O Sári Vermelho

Javier Moro · Capítulo 3 de 6 · parte 1/6

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O Sári Vermelho

Ato Ii - o Anjo Exterminador

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Que pode o rio contra o fogo, a noite contra o sol, as trevas contraa lua? Aforismo sânscrito

 

Usha ligou para Indira, que estava em turnê no estado de Bihar, para anunciar-lhe a boa-nova. Um ano e m eio depois do nascim ento de Rahul, a fam ília se orgulhava com esse novo m em bro. A prim eira-m inistra estava radiante. Que m ais podia pedir? Era a líder indiscutível do país, sua posição era inatacável, e ainda por cim a a vida a presenteava com um a neta, com o um a coroação. Disposta a m im á-la m uito, m antinha-se sem pre atenta a suas necessidades, e, fiel a seu estilo, m andava m ensagens a Sônia dos lugares m ais insuspeitados, com perguntas do tipo: "com o a m enina passou a noite?". Ou "Rahul continua resinado?". Esse m om ento de regozij o a faz lem brar outro igualm ente intenso, quando havia decidido se casar com Firoz. "Sinto um a serena felicidade m uito dentro de m im que nada nem ninguém pode m e roubar", escrevera a seu pai. Nehru havia respondido na prisão, suavizando o entusiasm o de sua filha da altura de sua idade e experiência: "A felicidade é algo fugaz, sentir-se realizado é, talvez, um sentim ento m ais duradouro". Nehru sabia, e Indira j á havia aprendido, que a felicidade é tão frágil quanto a m ais fina das porcelanas. Mais vale preservá-la e desfrutá-la enquanto durar, porque pode se quebrar -ou podem roubá-la.Indira se sentia certam ente realizada, e em plena posse de suas faculdades. Havia se acostum ado ao poder, não pelo que derivava dele em term os m ateriais, porque suas parcas necessidades estavam am plam ente cobertas e não tinha am bição nesse sentido, m as pelo sentim ento de plenitude que lhe proporcionava. O sentim ento de que era fiel a seu destino pelo fato de pertencer à fam ília em que nasceu. A certeza íntim a de que cum pria seu dever, que não brotava de um a escolha pessoal, e sim da herança m oral que havia recebido de seu pai, e este do de le . O sentido m essiânico que Nehru havia instilado nela acabara entrando fundo em seu espírito.

Mas Indira tam bém havia aprendido que o poder, a fam a e a popularidade não duram eternam ente. Com o continuar subindo quando se chegou ao topo? Ou será que, um a vez no alto, só se pode descer? Eram considerações que a assaltavam em m om entos difíceis, cada vez m ais num erosos. "Eu m e sinto prisioneira", escreveu a sua am iga Dorothy Norm an em j unho de 1973, "da equipe de segurança, que pensa que pode disfarçar sua incom petência cercando-m e de m ais e m ais gente, m as principalm ente porque percebo que cheguei a um final, que j á não se pode crescer m ais nessa direção." Na realidade, se pudesse, teria se concentrado exclusivam ente nos tem as de política internacional, porque eram os de que realm ente gostava. Sentia-se com alm a de estadista: as grandes questões e os grandes desafios a inspiravam . Havia assinado um acordo com Bhutto que garantia um a longa paz com o Paquistão; queria resolver o conflito da Caxem ira, país de seus antepassados; procurava norm alizar as relações com os chineses.

Porém , a política interna, as disputas entre partidos, as traições, as alianças forçadas, o bulício da vida pública indiana sufocavam -na. "Não há dias norm ais para um a prim eira-m inistra da índia", Sônia a ouvia Indira dizer enquanto servia o chá para ela e sua am iga Pupul. "Em um dia bom , no m ínim o há dois ou três problem as m uito urgentes. Em um dia ruim , talvez haj a um a dúzia. Depois de um tem po, você consegue viver com isso, m as nunca se acostum a totalm ente. Se você se acostum a, então é m elhor deixar o cargo. Um prim eiro-m inistro deve estar sem pre um pouco desgostoso, sem pre buscando um equilíbrio.”

Pessoalm ente, a deusa Durga continuava vivendo a sua m aneira austera. Mal usava j óias, reflexo de sua personalidade frugal. Seus sáris m ais apreciados eram os que seu pai havia tecido na prisão. Tinha, porém , um a bela coleção que utilizava de m aneira "política", no sentido de que os usava segundo o lugar e o povo que pretendia visitar. Tinha sáris de todas as partes do subcontinente. Tam bém havia em seu guarda-roupa traj es regionais, que usava quando saía em turnê pelos territórios do nordeste, para deixar claro que o sári não era a única peça que as m ulheres usavam na índia.

Sônia aprendeu a reconhecer toda essa roupa e a aj udava a escolhê-la antes de cada viagem . Durante o conflito de Bangladesh, Indira havia se inclinado pelo verm elho, com o se a guerra houvesse realçado sua sensibilidade para essa cor, que tradicionalm ente era vetada às viúvas. Indira havia confessado, durante essa época, que via tudo com o se fosse através de um filtro verm elho, e que essa cor a havia acom panhado ao longo de toda a guerra. Mas depois voltou a seus gostos de sem pre, ou sej a, todas as cores exceto o m alva e o violeta. Preferia os tons lum inosos aos tons pastel, m uito especialm ente o verde. Com o era difícil para ela sair para fazer com pras, Sônia e Usha traziam os sáris para casa. Rapidam ente Indira escolhia os que queria. Sabia usá-los com estilo, e ficava tão elegante em um sim ples sári de algodão tecido à m ão quanto em um luxuoso, feito de seda de Varanasi.

