O Sári Vermelho

Javier Moro · Capítulo 5 de 6 · parte 1/4

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O Sári Vermelho

Ato Iv - a Mão Oculta do Destino

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Não conheces os limites de tua força, não sabes o que fazes. Não sabes quem és. Eurípides

 

Pronto. Acabou. A despeito de não ostentar nenhum cargo oficial, 64 países m andaram um representante oficial aos funerais. Raj iv tinha algo de especial que o fazia ser m uito querido pelos que o conheciam .

As cinzas j á viaj am rum o ao oceano, dissolvidas no Ganges, m isturadas com as do bisavô Motilal, as do avô Nehru e as de seu irm ão. A dor individual é só um a parte do vazio tão grande que deixou. Os em pregados e o pessoal da segurança estão tristes e desorientados. Até os cães de casa estão m urchos. O apoio em que todos podiam se agarrar diante dos vaivéns de um m undo caótico e inseguro desapareceu. Com o acreditar que não está m ais ali? Sônia e seus filhos sentem sua presença a todo m om ento, sobretudo à noite, em sonhos. O inconsciente anda m ais devagar que a realidade, custa-lhe alcançá-la, por isso os despertares são especialm ente duros. Outras vezes acordam sobressaltados e dão de cara com a realidade, e então percebem que ela é o pior pesadelo. O im portante é que tudo transcorreu em paz e o banho de sangue foi evitado. O governo pôs o Exército na rua a tem po e decretou sete dias de luto nacional. O que não se pôde evitar foram vários casos de suicídio e im olações no interior do país. A índia eterna continua viva nos corações das pessoas.

Agora, até seus adversários políticos concordam que Raj iv foi um hom em decente. Na m orte, louvam o líder que denegriram em vida. Tam bém a im prensa, que prim eiro o louvou e a seguir o vilipendiou, faz seu exam e de consciência. Um a m anhã, Priy anka m ostra a sua m ãe um artigo do Hindustan Tim es.

- Leia, m am ãe, publicaram um a hom enagem que tenta se desculpar pela atitude que a m ídia teve para com papai.

Sônia está orgulhosa de seus filhos. Mostraram -se à altura. Ainda bem que teve Priy anka perto para organizar tudo, para m anter a casa em ordem , para receber Rahul e escolher o local da crem ação. Ela não teria conseguido. É im possível tom ar decisões quando se sente m orto em vida. Acha que Indira tam bém estaria orgulhosa deles. Sônia coloca os óculos e lê. O texto tem o m érito da franqueza: "Debochávam os dele por seus sapatos Gucci, seus óculos Cartier, seus j eans de m arca, suas viagens com a m ulher nos j um bos da Indian Airlines... Debochávam os de seu híndi, m esm o que o nosso fosse pior... A verdade é que estávam os cheios de ressentim ento e de invej a... Sabíam os em nosso foro íntim o que ele havia viaj ado m ais que todos nós j untos e que tinha um a visão m elhor dos problem as da índia que a que nós podíam os ter, pontificando em nossas colunas. Sua elegância natural, sua boa aparência e seus m odos davam -lhe um a vantagem inj usta sobre os outros. Tinha tanto pelo que viver, tanto a fazer a despeito de nossas críticas". Sônia chora quando devolve o artigo a sua filha. "Por que um hom em bom , que havia feito bem seu trabalho, teve que pagar um preço tão alto?", pergunta-se. São tantas as perguntas e tão poucas as respostas que Sônia se desespera. O que sabe é que seu m arido acabou sendo vítim a de um sistem a que lhe exigiu o im possível. Ah, se não se houvesse m etido em política, se houvessem deixado para Maneka o papel de herdeira... Maneka, que apareceu no funeral com Firoz Varun e que com olhos chorosos m urm urou um as palavras de condolência.

AGORA SÔNIA E SEUS FILHOS querem saber quem o assassinou. Diz a polícia que foram terroristas da Frente Tam il de Libertação Nacional... Mas têm certeza? Quando poderão confirm ar? E principalm ente... Quando se poderá fazer j ustiça? É um pobre consolo a j ustiça, m as a essa altura é a única coisa que resta.

Senhora, um a ligação - interrom pe-a um em pregado. De sde que suas irm ãs voltaram para a Itália depois de passar uns dias em Nova Délhi consolando- os, Sônia fala todos os dias pelo telefone Com um a delas, que insistem para que volte. Acham que com o tem po ela perceberá que j á não faz sentido ficar em Nova Délhi, além de ser perigoso. Mas Sônia sabe bem e j á disse a sua m ãe. A índia continua sendo sua razão de viver, m esm o que lhe tenha roubado seu coração. É aqui que estão enterrados seus sonhos. Esta é m inha vida - repete a sua irm ã Nadia ao telefone. - Não posso m ais deixar este país e m e instalar fora, onde serei sem pre um a estrangeira. Percebi isso quando papai m orreu. Pelo m enos, m ude de casa...

Por quê? Você tam bém acha que está am aldiçoada? Aqui é o que a im prensa diz... Não, não acredito nessas bobagens, digo porque nessa casa tudo lhe lem brará Raj iv... É j ustam ente por isso que não quero m e m udar. Sabe, ficar viúva não é com o se divorciar. Além do m ais, do ponto de vista da segurança, esta casa é adequada. A segurança! Com o parece vazia essa palavra à distância. Dois assassinatos e Sônia continua acreditando nela. Quão teim osa pode ser um a irm ã... Mas só se entende o m edo quando se vive dentro dele. A am eaça dos siques a Indira de m atar até a centésim a geração de seus descendentes ficou gravada na m ente de Sônia. Com o esquecer um a am eaça dessas, que foi confirm ada com o sangue de sua sogra? Agora, com o de Raj iv, sabe que a sede de vingança não tem lim ite. Nunca ela nem seus filhos poderão viver em um a paz com pleta, por serem quem são. Nunca, nem aqui, nem na Itália, nem em nenhum outro lugar. Melhor aceitar. Pelo m enos, na índia, volta a dispor de todo o aparato do Estado para protegê-los. "A segurança da fam ília Gandhi é de interesse nacional", declarou pom posam ente o presidente da República um a sem ana depois do atentado. Já não era sem tem po, pensa Sônia... O fato é que o prim eiro-m inistro em exercício, por indicação do presidente da República, designou-lhe a m áxim a proteção. Tornam a dispor do serviço do Special Protection Group, que j á dem onstrou sua eficácia quando Raj iv era prim eiro-m inistro. Sônia não pôde evitar fazer um com entário am argo: A polícia m e m ostrou que, se não houvessem retirado a proteção do SPG a Raj iv, à qual tinha direito, ele teria se salvado do atentado.

