O senado romano em Tito Lívio, livros 21 a 30

Marco Antonio Collares · Capítulo 3 de 6 · parte 1/3

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O senado romano em Tito Lívio, livros 21 a 30

2 Visões historiográficas sobre a obra de Tito Lívio

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

2 Visões historiográficas sobre a obra

de Tito Lívio

 

Ab Urbe Condita Libri: da (in) verdade histórica à

representação do passado

Tito Lívio foi o responsável pela consecução de uma história sobre a cidade de Roma desde as origens, mas como não poderia deixar de ser, sua narrativa foi interpretada de diferentes formas pelos estudiosos especializados, o que nos leva a uma revisão dessas obras, a começar pela historiografia do século XIX.

As três mais conhecidas escolas oitocentistas – a escola metódica francesa, o historicismo alemão e o positivismo comteano (mesmo considerando as especificidades de suas abordagens) – possuíam um ponto em comum, que consistia em uma busca da verdade do passado. Isso fazia com que estabelecessem métodos de análise a fim de poder extraí-la dos vestígios disponíveis, inclusive de textos históricos como o de Lívio. Nas palavras de Jeane Marie Gagnebin (1998, p. 215), “o paradigma oitocentista eliminava a historicidade do discurso histórico, bem como o presente do próprio historiador e a relação que esse presente mantinha com o momento do passado descrito”.

Ao entrarem em contato com a narrativa liviana, os estudiosos oitocentistas aplicaram métodos de análise concernentes a essa incessante procura da verdade literal do passado, privilegiando seu valor histórico em detrimento de seu valor historiográfico. Esperavam reconstituir o passado de Roma por intermédio da crítica aos vestígios disponíveis, preocupando-se mormente em averiguar as fontes de informação de autores como Lívio e a maneira como se utilizaram delas para retratar os eventos pregressos de suas respectivas sociedades (cf. Mellor, 1999. P. 65).

Com isso, expoentes da historiografia do século XiX, como Bartoldo Jorge niebuhr, albert schwegler e Hippolyte taine, tão diferenciados entre si no tempo e no espaço, aplicaram os métodos do exame minucioso das fontes para o estudo da Ab Urbe Condita, métodos

esses exemplificados pelo termo alemão 1 Quellenforschung (Walsh, 1961; Miles, 1998, Marques, 2008).

Seus trabalhos enfatizaram principalmente os autores citados nominalmente na obra liviana, entre os quais se encontram Políbio (II a. C.), Marcio Pórcio catão (II a. C.), Fábio Pictor, cíncio alimento (III a. C.), lúcio calpúrnio Pisão, Valério de Âncio, licínio Macro, claudio Quadrigário e Quinto tuberão (I a. C.), os sete últimos integrantes da chamada tradição analística Romana (raaflaub, 2005). como bem expresso por Miles (1995, p. 8), “o cerne dos trabalhos oitocentistas objetivava averiguar o modo como Lívio utilizou-se das antigas tradições para constituir sua narrativa, tentando precisar se o Romano efetuara o exame rigoroso de seus

antecessores a fim de extrair a veracidade dos fatos”. 2

Ao evidenciarem que Lívio não descartou os mitos de fundação de Roma, nem mesmo aplicou os métodos da disciplina História segundo paradigmas objetivistas, os pesquisadores oitocentistas concluíram que a obra liviana, como fonte de estudo sobre o passado de Roma, não tinha relevância concreta (serres, 1991, p. 13-4). Em outras palavras, a narrativa foi inicialmente observada por seu valor histórico, mas contraditoriamente descartada como fonte da verdade literal do passado que descrevia. Lívio foi reduzido a um mero refém das tradições ancestrais, seus escritos não passando de uma compilação acrítica de outros textos antigos, inclusive dos mitos de origem da cidade (luce, 1977).

No início do século XX, a tendência de diminuir a importância dos escritos livianos preponderou, sendo que o autor continuou a ser visto como “um historiador sem habilidade suficiente para submeter suas fontes a um juízo seguro que viesse a extrair toda a veracidade dos fatos” (Foster, 1929 apud Barnabé, 2006, p.26). Em muitos casos, desde o século anterior, a Ab Urbe Condita era vista de forma positiva somente quando vinculada a uma longa tradição literária dotada de estilo e oratória refinada, quase à manifestação escrita do espírito nacional Romano (nisard, 1946, p.229-30). Mesmo Mommsen só deu importância à descrição da história de Roma feita por Lívio como uma das múltiplas epopeias que bem demonstraram o gênio político-militar Romano responsável pela formação e expansão de sua bem-sucedida civilização (cf. ciribelli, 1978).

Na primeira metade do século passado, outra tendência de pesquisadores especializados na obra liviana começou a dividir espaço com a historiografia da Quellenforschung, tendo como principal expoente o pesquisador alemão erich Burck (Miles, 1998, p.1-2). Denominada de interpretação retórico-temática (Phillips, 1974), seus estudos opuseram-se aos métodos e às proposições da historiografia oitocentista, defendendo a riqueza dos temas evocados na obra de Lívio (cf. Marques, 2008, p.39). Segundo suas conclusões, o historiador Romano estaria longe de ser um mero compilador de histórias tradicionais da Roma antiga, tencionando “controlar e determinar os episódios que iniciavam e finalizavam cada livro integrante de sua narrativa, criando um sentido de ordem geral a conjuntos específicos de livros” (antiqueira, 2008, p.18).