Sônia havia se transform ado na presença indispensável nessa casa. Indira a am ava com o à filha que não tivera. Agora que havia m ais recepções e j antares de dignitários estrangeiros, Sônia assum iu com sua sogra o papel que Indira tinha quando m orava em Teen Murti House com seu pai. Era m uito conscienciosa para escolher os cardápios, nos quais nunca incluía carne de vaca nem de porco. Os hindus vegetarianos não com iam ovos, m as sim laticínios, e os m ais estritos, os vegans, não adm itiam nada anim al. Tam bém preparava com ida halal para os m uçulm anos e kosher para os j udeus. Cuidar para que tudo estivesse em perfeita ordem não era tarefa fácil, principalm ente quando chegavam estrangeiros. Era difícil obter produtos indispensáveis para um bom cardápio ocidental, até m esm o no arm azém da em baixada norte-am ericana. Sônia aprendeu a planej ar as refeições com m uito cuidado, m isturando pratos indianos e europeus segundo a disponibilidade dos ingredientes. O problem a é que novam ente havia escassez de alim entos básicos. Depois de seis anos de m onções abundantes, as chuvas haviam tornado a falhar. A nuvem de pó que asfixiava Nova Délhi era tão densa que Sônia não se afastava de seu inalador. Via a desordem das ruas de dentro de seu Am bassador branco com vidros pretos. Por todo lado havia m anifestações, ruas interditadas, gente que protestava. "Indira não acaba com a pobreza", dizia um hom em arm ado de um m egafone em frente a um a pequena m ultidão em um cruzam ento de Nova Délhi, fazendo alusão ao slogan eleitoral dela, "m as está acabando com os pobres m atando-nos de fom e!"

Vitória não havia perdoado o vencedor, e a índia estava ferida. O atendim ento aos refugiados havia esvaziado os silos do país. Os cofres do Estado estavam a zero. A crise petroleira m undial fizera o preço do petróleo disparar e a inflação estava fora de controle. Se antes Sônia levava vinte m inutos para chegar a Connaught Place, agora tinha que prever m ais que o dobro por causa das voltas que precisava dar, tam anha a desordem nas ruas. Era paradoxal ter que percorrer a cidade fazendo com pras para banquetes de luxo enquanto os pobres passavam fom e nas ruas. Essa era um a realidade à qual Sônia não se acostum ava. De volta a casa, certificava-se de que cada lâm pada estivesse funcionando e que as torneiras dos banheiros não pingassem . Assegurava-se de que os convidados altos teriam cadeiras apropriadas e que os m uito baixinhos poderiam contar com apoios para os pés.

QUANDO ESTAVA EM CASA, SEMPRE que podia, Indira continuava utilizando seu pequeno estúdio na varanda adj unta a seu dorm itório, a despeito de dispor de um escritório grande em Akbar Road, a uns 50 m de distância. Mas, dentro de casa, sentia próxim a a presença dos seus, podia ouvir o m ovim ento dom éstico, via Sônia passando com o bebê no colo, e isso tornava sua vida m ais doce. Para ela, o trabalho, o lazer e os deveres fam iliares não eram atividades com partim entadas, m as que fluíam um as nas outras. Rendia m ais quando se dedicava a várias coisas ao m esm o tem po. "Quanto m ais você faz, m ais pode fazer", era sua m áxim a favorita. Suas faculdades funcionavam sim ultaneam ente, e isso, talvez, fosse o segredo de poder despachar m uito m ais trabalho que as pessoas norm ais. Sônia observou que, para sua sogra, o trabalho e o descanso não eram períodos separados. Tratava-se de fazer algo diferente, m esm o que fosse por pouco tem po, com o ler, arrum ar arranj os de flores, organizar livros ou roupa ou conversar com a fam ília. Durante o alm oço, Indira, às vezes, fazia palavras cruzadas, o que parecia estranho com a quantidade de problem as que a espreitavam . "Aj uda a relaxar e a organizar as idéias", dizia. Em casa, m antinha o costum e de deixar bilhetes: "Hoj e você perdeu um a foto bonita", deixou escrito para Raj iv um dia. "Esta m anhã, em Akbar Road, dois periquitos pousaram por um longo tem po no galho de um a árvore. Tam bém havia dois pica-paus voando sem parar."

Sônia aprendeu m uito com ela, com a relação afetuosa que am bas haviam tecido e que se consolidava com o tem po. Os problem as de Indira, que em grande parte eram os problem as da índia, acabavam sendo discutidos em casa. Não se falava tanto do dia-a-dia da vida política quanto dos grandes tem as: a severa crise econôm ica que havia com eçado em 1972 e que a m e a ç a va se transform ar na m ais séria de todas, a superpopulação que asfixiava o desenvolvim ento do país, as eternas tensões entre com unidades religiosas, a ocupação de terrenos públicos por favelados em todas as cidades ou os efeitos dos desastres naturais, eternos com panheiros da existência do hom em na Ásia. O am or que Indira sentia pelo povo contagiou tam bém Sônia, que se com ovia com o papel de sua sogra com o caudilho dos pobres, um eco de se us sonhos adolescentes com heróicos m issionários. Além do m ais, adm irava-a não tanto por se us êxitos na vida política, e sim porque era espontânea e inform al, totalm ente carente de soberba. A italiana apreciava "sua capacidade de am ar e de dar". "Para nós, era alguém que dividia generosam ente seus am plos conhecim entos, sua doçura e sua presença. Quando viaj ava, escrevia-nos sobre seus encontros e suas experiências. Quando estava aqui, velava por todos e cada um de nós." Indira levava m uito a sério os pequenos acontecim entos do dia-a-dia de seus netos, com o o prim eiro dente ou os prim eiros passos. Ficava m aravilhada com o fenôm eno extraordinário, tão velho quanto a hum anidade e, no entanto, sem pre novo, de um bebê desenvolver seu conhecim ento do m undo exterior, com essa inesgotável sede de aventura, essa paixão pela investigação de tudo o que o cerca...

