O senado romano em Tito Lívio, livros 21 a 30
2 Visões historiográficas sobre a obra de Tito Lívio
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Originalmente, Lívio teria escrito 142 livros, espécies de capítulos modernos, que representariam um total de quase 8.000 páginas caso a obra fosse publicada integralmente em nossos dias (cf.
Mellor, 1999, p.46).19 o plano original do Romano era escrever 120 livros, narrando os eventos relacionados ao período da chegada de enéas à Península itálica até 43 a. C., ano da morte de cícero (Kraus & Woodman, 1997, p.54). Segundo as considerações de olgivie (1982, p.163), Lívio incluiu posteriormente mais 22 livros a esse montante, retratando toda a ascensão política de otávio augusto, sua vitória final contra antônio e sua consolidação no poder político do império, finalizando a obra com a morte do enteado do Princeps, Druso, ocorrida no ano 9 a. C. (Mellor, 1998, p.148). Em razão de esse evento ser de pouca relevância diante de tal empreendimento, canfora (1993, p.177) defende a intenção de produzir mais dez livros contendo toda a administração do primeiro imperador, não levada a cabo talvez pela morte prematura do historiador.
Infelizmente, do conjunto original de 142 livros publicados na época de Lívio, apenas 35 restaram: especificamente os livros 1 a 10 mais os livros 21 a 45. Além dos problemas advindos de sua conservação, em razão do tamanho da narrativa, a Ab Urbe Condita passou por perseguições ideológicas ao longo dos séculos. Suetônio, em seus Os doze césares, menciona que, a mando do Princeps calígula, tanto a obra como as imagens do paduano foram parcialmente retiradas das bibliotecas públicas de Roma, pelo fato de o imperador ter considerado Lívio verborrágico e negligente em sua escrita (suetônio, Calígula, 34). Mais adiante, o mesmo suetônio comenta o assassinato de certo Metius Pomposianus, encomendado pelo Princeps Domiciano após aquele utilizar-se dos discursos de antigos reis e comandantes Romanos, todos extraídos da obra de Lívio (idem, Domiciano, 10).
Essas supostas perseguições, por muito tempo, fizeram parte das argumentações de estudiosos como Jean Bayet (1956, p.352) em torno da defesa do genuíno republicanismo antiprincipado de Lívio. Essas afirmações, obviamente, abstraíram-se de articular leituras críticas acerca das características intrínsecas do texto de
suetônio, 20 desconsiderando o deslocamento existente entre as concepções de Lívio sobre
O principado em sua própria época e as apropriações posteriores de
sua narrativa em contextos distintos. 21 ainda assim, movimentos de expurgos, como os de calígula e Domiciano, caso tenham ocorrido, podem ter contribuído para impedir a perenidade de todos os livros integrantes da narrativa. Juntem-se a eles a proibição empreendida pelo papa Gregório i no século IV d. C., em razão de a Ab Urbe Condita ser considerada um expoente do paganismo Romano em um momento de afirmação do cristianismo oficial (cf. ciribelli, 1978, p.31).
Nesse sentido, tendo acesso a apenas um quarto da obra original, despojados da leitura dos últimos 107 livros da narrativa, que tratavam especificamente dos principais eventos ocorridos nos séculos ii e i a. C., os pesquisadores atuais reforçam seus argumentos em torno da importância em estudar as representações livianas acerca do passado, mesmo diante de representações referentes a períodos distantes do contexto do autor. Nosso conhecimento do conteúdo total da narrativa deve-se, sobretudo, aos epítomes produzidos a partir do século II d. C. Denominados de Periochae Omnium Librorum, esses resumos foram elaborados posteriormente por autores que esperavam tornar o texto liviano
mais acessível para seus leitores (stadter, 1972; oakley, 1997). 22 os respectivos sumários variavam em dimensão e comprimento, muitos contendo apenas algumas esparsas linhas escritas, na maioria das vezes construídas por procedimentos de cola e recorte da obra original (Mellor, 1999, p.53). Em razão de sua existência, podemos conhecer o conteúdo geral da narrativa, mesmo que sua estrutura continue a ser motivo de controvérsias entre os estudiosos.
Seguindo novamente a historiografia contemporânea, constatamos que Walsh (1961) argumentou no sentido de que os livros integrantes da respectiva narrativa foram estruturados inicialmente em blocos de cinco, aglutinados posteriormente em conjuntos de dez, denominados décadas. Tal prognóstico se deu em razão da alusão aos estágios sucessivos do colapso moral da sociedade Romana sublinhado por Lívio no prefácio geral de sua narrativa (idem, p.9), como bem ressaltamos anteriormente, trecho privilegiado em que o autor evoca as motivações de seu empreendimento, explicando o teor de sua história.
Do mesmo modo, syme (1959; 1988) sugeriu que os cinco primeiros livros constituiriam um grupo distinto, uma pêntade, devido à presença de outro prefácio no sexto livro da composição, afirmando que os livros 21 a 30 e 31 a 40 formariam duas décadas distintas em razão de mais dois preâmbulos esboçados ao início de cada um de seus respectivos conjuntos (cf. Stadter, 1972, p.287).