Soniaj i - respondeu sem se alterar o prim eiro-m inistro - você sabe perfeitam ente que, se Raj iv houvesse insistido, o governo a teria devolvido. Não tenho tanta certeza.

Com o ter certeza? Com o acreditar na palavra de um político? É verdade, Raj iv não havia solicitado a proteção, m as ela sim . Havia insistido várias vezes, sem pre em vão. Priy anka havia insistido. Rahul tam bém . A realidade é que nenhum político tinha especial interesse em proporcionar a Raj iv um a proteção m aior: os de seu partido porque o afastava das m assas, e, portanto, reduzia suas possibilidades de sucesso, e os da oposição porque, se acontecesse algum a coisa a Raj iv, acabariam com a preponderância do Congress. Todos ganhavam deixando Raj iv indefeso.

DEPOIS DE TANTA AGITAÇÃO, de ver tanta gente, de tantas lágrim as vertidas, Sônia sofre o contragolpe. Pouco a pouco, a nova situação vai se assentando, e então surge um a pergunta aterradora: Com o continuar vivendo sem Raj iv? De onde tirar forças para estar sem ele? Agora vem o m ais difícil: inventar um a vida para si. De pouco lhe serve o consolo da religião. Diz que acredita em todas as religiões porque talvez não acredite em nenhum a. Tem o consolo de que seu filho Rahul fica para passar o verão. O rapaz está arrasado. Além da tristeza de ter perdido seu pai, há um forte sentim ento de culpa por não ter m ovido céus e terra, por não o ter enfrentado e tê-lo obrigado a exigir m ais proteção... Sônia e Priy anka tam bém se sentem um pouco culpadas, m as o que podiam fazer contra a vontade de Raj iv e do aparato do Estado? O caso é que a casa da fam ília torna a ser a fortaleza de antes, com grades na rua, arcos detetores de m etais, câm eras de vigilância, torretas, guaritas e um a centena de policiais arm ados rondando a área. A segurança.

O ATENTADO NÃO INTERROMPEU as eleições, só se atrasaram os dois últim os dias. O Congress arrasou no sul devido ao "fator em patia" provocado pelo assassinato, m as foi derrotado no norte. Maneka tam bém foi derrotada em sua circunscrição e perdeu sua cadeira no Parlam ento. A grande surpresa dessas eleições foi o espetacular avanço do BJP, partido hinduísta que Raj iv havia identificado com o o "inim igo a com bater". Multiplicou por cem suas cadeiras. Um a vitória espetacular e terrível. Com o não sentir m edo quando o líder de um grupo param ilitar hindu, aliado desse partido, hom enageou o assassino do Mahatm a Gandhi? Não é algo que seria proibido na m aioria das dem ocracias?, pergunta Sônia, escandalizada com o a m aioria dos visitantes que recebe. É possível atacar tão facilm ente os pilares de um a nação com total im punidade? Com a desculpa dos pêsam es, m uitos deputados e m em bros do partido vão sondá-la, às vezes até bem avançada a noite. Vão discutir quem deveria ser o definitivo sucessor de Raj iv à frente do Congress. Não se atrevem ainda a lhe dizer que ela deveria assum ir esse posto, que se o fizesse teria esperança para lutar contra o avanço do sectarism o religioso. Sabem que ela não quer ouvir isso. Rej eitou de m aneira taxativa a presidência do partido que foram lhe oferecer em bandej a de prata quando as cinzas de Raj iv ainda estavam quentes.

Sônia, porém , ouve-os com atenção: fulano representa m uito os ricos e tem um a im agem ruim perante os pobres; beltrano é desleal e não se pode confiar nele etc. O que você acha? - perguntam -lhe.

Eu m e inclinaria m ais por Narasim ha Rao, acho que é quem Raj iv escolheria... Mas por que não decidem vocês quem será o próxim o líder?

Porque este partido, com personalidades tão im ponentes com o Nehru, Indira e seu m arido, nunca teve a necessidade de ativar um m ecanism o sucessório e quer que alguém o guie... Você, por exem plo - atreve-se a dizer um deles, olhando-a fixam ente. Sônia luta para se m anter inteira e tranqüila. Não entendem que não estou interessada? Já lhes disse cem vezes que não quer fazer política, que não vai participar de nenhum acontecim ento ou evento relacionado com a política. Se continua recebendo-os, é por fidelidade à m em ória de seu m arido, porque acha que ele gostaria. Manter essas relações é m antê-lo um pouco vivo.

Não quer cortar o cordão um bilical que a vincula ao m undo de Raj iv, de Indira, à herança da fam ília. Faz isso por ela e por seus filhos. Um a am iga sua se vê na obrigação de avisar os que chegam "Não incom odem m adam e falando de sua entrada na política. Dói m uito a ela. Lem brem que está de luto por um m arido que nunca quis entrar na política." Muitos a lem brarão vestindo um sári branco e um corpete preto, sem j óias, com o m anda a tradição em época de luto, exceto a aliança, sentada na beira do sofá no estúdio de Raj iv, com os retratos da fam ília olhando-os nas paredes. A escrivaninha está exatam ente igual a quando ele a deixou. Não quis retirar nenhum obj eto e ninguém se senta em sua poltrona, agora recoberta com a bandeira que envolvia seu féretro. Ninguém j am ais o fará, nem m esm o ela. A despeito de seu porte elegante e seu esforço por se m anter inteira, de vez em quando escapam -lhe lágrim as, que disfarça passando um lenço pelo rosto. De tanto chorar tem olheiras perpétuas e um olhar aquoso.

