O Silêncio dos Inocentes

Thomas Harris · Capítulo 3 de 3 · parte 2/4

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O Silêncio dos Inocentes

Capítulo 2

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— Sorte sua ter faltado a aula hoje — contou Mapp. — Aquele maldito do Kim Won enterrou a gente no chão. Não estou mentindo. Acredito que na Coréia eles devem ter mais gravidade do que nós. Então eles vêm para cá e se sentem leves, sabe? Arranjam trabalho ensinando PE, o que para eles não representa trabalho nenhum... John Brigham apareceu por aqui.

— Quando?

— À noite, ainda há pouco. Queria saber se você já tinha voltado. Tinha o cabelo muito bem penteado. Andou pelo saguão como um calouro. Conversamos um pouco. Disse que se você está atrasada, e nós precisamos estudar em vez de praticar tiro durante os próximos dois dias, ele abrirá o estande de tiro durante o fim de semana e deixará que nos recuperemos. Eu disse que o avisaria. É

um bom sujeito.

— Sim, é.

— Você sabia que ele quer que você participe contra o DEA e a Alfândega na próxima competição?

— Não sabia nada disso.

— Não a das mulheres. A mista. Próxima pergunta: você sabe a matéria da Quarta Emenda para sexta-feira?

— Sei uma boa parte dela.

— O.K. O que é Chimel versus Califórnia?

— Investigações nas escolas secundárias.

— E o que quer dizer investigações nas escolas?

— Não sei.

— É o conceito de “alcance imediato”. Quem foi Schneckloth?

— Bolas! Não tenho a menor idéia.

— Schneckloth versus Bustamonte.

— Tem a ver com razoável expectativa de privacidade? — Bolas para você! Expectativa de privacidade é o princípio de Katz. Schneckloth é consentimento para investigar. Estou vendo que temos de nos concentrar nos livros, minha cara. Eu tenho as notas.

— Não esta noite.

— Não. Mas amanhã você irá acordar com a mente fértil e ignorante e então começaremos a plantar para a colheita de sexta-feira. Starling, Brigham disse — ele não deveria contar isso, de forma que prometi reserva — que você irá sair-se bem no inquérito. Ele pensa que daqui a dois dias aquele pomposo filho da puta do Krendler já não se lembrará mais de você. Suas notas são boas, vamos digerir isso facilmente. — Mapp estudava o rosto cansado de Starling. — Você fez o máximo que qualquer pessoa poderia fazer por aquela pobre alma, Starling. Arriscou seu pescoço por ela e levou um chute no rabo por causa dela, mas manteve a investigação funcionando. Você merece uma oportunidade para si mesma. Por que não vai dormir? Estou me preparando para fazer a mesma coisa.

— Ardelia, obrigada.

E depois que as luzes foram apagadas.

— Starling?

— Sim?

— Quem você acha mais bonito, Brigham ou Hot Bobby Lowrance?

— Isso é difícil de dizer.

— Brigham tem uma tatuagem no ombro, pude vê-la através da sua camisa. O que está escrito nela?

— Não faço a menor idéia.

— Você me dirá assim que descobrir?

— Provavelmente não.

— Eu lhe contei sobre as cuecas de Hot Bobby com a cobra?

— Você apenas as viu pela janela quando ele estava levantando pesos.

— Foi a Gracie que contou isso a você? A boca daquela pequena vai...

Starling já estava dormindo.

CAPÍTULO 45

Um pouco antes das três da manhã, Crawford, que estava cochilando ao lado da mulher, acordou. Houve uma alteração no respirar de Bella, que se mexera em sua cama. Ele sentou-se e segurou-lhe a mão.

— Bella?

Ela inspirou profundamente, depois expeliu o ar dos pulmões. Seus olhos estavam abertos pela primeira vez em dias. Crawford encostou o rosto no dela, mas não acreditava que ela pudesse vê-lo.

— Bella, eu te amo, querida — ele disse, para o ca-so de ela poder ouvi-lo.

O medo espalhou-se no seu peito, circulando dentro dele como um morcego no interior de uma casa. Logo ele se controlou.

Pensou em dar-lhe alguma coisa, qualquer coisa, mas não que ria que ela sentisse que estava largando sua mão. Encostou o ouvido no seu peito. Percebeu uma batida leve, um palpitação, depois o coração parou. Nada mais havia para ser sentido, apenas uma curiosa sensação de frio. Por fim não sabia se som que ouvira existia no peito dela ou só nos seus ouvidos.

— Deus te abençoe e te leve para Ele e para a tua gente, — murmurou Crawford, palavras que ele desejava fossem sinceras Ele puxou-a contra si, depois de sentar-se de encontro à cabeceira da cama. Mantinha-a contra o peito enquanto o cérebro dela morria. Com o queixo, empurrou para trás o lenço que cobria o resto de seus cabelos.

Ele não chorou: já tinha chorado muito.

Crawford vestiu nela sua melhor camisola, a que ela mais gostava, e sentou-se durante algum tempo ao lado da cama, segurando a mão da mulher contra seu rosto. Era uma mão quadrada e habilidosa, marcada por uma vida inteira a cuidar do jardim, agora marcada pelas picadas de injeções nas veias.

Quando voltava do jardim, as mãos dela cheiravam a tomilho.

“Pense naquilo como clara de ovo em seus dedos”, as pequenas na escola tinham aconselhado Bella acerca de sexo. Ela e Crawford tinham rido disso na cama, há muitos anos, anos depois, no ano passado. Não pense nisso, pense nas coisas boas, nas coisas puras. Aquilo era a coisa pura. Ela usava um chapeuzinho redondo e luvas brancas e subia no elevador na primeira vez que ele assobiou um dramático arranjo de Begin the Beguine. Quando estavam sozinhos no quarto ela mexia com ele dizendo-lhe que tinha os bolsos cheios de coisas de garoto.

Crawford experimentou ir para o outro quarto —

dali podia voltar-se quando quisesse e vê-la através da porta aberta, bem composta à luz quente do abajur da mesa-de-cabeceira. Estava esperando o corpo dela se tornar um objeto cerimonial distante dele, apartado da pessoa que ele tivera no leito e separado da companheira de sua vida que agora retinha apenas na mente. Agora podia chamá-los para virem buscá-la.

Suas mãos vazias tinham as palmas voltadas para a frente ao lado do corpo, e ele estava à janela olhando o vazio nascente. Não que estivesse esperando a madrugada; o nascente era apenas o lado para onde a janela abria.

CAPÍTULO 46

— Está pronta, Preciosa?

Jame Gumb estava encostado na cabeceira da cama, muito confortavelmente, a cachorrinha enroscada e quen-tinha em cima do seu estômago.