Luce (1977, p.7), por sua vez, posicionou-se entre as considerações de Walsh e syme quanto aos princípios norteadores da composição da obra, distinguindo-se, assim, das opiniões de Henri Bornecque (1933, p.16-7) e Michel Grant (1995, p.17), para quem Lívio estruturara todos os seus livros – pelo menos até o livro 45 – em pêntades, indicadas pelos vários prefácios existentes nos livros 1, 6, 21, e 31. Ann Vasaly (1999), na mesma linha de luce, defendeu a organização da obra em um grupo distinto de cinco livros, seguido por grupos de dez, defendendo que cada livro da narrativa continha um tema central que o distinguia dos demais, mesmo possuindo uma coerência interna relacionada ao conjunto do qual fazia parte.
Por fim, temos Philip stadter (1972, p.289), que argumentou em torno da estruturação da narrativa em uma pêntade inicial (livros 1-5), acreditando que o primeiro tomo, apesar de fazer parte desse conjunto, deveria ser destacado dos demais livros, em função da existência de outro prefácio menor no segundo livro da composição. Na opinião desse estudioso, posteriormente ao conjunto inicial de cinco livros, haveria a articulação de uma primeira década (livros 6-15), a segunda metade dela completamente perdida, restando somente seus Periochae. Após esse conjunto, haveria mais uma pêntade (livros 1620), também perdida, seguida pelas outras duas décadas completas mencionadas por syme.
A propósito dessa estruturação em pêntades e décadas, Mellor (1999, p.55) defendeu que Lívio teria abandonado seu plano original em favor de uma ordenação mais flexível para melhor incorporar
seu material.23 Já Miles (1986, p.1-2) enfatizou a distinção dos primeiros cinco livros da narrativa, primeiramente por tratarem de aspectos simbólicos da formação da identidade Romana e, em segundo lugar, por evidenciarem os movimentos iniciais das constantes crises e renascimentos da Urbs (idem, 1995, p.75-109). Nesse ponto, Marques (2004, p.428) coloca que “cada livro da primeira pêntade é representativo de uma virtude simbólica do caráter Romano, e de como ela é aplicada através dos exemplos dos grandes varões do passado ou deturpada pelos seus vícios”. Assim, cada livro do conjunto inicial da narrativa evocaria alguns conceitos-chaves do campo semântico Romano que representariam os bons exemplos dos homens em contraposição aos seus defeitos (cf. Olgivie, 1965, p.30).
Em nossa avaliação, essa distinção simbólica é apenas aparente, evidenciando somente a estruturação da obra em torno de um conjunto fechado, não significando a ausência de representações dessa natureza nos demais livros da narrativa. consideramos, ainda, que o conteúdo da primeira pêntade subentende uma aparente vontade, por parte do Romano, de demarcar os mitos de origem e as histórias tradicionais da Roma arcaica para servirem de ensinamento moral aos cidadãos da Urbs, tal como prefigurado pela concepção ciceroniana da história (Walsh, 1961, p.66). Teríamos, com isso, a articulação de um primeiro conjunto de livros representando os tempos míticos e obscuros da cidade (753 a. C. -390 a. C.) contrapondo-se aos demais grupos da narrativa que representariam os tempos dos homens (cf. Marincola, 1999, p.124), uma ordenação bastante próxima da cronologia clássica proposta
por Varrão.24
Após tratarmos da estruturação da obra, descreveremos o conteúdo geral dos 35 livros de que dispomos, incluindo os primeiros conjuntos perdidos. como mencionado anteriormente, o livro primeiro narra a chegada do troiano enéas à Península itálica, bem como as aventuras de seus descendentes, rômulo e remo, que, segundo antigas tradições Romanas, teriam fundado a Urbs. O livro esboça, ainda, todo o período do governo dos reis, culminando na expulsão detarquínio, o soberbo, último monarca etrusco da cidade. O restante da primeira pêntade trata da consolidação da república, dos primeiros conflitos políticos ocorridos em Roma e das guerras defensivas contra outros povos da itália, finalizando com o saque gaulês do início do século IV a. C.
Já os livros que compõem a primeira metade do conjunto seguinte25 (livros 6-10) descrevem o posterior renascimento da Urbs e, ainda, os momentos iniciais da expansão militar Romana pela Península itálica ao subjugar latinos, etruscos, samnitas e gauleses. Esses livros, tal como o conjunto anterior, enfatizam as acirradas disputas políticas entre patrícios e plebeus, demarcando as superações das discórdias internas pelo gradual desenvolvimento das instituições republicanas. Infelizmente, a metade final desse conjunto, juntamente com os livros que compunham a segunda pêntade da narrativa (livros 11-20), estão perdidos, restando apenas seus resumos. De maneira geral, os cinco livros finais da década relatavam as vitórias Romanas sobre as cidades da Magna Grécia, além da épica batalha de Roma contra o rei Pirro, enquanto a segunda pêntade tratava dos eventos em torno do primeiro grande conflito entre Romanos e cartagineses (264 a. C. - 241 a. C.).
