O senado romano em Tito Lívio, livros 21 a 30

Marco Antonio Collares · Capítulo 3 de 6 · parte 3/3

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O senado romano em Tito Lívio, livros 21 a 30

2 Visões historiográficas sobre a obra de Tito Lívio

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

O autor argumenta em torno da distinção entre a história obscura dos primeiros tempos e os acontecimentos posteriores ao saque gaulês. Vejamos novamente suas linhas escritas:

Aquilo que os Romanos fizeram desde as origens da cidade até

sua captura [...] expus em cinco livros, coisas que são obscuras

por sua antiguidade e porque naqueles tempos, a escrita,

guardião confiável da memória dos feitos, era incomum e,

mesmo que existisse algo nos registros dos pontífices ou em

registros públicos e privados, eles teriam perecido no incêndio

da cidade. Mais ilustres serão os feitos na paz ou na guerra

apresentados a partir desse ponto, o segundo início da cidade.

(Tito Lívio, 28 Ab Urbe Condita , livro 6, cap.1)

No excerto acima, observamos a demarcação dos tempos remotos como um período obscuro, primeiramente devido à sua distância no tempo e, em segundo lugar, em razão da escassez de testemunhos confiáveis. Ao final do enunciado, lemos que os acontecimentos após 390 a. C. Seriam relatados com maior clareza, o que ratificaria as argumentações propostas por Moles. Entretanto, constatamos uma contradição entre essa interpretação do enunciado e a defesa de Lívio em torno de o conjunto total da obra constituir-se em um monumento claro, visível e incorrupto.

Além disso, se os antigos tempos estavam perdidos na obscuridade, como colocado pelo próprio Romano no excerto acima, isso não significa que ele desconsiderasse tais eventos, uma atitude que se apresentaria incoerente diante da demarcação do passado remoto como um exemplo para seus leitores. Seria inconsistente de sua parte relatar acontecimentos dessa natureza sem nenhum propósito, próximo à afirmação de que os primeiros cinco livros da Ab Urbe Condita deveriam ser deixados de lado pelos leitores.

Em um estudo acerca das narrativas de origens, Jacques Poucet (1987, p.69-85) defendeu que Lívio não desejara questionar os primeiros tempos da história da Urbs, exprimindo uma espécie de suspensão de julgamento quanto aos fatos do passado distante. O autor também não teria apoiado a concepção da total intervenção divina nos afazeres humanos, tal como Políbio, por meio de sua ênfase nos condicionantes da fortuna, a Tyké grega (cf. Poucet, 1987, p.77). Ao contrário dessa construção, teria Lívio articulado uma verdadeira filosofia humanista, defendendo as múltiplas circunstâncias imprevisíveis do devir e as desordens ocasionadas pelas ações dos homens, aparentemente efêmeras diante das intervenções dos deuses e do destino, mas potencialmente relevantes no complexo processo de transformações das cidadesestados e seus impérios (cf. Ducos, 1987, p.132).

A partir dessa demanda, Lívio teria concebido os eventos pregressos pela (re) significação do conceito de fatum, que pode ser resumido pelos acontecimentos predestinados da história humana, tal como apresentados por Políbio, mas que, na Ab Urbe Condita, significaria a não-determinação total da fortuna no devir, apesar de

suas constantes intervenções (cf. Davies, 2004, p.87-142).29 A partir dessas afirmações, consideramos que, no enunciado exposto acima, Lívio demarcou as principais diferenças entre eventos míticos e humanos. Os primeiros vincular-se-iam aos tempos arcaicos, impregnados de intervenções divinas, possuindo poucos testemunhos para o levantamento dos fatos. Por sua vez, os eventos mais recentes poderiam ser observados com maior profundidade devido ao acúmulo de evidências, sendo marcados por ações e intervenções eminentemente humanas, ambos os casos encarados como possíveis materiais históricos diante da importância dada pelo autor à emulação dos exemplos e à ação condicionante dos homens no devir (Poucet, 1987, p.82).

Nesse sentido, mesmo ratificando tal distinção, Lívio representaria as fabulae como monumentos incorruptos à vista de seus leitores. Ressaltou as diferenças existentes entre os mitos divinos de fundação e as ações eminentemente humanas, sendo que não realizou tal movimento para desqualificar aqueles. Foi mediante essa apropriação do passado (fabuloso ou recente) que os escritos livianos se apresentaram como um monumento claro e luminoso para seus leitores, conforme explicado por Feldherr (1998). Nessa articulação, Lívio também evidenciou as fabulae como imagens transparentes, não no sentido de qualquer alusão à veracidade dos fatos (veritas), empreendimento esse referendado pela sua suspensão de julgamento, mas na manifestação de aspectos

verossímeis sobre o passado ( 30 veri similis ), diante daquilo que acreditava ser a visão dos Romanos sobre os eventos pregressos.