O Sr. Gumb acabara de escovar seus cabelos e tinha uma toalha enrolada na cabeça. Procurou entre as cobertas, encontrou o controle remoto do videocassete e apertou o botão de ligar.

Compusera seu programa de duas partes em videoteipe copiadas num só cassete. Assistia-o todos os dias quando estava realizando preparações vitais e sempre o via imediatamente antes de colher uma pele.

O primeiro teipe era de um filme arranhado da Movietone News, um filme natural em preto-e-branco, de 1948. Eram as quartas de final da competição para Miss Sacramento, um episódio preliminar no longo caminho para o concurso de Miss América em Atlantic City.

Essa era a competição em roupa de banho e todas as pequenas portavam flores quando vinham em fila até a escada e subiam no palco.

A poodle do Sr. Gumb já passara por aquilo muitas vezes e fechou os olhos ao ouvir a música, sabendo que iria ser apertada.

As concorrentes tinham uma aparência muito “Segunda Guerra Mundial”. Vestiam maiôs Rose Marie Reid e algumas tinham belos rostos. As pernas de várias delas também eram bem torneadas, mas faltava-lhes tônus mus-cular e pareciam dobrar-se um pouco nos joelhos.

Gumb apertou a poodle.

— Queridinha, aí vem ela, aí-vem-ela, aí-vem-ela!

E lá vinha ela, aproximando-se da escada na sua roupa de banho branca, com um sorriso radiante para o jovem que as recebia. Depois subiu a escada rapidamente com seus sapatos de salto alto, a câmara seguindo a parte de trás de suas coxas: Mamãe, aquela era Mamãe.

O Sr. Gumb não precisou tocar no controle remoto, ele tinha feito tudo quando copiara o original. De trás para diante, lá vinha ela de costas, tomava de volta seu sorriso ao jovem, andava de costas pelo corredor, agora para a frente de novo, e para trás e para a frente, e para trás e para a frente.

Quando ela sorria para o jovem, Gumb sorria também. Havia mais uma foto dela num grupo, mas sempre aparecia borrada quando ele imobilizava a imagem. Era melhor deixar correr com velocidade e vê-la num relâm-pago. Mamãe com as outras pequenas, congratulando-se com as vencedoras.

A parte seguinte ele havia copiado de uma televisão a cabo num motel em Chicago — tivera que sair às pressas e comprar um gravador de videoteipe, ficando mais uma noite para copiá-lo. Era o tipo de filme que passam em canais baratos de televisão a cabo tarde da noite, como painel de fundo para anúncios de sexo que aparecem impressos na tela. As tiras são feitas de filmes sucatados, i-morais e inócuos das décadas de 40 e 50, quando havia voleibol em campos de nudistas, e partes menos explícitas de filmes de sexo da década de 30, em que os atores masculinos usavam narizes postiços e ainda representavam de meias. O som era qualquer música. Agora era The Look of Love, totalmente fora de tempo com ação agitada.

Não havia nada que o Sr. Gumb pudesse fazer com os anúncios que invadiam a tela; tinha que se conformar com eles.

Aqui está ela, uma piscina externa, na Califórnia, a julgar pela folhagem. Boa mobília de piscina, tudo muito estilo 50. Nadando nuas, várias mas pequenas graciosas.

Algumas delas poderiam ter aparecido em filmes classe B.

Ligeiras e aos pulinhos saíam da piscina e corriam, muito mais rápido do que a música, até a escada de um escorregador, subiam, e lá vinham elas — upa! Os seios subindo quando mergulhavam na água rindo-se, as pernas esticadas e abertas, tchimbum!

Aí vinha Mamãe. Aí vinha ela, trepando na borda da piscina atrás da pequena que tinha o cabelo crespo. Seu rosto está parcialmente coberto por um anúncio da Sinderella, uma butique de artigos de sexo, mas agora via-se quando ia em direção à escada, toda lustrosa e úmida, os seios maravilhosos, muito elegante, e depois com uma cicatriz de cesariana pelo escorregador abaixo. Upa! Tão bonita, e mesmo que o Sr. Gumb não pudesse ver o rosto dela, o Sr. Gumb sabia em seu íntimo que era Mamãe, filmada depois da última vez na sua vida em que ele a viu na realidade. Exceto em sua mente, é claro.

A cena mudava para um anúncio de ajuda marital e abruptamente terminava.

A poodle cerrou os olhos dois segundos antes que o Sr. Gumb a apertasse com força.

— Oh, Preciosa, venha aqui com a Mamãe. A Mamãe vai ficar tão bonita!

Muito a fazer, muito a fazer, muito a fazer para aprontar-me para amanhã.

Ele nunca podia ouvi-la da cozinha mesmo no mais alto tom de voz, graças a Deus, mas podia ouvi-la nas escadas quando se dirigia para o porão. Tivera a esperança de que ela estivesse quieta e dormindo. O cão embaixo do seu braço rosnava para os sons que vinham do poço.

— Você foi mais bem educada do que isso — admoestou ele com a cabeça enterrada no pêlo atrás da cabeça da cachorrinha.

Atingia-se o quarto da masmorra passando por uma porta à esquerda da parte inferior da escada. Ele não deu sequer uma olhada, nem ouviu as palavras que vinham do poço — no que lhe interessava, elas não tinham a mínima semelhança com o inglês.

O Sr. Gumb entrou à direita, na oficina, pôs o animal no chão e acendeu as luzes. Algumas mariposas esvo-açaram, pousando na tela de arame que cobria as lâmpadas do teto.

O Sr. Gumb era meticuloso na oficina. Sempre mis-turava suas soluções frescas em aço inoxidável, jamais em alumínio.

Aprendera a fazer tudo com muita antecedência.

Trabalhando, ele se admoestava:

— Você tem que ser organizado, você tem que ser precioso, você tem que ser expedito, porque os problemas são formidáveis.

A pele humana é pesada — 16 a 18 % do peso cor-poral — e escorregadia. Uma pele inteira é difícil de manusear e fácil de deixar cair quando ainda está úmida. O

tempo também é importante; as peles começam a encolher logo depois de retiradas, mais notavelmente a de jovens adultos, cuja pele, para começar, é a mais compacta.

Junte-se a isso o fato de a pele não ser perfeitamente elástica, mesmo nos jovens. Se for esticada, nunca mais recupera suas proporções originais. Costure alguma coisa perfeitamente lisa, depois puxe-a com força demais sobre um manequim de alfaiate e ela enruga e se torce. Ficar sentado na máquina até ter os olhos vermelhos de tanto tentar não irá endireitá-la. Além disso existem linhas de clivagem, e é melhor você saber onde ficam. A pele não se estica na mesma proporção em todas as direções sem que as massas de colágeno se deformem e as fibras se ras-guem; puxe na direção errada e terá uma marca de distensão. Material fresco é impossível trabalhar. Muitas experiências foram dedicadas a isso, acompanhadas de muitas decepções, até o Sr. Gumb acertar.

