O Silêncio dos Inocentes

Thomas Harris · Capítulo 3 de 3 · parte 4/4

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O Silêncio dos Inocentes

Capítulo 2

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Devagar, bem devagar, andou com os joelhos dobrados, os dedos dos pés com unhas pintadas tateando as tábuas do chão. Em silêncio, cruzou o assoalho de terra sobre a masmorra. Quieto agora, mas não devagar demais.

Não queria que seu cheiro chegasse até a cadelinha no fundo do poço.

A parte superior da masmorra tinha um reflexo verde, as pedras e a argamassa diferentes, o grão da madeira da cobertura claro na sua visão. Segurou a lanterna e inclinou-se sobre a abertura. Lá estavam elas. A coisa permanecia de lado, enrolada como um gigantesco camarão. Talvez dormindo. Preciosa se aconchegara de encontro ao seu corpo, certamente dormindo — oh! Por miseri-córdia, não morta!

A cabeça da mulher estava exposta. Um tiro no pescoço era tentador — pouparia o cabelo. Mas arriscado demais. Gumb inclinou-se sobre a abertura, as lentes móveis de seus óculos voltadas para baixo. A Phyton tem uma boa empunhadura, mais pesado no cano, maravilhosamente fácil de apontar. Devo segurá-la pelo feixe infravermelho. Alinhou as miras no lado da cabeça, exatamente onde o cabelo estava úmido de encontro às têmporas.

Ruído ou cheiro — ele nunca soube — , Preciosa levantou-se e ganiu, pulando para o alto na escuridão. Catherine Baker Martin dobrou-se em volta do cãozinho e puxou a manta sobre as duas. Apenas vultos movendo-se debaixo da manta, sem que ele pudesse dizer o que era Catherine e o que era o cão. Olhando para baixo pela luz infravermelha, sua percepção de profundidade ficava pre-judicada. Não podia dizer que formas eram de Catherine.

Contudo, tinha visto Preciosa pular. Compreendera que a perna dela estava bem e imediatamente se certificou de outra coisa: Catherine Baker Martin não iria machucar o cão, não mais do que ele o faria. Oh, que doce alívio!

Diante dos sentimentos que compartilhavam, ele podia atirar-lhe nas malditas pernas e quando ela se abaixasse para segurá-las, estourar a porra dos seus miolos. Não tinha mais que tomar precaução.

Acendeu as luzes, todas as malditas luzes do porão, e pegou o refletor que guardava no depósito. Sentia-se controlado, estava raciocinando bem. A caminho da oficina lembrou-se de deixar correr um pouco d’água nas pias, de forma que nada viesse a entupir os drenos.

Quando se dirigia apressado em direção à escada, pronto para descer, carregando o refletor, a campainha da porta da frente soou.

O som pareceu-lhe rouco, arrastado, e ele parou para pensar o que seria. Não ouvia há anos, nem mesmo sabia se ela ainda funcionava. Montada nas escadas, de forma que pudesse ser ouvida tanto em cima como embaixo, ela agora soava, como se fosse um sino de metal escuro coberto de poeira. Enquanto olhava para a campainha, ela tocou de novo e continuou a tocar, a poeira se espalhando de cima dela. Alguém estava na frente da casa, apertando o velho botão marcado SUPERINTENDEN-TE. Acabariam indo embora.

Ligou o refletor na tomada.

Eles não foram embora.

Lá embaixo, no porão, aquela coisa disse algo a que ele não prestou atenção. A campainha continuava soando, naquele seu tinir enrouquecido; alguém estava dependura-do no botão.

Era melhor voltar para cima e dar uma olhada. A Phyton de cano comprido não cabia no bolso do seu robe; descansou-a em cima do balcão da oficina.

Estava a meio caminho das escadas quando a campainha emudeceu. Aguardou alguns segundos, parado on-de estava. Silêncio. Decidiu que, de qualquer modo, con-vinha olhar. Quando atravessava a cozinha, uma pancada na porta traseira sobressaltou-o. Na despensa, próximo àquela porta, havia uma espingarda que ele sabia estar carregada. Com a porta do porão fechada para as escadas, ninguém iria ouvir a coisa por mais que berrasse lá embaixo, por mais que gritasse — disso ele tinha certeza.

Nova batida. Ele abriu uma fresta da porta com a correntinha de segurança presa no lugar.

— Tentei a porta da frente, mas ninguém atendeu

— justificou-se Clarice Starling. — Estou procurando a família da Sra. Lippman. O senhor poderia ajudar-me?

— Eles não vivem mais aqui — disse o Sr. Gumb, e imediatamente fechou a porta. Já se dirigia de novo para a escada quando as batidas recomeçaram, desta vez mais altas. Voltou a abrir a porta, sempre sem soltar a corrente.

A jovem mulher exibiu-lhe um cartão de identidade diante da fresta. O cartão dizia: Federal Bureau of Investigation. — Desculpe-me, mas devo falar com o senhor.

Preciso encontrar a família da Sra. Lippman. Sei que ela vivia aqui. Peço que o senhor me ajude, por favor.

— A Sra. Lippman está morta há anos. E, que eu saiba, não deixou nenhum parente.

— Que tal um advogado, um contador? Alguém que possa ter guardado os registros do negócio dela? O

senhor conheceu a Sra. Lippman?

— Apenas ligeiramente. Qual é o problema?

— Estou investigando a morte de Fredrica Bimmel.

Quem é o senhor, por favor?

— Jack Gordon.

— O senhor conheceu Fredrica Bimmel quando ela trabalhava para a Sra. Lippman?

— Não. Se era uma pessoa grande, muito gorda, talvez eu a tenha visto, mas não estou certo. Olhe, não quis ser indelicado, mas eu estava dormindo... A Sra.

Lippman tinha um advogado; pode ser que eu tenha o cartão dele em algum lugar, vou ver. A senhora gostaria de entrar? Estou gelando e meu gato vai fugir correndo por aqui num instante. Passará como um raio antes que eu possa detê-lo.

Dirigiu-se para uma escrivaninha de tampo de enrolar no canto mais afastado da cozinha, abriu a tampa e procurou nos escaninhos. Starling entrou na casa e sacou seu caderno de notas de dentro da bolsa.

— Que negócio horrível foi aquele! — comentou, revistando a escrivaninha. — Tremo a cada vez que penso nele. Estão próximos a apanhar alguém, que acha a senhora? — Ainda não, mas estamos trabalhando nisso, Sr.

Gordon. O senhor ficou com a casa depois que a Sra.

Lippman faleceu?

— Fiquei. — Gumb debruçou-se sobre a mesa, as costas voltadas para Starling. Abriu uma gaveta e examinou-a.