No sétimo trecho do prefácio geral, encontramos as palavras que, a nosso entender, referendam tal argumentação. Ao enunciar que [7] “deveria dar-se licença para que os Romanos fizessem mais augustos os primórdios de sua cidade, arrogando-se o direito de se considerarem filhos de Marte”, Lívio estava a articular uma representação do que considerava ser a visão dos cidadãos Romanos acerca de seu passado. Tratar-se-ia de uma representação eminentemente coerente aos olhos de Lívio, a julgar a consolidação do império Romano. Não importava a historicidade do evento em seu respectivo tempo, qualquer defesa relacionada à veracidade literal do estupro da vestal réa sílvia pelo deus Marte. Enquanto fábulas do passado longínquo, tais representações eram obscuras e pouco seguras na percepção de Lívio, tornando-se coerentes somente diante dos sentimentos de seus leitores, visto que os Romanos, ao longo do tempo, haviam conquistado o mundo conhecido. A valorização dessa perspectiva tornava a história de

Marte eminentemente verossímil no contexto de Lívio. 31 como bem expressara o próprio historiador, [7] “que os demais povos do mundo suportem tais crenças com o mesmo ânimo com que suportam o império”.

Essas características asseguram, em nossa opinião, a concepção liviana da história, um tanto distinta da perspectiva tucidideana e polibiana, relacionada à reconstrução imediata do passado recente via suas próprias observações e experiências diretas. A única experiência evocada por Lívio seria aquela que cícero havia defendido para o ofício do historiador em seu De Oratore: a capacidade de realização do discurso plausível diante de uma platéia, característica semelhante aos atributos dos políticos e/ou juristas no Fórum, versados na arte de se apropriarem dos anseios de seus ouvintes para conceder um grau seguro de verossimilhança

aos eventos (sebastiani, 2006, p.82).32 afinal, era função dos retóricos direcionarem as opiniões alheias, esculpirem, pela ornamentação da palavra, espetáculos que pudessem gerar sentimentos genuínos no público, demonstrando por analogia um conjunto de cenas coerentes (Vasaly, 1993, p.88-104).

O criticismo retórico liviano (Marincola, 1998, p.19) não vislumbrou, portanto, a exatidão do passado em seu próprio tempo, mas a maneira como os eventos pregressos poderiam ser evocados, esse constituindo o principal parâmetro historiográfico do autor. chegamos, portanto, a um posicionamento quanto ao tipo de história efetuada por Lívio. Mesmo apelando para a narração de eventos eminentemente político-militares da cidade de Roma (sebastiani, 2006, p.84), na maioria das vezes acontecimentos vinculados a temas religiosos e morais (levene, 1993), a Ab Urbe Condita constitui-se em uma história como relação de valores. Segundo Paul Veyne (1998, p.55), uma história desse tipo caracteriza-se pela vinculação obrigatória entre passado e presente do sujeito do conhecimento. Sua apropriação dos acontecimentos pregressos não ocorre pelas razões de conhecê-los em sua própria historicidade no tempo, mas pelas razões de existirem como objetos de referência inscritos no contexto presente do historiador. Por esse motivo, tal empreendimento vislumbra o passado mediante os juízos de valor estabelecidos pelo narrador, aquilo que no seu entender pode servirlhe para constituir explicações plausíveis referentes às demandas contemporâneas de sua respectiva sociedade, mediadas por sua própria subjetividade político-afetiva.

Por intermédio de um duplo movimento, o historiador acaba construindo o passado segundo seus próprios valores e interesses, em alguns casos, movido pela busca do bem-estar político, econômico e social (cf. Reis, 2003, p.58-9). Uma subjetividade que não produz apenas juízos de fato sobre o passado, mas, eminentemente, juízos de valor. Por meio desse percurso, o historiador confere sentido ao passado narrado, definindo suas causas pelos seus efeitos, estipulando como as coisas deveriam ser

diante de sua própria historicidade inscrita no presente.33 assim, em vez de tentar descortinar qualquer verdade de fato, o historiador processa a demarcação de uma verossimilhança valorativa do passado, segundo suas próprias concepções de mundo.

Em nosso entender, essa seria a principal característica da história produzida por Tito Lívio, mesmo não tendo o paduano plena consciência de sua arquitetura. como afirmamos anteriormente, esse autor evidenciou o processo causal dos conflitos políticos entre as elites dirigentes republicanas no decorrer do último século da república, procedimento constituído mediante sua própria percepção acerca das proscrições civis. Sua escrita da história servia-se do passado para dar explicações coerentes aos eventos mais recentes de sua sociedade, demarcando no processo a memória coletiva dos Romanos. Tratava-se, entretanto, da tessitura de suas próprias concepções acerca dos eventos reportados, referendadas pela evocação daquilo que acreditava ser o conjunto das representações dos Romanos acerca de si mesmos em dado contexto, evocados em um monumento incorrupto.

Em seu prefácio, Lívio articulara as bases de sustentação desse empreendimento. Além disso, evidenciara os mecanismos de convencimento que seriam posteriormente utilizados ao longo da obra, na maioria das vezes vinculados aos procedimentos da retórica latina. Não podemos esquecer que exaltar um conjunto de eventos foi parte integrante dos movimentos praticados pelos retóricos gregos desde o século IV a. C., exemplificado pelo termo enargeia (demonstratio em latim) – a demonstração de espetáculos com vias a gerar sentimentos em uma plateia específica, no intuito de conquistá-la (cf. Feldherr, 1998, p.4). Essesmesmos mecanismos deram autoridade à figurade Lívio enquanto sujeito da enunciação, além de constituir o tom de sua história.