Afinal ele descobriu que os métodos antigos eram os melhores. Seu processo era o seguinte: primeiro, en-charcava seu material aos aquários, em extratos vegetais desenvolvidos pelos nativos da América — substâncias totalmente naturais que não contêm nenhuma quantidade de sais minerais. A seguir usava o método que produziu a incomparável pele de gamo, do Novo Mundo, macia co-mo manteiga — o clássico curtume com miolos. Os nativos da América ditavam que cada animal possui miolos suficientes para curtir seu próprio couro. O Sr. Gumb sabia que isso não era verdade e há muito tempo deixara de tentá-lo, mesmo com o primata de maior cérebro. Agora tinha um congelador de miolos de boi, de modo que nunca ficava desprevenido.

Os problemas de processar o material, ele domina-va; a prática o tornara quase perfeito.

Restavam difíceis problemas estruturais, mas ele estava especialmente bem qualificado para resolvê-los também. A sala de trabalho abria-se para um corredor do porão que dava para um banheiro fora de uso onde o Sr.

Gumb depositava o equipamento de içar e um relógio de pé; dai passava-se ao estúdio e o grande depósito negro que ficava adiante.

Abriu a porta do estúdio, que estava brilhantemente iluminado com refletores e tubos de luz fosforescente, corrigidos para a luz do dia, presos às vigas do teto. Os manequins ficavam de pé num piso elevado de carvalho.

Todos estavam parcialmente vestidos, alguns em couro, outros em moldes de musselina para roupas de couro. Os oito manequins duplicavam nas duas paredes espelhadas bons espelhos de vidro plano, não azulejos. Uma mesa de maquilagem com cosméticos, várias fôrmas de perucas, e perucas. Este era o mais brilhante dos estúdios, todo branco e de carvalho louro.

Os manequins expunham trabalhos comerciais em progresso, na maior parte dramáticos blusões Armani em fino couro negro cabretta, todos com franzidos em rolos, os ombros e peitorais pontilhados.

A terceira parede era ocupada por uma grande mesa de trabalho, duas máquinas de costura comerciais, duas fôrmas de costureira e um manequim de alfaiate com o formato do torso do próprio Jame Gumb.

De encontro à quarta parede, dominando esse quarto claro, havia um grande armário negro de laca chinesa que chegava quase até o teto de 2,50 metros de altura. Era uma antigüidade e seus desenhos se haviam apagado; algumas pequenas escamas douradas permaneciam onde

houvera um dragão, seu olho branco ainda visível aberto, e ali estava a língua vermelha de outro dragão cujo corpo também se desgastara. A laca por baixo dele ainda era visível, embora estivesse estilhaçada.

O armário, imenso e muito fundo, nada tinha a ver com o trabalho comercial. Ele continha as fôrmas e os cabides das Coisas Especiais e suas portas ficavam fechadas. A cadelinha lambeu um pouco da água da sua tigela no canto e veio deitar-se entre os pés de um manequim, com os olhos postos no Sr. Gumb.

Ele estivera trabalhando numa jaqueta de couro.

Tinha que terminá-la — queria liquidar tudo, mas estava no momento com uma febre criativa e seu modelo de musselina ainda não o satisfazia.

O Sr. Gumb progredira na arte de costureiro muito além do que o Departamento Correcional da Califórnia lhe ensinara na sua juventude, mas ainda encontrava um verdadeiro desafio. Mesmo trabalhar com o delicado couro cabretta não prepara ninguém para um trabalho realmente especializado.

Ele tinha dois modelos de musselina que pareciam coletes brancos, um exatamente do seu tamanho e outro que medira quando Catherine Baker Martin ainda estava inconsciente. Quando pôs o menor no seu manequim de alfaiate os problemas tornaram-se aparentes. Ela era uma moça grande e maravilhosamente proporcionada, mas não tão grande quanto o Sr. Gumb e realmente não tão larga nas espáduas.

O ideal dele era um traje sem costuras, o que não era possível. Estava decidido, no entanto, que a frente do busto fosse absolutamente sem costuras e sem defeitos.

Isto significava que todas as correções da figura tinham que ser feitas nas costas. Muito difícil. Ele já descartara um modelo de musselina e começara de novo. Dando judiciosas puxadas, poderia dar um jeito com duas pences embaixo dos braços, não pregas francesas, mas pregas verticais, com as pontas para baixo. Duas pregas na cintura, logo do lado dos rins. Ele estava acostumado a trabalhar com apenas uma pequena folga para a costura.

Suas considerações, além dos aspectos visuais, incluíam os tácteis; não era concebível que uma pessoa atraente não fosse abraçada. .

O Sr. Gumb espalhou levemente talco em suas mãos e abraçou o manequim do próprio corpo num abraço natural e confortável.

— Dê-me um beijo — disse, em tom de brincadeira para o vazio onde deveria estar a cabeça. — Não você, sua boba! — ralhou para a cachorrinha quando ela levantou as orelhas.

Gumb acariciou as costas do manequim envolvendo-o com os seus braços. A seguir caminhou para trás de-le a fim de verificar as marcas do talco. Ninguém gosta de sentir uma costura. Num abraço, entretanto, as mãos ul-trapassam o centro das costas. Estamos acostumados também, raciocinou ele, à linha do centro da espinha. Não é tão incômodo como uma assimetria em nosso corpo.

Costuras nos ombros, porém, estavam definitivamente fora de questão. Um apêndice central no topo era a solução, seu ápice um pouco acima do centro das omoplatas.

Ele podia, com a mesma costura, prender a forte barbata-na inserida no forro para fornecer apoio. Painéis de lycra embaixo das plaquetas em ambos os lados — tinha que se lembrar de comprar lycra — e um fecho de velcro por

baixo da plaqueta na direita. Pensava naqueles maravilhosos vestidos de Charles James nos quais as costuras eram deslocadas para ficarem perfeitamente planas.

A pence nas costas seria coberta por seu cabelo, ou melhor, pelo cabelo que ele em breve teria.

O Sr. Gumb tirou o modelo de musselina do manequim e começou a trabalhar.

