O Silêncio dos Inocentes

Thomas Harris · Capítulo 3 de 3 · parte 3/4

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O Silêncio dos Inocentes

Capítulo 2

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— Ela foi de ônibus a Columbus para ver um emprego numa loja de lá. A polícia disse que Fredrica foi en-trevistada normalmente, mas ela nunca voltou para casa.

Não sabemos onde mais ela foi naquele dia. O FBI tem os canhotos do seu cartão Master Charge, mas naquele dia ela não o usou. Você já sabe disso tudo, não sabe?

— Sobre o cartão de crédito, sim. O senhor guardou as coisas de Fredrica, Sr. Bimmel? Elas estão aqui?

— O quarto dela fica na parte superior da casa.

— Posso vê-lo?

Ele demorou um pouco para se decidir a largar o martelo:

— Muito bem! Venha comigo.

CAPÍTULO 51

O escritório de Jack Crawford no quartel-general do FBI, em Washington, era pintado num cinza triste, mas tinha grandes janelas.

Crawford estava de pé diante de uma dessas janelas com sua prancheta voltada para a luz, examinando uma lista com péssima impressão pontilhada de uma máquina que ele já dissera que deveria ser jogada no lixo.

Viera para ali diretamente da casa funerária e trabalhara toda a manhã, apertando os noruegueses para apres-sarem seus registros dentais do marinheiro desaparecido chamado Klaus, insistindo com o pessoal de San Diego para investigarem as relações intimas de Benjamin Raspail no conservatório onde ele ensinara, e cobrando da Alfândega o que deveria estar apurando sobre importação de insetos vivos.

Cinco minutos depois da chegada de Crawford, o assistente do diretor do FBI, John Golby, à testa do novo grupo de trabalho cooperativo, enfiou a cabeça no escritório por um momento para dizer:

— Jack, estamos todos pensando em você; todo mundo aprecia o fato de você ter vindo trabalhar. O serviço de funeral já foi acertado?

— O velório é amanhã à noite e o serviço fúnebre às onze horas de sábado.

Golby balançou a cabeça

— Vamos fazer uma doação em memória dela à UNICEF, sob a forma de um fundo. Você deseja que se chame Phyllis ou Bella? Daremos ao fundo o nome que você quiser.

— Bel a, John. Será o Fundo Bel a.

— Posso fazer mais alguma coisa por você, Jack?

Crawford sacudiu a cabeça negativamente.

— Estou trabalhando e só quero continuar a trabalhar. — Muito bem — aprovou Golby. Ficou algum tempo em silêncio. Depois: — Frederick Chilton pediu custódia e proteção federal.

— Interessante. John, alguém em Baltimore falou com Everett Yow, o advogado de Raspail? Já o mencionei a você; ele pode ter alguma informação sobre os amigos de Raspail.

— Sim, estão tratando disso esta manhã. Acabei de mandar um memorando sobre o assunto a Burroughs. O

diretor está colocando Lecter na lista dos “mais procurados”. Jack, se você precisar de alguma coisa. . — Golby ergueu as sobrancelhas, acenou com a mão e recuou para fora da sala.

— Se você precisar de alguma coisa. .

Crawford voltou-se de novo para as janelas. Ele tinha um belo panorama para olhar. Em frente ficava o antigo e suntuoso edifício dos Correios, onde fizera parte do seu treinamento. A esquerda ficava o velho quartel-general do FBI. Ao se formar, desfilara diante do escritório de J.

Edgard Hoover com os outros. Hoover, de pé numa pequena plataforma, apertou-lhes as mãos um por um. Essa foi a única ocasião em que Crawford encontrara com o homem. E no dia seguinte casou-se com Bella.

Eles se haviam encontrado em Livorno, na Itália.

Crawford estava no exército, ela no escritório da OTAN, e então chamava-se Phyllis. Passeavam um dia pelo cais e um barqueiro, do meio da água cintilante, chamou-a “Bel-

la”. Depois disse ela sempre fora Bella. Ele só a chamava de Phyl is quando tinham uma rusga.

Bella está morta, e isso deveria afetar o panorama visto daquelas janelas. Não era justo que a vista permane-cesse a mesma. Por que tivera ela que morrer? Jesus Cristo! Eu sabia que ia acontecer, mas dói muito!

O que dizem acerca de aposentadoria forçada aos 55 anos? Você se apaixona pelo FBI, mas ele não se apaixona por você. Ele já constatara isso.

Graças a Deus, Bella o salvara disso. Esperava que ela estivesse agora em algum lugar, e que houvesse finalmente encontrado a paz. Gostaria que ela pudesse ver o que se passava no seu coração.

O fone estava dando o sinal de chamada inter-escritórios.

— Sr. Crawford, é um Dr. Danielson, de...

— Está bem. — Acionou o botão. — Aqui é Jack Crawford, doutor.

— Esta linha é segura, Sr. Crawford?

— Sim. Deste lado, é.

— O senhor não está gravando, está?

— Não, Dr. Danielson. Diga-me o que pretende.

— Quero tornar claro que isto não se relaciona com uma pessoa que tenha sido tratada na Johns Hopkins. — Entendido.

— Se disso resultar algum problema, desejo que o senhor torne claro para o público que ele não é transexual, que nada tem ver com esta instituição.

— Muito bem. O senhor está certo. Absolutamente. — Vamos seu filho da puta emproado, desembucha!

Crawford estava a ponto de explodir.

— Ele derrubou o Dr. Purvis no chão.

— Quem, Dr. Danielson?

— Ele apelou para o programa há três anos sob o nome de John Grant, de Harrisburg, Pensilvânia.

— Descreva-o.

— Caucasiano, 31 anos. Um metro e 83 centímetros, 86 quilos. Veio para ser testado e saiu-se muito bem na escala de inteligência de Wechsler — muito normal — , mas os testes psicológico e as entrevistas foram outra história. De fato, o teste Casa-Árvore Pessoa e seu TAT che-caram perfeitamente com a folha que o senhor me deu. O

senhor me fez entender que Alan Bloom era o autor daquela teoriazinha, mas o autor verdadeiro foi o Dr. Hannibal Lecter, não foi?