"Voc ê vai ver que m uito rapidam ente o bebê passa por m ilênios de história hum ana, e inconscientem ente, e em parte conscientem ente tam bém , vai viver dentro de si a história de sua raça", escrevera um a vez seu pai, e ela quis m ostrar a carta a Sônia. A italiana se com ovia porque, a despeito de toda a pressão do m undo exterior que Indira recebia, continuava sensível ao espetáculo, pequeno e grandioso ao m esm o tem po, de ver seus netos crescerem .

APESAR DE ESTAR MUITO ATENTA ao bem -estar de sua sogra, Sônia m antinha sua vida privada com Raj iv. O fato de haver um j antar na sala principal não significava que tivessem que com parecer tam bém . Às vezes ficavam , outras não. Eles tinham sua vida fam iliar m uito organizada, tão estável quanto seu relacionam ento. "Sem pre se am aram m uito; nunca vi um casal tão unido desde o dia em que se conheceram ", diria Christian, o am igo que os havia apresentado em Cam bridge. "Nosso casam ento funcionou sem pre m uito bem , desde o prim eiro m om ento. Sônia foi sem pre m uito com preensiva", confessou Raj iv, que havia sido prom ovido a piloto e agora voava em um avião inglês, o Avro HS-748, outro digno sucessor do fam oso DC-3 Dakota. Seus colegas da em presa de aviação o consideravam um bom profissional, m as às vezes debochavam dele por ser m uito m eticuloso com os planos de voo, com os problem as técnicos e com os horários. Não suportava coisa m alfeita, e sem pre estava disposto a assum ir um voo se por algum a razão um colega lhe pedia o favor de substituí-lo. Era bom cam arada, franco e indiferente à hierarquia.

Indira estava preocupada com seu outro filho, Sanj ay . "Raj iv tem um em prego, m as Sanj ay não e está m etido em um em preendim ento caro. É m uito parecido com igo quando tinha a m esm a idade - com suas asperezas tam bém - tanto que m e dá pena ver o sofrim ento que precisa suportar." Dois anos depois de ter conseguido a licença do governo para fabricar um carro autóctone, a em presa de Sanj ay não havia produzido um único veículo que pudesse ser com ercializado. Aj uda não lhe havia faltado, dada a posição privilegiada que a posição de sua m ãe lhe proporcionava. Havia conseguido fazer com que alguns políticos e hom ens de negócios, na intenção de congraçar com Indira, investissem grandes som as em sua em presa. Sabiam que, caso perdessem o investim ento, poderiam pedir favores políticos. Do chefe do governo do estado de Hary ana, um indivíduo gordinho de óculos cham ado Bansi Lal, que tentava se aproxim ar da cúpula do poder de qualquer m aneira, havia obtido 50 ha de terra agrícola na periferia de Délhi. "Quando você caça o filhote, com certeza a m ãe vem atrás", declarara Bansi Lal, com um a lógica prim ária, a um am igo. Quando a im prensa disse que foi necessário "realocar" m ais de m il cam poneses para m ontar a Fábrica Maruti, o Parlam ento reagiu com virulência ao que cham ou de um novo ato de "flagrante nepotism o". O preço conseguido era suspeito, e a localização dos terrenos, próxim os a um antigo arsenal do Exército, violava as leis do governo que proibiam erguer um estabelecim ento industrial a m enos de 1 km de um a instalação de defesa. Mas nunca se pôde provar que houve suborno. Indira ficou calada, com o se não fosse com ela, a despeito de seu principal conselheiro e hom em de confiança a advertir sobre a ingenuidade dos planos de seu filho e sua inexperiência com proj etos industriais.

O fracasso de Sanj ay em produzir um carro poderia afetar seriam ente sua posição política -disse a ela. - O Maruti pode ser a brecha que os partidos da oposição estão procurando em sua couraça.

Indira ergueu a vista para seu conselheiro, olhou para ele por alguns segundos e não respondeu. Sentia um a m istura de fé e com paixão por seu filho que a im pedia de ver a realidade tal com o era.

Mas havia outro potente fator que contribuía para a cegueira de Indira: seu im enso poder. Os hom ens que Indira escolhia para postos relevantes adquiriam , pelo m ero fato de terem sido designados por ela, um poder enorm e para dispensar favores e patrocínio. Contavam com um a gigantesca fonte de corrupção, que eram as m edidas que o próprio partido havia posto em m archa para controlar a atividade econôm ica com o parte de seu program a socialista. Para fazer qualquer negócio, para abrir qualquer em presa, para im portar bens ou peças de substituição era necessário um sem -fim de licenças, perm issões e autorizações. Um sistem a que cham aram de License Raj , algo assim com o o "Im pério da Perm issão". Burocratas e políticos tinham , ali, a possibilidade de enriquecer trocando favores por dinheiro ou por outros favores. O License Raj adubava o terreno a cotas ainda m ais altas de corrupção. E Sanj ay dedicou-se a pescar nessas águas.

Indira tinha ciência da influência que o dinheiro e o poder exerciam sobre os que estavam a sua volta, m as achava que certo grau de corrupção sem pre havia existido e era parte do sistem a. O im portante era que não se descontrolasse. Além do m ais, fechar os olhos para as corruptelas de sua gente era tam bém um a m aneira de m antê-la am arrada. Certam ente, Indira não era o único caso - na índia ou no m undo - de líder político pessoalm ente inatacável, m as que fazia vistas grossas diante da corrupção dos outros. Ela achava que eram assuntos de pouca im portância com parados, por exem plo, com os núm eros que acabavam de ser publicados, que m ostravam que m enos de 20% das m ulheres da índia sabiam ler e escrever, e no estado de Bihar só 4%... Ou que a população do país ia passar da m arca dos 700 m ilhões, ou sej a, m ais que o dobro da população no m om ento da independência...