Pensando nesse ordenamento temático, os estudiosos direcionaram suas análises para as múltiplas unidades da obra, em vez de articularem comparações com outras narrativas textuais, descrevendo os eventos detalhados em determinados conjuntos, os acontecimentos que poderiam ser considerados mais relevantes para servirem aos propósitos pessoais do Romano (cf. lipovski, 1981, p.4). Nesse movimento, enfatizaram os significantes-chaves dos episódios narrados, eventos-valores que poderiam servir de exemplo (Burck apud Feldrerr, 1998, p.9) em um contexto de recuperação moral após o término das proscrições civis do último século da república (cf. Mazzarino, 1991, p.25). A partir da articulação desse novo olhar, os estudiosos começaram a tratar especificamente da chamada exempla liviana, objeto por excelência de trabalhos contemporâneos do porte de M. Von albrecht (1995). Além disso, a tendência retórico-temática enfatizou os mecanismos de enunciação utilizados por Lívio na tessitura de sua narrativa (Walsh, 1961; Badian, 1966). com base nas características do discurso retórico de intelectuais como cícero (i a. C.) e Quintiliano (i d. C.), Burck defendeu que Lívio tencionara tornar palpável o conjunto de eventos pregressos, integrando os recursos retóricos da enunciação ao empreendimento da escrita da história (cf. lipovski,

1981, p.3),3 uma abordagem que encontraria respaldo em trabalhos posteriores como o de a. J. Woodman (1988, p.129) ao concluir, no entanto, que tais mecanismos não foram empregados para convencer os Romanos de qualquer atitude política específica, mas para expressar uma genérica repugnância em relação à perspectiva negativa que as crises civis poderiam engendrar caso fosse instaurada uma ditadura perpétua em Roma.

Ao longo do século XiX e da primeira metade do século XX da nossa era, o texto liviano foi criticado, portanto, por duas tendências específicas: uma, a Quellenforschung, que procurara transformá-lo em fonte da verdade do passado; outra, a retórico-temática, que tratara da singularidade da narrativa em si, em seus temas e sua forma de enunciação. Aos poucos, os estudos começaram a caracterizar-se pela multiplicidade de objetos e formulações a respeito da obra no contexto de sua produção.

Trabalhos pontuais sobre a Ab Urbe Condita passaram a evidenciar cada vez mais a historicidade de Lívio e sua relação com o ambiente sócio-histórico ao qual pertencia. No início da segunda metade do século passado, destacam-se principalmente os estudos de pesquisadores de língua inglesa como a. H. Mcdonald (1957), P. G. Walsh (1955, 1958, 1961), r. M. Olgivie (1965) e J. Briscoe (1971), cada um tentando extrair da narrativa múltiplas respostas a

respeito das ideias, do período e da sociedade de Lívio.4

Macdonald, por exemplo, baseou-se tanto na Quellenforschung como na tendência retórico-temática. Isso foi capaz de evidenciar possíveis relações entre o texto liviano e a analística Romana, defendendo que essa tradição se apropriara de mecanismos retóricos da enunciação para reconstruir o passado da Urbs a fim de “vincular-se aos apelos de reconstrução moral do espírito da época

de augusto” (Macdonald, 1957, p.156).5

Os estudos de olgivie e Briscoe caracterizaram-se pela compreensão das particularidades do texto liviano, tal como defendido pela tendência retórico-temática (cf. luce, 1977, p.16). Ambos efetuaram traduções críticas da Ab Urbe Condita, demonstrando, de um lado, determinados temas evocados na narrativa (olgivie, 1965) e, do outro, as interpolações históricas efetuadas pelo Romano diante das disputas políticas travadas no século I a. C. (Briscoe, 1971). Assim, segundo as concepções desses autores, Lívio teria se utilizado da escrita da história para dar soluções simbólicas a esses conflitos, sendo influenciado pelas mesmas concepções que sustentaram a formação do novo regime político (idem, p.17).

Chama a atenção, no entanto, o descrédito desse último estudioso em relação ao conteúdo do primeiro livro da narrativa liviana. Segundo Briscoe (apud Dorey, 1971, p.3), o livro que descreve o período monárquico da Roma antiga estaria envolto em incertezas e incorreções, na medida em que seu autor compilara histórias tradicionais para compô-lo. Nesse sentido, o pesquisador contemporâneo desautorizou os primeiros escritos livianos, em razão da impossibilidade de uma reconstituição histórica precisa do período, uma concepção bastante aproximada à da Quellenforschung.