A máquina de costura era antiga e de bela constru-ção, uma máquina de pé, toda enfeitada, que fora conver-tida para eletricidade talvez há uns quarenta anos. No braço da máquina estava pintado com tinta de ouro o dístico

“Eu Nunca Me Canso, Eu Sirvo”. O pedal continuava em operação e Gumb dava partida na máquina com ele para cada série de pontos. Para uma costura fina, preferia trabalhar com os pés descalços, movendo o pedal delicadamente com o pé gordo, agarrando sua parte frontal com os artelhos de unhas pintadas para evitar excesso de pontos. Por um momento só se ouviam os sons da máquina, o ressonar do cão e os assobios dos canos de vapor no porão quente.

Quando acabou de costurar as pences no modelo de musselina, experimentou-o em frente aos espelhos. A cadelinha observava do seu canto com a cabeça virada.

Precisava folgar um pouco embaixo das axilas. Restavam alguns pequenos problemas de assentamento. Exceto por isso, estava muito bonito. Simples, leve, folgado.

Ele podia imaginar-se subindo os degraus da escada de um escorregador tão rápido quanto quisesse.

O Sr. Gumb ajeitou as luzes e suas perucas para obter algum efeitos dramáticos, e experimentou um maravilhoso colar de conchas apertado sobre a linha do pescoço.

Seria deslumbrante quando usasse um vestido décol eté ou um pijama de anfitriã por cima do novo tórax.

Era tão tentador começar logo com aquilo, realmente começar a trabalhar, mas seus olhos estavam cansados. Ele queria que sua mãos estivessem absolutamente firmes, também, e não estava preparado para o barulho.

Pacientemente, retirou os pontos e esticou as peças sobre a mesa. Um modelo perfeito para fazer o corte da pele.

— Amanhã, Preciosa! — disse à cadelinha quando tirou os miolos do congelador para descongelarem. —

Vamos fazê-lo amanhãããã como a primeira coisa. A Mamãe vai ficar tão bonita!

CAPÍTULO 47

Starling dormiu direto durante cinco horas e acordou no meio da noite, assustada e com medo do sonho.

Mordeu o canto do lençol e apertou as palmas das mãos contra. Os ouvidos, conferindo se estava realmente acordada e longe daquilo. Silêncio e nada de gemidos das ovelhas. Quando teve certeza de estar acordada, seu coração passou a bater mais devagar, mas seus pés não pareciam quietos por baixo das cobertas. Num momento sua cabeça ia começar a disparar, ela sabia.

Foi um alívio quando um acesso de pura raiva, em vez de medo, se apossou dela.

— Bolas — disse ela, e pés um pé no ar fora das cobertas.

Durante aquele longo dia, quedo fora desacatada por Chilton, insultada pela senadora Martin, desamparada e repreendida por Krendler, escarnecida pelo Dr. Lecter, cuja sangrenta fuga a revoltara, e afastada do serviço por Jack Crawford, uma coisa a ferira mais profundamente: ter sido chamada de ladra.

A senadora Martin sofrera uma provação extrema e estava nauseada de ver policiais remexendo nas coisas de sua filha. Ela não tivera a intenção.

Mesmo assim, a pecha ardia em Starling como uma agulha de fogo.

Quando ainda era criança, Starling fora ensinada que roubar era a mais baixa, a mais desprezível ação, depois de estupro e assassinato por dinheiro. Alguma espécies de assassinatos eram preferíveis ao roubo.

Como adolescente, nas instituições onde havia poucos prêmios e muita fome, aprendera a odiar o ladrão.

Deitada no escuro encarava outra razão pela qual a suspeita da senadora Martin tanto a incomodara.

Starling sabia o que o malicioso Dr. Lecter diria, e seria verdade: receava que a senadora Martin tivesse visto nela algo grosseiro, algo barato, algo que lembrava uma ladra à qual a senadora tivera que reagir. Aquela cadela Vanderbilt. .

O Dr. Lecter se divertiria destacando que o ressentimento de classe, a raiva escondida que vem com o leite materno, era também um fator importante. Starling não reconhecia qualquer vantagem em nenhuma Martin quanto a educação, inteligência, disposição e, certamente, aparência física — mas mesmo assim aquela revolta queimava e ela sabia disso Starling era membro isolado de uma tribo aguerrida sem genealogia formal a não ser o quadro de honra e o registro penal. Desalojada da Escócia, expulsa da Irlanda pela fome, uma porção deles se inclinava para profissões perigosas. Muita gente da raça de Starling tinha acabado dessa maneira, jogada no fundo de estreitos buracos ou caída de cima de muros com um tiro no pé, ou partira ainda para a glória com um desafinado toque de silêncio quando todo mundo desejava ir para casa. Poucas poderão ter sido lembradas pelos oficiais à noite, no cassino do regimento com algumas lágrimas, da mesma forma que um homem que tomou alguns drinques se lembra de um bom cão de caça. Nomes desbotados numa Bíblia.

Que Starling lembrasse, ninguém da sua família fora muito inteligente, exceto talvez uma tia-avó que escrevia maravilhosamente em seu diário até que apanhou uma

“febre cerebral”.

Entretanto, nenhum deles roubava.

O importante na América era a escola, não é mesmo? — e os Starlings acreditavam nisso. Um dos tios de Starling mandou gravar em sua lápide tumular seu diploma de ginásio.

Starling vivera em escolas, suas armas eram os exames competitivos, durante todos os anos em que não havia nenhum outro lugar para ela.

Sabia que era capaz de se recuperar disso. Poderia ser o que sempre fora, desde que aprendera como as coisas funcionavam: ela podia ficar próximo aos de sua classe, aprovada, incluída, escolhida, jamais dispensada.

Era uma questão de dar duro e ser cuidadosa. Suas notas seriam boas. O coreano não poderia matá-la de exercícios. O nome dela seria gravado na grande placa no saguão no Quadro dos Destaques, por seu extraordinário desempenho no estande de tiro.

Dentro de quatro semanas seria uma agente especial no Escritório Federal de Investigações.

Teria que se cuidar daquele porra do Krendler para o resto da sua vida?

Na presença da senadora, ele desejara lavar suas mãos em relação a ela. Cada vez que Starling pensava nisso ficava queimada. Ele não tinha certeza de que iria encontrar provas no envelope. Isso era chocante. Agora, re-lembrando Krendler, ela o via calçando sapatos da Marinha, como o prefeito, patrão de seu pai, quando viera apanhar o relógio de vigia.

Pior do que isso: em sua mente Jack Crawford parecia ter diminuído. O homem estava sujeito a uma pressão que ninguém deveria ser obrigado a suportar. Ele a mandara investigar o carro de Raspail sem nenhum apoio

ou prova de autoridade. O.K., ela pedira para ir nesses termos — o resultado fora um feliz acaso. Mas Crawford deveria saber que haveria dificuldades quando a senadora Martin a visse em Memphis; teria havido dificuldades mesmo que ela não tivesse encontrado as fotos da trepada de Catherine.