— Ficaram por aqui alguns registros? Registros de negócios?

— Não. Nada. O FBI tem alguma idéia? A polícia daqui parece não saber de nada. Eles têm uma descrição, impressões digitais?

De dentro de uma dobra do robe do Sr. Gumb escapou uma Mariposa Caveira. Agarrou-se ao tecido, nas costas, mais ou menos à altura do coração, e abriu as asas.

Starling deixou cair o caderno de notas dentro da bolsa. É Gumb! Graças a Deus que meu casaco está aberto. Tenho que sair daqui e chegar a um telefone. Não. Ele sabe que sou do FBI, se o perco de vista ele a mata. Fura-lhe os rins. Se o encontram, caem em cima dele. E um telefone? Não vejo nenhum. Não por aqui. Pergunto-lhe pelo telefone. Faço a ligação. Depois prendo-o. Faço-o deitar-se de barriga para baixo, espero pelos tiras É is-ca.Vamos. Ele está se voltando.

— Aqui está o número.

Pego-o? Não.

— Obrigada. Sr. Gordon, mas o senhor tem um telefone que eu possa usar?

Quando ele pôs o cartão na mesa, a mariposa voou.

Saiu de trás dele, passou sobre a sua cabeça e pousou entre os dois, num armário sobre a pia.

Ele olhou para a mariposa. Ao ver que Starling não afastava os olhos do seu rosto, percebeu tudo.

Seus olhares se encontraram e eles se revelaram mutuamente.

Gumb inclinou a cabeça um pouco para o lado e deu um sorriso, dizendo:

— Tenho um sem-fio na despensa. Vou apanhá-lo.

Não! Aja agora! Ela correu a mão para o revólver, um movimento suave que fizera milhares de vezes, e lá estava onde devia estar, numa boa empunhadura com as duas mãos, o mundo dela concentrado na frente da sua mira e no centro do peito dele.

— Pare!

Ele fez um movimento com os lábios.

— Agora, devagar! Levante as mãos! Leve-o para fora, mantenha a mesa entre vocês. Leve-o para a frente da casa. De cara para o chão no meio da rua, e segure seu distintivo exposto na mão.

— Sr. Gumb... Sr. Gumb, considere-se preso. Saia andando devagar na minha frente, para a rua.

Em vez disso, ele saiu da cozinha. Se tentasse meter a mão no bolso, ou levar a mão para trás, se ela tivesse visto uma arma, poderia ter atirado. Mas ele se limitou a sair. Ouviu-o descer rapidamente as escadas do porão; Starling contornou a mesa e dirigiu-se para a porta no alto da escada. Ele desaparecera, a escadaria estava brilhantemente iluminada, mas vazia. Armadilha. Tornava-se um alvo fácil naquela escadaria.

No porão ouviu-se um grito estridente e agudo como um apito.

Ela não gostava da escada, nunca gostara de escadas. Clarice Starling, seja rápida no que fizer. Ou você faz alguma coisa rápida ou não faz.

Catherine Martin gritou de novo, ele estava a matando! Starling desceu as escadas agarrada ao corrimão, o braço com o revólver esticado, o chão lá embaixo apare-cendo na frente da mira, o braço com a arma ficou giran-

do junto com sua cabeça quando ela tentou cobrir as duas portas, uma em frente à outra, ao pé da escadaria.

As luzes brilhando no porão, ela não podia atravessar uma porta sem dar as costas à outra. Faça-o rápido, vá para a esquerda, na direção do grito. Ela entrou no quarto da masmorra com seu piso de terra, passou correndo pela porta, com os olhos mais arregalados que nunca. O único lugar para se proteger era atrás do poço. Deslizou de lado ao longo da parede, ambas as mãos na arma, os braços esticados, uma pequena pressão no gatilho, deu a volta ao poço e atrás dele não havia ninguém.

Um pequeno grito veio do poço, volátil como fumaça. Ganidos agora, um cachorro. Aproximou-se da abertura, chegou até a borda e espiou. Viu a moça, olhou para baixo mais uma vez, e disse o que estava treinada pa-ra dizer, a fim de acalmar a refém:

— Sou do FBI, você está segura.

— Segura uma merda! Ele tem uma arma. TIRE-ME DAQUI! TIRE-ME DAQUI!

— Catherine, você será salva. Cale a boca. Sabe onde ele está agora?

— TIRE-ME DAQUI. NÃO ESTOU LIGANDO

UMA MERDA PARA ONDE ELE ESTÁ, TIRE-ME

DAQUI!

— Vou tirá-la. Mas cale-se. Ajude-me. Fique quieta, de modo que eu possa escutar. Tente ver se pode calar esse cachorro.

Entrincheirada atrás do poço, cobrindo a porta com a arma o coração dela batia e sua respiração arfante levantava poeira da pedra. Ela não podia deixar Catherine Martin para buscar ajuda sem saber onde estava Gumb.

Deslocando-se até a porta, protegeu-se atrás do umbral.

Podia enxergar até o pé da escada e parte da oficina mais adiante.

Ou ela encontrava Gumb, ou se certificava de que ele fugira ou levava Catherine com ela — essas eram as escolhas.

Olhou rapidamente para o quarto da masmorra.

— Catherine, há uma escada por aqui?

— Não sei; acordei aqui dentro. Ele arriava o balde com uma corda, para tudo.

Aparafusado numa coluna da parede, viu um guincho manual pequeno. Em seu tambor não havia cabo.

— Catherine, tenho que descobrir alguma coisa pa-ra tirar você dai. Você pode andar?

— Sim. Não me deixe!

— Tenho que sair do quarto apenas por um minuto.

— Sua cadela de merda, não me deixe sozinha aqui embaixo, minha mãe vai estourar a porra dos seus miolos. . — Cale a boca, Catherine. Quero que você fique quieta de forma que eu possa ouvir. Para salvar-se, fique quieta, entendeu? Depois, em voz mais alta: — Outros policiais estarão aqui dentro de minutos, portanto cale a boca! Claro que não vamos deixá-la aí embaixo.

Precisava encontrar uma corda. Onde haveria uma?

Vá procurá-la.

Starling movimentou-se cruzando o vão da escada e correndo até a porta da oficina. As portas são os piores lugares. Entrou rápido, correu para um lado e outro ao longo da parede mais próxima até ter se situado no quarto. Percebeu formas familiares nadando nos tanques de vidro, por demais alerta para ficar espantada. Cruzou rapi-

damente o quarto, passando pelos tanques, pelas pias, pela gaiola onde algumas grandes mariposas voavam. Ignorou-as.

Aproximou-se do outro corredor, inundado de luz.