Alguns dos textos de Walsh caracterizaram-se pela importância dada aos critérios historiográficos esboçados por Lívio. Apesar disso, o pesquisador não deixou de evidenciar a incapacidade liviana de discernir entre causas e efeitos dos eventos reportados, demonstrando a extrema dependência do autor em relação aos historiadores e analistas que o precederam (idem, 1955). Em um estudo,Walsh argumentou no sentido de desfazer o mal-entendido dessas proposições, mostrando, por um lado, parte da ideologia moralizante do principado no interior da narrativa e, por outro, certas qualidades de Lívio como historiador, na constatação de que ele possuía talento literário para convencer seus leitores de suas próprias concepções, além de “insight imaginativo” para transformar os fatos retratados em uma experiência viva da sociedade Romana (idem, 1961, p.34).

Interessa-nos, também, outro artigo desse estudioso, intitulado Livy and Stoicism (1958). No trabalho em questão, o pesquisador defendeu que Lívio teria expressado na obra um pretenso favorecimento dos deuses para com os Romanos, garantia da proeminência da Urbs diante de seus inimigos externos. SegundoWalsh (1958, p.361), Lívio julgara que tal vantagem fora adquirida em razão da demonstração da pietas dos cidadãos aos seus deuses tradicionais, no cumprimento dos ritos religiosos da comunidade política. Assim, na perspectiva do Romano, o principal elemento aglutinador dos integrantes da Urbs em torno de um objetivo comum não seria o tão propagado metus hostilis (medo do inimigo) de salústio, mas o respeito e a devoção filial dos Romanos aos seus deuses pátrios (idem, p.362).

Para Walsh, essas concepções seriam parte dos valores estoicos de Lívio, caracterizados pela defesa da vinculação harmoniosa dos comportamentos privados com as esferas públicas da guerra, da política e da religião. Dessa maneira, o autor Romano teria integrado algumas concepções filosóficas do logos ético da referida doutrina à tradição religiosa Romana, defendendo a existência de uma providência divina responsável pela sustentação do império Romano. Não podemos deixar de acentuar aqui que as ideias de Lívio acerca da esfera religiosa da Urbs também foram alvo dos estudos específicos de outros tantos intelectuais contemporâneos, tais como Wolfgang liebeschuetz (1967), Georges Dumezil (1974), D. S. levene (1993) e Jason Davies (2004).

Podemos considerar, então, que os trabalhos efetuados a partir da segunda metade do século XX, com o objetivo de reconstituir aspectos pontuais da época de Lívio – fossem políticos, militares ou religiosos –, preocuparam-se eminentemente com o valor historiográfico da Ab Urbe Condita. Tais estudos relacionaram-se à perspectiva “de que

O passado em si não é um referente seguro das afirmações e representações históricas” (Malerba, 2006, p.13). como bem sustentara Bennedetto croce (1962, p.11), “a exatidão de informações deixadas em livros de história não deve ser parâmetro para um julgamento adequado sobre os mesmos, já que evidenciam apenas a existência de recolhos e descrições de eventos, denominados de crônicas ou Anais”. Nesse sentido, mesmo que Lívio tenha escrito uma narrativa vinculada a tradições historiográficas caracterizadas por descrições cronológicas de eventos reportados ano por ano, os trabalhos sobre sua obra começaram a evidenciar cada vez mais a importância da narrativa enquanto produção de sentidos e significados atribuídos ao

passado. 6

T. J. luce, reconhecido pela historiografia especializada como o divisor de águas nos estudos específicos sobre a Ab Urbe Condita (cf. Mineo, 1998; Barnabè, 2006; Marques, 2008), foi, sem dúvida, o pesquisador contemporâneo que deu termos finais às conclusões da historiografia oitocentista a respeito de um Lívio alienado, refém das tradições Romanas, mero compilador de mitos e escritos

anteriores. 7 Rompendo finalmente com essas concepções, luce (1977, p.25) defendeu que o Romano estava longe de ser um defensor convicto da imutabilidade do devir, remodelando o material advindo da tradição escrita para colocar questões de sua própria época e influenciar as transformações políticas da Urbs.

Concordando com Burck e, em certa medida, com Walsh, olgivie e Briscoe a respeito da importância da obra liviana em seu respectivo contexto, luce (idem, p.209) sustentou que tais escritos representaram uma profunda remodelagem das tradições ancestrais Romanas em um momento de reafirmação dos valores do passado, tornando-se parte integrante das concepções preponderantes em Roma durante a formação do principado. Tal como havia defendido a tendência retóricotemática, luce sugeriu que Lívio teria se ocupado em averiguar, nos seus testemunhos escritos, os acontecimentos mais importantes a serem destacados na obra, de modo a agrupá-los em unidades específicas (antiqueira, 2008, p.19). A partir de suas constatações, muitos estudiosos dirigiram seus olhares críticos para os episódios do passado que melhor representassem a remodelagem dos valores ancestrais Romanos em seu respectivo contexto (oakley, 1997, p.111).