Catherine Baker Martin estava na mesma escuridão que ela. Starling esquecera-se disso por um momento enquanto pensava nos seus próprios interesses.

Imagens dos últimos dias puniam Starling pelo lapso, apareciam-lhe em cores fortes, cor demais, cor chocante, a cor que salta das trevas quando à noite um raio cai.

Agora, o que a assombrava era Kimberly. A gorda e morta Kimberly, que furava as orelhas tentando ficar mais bonita e economizava para depilar as pernas com cera.

Kimberly, cujo cabelo se fora. Kimberly, sua irmã. Starling não achava que Catherine Baker Martin tivesse tempo pa-ra pensar em Kimberly. Elas agora eram irmãs por baixo da pele. Kimberly, estirada numa casa funerária cheia de caipiras milicianos estaduais. Starling não podia mais ver aquilo. Tentou voltar seu rosto para o lado como um nadador se vira para respirar. Todas as vítimas de Buffalo Bil eram mulheres, sua obsessão eram mulheres, ele vivia para caçar mulheres.

Nenhuma mulher o estava caçando em tempo integral.

Nenhuma investigadora examinara cada um de seus crimes. Starling cismava se Crawford teria peito para usá-la como técnica quando ele tivesse que examinar Catherine

Martin. Bill iria “cuidar dela” amanhã, era a previsão de Crawford. Cuidar dela, cuidar dela, cuidar dela.

— Que se foda tudo! — gritou Starling em voz alta ao pôr os pés no chão.

— Você está aí corrompendo um débil mental, não está, Starling? — perguntou Ardelia Mapp. — Meteu-o aqui no quarto enquanto eu dormia e agora está lhe dando instruções.. Não pense que não a ouvi.

— Desculpe, Ardelia, eu não. .

— Você tem que ser muito mais clara com eles do que está sendo, Starling. Não pode dizer apenas o que vo-cê disse. Corromper débeis mentais é exatamente como jornalismo, você tem que dizer-lhes O quê, Quando, On-de e Como. Eu penso que o Porquê se torna evidente à medida que você prossegue.

— Você tem alguma roupa para lavar?

— Entendi você perguntar se tenho alguma roupa para lavar?

— Sim, acho que vou lavar uma trouxa. O que é que você tem?

— Apenas dois macacões de ginástica pendurados atrás da porta.

— O.K. Feche os olhos, vou acender a luz apenas por um segundo. Não foram as notas sobre a Quarta Emenda para seu exame próximo que ela empilhou em cima do cesto de roupa suja e arrastou pelo corredor até a lavanderia.

Levou a pasta de Buffalo Bil , uma pilha de 10 centímetros de inferno e sofrimento numa capa parda im-pressa com tinta da cor de sangue. Junto com ela estava uma cópia de teleprinter de seu relatório sobre a Mariposa da Caveira.

Teria que devolver a pasta no dia seguinte e se desejava que essa cópia ficasse completa, mais cedo ou mais tarde precisaria incluir seu relatório. No quarto quente da lavanderia, ouvindo o confortante chacoalhar da máquina, tirou as cintas de borracha que mantinham juntas as folhas na pasta. Dispôs os papéis na prateleira de dobrar a roupa e tentou anexar seu relatório sem ver nenhuma das fotos, sem pensar que novas fotos poderiam ser adicionadas em breve. O mapa estava na parte de cima, o que era bom.

Mas havia algo escrito à mão no mapa.

A elegante caligrafia do Dr. Lecter atravessava os Grandes Lagos e rezava:

— Clarice, este espalhar de lugares ao azar parece exagerado para você? Ele não parece desesperadamente ao azar? Ao azar além de qualquer conveniência possível?

Não sugere a você as elaborações de um mal mentiroso?

Dr. Hannibal Lecter

P. S. — Não perca seu tempo virando todas as folhas; não há mais nada.

Starling levou 20 minutos virando as páginas para certificar-se de que não havia mais nada.

Depois chamou a linha privada pelo telefone público no corredor e leu a mensagem para Burroughs. Ficou pensando a que horas Burroughs dormia. .

— Tenho que dizer-lhe uma coisa, Starling: o mercado das informações de Lecter anda muito por baixo —

avisou Burroughs. Jack telefonou a você acerca de Bil y Rubin? — Não.

Encostou-se na parede com os olhos fechados enquanto ele descrevia a brincadeira de Lecter.

— Estou confuso — disse ele afinal. — Jack diz que eles vão prosseguir com as clínicas de mudança de sexo, mas com que pressa? Se você olhar nas informações do computador a forma como as entradas vindas são in-dexadas, verá que todas as informações sobre Lecter, as suas e as que vieram de Memphis, têm prefixos especiais.

O que veio de Baltimore, o que veio de Memphis, ou ambos, tudo pode ser descartado apertando um botão. Penso que o Departamento de Justiça deseja apertar o botão para tudo. Tenho aqui um memorando sugerindo que o inseto na garganta de Klaus era — vejamos... “puro lixo”.

— Apesar de tudo, transmita isso ao Sr. Crawford

— pediu Starling.

— Muito bem, vou colocar isto na tela dele, mas nós não o estamos incomodando. Você também não sabe Bel a morreu há pouco.

— Oh! — murmurou Starling.

— Escute, tenho algo auspicioso: nossos camaradas em Baltimore deram uma busca na cela de Lecter, no asilo. Aquele atendente, Barney, ajudou. Encontraram aparas de latão da cabeça de um parafuso do beliche de Lecter, que o ajudou a fazer sua chave para as algemas. Fique firme, garota. Você vai sair-se de tudo muito bem, cheirando a rosas. — Obrigada, Sr. Burroughs. Boa noite.

Cheirando a rosas. Colocando Vick VapoRub debaixo de suas narinas.

A luz do amanhecer chegava ao último dia da vida de Catherine Martin.

— O que quereria dizer o Dr. Lecter?

Não se podia adivinhar o que o Dr. Lecter sabia.

Quando ela lhe entregara a pasta, esperava que ele fosse

gostar das fotos e que fosse usar a pasta como um auxílio enquanto lhe revelava o que já sabia sobre Buffalo Bil .

Talvez estivesse sempre mentindo, como mentira para a senadora Martin. Talvez não soubesse ou nada compreendesse sobre Buffalo Bil .

Ele vê muito claramente — certamente devassa meus pensamentos. É difícil aceitar que alguém nos possa compreender sem nos querer bem. Na idade de Starling isso não acontecera muito com ela.