A esse ritm o, em poucos anos, a população da índia ultrapassaria a da China. Esses sim eram pr oble m a s que exigiam a m áxim a atenção. Com o tam bém a onda de greves, o descontentam ento popular e o espectro da fom e. Até Raj iv e Sônia, que saíam pouco, com eçaram a notar a corrupção pela m aneira de vestir das m ulheres e das filhas dos m em bros do Partido do Congresso, que agora usavam sáris de seda im portada, j óias de diam antes e sapatos italianos quando iam às recepções oficiais.

A DESPEITO DO APOIO TÁCITO DE SUA MÃE, o proj eto de Sanj ay não decolava. Todos os protótipos tinham defeitos na direção, na caixa de câm bio, na suspensão e no circuito de refrigeração. Um dia, convidou Sônia a testar um protótipo no circuito ao redor do perím etro da fábrica. Sanj ay queria m ostrar que seu veículo era capaz de atingir 100 km por hora, m as o terreno estava tão cheio de buracos e m ato que Sônia, m orrendo de m edo, pediu-lhe que reduzisse a velocidade. Mesm o sendo novo, o carro parecia velho. As portas não fechavam bem , a suspensão era duríssim a e o barulho do m otor, ensurdecedor. Mas Sanj ay não via esses defeitos. Tanto que, em m aio de 1973, pensou que finalm ente podia apresentar um m odelo à im prensa e convidou um a j ornalista da revista Surge para testá-lo. O carro aqueceu e perdeu óleo. Nas oficinas, a j ornalista notou que havia só cinco carros sem pintar e m ais quinze em processo de fabricação. Os m otores eram encaixados m anualm ente e não havia sinais de um a linha de m ontagem .

Percebeu que o Maruti, em vez de ser o carro barato produzido em m assa que o governo queria, era um produto artesanal de m uito baixa qualidade.O problem a é que Sanj ay havia arrecadado m uito dinheiro e estava enrolado. No início, com o tam bém não podia ligar diretam ente para aqueles que tinham condições de aj udá-lo financeiram ente, utilizava os serviços de um dos secretários de sua m ãe, um hom em de cabelo engom ado penteado para trás e um largo sorriso m ecânico cham ado R.

K. Dhawan (havia sido taquígrafo de Nehru), que viu um a boa oportunidade, cultivando o contato com Sanj ay , de m elhorar sua posição em relação a seu chefe. Ele se encarregava de ligar para os em presários e hom ens de negócio do núm ero 1 de Safdarj ung Road e eles iam correndo, porque não queriam perder a oportunidade de fazer um favor à prim eira-m inistra, aj udando seu filho. É possível que pensassem que a própria Indira se interessava por esses negócios, m as na realidade ela ignorava absolutam ente tudo acerca das m anobras de Sanj ay .

Mais adiante, Sanj ay pediu um depósito de m eio m ilhão de rupias a cada um dos 75 concessionários que havia designado em troca da prom essa de entregar os prim eiros carros para venda nos seis m eses seguintes. Tam bém recorrera aos bancos, estatizados recentem ente por sua m ãe, e conseguira créditos sem garantia no valor de 8 m ilhões de rupias. Mas o carro continuava não se m aterializando, e a inépcia de Sanj ay veio à luz. Para defender-se dos ataques, cada vez m ais num erosos, ele atribuía seu fracasso à burocracia e à quantidade de obstáculos adm inistrativos que necessitava vencer. Certa razão tinha, m as se alguém estava em condições de lidar com as dificuldades e os obstáculos do License Raj , era ele. Ainda assim , pôs a culpa nos outros. Mas o protesto dos deputados tornava-se m uito estridente e os j ornais com eçaram a falar do assunto Maruti com parando Indira a seu velho inim igo Nixon. O assunto Maruti, segundo a im prensa, era o Watergate de Indira.No fim de 1973, angustiada diante da proporção que o assunto ganhava, Indira pediu a seu m inistro da Econom ia que desse um a olhada nos papéis do Maruti. Sônia a notava m uito preocupada. Sua sogra tinha certeza de que a oposição estava usando o assunto de Sanj ay para destruí-la, e não achava j usto. Continuava pensando que seu filho m erecia um a oportunidade. Um dia lhe contou que em sua j uventude havia conhecido um padre católico que havia construído um avião em duas garagens em Bom baim e que costum ava levar seus am igos para sobrevoar a baía. "Se esse hom em conseguiu construir um avião... Por que Sanj ay não pode construir um carro?", perguntava.

As razões da incapacidade de seu filho de im itar o padre católico ficaram claras na reunião que se fez entre Indira, Sanj ay e o m inistro da Econom ia, Subram anian, que havia sido o arquiteto da "revolução verde". O m inistro pediu a Sanj ay o inform e do proj eto. Não pode haver inform e do proj eto antes de se realizar o proj eto - respondeu Sanj ay . O m inistro explicou-lhe que, m esm o que pudesse proj etar um carro, devia ter um inform e com a especificação de cada com ponente, a m aneira com o seriam produzidos e o custo por peça. Isso não é m ais necessário - respondeu Sanj ay com seu quê de arrogância. - Isso são velhas m aneiras de agir.

O m inistro disse a Indira que seu filho, por m ais dinâm ico que fosse, carecia dos conhecim entos necessários para vencer em tam anho em preendim ento. Prom eteu-lhe conseguir a aj uda de profissionais para aconselhá-lo, m as Sanj ay opôs-se a isso com veem ência. Não queria que ninguém lhe fizesse som bra nem perder o controle de seu negócio. Tudo pressagiava que Indira ouviria seu m inistro, m as não o fez. Presa entre seu dever de governante e a fé cega que tinha em seu filho, não só ignorou os conselhos de Subram anian, com o tam bém afastou os conselheiros m ais críticos para com Sanj ay. O poder absoluto de que Indira dispunha agora exigia gente sem caráter e m aleável a sua volta. Não adm itia som bras, nem discrepâncias, nem crítica, m esm o que fosse am istosa. O poder, que estava envenenando o filho e cegando a m ãe, só adm itia subm issão.