Estávamos diante de estudos cada vez mais vinculados às tentativas de entender as representações de Lívio acerca de seu próprio empreendimento historiográfico e ambiente sociocultural, em um momento de revalorização da subjetividade do autor. O trabalho de Michele Ducos (1987, p.133-47), por exemplo, tratou especificamente do primeiro tema, observando as representações livianas como a manifestação consciente de uma teorização acerca dos movimentos inconstantes do devir histórico. A historiadora Marilda ciribelli (1978), mesmo sem citar o trabalho de luce em sua tese, esboçou igualmente severas críticas à forma como a historiografia oitocentista observou a narrativa liviana, explicando os métodos do autor e as práticas historiográficas de seu tempo. Ainda nessa mesma linha interpretativa, Mineo (1998, p.11328) caracterizou a Ab Urbe Condita como a expressão da dialética entre concórdia e discórdia, a primeira vinculada à estabilidade política da Urbs e a segunda a um valor eminentemente negativo de desagregação da comunidade, considerada responsável por condicionar os homens a intervirem negativamente no curso dos acontecimentos.

Os estudos de Miles (1987; 1995), por sua vez, trataram das representações livianas em torno da redefinição das identidades Romanas via rememoração do passado. Segundo o historiador, os primeiros cinco livros da obra referiam-se às qualidades morais do povo Romano, qualidades essas a serem preservadas indefinidamente por meio de narrativas históricas sobre os sucessivos renascimentos da cidade (Miles, 1986, p.1-33). Assim, por intermédio da consecução de uma história cíclica, os modelos idealizados das antigas tradições ancestrais estariam sendo redefinidos e demonstrados para os cidadãos, bem como os valores a se-rem perseguidos por eles, o que esboça uma pretensa identidade comum referendada pela história vivida (Miles, 1995, p.8-74).

Kraus, no mesmo sentido, articulou estudos a respeito das representações livianas vinculadas a sua respectiva conjuntura. A autora concluiu que a narrativa conseguiu destacar não somente os processos históricos de destruição e reconstrução espacial da cidade de Roma, mas também suas constantes restaurações simbólicas e morais (1994, p.264-89). Na opinião da pesquisadora, por intermédio da articulação de representações sobre os primeiros tempos da cidade, “Lívio colocou em causa a essência daquilo que significava ser Romano em seu próprio tempo, redefinindo, por intermédio da história narrada a identidade dos integrantes da Urbs”

(idem, p.279).8

Conclusões semelhantes podem ser encontradas ainda no trabalho de Joël thomas (1996, p.163-75), para quem tanto Lívio quanto Virgílio, cada qual a sua maneira, esboçaram representações sobre o passado com o intuito de redefinir os elementos formadores da identidade Romana, a fim de dar resposta à crise de perspectiva dos cidadãos perante as proscrições civis de seu tempo.

O estudo de Mary Jaeger (2000) também se centrou na reconstrução da memória coletiva dos Romanos e na forma como Lívio redefiniu alguns eventos do passado histórico da comunidade, inclusive aqueles evocados em antigas tradições escritas. Na perspectiva da pesquisadora, o autor teria feito uso da rememoração de eventos pregressos para renovar os sentimentos de seus leitores, esboçando uma perspectiva positiva via emulação (emulatio) dos bons feitos dos antepassados (idem, p.94-131). Não podemos deixar de citar também o estudo de Michel serres (1991), para quem Lívio – assim como outros tantos autores da antiguidade – teria retrabalhado as tradições ancestrais com o objetivo de rearticular aspectos essenciais da identidade Romana, movimento que foi processado a partir da compilação dos chamados mitos de origens da cidade.

Lúcia cutro (2001) igualmente tratou das representações livianas, principalmente em torno das crenças e práticas religiosas entre os Romanos. Segundo a autora, existiria um subtexto religioso na obra liviana que demonstraria a importância dos auspícios e prodígios para a coesão político-militar da Urbs, garantindo sua hegemonia sobre os demais povos conquistados. com isso, Lívio teria abordado política e religião sob premissas morais, base do sucesso militar da república e eixo fundamental de sua estabilidade política.

Outro trabalho que deve ser elencado é o de sebastiani em torno dos mecanismos retóricos utilizados por Lívio para construir a figura do herói Públio cipião, o africano, uma maneira de relacionar a conduta política do antigo comandante com a do Princeps augusto. Sebastiani (2002, p.154) afirmou que Lívio tratara cipião como um indivíduo ambicioso e, em alguns momentos, bastante virtuoso, tal qual augusto se apresentava em seu contexto. Assim, segundo suas conclusões, Lívio esperava demonstrar valores de conduta para regrar e controlar o domínio autocrático do imperador, sendo sua narrativa parte integrante das concepções moralizantes do principado.

A dissertação de luiz ernesto Barnabé (2006) também esboçou a demarcação dos valores morais na obra de Lívio. Seu objetivo girou em torno da construção liviana das figuras dos primeiros monarcas Romanos, ressaltando a forma como o autor destacou a superioridade ética de reis como numa Pompílio e sérvio túlio em contraposição a tarquínio, o soberbo. Segundo o pesquisador, as representações de Lívio direcionaram-se a resgatar a rusticidade e o ascetismo individual dos homens que criaram a república, no intuito de servirem como exemplo moral para o contexto de crise política que precedeu ao principado, principalmente diante do processo de helenização pelo qual passava a sociedade Romana na época.