— Continue com Grant, doutor.

— O conselho iria rejeitá-lo de qualquer maneira, mas na hora que nos reunimos para discutir a questão foi encerrada porque as investigações sobre sua vida pregressa o condenaram.

— Condenaram-no como?

— É rotina checarmos a vida do requerente na polícia da sua cidade. A polícia de Harrisburg estava a procurá-lo por dois atentados contra homossexuais. O último quase morreu. Ele nos dera o endereço que verificamos ser de uma pensão na qual se hospeda de vez em quando.

A polícia apanhou lá as suas impressões digitais uma nota de cartão de crédito pela compra de gasolina com o número da licença dele. O nome não era John Grant, como ele nos informara. Cerca de uma semana mais tarde, despeita-do, ele esperou diante do nosso prédio e atacou o Dr.

Purvis, jogando-o no chão.

— Qual é o nome dele, Dr. Danielson?

— É melhor que eu soletre: J-A-M-E G-U-M-B.

CAPÍTULO 52

A casa de Fredrica Bimmel tinha três andares, e era lúgubre e coberta por placas de papelão asfaltado manchadas de ferrugem onde existiam goteiras. Mudas de olmos que haviam crescido nas calhas tinham resistido muito bem ao inverno. As janelas do lado norte estavam cobertas com folhas de plástico.

Numa pequena sala de estar, muito abafada devido a um aquecedor de ambiente, uma mulher de meia-idade, sentada sobre um tapete, brincava com uma criança.

— Minha mulher — apresentou Bimmel quando passaram pela sala. — Nós nos casamos no Natal.

— Alô — fez Starling. A mulher sorriu vagamente para ela.

No corredor voltou a fazer frio e por todo lado vi-am-se caixas empilhadas até a altura do peito, enchendo os cômodos, com passagens entre elas; caixas de papelão contendo cúpulas de abajures, latas de conservas, cestos de piquenique, números atrasados do Reader’s Digest e do National Geographic, velhas raquetes de tênis, roupa de cama, uma caixa de alvos para arco e flecha, capas de assentos de carro num padrão dos anos 50. No ar, um intenso cheiro de urina de ratos.

— Vamos nos mudar muito em breve — comentou o Sr. Bimmel.

Os objetos perto das janelas estavam desbotados pelo sol, as caixas pareciam empilhadas há anos, estufadas pelo tempo, os tapetes desgastados e sem pêlos.

A luz do sol batia no corrimão quando Starling gal-gou as escadas atrás do pai de Fredrica. A roupa do ho-

mem cheirava a mofo no ar frio. Ela podia ver a luz do sol atravessando uma clarabóia no topo da escadaria. As caixas de papelão amontoadas no patamar estavam cobertas de plástico.

O quarto de Fredrica era pequeno, e ficava debaixo da beirada do telhado no terceiro andar.

— Você ainda precisa de mim?

— Mais tarde eu gostaria de conversar com o senhor, Sr. Bimmel. E a mãe de Fredrica? — A pasta dizia

“falecida”, mas não dizia quando.

— O que a senhora quer dizer com isso? Ela morreu quando Fredrica tinha 12 anos.

— Entendi.

— A senhora pensou que a mulher lá embaixo era a mãe de Fredrica? Depois que eu lhe disse que estou casado apenas desde o Natal? Foi isso que a senhora pensou?

Acho que a lei está acostumada a lidar com uma classe diferente de pessoas, minha senhora. Minha atual mulher não chegou a conhecer Fredrica.

— Sr. Bimmel, o quarto está mais ou menos como Fredrica o deixou?

A raiva abandonou-o tão rápido como havia se apossado dele.

— Sim — disse ele brandamente. — Nós o con-servamos como estava. A roupa dela não servia para ninguém. Ligue o aquecedor, se desejar. Lembre-se de desli-gá-lo da tomada quando descer.

Ele não quis ver o quarto; deixou-a no patamar da escada. Starling ficou por um momento com a mão na fria maçaneta de porcelana. Precisava organizar-se um pouco antes de encher a cabeça com as coisas de Fredrica.

O.K. A premissa é que Buffalo Bil matou primeiro Fredrica, pós pesos nas suas pernas e escondeu-a bem, num rio distante da sua casa. Escondeu-a melhor do que às outras — ela foi a única que levou lastro para afundar

— porque ele queria que a seguinte fosse encontrada primeiro. Queria que a idéia de uma escolha ao azar, em cidades muito espalhadas, ficasse bem estabelecida antes que Fredrica, de Belvedere, fosse encontrada. Era importante afastar a atenção de Belvedere. Porque ele vive aqui, ou talvez em Columbus.

Ele começou com Fredrica porque ambicionava a pele dela. Nós não começamos a ambicionar coisas imagi-nadas. A ambição é um pecado muito material. Começamos a ambicionar coisas tangíveis, começamos com o que vemos talos os dias. Ele via Fredrica no curso de sua vida cotidiano. Ele a via no curso da vida diária de Fredrica.

Qual era o curso da vida diária de Fredrica? Ora vejamos... Starling abriu a porta. Aqui vivia ela, neste quarto vazio cheirando a mofo. Na parede, um calendário do ano anterior para sempre mostrando abril. Fredrica estava morta havia dez meses.

Comida de gato, dura e negra, em um pires num canto. Starling, que era veterana decoradora e comprava tecidos a metro em liquidações, ficou no centro do quarto e foi olhando vagarosamente em volta. Fredrica tinha feito um bom serviço com o que dispunha. Havia cortinas de chintz florido. A julgar pelas costuras das bordas, ela havia reciclado algumas colchas para fazer cortinas.

Na parede, um quadro de avisos com uma faixa presa. Na faixa estava pintado com tinta brilhante: Banda

do Ginásio de Belvede e um pôster da artista Madonna na parte fronteira e outro de Deborah Harry e Blondie. Nu-ma prateleira sobre a escrivaninha, Starling pôde ver um rolo do claro papel auto-adesivo que Fredrica tinha usado para cobrir as paredes do quarto. Não era um serviço perfeito de empapelamento, mas estava melhor do que o primeiro esforço que ela mesma fizera, pensou Starling.