“Desesperadamente ao azar — dissera o Dr. Lecter. Starling e Crawford e todo mundo examinaram o mapa com seus pontinhos marcando os locais dos raptos e onde os corpos foram jogados. Parecera a Starling uma constelação negra com uma data ao lado de cada estrela e ela sabia que a Ciência do Comportamento tentara uma vez acrescentar signos do zodíaco ao mapa sem resultado.

Se o Dr. Lecter estava lendo para divertir-se, por que iria brincar com o mapa? Podia vê-lo folheando o relatório, divertindo-se com o estilo em prosa de alguns de seus colaboradores.

Não havia um sistema entre os raptos e a disposição dos corpos, nenhum relacionamento de conveniência, nenhuma coordenação no tempo com quaisquer convenções conhecidas, qualquer enxurrada de invasões domicili-ares, roubos de roupas estendidas nas cordas, ou de outros crimes orientados por fetiches.

Na sala da lavanderia, com a máquina de secar rodando, Starling corria os dedos pelo mapa. Aqui um rapto, ali o abandono de um corpo. Aqui um segundo rapto, ali o abandono de outro corpo. Aqui o terceiro e. . Mas essas

datas estão invertidas ou, diabo, o segundo corpo foi descoberto primeiro.

O fato foi registrado, sem destaque, em tinta borrada ao lado da locação no mapa. O corpo da segunda mulher raptada foi encontrado primeiro, flutuando no rio Wabash, no centro de Lafayette, Indiana, logo abaixo da Interstate 65.

A primeira jovem mulher de que se deu falta foi raptada de Belvedere, Ohio, próximo a Columbus e encontrada muito mais tarde no rio Blackwater, em Missouri, nos arredores de Lone Jack. O corpo fora afundado com pesos. Nenhum dos outros foi afundado com pesos.

O corpo da primeira vitima foi atirado n’água numa área deserta. O segundo foi jogado num rio a montante de uma cidade, onde sua rápida descoberta seria certa.

Por quê?

O primeiro caso dele ficou bem escondido, o segundo, não.

Por quê?

O que quer dizer “desesperadamente ao azar”?

O primeiro, em primeiro lugar. O que disse o Dr.

Lecter sobre “primeiro”? Afinal, o que quer dizer qualquer coisa que o Dr. Lecter disse?

Starling olhou para as notas que ela havia escrito no avião vindo de Memphis.

O Dr. Lecter disse que havia bastante na pasta para localizar o assassino. “Simplicidade” — acrescentara ele.

O que quer dizer “primeiro”, onde era primeiro? Aqui:

“Primeiros princípios” eram importantes. “Primeiros princípios” soava como um palavreado pomposo quando ele o disse.

O que faz ele, Clarice? Qual é a primeira e principal coisa que ele faz, a que necessidade ele atende matando?

Ele ambiciona. Como a gente começa a ambicionar? Começamos ambicionando aquilo que vemos todos os dias.

Era mais fácil pensar sobre as afirmações do Dr.

Lecter quando ela não estava sentindo os olhos dele em cima da sua pele. Era mais fácil aqui no núcleo seguro de Quântico.

Se começamos a ambicionar desejando aquilo que vemos diariamente, Buffalo Bil se surpreenderia quando matou a primeira? Teria pegado alguém que vivia por perto dele? Fora por isso que escondera bem o primeiro corpo e relaxara no segundo? Ele raptou a segunda longe de sua casa e jogou-a onde ela seria achada facilmente porque desejava estabelecer desde logo a crença de que os locais dos raptos eram aleatórios?

Quando Starling pensou nas vítimas, Kimberly Emberg veio-lhe primeiro à mente porque ela vira Kimberly morta e, de certa forma, assumira o papel de Kimberly. Agora ali estava a primeira. Fredrica Bimmel, 22

anos, Belvedere, Ohio. Havia duas fotos. Na foto do seu álbum de formatura ela parecia grande e simples, com uma bonita cabeleira pesada e uma boa cútis. Na segunda foto, tirada na morgue de Kansas City, já nem parecia humana.

Starling chamou Burroughs pela segunda vez. Ele agora parecia um pouco rouco, mas escutou-a.

— Então o que é que você quer dizer, Starling?

— Talvez ele viva em Belvedere, Ohio, onde a primeira vítima vivia. Talvez ele a visse todos os dias, a matou, de certa forma, instintivamente. Talvez só quisesse

oferecer-lhe uma garrafa de SevenUp e conversar sobre o coro da igreja. Por isso ele caprichou em esconder o corpo e depois agarrou uma outra, longe de casa. Ele não escondeu esta muito bem, de forma que ela fosse encontrada em primeiro lugar e a atenção se dirigisse para longe dele.

Você sabe quanta atenção uma pessoa desaparecida desperta; fala-se muito dela até que o corpo é encontrado.

— Starling, a atenção é maior quando a trilha é fresca, as pessoas se lembram melhor, as testemunhas..

— É isso o que estou dizendo. Ele sabe disso.

— Por exemplo: você não poderá dar um espirro sem atingir um tira na cidade daquela última: Kimberly Emberg, de Detroit. Um bocado de interesse em Kimberly Emberg de repente, desde que a pequena Martin desapareceu. De repente todo mundo está fazendo um esforço danado no caso dela. Você nunca me ouviu dizer isso, não esqueça. .

— Quer apresentar essa idéia, acerca da primeira cidade, ao Sr. Crawford?

— Certamente, que diabo, eu a ponho na linha reservada para todo mundo. Não estou dizendo que é uma má idéia, Starling, mas a cidade foi vasculhada de cabo a rabo tão logo a mulher — como é mesmo o nome dela?

Bimmel, não é? — foi identificada. O escritório de Columbus ocupou-se de Belvedere e da mesma forma o fizeram uma porção de tiras locais. Você encontrará isso tudo na pasta. Você não irá despertar muito interesse em Belvedere ou em qualquer outra teoria do Dr. Lecter esta manhã. — Tudo o que ele..

— Starling: estamos mandando um presente para a UNICEF em memória de Bella. Você deveria juntar-se a nós; ponho seu nome no cartão?

— Certamente. Obrigada, Sr. Burroughs.

Starling tirou as roupas da secadora. A quente lavanderia era agradável e tinha um cheirinho gostoso. Ela agarrou a roupa morna de encontro ao colo.

A mãe dela com uma braçada de roupas.

Hoje é o último dia da vida de Catherine.

O corvo preto e branco roubava do carro. Ela não podia estar do lado de fora para enxotá-lo e ao mesmo tempo também no quarto.

Hoje é o último dia da vida de Catherine.