Por sua vez, Moisés antiqueira (2008) ressaltou a forma como Lívio estruturou a narrativa do terceiro livro da obra, tendo como eixo fundamental a importância da dicotomia entre moderação (moderatio) e imoderação enquanto fios condutores das ações humanas ao longo do tempo. Segundo o historiador, as representações livianas acerca dos eventos pregressos teriam como função a emulação das ações moderadas dos antepassados, representações essas articuladas a certas tradições historiográficas recebidas e, obviamente, vinculadas ao contexto de produção e difusão da própria obra.

O trabalho de doutorado de Juliana Bastos Marques (2008), em torno das representações de Lívio e tácito, é igualmente imprescindível para nossos propósitos. A pesquisadora tratou dos elementos de demarcação da identidade Romana nas narrativas históricas de ambos os autores. Esses elementos estavam vinculados a significantes-chaves presentes sem seus respectivos contextos, tais como a concordia,a pietas, a fides e o mos maiorum. Marques ressaltou que todos esses valores inscritos nas duas narrativas também foram destacados pelos agentes do poder de suas respectivas épocas, sugerindo, no caso de Lívio, uma confluência de interesses e temas comuns com o primeiro imperador Romano.

Além de todos esses trabalhos vinculados às representações livianas, é necessário mencionar aqui o de arnaldo Momigliano, talvez um dos “primeiros estudiosos que articularam reflexões teóricas a respeito do processo de legitimação dos historiadores antigos dentro de uma tradição do gênero historiográfico” (Marques, 2008, p.12). Em seus estudos sobre os historiadores greco-Romanos, destacam-se não somente as referências encontradas nas narrativas desses autores que influenciaram a forma moderna de historiar (Momigliano, 2004), mas ainda sua capacidade em reconhecer as mudanças ocorridas em suas próprias sociedades, o que era uma maneira de direcionar as transformações políticas em curso por intermédio do empreendimento da escrita da história (idem, 1976).

Na mesma linha das preocupações de Momigliano, John Marincola (1997) articulou um estudo específico acerca da construção da autoridade de cada historiador da antiguidade em seus respectivos contextos, levando-se em conta não ser o empreendimento da escrita da história uma profissão ou disciplina consolidada, tal como se apresenta nos dias atuais, mas uma ocupação muitas vezes momentânea de intelectuais engajados na política, no fórum e/ou nas guerras.

Cabe mencionar aqui outros tantos estudos específicos a respeito da Ab Urbe Condita, tais como o de Peter Brown (1995), sobre a forma como Lívio representou as mulheres sabinas em sua narrativa segundo antigos ideais de concordia; o texto de annVasaly (1999), vinculado à tentativa de entender os mecanismos retóricos utilizados pelo Romano com vias a construir e desconstruir a figura de antigas lideranças políticas da Urbs; e o não menos importante trabalho de Dylan sailor (2006), referente às alusões diretas de Lívio a otávio augusto, vistas por ele como instrumentos de legitimação da figura do imperador.

Consideramos deveras necessário ter elencado todos esses estudiosos nessa revisão para, primeiramente, enfatizar novamente a importância de um estudo sobre as representações de Lívio, já que tal demanda pode nos proporcionar o entendimento das ideias do autor e, talvez, de algumas concepções de sua época. Além disso, procuramos alicerçar nosso viés de leitura em outros tantos trabalhos contemporâneos. Ainda assim, não podemos deixar de destacar que não encontramos, ao longo de nossa pesquisa, estudos específicos referentes às representações de Lívio sobre o senado Romano, o que não significa a inexistência de tais pesquisas.

Mesmo assim, justificamos nosso empreendimento diante da importância de um estudo das representações livianas sobre a mais influente instituição dos tempos republicanos, aquela que mais precisou se adaptar à nova situação política do principado. Faremos, nas próximas páginas, o tratamento documental da obra de Lívio. Esboçaremos, assim, nossa própria visão historiográfica sobre a narrativa, levantando alguns aspectos da vida do autor, bem como a relação de seus escritos com outras tradições mais antigas.

 

Tito Lívio: uma sutil ruptura do gênero

historiográfico Romano

O conteúdo do título da seção pode parecer, à primeira vista, incoerente, a julgar pelas afirmações anteriores no sentido de ser a obra liviana parte integrante da tradição analística, uma forma de escrita caracterizada por narrar a história de Roma desde as origens, baseandose nos antigos Anais pontífices (Marincola, 1997, p.27).

Segundo Frier (1979, p.107-60), os sacerdotes Romanos registravam os principais acontecimentos da Urbs nas chamadas tabulae dealbaltae, pequenas tábuas pintadas de branco e transformadas em um codex ao final de cada ano. Tais escritos, nas conclusões de Marcel Detienne (2008, p.68), significavam mais do que o domínio do tempo fora dos lapsos da oralidade (cf. Sheid, 2001, p.158-9): representavam uma nova forma de historicidade no ato de narrar o passado.