O conjunto seguinte, composto pelos livros 21 a 30, forma outra década distinta, completa, que trata de um único evento da história Romana: a ii Guerra Púnica (218 a. C. -202 a. C.). O primeiro livro desse conjunto inicia pela nomeação dos cônsules de 218 a. C., Públio cornélio cipião (pai de cipião, o africano) e tibério semprônio. Os quatro livros seguintes relatam a invasão de aníbal à itália, sua estada de 16 anos na região e seus sucessos militares frente às legiões Romanas. Já os últimos livros da década mostram a virada Romana na guerra, seguida da vitória final do africano em Zama, no ano 202 a. C. Por fim, temos os livros 31 a 40, que compõem outra década distinta e os cinco últimos livros restantes da obra original (livros 41-45), que narram respectivamente a terceira Guerra Macedônica e a posterior consolidação da influência Romana na Grécia continental.
Em torno desse conteúdo fragmentado, há quase um consenso entre os especialistas referente ao fato de Lívio ter efetuado um empreendimento distinto daqueles dos três grandes nomes do gênero historiográfico da antiguidade: Heródoto, tucídides e Políbio. Esses historiadores escreveram sobre acontecimentos muito próximos às suas experiências pessoais, na maioria das vezes eventos dos quais participaram diretamente, dialogando com seus testemunhos de informação ou, mesmo, observando pessoalmente os fatos pelos tradicionais procedimentos da autopsia.
Segundo François Hartog (2001, p.52), Heródoto preocupou-se em preservar os acontecimentos humanos para que não fossem apagados da memória. Seu empreendimento narrativo compunha-se de três eixos principais: a análise etnográfica dos povos, a pesquisa constitucional das cidades e a história de uma guerra em particular; os dois primeiros constitutivos da explicação das causas nodais do respectivo conflito e suas consequências. Ainda na opinião de Hartog (idem, p.5), havia princípios de seleção na história de Heródoto, diminuindo ou suprimindo as intervenções divinas, consideradas pouco confiáveis. O “pai da história” teria dado impulso aos tradicionais procedimentos que objetivaram eternizar as ações dos homens em prosa, posicionandose contra os lapsos da oralidade épica vinculada a deuses e heróis (cf. Momigliano, 1998, p.198). Por meio desses princípios, o historiador dirigia-se pessoalmente aos locais dos eventos, no intuito de entrevistar pessoalmente suas testemunhas oculares, vinculando a maior parte de sua escrita ao passado recente (cf. Barnabé, 2006, p.36).
Por sua vez, tucídides também justificou seus relatos, seja pela confiabilidade das fontes, seja na proeminência dada aos eventos contemporâneos. Ele foi ainda mais rigoroso nos critérios de utilização das evidências, defendendo a participação direta do próprio historiador nos acontecimentos reportados (cf. Marincola, 1997, p.9-10). Sua narrativa primava pelo discurso objetivo, focando as grandes guerras recentes e as transformações políticas que ocasionavam (Momigliano, 1998, p.189). Por intermédio de sua própria interpretação pessoal, tucídides apresentou a história humana como um discurso racionalmente compreensível, um logos que, por sua natureza imanente, se diferenciava das fabulae, destinadas a exaltar os feitos dos heróis (Gagnebin, 1992, p.21). Pela sua preferência por temas político-militares, tucídides teceu um discurso baseado em sua própria coerência de homem engajado na ágora, legitimada por sua observação direta dos fatos. como um juiz imparcial, o ateniense considerou estar descortinando a verdade do passado ao despir suas fontes das hostilidades dirigidas a outrem (luce, 1989, p.17), um empreendimento que o levou a primar pelos eventos mais contemporâneos.
Por fim, destacamos a escrita de Políbio, sua composição universalista da história (katholiké) e sua tentativa de explicar o sucesso de Roma frente aos demais povos conhecidos (canfora, 1993, p.181). Mesmo se diferenciando da história parcial nos moldes de tucídides, o relato polibiano seguiu uma hierarquia muito aproximada à do ateniense no que tange à utilização das evidências (Marincola, 2001, p.38). Keneth sacks (1981, p.49-50) informa que os critérios de Políbio primavam, inicialmente, pela observação direta dos eventos, em seguida, pelos relatos de testemunhas oculares, ficando por último a versão de terceiros sobre os fatos reportados, incluindo-se aqui os registros escritos. com isso, Políbio reconheceu a falibilidade do investigador, defendendo a experiência pessoal na arte da guerra e na arena política como forma de superação. (cf. Miles, 1995, p.10-1). Por meio dessa perspectiva, ele também primou pela história recente, entendendo como função de seu ofício a educação de generais e administradores de estado, empreendimento bastante esperado, visto que integrou o círculo dos cipiões (Momigliano, 1976, p.64).