Raj iv nunca havia gostado do proj eto de seu irm ão, e via que o sonho de um m egalôm ano podia prej udicar a reputação de sua m ãe e, por extensão, do resto da fam ília. Os dois irm ãos tiveram seu prim eiro grande desencontro de adultos quando Raj iv, ao voltar de um a viagem , soube que Sanj ay havia convencido Sônia a assinar vários docum entos que a tornavam sócia de um a nova em presa, Maruti Technical Services, com salário, bonificações e gastos de viagem inclusos. Tam bém constavam com o sócios os pequenos Rahul e Priy anka. Com o você pôde fazer isso? - disse enfurecido a seu irm ão. - Não quero acabar suj o com suas m anobras, nem que você m eta Sônia e as crianças em confusões... Confusão nenhum a...

Com o não? Quanto tem po acha que vai levar para a oposição saber disso? Não é nada ilegal.

Claro que é. Esqueceu que Sônia, por lei, não tem direito a possuir ações de um a em presa indiana por ser estrangeira?

Sanj ay ergueu os om bros, com o se aquilo não tivesse a m enor im portância. Raj iv estava irritado com Sônia tam bém .

Aceitei para fazer um favor a seu irm ão - disse ela. - Ele sem pre foi m uito carinhoso com igo. Se m e pede um favor, não posso lhe dizer não.

Mas você assinou que vai receber um salário, não percebe? Assinei às cegas, não sabia do salário, nem nunca tive a intenção de receber nada, você sabe... Você vai ver com o cedo ou tarde a confusão do Maruti vai acabar respingando em nós. Raj iv estava furioso, com o poucas vezes Sônia o havia visto. Sob a denom inação de em presa de consultoria, era na realidade um a fachada criada para desviar dinheiro da em presa m atriz Maruti Lim ited para as m ãos de Sanj ay e dos que haviam investido grandes som as na fábrica de carros que não existiam . Agora Raj iv só queria um a coisa: afastar-se com pletam ente de tudo o que tivesse a ver com o Maruti.

Os DOIS IRMÃOS HAVIAM SE CRIADO na m esm a casa, m as desde a m ais tenra infância haviam m ostrado acentuadas diferenças. A professora da escola infantil que lhes deu aula descrevia Raj iv com o um m enino gentil, dócil, um estudante correto. Porém , Sanj ay era rebelde, destrutivo, teim oso, sem interesse algum pelas atividades da escola, arrogante com seus professores e m uito difícil de lidar. Cresceu com o um adolescente turbulento e caprichoso, m exendo com carros e atraindo duvidosas am izades. Am bos entraram na Doon School, o colégio m ais elitista da índia, criado à im agem e sem elhança das grandes instituições educacionais britânicas com o Eton ou Harrow. Mas Sanj ay não agüentou a disciplina nem o ritm o de estudos. Tinha tão pouco interesse pela leitura que em um a entrevista que lhe fizeram quando adulto não conseguiu citar um único livro que o houvesse influenciado ou inspirado, nem sequer os escritos por seu avô. Só gostava das atividades da oficina m ecânica. Vivia obcecado com carros e aviões. A despeito de ser quem era, foi expulso do colégio. Foi quando Indira, desesperada, m andou-o fazer um curso na Rolls-Roy ce na Inglaterra.

" O que m ais gostava era falar de política indiana e debochar da política inglesa", diria seu supervisor antes de acrescentar: "Um a vez, quando lhe cham ei a atenção por causa de um erro que havia com etido, ele disse: Vej a bem , os britânicos federam a índia durante séculos, e agora eu vim feder a Inglaterra.”

Criado entre prim eiros-m inistros que as pessoas adulavam com o deuses, Sanj ay acabou pensando que a índia era seu dom ínio pessoal. Nunca conheceu privações, ao contrário de sua m ãe e seu avô. Nehru, depois de um a vida de luta, dava rédea solta a sua vontade de m im ar seus netos, com o se fazendo isso com pensasse os sofrim entos que havia padecido. Às vezes, dava-lhes presentes excêntricos, com o um crocodilo, que se tornou o m ascote preferido de Sanj ay até que Indira acabou m andando-o para o zoológico quando quase m ordeu seus dedos. Sanj ay tam bém nã o herdou deles seu im enso am or pelas pessoas da índia nem sua genuína com paixão pelos pobres. Nunca se com oveu ao ver o rosto esquelético de velhas m ulheres chorando seus m ortos, ao olhar nos olhos dos cam poneses que contem plavam seus cam pos rachados pela seca, nunca sentiu o silencioso clam or de um povo que havia séculos pedia proteção. Sanj ay parecia se incom odar com o atraso de seu país e não entendia sua com plexidade. Era um rebelde contra a tradição, im paciente com as leis e os regulam entos. Passava de carinhoso e atento a franco e brutal em um piscar de olhos, m as essa brusquidão era chocante em um país onde as relações entre as pessoas estão im pregnadas de um a antiga cortesia, com o um a patina, produto de m ilhares de anos de ininterrupta civilização. Para ele, a vida era um j ogo que ele devia ganhar e os problem as da vida eram obstáculos que devia vencer para conseguir chegar à m eta. E tinha pressa. Pressa de m udar as coisas, de chegar antes, de acum ular um poder que não lhe cabia. Tinha tanta pressa que não se im portava com os m eios para chegar ao fim .