Após detalharmos as características da narrativa, abordaremos nas páginas seguintes outros enunciados do prefácio geral, ainda na esteira da função da história para o paduano. Investigaremos, também, a datação da produção da Ab Urbe Condita, esboçando paralelamente a relação do autor com a figura do imperador otávio augusto.

 

A consecução de uma história patriótica no

contexto de formação e consolidação do

principado

Ao longo deste livro deixamos subtendida a vinculação da história de Lívio a dois contextos distintos, mas interligados. De um lado, ressaltamos as preocupações do historiador com as guerras civis; de outro, sugerimos que a tessitura da narrativa não podia fugir ao contexto específico de consolidação do principado. Essa aparente ambiguidade precisa ser esclarecida, levando-nos a tratar novamente dos enunciados de Lívio com auxílio da historiografia especializada. Voltemos novamente nossa atenção para os escritos do prefácio geral liviano:

[11] contudo, ou o amor pela empresa me engana, ou jamais

uma república foi maior, mais sagrada e enriquecida por bons

exemplos, nem para outra cidade migraram tão tarde a avareza

e o luxo, nem há lugar onde existiu tanto e por tanto tempo o

reconhecimento à pobreza e à parcimônia. [12] ademais,

quanto menor era o número de coisas, tanto menos desejo

havia: em nossos dias a avidez da riqueza e as veementes

vontades arrastam os ânimos para o caminho do luxo e do

capricho em arruinar e perder todas as coisas.

Interessante notar o tom apologético ao passado arcaico da Urbs, uma Roma em que apenas tardiamente [11] “migraram a avareza e o luxo”, onde “por tanto tempo foram reconhecidas as vantagens da pobreza e da parcimônia”. Temos aqui referendadas as concepções de Lívio acerca da retidão moral dos comportamentos individuais contra a ganância e a avareza, qualidades responsáveis por atrasar o advento das crises civis, já mencionadas neste livro. como bem sustenta luce (1983, p.20), o amor pátrio do paduano constituía-se em um fator passível de ser advogado diante dos sentimentos de seus leitores, na medida em que os mesmos vivenciaram o amplo contexto de tumultos e proscrições do período tardo-republicano. Por meio dessa demanda, Lívio enfatizou seus temores diante da possível autodestruição de Roma, alusão inscrita ao final do enunciado, na afirmação de que [12] “em nossos dias a avidez da riqueza mais as veementes vontades arrastam os ânimos para o caminho do luxo e do capricho, arruinando todas as coisas”.

Esse pessimismo exacerbado somado à pretensa vontade em retomar as virtudes de um passado glorioso tornaram-se elementos condicionantes das discussões historiográficas ao longo do século passado, principalmente aquelas referentes às concepções do paduano em torno da centralização política empreendida por otávio (Deininger, 1985, p.265). Em um trabalho dessa ordem, syme (1959, p.80) tratou da ligação do texto liviano com o novo regime instituído, na afirmação de que a Ab Urbe Condita fazia parte de uma interpretação histórica voltada a promover a centralização do poder de augusto e a perspectiva de restauração republicana propugnada por ele.

Dois anos após a publicação desse estudo, Hans Petersen enfatizou a relação de Lívio com o imperador. Em linhas gerais, Petersen (1961, p.439) afirmou que a narrativa liviana não estava direcionada somente a promover a aprovação das reformas de otávio augusto, mesmo que as atenções do historiador não pudessem fugir a esses conteúdos. Assim, segundo suas conclusões, Lívio estaria vinculado ao Princeps no campo das ideias, não se tratando de um intelectual que prostituíra seus talentos ao poder oficial, tal como sugerira syme, mas de um homem que compactuava com a perspectiva de restauração da ordem e da paz, na esteira de um genuíno republicanismo tradicional (idem, p.440).

Nessa mesma linha de pensamento situara-se Willelm Hoffman (1964), que considerou Lívio um crítico moderado do novo regime, além do próprio Burck (1991), que definiu a relação do paduano com o imperador em tons respeitáveis, apesar de distante e autônoma. Ainda seguindo algumas opiniões gerais, podemos dizer que liebeschuetz (1967, p.55) definiu a obra liviana como parte da reconstrução religiosa promovida pelo novo regime, enquanto Badian (1993, p.1-38) enfatizou o tom lisonjeiro de Lívio às reformas políticas empreendidas pelo Princeps. Não podemos desconsiderar ainda as proposições de eugen cizek (1992), que retratou o paduano como um polemicista do período de transição, um indivíduo entusiasmado com a paz social, não se abstendo, porém, de empreender veladas críticas ao novo regime.