A julgar pelas perspectivas dos três grandes nomes do gênero historiográfico da antiguidade, consideramos que eles conferiram autoridade a suas obras por meio de dois critérios específicos. Primeiramente, essa autoridade deu-se pela utilização de evidências seguras e, em segundo lugar, em razão de suas próprias experiências pessoais, seja como intérpretes dos testemunhos, seja como políticos ou participantes diretos dos eventos que descreveriam. Assim, Heródoto, nascido provavelmente em 484 a. C., tratou das Guerras Médicas (greco-persas) do início do século V a. C., após ouvir relatos de homens que lutaram em Maratona, salamina e/ou Platéia (cf. Hartog, 2001, p.45);tucídides, nascido entre 460 e 455 a. C. (cf. Baptista, 2006, p.3), escreveu sobre a Guerra do Peloponeso ocorrida ao final do mesmo século, na qual atuou militarmente em favor de atenas (Momigliano, 2004, p.67); Políbio, por sua vez, interpretou os fatos em torno das Guerras Púnicas e Macedônicas, tendo atuado, na última, em 169 a. C., como hiparco (comandante da cavalaria da confederação aquea), ao lado das forças Romanas contra as falanges macedônicas (cf. Momigliano, 1976, p.63).
Tito Lívio, diferentemente deles, constituiu uma narrativa a partir das origens de Roma, tempos remotos aos de sua própria época histórica. Tal como colocado por cutro (2001, p.15), Lívio foi uma espécie de historiador de gabinete, utilizando-se muitas vezes dos escritos de antigos estudiosos (como o próprio Políbio) para descrever eventos em torno de guerras e batalhas das quais jamais
participou.26 além disso, o autor empreendeu uma narrativa cronológica à maneira dos analistas (antiqueira, 2008, p.30), influenciado em parte pelas Origines de catão (cf. Badian, 1966) e pelas monografias de salústio, narrativas que tratavam de eventos distantes daqueles vivenciados por seus autores, tal como demonstrado pela descrição salustiana da Guerra de Jugurta, ocorrida ao final do século II a. C. (sebastiani, 2007, p.80).
Se atentarmos para o conteúdo geral da narrativa liviana, constataremos que, mesmo se tratando de uma história que principiou pelas origens de Roma, a maior parte de seus enunciados descreveu eventos bastante próximos à vida do autor. como evidenciado por Bayet (1956, p.353), stadter (1972, p.289) e Barnabé (2006, p.97), o primeiro livro da Ab Urbe Condita abrangeu o período mais longo da história Romana, em torno de quinhentos anos, descritos em um único tomo de 65 páginas, das quais as duas primeiras foram dedicadas ao prefácio geral da narrativa. Os livros 2 a 5 trataram de 120 anos de história, distribuídos em quase duzentas páginas escritas, enquanto os livros que compunham a segunda pêntade da narrativa (livros 16-20) abrangiam 46 anos de história somente (stadter, 1972, p.393), ficando os livros 21 a 30 ainda mais condensados em seus conteúdos, pois narravam uma única guerra de 16 anos de duração (Burck apud Jaeger, 2000, p.97).
Interessante destacar também que o próprio Romano evoca, no prefácio do livro 31, o acréscimo de conteúdos em relação ao número de anos descritos, afirmando que narrou os 63 anos de duração do início da primeira Guerra Púnica até o término da segunda (264 a. C. -202 a. C.), em um total de livros equivalentes (15 livros) aos necessários para o período de 488 anos de história, transcorridos da fundação da cidade até o consulado de um dos muitos apios cláudios, “o primeiro a mover guerras contra os cartagineses” (Tito Lívio, Ab Urbe Condita, livro 31, cap.1). Assim, Lívio reconheceu que os eventos mais recentes da história Romana possuíam um maior grau de profundidade, carecendo de mais linhas escritas para uma profícua descrição.
Historiadores contemporâneos, como luce (1982), argumentam que tal acréscimo de conteúdos se deveu ao maior número de fontes de informação disponíveis para Lívio em relação àquelas dos tempos arcaicos, já que o passado remoto estava envolto em incertezas, devido à falta de testemunhos confiáveis, principalmente em razão do incêndio ocorrido na Urbs após o saque gaulês de 390 a. C.. Entretanto, consideramos que essa ênfase se devia à importância dada pelo autor aos eventos mais próximos aos de sua época, assemelhando-se, em parte, aos empreendimentos dos três maiores expoentes da escrita da história da antiguidade, apesar de suas múltiplas diferenças.
Concordamos com as afirmações de oakley (2004, p.16) de que, mesmo iniciando seu relato pela fundação da cidade de Roma e seus primeiros tempos, a narrativa liviana não se constituiu unicamente em uma história das origens, mas em uma história geral da república que crescera a ponto de conquistar o Mediterrâneo.tratar-se-ia, portanto, de uma narrativa direcionada ao contexto presente do autor, na qual o passado, mesmo o mais remoto, “poderia servir-lhe de conspícua inspiração” (Gabba, 1981, p.52).
Com isso, sua obra não se caracteriza por ser a manifestação inconteste de um alienado social, um indivíduo anacrônico disposto a fugir das proscrições civis do último século da república, tal como sustentado pelos pesquisadores oitocentistas (Mellor, 1999, p.65). a Ab Urbe Condita seria, também, fruto das inseguranças de um indivíduo que vivenciou as guerras civis, uma representação do passado a partir do qual poderia igualmente opor-se ao contexto de crise que antecedeu a formação do principado (cf. Woodman, 1998, p.131).