Seu irm ão crescera em um a direção oposta. Desde pequeno havia sido sem pre m ais sensível ao sofrim ento dos outros. Herdara a sensibilidade de sua m ãe para com os m ais desfavorecidos e seu am or à índia, e isso se m anifestava nas fotos que fazia. Quando j ovem , visitava os am igos de seus pais que estavam doentes, espontaneam ente, sem que ninguém o incitasse a isso. Um dia, quando tinha dezessete anos, Indira o encontrou quando foi dar os pêsam es à fam ília de um am igo e veterano líder do Congresso que acabava de m orrer. Foi assim que soube que seu filho o estivera visitando nos últim os dias. Raj iv era o tipo de pessoa que não hesitava em parar e oferecer aj uda se visse um acidente na estrada; e, se fosse necessário, levava a vítim a ao hospital e depois se preocupava com sua evolução. No j ardim de casa, vigiava um ninho de pintarroxos e, se encontrava um filhote ferido, levava-o à clínica de pássaros de Chandni Chowk, arriscando-se a chegar tarde ao trabalho. Raj iv era feliz com o que tinha, com Sônia, seus filhos, seus cães e o luxo de poder se dedicar a suas paixões.

Não pedia m ais à vida, e j ustam ente nisso consistia sua sabedoria. Mas sua m ãe não parecia apreciá- la; em vez de sabedoria, ela via nisso falta de am bição, o que não suscitava sua adm iração.

Porém , Indira achava que um a vida privilegiada não significava que não houvessem sofrido na infâ nc ia . Haviam vivido em um a casa sem pre cheia de adultos, cuj o am biente estava im pregnado da gravidade das discussões e da solenidade do que se resolvia nos gabinetes, nas salas e nos estúdios da Teen Murti House. O fato de não terem se afeiçoado à leitura talvez fosse um a reação contra esse m undo oficial e protocolar em que lhes coube ser crianças, pensava ela, sem pre procurando um a desculpa para eles. Passavam realm ente bem quando iam visitar o pai, nos fins de sem ana e nas férias. Firoz era extrovertido, falante, afetuoso e lhes dava sua atenção total.

Sabia brincar com seus filhos e distraí-los. Ensinava-os a m ontar e desm ontar brinquedos, a plantar e a cuidar de rosas, porque era m uito afeiçoado a sua plantação.

Longe da form alidade do palacete do prim eiro-m inistro onde m oravam , Raj iv e Sanj ay encontravam em seu pai um a pessoa com um a capacidade de diversão exuberante. Além do m ais, soube instigar neles a consciência de que eram m uito im portantes para ele, o que lhes causou um profundo im pacto. Com o em todos os casais separados, no fim são os filhos que suportam as tensões dos pais, m esm o que não as entendam . Mas Indira podia explicá-las? Podia contar-lhes que não vivia com Firoz porque ele havia sido reiteradam ente infiel com ela? Porque não se entendiam e estava farta de brigar? Sua própria dignidade a im pedia. Os filhos viam que Nehru não tinha sim patia algum a por seu genro, e eles acusavam o avô. Talvez, inconscientem ente, culpassem a m ãe por Firoz ter sido afastado e por ele não fazer parte do lar do prim eiro-m inistro. Depois da crem ação, Sanj ay, devastado, j ogou na cara de sua m ãe ter descuidado de seu pai. Acusou-a diretam ente do infarto que o havia m atado.

Indira sentiu o golpe. Devia se sentir culpada por seu casam ento não ter funcionado. E, portanto, culpada por seus filhos terem sofrido por isso. Sua fraqueza com Sanj ay talvez se devesse a esse sentim ento de culpa. Sônia se chocava com o fato de ela, a m ulher m ais forte da índia, ser de um a fraqueza tão assom brosa com seu filho m ais novo. Seus num erosos inim igos não tardariam a perceber que Sanj ay era seu tendão de Aquiles.

Indira, que tinha um a confiança total em Sônia, conversava freqüentem ente com ela. Era, talvez, a única da casa a quem fazia confidências. Um dia, confessou-lhe que seu casam ento havia passado por m uitos altos e baixos, m as que não poderia ter se casado com nenhum outro hom em , salvo Firoz. Ele foi o único a quem realm ente am ou. Falava dele sem pre, e com carinho, porque dizia que Raj iv lem brava seu m arido. Am bos tinham os pés na terra, eram sensíveis à beleza da natureza e à m úsica, habilidosos com as m ãos e práticos em sua m aneira de encarar os problem as. Nunca pensou que Firoz m orreria tão cedo, tão j ovem . Reconhecia que havia descuidado dele nos últim os tem pos, m as fizera isso pensando que am bos tinham a vida toda pela frente e que recuperariam o tem po perdido. Haviam se reconciliado em 1958, depois de um prim eiro infarto. Para que se recuperasse, Indira organizou um as férias em fam ília em um a casa-barco no lago da cidade de Srinagar, a Veneza do Oriente, com o é conhecida a capital da Caxem ira. Firoz e os rapazes divertiram -se m uito nadando, andando de barco e batendo fotos. Indira aproveitou para com eçar a aprender castelhano, um idiom a que sem pre a atraiu.

O espetáculo da natureza da Caxem ira, a terra de seus antepassados, sem pre a enchia de em oção. Os pores-do-sol sobre as águas cintilantes do lago Dal eram sublim es.

Havia m agia no ar. Parecia que os m artins-pescadores eram am estrados. Um deles entrou na casa- barco e pousou no om bro de Raj iv. Depois, fizeram um a excursão de vários dias a Dak-sun, um lugar paradisíaco onde pescaram trutas em caudalosos rios que desciam entre prados cobertos de flores e bosques de pinheiros e abetos em oldurados por cum es de neves eternas. Firoz contou-lhe que havia acabado de com prar um terreno em Mehrauli, perto de Délhi, e falaram de construir um a casa um dia. Seria sua própria casa, para não ter que m orar m ais nas do governo (Firoz, com o deputado do estado de Uttar Pradesh, tam bém m orava em um a casa oficial). Foi um lindo reencontro para Indira depois de um casam ento tão tum ultuado, com tantas brigas, traições e hum ilhações, ainda m ais dolorosas porque a m aioria acabara exposta à luz pública. Agora, a som bra dos picos do Him alaia agia com o bálsam o que curava as feridas do passado.