A problemática dessa discussão não se resumia somente às posições conceituais dos pesquisadores contemporâneos acerca da natureza do principado, mas também a duas dificuldades bastante pontuais: a primeira relaciona-se à dispendiosa tarefa de descortinar a que evento específico estava direcionado o pessimismo liviano inscrito no prefácio, uma atitude eminentemente contrária ao aparente otimismo manifestado no decorrer dos demais livros da obra (Marques, 2008, p.49); a segunda associa-se à impossibilidade de datação do mesmo prefácio e demais livros da narrativa diante de esparsas e incertas alusões ao tempo presente do autor. O excerto exposto logo abaixo é representativo das dificuldades às quais nos referimos aqui. Verifiquemos:

[9] cada um por si que analise qual vida e que costumes

existiram, devido a que homens e por quais artes interna ou

externamente o império tenha sido alcançado e aumentado;

depois paulatinamente afrouxandose a disciplina, primeiro se

degenerando, por assim dizer, os costumes, acompanhados

dos ânimos e depois de terem decaído cada vez mais, quando

então começaram a se precipitar para esses tempos em que

nem nossos vícios, nem os remédios para eles podemos

suportar.

O trecho, mais do que qualquer outro, evidencia o pessimismo liviano quanto a seu contexto, levando-nos à conclusão de que, na época de produção de seus escritos, Roma passava por um “afrouxamento da disciplina” e por uma consequente “degeneração dos costumes”. Mas as palavras que geraram as maiores discussões entre os estudiosos encontram-se ao final do enunciado, quando Lívio menciona “o precipitar dos tempos em que nem os vícios, nem os remédios para eles podemos suportar” (Haec tempora quibus nec vitia nostra nec remedia pati possumus).

Como apontado por olgivie (1965, p.23-5), as razões que levaram Roma a dobrar-se sobre sua própria grandeza preocupavam o historiador, condicionando-o a uma escrita da história eminentemente patriótica. Mas o termo remedia aparece como a representação de um contexto específico, sugerindo, tal como aventou Petersen (1961, p.440), “uma crítica velada ao conjunto de reformas articuladas por otávio, principalmente aquelas do ano 28 a. C. Referentes aos preceitos morais em torno do casamento”.

Nesse sentido, Lívio teria manifestado no prefácio geral não somente um amor pátrio dotado de temores ulteriores diante das guerras civis, mas também um tom eminentemente negativo dirigido ao conjunto de reformas adotadas para tentar solucioná-las, significando que o início de produção da narrativa poderia ser datado logo após Ácio.

O mesmo termo, remedia, pode ser encontrado em outros momentos da obra liviana, em geral, diante de processos de crises políticas ou guerras externas que levaram Roma à nomeação de um ditador. No terceiro livro da Ab Urbe Condita, Lívio explica que, devido à abstenção dos tribunos da plebe em exortar o povo às armas contra seus inimigos, “Roma estava tão doente que os remédios comuns não bastavam para curá-la”. Posteriormente, no livro 22, há outro enunciado liviano a destacar: “Roma recorreu a um remédio que por longo tempo não havia sido reclamado ou aplicado: a nomeação de um ditador”.

Entretanto, se nos guiarmos pelas interpretações de Petersen, a remedia do prefácio diferencia-se completamente dessa utilização. No respectivo preâmbulo, o termo estaria estritamente vinculado a um conjunto de reformas políticas distanciadas de quaisquer prerrogativas constitucionais precedentes, o que esboçaria uma alusão direta ao advento de uma monarquia em vias de tornar-se sua contraparte negativa, a tirania (cf. Woodman, 1988, p.75).

É exatamente nesse ponto que tais argumentações perdem sua base de sustentação. Em primeiro lugar, como bem colocado por Badian (1988, p.133) e K. Milnor (2007, p.16), não existe nenhum consenso quanto à autenticidade das leis morais referentes ao casamento propostas por otávio no ano de 28 a. C., o que desqualifica quaisquer considerações a respeito de os “insuportáveis remédios” de Lívio estarem direcionados às mesmas. Em segundo, as palavras de Lívio não significariam necessariamente um temor relacionado a qualquer evento específico ligado ao imperador. Dizemos isso, pois esse tipo de preocupação, relacionada às doenças e seus remédios como metáforas das crises políticas e suas superações, foi um aspecto comum entre vários intelectuais Romanos da antiguidade, de salústio a cícero prosseguindo com tácito, sêneca, Dion cassius e Plutarco, cada qual possuindo interpretações distintas para as crises recorrentes (cf. Néraudau, 1996, p.166). Assim, ante tais características comuns, não consideramos palpável atribuir as palavras inscritas no prefácio da Ab Urbe Condita a um único conjunto específico de reformas políticas.

Outro problema a dificultar as análises encontra-se nos escritos de intelectuais Romanos sobre o relacionamento pessoal do historiador paduano com otávio. A menção de tácito (Anais, livro 4, cap.34) sobre o fato de o imperador ter chamado Lívio de pompeiano poderia significar um posicionamento crítico da parte do paduano ao poder centralizado que se constituía, já que, em 36 a. C., o último sopro de resistência contra as pretensões de centralização política dos triúnviros fora liderado por sexto Pompeu, filho de Pompeu Magno (Favro, 1996, p.88).