Não podemos esquecer que os últimos 107 livros perdidos da obra, a julgar pelo que nos informam seus respectivos Periochae, tratavam de apenas 150 anos de história, narrando os acontecimentos mais relevantes ocorridos em Roma ao longo dos últimos dois séculos da república. Entre alguns desses eventos, podemos enumerar os seguintes: a destruição de cartago (146 a. C.), os movimentos de reformas do ager publicus empreendidos pelos irmãos Graco (133 a. C. - 122 a. C.), a ditadura e as reformas constitucionais de sila (82-79 a. C.) e todo o processo de guerras civis, responsável pela ascensão política de cneu Pompeu, Marco licínio crasso, Júlio césar, Marco antônio e caio otávio (stadter, 1972, p.292-302).
Mediante tais constatações, esperamos ter esclarecido o conteúdo e a estrutura original da narrativa de Lívio ou, pelo menos, parte dela. É chegado o momento de partirmos para a análise da construção da própria legitimidade do historiador, não esquecendo de pensar nos mecanismos de enunciação utilizados por ele a fim de convencer seus leitores da coerência de suas proposições acerca do passado, finalizando com a demarcação das características nodais dessa escrita.
Se a obra de Lívio está incompleta, dificultando o estudo de seus enunciados, ela possui, no entanto, uma vantagem substancial em razão da existência dos prefácios que a integram, nos quais ele se posiciona em relação a seu empreendimento narrativo (olgivie, 1965, p.25; Woodman, 1988, p.129). Nesse sentido, focaremos nosso olhar em alguns enunciados de seus prefácios, na tentativa de responder sobre a construção da autoridade do autor, os mecanismos de enunciação utilizados por ele e as características de sua obra, aspectos esses considerados essenciais pelos estudiosos especializados na Ab Urbe Condita.
As características da história liviana e a
construção da legitimidade do historiador
A constituição de um prefácio geral não foi nenhuma novidade da parte de Tito Lívio. Se observarmos as narrativas dos três principais expoentes do gênero historiográfico da antiguidade, nós constataremos que todos iniciaram seus empreendimentos mediante a constituição de apresentações, explicando o teor de seus escritos e a que se destinavam. Heródoto principiou seu texto afirmando que pretendia “evitar que as ações dos homens fossem ignoradas pela posteridade”; tucídides, por sua vez, justificou seu empreendimento declarando que escreveria sobre o conflito entre “peloponésios e atenienses, em razão dessa ser a maior de todas as guerras”; já Políbio articulou argumentações em torno da importância do estudo da história para o exercício de uma vida política saudável, informando seus leitores sobre as características da “constituição que assegurara aos Romanos a dominação do mundo conhecido”.
Assim, a breve apresentação liviana no primeiro livro não fora um movimento completamente estranho à escrita da história da antiguidade. como ressaltamos anteriormente, sua obra estaria impregnada de elementos relacionados às crises civis precedentes ao advento do principado, seus prefácios servindo-lhe de justificativa para a composição de uma história das origens da Urbs. Nas palavras de Kraus e Woodman (1997, p.52), “foi no prefácio geral do livro primeiro que Lívio começou a tecer o relacionamento imprescindível entre os tempos recentes de crise com o passado remoto da Urbs, tencionando utilizar-se dos exemplos pregressos para compor um prognóstico seguro ao império Romano”.
Miles (1995, p.15) explica ainda que o prefácio geral foi dividido em duas grandes seções, espécies de parágrafos modernos, subdivididas novamente em treze enunciados menores – a primeira seção compondo os trechos 1 a 5, e a segunda, os trechos 6 a 13. Existem estudos atuais que tratam especificamente do conteúdo do prefácio geral da narrativa (Moles, 1993; 1999) e outros que, apesar de possuírem objetos distintos, procuram entender as concepções pessoais do historiador mediante leitura crítica (Walsh, 1955; luce, 1965; ciribelli, 1976; Mellor, 1998; Feldherr, 1998; sailor, 2006). É imperativo destacar que todos os estudiosos utilizados aqui citaram e/ou interpretaram os enunciados do prefácio geral, um procedimento imprescindível em qualquer análise contemporânea sobre a obra (Jal, 1990;Woodman, 1988;Kraus, 1994; sebastiani, 2002; Marques, 2008; antiqueira, 2008).
Procuraremos compreender agora alguns aspectos da composição narrativa a partir da leitura do prefácio geral. como destacamos anteriormente, o primeiro aspecto diz respeito ao modo como Lívio se justificou perante seus leitores, a forma como constituiu sua própria legitimidade.