Durante esse tem po em que puderam desfrutar da paz das m ontanhas, voltaram a falar de um futuro j untos. Foi então, nesse intervalo de felicidade tão fugaz quanto intenso, que Indira decidiu, depois que seu pai m orresse, consagrar-se totalm ente a Firoz. Mas, em 8 de setem bro de 1960, o infarto veio destruir seu sonho.

Sanj ay j á não tinha a reputação de m ulherengo que arranj ara na Inglaterra. Obcecado com o Maruti, levava um a vida de puro trabalho. Saía de casa antes do am anhecer e voltava às sete ou oito da noite para ver seus sobrinhos j antarem ou para dividir um lanche com Sônia. Raras vezes com seu irm ão ou com sua m ãe, porque estavam tão absortos pelo trabalho que naquela época apareciam pouco em casa.

D e sd e sua volta da Inglaterra, Sanj ay havia tido dois relacionam entos, um com um a m uçulm ana, que durou pouco, e outro m ais sério e longo, com um a alem ã, Sabine von Stieglitz, irm ã de Christian, o am igo que havia apresentado Sônia a Raj iv, e que trabalhava em Nova Délhi com o professora de idiom as. Sabine, alta, loura, bonita e cosm opolita, era culturalm ente m ais inglesa que alem ã, porque quase toda sua vida havia m orado na Inglaterra. Era m uito am iga de Sônia. Passavam m uitas tardes j untas cuidando das crianças, brincando com elas ou lendo histórias. Um a delas, "Os anim ais de m inha cidade", era especialm ente engraçada porque descrevia o elefante, o m acaco, a j ibóia, o corvo, o abutre, a gralha... com o os anim ais fam iliares. E era verdade, estavam em todos os lugares. O grasnado das gralhas era a trilha sonora da vida na índia.

Sônia era m uito m ãezona e m eticulosa com a educação das crianças. Não tolerava caprichos c om a com ida e sabia im por lim ites em seu com portam ento, sem chegar a ser severa com o Stefano havia sido com ela e suas irm ãs. Falava italiano com elas quando estavam sozinhos, e inglês quando estavam todos j untos ou na presença de Sabine. Na realidade, Sônia era m eticulosa e m tudo, por isso queria fazer um curso de restauração de pinturas antigas. Essa paixão com binava com sua personalidade discreta, diligente, detalhista e conscienciosa.

Pretendia dedicar-se a isso assim que as crianças crescessem um pouco e precisassem m enos dela. Sônia acalentava a esperança de que o relacionam ento entre Sanj ay e Sabine se estabilizasse um dia e acabassem se casando. Mas Sabine cansou de esperar.

Sanj ay está m ais apaixonado pelo Maruti que por m im - confessou um dia a Sônia. Não acho que acabe se com prom etendo com igo. Só pensa em seu proj eto de negócio, não cabe nada m ais em sua vida.

O que você vai fazer?

Vou voltar para a Europa.

Que pena. Teria sido form idável tê-la com o cunhada. Eu tam bém teria gostado - disse a Sônia, enquanto Priy anka e Rahul brigavam por um biscoito. Sônia acom panhou-a ao aeroporto. O que não sabia é que a tornaria a ver dois dias depois. Mas, o que aconteceu? Não estava em Londres? Sabine lhe contou que, na escala em Teerã, o piloto do avião da Indian Airlines cham ou-a pelo m egafone. Sabine, surpresa, foi à cabine do Boeing. Alguém quer falar com você pelo rádio - disseram . Era Sanj ay. Ali, diante de um a tripulação espantada, viveram sua penúltim a cena de am or. Sanj ay pediu-lhe que voltasse a Nova Délhi: "Vam os nos dar um a últim a oportunidade", suplicou. Sabine não pôde resistir ao hom em que am ava e por isso voltou. Sentia um pouco de vergonha por ter cedido. Sônia estava encantada, e tornou a sonhar que sua am iga podia se tornar sua cunhada.

Mas, um as sem anas depois rom peram de novo, e dessa vez para sem pre. O sonho de Sônia de ter sua am iga por perto desapareceu, m as só durante um a tem porada. Sabine não se instalou na Inglaterra. Havia se acostum ado a viver na índia. Na Europa, sentia falta do calor das pessoas, da cortesia asiática, do ritm o de vida. "Com igo acontece a m esm a coisa", confessou Sônia. Além do m ais, Sabine tinha um trabalho na Índia que lhe perm itia viver m elhor do que se ficasse em Londres. De m odo que, para grande alegria de Sônia, voltaram a passar tardes j untas e fins de se m a na nos arredores, com o aquele que acabou em um a pequena tragédia quando se aproxim aram de um ninho de vespas e acabaram cobertas de picadas. Sabine acabou conhecendo um dos professores do Instituto Goethe de Nova Délhi e casou-se com ele. Viveram seis anos na capital indiana. Só tiveram filhos m ais tarde, quando se m udaram para o México, m as tinham cães que j untavam com os de Sônia quando iam para o cam po, para deleite das crianças. Sabine guardou de Sanj ay a lem brança de um rapaz sério, resoluto, m as m uito egocêntrico.

Para Indira, foi m elhor assim , porque o fato de seus dois filhos se casarem com duas européias não teria sido o m ais politicam ente correto. Teria sido com o confirm ar publicam ente que os Nehru estavam se ocidentalizando e se afastando para sem pre de suas raízes indianas, e na época Sanj ay j á havia se m etido em política, não tanto por vocação, m as para defender-se das críticas que chegavam por todo lado em conseqüência de sua nefasta gestão do assunto Maruti.