Contrapondo-se a tal prognóstico, essa referência poderia apenas evidenciar um estreito relacionamento entre Lívio e otávio (cf. Marques, 2008, p.50). A mesma dubiedade de interpretação pode ocorrer diante do relato de suetônio a respeito da possibilidade de

Lívio ter sido preceptor de claudio, futuro imperador. 34 apesar de parecer coerente uma provável vinculação do paduano ao poder oficial a partir dessa constatação, tal fato, caso verídico, em nada indicaria uma dependência ideológica de Lívio com a família do Princeps, evidenciando apenas que entre os anos de 29 a. C. E 17 d. C., período em que o historiador habitou em Roma para constituir sua narrativa (cf. Mellor, 1998, p.147-148), ele atuou como mentor intelectual de um dos membros da dinastia Júlio-cláudia.

Diante de todas essas incertezas, nós poderíamos recorrer a leituras como as de luce (1965) e sailor (2006), referentes a duas alusões diretas à figura de otávio augusto no interior da Ab Urbe Condita: a primeira encontrada no livro primeiro, capítulo 19 (1.19), e a segunda no livro quarto, capítulo 20 (4.20). Mas diante das incertezas quanto aos trechos serem originais ou parte de uma segunda edição da obra, preferimos enfatizar aqui outras considerações de pesquisadores contemporâneos a respeito da relação do historiador com o novo regime.

Nesse ponto, Feldherr (1998, p.19) coloca que Lívio efetuou um espetáculo monumental a fim de legar uma experiência genuína para seus leitores, articulando seus próprios valores individuais com as ideias difundidas pelo Princeps. Por sua vez, Kraus (1994, p.8) explica que havia paralelos entre as concepções de Lívio e otávio no ato de reconstrução do passado da Urbs, uma espécie de compartilhamento de valores na demarcação de uma identidade Romana, opinião bastante aproximada à de thomas (1996, p.164), que defendeu a existência de processos simbólicos de apogeus, declínios e renascimentos inscritos no interior da narrativa, sendo sua tessitura parte do movimento de (re) significação moral da Urbs, empreendido ao início do principado.

Opiniões semelhantes podem ser encontradas ainda nos já citados Galinsky (1996, p.288-331) e Marques (2008, p.51), para quem havia uma confluência de ideias, concepções e interesses entre o monumento historiográfico projetado por Lívio e o conjunto mais amplo de reformas empreendidas durante o advento do regime imperial.

Todos esses autores, ao tratarem dos enunciados livianos como representações de um passado reconstruído, não somente se afastam da já mencionada proposição de syme em torno da elaboração de uma propaganda deliberada dos adeptos do novo regime, como também se desvinculam do empreendimento de relacionar trechos pontuais da obra liviana com eventos específicos. como aporte historiográfico, tais estudiosos se vinculam, direta ou indiretamente, às proposições de Zanker (1992), para quem a ampla linguagem iconográfica estabelecida no lento processo de instituição do principado alterou os signos da recepção das imagens dos Romanos acerca das lideranças instituídas, incluindo-se no processo os grandes monumentos públicos vinculados às esferas político-religiosas. Nesse sentido, a difusão de uma Roma restaurada, longe de representar apenas um projeto de poder vindo de cima, foi como um espelho das concepções dos homens que viveram no período de transição. (cf. Marques, 2008, p.56).

Os trabalhos de Marques (2008), levene (1993), Favro (1996) e mesmo Galinsky (1996) são representativos por evidenciarem, na narrativa liviana, muitos conceitos-chave do campo semântico Romano que também foram exaltados nos monumentos, oficiais ou não, dedicados a otávio augusto ao longo do período de transição. As considerações de levene (1993, p.244) a respeito de a pietas ter se constituído como um valor fundamental para Lívio estão em plena concordância com a imagem que otávio pretendera difundir na cidade ao inaugurar o novo Fórum Romanum. Nessa grande estrutura inaugurada em 2 a. C., o Princeps prestou homenagens aos grandes varões Romanos do passado por meio da ornamentação de estátuas e esculturas dispostas nos peristilos e nichos, sem falar na constituição do templo de Marte Vingador (Ultor), situado no centro do complexo (cf. Favro, 1996, p.89).

Do mesmo modo, Marques (2008, p.55) coloca que tanto os escritos de Lívio quanto os monumentos públicos construídos ao longo do período – fossem eles autônomos ou empreendidos diretamente pelo Princeps e seus adeptos – exaltaram temas semelhantes, como as já supracitadas auctoritas, virtus, clementia, dignitas, moderatio, iusticia, libertas, além da concordia, da fides e da própria pietas. como bem argumenta Favro (1993, p.231), as imagens visuais em uma sociedade de poucos leitores serviam como textos literários legíveis para o público observador, ainda mais quando exaltavam sentimentos genuínos nesse público. Por sua vez, néraudau (1996, p.161) argumenta que tais monumentos se compuseram como roteiros e lições culturais de um passado a ser perpetuado, parte de uma manifestação iconográfica eminentemente pedagógica.

