sentim entos, pôr os pretendentes à prova? Mas tudo o que se supunha que devia fazer se desm anchava contra aquele sorriso, esses olhos aveludados, essa voz doce que se partia porque Raj iv era quase tão tím ido quanto ela. Quer ir esta tarde ao Orchard?

Não, obrigada, hoj e não - respondeu ela com um nó na garganta, sem poder afastar seu olhar dos olhos dele.

É só um pouquinho, e voltarem os logo...

Ela negou de novo, dessa vez com a cabeça, e sorriu para não desanim á-lo, porque, no fundo, estava desej ando dizer sim . Raj iv não insistiu, ficou ali plantado, sem saber que cara fazer nem onde pôr suas m ãos, com o um m enino envergonhado que não sabe com o encarar um a negativa. Não era o protótipo do pretendente italiano, ao contrário. Era um pouco desaj eitado com as garotas, m as isso, em vez de dim inuir, aum entava seu encanto. Raj iv não tinha m alícia nem vulgaridade; a verborreia não era com ele. Era um rapaz sério, e seu sorriso parecia franco. Mas para Sônia sem pre existia a dúvida... E se ele quer se aproveitar de m im ? Durante um a tem porada, ela decidiu não ir m ais ao Varsity para não cair na tentação de encontrá-lo de novo. Melhor cortar o m al pela raiz. Mas, então, sua vida voltou a ser tão cinza quanto antes, um a vida sem sabor... nem cor. A atração por esse rapaz será só para não ficar sozinha? - perguntava-se em seu quarto gelado enquanto fincava o dente em um a m açã. Com o pode ser um sentim ento verdadeiro se quase nem conversam os? Com o se pode querer o que não se conhece? Todas essas perguntas se am ontoavam em sua m ente enquanto tentava se convencer de que não, não podia ser, sua im aginação estava brincando com ela, não sentia nada por aquele rapaz. Depois, em m om entos de lucidez, percebia que ele devia ser m uito diferente dela em tudo. Era de outro país... E de que país! Nem da Europa nem dos Estados Unidos, m as de um lugar distante e exótico do qual ela não sabia quase nada...

Um indiano, nada m enos! De outra raça, com a pele um pouco cetrina e que com certeza professava outra religião, que teria sido criado com outros costum es, quase m edievais... Seria um a loucura se apaixonar por alguém assim ! - dizia-se então. O m undo não estava cheio de histórias de indianos ou africanos que conhecem européias e que, quando as conquistam e as levam para seus países, transform am -nas em escravas? Ela se via, de repente, com o o capricho passageiro de um príncipe oriental, ou algo parecido. Então, por um m om ento se esquecia de tudo e voltava a ser ela m esm a, um a estudante italiana perdida em Cam bridge, desej ando que chegassem as férias para voltar para casa e acabar com a vertigem da solidão e da incerteza que, sem saber, estava transform ando-a em adulta.

Mas a lem brança daquele sorriso não desaparecia com a m era vontade de apagá-lo, com o se bastasse apertar um botão para dar ordens ao coração. O sorriso de Raj iv se infiltrava pelas frestas de sua m ente e, em um m om ento de distração, tornava a ocupar um lugar central em sua im aginação. Com o era m uito m ais agradável deixar-se levar pela fantasia que ficar lutando contra os ditam es do coração, acabava dando rédea solta a suas divagações... O que esse sorriso tinha que a seduzia tanto?

Era o refinam ento de seus m odos e sua m aneira de se expressar que tocaram seu coração? Era sua com postura de príncipe oriental? Raj iv falava com o m elhor sotaque inglês, com o se houvesse vivido toda sua vida em Cam bridge. Era cortês e galante, um pouco à m oda antiga, qualidades que faltavam nos outros estudantes. Christian, que o conhecia havia vários m eses, acabava de saber que era neto do hom em que havia sido prim eiro-m inistro da índia, e isso é algo que im pressiona, ou pelo m enos atiça curiosidade quase tanto quanto o fato de Raj iv não o ter m encionado antes. A quem perguntava, Raj iv explicava que seu sobrenom e não tinha relação algum a com o do Mahatm a Gandhi, m as abstinha-se de com unicar seu parentesco com Nehru. Justam ente do que m ais gostava na Inglaterra? Era da tranqüilidade que lhe proporcionava viver de m aneira anônim a. Durante toda sua vida na índia havia sido o neto do prim eiro governante da índia independente, um ícone venerado por m ilhões de pessoas.