Os pontífices registravam não somente os nomes dos dois cônsules eleitos, mas também alguns dos principais fatos ocorridos ao longo de suas magistraturas, desde as expedições militares, os sucessos e fracassos diplomáticos, os sacrifícios religiosos e seus respectivos prodígios. Uma espécie de “boletim de saúde da cidade”, segundo palavras de Detienne (2008), que o pontífice máximo fixava na

parede externa de sua residência. 9

Os chamados historiadores analistas foram assim denominados por se valerem do conteúdo cronológico inscrito nesses calendários de eventos. Era por intermédio de tais instrumentos que extraíam as principais referências sobre o passado da Urbs, integrando suas próprias narrativas ao mos maiorum, a fim de assegurar a perpetuação das instituições Romanas (Jal, 1997, p.28). como forma de complementar tais informações, os analistas utilizavam-se de outros tantos testemunhos, desde as atas do senado (actas senatus), os tratados diplomáticos, as leis ratificadas por senatus consultum, até as genealogias particulares das famílias eminentes, contendo os feitos dos ancestrais que fizeram parte de magistraturas importantes (olgivie, 1982, p.163; Poucet, 1989, p.307).

Nesse sentido, ao construírem narrativas contínuas por intermédio dos Anais pontífices, indivíduos da própria aristocracia política da capital inscreveram-se na tradição dos analistas (Marincola, 1997, p.27), reafirmando seu domínio político sobre os costumes ancestrais (Frier, 1979, p.227) e influenciando, com isso, a

consecução da 10 Ab Urbe Condita de Tito Lívio.

Ainda assim, se fizermos um exame detalhado acerca do que sabemos da vida de Lívio, sua origem e sua atividade de historiador, nós concluiremos que esse autor, enquanto sujeito da enunciação, fez parte de uma sutil ruptura em relação ao empreendimento da escrita da história nos moldes da analística. A julgar pelas informações da historiografia especializada, Lívio teria nascido em Patavium (Pádua), cidade do norte da itália, no ano de 64 ou 59 a. C., e vindo a falecer na mesma localidade, em 17 d. C. (Grant, 1995, p.16). Essa região da Gália cisalpina havia sido incorporada à itália por césar em 49 a. C., com todos os benefícios da cidadania Romana, sendo sua elite municipal altamente conservadora, ortodoxa e conhecida por defender a cultura, o modo de vida e os valores ancestrais Romanos (Mellor, 1999, p.48).

Não podemos deixar de considerar que concepções em torno de valores ancestrais Romanos e/ou cultura Romana, em contraposição a culturas não-Romanas em sua forma pura, são eminentemente problemáticas por reduzirem a complexidade do mundo social em seus múltiplos sincretismos culturais. A historiografia contemporânea que trata da Roma antiga admite os processos de hibridização e alteridade cultural entre a população proveniente da capital e os demais indivíduos advindos das províncias, municípios, colônias e outras localidades limítrofes do império (Huskinson, 2000, p.3-27). Assim, a proposição dicotômica levantada por ronald Mellor, de uma pretensa cultura Romana em contraposição a uma cultura genuinamente interiorana ou provincial, tem relevância aqui na medida em que Lívio foi considerado, desde sua época, como um típico expoente do interior, um historiador austero e conservador na arte de narrar o passado (olgivie, 1982, p.164).

Em um artigo publicado na primeira metade do século passado, o linguista Kurt latte (1940) analisou algumas críticas efetuadas pelo famoso gramático Romano asinio Polião (i a. C.) à figura de Lívio, críticas essas esboçadas nos escritos de Quintiliano. Segundo esse retórico, Polião teria caracterizado Lívio como um patavinitas, o que significaria ter uma maneira não-convencional de utilização da escrita do latim, desprovida de Urbeanitas e latinitas. O primeiro termo estaria relacionado ao tratamento interiorano de Lívio no uso do idioma; o segundo, às suas falhas ortográficas diante das formas clássicas da escrita praticada por autores nascidos em Roma (T. Livio mirae facundiae viro, putat inesse Pollio Asinius quandam Patavinitatem. Quintiliano, Instituições oratórias, 8,1-3).

Tais críticas seriam a tradução arbitrária de uma espécie de galhofa grega referente a contos populares em prosa, advindos de regiões interioranas da Grécia, vistas como simplórias e vulgares, sem aquilo que os autores Romanos do século I d. C. chamariam de virtutes orationes (latte, 1940, p.57). Na prática, as críticas de Polião esboçadas no texto de Quintiliano faziam parte da adoção de um antigo clichê grego transposto para o linguajar latino, no intuito de tentar descortinar certas expressões idiomáticas típicas para caracterizar o estilo da escrita de Lívio, “uma forma de transferir para Roma algumas polêmicas literárias dos gregos” (idem, p.60).

Acentuamos esse caso por dois motivos principais: primeiramente, porque as considerações de Polião são representações que marcaram Lívio em seu próprio contexto, como se o paduano

tivesse constituído uma obra ortodoxa e enfadonha,11 a expressão escrita de uma lingua-gem tipicamente interiorana, de difícil compreensão (ciribelli, 1978, p.26, Kraus, 1994, p.2-3); em segundo lugar, porque Plínio, o Jovem, em uma de suas epístolas, teria afirmado que certa sarrana Procula, igualmente proveniente de Pádua, “seria um modelo de rigidez até para os paduanos” (Epístolas, 1.14.6), evidenciando uma representação de retidão moral dada pelos autores da capital do império aos habitantes do respectivo municipium (cf. Barnabè, 2006, p.21).