Numa casa comum, o quarto de Fredrica seria alegre; nessa casa sem encantos o quarto parecia um grito, soava nele um eco de desespero.

Fredrica não expusera fotos dela no quarto.

Starling encontrou uma no anuário da escola, no pequeno armário de livros. Clube de Canto Glee, Clube do Lar, Clube de Costura, Clube da Terra — talvez os pombos tivessem servido para sua ligação ao Clube da Terra. O anuário da escola de Fredrica tinha alguns autó-grafos: “A uma grande companheira”, “A uma grande pequena”, “A minha colega de química” e “Lembra-se da venda do bolo?”

Será que Fredrica trazia amigas aqui? Teria uma amiga bastante disposta para subir essas escadas cheias de goteiras? Ao lado da porta havia um guarda-chuva.

Olhe para este retrato de Fredrica: ei-la aqui, na primeira fila da banda. Fredrica é grande e gorda, mas o uniforme dela assenta melhor que os das outras. Ela é grande e tem uma bela pele. Seus traços irregulares se combinam para compor um rosto agradável, mas ela não é atraente pelos padrões convencionais.

Kimberly Emberg também não era o que se poderia chamar de bonita, não pelo julgamento irracional do

curso secundário, e também não o eram algumas das outras. Catherine Martin, entretanto, seria atrativa para qualquer um: uma mulher jovem, grande e bonita, que teria de lutar contra a gordura quando chegasse aos trinta anos. Lembre-se: ele não olha uma mulher como um homem o faz. A atração convencional não conta para ele.

Elas têm apenas que ser mágicas e volumosas.

Starling cismava se ele pensava em mulheres como

“peles”, da mesma maneira que alguns cretinos as vêem como “aparelhos para trepar” .

Teve consciência de sua própria mão traçando uma avaliação da foto do anuário, adquiriu a noção de todo o corpo dela, do espaço que ocupava, da sua aparência e suas feições, seu efeito, seu poder, os seios dela sobre o livro, a barriga firme contra ele, as pernas por baixo das dele. Que parte da experiência dela era semelhara à de Fredrica?

Starling olhou-se no espelho de corpo inteiro que ficava na parede lateral e sentiu-se satisfeita por ser diferente de Fredrica. Mas ela sabia que a diferença era uma matriz no seu pensamento. O que poderia impedi-la de enxergar?

Como Fredrica desejava aparecer? Do que tinha fome, onde ela a procurava saciar? O que tentava fazer consigo mesma?

Ali estavam alguns planos de regimes para emagrecer, a Dieta do Suco de Frutas, a Dieta do Arroz, e um plano amalucado segura do o qual você não deve comer e beber na mesma ocasião.

Grupos organizados de regime — será que Buffalo Bil os vigiava para descobrir garotas volumosas? Difícil verificar. Pelo arquivo Starling sabia que duas das vítimas haviam pertencido a grupos de regime e que as listas de sócios tinham sido checadas. Um agente do escritório de Kansas City, o tradicional Bureau dos Gorduchos do FBI, e alguns policiais obesos foram destacados para trabalhar no Sinderella, no Centro de Regime e aderir aos Cuidadosos com o Peso e outros clubes para emagrecer nas cidades das vítimas. Ela não sabia se Catherine pertencia a um grupo de regime. Dinheiro teria sido um problema para Fredrica participar de um programa de regimes, Fredrica tinha vários números de Big Beautiful Girl (Bela garota Grande), uma revista para mulheres avantajadas. Aqui ela recebia o conselho: “Venha para a cidade de Nova York, onde poder: encontrar recém-chegados de partes do mundo onde seu tamanho é considerado digno de prêmio.”

Certo. Alternativamente: “Você poderia viajar para a Itália ou Alemanha, onde não ficará sozinha depois do primeiro dia.” Pode apostar. . “Eis o que fazer se seus dedos dos pés superam as pontas dos sapatos.. ” Jesus! Tudo o que Fredrica precisava era encontrar Buffalo Bill, que considerava o tamanho dela “digno de prêmio”.

Como Fredrica se arranjava? Tinha alguma maquilagem, muitas coisas para a pele. Faz muito bem! Use esta vantagem. Starling descobriu-se torcendo por Fredrica, como se isso agora tivesse qual quer importância.

Possuía algumas jóias de fantasia numa caixa de charutos Whiti Owl; ali estava também um broche redondo folheado a ouro que provavelmente pertencera à falecida sua mãe. Tentara cortar os dedos de algumas velhas

luvas de renda para usá-las ao estilo Madonna, mas elas se haviam esfiapado.

Tinha um toca-discos simples marca Decca, dos anos 50, com um canivete preso ao braço da agulha com tiras de borracha para fazer peso. Discos de liquidação.

Velhos temas de amor por Zamfir, Mestre da Flauta de Pá. Quando puxou a cordinha da lâmpada para iluminar o closet, Starling ficou surpresa com o guarda-roupa de Fredrica. Ela possuía boas roupas, não muitas, mas o bastante para a escola, o bastante para trabalhar num escritório relativamente formal ou mesmo numa loja elegante. Uma rápida inspeção das roupas e Starling viu por quê: Fredrica fazia suas próprias roupas e fazia-as bem, as costuras tinham um belo acabamento e os apliques eram cuidadosamente adaptados. Pilhas de moldes encontravam-se numa prateleira no fundo do closet; a maior parte deles eram da Simplicity, mas havia alguns da Vogue que pareciam difíceis.

Ela provavelmente vestira o que tinha de melhor para a entrevista do emprego. O que teria usado? Starling deu uma olhada na sua pasta. Lá estava: vista pela última vez usando um conjunto verde. Ora bolas, policial, que diabos é um “conjunto verde”?

Fredrica sofria do calcanhar-de-aquiles de um guarda-roupa econômico — possuía poucos sapatos — e, com seu peso, gastava muito os sapatos que tinha. Os mais folgados já eram ovais. Ela usava um produto para evitar o mau cheiro nas sandálias. Os orifícios dos cordões estavam alargados nos seus sapatos de maior uso.