A geladeira se ligando atrás dela fê-la virar-se rápida e agachada, o gatilho da Magnum armado. A seguir relaxou sua pressão sobre ele. Prosseguiu até o corredor. Fora ensinada a espiar. Cabeça e revólver ao mesmo tempo, mas nu-ma posição baixa. O corredor estava vazio. Viu o estúdio violentamente iluminado no fim do corredor. Correu ligeira, arriscando-se a passar por uma porta fechada, até a porta do estúdio. Estava todo pintado de branco e guar-necido de carvalho claro. O inferno é passar pela porta.

Certifique-se de que todo manequim é um manequim, e todo reflexo no espelho é o reflexo de um manequim. O

único movimento nos espelhos deve ser o seu movimento.

O grande armário estava aberto e vazio. A porta mais afastada abria-se para a escuridão — o porão por trás dela. Nenhuma corda, nenhuma escada. Além do estúdio não havia luzes. Fechou a porta que dava para a parte sombria do porão, empurrou uma cadeira para baixo da maçaneta e a escorou com uma máquina de costura. Se pudesse estar segura de que Gumb não estava nessa parte do porão, arriscaria subir por um momento, atrás de um telefone.

Voltou ao corredor, à porta pela qual havia passado antes, colocou-se no lado oposto às dobradiças e abriu-a inteiramente com um só movimento. A porta bateu com força na parede; não havia ninguém lá. Um velho banheiro cheio de cordas, ganchos, laçadas. Resgatar Catherine ou procurar o telefone? No fundo do poço Catherine não

seria morta por acidente, mas se Starling fosse morta, Catherine morreria também. Levar Catherine com ela até o telefone.

Starling achou melhor não ficar no banheiro muito tempo. Ele poderia aparecer de repente e fuzilá-la. Olhou para ambos os lados e avançou célere para apanhar a corda. Havia ali uma grande banheira, quase cheia com uma argamassa dura, roxo-avermelhada. Uma mão e um pulso saíam da argamassa, a mão escura e toda enrugada, com unhas pintadas de cor-de-rosa. No pulso, um delicado relógio. Starling observou tudo num só relance: a corda, a banheira, a mão, o relógio de pulso.

O avanço semelhante ao de um inseto do ponteiro dos segundos foi a última coisa que ela viu antes que as luzes se apagassem.

O coração bateu tão forte que sacudiu seu peito e seus braços. A escuridão deixou-a tonta, precisava tocar alguma coisa, a borda da banheira. O banheiro. Sair do banheiro. Se ele encontrar a porta, vai varrer este quarto de balas, e nada existia para servir de escudo. Oh, Jesus Cristo, sair daqui! Sair daqui, agachada, para o corredor.

Todas as luzes estão apagadas? Todas elas. Ele deve tê-las desligado na caixa de fusíveis, puxando a alavanca. Onde seria! Onde seria a caixa de fusíveis? Próximo às escadas.

Em geral ficam perto das escadas. Se for assim, ele virá daquele lado. Mas ele está entre mim e Catherine.

Catherine Martin está se lamentando de novo.

— Esperar aqui? Esperar para sempre? Talvez ele tenha ido embora. Ele não pode ter certeza de que nenhum reforço está vindo. Sim, ele pode. Mas breve nota-rão a minha falta. Esta noite. As escadas ficam na direção dos gritos. Resolva o problema agora.

Starling moveu-se devagar, seu ombro apenas tocando na parede, tocando-a levemente demais para fazer qualquer ruído, uma mão esticada para a frente, o revólver próximo à cintura, próximo ao seu corpo no apertado corredor. Estou agora dentro da oficina Sinto o espaço abrir-se. Um quarto aberto. Abaixou-se no quarto aberto, ambas as mãos no revólver. Você sabe exatamente onde c arma está: está abaixo do nível dos olhos. Pare, escute. A cabeça e o corpo e os braços virando em conjunto, como a torre de um tanque. Pare, escute.

Na escuridão total, o chiado dos tubos de vapor, a água pingando.

Em suas narinas, pesado, um cheiro de bode.

O lamento de Catherine.

De encontro à parede estava Gumb com seus óculos acavalados. Não havia perigo de que Starling esbarras-se nele — entre os dois estava a mesa com o equipamento. Ele varreu-a com sua luz infravermelha, para cima e para baixo. Era magra demais, não tinha qualquer utilidade para ele. Lembrou-se, no entanto, do seu cabelo, que observara na cozinha. Era espetacular e levaria apenas um minuto. Podia arrancá-lo com facilidade. Colocá-lo em si mesmo, debruçar-se sobre o poço e dizer àquela coisa:

— Surpresa!

Era divertido vê-la querendo esgueirar-se. Agora estava com o quadril deslizando ao lado das pias, andando em direção aos gritos com o revólver diante do corpo.

Seria divertido caçá-la por um longo tempo — jamais ca-çara antes uma caça armada. Teria apreciado imensamen-te. Mas não havia tempo para isso. Que pena!

Um tiro no rosto seria um sucesso, a menos de 3

metros de distância. Agora.

Ele engatilhou a Python e a ergueu. De repente a figura ficou borrada e desapareceu da sua visão, que era verde. A arma saltou da sua mão e o solo chocou-se violentamente com suas costas. Sua luz continuava acesa e ele via o teto. Starling estava no chão, cega com os relâmpa-gos dos disparos, os ouvidos zunindo, ensurdecida pelo espocar das armas. Trabalhava no chão enquanto nenhum dos dois podia ouvir, descarregou os cartuchos vazios, virou a arma, apalpou-a para ver se todos tinham sido ex-pelidos. Apanhou o carregador rápido, sentiu-o na mão, ajeitou-o, inseriu-o, fechou o cilindro do revólver. Deu, quatro tiros: dois e mais dois. Gumb atirara uma vez. Ela encontrou os dois cartuchos perfeitos que deixara cair.

Colocá-los onde? Na bolsa do carregador rápido. Permaneceu quieta. Devia mover-se antes que ele pudesse ouvir?

O som de uma arma sendo engatilhada é caracterís-tico. Ela havia atirado contra o som, nada vendo além da forte luminosidade no cano das armas. Tinha agora a esperança de que ele atirasse na direção errada e lhe ofere-cesse novo clarão para ela atirar. Sua audição estava voltando, os ouvidos ainda zumbiam, mas já podia ouvir.

Que som era aquele? Um assobio? Como uma cha-leira, mas com interrupções. O que seria? Como uma respiração. Serei eu mesma? Não. Sua respiração era quente de encontro ao chão e se refletia em seu rosto. Tome cuidado, não aspire poeira, não espirre.