Em agreceu m uito, a palidez m arm órea de sua tez tem veios cinza, um a expressão de tristeza infinita no olhar.

Mas sua opinião pesa. Pesa tanto que ela m esm a se surpreende. No final, os deputados a ouvem . Um a vez convencidos de que m adam e prefere Narasim ha Rao, arranj am um a eleição interna para que os deputados votem nele. O partido acaba colocando esse velho am igo da fam ília Nehru com o prim eiro-m inistro de um governo de coalizão, m inoritário, porque faltaram ao Congress trinta votos para conseguir a m aioria. A im prensa percebe essa influência, que denom ina the Sônia factor. Acontece com a italiana o que aconteceu com Indira quando m orreu Nehru: autom aticam ente, herdou um pouco do poder da fam ília. Para uns, trata-se do "carism a"; para outros, do "sobrenom e".

Se naquele dia houvesse m encionado outro nom e, é provável que Rao não ganhasse. Não é tão fácil com o parece desprender-se da política. O poder a persegue, o poder a quer. O poder precisa dela.

O GOVERNO DE RAO PARECE FRACO. Do m odo com o estão as coisas, ninguém aposta em sua sobrevivência, nem na do partido. O que é o Congress sem um Gandhi à frente? Um a organização condenada a desaparecer, dando Página 432 possibilidade para o partido hinduísta, o BJP, se apossar do terreno perdido. É grave, porque esse partido defende a idéia perigosa de "um a índia hindu", que para m uitos é a receita do desastre. E ninguém se atreve a im aginar as conseqüências para o país e o resto do m undo de um desastre em escala indiana... Por isso redobram as pressões sobre Sônia. Para os responsáveis políticos por um Congress em pleno desconcerto, e para um a grande parte da população, ela representa a últim a sentinela de um a dinastia m ortalm ente ferida.- Algum favor, algo que você precise, algum serviço? - assim , com um a voz tilintante, anuncia-se o m inistro do Bem -estar Social ao entrar no dom icílio fam iliar dos Gandhi. Na direção do Congress, não sabem o que inventar para conquistá-la, para que reavalie e aceite entrar na rede.

São tantos os que a querem ver que decide instaurar um horário de visitas, das 17h às 19h. De m anhã responde às m ilhares de cartas de condolência que ela e seus filhos continuam recebendo do m undo inteiro. Insiste em lê-las todas, e procura responder pessoalm ente às dos conhecidos. Aos outros, m anda um a nota de agradecim ento im pressa e assinada de próprio punho, em inglês ou em híndi.

À tarde, depois das visitas, é quando o sentim ento de perda e de solidão se faz m ais difícil de suportar.

Por alguns m om entos esquece que Raj iv j á não vai voltar essa noite. Tantos anos acostum ada a esperar sua volta que ficou o reflexo dessa esperança vã. Felizm ente está cercada de sua fam ília. Sua m ãe, Paola, m ora agora com eles, e continua esperando secretam ente que Sônia decida voltar à Itália. Mas não quer insistir m ais; da últim a vez que fez isso, Sônia ficou nervosa. Priy anka e Rahul são m uito atenciosos com sua m ãe. De vez em quando aparece algum am igo para j antar e o am biente se anim a enquanto preparam a com ida. Os am igos íntim os são poucos, os fiéis. Entre eles estão os irm ãos Bachchan (um deles, Am itabh, tornou-se a m aior estrela do cinem a indiano), um a decoradora que conheceu assim que chegou e seu m arido; um casal de j ornalistas e editores, velhos colegas da Indian Airlines, velhos am igos da fam ília com o Sum an Dubey e sua esposa... Os Quattrochi voltaram à Itália, m as, se estivessem aqui, não os poderia ver... Seus am igos não falam com a im prensa, não contam nada que pudesse ser interpretado por Sônia com o um a traição a sua confiança. Sabem que é um a m ulher m uito zelosa de sua privacidade. Não quer que sua dor apareça nas revistas de entretenim ento. Está m uito irritada com a im prensa estrangeira que proj eta Priy anka com o a herdeira da "dinastia". Os repórteres que as seguiram durante a cam panha em Am ethi perceberam o m agnetism o da j ovem , seu olhar penetrante, e nenhum deles resistiu a com pará-la com a avó.Muitos dignitários estrangeiros de passagem pela capital tam bém querem vê- la, e ela fica contente por recebê-los, porque assim com partilha lem branças das num erosas viagens que fez j unto com seu m arido. No Ministério de Assuntos Exteriores não entendem por que Yasser Arafat, Nelson Mandela ou o rei Hussein querem se encontrar com um a pessoa que não tem um cargo oficial. "O que há com o protocolo?", perguntam . Mas o prim eiro-m inistro Rao desautoriza essas obj eções. Enquanto os dignitários estrangeiros assim quiserem , o governo não precisa levantar a questão do protocolo, responde. O poder trata a ela e a seus filhos com o m em bros de um a fam ília reinante. Os Gandhi, m ortos ou vivos, continuam sendo reverenciados, com o se a índia lhes reconhecesse o direito divino de reinar sobre ela. Agora, j unto aos grandes retratos de Indira que enfeitam os edifícios públicos, encontra-se tam bém a foto de um Raj iv sorridente no além . A fam ília continua m uito presente na m ente de m ilhões de indianos.

POUCO A POUCO, SEUS FILHOS e seus am igos a aj udam a encontrar um sentido para a vida sem Raj iv. Sônia sabe que precisa norm alizar sua vida o quanto antes, nem que sej a só por seus filhos, que precisarão voltar à universidade. "O que aconteceu não pode ser um obstáculo para que levem um a vida norm al." Está obcecada com essa idéia. Durante toda sua vida não quis outra coisa, e ainda fala disso com o se pudesse consegui-lo. A seguir se corrige e diz:"... um a vida o m ais norm al possível".

Sim , essa é a m eta, a única viável.