Talvez Fredrica fizesse um pouco de exercício —

tinha algumas malhas de tamanho grande.

Eram feitas por Juno.

Catherine Martin também tinha algumas malhas pa-ra as pernas, destinadas a combater a gordura, feitas por Juno. Starling saiu do closet. Sentou-se ao pé da cama com os braços cruzados e ficou olhando o closet iluminado. Juno era uma marca comum, vendida em muitos lugares que negociam especialmente tamanhos grandes, mas sempre era uma pista sobre as roupas. Qualquer cidade de tamanho regular tem pelo menos uma loja especializada em roupas para pessoas gordas.

Será que Buffalo Bill vigiava tais lojas, escolhia uma freguesa e a seguia?

Será que ia a essas lojas de roupas grandes, vestido como mulher, para dar uma olhada? Toda loja para pessoas gordas tem travestis como clientes.

A idéia de Buffalo Bill tentando transformar-se sexualmente fora introduzida na investigação muito recentemente, desde que o Dr. Lecter expusera sua teoria a Starling. E quanto às roupas dele?

Todas as suas vítimas deveriam fazer compras em lojas de gente gorda — Catherine Martin vestiria um manequim 12, mas as outras não poderiam, e Catherine deve ter feito compras numa loja dessas para adquirir suas grandes malhas Juno.

Catherine poderia usar manequim 12; ela era a menor das vítimas, Fredrica, a primeira, era a maior. Por que estaria Buffalo Bil se contentando com um tamanho menor ao escolher Catherine Martin? Ela possuía seios bastante volumosos, mas não era tão gorda assim. Teria ele próprio perdido peso? Teria aderido recentemente a um

grupo de regime? Kimberly Emberg ficava mais ou menos numa média: grande, mas com uma cintura bem marcada. . Starling evitara especificamente lembrar-se de Kimberly Emberg, mas agora sua memória tomou conta dela por um segundo. Starling via Kimberly na mesa de mármore em Potter. Buffalo Bil não ligara para suas pernas depiladas a cera, suas unhas tão pintadas com esmalte brilhante; olhara para o peito chato de Kimberly, viu que não lhe servia, pegou sua pistola e desenhou nele uma es-trelado-mar.

A porta do quarto abriu-se alguns centímetros, Starling sentiu o movimento em seu coração antes de saber o que era. Um gato entrou no quarto, um grande gato cinzento com um olho dourado e o outro azul. Pulou em cima da cama e esfregou-se nela. Procurando Fredrica.

Solidão. Grandes moças solitárias tentando satisfazer alguém.

A polícia eliminara clubes de corações solitários desde cedo. Teria Buffalo Bil outro modo de tirar vantagem da solidão? Só a ambição nos torna mais vulneráveis do que a solidão.

A solidão poderia ter permitido a Buffalo Bill uma abertura com Fredrica, mas não com Catherine. Catherine não era solitária.

Kimberly era solitária. Não comece a pensar nela.

Kimberly, obediente e relaxada depois de passado o rigor mortis, sendo rolada na mesa do necrotério para que Starling pudesse tirar-lhe as impressões digitais. Pare com isto.

Não posso parar. Kimberly solitária, ansiosa para agradar, teria alguma vez rolado obediente para alguém apenas pa-ra sentir o coração dele bater contra suas costas? Ela ima-

ginava se Kimberly tinha sentido uma barba roçando suas omoplatas.

Olhando para o closet iluminado, Starling lembrou-se das gordas espáduas de Kimberly, os pedaços triangulares de pele faltando nos seus ombros.

Olhando para o interior do closet iluminado, Starling viu os moldes, estavam ali provavelmente os de agrado de Fredrica.

Ela viu Kimberly marcados nos riscos azuis de um dele e uma idéia foi se desfazendo, circulou, e voltou perto dessa vez para ela agarrá-la e ela entendeu: SÃO REMENDOS — ELE TIROU A PELE PARA FAZER

EMENDAS DE FORMA DA SUA CINTURA. O FILHO DA PUTA DO BUFFALO BILL É BEM TREINADO EM NÃO SE LIMITA A

COMPRAR COISAS, A VESTIR! ELE AA CONFECCIONA.

O que disse o Dr. Lecter? “Ele está confeccionan-do uma roupa feita de moças verdadeiras.” O que me disse ele? “Você costura, Clarice?” Claro que eu costuro!

Starling inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos por um segundo. A solução do problema é uma caçada; é um prazer selvagem e nascemos para caçar.

Ela vira um telefone ao entrar. Começou a descer a escada para usá-lo, mas a Sra. Bimmel, com sua voz de taquara rachada, já a estava chamando para atender ao aparelho.

CAPÍTULO 53

A Sra. Bimmel passou o aparelho a Starling e pegou o bebê que choramingava. Não saiu da sala.

— Clarice Starling.

— Aqui é Jerry Burroughs, Starling. .

— Bom. Agora ouça, Jerry, cheguei à conclusão de que Buffalo Bil sabe costurar. Ele cortou os triângulos..

um momento... Sra. Bimmel, posso pedir-lhe para levar o bebê à cozinha? Estou precisando falar e ele atrapalha.

Obrigada. Jerry, ele sabe costurar. Ele tirou. .

— Starling. .

— Ele tirou aqueles triângulos de Kimberly Emberg para fazer remendos, remendos de costureira, você sabe o que estou falando? Ele é um perito, não está fazendo apenas costura de homem das cavernas. A seção de identificação pode pesquisar Criminosos Conhecidos para localizar alfaiates, homens que fazem velas, cortinas, esto-famentos — dê uma espiada em Marcas Distintivas à procura de “dente de alfaiate” na descrição dos dentes..

— Certo, certo, certo. . Estou procurando fazer uma ligação com a ID. Agora escute um pouco: eu talvez tenha que deixar o telefone. Jack queria que eu lhe informasse. Obtivemos um nome e um lugar que não parecem inviáveis. O Grupo de Resgate de Reféns já saiu voando do campo Andrews. Jack está instruindo-os pelo rádio.

— Indo para onde?