Ouve-se a respiração. Parece uma ferida no peito aspirando ar. Ele foi ferido no peito. Haviam ensinado a ela como vedar uma ferida dessas, colocando algo em ci-ma dela, uma capa de borracha, um saco plástico, qualquer coisa impermeável ao ar, e depois amarrar com força. Reencher o pulmão. Ela então o havia acertado no peito. O

que fazer agora? Esperar. Deixar que ele se esgote e sangre. Esperar.

O rosto de Starling ardia. Não tocou nele. Se estivesse sangrando, não queria que suas mãos ficassem escorregadias.

Os gritos do poço ecoaram de novo. Era Catherine, implorando e chorando. Mas ela não podia responder a Catherine. Não podia dizer nada nem mover-se.

A luz invisível de Gumb batia no teto. Tentou mo-vê-la e não pôde, da mesma forma que não podia mover a cabeça. Uma grande mariposa Luna da Malásia, passando pertinho do teto, recebeu a radiação infravermelha, desceu circulando e pousou sobre a lanterna. As sombras pulsan-tes das suas asas, enormes no teto, são visíveis apenas para Gumb. Acima da aspiração crepitando na escura, Starling ouviu a voz sepulcral de Gumb, afogada:

— Como... se... sente... sendo... tão... bonita?

E depois outro som. Um gorgolejo, um estertor e o assobio sumiu. Starling conhecia também aquele som. Ela o ouvira uma vez antes, no hospital, quando seu pai morrera.

Procurou a beirada da mesa e levantou-se. Tateando para acha seu caminho e seguindo a voz de Catherine, encontrou a escada subiu por ela no escuro.

O tempo pareceu arrastar-se uma enormidade. Encontrou um vela na gaveta da cozinha. Com ela Starling localizou a caixa de fusíveis ao pé da escada e estremeceu quando as luzes voltaram. Para chegar até a caixa de fusíveis e apagar as luzes, ele deve ter saído do porão por outro caminho e voltado para baixo contornando por trás.

Starling precisava estar certa de que ele já não vivia.

Espero até seus olhos se adaptarem bem à luz antes de voltar à oficina, mesmo então o fez com muito cuidado.

Pôde ver-lhe os pés nus as pernas saindo debaixo da mesa de trabalho. Manteve os olhos fixados na mão próxima à arma até chutá-la para longe. Os olhos dele permaneciam abertos. Contudo, estava morto, com um tiro no lado direito do peito, um sangue grosso escorrendo para baixo de Gumb tinha vestido algumas roupas do armário, mas ela não conseguiu olhar para ele por muito tempo.

Foi até a pia, colocou a Magnus na mesa e fez correr água sobre seus pulsos, lavando o rosto com as mãos.

Não havia sangue nelas. Mariposas se lançavam contra as telas em torno das lâmpadas. Ela tem que rodear aquele corpo inerte para pegar a Python.

Quando se aproximou do poço, gritou:

— Ele está morto, Catherine. Não pode mais fazer-lhe mal. Vou até lá em cima e. .

— Não! TIRE-ME DAQUI! TIRE-ME DAQUI!

TIRE-ME DAQUI!

— Preste atenção, ele está morto. Este é o revólver dele. Lembra-se? Vou chamar a polícia e os bombeiros.

Tenho receio de içá-la sozinha, você poderia machucar-se.

Tão logo os tenha chamado, volto aqui e fico com você esperando. O.K.? Tente fazer esse cachorro calar-se.

O.K.? As turmas locais de televisão chegaram logo depois do corpo de bombeiros e antes da polícia de Belvedere. O

capitão dos bombeiros, zangado com as luzes da TV, ex-pulsou as equipes para cima, para fora do porão, enquanto montava uma estrutura tubular para resgatar Catherine Martin, não confiando no gancho do Sr. Gumb preso à

viga do teto. Um bombeiro desceu ao poço e prendeu Catherine numa cadeira de salvamento. Catherine veio para cima agarrando a cachorrinha e continuou com ela na ambulância.

Não permitem a presença de cães no hospital e não deixaram a cachorrinha entrar. Um bombeiro que recebera instruções para largá-la no abrigo de animais, em vez disso levou-a para casa.

CAPÍTULO 57

Havia cerca de cinqüenta pessoas no Aeroporto Nacional em Washington, aguardando o vôo corujão de Columbus, Ohio. Quase todos esperavam parentes e pareciam sonolentos e mal-humorados, com as fraldas das camisas para fora dos paletós.

Do meio do grupo, Ardelia Mapp teve a oportunidade de observar Starling quando ela saía do avião. Estava abatida, com sombras escuras debaixo dos olhos. Alguns grãos pretos de pólvora tinham aderido ao seu rosto. Starling avistou Mapp e se abraçaram.

— Hei, garotona! — disse Mapp. — Alguma bagagem? Starling fez que não com a cabeça.

— Jeff está do lado de fora, no furgão. Vamos para casa. Jack Crawford também estava do lado de fora, seu carro estacionado atrás do furgão no espaço das limusines.

Ele tinha ficado com os parentes de Bella a noite inteira.

— Eu... — começou ele. — Você sabe o que fez?

Você lavrou um tento, garota! — Tocou no rosto dela. —

O que é isso?

— Pólvora das armas. O doutor diz que sairá sozinha em um ou dois dias; é melhor do que ter de retirá-la.

Crawford deu-lhe um abraço e apertou-a de encontro a si por um momento, apenas por um momento, depois afastou-a e beijou a na testa.

— Você tem idéia do que fez? — repetiu. — Vá para casa. Trate de dormir. E durma bem. Falo com você amanhã.

A nova caminhonete de vigilância era confortável, projetada para longas vigílias. Starling e Mapp viajaram em confortáveis cadeiras na parte traseira.

Sem Jack Crawford no furgão, Jeff dirigia um pouco mais depressa. Fizeram uma corrida rápida até Quântico. Starling viajava com os olhos fechados. Depois de alguns quilômetros, Mapp tocou-lhe o joelho. Mapp tinha aberto duas pequenas garrafas de Coca-Cola. Entregou uma a Starling e tirou de sua bolsa um frasco de um quarto de litro de Jack Daniels.

Cada uma delas tomou um gole de sua Coca e virou na garrafa uma dose do sour mash. Em seguida enfiaram o polegar no gargalo das garrafas e sacudiram-nas e, enfiando a garrafa na boca, beberam a mistura espumante.

— Ah, que bom! — apreciou Starling.

— Não derramem isso por aí — recomendou Jeff.