Assim, apesar das críticas à escrita liviana carecerem de um conteúdo explicativo claro e eficaz, mesmo estando elas focadas unicamente nas expressões latinas utilizadas na obra, Lívio foi representado como uma espécie de homem novo na arte de historiar o passado, esboçando traços de uma mentalidade conservadora do interior que visava à idealização de condutas morais do passado Romano, parte das concepções de um novo grupo político emergente da itália, exatamente aquele grupo ao qual otávio teria apelado para amparar a nova ideologia do principado (cf.

Syme, 1939, p.453; Mellor, 1999, p.49).12 Mas, em razão da difícil distinção entre genuínas concepções ideológicas do interior do império e sua capital, partimos agora para outro elemento de análise – menos ambivalente – a fim de entendermos o autor Tito Lívio como parte integrante de uma ruptura de enunciados escritos sobre o passado de Roma, principalmente aqueles da tradição analística.

Estamos tratando aqui da constatação de que, diferentemente de quase todos os intelectuais Romanos anteriores a ele, incluindo os analistas, Lívio não fez parte da aristocracia senatorial Romana (olgivie, 1965, p.163; Perelli, 1988, p.122; cutro, 2001, p.10), nem

exerceu quaisquer cargos públicos na capital do império.13 assim, distinguindo-se de antigos analistas como Fábio Pictor, representante da reconhecida gens fabia, filho e sobrinho de cônsules e legado junto ao oráculo de Delfos durante a segunda Guerra Púnica (Feldherr, 1998, p.20), Lívio não teve qualquer renome antes de tornar-se historiador. Se levarmos em conta as conclusões da historiografia, outros analistas republicanos como Valério de Âncio e claudio Quadrigário também teriam exercido magistraturas em Roma (Badian, 1966, p.20), provavelmente integrado o senado da república (cornell, 1986, p.78). Além deles, temos alguns exemplos de intelectuais, oradores e historiadores não-analistas como salústio, césar e cícero que, diferentemente de Lívio, tiveram uma reconhecida carreira política na Urbs, fazendo parte do mesmo senado (cf. Bayet, 1956, p.353).

Esse fato pode parecer, à primeira vista, pouco relevante, mas reconhecemos nele um ponto de ruptura evidente. Segundo Momigliano (2004, p.154), apesar de a tradição analística não monopolizar toda a forma de historiar em Roma no período imediatamente anterior aos escritos de Lívio, dividindo espaço com os comentários de césar, as monografias de salústio, as biografias e as chamadas obras antiquarias baseadas na archaeologia clássica

grega,14 aquela representou o gênero historiográfico da Roma republicana por excelência (cf. Antiqueira, 2008, p.25).

Dispondo do conjunto das tradições ancestrais, a nobreza senatorial apropriou-se dos principais registros do passado da Urbs, rearticulando-as de forma a garantir sua condição superior por intermédio do monopólio da escrita da história (cornell, 1995, p.9). com isso, os membros das elites dirigentes republicanas podiam evidenciar, à revelia de quaisquer críticas, as suas condutas pessoais no tempo presente, sua dignitas e auctoritas, na demonstração de exemplos do passado que remetessem às benesses públicas trazidas por seus ancestrais (toher, 1990, p.145-6). Na prática, a produção de Anais, além de representar o típico empreendimento historiográfico republicano (rich, 1997), serviu como âncora política para os membros do senado durante o regime, uma forma de difusão de suas imagens públicas a fim de auxiliar na manutenção de suas posições privilegiadas como guardiões

legítimos do 15 mos maiorum (rambaud, 1953, p.110).

Com o acirramento das guerras civis, ocorreu o supracitado deslocamento de autoridade na capacidade de definição do Romano ideal e do aristocrata por excelência (aristoi: os melhores), um movimento que extraiu as prerrogativas da nobilitas em torno da monopolização do discurso da história, a fim de nomear os grandes feitos de seus ancestrais (cf. Wallace-Hadrill, 1997, p.11). Esse deslocamento contribuiu para a consolidação da figura pública do primeiro imperador, seja pela exaltação e difusão de sua auctoritas superior, enquanto novo protetor das tradições ancestrais Romanas, um aspecto trabalhado no primeiro capítulo do trabalho, seja pela articulação de novos especialistas versados nas artes, na poesia e na escrita da história (idem, p.20-1).

Assim, mesmo que Lívio não fizesse parte (tal como Virgílio, ovídio e Horácio) do famoso círculo de artistas e escritores que se aglutinaram em torno da figura de Mecenas (Burck apud Marques, 2008, p.49), seu status como historiador e sua atuação em tempo integral nesse ofício (Jal, 1997, p.34) foi parte integrante do complexo deslocamento de autoridade para as mãos dos novos especialistas do conhecimento, que surgiram no decorrer do principado, representando uma ruptura em relação à antiga analística, apesar de o autor paduano servir-se dela na forma e no estilo de escrita.