Assim, mesmo que a escrita de Lívio se destinasse a um público restrito de homens alfabetizados, tratava-se igualmente, tal como atestado por suas próprias considerações no prefácio geral, de um monumento público de ponderação, uma narrativa destinada a afirmar um amplo conjunto de valores projetados no período de consolidação do principado. O texto liviano parece-nos como o de um indivíduo que teceu representações patrióticas sobre a Urbs e seu passado, representações essas articuladas de forma espontânea, mesmo que indiretamente vinculadas às concepções difundidas pelos adeptos do poder oficial.

Como uma história moralizante preocupada com os perigos das crises civis, o conjunto de seus enunciados não pode e não deve ser simplesmente associado a eventos específicos, mas ao amplo processo de transformações políticas, sociais e culturais do período de transição. Não podemos esquecer o tamanho da narrativa e o tempo despendido para sua consecução, provavelmente quarenta anos de árduo trabalho (cf. Olgivie, 1982, p.163).

Nesse sentido, se o prefácio de Lívio acentua um pessimismo evidente diante de seus temores relacionados às guerras civis precedentes, o restante da obra equaciona tal projeção negativa com o otimismo da rememoração dos constantes renascimentos da Urbs ao longo do tempo, seja em termos físicos – de uma cidade que renasceria em mármore – seja morais (Kraus, 1994, p.270). Pode ser, assim, considerada uma escrita patriótica estritamente associada ao condicionamento do devir, evocando uma perspectiva positiva de futuro via emulação dos bons exemplos do passado (Ferrero, 1970, p.43).

Após tais considerações, resta-nos tratar de nosso objeto de pesquisa, as representações livianas sobre o senado e a forma como o autor demarcou as prerrogativas da instituição na Ab Urbe Condita, empreendimento esse a ser realizado no próximo capítulo. Se a obra foi projetada visando o condicionamento do devir e a emulação dos bons exemplos do passado, podemos encontrar alguns elementos positivos do senado do tempo histórico do autor. Ao mesmo tempo vislumbraremos modelos de conduta idealizados para o próprio conselho dos patres relacionados à conjuntura política do início do principado.

1 Uma vasta bibliografia sobre os historiadores oitocentistas da Quellenforschung pode ser encontrada em Walsh (1961). O trabalho de Miles, intitulado Livy Reonstructing Early Rome (1995), também possui um capítulo específico a respeito desses estudos.

2 Tradução livre do autor a partir do texto original em inglês.

3 Principalmente a adequação aos princípios evocados por cícero em seu De Oratore, ao delimitar a esfera política como cerne do estudo do historiador (cf. Marchal, 1987).

4 Para uma bibliografia dos trabalhos do período 1950-1970, temos o estudo de Jane Philips (1982), intitulado Current Research in Livy’s First Decade (1959-1979).

5 Tradução livre do autor a partir do texto original em inglês.

6 Obviamente, estudos consagrados a averiguar possíveis deformações históricas praticadas por Lívio não deixaram de existir. Michel rambaud, em um colóquio de História e Historiografia no ano de 1978, apresentou um trabalho intitulado Exemples de déformation historique chez Tite Live, evidenciando aquilo que considerou serem típicos erros históricos inscritos na obra do autor (cf. Mineo, 1998, p.8).

7 Argumentos também levantados por r. G. collingwood. Segundo suas concepções, a obra liviana fora arquitetada a partir de um pensamento anti-histórico, que tinha Roma como principal heroína. Para o filósofo, entre os antigos, não havia considerações específicas sobre a natureza das transformações históricas, mas sobre a substância imutável subjacente à formação do caráter humano, forjado nos mitos e nos costumes ancestrais das cidades-estados. Assim, gregos e Romanos possuiriam um pensamento eminentemente substancialista, a ausência de uma consciência histórica elaborada (cf. collingwood, 1990, p.60-2).

8 Tradução livre do autor a partir do texto original em inglês.

9 Em sua De Republica (livro 1, cap.16), cícero coloca que a datação do primeiro anal publicado estaria entre os anos 400 e 350 a. C., não muito tempo depois da destruição gaulesa de Roma.

10 Aqui cabem duas considerações importantes. A primeira diz respeito à publicação dos Annales Maximi (anais máximos) organizados pelo Pontífice Públio Múcio cévola entre os anos 130 a 115 a. C. Mesmo não entrando nas discussões a respeito dessa datação, devemos ter em mente que Lívio possuía mais informações do que os analistas anteriores a ele. Também devemos lembrar que as Origines de catão foram um dos modelos utilizados pelo autor. Segundo Momigliano (2004, p.138), o próprio catão teria sugerido que os historiadores não encontrariam informações seguras nos antigos Anais pontífices, apenas descrições referentes a epidemias, fomes e eclipses, o que contrasta com as opiniões de cícero ao defender a proeminência dos eventos político-militares nos Anais.