O segundo vincula-se aos mecanismos formais empregados por ele para convencer seus leitores acerca da coerência de suas proposições, seguido da demarcação do tipo de empreendimento historiográfico produzido. comecemos, então, pelos dois primeiros trechos do prefácio do livro primeiro, com o qual Lívio dá início a sua apresentação:
[1] se me terá valido a pena relatar minuciosamente os feitos do
povo Romano desde os primórdios da cidade, não sei bem,
nem se soubesse, ousaria dizê-lo, [2] pois, vejo que o assunto é
tão antigo e divulgado, e os novos escritores sempre creem que
contribuem com algo mais preciso em relação aos fatos, ou que
superam a rude antiguidade pela arte de escrever. [3] seja
como for, agradará pelo menos ter contribuído para a história
dos feitos realizados pelo povo que é o senhor da terra; e, se
numa tUrbea tão grande de escritores, minha reputação
permanecer na obscuridade, consolar-me-ei com a nobreza e
grandeza daqueles que ultrapassaram meu nome.27
Os enunciados do excerto acima demonstram, primeiramente, o posicionamento de Lívio perante seus predecessores, em especial os historiadores analistas de origem senatorial, tais como o já mencionado Fábio Pictor, um movimento esperado visto que, ao contrário dos autores dessa tradição, Lívio não possuía autoridade política em Roma (Marincola, 1997, p.12). Ainda assim, o paduano não desqualificou quaisquer antecessores, um procedimento bastante atípico entre os historiadores greco-Romanos. À luz das afirmações de Barnabé (2006, p.57), nós consideramos que tal fato se deu pela necessidade de Lívio utilizar-se dos escritos dos analistas para compor sua narrativa. Além disso, parece-nos que a ascendência social, política e mesmo jurídica de seus predecessores obrigaram-no a um escapismo estratégico diante de possíveis comparações por parte dos leitores nesses campos, o que acarretaria prejuízos intransponíveis à sua legitimidade.
Segundo sebastiani (2002, p.24), Lívio teria empregado nesse processo a técnica retórica da diminutio, caracterizada pelo rebaixamento aparente de suas próprias habilidades, uma forma de diluir quaisquer expectativas quanto à sua escrita da história.
Podemos observar tal movimento no excerto acima, primeiro na afirmação de que [1] “não sabia se valeria à pena relatar ou não os feitos do povo Romano desde os primórdios da cidade”; depois, na constatação [2] “de que os novos escritores de sua época se consideravam cada vez mais aptos na articulação da precisão em seus relatos”, e, por fim, no excerto [3]: “consolo de ser superado apenas diante da grandeza e da nobreza dos demais historiadores do período”.
A partir dessas argumentações, Lívio rearticulou sutilmente sua própria autoridade em relação aos demais historiadores. Em primeiro lugar, quando se colocou diante de uma multidão de autores não-nomeados, uma tUrbea, ele individualizou suas habilidades no empreendimento da escrita da história, requalificando seu nome em detrimento dos demais (cf. Sailor, 2006, p.373). Ressaltemos que, ao enfatizar a grandeza de seus competidores, estaria ele a descrever somente o prestigio político-jurídico dos mesmos, contrapondo-se a eles por suas capacidades literárias (cf. Antiqueira, 2008, p.34).
Na opinião de Marincola (1997, p.140), apesar de definir-se como um forasteiro, se comparado aos demais historiadores da capital, Lívio não se eximira de qualquer competição, se não em termos de posição política, ao menos na constituição de uma história de Roma. Não podemos esquecer que, ao mencionar as crenças dos novos escritores quanto a suas habilidades, Lívio poderia estar esboçando uma crítica velada às suas pretensões, na constatação de que a ascendência social daqueles mostrava-se insuficiente para uma garantia segura de qualidade no empreendimento da escrita da história (Jal, 1990).
Foi mediante o apelo ao prazer e à utilidade de sua grandiosa obra que Lívio sobrepujou quaisquer objeções às suas capacidades enquanto historiador (cf. Sailor, 2006, p.370). Nos dois trechos seguintes, provenientes da primeira seção do prefácio, Lívio deslocou o foco de sua figura para a narrativa em si, demarcando sua própria autoridade mediante a constituição de uma história da Urbs desde as origens – na opinião de Kraus (1994, p.18), “uma obra direcionada à educação e ao deleite de seus leitores”. Vejamos os excertos:
[4] além disso, o tema é coisa de obra imensa, pois remonta a
mais de setecentos anos, e a cidade, a partir de inícios
modestos, cresceu a tal ponto que hoje se curva sob sua
própria grandeza; e a maioria dos leitores não duvido que
menos apreciarão as origens e as coisas próximas a elas,
apressando-se rumo a essas novidades às quais atualmente as
forças de um povo há muito valoroso se voltaram contra si
próprio. [5] eu, ao contrário, como prêmio também por minha
pena, buscarei desviar-me para longe da observação dos males
que a época presenciou durante tantos anos, pelo menos na
medida em que rememorarei, com toda a minha alma, aqueles
tempos antigos, totalmente livres dos cuidados que poderiam,
senão afastálo do verdadeiro, pelo menos inquietar o espírito de
quem escreve.