O pai dela usava um sinal de braço em vez das luzes de direção quando fazia a curva com sua caminhonete na entrada da garagem. Brincando no pátio, ela pensava que com seu grande braço ele mostrava à caminhonete onde ela devia virar, mandava que ela virasse.

Quando Starling decidiu o que iria fazer, derramou algumas lágrimas e encostou o rosto na roupa lavada e morna.

Í

CAPÍTULO 48

Crawford saiu da casa funerária e correu os olhos para cima e para baixo na rua à procura de Jeff com o carro. Em vez dele viu Clarice Starling esperando debaixo do toldo, vestida de escuro, parecendo muito real naquela luz.

— Mande-me — disse ela.

Crawford acabara de escolher o caixão de sua mulher e levava num saco de papel um par de seus sapatos que trouxera por engano. Procurou recobrar o domínio sobre si mesmo.

— Perdoe-me — disse Starling. — Eu não teria vindo agora se houvesse outra oportunidade. Mande-me.

Crawford enfiou as mãos com força nos bolsos, en-tortou o pescoço no colarinho até ouvir um estalido. Os olhos deles brilhavam, talvez pressentindo perigo.

— Mandar você para onde?

— O senhor me mandou procurar uma pista de Catherine Martin, deixe-me procurar outras. Tudo o que nos resta a descobrir é como é que ele caça. Como ele as descobre, como as seleciona. Eu sou tão boa quanto qualquer outra pessoa que o senhor tenha entre os tiras, melhor em algumas coisas. As vítimas são todas mulheres e não há mulheres trabalhando neste caso. Eu posso entrar no quarto de uma mulher e descobrir três vezes mais a respeito dela do que um homem seria capaz, e o senhor sabe que isto é um fato. Mande-me.

— Você está pronta para aceitar uma repetição do curso? — Estou.

— Seis meses de sua vida, provavelmente.

Ela permaneceu calada.

Crawford bateu com o bico do sapato na grama.

Olhou para ela, para a distância insondável de seus olhos.

Ela tinha tutano, como Bel a.

— Com quem você começaria?

— Com a primeira. Fredrica Bimmel, de Belvedere, Ohio. — Não com Kimberly Emberg, aquela que você viu? — Ele não começou com ela. — Deveria mencionar Lecter? Não. Descobriria isso em seu relatório, na linha reservada.

— Emberg seria a escolha emocional, não é verdade, Starling? Sua viagem terá que ser reembolsada. Você tem algum dinheiro? Os bancos não abrirão antes de uma hora. — Tenho algum saldo em meu cartão Visa.

Crawford procurou nos bolsos; deu-lhe 300 dólares em dinheiro e um cheque pessoal.

— Vá, Starling. Apenas a primeira. Comunique tu-do à linha reservada e me telefone.

Starling levantou a mão para ele. Não tocou em seu rosto nem em sua mão, não parecia haver nenhum lugar onde pudesse tocá-lo; então voltou-se e correu para o carro. Crawford bateu no bolso quando ela partiu. Tinha-lhe dado o último centavo que levava consigo.

— Minha garota precisa de um novo par de sapatos

— disse ele. — Minha garota não precisa mais de sapatos... — Chorava em plena calçada, as lágrimas rolando pelo rosto, ele, um chefe de seção do FBI, que ridículo. .

Do carro, Jeff viu o rosto do chefe brilhando e recuou para uma ruela onde Crawford não podia vê-lo; saiu do carro, acendeu um cigarro e pô-se a fumá-lo furiosamente. Como um presente para Crawford, ficaria por ali disfarçando até que Crawford secasse as lágrimas, se alivi-asse e justificasse o carão que iria lhe passar.

CAPÍTULO 49

Da beirada do poço ele lhe daria vários tiros abaixo da espinha. Quando ela perdesse os sentidos, poderia fazer o resto com clorofórmio.

Era isso. Agora iria lá para cima e tiraria as roupas.

Acordaria Preciosa, assistiria a seu vídeo com ela e então iria trabalhar no úmido porão, nu como no dia em que nascera.

Sentiu-se meio eufórico ao subir as escadas. Rapidamente tirou a roupa e enfiou-se no robe. Ligou o videocassete. — Preciosa, vem cá, Preciosa. Vai ser um dia muito trabalhoso. Vem cá queridinha. — Teria que trancá-la lá em cima no quarto de dormir enquanto se ocupava com a parte mais ruidosa no porão. Ela odiava barulho e ficava tremendamente nervosa. Para mantê-la ocupada trouxera-lhe uma caixa cheia de Cheweez. — Preciosa! — A cachorrinha não veio, e ele a chamou pelo corredor. — Preciosa! — e depois na cozinha, depois no porão. — Preciosa! — Quando chamou já perto da masmorra, ouviu uma resposta.

— Ela está aqui em baixo comigo, seu filho da pu-ta! — disse Catherine Martin.

O Sr. Gumb sentiu um arrepio correr-lhe pelo corpo, temendo por Preciosa. Logo a raiva de novo o dominou e, com os punhos de encontro às têmporas, ele com-primiu a testa contra o umbral da porta e tentou controlar-se. Um som que era metade vômito e metade gemido escapou de seus lábios e a cachorrinha respondeu com um fraco latido.

Ele foi até a oficina e apanhou a pistola.

A cordinha que segurava o balde sanitário estava rompida. Ele ainda não tinha certeza de como ela o teria feito. Na última vez observara a cordinha partida, mas a-creditara que ela a havia rompido numa absurda tentativa para sair de dentro do poço. Antes dela, outras haviam tentado escapar, fazendo toda espécie de tolices imagináveis. Inclinou-se sobre a abertura, a voz cuidadosamente controlada:

— Preciosa, você está bem? Responda!

Catherine deu um beliscão na traseira do animal. A cachorrinha rosnou e pegou-lhe com uma mordida no braço. — Que tal isso? — disse Catherine.

Parecia bem pouco natural ao Sr. Gumb falar com Catherine dessa forma, mas ele dominou seu desgosto.

— Vou arriar um cesto. Ponha a cachorrinha nele.

— Mande para baixo um telefone ou eu quebro o pescoço dela. Não quero fazer mal a você. Não quero fazer mal a este cãozinho. Mas me dê o telefone.

Gumb levantou a pistola. Catherine viu quando o cano passou pela luz. Agachou-se, segurando o cão em cima dela, equilibrando o entre ela e a arma. Ouviu-o en-gatilhar a pistola.

— Se você atirar, seu filho da puta sujo, é melhor que me mate na hora ou eu quebro a porra do pescoço dela, juro por Deus!