— Não se preocupe, Jeff — prometeu Mapp. Depois, em tom mais baixo para Starling: — Você devia ter visto nosso amigo esperando por mim na porta da loja de bebidas. Parecia estar cometendo um crime.. — Quando viu que o uísque começava a fazer efeito, quando Starling, relaxada, afundou mais na cadeira, Mapp perguntou:

— Como está se sentindo agora, Starling?

— Ardelia, que me dane se sei ..

— Você não tem que voltar para lá, tem?

— Talvez um dia, na semana que vem, mas espero que não seja necessário. O Promotor Público veio de Columbus para conversar com os tiras de Belvedere. Fiz um depoimento que não acabava mais.

— Algumas boas notícias — disse Mapp. — A senadora Martin procurou você pelo telefone toda a noite e

lá de Bethesda — você sabia que levaram Catherine para Bethesda? Consta que ela está passando bem. Ele não a machucou fisicamente. Quanto a um trauma emocional, ainda nada sabem, vai ser preciso observá-la. Não se preocupe com a escola. Tanto Crawford quanto Brigham telefonaram. A audiência foi cancelada. Krendler mandou que devolvessem seu memorando. Essa gente tem um coração como um BB lubrificado — você não vai ter problema algum. Não terá que fazer o exame de busca-e-captura amanhã às oito horas, ficou para segunda-feira e logo a seguir fará o teste PE. Recapitularemos a matéria durante o fim de semana. Acabaram com a pequena garrafa de uísque já perto de Quântico e jogaram a prova do crime numa barrica que estava ao lado da estrada.

— Aquele Pilcher. O doutor Pilcher, do Smithsonian, telefonou três vezes. Fez-me prometer que lhe diria que ele telefonou.

— Ele não é doutor.

— Você pensa que poderá fazer algo por ele?

— Talvez. Ainda não sei.

— Ele parece ser muito divertido. Conclui mais ou menos que ser engraçado é a melhor coisa que existe nos homens. Quero dizer, exceto o dinheiro e a nossa básica governabilidade. .

— Sim, e bons modos também, você não pode excluir isso.

— Certo. Dê-me um filho da puta com bons modos e fico com ele.

Starling tomou um chuveiro e foi para a cama co-mo se estivesse drogada.

Mapp deixou sua luz de leitura acesa por algum tempo, até que a respiração de Starling se tornou regular.

Starling se agitava dormindo, um músculo de seu rosto se contraía, e uma vez seus olhos se abriram por completo.

Mapp acordou um pouco antes do nascer do sol com a sensação que o quarto estava vazio e acendeu a luz.

Não viu Starling em sua cama. Mas não viu também os sacos de roupa suja de ambas e então Mapp soube onde poderia procurá-la.

Encontrou Starling na lavanderia, cochilando ao vagaroso ronronar de uma máquina de lavar roupa, no ar um cheiro de detergente, sabão e amaciante de tecido.

Starling era formada em psicologia e Mapp em leis —

contudo, era Mapp quem sabia que o ritmo da máquina de lavar roupa semelhava batidas de coração e o marulho da água era o som que um feto ouvia — nossa última memória de paz.

CAPÍTULO 58

Jack Crawford acordou cedo no sofá de seu estúdio e ouviu na casa o ressonar de seus parentes por parte da falecida esposa. Num momento livre, antes que o peso do dia caísse sobre ele, lembrou-se não da morte de Bel a, mas da última coisa que ela lhe dissera, seus olhos calmos e claros:

— Como vai tudo aí fora?

Pegou a concha de grãos de Bella e, vestido no seu robe, saiu e alimentou os pássaros, como prometera fazer.

Deixando uma nota para os afins que ainda dormiam, es-capuliu da casa antes do sol nascer. Crawford sempre se dera razoavelmente bem com os parentes de Bella, e eles o ajudavam mantendo algum movimento na casa, mas sentiu-se contente por ir para Quântico.

Estava examinando o movimento de telex da noite e observando as notícias da manhã na TV em seu escritório quando Starling encostou o nariz no vidro da porta.

Ele tirou alguns relatórios de cima de uma cadeira para que ela sentasse e os dois ficaram ouvindo as notícias em completo silêncio. E então apareceu na tela o que esperavam. Viram a fachada do velho edifício de Jame Gumb em Belvedere com sua fila de lojas vazias e vidraças opa-cas cobertas por pesadas grades. Starling quase não o reconheceu.

— Masmorra de Horrores — assim chamou-o o redator de notícias. Fotos confusas e movediças do poço e do porão, máquinas de fotografar exibidas diante das câmaras de

televisão, um bombeiro zangado mandando os fotógrafos recuarem. Mariposas tontas devido às luzes da TV, voando de encontro a elas, um exemplar de costas no chão, batendo as asas até um tremor final.

Catherine Martin recusando uma padiola e caminhando para a ambulância com o paletó de um policial a protegê-la, um poodle metendo o focinho por entre as lapelas. Uma imagem em perfil de Starling caminhando apressada para um carro, a cabeça baixa, as mãos enfiadas nos bolsos do impermeável.

O filme fora cortado para excluir as cenas mais horríveis. Nas partes mais afastadas do porão as câmaras puderam mostrar apenas as soleiras dos quartos pintados de cal nos quais ficavam os quadros de Gumb. O número de corpos que haviam estado naquele porão somava seis.

Por duas vezes Crawford ouviu quando Starling soprou forte pelo nariz. Depois das notícias, um intervalo comercial.

— Bom dia, Starling.

— Alô -— disse ela, como se só agora tivesse acabado de chegar.

— Durante a noite o Promotor Público de Columbus mandou-me pelo fax o seu depoimento. Você terá que assinar algumas cópias para ele.. Fiquei sabendo que você foi da casa de Fredrica Bimmel para o emprego de Stacy Hubka e depois procurou a Sra. Burdine na loja para a qual Fredrica costurava, a Richard’s Fashion. E foi a Sra.

Burdine quem lhe deu o antigo endereço da Sra. Lippman, aquele edifício que vimos.

Starling anuiu com a cabeça.

— Stacy Hubka fora ao local algumas vezes para apanhar Fredrica, mas quem dirigia era o namorado de Stacy, e sua lembrança do endereço era vaga. A Sra. Burdine é que o tinha.

— A Sra. Burdine não mencionou que havia um homem morando na casa da Sra. Lippman?

— Não.

As notícias da televisão apresentavam um filme do Hospital Naval de Bethesda, o rosto da senadora Ruth Martin enquadrado na janela de uma limusine.