Se Lívio apresentara-se anteriormente com modéstia, no intuito de fugir de possíveis comparações com outros historiadores, pelo menos em termos de autoridade política e jurídica, nesse momento ele aplicava outra técnica retórica, a chamada amplificatio (antiqueira, 2008, p.36). Esse recurso já fora utilizado por Heródoto e tucídides e consistia em aumentar o valor da tarefa a ser realizada, potencializando assim o estatuto de um texto produzido, no caso aqui, a Ab Urbe Condita e seu amplo arco cronológico (sebastiani, 2002, p.25).
Mesmo que os historiadores analistas tenham reportado os acontecimentos de Roma desde as origens, Lívio potencializou profundamente esse aspecto, tal como demonstrado mais acima ao evocar [4] “o tema de uma obra imensa, que remonta a mais de setecentos anos de história”. Além disso, na mesma linha da literatura do século I a. C., Lívio expressou seus temores quanto a uma possível queda da Urbs, nas afirmações de [4] “que Roma crescera a tal ponto que agora se curvava ante sua própria grandeza”, destacando ainda “as forças de um povo valoroso; agora voltadas contra si mesmo”, uma clara alusão ao passado glorioso dos Romanos diante de seu colapso moral, ou seja, as guerras civis.
À luz desse pessimismo seria preciso demonstrar, então, a utilidade dos exemplos do passado remoto, o que daria um grau de diferenciação à narrativa (cf. Barnabé, 2006, p.61). Em nosso entender, tal apelo pode ser demonstrado nos mesmos enunciados expostos anteriormente. Primeiramente, na argumentação de que [4] “a maioria dos leitores apreciaria menos a história das origens do que as novidades dos eventos contemporâneos”; em segundo lugar, quando o autor expressara sua própria vontade de [5] “desviar-se da observação dos males do último século da república em direção aos tempos remotos”. Ao defender tal demanda contraditória, Lívio parecia desejar prover uma distração segura para seus leitores, já que o vislumbre das guerras civis causaria angústia nos espíritos, enfatizando assim o prazer adquirido pela contemplação de períodos mais distantes da história Romana (cf. Ferrero, 1970, p.42).
Trata-se de um jogo de palavras, parte da articulação liviana entre presente e passado. Nesse sentido, ao acentuar que seus leitores preferiam contemplar os tempos mais recentes, mesmo diante das dificuldades advindas do conhecimento das proscrições civis, Lívio reintroduziu o caráter utilitário do estudo da história, não para aliená-los com uma fuga ao passado remoto da Urbs, mas no intuito de ensiná-los moralmente. Na opinião de Fornara (1983, p.119-20), “uma mescla entre a história pedagógica nos moldes ciceronianos com o ansiado prazer proporcionado por uma narrativa das origens”.
Essa justaposição entre a vontade manifesta dos leitores em vislumbrar as novidades do presente e a própria vontade do autor de afastarse da contemplação a uma época de crise pode ser evidenciada pela justificativa liviana quanto a uma história eminentemente fornecedora de exemplos (sailor, 2006, p.361). Em nossa opinião, ao demonstrar as duas vontades no prefácio geral, aquela de seus leitores e a sua própria, Lívio articulou-as de forma a apresentar uma história que principiaria pelos relatos longínquos com vias a servir seu próprio contexto (tal como desejariam seus leitores), opondo os bons exemplos daqueles que viveram no passado aos atos de seus contemporâneos.
A esse propósito, Feldherr (1998, p.41) coloca que o desejo dos leitores pelas novidades do presente relacionava-se não somente ao passado recente, mas também às riquezas estrangeiras advindas do exterior. Tal fascínio ocasionaria certos riscos para a recepção da obra liviana, levando o autor a enfatizar as tradições ancestrais no intuito de demonstrar aquilo que deveria distinguir os Romanos dos demais povos conhecidos; suas virtudes cívicas e sua retidão moral diante do luxo e da avareza (cf. Miles, 1997, p.77). Vejamos outros três enunciados do prefácio geral da narrativa, extraídos da segunda seção:
[6] Quais honras são contadas antes de a cidade ter sido
fundada ou no ato de sua fundação mais com fábulas poéticas
do que com monumentos incorruptos dos fatos, essas coisas
não pretendo confirmar nem refutar.
[7] Dá-se licença à antiguidade para que, misturando as coisas
humanas às divinas, faça mais augustos os primórdios da
cidade; e se a algum povo é lícito consagrar suas origens e
remontar seus fundadores aos deuses, a glória militar do povo
Romano é tal que, ao citar Marte como pai e fundador, que
todos os outros povos suportem com o mesmo ânimo com que
suportam o império. [10] sobretudo é salutar e frutífero no
conhecimento dos fatos: que tu contemples todo tipo de
exemplos que são testemunhos dispostos sob a clara luz da
obra (monumento). Nela se encontra para o teu benefício e o da
república, o que ser imitado, bem como coisas indignas na sua
origem e em seu fim, que deves evitar.