Ela colocou o cão embaixo do braço, pôs a mão em volta do seu focinho e levantou-lhe a cabeça.

— Saia dai, seu filho da puta! — O cãozinho gemeu. A arma foi recolhida.

Catherine afastou o cabelo da testa molhada com a mão livre — Eu não quero insultá-lo — disse ela. — Mas baixe um telefone aqui para mim. Quero um telefone ligado. Você pode cair fora; não estou ligando a mínima para você, faça de conta que nunca o vi. Cuidarei bem de Preciosa. — Não.

— Verei que não lhe falte nada. Pense no bem-estar dela, não apenas em seu próprio. Se você der um tiro aqui para baixo ela no mínimo ficará surda. Tudo o que quero é um telefone ligado. Arranje uma extensão longa, arranje cinco ou seis extensões e mande-as. Elas já vêm com conexões nos extremos. Mas desça um telefone aqui.

Eu mando o cão para você por via aérea para qualquer lugar. Minha família tem cães, minha mãe adora cães. Vo-cê pode fugir não estou ligando para o que você faça.

— Você não vai receber mais água, a que recebeu foi a última.

— O cão também não receberá água e eu não vou dar-lhe nenhuma da que ainda tenho na garrafa. Desculpe-me dizer-lhe, mas penso que ela quebrou a perna.

— Isso era mentira. O cãozinho junto com o balde e a isca tinham caído em cima de Catherine, só ela sofrera uns arranhões no rosto causados pelas unhas do animal.

Não podia arriar a cadelinha no chão ou ele veria que não mancava. — Ela está sofrendo, a perna está torta e Preciosa tenta lambê-la. Tenho pena dela. Devo levá-la a um veterinário.

O gemido de raiva e de angústia do Sr. Gumb fez o cão ganir.

— Você acha que ela está sentindo dor? — perguntou o Sr. Gumb. — Você não faz idéia do que é dor.

Se você a machuca: mergulho-a em água fervente.

Quando o ouviu subindo as escadas, Catherine Martin sentou se, sacudida por uma grande tremedeira nas pernas e nos braços Ela não podia segurar o cão, não podia segurar a garrafa d’água não podia segurar nada.

Quando a cachorrinha pulou no seu colo, ela a agarrou, grata pelo seu calor.

CAPÍTULO 50

Por cima da água barrenta e grossa boiavam penas de aves, penas crespas que tinham sido sopradas das gaiolas, carregadas pelas lufadas do vento que fazia arrepiar a superfície do rio.

As casas na Rua Fell, a Rua de Fredrica Bimmel, eram chamada de “à beira do rio” nos cartazes desgastados pelo tempo das imobiliárias porque seus quintais terminavam num braço de rio, uma parte represada do rio Lic-king, em Belvedere, Ohio, uma cidade de 112.000 habitantes do Cinturão da Ferrugem, a leste de Columbus.

Era uma vizinhança dilapidada de casas grandes e velhas. Algumas haviam sido compradas por preços mó-dicos por jovens casais e renovadas com o melhor esmalte da Sears, fazendo com que as demais casas parecessem ainda piores. A casa dos Bimmels não fora renovada.

Clarice Starling ficou por um momento no quintal de Fredrica, olhando para as penas dentro d’água, com as mãos bem enterradas nos bolsos de seu impermeável. Havia uns restos de neve meio derretida entre os arbustos, azul por baixo do azul do céu nesse suave dia de inverno.

Atrás dela Starling podia ouvir o pai de Fredrica martelando as gaiolas, uma fileira de gaiolas de pombos que partiam da margem da água e chegavam quase até a casa. Ela ainda não vira o Sr. Bimmel. Os vizinhos disseram-lhe, com os rostos amarrados, que ele estava em casa.

Starling estava tendo alguma dificuldade consigo mesma. No momento da noite anterior em que ela decidi-ra deixar a Academia para caçar Buffalo Bil , uma porção de ruídos estranhos haviam cessado. Ela sentia um silên-

cio novo e puro apaziguando sua mente. Num lugar estranho, agora, ela se achava tola e pretensiosa.

Os pequenos aborrecimentos da manhã não a haviam afetado: nem o odor esquisito no avião para Columbus, nem a confusão e mau atendimento no balcão de aluguel de carros. Ela tinha instado com o funcionário para se apressar, mas não se zangara.

Starling havia pagado um alto preço para ter essa oportunidade e pretendia usá-la da melhor maneira. O

prazo dela poderia esgotar-se a qualquer momento se Crawford perdesse sua autoridade e eles lhe retirassem as credenciais.

Devia apressar-se, mas ficar se preocupando com a agonia de Catherine nesse dia crucial seria desperdiçá-lo inteiramente. Pensar nela em tempo real, sendo “processada” nesse momento como Kimberly Emberg e Fredrica Bimmel tinham sido “processadas”, impediria qualquer outro pensamento.

A brisa cessou e a água ficou mortalmente parada.

Perto de seus pés uma pena arrepiada girava com a tensão da superfície. Firme, Catherinel Starling prensou a língua entre os dentes. Se ele lhe desse um tiro, esperava que o fizesse com competência.

Ensina-nos a cuidar e a descuidar.

Ensina-nos a permanecer firmes.

Ela voltou-se para a fileira inclinada de gaiolas e seguiu um ca. ninho de tábuas colocadas sobre a lama em direção ao barulho dai marteladas. Havia centenas de pombos, de todos os tamanhos e cores; alguns tinham pernas longas e cobertas de penugem, outros pa. reviam arrogantes com seu peito avultado. Olhos brilhantes, a: cabeças projetando-se quando andavam, as aves abriam

suas asa: sob o pálido sol e arrulhavam, agradáveis, quando Starling passava por elas.

Gustav Bimmel, o pai de Fredrica, era um homem alto, espadaúdo e de quadris largos; tinha os olhos de um azul aguado, ma estavam avermelhados. Um boné de malha caia-lhe sobre as sobrancelhas. Ele estava construindo outra gaiola sobre cavaletes, na frente de sua oficina. Starling sentiu cheiro de vodca na sua respiração enquanto ele examinava, com os olhos apertados, sua identidade.

— Não tenho nada para lhe dizer — falou ele. —

A polícia voltou aqui anteontem à noite. Recapitularam meu depoimento e o leram para mim. “Isso está certo?

Isso está certo?” Eu lhes disse: “Claro que sim, se não estivesse certo eu não o diria dessa maneira, ora essa. ., —

Eu estou tentando descobrir onde. . onde o raptor teria conhecido Fredrica, onde ela poderia ter chamado a atenção dele, Sr. Bimmel, e o que o levara a raptá-la.

Continuar: parte 3 de 4