— À noite passada Catherine recuperou seu juízo normal. E dorme, agora que está sedada. Tivemos muita sorte. Como já lhe disse, ela ficou em estado de choque, mas perfeitamente lúcida, Sofreu alguns machucados e tem um dedo quebrado. E também está desidratada. Muito obrigada a vocês. — Bateu nas costas do chofer, mandando-o seguir. — Obrigada. Claro, ela mencionou a poodle à noite passada. Não sei o que vamos fazer com ela, já temos dois cachorros.

A reportagem terminou mencionando um especialista em stress que iria ver Catherine Martin naquele dia para avaliar os possíveis danos emocionais.

Crawford desligou a TV.

— Como é que você está encarando as coisas, Starling? — Ando meio sonada.. O senhor também?

Crawford fez que sim com a cabeça e continuou a falar: — A senadora Martin esteve ao telefone a noite inteira. Ela quer ver você. Catherine também, tão logo rece-ba alta. — Bem, estou sempre em casa..

— Krendler também quer vir até aqui. Pediu que devolvêssemos o memorando dele.

— Pensando melhor. . não é sempre que estou em casa. . — Vou dar-lhe um conselho grátis. Use a senadora Martin. Deixe-a expressar o quanto está agradecida, deixe que ela o prove. E o mais depressa possível: gratidão é uma coisa com vida curta. . Você poderá precisar dela um dia destes.

— Exatamente o que Ardelia disse.

— Sua companheira de quarto, a Mapp? O Supe-rintendente da Academia disse que Mapp está decidida a prepará-la para os exames de recuperação de segunda-feira. Ela acaba de passar um ponto e meio à frente de seu arqui-rival, Stringfellow, disse-me ele.

— Para o discurso de formatura?

— É uma dureza, esse Springfel ow, e afirma que Mapp não é páreo para ele.

— É melhor ele se preparar para uma surpresa. .

Na confusão das coisas sobre a mesa de Crawford estava a galinha origami que o Dr. Lecter tinha armado.

Crawford levou a cauda para cima e para baixo; a galinha ficou mexendo com a cabeça.

— Lecter está sendo premiado: é o líder na lista dos

“mais procurados” — comentou Crawford. — Mesmo assim, é capaz de ficar solto um bom tempo. Por falar nisso: você precisa adquirir alguns bons hábitos.

Ela fez que sim com a cabeça.

— Ele agora anda ocupado — prosseguiu Crawford — , mas quando não estiver mais, vai querer divertir-se. Precisamos ser claros num ponto: ele vai querer vin-

gar-se de você, da mesma forma que fará com qualquer outra pessoa, que suponha ter tentado enganá-lo.

— Não creio que ele jamais vá me ameaçar, seria rude e ele não iria ser rude comigo. Mas pode ser que me acerte assim que se aborrecer comigo.

— Repito que você deve adquirir bons hábitos..

Quando sair da Academia, mantenha sempre o berrador consigo. Não aceite perguntas sobre seu paradeiro sem uma identificação positiva. Vou por um sistema de acom-panhamento e alerta no seu telefone, se você não se incomoda. Ele conservará sua privacidade, exceto quando você apertar um botão.

— Não espero que ele me persiga, Sr. Crawford.

— De qualquer modo, você ouviu o que eu lhe disse.

— Ouvi. Ouvi muito bem.

— Leve este depoimento e examine-o. Acrescente o que desejar. Abonaremos sua assinatura assim que tiver terminado. Starling estou orgulhoso de você. Brigham também está. E o Diretor também. — A declaração soou formal, não como ele gostaria que soasse Acompanhou-a até a porta do escritório. Ela foi se afastando pelo corredor deserto. Apesar da dor que o acabrunhava, consegui fazer-lhe um aceno alegre.

— Starling: seu pai está vendo você.

CAPÍTULO 59

Jame Gumb ficou nos noticiários durante semanas depois de ter encontrado seu repouso final.

Os repórteres reconstruíram sua história, começando com os registros do condado de Sacramento.

Sua mãe estava grávida de um mês quando não conseguiu classificar-se no concurso de Miss Sacramento em 1948. O “Jame” na sua certidão de idade fora aparentemente um erro do funcionário do registro civil, que ninguém se preocupou em corrigir.

Não alcançando sucesso na carreira de atriz, a mãe dele entrou num declive alcoólico; Gumb tinha dois anos quando o condado de Los Angeles o colocou num lar de adoção.

Pelo menos dois jornais especializados explicaram que essa infeliz infância era a razão pela qual ele matava mulheres no seu porão para tirar-lhes as peles. As palavras louco e mau não apareceram em qualquer dos dois artigos.

O filme do concurso de beleza que Jame Gumb via sempre quando adulto era verdadeiramente de sua mãe, mas a mulher no filme da piscina não era ela, conforme revelou uma comparação de medidas.

Os avós de Gumb retiraram-no de um lar adotivo insatisfatório quando tinha dez anos e ele os matou dois anos mais tarde.

A Escola de Reabilitação Vocacional de Tulare ensinou Gumb a ser alfaiate durante seus anos no Hospital Psiquiátrico. Ele demonstrou decidida capacidade para a profissão.

O registro de empregos de Gumb é descontínuo e incompleto. Os repórteres escreveram que ele servira em pelo menos dois restaurantes e que trabalhara esporadi-camente na indústria de roupas. Não foi provado que ele matou durante esse período, mas Benjamin Raspail afirmou que sim.

Trabalhava na loja de curiosidades onde eram feitos ornamentos com borboletas quando conheceu Raspail e viveu à custa do músico por algum tempo. Foi nessa ocasião que Gumb ficou obcecado por mariposas e borboletas e por suas metamorfoses.

Depois que o músico o deixou, Gumb matou o no-vo amante de Raspail, Klaus, decapitou-o e esfolou-o parcialmente. Mais tarde encontrou com Raspail na Costa Leste. Sempre atraído por rapazes maus, Raspail apresentou-o ao Dr. Lecter.

Isto foi provado quando, uma semana depois da morte de Gumb, o FBI requisitou do parente mais próximo de Raspail os teipes das sessões de terapia do músico com o Dr. Lecter.

Anos atrás, quando o Dr. Lecter foi declarado louco, os teipes das sessões de terapia foram entregues às famílias das vítimas para serem destruídos. Contudo, os bri-guentos parentes de Raspail guardaram os teipes, esperando poder usá-los para anular seu testamento. Haviam perdido o interesse em ouvir as fitas iniciais, que eram apenas cansativas reminiscências escolares de Raspail. Após a cobertura pela imprensa do caso Jame Gumb, a família Raspail ouviu o resto. Quando os parentes telefonaram ao advogado Everett Yow e o ameaçaram de usar os teipes num novo ataque ao testamento de Raspail, Yow telefonou para Clarice Starling.