FOI EM UM COQUETEL PARA COMEMORAR O casam ento de um velho am igo do colégio que Sanj ay conheceu sua futura esposa. Era 14 de dezem bro de 1973, e a data coincidia com seu aniversário. Nesse dia Sanj ay estava m uito anim ado, e não era pelo álcool, porque nunca bebia. Mas tinha consciência de ser o solteiro m ais cobiçado da índia.

Bonito - m as, em seus 27 anos, j á tinha um a calvície avançada - procurava ter cuidado para não se envolver com m ulheres que suspeitasse que podiam estar interessadas som ente em se tornar m em bros da prim eira fam ília da índia. O am igo que ia se casar apresentou-lhe um a prim a sua cham ada Maneka Anand, um a garota longilínea, com feições regulares e bem proporcionais, sardenta, suficientem ente atraente para ter ganhado um concurso de beleza e que trabalhava esporadicam ente com o m odelo para um a m arca de toalhas. Era bonita e fotogênica, com um caráter vivaz e enérgico. Sanj ay sentiu-se atraído im ediatam ente e passou a noite falando com e la . Maneka contou-lhe que havia abandonado seus estudos de ciências políticas no Sri Ram College de Nova Délhi e que queria ser j ornalista. Era filha de um coronel do Exército, um sique, e de sua esposa cham ada Am teshwar, filha de um latifundiário e pecuarista do Punj ab.

A partir desse dia, Sanj ay dedicou todo seu tem po livre a Maneka. Viam -se diariam ente. Com o não m ais apreciava ir a restaurantes ou ao cinem a, preferia vê-la à tarde na casa de um a das duas fam ílias. Sônia não se im pressionou m uito com essa nova nam orada. Com parada com Sabine, era um a m enina im atura que ficaria com Sanj ay o tem po que este levasse para perceber quão am biciosa devia ser. Porque agora Sônia havia se contagiado da desconfiança que vem com o poder ou com a proxim idade ao poder.

Com o sua sogra, pensava que todos que se aproxim avam da fam ília faziam -no por interesse. Na m aioria das vezes não lhe faltava razão. Pensou que Maneka, m ais um a das que cortej avam o solteiro de ouro da índia, seria coisa passageira. Mas, no início de 1974, Sanj ay convidou-a a j antar em sua casa, sinal de que o rapaz estava levando seu relacionam ento m ais a sério que o habitual.

A garota estava m uito nervosa porque iria conhecer a prim eira-m inistra. Sônia a entendia perfeitam ente, visto que tivera um ataque de nervos no dia em que Raj iv a devia apresentar. A diferença era que, na época, ela e seu nam orado estavam havia um ano j untos, e não um m ês, c om o Sanj ay e Maneka. Mas conhecia seu cunhado, sabia com o era im pulsivo e im paciente. Tam bém , na época da Inglaterra, Indira era outra m ulher, m ais pausada, sem a pressão nem a tensão do poder. Maneka, visivelm ente intim idada, olhava tudo com o um passarinho assustado: os m óveis, os quadros, as fotos. Quando, de repente, viu Indira a sua frente, não soube o que dizer. Ficou verm elha e com eçou a balbuciar. Indira quebrou o gelo: Com o Sanj ay não nos apresentou, diga-m e seu nom e e o que você faz - disse. Maneka continuou balbuciando com o pôde, om itindo que era m odelo para um a m arca de toalhas, o que não lhe pareceu digno de m enção.

Indira conversou um pouco com ela e, com o estava acostum ada a ver desfilar garotas que Sanj ay seduzia, não pensou nada em especial, exceto que era um pouco nova dem ais. Mesm o que houvesse gostado de encontrar um a nora entre as boas fam ílias da Caxem ira, não se m etia nos assuntos sentim entais de seu filho, com o tam bém não o havia feito com Raj iv. Fazia tem po que havia abandonado a idéia de organizar-lhe um "casam ento arranj ado" à indiana. Deixaria isso para outra vida, quando tivesse m ais tem po e m ais sossego...

PASSARAM-SE OS MESES E PARECIA que Maneka estava ali para ficar. Não era m ais um a na vida de Sanj ay. Ele havia se apaixonado e, fiel a seu caráter im pulsivo, queria se casar j á. Indira não teve problem a, de início, em aceitá-la. O fato de ser de um a fam ília sique não representava um problem a para os Nehru, que haviam apregoado sem pre a igualdade entre as com unidades religiosas do país. Pressionada pela pressa de seu filho, não teve tem po de se inform ar sobre a fam ília de sua futura nora, e m arcaram a data de 29 de j ulho para o pedido. Am bas as fam ílias se reuniram no núm ero 1 da Safdarj ung Road, onde, depois de um a breve cerim ônia, sentaram -se todos para celebrar com endo. Indira logo percebeu que não eram gente educada, nem cosm opolita, nem culta, e na m ãe adivinhou a satisfação profunda de ter colocado sua filha na fam ília m ais cobiçada do país. Podia ter dito algo parecido sobre a fam ília de Sônia, m as a diferença é que eles eram sim ples, não ostentavam nada e não tinham am bição. Estes eram barulhentos e ostentosos, com um gosto vulgar na m aneira de vestir e de exibir suas j óias. De qualquer m aneira, Indira esteve à altura das circunstâncias. A nobreza obriga. O anel do pedido que sua nora usava ela lho havia dado. E era um presente m uito especial. Havia pertencido a Kam ala, sua m ãe, e fora desenhado por seu avô Motilal. Acreditava secretam ente que um dia essa m enina chegaria a entender o profundo significado de tão precioso presente. Tam bém ofereceu-lhe um conj unto ouro e turquesa, bem com o um sári de um a seda m uito fina bordada ao estilo Tanchoi, m istura de estilos indiano e chinês. Um m ês depois, deu- lhe um sári de seda italiana por ocasião de seu aniversário.

Continuar: parte 2 de 6