E em bora j á não possa viver com Raj iv, pode viver para ele. Para sua m em ória. Para que seu sonho não desapareça. Seus am igos lhe propõem criar um a fundação, um pouco ao estilo das fundações presidenciais norte-am ericanas, que guardam o legado de cada presidente. Seria um a resposta aos terroristas que o assassinaram , um a m aneira de seus ideais e sua visão

sobreviverem . Sônia escolhe a data de 20 de j unho para assinar a ata de constituição da Raj iv Gandhi Foundation, porque tam bém é um a m aneira de dar sentido ao aniversário de Rahul, que nesse dia com pleta 21 anos.

Cercada dos filhos e am igos, põe sua assinatura no docum ento que consagra a criação de um a instituição destinada a prom over a aplicação da ciência e da tecnologia a serviço dos pobres. Sônia tem a im pressão de que, dessa form a, Raj iv continua vivo na m orte. Em 20 de agosto, dia em que Raj iv com pletaria 47 anos, vão prestar-lhe um a hom enagem no sam adhi, o m ausoléu em form a de flor de lótus erigido onde foi feita sua crem ação. Não está longe dos sam adhi respectivos de Sanj ay, Indira e Nehru, todos sím bolos que lem bram o considerável preço do poder. Sônia usa um sári branco com barrado preto, o olhar perdido e parece que seu espírito está m uito longe, em algum lugar que só ela conhece. Talvez se deixe levar pela fantasia e faz planos de

vida com Raj iv, com o antes, e consegue arranj ar, assim , alguns segundos de felicidade, m esm o que fictícios. Sente o cheiro do incenso que os sacerdotes queim am em braseiros im provisados. Em pé entre Priy anka e Rahul, os três parecem ensim esm ados e absortos em seus pensam entos enquanto os cânticos religiosos hindus vão se sucedendo com o um a ladainha sem fim . Ao fundo, ouvem -se os ruídos da cidade. De repente, aparece Maneka, sozinha, a últim a pessoa que desej am ver ali nesse m om ento. Sônia crispa-se enquanto sua cunhada se aproxim a do sam adhi e deposita um a oferenda floral sobre o m árm ore polido. A seguir, segue a tradição de dar um a volta ao redor do m ausoléu e passa diante de Sônia e de seus filhos, m as não se cum prim entam . Sua presença quebrou a serenidade do ato. Sônia, irritada, decide concluir e voltar ao carro.

Cinco m eses depois do atentado, a com issão eleitoral anuncia eleições locais em Am ethi, e de novo com eça-se a ouvir o coro de vozes. O coro que exige Indira após a m orte de Nehru e Raj iv depois da m orte de seu irm ão, cham a agora por Sônia. Antigos com panheiros de seu m arido fazem um apelo ao prim eiro-m inistro para que a convença a se candidatar por Am ethi com o suc e ssora de Raj iv. Sabem que Sônia tem um vínculo especial com as pessoas dessa circunscrição. A adulação chega a extrem os inverossím eis quando um m em bro do partido declara sem constrangim ento: "Se Sônia quisesse usar sapatos feitos com m inha pele, eu lha ofereceria sem hesitar." Mas a fam ília perde a paciência: "O que esses m ilitantes pensam ?", exclam a Priy anka, fora de si. "Que tem os que continuar sacrificando nossas vidas? Já chega de política!" Acham um a aberração que o equilíbrio de um a nação de quase um bilhão de habitantes repouse sobre um a viúva italiana, m as assim pensam na cúpula do governo e do partido. Diante do fracasso de convencê-la, tentam por outros m eios. O governo de Rao decide fazer um a doação de 10 m ilhões de rupias, pagas em cinco anos, à Fundação Raj iv, com o se dessa m aneira quisesse com pensar a perda do m arido. Sônia se enfurece ainda m ais e m anda um a carta a Rao: "Nós agradecem os pessoalm ente, assim com o a seus colegas, esta generosa oferta, m as seria m elhor que o governo elaborasse seus próprios proj etos e program as hum anitários e os financiasse diretam ente, fazendo, assim , honra à m em ória de m eu m arido". Mas é tarde, o escândalo j á está servido. Assim que se torna pública a notícia da suposta doação, a oposição arrem ete contra o que cham a de Rom e Raj , "reino de Rom a": "Um governo que pode roubar dos pobres para dar 10 m ilhões de rupias à fam ília de Raj iv Gandhi é capaz de qualquer coisa". Já farta de tanta m anobra e m anipulação, desse novo e desnecessário escândalo que a oposição esprem e com gosto, de tanta pressão que não respeita nem sua dor, da im prensa que especula sem cessar sobre seu papel, Sônia decide seguir o conselho de seus filhos de viaj ar para a Europa e os Estados Unidos durante um a tem porada.

A viagem lhe serve para distrair-se do bulício da índia, para descansar m entalm ente e para pôr em ordem suas idéias. Está m ais decidida que nunca a m anter viva a herança de Raj iv sem ter que se m eter no pântano da política. Mas isso é possível?

QUANDO REGRESSA, A POLÍCIA ANUNCIA que identificaram os autores do assassinato de Ra j iv. A investigação foi possível graças ao trabalho heróico de um fotógrafo local de Sriperum budur, um j ovem cham ado Haribabu. Naquela noite, o repórter havia esperado com im paciência a chegada do líder. Assim que Raj iv desceu do Am bassador branco, Haribabu o bom bardeara com seus flashes, tanto que Pradip Gupta lhe fez um gesto para que parasse de im portunar. Mas o fotógrafo, pouco preocupado em econom izar rolos de film e, continuou com seu trabalho. Quem sabe quando um personagem tão im portante com o Raj iv Gandhi voltaria a esse lugar perdido? Sua persistência custou-lhe a vida. O corpo de Haribabu acabou explodindo pelo efeito da onda expansiva. Seus restos apareceram a 20 m do lugar onde originalm ente se encontrava. O que a polícia descobriu foi sua câm era entre os restos fum egantes da explosão. Estava m ilagrosam ente intacta. Ao revelar o rolo contido em seu interior, apareceram os últim os rostos que Raj iv havia visto em vida, dentre os quais se encontrava o de Dhanu, a terrorista suicida.