Os teipes incluíam a sessão final, quando Lecter matou Raspail. Mais importante ainda: revelam tudo quanto Raspail contara a Lecter sobre Jame Gumb.

Raspail disse a Lecter que Gumb era obcecado por mariposas, que tinha esfolado pessoas, que matara Klaus, que tinha um emprego na companhia de roupas de couro Mr. Hide em Calumet City, mas estava extorquindo dinheiro de uma velha senhora em Belvedere, Ohio, que fazia forros para as roupas de Mr. Hide S.A. Um dia Gumb iria roubar tudo o que a velha senhora tinha, prog-nosticou Raspail.

— Quando Lecter soube que a primeira vítima era de Belvedere e que fora esfolada, ele descobriu logo quem o estava fazendo — disse Crawford a Starling enquanto escutavam juntos o teipe. Ele teria entregue Gumb a você e pareceria um gênio se Chilton não se tivesse metido.

— Lecter deu-me uma pista escrevendo na pasta do arquivo que os locais onde apareciam as vitimas eram “ao azar” demais observou Starling. — E em Memphis ele me perguntou se eu costurava. O que queria ele, afinal?

— Apenas divertir-se — respondeu Crawford. —

Ele tem estado a se divertir por muito, muito tempo.

Não apareceu nenhuma fita sobre Jame Gumb, e suas atividades após a morte de Raspail foram estabelecidas pouco a pouco através de correspondência sobre negócios, recibos de gasolina, entrevistas com donos de butiques. Quando a Sra. Lippman morreu, numa viagem para a Flórida com Gumb, ele herdou tudo: o velho edifício com sua parte habitável, uma fileira de lojas vazias, um vasto porão e boa quantidade de dinheiro. Deixou de trabalhar para Mr. Hide S.A., mas manteve um apartamento

em Calumet City por algum tempo; e usava o endereço do negócio para receber pacotes em nome de John Grant.

Tinha uns poucos clientes preferenciais e continuava a viajar para butiques por todo o pais, como fazia para Mr.

Hide S.A., tomando medidas para roupas que confeccio-nava em Belvedere. Aproveitava suas viagens para procurar vítimas e para livrar-se delas depois de usá-las. O furgão marrom roncava horas a fio pelas estradas interestaduais com roupas de couro bem acabadas balançando em cabides na parte traseira, por cima de sacos estofados com borracha para corpos que viajavam no chão do veículo.

Tinha ainda a maravilhosa liberdade do porão. Espaço para trabalhar e para divertir-se. A principio eram apenas jogos: perseguindo mulheres jovens através da sombria prisão, criando divertidos quadros em quartos afastados e cerrando-os, abrindo as portas unicamente para jogar um pouco de cal.

Fredrica Bimmel começou a ajudar a Sra. Lippman no último ano da vida da velha costureira. Fredrica fora apanhar trabalho na casa da Sra. Lippman quando conheceu Jame Gumb. Fredrica não foi a primeira jovem mulher que ele matou, mas foi a primeira que matou por causa da pele.

As cartas de Fredrica Bimmel para Gumb foram encontradas entre as coisas dele.

Starling mal conseguiu ler as cartas, por causa da vã esperança nelas contidas, por causa da terrível necessidade que percebia nelas, por causa das palavras carinhosas de Gumb que ficavam implícitas nas respostas dela: “Meu Muito Querido Amigo Secreto do Meu Coração, eu te amo! Nunca pensei que viria a dizer isso, e o melhor de tudo é dizê-lo de novo!”.

Quando teria Gumb se revelado a ela? Teria Fredrica descoberto o porão? Como se alterara sua fisionomia ao vê-lo mudar, por quanto tempo a mantivera viva?

Pior que tudo: Fredrica e Gumb foram realmente amigos até o final; do fundo do poço ela escreveu-lhe uma nota. Os tablóides trocaram o apelido de Gumb para Mr.

Hide, e aborrecidos porque não haviam pensado no nome por si mesmos, virtualmente recomeçaram com toda a história.

Em segurança no interior de Quântico, Starling não tinha que haver-se com a imprensa, mas os tablóides cui-daram dela.

O National Tattler comprou do Dr. Frederick Chilton os teipes da entrevista de Starling com o Dr. Hannibal Lecter. O Tattler utilizou-se de suas conversas para a série Noiva de Drácula, dando a entender que Starling fizera cruas revelações sexuais ao Dr. Lecter em troca das suas informações, e chegou a fazer uma oferta a Starling para Velvet Talks: O Jornal de Sexo pelo Telefone.

A revista People publicou um artigo curto e agradável sobre Starling, usando fotografias do anuário da Universidade de Virginia e do Lar Luterano em Bozeman. A melhor foto era a do cavalo, Hannah, em seus últimos anos, puxando uma carroça cheia de crianças.

Starling cortou a foto de Hannah e a pôs na sua carteira. Foi a única coisa que guardou.

Suas feridas estavam cicatrizando.

CAPÍTULO 60

Ardelia Mapp era uma grande professora — podia detectar uma pergunta para um teste numa conferência mais depressa do que um leopardo pode enxergar sua presa —, mas não era boa corredora. Ela dizia a Starling que ocorria porque ela estava muito sobrecarregada de fatos.

Ficara para trás de Starling na pista de cooper e só a alcançou junto ao velho DC-6 que o FBI usava para simulações de seqüestros. Era domingo de manhã, ambas tinham estado agarradas aos livros por dois dias, e o pálido sol era um prazer.

— Afinal, o que foi que Pilcher disse ao telefone?

— perguntou Mapp, encostando no trem de aterrissagem.

— Ele e a irmã têm um lugar na baía de Chesapeake. — Sim, e daí?

— A irmã está lá com os cachorros e as crianças, e talvez também com o marido dela.

— E daí?

— Eles ocupam uma das alas da casa, é um casarão velho à beira d’água que herdaram da avó.

— Vamos ao assunto.

— Pilcher é dono da outra ala da casa. E nos convida para ir lá no próximo fim de semana. São muitos quartos, ele assegura.

“Tantos quartos quantos se possa necessitar.” Acho que foi isso que ele disse. A irmã ficou de telefonar e confirmar o convite.

— Não brinca. . Eu não sabia que as pessoas ainda faziam isso...

— Ele diz que é bom cozinheiro. E a irmã confirma. — Oh! Então ela já telefonou.

— Sim.

— Que tal lhe pareceu?

— O.K. Parecia que ela estava no outro lado da ca-sa.

— O que você lhe respondeu?

— Respondi: “Sim, muito obrigada, muito obrigada”, foi o que eu respondi.

— Muito bem — disse Mapp. — Creio que será bom. Vamos comer alguns siris. Pegar Pilcher e dar-lhe umas beijocas no rosto, isso divertir-nos!