Agora que podia ser ele m esm o, queria aproveitar ao m áxim o. Apesar de ser quem era, não tinha dinheiro para sair. Gostaria de tê-la convidado a ir a um dos poucos clubes noturnos onde se podia ouvir m úsica ao vivo, que se cham ava Les Fleurs du Mal, m as o dinheiro não chegava para tanto. Christian se surpreendia com a diferença abism al que havia entre os dois grandes grupos de estudantes asiáticos em Cam bridge, os paquistaneses e os indianos. Os prim eiros costum avam ter m uito dinheiro e o desperdiçavam , m as os indianos estavam todos na lona. A razão se devia à restrição im posta pelo governo indiano a seus cidadãos para lim itar a com pra de divisas, não podendo trocar m ais de 650 libras a cada vez que viaj avam .

"A beleza de Cam bridge", lem braria Christian, "é que era um grande nivelador de classes sociais e econôm icas."

A vida noturna era praticam ente inexistente porque as portas dos colleges fechavam às onze. Tinham que sair de dia, e as distrações eram m uito sim ples: passear, andar de canoa pelo rio Cam , passar a tarde nos digs de um ou outro... Da segunda vez que Raj iv lhe propôs sair, ela aceitou, e ficaram ouvindo m úsica no m inúsculo aloj am ento de estudantes que ele dividia com Christian, e transbordava de am igos e de discos. Sônia acabou essa tarde com a certeza de que Raj iv gostava dela de verdade. Dava até pena vê-lo tão apaixonado e tão im potente para expressar seus sentim entos. Sônia percebeu que ele era vítim a de um a torrente de sentim entos que o reviravam por dentro tanto quanto a ela. Nesse dia não estavam de bicicleta porque chovia, de m odo que ele a acom panhou andando até sua casa, um bom trecho, porque ela m orava m ais perto do centro. Estavam tão entretidos em sua conversa que se perderam pela cidade deserta enquanto ele abria seu coração para ela. Confessou que adorava m orar na Inglaterra porque ali se sentia livre pela prim eira vez em sua vida.

Contou-lhe que desde m enino havia vivido escoltado por guardas de segurança na casa do centro de Nova Délhi, onde seu avô atuava com o prim eiro-m inistro. Contou-lhe com o não gostava de ser reconhecido com o filho da fam ília à qual pertencia, porque cerceava seus m ovim entos e sua libe rda de , porque nunca sabia quem eram realm ente seus am igos, pois as pessoas se aproxim avam com segundas intenções devido a sua proxim idade do poder. Falou da sensação tão prazerosa que sentiu na prim eira vez que dirigiu o velho fusca de Christian, e que o fez se sentir livre com o nunca antes. Tam bém falou da m orte de seu pai, ocorrida quatro anos atrás. Da de seu avô no ano anterior, que doeu ainda m ais porque o am ava com o a outro pai. "Sim ", disse Sônia tim idam ente, "lem bro disso." Sônia lem brava vagam ente de ter visto, no ano anterior, nos noticiários da televisão, im agens do funeral de Nehru, grandioso, solene e triste.

Raj iv falava de tudo um pouco, m isturando tudo, m isturando em desordem lem branças com desej os, nostalgia com esperança, anseios com pesares. Sônia entendeu que, além da diferença de raça ou de nacionalidade, esse rapaz pertencia a um m undo ao que ela nunca havia tido acesso, nem sequer m ero conhecim ento. Mais que o fato de ser da índia, o que m ais a separava dele era a órbita em que ele girava, tão longe da vida de classe m édia de um a italiana de Orbassano com o a Terra da Lua. Tudo os separava, m as, e talvez por isso m esm o, a atração m útua era ainda m ais forte. Ela sim bolizava para ele tudo o que desej ava: ter um a vida norm al, não era indiana, não era inglesa, não era identificável em nenhum degrau da hierarquia social. Ela representava o anonim ato da classe m édia; em )utras palavras, a liberdade, que é o que m ais podia desej ar um rapaz de 18 anos que havia crescido em um a gaiola dourada.

Continuar: parte 2 de 6