Olhe bem para a foto - diz o chefe de polícia. - Esta é a assassina de seu m arido.

As m ãos de Sônia transpiram quando a pega para observá-la. É profundam ente perturbador ver assim o rosto da pessoa que tanto m al lhes fez. De um a abstração na m ente, a assassina passa a pa re c e r um a m ulher aparentem ente norm al. "Com o pôde com eter tam anha barbaridade?", pensa Sônia olhando-a fixam ente, com o se buscasse algum sinal externo de sua m aldade, com o se pudesse penetrar em sua m ente, escrutar sua alm a, adivinhar por que o decidiu m atar. O policial aponta com o dedo o rosto de um hom em de pele escura, um sulista, em um canto da foto.

A equipe de investigações especiais da polícia conseguiu identificá-lo. Trata-se de um terrorista conhecido com o Shivarasam , um líder do LTTE (Tigres de Libertação da Pátria Tâm il). Senhora, isso vem confirm ar o que todos sabíam os: que seu m arido foi vítim a de um com plô dos extrem istas tâm eis.

Seu assassinato foi a vingança dos tâm eis contra a intervenção m ilitar na ilha, não é? O policial assente.

Os extrem istas se voltaram contra ele, senhora, j ustam ente com o um tigre que arranha aquele que lhe vai dar com ida.

Ao pensar nisso, Sônia descobre que existe um a horrível pauta nas m ortes da fam ília, com o se seus m em bros fossem os arquitetos de sua própria destruição. Indira m orreu por um problem a que Sanj ay desencadeou ao criar o m onstro de Brindanwale para controlar politicam ente os siques; Raj iv m orreu por um problem a criado originalm ente por Indira, que durante anos forneceu apoio aos Tigres para conseguir os votos dos tâm eis da Índia e não perder base eleitoral. Por acaso não ouvira Indira dizer m uitas vezes que o pior na política era, por m edo de perder apoio, não se fazer o que no fundo se achava que devia ser feito? Am bos acabaram pagando pelo erro com etido em algum m om ento de fraqueza, de falta de fé, o erro de antepor considerações políticas de curto prazo ao interesse geral do país em longo prazo. E os erros custam caro na política. Sônia, Priy anka e Rahul sentiam o coração gelar só de pensar. É a lição m ais cara de suas vidas.

AO CONTRÁRIO DO CONGRESS, os fundam entalistas hindus estão m uito satisfeitos com seus resultados eleitorais. Percebem que a cam panha para destruir a m esquita de Ay odhy a e substituí-la por um tem plo hindu dedicado ao deus Ram a deu im portantes rendim entos políticos. Os distúrbios transform aram -se em votos. Então, por que não continuar? Em outubro de 1991, as organizações hinduístas extrem istas afiliadas ao BJP deram um j eito de com prar os terrenos em volta da m esquita. Logo depois com eçam obras de nivelação do terreno. Para cúm ulo da provocação, anunciam que em 6 de dezem bro iniciarão a construção do tem plo. Quando os m uçulm anos se m ostram indignados, o governo envia a Ay odhy a um a equipe para avaliar a situação e encontra um a grande plataform a de concreto levantada pelos extrem istas j unto à m esquita. É um a violação flagrante da lei que, depois dos últim os distúrbios, havia proibido alterar as coisas. A equipe do governo está consternada pelo fato de o governo local ter feito vistas grossas, m as a explicação é m uito sim ples: seu chefe é m em bro do BJP. Preocupado por um a eventual escalada de violência, o m inistro do Interior em Nova Délhi envia 20 m il hom ens, que se instalam em diversos quartéis situados a m enos de um a hora da m esquita. Mas, por outro lado, vão chegando 100 m il m ilitantes hinduístas vestidos com o os heróis da m itologia, com tridentes, arcos e flechas, e acam pam na área. Alguns líderes do BJP invocam o caráter pacifista e sim bólico da concentração.- Tem os nosso próprio serviço de ordem ! - argum entam diante das autoridades. Estas decidem não m andar os soldados para o local na m anhã de 6 de dezem bro, data anunciada pa ra a colocação da prim eira pedra do tem plo. "Não quisem os provocar", dirão m ais tarde, quando a gravidade desse erro ficar evidente.

Nos arredores da m esquita só está presente a polícia do estado, um a pequena força m al m otivada e pior apetrechada para conter os ânim os de um a gigantesca m ultidão. Às 11h30, enquanto ascetas m eio nus cobertos de cinza com eçam a entoar cânticos e orações na plataform a de concreto, alguns m ilitantes se aproxim am da m esquita em atitude am eaçadora. Quando tentam detê-los, a única coisa que o serviço de ordem e alguns agentes de polícia conseguem é ser apedrej ados pela m ultidão colérica.

- Erguerem os nosso tem plo aqui m esm o! - gritam os m ilitantes com fervor. Um j ovem intrépido consegue pular por cim a da polícia e escalar os m uros da m esquita até chegar a um a de suas três cúpulas. A m ultidão percebe o gesto com o um sinal de ataque. Arm ada de m achados, picaretas e pás, um a avalanche de m ilitantes se lança sobre a m esquita. A polícia foge espavorida.

Meia hora depois, os m ilitantes cam inham pelo teto ondulando bandeiras cor de açafrão e dando vivas. Enquanto uns lançam ganchos am arrados a um a corda para cravá-los no teto dos m inaretes, outros atacam a base com m aças, m artelos e picaretas. Às 14h, o prim eiro m inarete cai, e com ele um a dúzia de hom ens que estavam destruindo o teto a m achadadas. Mas parece que tanto faz, a vida hum ana não im porta, o que vale é acabar com os sím bolos do vizinho m uçulm ano. Um a hora depois, cai o segundo m inarete. A seguir o últim o, e finalm ente a cúpula central. Em um a única tarde, um m onum ento que foi testem unha de incontáveis convulsões da História, que suportou o açoite de m ais de quatrocentas m onções, é reduzido a escom bros pela fúria de fanáticos.