Isso não significa que Lívio estivesse a serviço direto do imperador, como muitas vezes foi dito após as conclusões de syme (1959, p.2787). como um expoente do interior do império Romano, reconhecido por seu estilo conservador e como um não-membro da tradicional aristocracia senatorial da capital, talvez um dos primeiros historiadores Romanos de vocação, Lívio procurou retratar aquilo que considerava serem os típicos valores Romanos do passado, integrando-se, mesmo que indiretamente, aos apelos de moralização empreendidos por otávio augusto (Galinky, 1996, p.282-3). Por essa importante demanda, Lívio esboçou a defesa radical de uma moralidade baseada no ascetismo e na frugalidade (frugalitas), na antiga e nobre pobreza (paupertatis), na contenção individual (parsimonia), na já mencionada devoção filial para com os deuses (pietas) e na rusticidade quase incorrupta dos antigos varões da Urbs (cf. Miles, 1986; Marques, 2008).

Apesar de não ter sido o primeiro nem o único historiador da Roma antiga a demarcar as possíveis causas da decadência dos costumes ancestrais Romanos, Lívio acentuou como poucos os riscos da valorização das riquezas materiais empreendida pela aristocracia da capital ao longo do último século da república e a ênfase desmedida dada à luxúria estrangeira causadora da avareza (avaritio), considerada responsável pelas discórdias civis entre seus membros. Por intermédio de suas perspectivas moralizantes, Lívio datou a origem desse processo no ano 188 a. C., quando um comandante Romano chamado cneu Manlio Vulsão triunfou sobre algumas tribos gaulesas situadas na Ásia Menor, deixando que a riqueza do oriente penetrasse em Roma. Nas palavras do autor:

[...] com efeito, o luxo estrangeiro penetrou em Roma na esteira

do exército da Ásia: foi ele quem introduziu na cidade os leitos

adornados de bronze, os tapetes preciosos, os véus e tecidos

delicados, as mesas de refeição e todas as peças do mobiliário

consideradas elegantes [...]. Tudo isso era apenas a semente

da futura luxúria que estava por vir. (Ab Urbe Condita, livro 39,

cap.6)16

Dessa forma, o historiador paduano representou em sua obra as possíveis causas das guerras civis. Suas concepções seriam fruto da mescla de crenças conservadoras de um homem advindo do interior com as ideias moralizantes de outros reconhecidos pensadores da capital, principalmente salústio e cícero. O primeiro era um senador dos tempos de césar (sebastiani, 2007, p.80) e o segundo, um verdadeiro homem novo (homo novus) da política Romana, principal expoente a influenciar Lívio com seu apelo à

história 17 magistra vitae (rambaud, 1953, Hartog, 2001).

Em função da produção de sua narrativa, Lívio teria recebido reconhecimento imediato, ainda em vida. Em meados do século I d. C., sêneca, o Velho (Epístolas, 100, c. 9), chegou a mencionar o fato de o paduano ter elaborado linhas escritas situadas entre a história e a filosofia, enquanto Plínio, o Jovem (Epístolas, 2, c. 3), pela mesma época, destacava a sua notável projeção como historiador, afirmando que chegou a vir um estrangeiro de cádiz (Gades) somente para conhecêlo. Mesmo que tais representações não signifiquem qualquer certeza absoluta quanto à projeção da obra liviana em seu respectivo contexto, esses elogios foram reafirmados por tácito, que definiu o paduano como um exemplo de eloquência e fidelidade no empreendimento da escrita da história (Titus Livius, eloquentia ae fidei praeclarus in primus/ Annales, livro 4, cap.34).

Em nossa opinião, as menções diretas ao paduano por esses auto-res evidenciam a importância da obra do historiador, pelo menos ao longo do século I d. C. Além disso, o fato de não fazer parte da elite dirigente Romana, quase um historiador de vocação em um momento de transição política e intelectual, reforça a possibilidade de vinculação do paduano a um sutil movimento de ruptura em relação à tradição analística Romana, mesmo ao articular pontos de continuidade.

Mas, para entendermos melhor as rupturas e as continuidades entre a escrita liviana e as demais tradições historiográficas de sua época, precisamos tratar da estrutura, do conteúdo, da legitimidade, das características e dos mecanismos formais de convencimento de seus enunciados, já que nos parece essencial focarmos esses aspectos antes de comentarmos sobre as representações acerca de um senado do qual jamais fez parte.

 

Em busca do conteúdo e da estrutura original de

uma narrativa histórica incompleta

Mesmo que a maioria dos estudiosos mencione a incompletude da obra liviana (Jal, 1985, p.119;Woodman, 1988, p.136; Hartog, 2001, p.207), muitas vezes, esse fato é pouco destacado ou considerado

de pouca relevância.18 em nossa opinião, isso ocorre porque os pesquisadores atuais articulam análises de temas, eventos e representações específicas ao lidarem com a narrativa, dirigindo seus olhares para um ou para poucos livros que integram o conjunto total da Ab Urbe Condita. Nesse ponto, apesar de igualmente articularmos nossa pesquisa em torno das representações de Lívio, consideramos importante evidenciar os lapsos da obra, na medida em que não possuímos grande parte de sua escrita original, principalmente os trechos que tratavam dos eventos concernentes aos dois últimos séculos da república.

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