— Calumet City, pertinho de Chicago. O nome do sujeito é Jame, pronunciado como “narre”, mas um J, o segundo nome é Gumb. É conhecido também como John Grant, branco, 34 anos, 86 quilos, cabelos castanhos, o-

lhos azuis. Jack recebeu uma dica da Johns Hopkins. A coisa que você descobriu — sua informação de que ele tem um perfil que seria diferente do de um transexual a-guçou os ouvidos do pessoal na Johns Hopkins. Esse cara solicitou uma mudança de sexo há três anos. Agrediu um doutor quando o rejeitaram. A Hopkins tinha o falso no-me Grant e um endereço fictício em Harrisburg, Pensilvânia. Os tiras encontraram um recibo de gasolina com sua licença e partiram dai. Foi um monstrinho na Califórnia como delinqüente juvenil — matou os avós e ficou inter-nado na prisão psiquiátrica de Tulare por seis anos. O estado o pôs em liberdade há dezesseis anos, quando fecharam o asilo. Ele desapareceu um longo tempo. Gosta de espancar bichas. Teve alguns incidentes em Harrisburg e desapareceu de novo.

— Chicago, você disse. Como chegaram a Chicago?

— Pela alfândega. Eles tinham alguns papéis em nome do suposto John Grant. Há uns dois anos a alfândega interceptou uma mala no aeroporto de Los Angeles que fora embarcada do Suriname com pupas vivas — é assim que se diz? De qualquer maneira, são insetos, mariposas. O destinatário era John Grant, aos cuidados de um negócio em Calumet chamado — ouça isto — “Mr. Hi-de”. Artigos de couro. Talvez a loja de costura case com isto; estou enviando o detalhe da costura para Chicago e Calumet. Não há ainda nenhum endereço doméstico para Grant ou Gumb. A loja foi fechada, mas estamos chegando perto.

— Têm fotos?

— Apenas as da instituição para delinqüentes juvenis do Departamento de Polícia de Sacramento. Elas não adiantam muito ele tinha doze anos. Parecia-se com Bea-

ver Cleaver. De qualquer maneira, a sala de comunicação está enviando as fotos pelo fax.

— Posso ir até lá?

— Não. Jack disse que você ia pedir isso. . Eles já têm dois delegados mulheres de Chicago e uma enfermeira para cuidar de Martin se chegarem a ela. De qualquer forma, você nunca chegaria a tempo, Starling.

— Que tal se ele se entrincheirar? Poderia ser preciso. . — Não vai haver nenhum impasse. A polícia o encontra e cai em cima dele. Crawford autorizou uma entrada explosiva. O problema especial com este cara, Starling, é que ele já esteve num episódio com reféns antes. Em seus homicídios juvenis, foi cercado numa situação de en-trincheiramento em Sacramento, com sua avó como refém — ele já havia matado o avô — e a coisa foi horrorosa, deixe-me dizer-lhe. Ele foi com ela para fora, diante dos tiras e havia até um pastor falando com ele. Como era um garoto, ninguém atirou nele. O miserável estava atrás da avó e furou-a nos rins. De nada adiantou a assistência médica, nenhum aviso. Martin provavelmente já está morta, mas digamos que vamos ter sorte. Digamos que ele teve uma porção de preocupações na cabeça, uma coisa ou outra, e que ainda não se ocupou dela. Se nos vê chegar, ele a liquida na nossa cara. Só por despeito. Não lhe custa nada, certo? Portanto, se eles o encontraram. . bum!

— derruba-se a porta.

A sala estava quente demais e cheirava a urina de bebê. Burroughs ainda estava falando:

— Estamos procurando ambos os nomes nas listas de assinantes das revistas de entomologia, na União dos

Cuteleiros, entre os criminosos conhecidos, em todo lugar. . Ninguém descansa enquanto isto não terminar. Você está procurando os conhecidos de Bimmel, não é?

— É isso.

— A justiça diz que é um caso difícil de resolver se não se apanha Gumb com a mão na massa. Nós precisamos dele com Martin, ou com alguma coisa que seja iden-tificável — algo com unhas e dentes.. Francamente. Não preciso dizer a você que se ele já se desfez do corpo dela, precisamos de testemunhas para apresentá-lo com uma vitima antes desta. De qualquer maneira, poderemos usar o que você encontrar sobre a Bimmel. . Starling, eu pedi a Deus que isto tivesse acontecido ontem e por outras razões além da garota Martin. Eles chutaram você de Quântico? — Penso que sim. Admitiram alguém que estava esperando a vez por uma exclusão.. foi isto o que me disseram. — Se nós o apanharmos em Chicago, você contri-buiu muito para isso. Eles são uns cabeças-duras em Quântico, como era de supor, mas deviam entender isso.

Espere um minuto.

Starling podia ouvir Burroughs gritando afastado do telefone. Depois ele voltou.

— Bem. . eles podem espalhar-se em Calumet City em 40 a 45 minutos, dependendo do vento lá em cima. A SWAT de Chicago tomará o lugar deles caso o encontrem antes. A Companhia de Força e Luz de Calumet está fornecendo dois ou três endereços possíveis. Starling, procure qualquer coisa que eles possam usar por lá para fechar o cerco. Se você vir algo sobre Calumet ou Chicago, chame logo.

— Sem dúvida.

— Agora escute mais isto, e tenho que ir. Se acontecer, se o pegarmos em Calumet City, você se apresente em Quântico às oito horas da matina, com seu impecável uniforme. Jack vai ao conselho da escola com você. E

também vai o instrutor-chefe de tiro, Brigham. Não custa nada pedir. .

— Jerry, mais uma coisa: Fredrica Bimmel tinha algumas malhas de ginástica feitas por Juno, que é uma marca de roupa para gente gorda. Catherine também tinha algumas, se isso vale alguma coisa. Ele poderia vigiar lojas de gente gorda para encontrar vítimas grandes. Talvez possamos perguntar a Memphis, Akron e outros lugares.

— Entendi. Mantenha seu sorriso!