11 Diferentemente das posições do próprio Quintiliano, que acentuou as qualidades retóricas de Lívio, comparando-o a Heródoto em clareza e estilo (Instituições oratórias, livro 10, cap.1).

12 Lívio não fora o primeiro provinciano a dirigir-se à capital do império para constituir uma história da Urbs. Visto a trajetória de Políbio, proveniente de Megalópoles, na arcádia, ou mesmo dos analistas cláudio Quadrigário e Valério de Ântias, que, segundo Marincola (1997, p.28), faziam parte das elites municipais italianas, Lívio seria apenas mais um estrangeiro no empreendimento da escrita da história.

13 Mellor (1999, p.20) e antiqueira (2008, p.28) comentam a respeito de um autor pouco conhecido chamado lúcio célio antípatro, que teria escrito uma monografia a respeito da segunda Guerra Púnica, não integrando qualquer magistratura em Roma.

14 Pesquisas sistemáticas não cronológicas que abrangiam as genealogias em sua totalidade, desde as origens das cidades, das leis, dos legisladores, das famílias eminentes, das instituições, dos costumes ancestrais e dos heróis lendários (cf. Momigliano, 2004, p.95).

15 Consideramos relevante mencionar que, em Roma, a rememoração do louvor aos mortos, seguida pela oração fúnebre (laudatio funebris) tinha conotações políticas entre os nobres. Em seus escritos, Políbio evidencia que nenhum homem poderia ficar insensível diante da autoridade das efígies dos mortos, cujo “mérito tornara seus descendentes igualmente ilustres”.tais afirmações expressam a importância da nomeação dos antigos magistrados pelos membros das elites dirigentes Romanas, uma forma de valorização de suas auctoritas (cf. Rouland, 1997, p.94).

16 [...] Luxuriae enim peregrinae origo ab exercitu Asiatico inuecta in Urbeem est. Ii primum lectos aeratos, uestem stragulam pretiosam, plagulas et alia textilia, et quae tum magnificae supellectilis habebantur, monopodia et abacos Romam aduexerunt [...]. Uix tamen illa quae tum conspiciebantur, semina erant futurae luxuriae. Tradução livre do autor a partir do texto bilíngue latim/francês da les Belles lettres.

17 A concepção de cícero de uma história mestra da vida, fornecedora de exemplos (De Oratore, 2, 36), tornou-se conhecida entre os Romanos. Não se tratava de Uma defesa original, visto que na Grécia tal concepção já existia. O prefácio das Histórias de Políbio destaca a função do estudo do passado nesses mesmos termos, empreendimento retomado mais tarde por salústio, Lívio e Diodoro da sicília (cf. Hartog, 2001, p.171).

18 A esse propósito, Marilda ciribelli (1978, p.62) destaca não somente a incompletude da obra, mas os riscos de conclusões genéricas sobre uma documentação Textual incompleta.

19 Segundo consta nos textos de Marcial, a grande extensão dos escritos de Lívio teria prejudicado sua completa conservação, sendo necessária uma biblioteca inteira para armazenar a obra (cf. Bornecque, 1933, p.19).

20 Conforme Phillip Vandemberg (1986, pp.274-5), suetônio era filho de família plebeia, contemporâneo de Plínio, o Jovem. Ele frequentou a corte imperial e escreveu biografias pejorativas sobre as dinastias dos Júlio-cláudios e Flávios.

21 Em nossa opinião, os comentários acerca das referidas perseguições evidenciam uma colocação de significados dados ao seu texto pelos pesquisadores contem porâneos. Mesmo que suetônio trate os casos de forma pitoresca, relacionados ao autoritarismo de calígula e Domiciano, o Romano acabou sendo considerado parte de uma tradição republicana. Em razão de o paduano criticar a monarquia, ele recebeu a propriedade de um defensor da libertas civis aristocrática, demonstrando aquilo que roger chartier vem defendendo em seus trabalhos: que a apropriação dos textos e sua recepção por olhos estranhos efetuam mudanças de sentido nos mais distintos contextos históricos (cf. chartier, 1990, p.19).

22 Entre os quais podemos destacar Floro, eutrópio e orósio (cf. Ianzit, 2006, p.174).

23 O mesmo ocorre com syme (1988, p.11) ao sugerir que “apesar de Lívio iniciar seu trabalho em décadas, essas estruturação rompeu-se sobre a pressão do assunto”.

24 Esse autor estabeleceu três idades distintas para a história humana. A primeira seria a idade obscura, dos tempos antediluvianos. A segunda seria a idade Mitológica, dos tempos fabulosos, do dilúvio à primeira olimpíada (776 a. C.). Por fim, a idade Histórica, que coincidiria com o tempo dos homens, fixada a partir dos jogos olímpicos (cf. Sebastiani, 2002, p.28). Segundo Marques (2008, p.61), Varrão teria datado a origem de Roma no ano 753 a. C.. A autora esclarece ainda que entre os anos 753 a. C. E 390 a. C., data da destruição de Roma diante dos gauleses, haviam se passado 363 anos, o mesmo período entre 390 e 27 a. C., data do início do principado.