Citamos esses enunciados do prefácio porque consideramos que se complementam em seus significados. Primeiramente, observamos a mesma ênfase nos exemplos do passado remoto, exatamente como manifestado nos enunciados anteriores. Tal ocorrência está no trecho em que Lívio explica que [10] “em sua obra seriam encontrados tan-to os elementos para o benefício da república, caso imitados, como algumas coisas indignas a se evitar”. Apesar de a respectiva citação encontrar-se na segunda pessoa, mostrando que o texto fora direcionado aos próprios cidadãos Romanos (cf. Kraus; Woodman, 1997, p.55), Lívio, a julgar pelas considerações de M. Von albrecht (1995, p.85), utilizara-se dos exemplos do passado não somente como uma lição pedagógica e moral, mas como um meio para compor uma história. Por tal motivo, o uso da exempla relaciona-se também com a própria concepção historiográfica do autor, estando intimamente ligada à sua perspectiva de verossimilhança histórica.
Tal apelo começa a ser evidenciado no trecho em que Lívio esboça a [6] “oposição das antigas fabulae do passado com os monumentos irrecusáveis dos fatos”, argumentação também encontrada no último enunciado descrito acima, quando sugere que [10] “os leitores deveriam contemplar todo tipo de exemplos sob a clara luz da obra (monumento)”. com isso, Lívio aparentemente retoma a oposição tucidideana entre os eventos mitológicos narrados oralmente e aqueles acontecimentos produzidos por agentes humanos, evidenciados e comprovados pela observação direta dos historiadores (cf. Barnabé, 2006, p.62; Marincola, 1997, p.9). A partir dessa perspectiva, as fábulas pertenceriam ao campo da poesia, contrapondo-se ao gênero historiográfico propriamente dito, munido de veritas (cícero, De Inventione, 1,27).
Assim, encontramos um obstáculo de difícil solução no que tange à narrativa liviana. como afirmamos anteriormente, o Romano, apesar de preocupar-se com os eventos de seu próprio tempo, principiou sua obra pelos tempos remotos da Urbs, acontecimentos impossíveis de serem observados diretamente. Nesse sentido, Lívio precisou rearticular a clássica oposição entre oral e visual evidência, entre fabulae e logos, o que o levou ao emprego do termo monumentum (cf. Miles, 1995, p.16).
Esse termo possuiu múltiplos significados na Roma antiga: referiase algumas vezes a objetos específicos e concretos criados intencionalmente, tais como monumentos públicos, túmulos e templos; em outras ocasiões, vinculava-se a locais que sediaram guerras ou batalhas, que se constituíram em palcos de eventos marcantes na memória coletiva dos Romanos, tais como muralhas, estradas, fortificações e/ou ruínas; e, por fim, à categoria do emprego utilizado por Lívio, como de registros escritos, a própria obra de história, sentido usualmente dado pelos escritores de Anais, como se suas narrativas fossem parte integrantes dos mores (cf. Woodman, 1986, p.13).
A Ab Urbe Condita seria ela mesma um monumento à vista dos leitores, algo concreto a ser observado, próxima à expressão visual dos exemplos do passado. A narrativa apresentava-se como o próprio locus da observação pública, responsável pela contemplação e emulação dos bons modelos de conduta, estando relacionada à aprendizagem moral dos cidadãos (cf. Marques, 2008, p.44-5). concordamos, portanto, com Jaeger (1993, p.362-63) quanto à utilização por parte de Lívio dos eventos pregressos de Roma como uma paisagem visível aos seus próprios espectadores, o que significaria a execução de um trabalho de reconstrução da memória coletiva dos Romanos. como bem argumenta Wiedemann (apud sebastiani, 2006, p.85), tratava-se de uma história produzida para indivíduos que conheciam o assunto reportado, os próprios cidadãos da Urbs.
Se atentarmos aos enunciados em latim do trecho no qual Lívio chama seus respectivos leitores para [10] “contemplar todo tipo de exemplos testemunhados na obra”, observaremos que, ao lado do substantivo monumenta, encontram-se os termos intueri e inlustri.
O primeiro pode ser traduzido por “olhar sobre”; o segundo, significa “algo transparente e luminoso” (Feldherr, 1998, p.1-2). Por intermédio do emprego desses termos, a Ab Urbe Condita tornarse-ia o centro de uma imagem clara e transparente para os leitores, vinculando o passado narrado aos sentimentos produzidos no contexto dos mesmos, igualmente munida de alguma forma de exatidão específica, caracterizada pelo conjunto [6] incorrupta monumenta do enunciado anterior.
Assim, como um monumento incorrupto de contemplação, a obra seria um objeto coerente e visível, “um mecanismo perpetuador de res gestae nos interstícios da cultura Romana” (cf. Antiqueira, 2008, p.31). Mas a exatidão do passado não estava na observação direta do historiador diante dos eventos pregressos, seu próprio olhar, mas na evocação daquilo que considerava os sentimentos genuínos de seus leitores (Jaeger, 2000, p.55).
Autores como Moles (1993, p.148) argumentaram que seria possível observar, na narrativa liviana, o contraste entre fabulae e monumenta em sentido análogo à oposição mithos e logos de tucídides, o que demarcaria o compromisso do paduano com a exatidão histórica do passado em si. A corroboração para essas mesmas concepções parecem estar inscritas no prefácio do sexto livro da composição liviana, no qual