A m aioria dos hindus do país não acha que um a m inoria de extrem istas consiga subj ugar o Estado a sua vontade. Se as forças que poderiam ter detido esse sacrilégio estão à m ão, por que nunca chegou a ordem de intervir? Nesses dias de terror, m uitos indianos sentem falta de Indira; com ela no poder em Nova Délhi, acham que isso nunca teria acontecido. Atribuem o fato à covardia do governo de Narasim ha Rao, que não quer ser visto com o contrário aos hindus em um país em que são m aioria. A dem olição causa seis m ortos entre os m ilitantes e cinqüenta feridos. Os líderes do BJP são presos pela polícia e postos sob custódia protegida. Um influente sacerdote local expressa o desej o de que Ay odhy a se transform e no "Vaticano dos hindus" e faz um apelo à violência. O prim eiro passo, acrescenta, é lim par a cidade de suas m inorias. Os m ilitantes respondem com ardor a esse grito de guerra e se lançam a um a orgia de violência, incendiando as casas dos m uçulm anos e depois bairros inteiros. Logo a violência se estende por toda a índia. Os m uçulm anos saem às ruas, atacam as delegacias de polícia e ateiam fogo a edifícios do governo. As turbas excitadas utilizam arm as de todo tipo, desde ácido até escopetas, passando por estilingues e punhais. A im prensa relata casos de crianças queim adas vivas, de m ulheres alvej adas à queim a-roupa por policiais. O espectro da Partição torna a aparecer.

Há m ilhares de m ortos por toda a índia. O Exército im põe o toque de recolher. O país está paralisado de m edo. Os aviões não decolam , os trens não circulam . O pesadelo de Nehru e de Gandhi, do ódio entre com unidades, está se tornando realidade diante dos olhos atônitos do povo, que vê a convivência entre vizinhos ser substituída pela hostilidade e pela desconfiança. Crianças m uçulm anas e hindus j á não brincam j untas com o o fizeram por m ais de m il anos. Os pais não negociam entre si, deixam de se relacionar. Com eça-se a exigir dos m uçulm anos que provem sua lealdade para com a índia. Nas partidas de críquete contra o Paquistão, exigem que ostentem a bandeira nacional na fachada de suas casas, e que torçam pelo tim e nacional. São obrigados a se m anter na defensiva, m as na Caxem ira, onde são m aioria, os papéis se invertem . Ali, os extrem istas m uçulm anos fazem um a j ihad contra a com unidade dos pandits hindus, da qual os Nehru são oriundos. Mais de 100 m il são obrigados a se exilar. Am bos os processos se retroalim entam , enquanto o povo, que não está acostum ado a fazer política em term os de fé e religião, se pergunta: podem os confiar em um governo que não assum e seu com prom isso de prote ge r um antigo local de culto? Podem os confiar em um a com unidade que expulsa de m aneira tão drástica aqueles que professam outra fé? "Com o os m inaretes que coroam esta velha m esquita", escreve o Tim e Magazine, "os três pilares do Estado indiano - dem ocracia, aconfessiona-lidade e estado de direito - correm o risco de ser derrubados pela fúria do nacionalism o religioso."

DURANTE TRÊS ANOS, SÔNIA FICOU TRANCADA em casa, aplicada à tarefa de organizar o arquivo da fam ília. Escreveu um com ovente livro sobre seu m arido, e para isso teve que m ergulhar em 100 m il fotos, quinhentos discursos e incontáveis bilhetes. Leitora voraz, viveu seu período de luto entre livros, papelada, fotos e docum entos. Tam bém publicou o segundo volum e de cartas entre Nehru e Indira, um a correspondência intensa e com ovente. "Você não pode se livrar da tradição fam iliar", escreveu Nehru da prisão a sua filha, "porque ela a perseguirá e, quer queira, quer não, ela lhe dará certa posição pública que você não fez nada por m erecer. É triste m as você terá que agüentar. Mas, afinal de contas, não é ruim ter um a boa tradição fam iliar. Aj uda-nos a encarar o futuro, lem bra-nos que tem os que m anter viva um a cham a e que não podem os nos rebaixar ou tornar vis." Sônia não consegue tirar essa carta da cabeça. Escrita em outro tem po e outras circunstâncias, seu eco retum ba em seu interior porque contém um a ineludível verdade.

Agora, o que acontece a sua volta revira suas entranhas. O fato de o governo, encabeçado por um prim eiro-m inistro do Congress, não ter conseguido im pedir a catástrofe de Ay odhy a lhe dói na alm a. É um insulto ao ideário, à própria essência do partido. É possível que os sacrifícios de Gandhi, Indira e Raj iv não tenham servido para nada? - pergunta-se desconcertada. - Toda essa dor foi inútil?

Em um a reunião do conselho da fundação que leva o nom e de seu m arido, propõe dar um a dura declaração de condenação ao governo.

A fundação é um a entidade apolítica - diz um dos conselheiros, um velho m em bro do Congress e am igo de Raj iv. - Não há necessidade de fazer um com entário sobre um tem a político. Sônia nega com a cabeça.

Raj iv e os dem ais m em bros da fam ília são identificados ao laicism o, à determ inação de não m isturar política e religião. Tenho a im pressão de que, se a fundação não expressar seu repúdio, estarem os traindo a herança de nossa fam ília. Mas, se fizer isso, estará se m etendo em política. Você tem que saber que, quando se m anifesta contra o que o Congress faz, está dando lenha aos adversários, aos extrem istas hindus... Nã o se trata de fazer política ou não. É um a questão de princípios. Não posso perm anecer im passível diante do que está acontecendo.