Starling saiu para o pátio cheio de detritos de Belvedere, Ohio, a mil quilômetros da ação que se desenrola-va em Chicago. O ar frio no seu rasto era agradável. Ela deu um soco no ar, torcendo pelo sucesso do Grupo de Resgate de Reféns. Ao mesmo tempo sentiu um ligeiro tremor no queixo e no rosto. Que diabo era isso? Que diabo poderia fazer se tivesse encontrado alguma coisa?

Ah, teria chamado a cavalaria, o escritório de campo do FBI em Cleveland, a SWAT de Columbus, e a polícia de Belvedere também.

Salvar a jovem, salvar a filha da senadora, foda-se Martin e as que poderiam vir depois dela — na verdade, isso era o que interessava. Se conseguissem, todo mundo estava certo.

Se, porém, não chegassem a tempo, se deparassem com qualquer coisa horrorosa, queira Deus que pelo menos encontrem Buffalo.. encontrem Jame Gumb ou Se-

nhor Hide ou o que quer que se chame aquela maldita coisa.

No entanto, ter chegado tão perto, ter posto a mão na sua anca, ter tido uma boa idéia com um dia de atraso e acabar longe da captura e desligada da escola, tudo aquilo cheirava a derrota. Starling há muito que suspeitava, e se culpava por isso, que a sorte dos Starlings tinha azedado há uns duzentos anos — que tudo o que os Starlings andavam fazendo era vagar às tontas, zangados e confusos no meio das brumas dos tempos. Se você pudesse encontrar a pista do primeiro Starling ela conduziria a um círculo. Essa era a atitude clássica de um perdedor e ela se da-naria se fosse aceitá-la.

Se o agarrassem graças ao perfil que ela arrancara do Dr. Lecter, isso iria ajudá-la no Departamento de Justiça. Starling tinha que pensar um pouco a respeito; as esperanças de uma carreira para ela estavam tortas e evanes-centes como as pernas de um fantasma.

O que quer que acontecesse, a idéia que lhe ocorrera do molde de costura fora tão boa quanto a melhor coisa que ela jamais pensara. Havia muito a explorar aqui. Encontrara coragem na lembrança de sua mãe e também na de seu pai. Conquistara e consolidara a confiança de Crawford. Essas eram as coisas que ela tinha que guardar em sua própria caixa de charutos White Owl.

O serviço dela, seu dever era pensar em Fredrica e descobrir como Gumb se teria apossado dela. Um processo criminal contra Gumb necessitaria de todos os fatos.

Pense em Fredrica, enterrada aqui com toda sua mocidade. Onde ela procuraria por uma saída? Os anseios dela sintonizavam com os de Buffalo Bil ? Isso os atraía um para o outro? Pensamento horrível, o de que ele pu-

desse tê-la compreendido com base em sua própria experiência, até simpatizado com ela, e mesmo assim se servido da sua pele.

Starling chegou até a margem da água.

Quase todo lugar tem um momento, um ângulo e uma intensidade de luz em que o dia aparece com seu melhor aspecto. Quando você está enfiado em algum lugar, descobre esse momento e anseia por ele. Aquele momento, no meio da tarde, era provavelmente a hora do rio Li-clcing atrás da Fell Street. Será que era essa a hora da jovem Bimmel sonhar? O sol pálido, levantava vapor suficiente da água para disfarçar as velhas geladeiras e fogões atirados nas margens cobertas de mato da água represada.

O vento de nordeste, do lado oposto à luz, empurrava nuvens esfarrapadas em direção ao sol.

Um pedaço de cano branco, de PVC, emergia do galpão do Sr. Bimmel em direção ao rio. O cano emitiu um gorgolejo e uma breve descarga de água sanguinolenta saiu do cano, sujando a neve antiga. Bimmel saiu para o sol. Sua calça estava manchada de sangue e ele carregava alguma coisa cinza e cor-de-rosa num saco plástico de comida.

— Filhotes de pombo — disse ele, quando viu que Starling o olhava. — Já os comeu alguma vez?

— Não — respondeu Starling, virando-se de novo para a água. — Já comi pombos, mas caçados.

— Nunca terá que se preocupar com morder um chumbinho com estes.

— Sr. Bimmel, Fredrica conhecia alguém de Caltu-net City ou da área de Chicago?

O homem encolheu os ombros e sacudiu a cabeça.

— Ela alguma vez esteve em Chicago, que o senhor saiba? — O que quer a senhora dizer com esse “que o senhor saiba”? Pensa que uma filha minha iria a Chicago sem que eu soubesse? Ela não ia nem a Columbus sem o meu conhecimento.

— Ela conhecia algum homem que costurasse, alfaiate, ou fabricante de velas?

— Ela costurava para todo mundo. Sabia costurar como a mãe dela. Não sei de homem nenhum. Ela costurava para lojas, para senhoras, não sei para quem.

— Quem era a melhor amiga, dela, Sr. Bimmel?

Com quem se enturmava? — Não queria usar esse termo... Bom, ele não se queimou — está muito cansado.

— Ela não se reunia a turmas, como raparigas que não prestam. Sempre tinha algum serviço a fazer. Deus não a fez bonita, mas a fez ativa.

— Quem o senhor diria que era a melhor amiga de-la?

— Stacy Hubka, penso eu, desde que eram pequenas. A mãe de Fredrica costumava dizer que Stacy andava com Fredrica apenas para ter alguém que trabalhasse para ela, mas não sei. .

— Sabe onde eu poderia entrar em contato com e-la?

— Stacy trabalhava na companhia de seguros. Penso que ainda trabalha. A Franklin Insurance.

Starling caminhou até seu carro pelo pátio esbura-cado, a cabeça baixa, mãos enterradas nos bolsos. O gato de Fredrica observava-a da sua janela lá em cima.

CAPÍTULO 54

As credenciais do FBI provocam uma resposta mais rápida quanto mais para o oeste se vai. A ID de Starling, que poderia ter feito levantar uma aborrecida sobrancelha de um funcionário em Washington, mereceu a atenção total do patrão de Stacy Hubka na agência da Fkanklin Insurance em Belvedere, Ohio. Ele próprio substituiu Stacy no balcão e nos telefones e ofereceu a Starling a privacidade de seu cubículo para a entrevista.