— Ele descreveu um belo cenário: nada de cerimô-nias, agasalhe-se bem e vá passear na praia, volte para casa e à sua espera há um belo fogo de lareira, cães pulando por cima de você com as patas cheias de areia.

— Muito poético, ai-ai! Grande patas sujas de areia.

Continue.

— É muita bondade da parte dele, considerando que nunca ti vemos nem mesmo um encontro. Ele diz que se dorme melhor com dois ou três cães dos grandes quando faz realmente frio. Diz que há cães suficientes para ca-da pessoa dispor de uns dois.

— Pilcher está preparando você para o velho golpe do conforto e paz de espírito, você já percebeu isso, não?

Í

CAPÍTULO 61

Ao longo de um espesso tapete no corredor do Marcus Hotel, o garçom de serviço nos quartos empurrava um carrinho.

Diante da suíte 91 ele parou e bateu suavemente na porta com a mão enluvada. Inclinou a cabeça para o lado e bateu de novo com mais força para ser ouvido acima da música que soava no aposento — Bach, Invenções de du-as e três partes, Glenn Gould ao piano.

— Entre.

O cavalheiro com a atadura em cima do nariz, vestido com um robe, escrevia em sua mesa.

— Ponha ao lado da janela. Posso olhar o vinho?

O garçom trouxe o vinho. O cavalheiro examinou-o contra a luz da sua lâmpada de mesa e encostou no rosto a parte superior da garrafa.

-— Abra-a, mas deixe-a fora do gelo — disse, e autorizou uma generosa gorjeta embaixo da nota. — Não vou prová-lo agora.

Não queria que o garçom lhe servisse o vinho para provar achava o cheiro da pulseira do relógio do homem desagradável.

O Dr. Lecter estava de excelente humor. Sua semana fora excelente. Sua aparência vinha melhorando e, tão logo algumas pequenas manchas desaparecessem, poderia tirar as ataduras e posar para as fotos de um passaporte.

O trabalho estava sendo feito por ele mesmo: pequenas injeções de silicone no nariz. A gelatina de silicone não era um item que exigisse receita médica, mas a parte injetável e a novocaína eram. Contornou essa dificuldade

roubando uma receita numa movimentada farmácia próxima ao hospital. Apagou os garranchos do médico com fluido de correção de datilógrafa e fez cópias fotostáticas da receita em branco. A primeira receita que preencheu, uma cópia da que roubara, foi devolvida à farmácia, de modo que nada ficou faltando.

O efeito do nariz de silicone sobre os seus traços não era agradável, e ele sabia que o silicone se deslocaria se não tomasse cuidado, mas aquele serviço serviria até que ele chegasse ao Rio.

Quando seus hobbies começaram a absorvê-lo —

muito antes da sua primeira prisão — o Dr. Lecter fizera provisões para uma época em que poderia tornar-se um fugitivo. Na parede de uma cabana de férias no rio Sus-quehanna escondera dinheiro e credenciais de outra identidade, incluindo um passaporte e os cosméticos que usara para tirar as fotos para o passaporte. Este, já estava venci-do, mas podia ser renovado rapidamente.

Preferindo ser guiado através da alfândega com uma grande placa de turista sobre o peito, já se havia ins-crito para um tour que tinha um nome horrível: “Esplen-dor da América do Sul”, que o levaria até o Rio.

Lembrou-se de que seria melhor assinar um cheque do falecido Lloyd Wyman para pagar a conta do hotel e ganhar uns cinco dias de folga enquanto o cheque era processado no banco, em vez de mandar um débito da American Express direto para o computador.

Nessa noite ele estava pondo em dia a correspondência, a qual teria que enviar através de um serviço de reenvio em Londres.

Primeiro mandou a Barney uma generosa gratificação e uma nota de agradecimento por suas muitas gentile-

zas no hospital-prisão. A seguir fez um bilhete para o Dr.

Chilton, que estava sob custódia federal, sugerindo que iria fazer-lhe uma visita em futuro próximo. Depois dessa visita, escreveu, faria sentido o hospital tatuar na testa do Dr. Chilton instruções para alimentá-lo, a fim de economizar papel..

Por fim, serviu-se de um copo do excelente Batard-Montrachet e endereçou uma carta a Clarice Starling: Bem, Clarice, as ovelhas pararam de balir? Você ainda me deve uma informação, como bem sabe, e isso é o que eu gostaria que você fizesse.

Um anúncio na edição nacional do Times e no International Herald Tribune no primeiro dia de qualquer mês será ótimo. É melhor publicá-lo também no China Mail. Não ficarei surpreso se a resposta for sim e não.

Por enquanto as ovelhas vão ficar quietas. Mas, Clarice, você se julga com toda a piedade das balanças da masmorra em Threave; você terá que aprender de novo e de novo, o abençoado silêncio. Porque ele é o compromisso que guia você, enxergar o compromisso, e o compromisso jamais acabará, jamais.

Não faço planos de procurá-la, Clarice, o mundo fi-ca mais interessante com você dentro dele. Certifique-se de estender-me a mesma cortesia.

O Dr. Lecter encostou a caneta nos lábios, olhou para o céu escuro da noite e sorriu.

Tenho janelas.

Órion agora está acima do horizonte e, próximo a ele, Júpiter, mais brilhante do que jamais será de novo antes do ano 2000. (Não tenho a intenção de dizer-lhe que

horas são e qual é a sua altura. .) Mas espero que você também possa vê-lo. Algumas de nossas estrelas são as mesmas, Clarice.

Hannibal Lecter Muito para leste, nas costas da baía de Chesapeake, Órion estava alto na noite clara, por cima de uma casa antiga e grande e de um quarto onde o fogo fora abafado para a noite, sua luz bruxuleante soprada pelo vento acima da chaminé. No grande leito existem muitos cobertores e, sobre eles e por baixo deles, vários cães grandes. Volumes adicionais por baixo dos cobertores podem ser ou podem não ser Noble Pilcher, é impossível determinar com a luz ambiente. Mas o rosto sobre o travesseiro, rosado pela luz da lareira, é certamente o de Clarice Starling, e ela dorme profundamente, no silêncio das ovelhas.

Em sua nota de condolências para Jack Crawford, o Dr. Lecter faz uma citação de “The Fever” sem incomodar-se de dar o crédito a John Dorme.

A memória de Clarice Starling altera linhas de T.S.

Eliot em “Ash-Wednesday” para sua própria satisfação.

T.H.

 

Digitalização/Revisão: Yuna

Você terminou O Silêncio dos Inocentes

Thomas Harris

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