Não pretende se calar, tanto faz para ela quem estej a no governo. Repete que sua autoridade é m oral, e não política. O prim eiro-m inistro Rao com eteu o m esm o erro na gestão da crise de Ay odhy a que aquele com etido por Sanj ay com os siques e por Indira com os tâm eis. Será que as lições do passado não servem para nada? Está claro que Rao não m andou o Exército a tem po para im pedir a destruição da m esquita a fim de não afastar o eleitorado hindu. Sacrificou a paz do país por um benefício eleitoral de curto prazo. Essa não é a política que Sônia está disposta a apoiar, caia quem cair, m esm o que sej a o Congress. De m odo que segue adiante com sua idéia e redige um a declaração de repúdio em term os severos, im putando um a grande parte de responsabilidade ao próprio governo de Narashim a Rao. Inevitavelm ente, desata-se um a tem pestade política. "Está se m etendo em política, e contra nós?", perguntam -se no governo, atônitos. Com o era de se esperar, a oposição desfruta do espetáculo dessa briga interna do Congress, que se som a a outras entre diversos líderes. No partido, uns tentam devorar outros, é um verdadeiro ninho de cobras. Os extrem istas hindus aplaudem .

Mas Sônia tem certeza. Continuar fiel ao com prom isso de preservar a m em ória de seu m arido e da fam ília nada tem a ver com a sorte dos hom ens de Raj iv na política, principalm ente quando não existem razões para apoiá-los. Acha que ficar de braços cruzados é ser desleal. E Raj iv continua m uito presente em sua m ente. Tudo o que fez na vida, fez por ele. Agora tam bém ; nisso, a m orte não m udou nada. Ele vive nela. É sua razão de ser.

Além de tudo, tem outro agravo contra o governo de Rao. O j ulgam ento contra os conspiradores presos pela polícia não tem previsão de com eçar nunca. Com o resultado dos interrogatórios dos detidos, a polícia descobriu um plano m eticulosam ente traçado para acabar com a vida de Raj iv. Sabem que foi elaborado nas profundezas das elvas do Sri Lanka pela direção colegiada da organização terrorista, que utilizou a rede de ativistas que tem no sul da índia porque precisava de tâm eis locais que não pudessem ser identificados pelo sotaque da ilha. A polícia descobriu um a rede com pleta de apoio à organização terrorista, com um a estrutura na qual os que em prestavam os esconderij os só sabiam que lutavam pela causa; os que estavam m ais perto da direção só sabiam que a m issão consistia em assassinar um político "hostil à luta dos Tigres"; e som ente os dirigentes sabiam quem era o alvo. Esses dirigentes tem iam que, se Raj iv voltasse ao poder, enviasse de novo o Exército indiano à ilha, o que os teria prej udicado. Sônia e seus filhos estão decepcionados e incom odados porque todo esse bom trabalho da polícia corre o risco de ir por água abaixo graças à inação da j ustiça. ]

Espere um pouco m ais, tenha paciência... - repetem os antigos com panheiros de Raj iv. A j ustiça, se é lenta, não é j ustiça... Todo m undo não sabe disso? - diz Sônia, repetindo outra frase que ouviu m il vezes em casa quando Indira era viva. Não é o m om ento de atacar o Congress. Ele está tão debilitado que seria fatal, principalm ente se o golpe vier de você.

Meus filhos e eu continuarem os esperando por m uito tem po.

SÔNIA, DEDICADA AO TRABALHO na fundação, percorre o país com o nunca antes. É um a redescoberta da índia profunda, dessa vez sozinha e com outros olhos. Sej a para inaugurar o Lifeline Express, um trem transform ado em hospital am bulante para operar a cegueira, ou fornecendo m aterial de socorro às áreas m ais afetadas pelos distúrbios, lançando program as de alfabetização ou abrindo um hospital oncológico em um a zona rural e afastada, sua presença atrai um núm ero crescente de gente que sem pre lhe dispensa um a recepção entusiasta. Ao sentir-se querida, aprende a ser m ais com unicativa, não com a im prensa, da qual continua tendo receio, m as sim com as m ulheres com quem divide o chá e a conversa, e com as crianças que abraça e a quem oferece presentes. Seu trabalho a satisfaz profundam ente. Assum e com vigor e eficácia o antigo com prom isso fam iliar com os pobres da índia, e o faz a sua m aneira. Mas se ela está com prom etida com o povo, se tem princípios e o poder que dá pertence à fam ília de Nehru, pode se calar diante da ineficácia e da indolência das autoridades, sej am do lado que forem ? O silêncio equivale a aprovar o com portam ento do governo, que colocou o país à beira do abism o.

Em 20 de agosto de 1995, data do aniversário de Raj iv e quarto ano de sua m orte, Sônia, j á farta de esperar, preocupada com o auge dos enfrentam entos entre com unidades, fala em público, e em Am ethi. Dez m il pessoas em delírio gritam : "Sônia, salve o país!", enquanto ela sobe devagar as escadas do palanque, a cabeça coberta pelo véu do sári. Suas m ãos trem em de tão nervosa que está e parece insegura, em contraste com sua filha Priy anka, que saúda descontraída a m ultidão.

Mam ãe, vej a quanta gente! Não acha que os deveria saudar? Sônia atende a sua filha e levanta o braço. A atroadora resposta do povo lhe dá coragem . Com Priy anka a seu lado, dá livre curso a sua cólera: "Há quatro longos anos, o governo é incapaz de prender e de levar a j ulgam ento os assassinos de m eu m arido", declara em um híndi quase perfeito. "Se o processo sobre o assassinato de um ex-prim eiro-m inistro dem ora tanto tem po em fazer progressos, o que acontecerá ao cidadão com um com os assuntos pendentes na j ustiça? Com certeza vocês entendem o que sinto." Em m eio a um furacão de exclam ações, prossegue: "Hoj e, os ideais de Nehru, de Indira e de Raj iv estão am eaçados. Há divisões em todos os lugares. Chegou a hora de restaurar seus princípios, e eu estarei com vocês nesse esforço."

"Sônia, salve o país!" responde o povo, que sente afeto por essa viúva coraj osa e digna. Adm iram - na por sua abnegação, sua fidelidade à fam ília e seu sacrifício.