Stacy Hubka tinha um rosto redondo e vivo e 1,56m de altura quando de sapatos com saltos. Usava os cabelos em madeixas e fazia um movimento à Cher Bono para retirá-lo da frente do rosto. Observou Starling dos pés à cabeça num momento em que ela não estava olhando de frente para a jovem.

— Stacy.. posso chamá-la de Stacy?

— Por certo.

— Gostaria que me dissesse, Stacy, como é que vo-cê pensa que aquilo pode ter acontecido a Fredrica Bimmel, onde é que esse homem pode ter encontrado Fredrica. — O fato deixou-me assombrada. Ter a pele arrancada, isso não é uma coisa horrível? Você a viu? Dizem que ela parecia um farrapo, como se alguém tivesse esvaziado um balão..

— Stacy, ela alguma vez mencionou uma pessoa de Chicago ou de Calumet City?

Calumet City. O relógio na parede, acima da cabeça de Stacy, preocupava Starling. Se o Grupo de Resgate de Reféns devia chegar lá em quarenta minutos, eles estão a

dez minutos de tocar com as rodas no chão. Será que eles têm um endereço certo? Preste atenção ao seu serviço!

— Chicago? Não — assegurou Stacy. — Nós mar-chamos um dia em Chicago, na parada do Dia de Ação de Graças. — Quando?

— Quando estávamos no oitavo grau, há uns. . no-ve anos. A banda foi lá e voltou no mesmo ônibus.

— O que você pensou, na última primavera, quando ela desapareceu?

— No início eu nem sabia disso.

— Mas lembra-se de onde você estava quando soube que ela desaparecera? Quando recebeu a notícia? O

que você pensou então?

— Na primeira noite em que ela não veio, Skip e eu fomos ao cinema e depois ao bar do Sr. Toad para um drinque com Pam e os outros. Quando Pam Malavesi chegou e disse que Fredrica tinha desaparecido, Skip achou que nem Houdini poderia fazer Fredrica desaparecer. .! Então ele teve que explicar a todo mundo quem foi Houdini, ele está sempre querendo mostrar que é um sa-bichão, e aí nós deixamos o assunto de lado. Eu pensei que ela estaria apenas zangada com o pai. Viu a casa dela?

Não é o fim da picada? Quero dizer, onde quer que ela esteja, deve ter ficado embaraçada de você ter visto a casa dela. Você também não fugiria de casa?

— Você pensou que ela talvez houvesse fugido com alguém; alguém veio à sua lembrança, mesmo que fosse um palpite errado?

— Skip disse que ela talvez houvesse encontrado algum camarada perseguidor de gordinhas. Mas não, ela nunca teve ninguém desse tipo. Ela teve um namorado,

mas essa é uma velha história. Ele fazia parte da banda no décimo grau. Eu digo “namorado”, mas eles apenas con-versavam e davam risadinhas como um par de meninas e faziam juntos as suas tarefas. Ele era um maricão; usava um desses pequenos bonés de pescadores gregos, conhece? Skip pensava que ele era, você sabe.. bicha. Mexíamos com ela por sair com uma bicha. Ele e a irmã dele morreram num acidente de automóvel, entretanto, e Fredrica nunca mais teve ninguém.

— O que você pensou quando ela sumiu?

— Pam pensou que alguns membros da seita do Dr. Moon tinham-na pegado; eu não sabia, mas ficava com medo cada vez que pensava no caso. Nunca mais saí à noite sem o Skip. Disse a ele: “Uh, uh, camarada, depois do sol deitar, nós só saímos juntos.”

— Você alguma vez a ouviu mencionar o nome Jame Gumb ou John Grant?

— Hummmm... não.

— Você acha que ela poderia ter um amigo que vo-cê não soubesse? Havia espaços de tempo, dias, em que você deixava de vê-la?

— Não. Se ela tivesse um cara, eu saberia, acredite.

— Você pensa que seria possível, digamos, que ela tivesse um amigo e não dissesse nada a respeito dele?

— Por que iria fazer isso?

— Talvez com medo de que vocês zombassem de-la.

— Que zombássemos dela? Você está dizendo isso por causa da outra vez? Do garoto efeminado na escola?

— Stacy ficou vermelha. — Não. De forma alguma iría-mos feri-la. Eu só mencionei isso por acaso. Ela não...

Nós, todo o mundo foi, vamos dizer, bom para ela, depois que o garoto morreu.

— Você trabalhava com Fredrica, Stacy?

— Eu e ela e Pam Malavesi e Jaronda Askew, todas nós trabalhávamos no Centro de Barganhas do Verão durante o ginásio. Então Pam e eu fomos à loja Richards para ver se podíamos trabalhar lá; é uma casa de roupas bonitas e eles empregaram a mim e depois a Pam. Então Pam disse a Fredrica: “Apareça lá, eles precisam de outra moça”, e ela apareceu. Mas a Sra. Burdine, a gerente comercial, disse: “Bem, Fredrica, precisamos de alguém que.. você sabe.. as pessoas possam admirar, as pessoas entrem na loja e pensem ‘Eu quero parecer-me com ela...’, e você pode dar-lhes conselhos como elas ficariam com este ou aquele vestido. Se você puder perder algum peso, quero que venha de novo aqui e me procure” — disse ela.

— “Mas agora, se você quiser encarregar-se de algumas de nossas alterações, experimentarei você nesse serviço, darei uma palavra à Sra. Lippman.” — A Sra. Burdine falou com aquela voz doce que tem, mas ela realmente é uma peste; porém, a princípio eu não sabia disso.

— Então Fredrica passou a fazer consertos para a loja Richards, onde você trabalhava?

— Aquilo feriu os sentimentos dela, é claro. A velha Sra. Lippman fazia alterações para todo mundo. Era a dona do negócio e tinha mais trabalho do que podia aceitar, e assim Fredrica trabalhava para ela. Fazia as alterações para a velha Sra. Lippman, que costurava para todo mundo. Depois que a Sra. Lippman se aposentou, a filha não quis continuar no negócio, e Fredrica ficou com toda a freguesia e continuou a costurar para todo mundo. Isto era o que ela fazia. Encontrava-se comigo e com Pam e

íamos para a casa de Pam jantar e ver The Young and the Restless (Os jovens e os inquietos); ela trazia alguma coisa para fazer e ficava trabalhando o tempo todo.