25 Estamos seguindo aqui as argumentações de Philip stadter (1972) a respeito da estruturação da narrativa liviana. Autores como Bayet, Walsh, Barnabé, Mellor e Bornecque descrevem seus conteúdos a partir de uma divisão por décadas.assim, o conjunto dos dez primeiros livros representaria uma primeira década e assim por diante, ficando o conjunto dos livros 21-30, que tratam da ii Guerra Púnica, como a terceira década da obra. Enfatizamos a estruturação de stadter porque nos parece ser o estudo mais criterioso no que tange ao assunto. Interessante notar que, ao seguirmos suas considerações, não podemos denominar o conjunto dos livros 21 a 30 como uma terceira década, já que originalmente essa seria a segunda década devido ao fato de os livros 1 a 5 e 16 a 20 constituírem pêntades distintas, ficando o conjunto dos livros 6 a 15 como a primeira década original da narrativa.

26 Os historiadores analistas da época imediatamente anterior a Lívio, mesmo não oferecendo explicações razoáveis acerca da causalidade histórica nos moldes sugeridos por Políbio (cf. Frier, 1979, p.219), conectaram sua atividade de historiadores às esferas político-militares. Acostumados aos debates públicos, eles tinham acesso a documentos oficiais, participando pessoalmente das campanhas militares que reportariam (cf. Badian, 1966, p.8).

27 Em relação aos enunciados do prefácio geral de Tito Lívio, utilizamos a tradução de sebastiani (2002, p.21), modificando alguns trechos devido a nossa própria apropriação do texto.

28 Quae ab condita Urbee Roma ad captam eandem Romani sub regibus primum, [...] quinque libris exposui, res cum uetustate nimia obscuras uelut quae magno ex interuallo loci uix cernuntur, tum quid rarae per eadem tempora litterae fuere, una custodia fidelis memoriae rerum gestarum, et quod, etiam si quae in commentariis pontificum aliisque publicis priuatisque erant monumentis, incensa Urbee pleraeque interiere. Clariora deinceps certioraque ab secunda origine uelut ab stirpibus laetius feraciusque renatae Urbeis gesta domi militiaeque exponentur.

29 Sebastiani (2002, p.48) explica que o fatum entre os Romanos seria uma espécie de guia predeterminado nos afazeres humanos, enquanto os defensores do neoestoicismo pregavam uma maior capacidade intuitiva dos homens em entender os oráculos, os sonhos, os prodígios e, assim, interferir no curso dos acontecimentos. Walsh (1958, p.362) coloca que as duas significações estavam presentes na obra liviana.

30 Armando Plebe (1992, p.23) relata que o termo veri similis (semelhante ao verdadeiro) foi utilizado amplamente pela tradição retórica latina. Tratava-se de uma tradução pouco precisa do termo grego eikós, que indicaria “a observação de objeto segundo uma dada racionalidade”. Nos Primeiros analíticos, aristóteles utiliza o termo, enfatizando que “é eikós que os inimigos odeiem e os enamorados amem”. Mesmo que a retórica latina tenha alterado seu sentido original, alguns de seus expoentes acabaram utilizando em seus escritos o termo com significados bastante aproximados ao grego. Em seu De Oratore, cícero definiu a retórica como uma arte complementar à filosofia, vinculando razão e experiência, abstração e exercício político (cf. Plebe, 1978, p.70-1). Assim, cícero exaltou a busca de uma coerência discursiva segundo a racionalidade e a experiência do orador, o que reaproximaria etimologicamente veri similis de eikós.

31 Isso pode ser exemplificado na sugestão de que a vestal réa sílvia, mãe dos gêmeos, teria atribuído a paternidade de seus filhos ao deus da guerra como forma de se eximir de uma gravidez proibida (cf. Tito Lívio, Ab Urbe Condita, livro 1, cap.4). Em nossa opinião, o fato de o autor empreender digressões sobre o que deveria ser mais verossímil, segundo sua própria ótica, aproxima sua narrativa do viés historiográfico defendido aqui.

32 Cícero enfatizara a necessidade de uma escrita da história bem ornamentada, tal como a dos oradores na cúria ou no fórum (cf. Barnabè, 2006, p.54). como explicitado por Plebe (1992, p.14), a retórica (do grego rhetón) tratava da elaboração de discursos plausíveis, em sentido eminentemente agonístico, marcada pela competitividade e não pelo critério dicotômico verdadeiro-falso da filosofia platônica.

33 Obviamente, não podemos negar a tucídides a utilidade dada à história como objeto de referência ao presente. A função do passado para ele vinculava-se ao ensinamento de homens de estado e generais. como bem sustentou Finley (1989, p.25-6), a história tucidideana tratou o passado como a essência de uma nova forma de saber, marcada pela exatidão do passado recente.

34 A julgar pelo ano de nascimento de cláudio (10 a. C.), isso seria possível. Na obra de suetônio não fica claro, no entanto, referir-se ele ao paduano quando afirma ser um Tito Lívio o preceptor do filho de Germânico (suetônio, Claudio).