Antes de voltar ao carro, um a j ornalista se aproxim a: Seu discurso m arca a volta da dinastia dos Gandhi à cena política indiana? Não - responde Sônia - não tenho am bições políticas. Sem pre falo na qualidade de presidente da Fundação Raj iv Gandhi.

Mas a índia inteira ouviu sua m ensagem . No dia seguinte, sua foto com o braço erguido, acom panhada de seus filhos, está na prim eira página de todos os j ornais nacionais. Aos olhos de m ilhões de indianos, Sônia deixa de ser percebida com o a dona de casa que vive à som bra do m arido e da sogra e passa a ser a figura pública responsável pelo legado da fam ília. Com Sônia, está acontecendo o que ocorria com Raj iv e Indira. O contato com o povo a anim a, reconforta, tira-a de sua angústia existencial, faz com que esqueça a contradição que representa assum ir o legado de um a fam ília tão política detestando a política. O resultado das eleições seguintes, de 1996, não a surpreende em absoluto. Está tão bem inform ada que j á sabe que o partido não vai atingir os duzentos deputados. Mas não chega nem a 140, um desastre histórico. Rao dissolve o governo, renuncia ao cargo de prim eiro-m inistro e líder do partido.

Poucos dias depois, Sônia recebe a visita de um grupo de dissidentes do Congress que de novo vêm solicitar seu conselho para escolher o próxim o presidente da organização. Mas Sônia se nega a dar sua opinião.

Dessa vez, consciente de seu poder, "do fator Sônia", nem sequer m enciona qual seria seu sucessor favorito. Não quer ser m anipulada.

Quem saiu vitoriosa nessas eleições foi Maneka, que conseguiu de novo um lugar no Parlam ento. Indo e vindo de seu posto, a cunhada lavrou um a im agem própria de defensora dos anim ais. É nom eada de novo m inistra do Meio Am biente, m as sua alegria dura pouco. Devido às pressões dos inim igos da coalizão, o novo prim eiro-m inistro é obrigado a substituí-la uns dias depois. Não deixa de ser irônico que a nora indiana de Indira, política e faladora, lute tanto por um a parcela de poder enquanto a tím ida e apolítica nora estrangeira continua tendo que recusar ofertas de liderança.

P orque os líderes do Congress voltam à carga, conscientes de que a ausência da viúva é a presença m ais im portante do partido. A situação é catastrófica, dizem , o partido se desintegra, o país corre para o abism o das guerras de religião. Não há dia que não apareça alguém para lhe repetir isso. As brigas internas no seio da m aior organização política do m undo estão deixando-a se m os m elhores m ilitantes, que desertam em m assa. O novo líder eleito à custa de am argas disputas é um indivíduo que não inspira respeito. Passa as tardes em sua casa, deitado no chão, a cabeça sobre um travesseiro, bebendo uísque, fum ando sem parar e falando de política, de fofocas e de sexo. Sônia sabe que esse hom em não é a solução, ao contrário. Diante das pressões constantes, ela continua não dando o braço a torcer. "E Priy anka?" perguntam , com o se tanto valesse m ãe ou filha. Sej a quem for, m as que sej a um Gandhi, a única coisa que pode salvar a organização. Só um Gandhi pode aglutinar as diferentes tendências, os diferentes egos. Só um Gandhi pode sensibilizar o m altratado m oral dos sim patizantes. No outrora todo-poderoso Congress, um partido com 112 anos de história, espalha-se o desespero. "Milhões de m ilitantes do partido estão dispostos a dar sua vida por você. Com o pode perm itir que o Congress desm orone diante de seus olhos?", repetem . Tanto falam , que Sônia com eça a sentir um vago com plexo de culpa, a consciência aflita por um a espécie de dor. Posso continuar com o um a espectadora m uda diante da desintegração do partido pelo qual Raj iv deu sua vida?

A pergunta a perturba. De repente, é com o se a terra se abrisse sob seus pés. Além do m ais, está cansada de tanta pressão, à qual está subm etida desde que Raj iv m orreu. E tam bém farta de tanta adulação. Mas, acim a de tudo, está atorm entada. Se o Congress se desintegrar, acaba a herança fam iliar, pensar que o sacrifício de Raj iv foi em vão lhe tira o sono. Sua filha com partilha sua angústia. Tem os que fazer algum a coisa - diz Priy anka - senão, o BJP acabará destruindo tudo o que conseguim os, desde vovô até papai.

QUANDO RECEBE A VISITA DE UM VELHO AMIGO da fam ília, Am itabh Bachchan, em cuj a casa m orou quando chegou a Nova Délhi e que se tornou o ator de cinem a m ais popular da índia, conta-lhe sua angústia.

Eu m e pergunto se, ao falhar com o Congress, não estarei falhando com Nehru, Indira e Raj iv -confessa.

Não os confunda com os líderes de agora - responde Am itabh. - Estes são um bando de abutres que querem se aproveitar do poder de m obilização de sua fam ília para seus fins políticos. Não se deixe enganar, não ceda.

Claro, você tem razão - diz ela.

Mas Priy anka não concorda com Am itabh.

Então - diz a sua m ãe quando estão de novo a sós - vam os deixar que o país caia sem fazer nada? Sônia lhe responde com outra pergunta:

Não acha que a fam ília j á fez o bastante pelo país? Mas a dúvida a oprim e com o um abraço lúgubre, com o se adivinhasse que sua resistência está prestes a ceder diante do irrem ediável.

MESES DEPOIS, OUTRA VISITA de outro velho am igo de Raj iv aum enta ainda m ais a dúvida na m ente de Sônia. É um dos líderes do Congress m ais valorizados, um hom em íntegro cham ado Digvij ay Singh. Sua opinião sem pre Pesava nos tem pos de Raj iv. Estam os indo de cabeça rum o ao desastre - diz-lhe sem rodeios. - Com esse novo presidente, não vam os conseguir nem cem cadeiras nas Próxim as eleições. Sabe o que isso significa? Sônia faz um a careta de desgosto. O hom em prossegue: Isso significa a desintegração do partido, o final do Congress e talvez da índia com o nação. Há um silêncio longo, denso.

Continuar: parte 2 de 4