— Fredrica alguma vez trabalhou na loja tirando medidas? Ela se encontrava com fregueses ou com os vendedores atacadistas?

— Às vezes, não muito. Eu não trabalhava todos os dias. — A Sra. Burdine trabalhava todos os dias? Ela saberia? — Sim; acredito que sim.

— Fredrica alguma vez mencionou ter costurado para uma companhia chamada Mr. Hide em Chicago ou em Calumet City, talvez fazendo forros para roupas de couro? — Não sei. A Sra. Lippman talvez tenha trabalhado nisso. — Você alguma vez viu a marca Mr. Hide? A loja Richards, ou uma das butiques, trabalhava com essa marca? — Não.

— Você sabe onde está a Sra. Lippman? Eu gostaria de falar com ela.

— Ela morreu. Foi para a Flórida quando se aposentou e morreu por lá, segundo contou Fredrica. Nunca cheguei a conhecê-la; eu e Skip às vezes pegávamos Fredrica lá, quando ela tinha um monte de roupas para trazer.

Você poderia falar com a família dela. Eu escrevo o nome para você.

Aquilo era extremamente cansativo, quando o que Starling desejava eram as notícias de Calumet City. Os quarenta minutos já se haviam esgotado. O Grupo de

Resgate de Reféns já devia estar no chão. Ela mudou de posição para não ter que olhar o relógio e continuou o inquérito.

— Stacy, onde é que Fredrica comprava roupas, onde comprou aquelas malhas Juno, tamanho grande para ginástica?

— Ela fazia quase tudo sozinha. Acho que ela comprou as malhas na Richards, você sabe, quando todo mundo começou a usa-las realmente grandes, porque eram vestidas por cima de roupas mais apertadas. Uma porção de lojas as vendiam. Ela tinha um desconto na Richards porque costurava para a loja.

— Ela alguma vez comprou numa loja especializada em tamanhos grandes?

— Nós íamos a todos os lugares para olhar, você sabe como é, íamos à Personality Plus e ela procurava idéias, você sabe, modelos atraentes para moças de tamanho grande.

— Alguém chegou-se a vocês alguma vez e seguiu-as dentro de uma dessas lojas de tamanho grande, ou Fredrica teria notado que alguém não tirava os olhos de cima dela? Stacy olhou para o teto por um momento e sacudiu a cabeça.

— Stacy, travestis vinham alguma vez à Richards, ou homens comprando roupas grandes de mulheres? Alguma vez você viu uma coisa assim?

— Não. Eu e Skip uma vez vimos alguns travestis num bar em Columbus.

— Fredrica estava com vocês?

— Não, de forma alguma... Nós tínhamos ido, digamos... passar um fim de semana.

— Você quer escrever os nomes dos lugares que vendiam tamanhos grandes onde você foi com Fredrica?

Você acha que pode lembrar-se deles todos?

— Só aqui, ou também em Columbus?

— Aqui e em Columbus. E inclua a loja Richards.

Quero conversar com a Sra. Burdine.

— O.K. É um bom emprego ser agente do FBI, não é? — Eu acho que é.

— Você tem a chance de viajar etc.? Quero dizer, para lugares melhores do que este..

— Às vezes, sim.

— Tem que ter uma boa aparência todos os dias, não? — Oh, claro. Você tem que tentar parecer uma pessoa de negócios.

— Como é que se entra para isso, ser uma agente do FBI?

— Primeiro você precisa cursar uma universidade, Stacy. — Sai muito caro, não?

— Sim, sai. Às vezes, no entanto, há bolsas de estudo e contribuições que ajudam. Gostaria que eu lhe mandasse alguns prospectos?

— Sim. Eu estava exatamente pensando: Fredrica ficou tão contente quando eu arranjei este emprego. Ela realmente ficou feliz ela nunca teve um verdadeiro trabalho de escritório — e pensava que esse era um bom começo. Isto — arquivos de fichas e Barry Manilow no alto-falante todo o dia -— ela pensava que era o máximo... O

que sabia ela da vida, pobre coitada. .! — As lágrimas iam aflorar aos olhos de Stacy Hubka. Ela arregalou-os e jogou

a cabeça para trás para não ter que se maquilar novamente.

— Que tal fazer minha lista agora?

— É melhor fazê-la na minha mesa. Lá eu tenho um processador de palavras e preciso do meu livro de endereços telefônicos etc. — Ela saiu com a cabeça inclinada para trás, guiando-se pelo teto.

O telefone atraia Starling. No momento em que Stacy Hubka saiu do cubículo, Starling chamou Washington a cobrar para saber das notícias.

Í

CAPÍTULO 55

Naquele momento, sobre a ponta sul do lago Mi-chigan, um jato comercial de 24 passageiros deixou a ae-rovia de tráfego intenso e começou a longa curva de aproximação para Calumet City, Illinois.

Os doze homens do Grupo de Resgate de Reféns, na parte dianteira do compartimento de passageiros, senti-ram aquele “friozinho” no estômago. Ouviram-se alguns bocejos de aliviar a tensão elaboradamente casuais aqui e ali, ao longo do corredor.

O comandante do grupo, John Randal , retirou o fone de cabeça e passou os olhos por suas notas antes de levantar-se para falar. Acreditava que tinha o time de SWAT mais bem treinado do mundo e talvez estivesse certo. Alguns deles nunca tinham sido alvo de tiros reais, mas, até onde as simulações e os testes podiam provar, eram os melhores entre os melhores.

Randal passara muito tempo em corredores de avião e manteve com facilidade o equilíbrio durante a agitada descida.

— Cavalheiros: nosso transporte em terra é cortesia da Drug Enforcement Administration, também conhecida como DEA. Eles têm um furgão de florista e uma caminhonete de encanador. Portanto, Vernon e Eddie, po-nham suas proteções de mangas compridas contra balas e roupa à paisana. Se entrarmos atirando granadas de tonte-ar, lembrem-se de que vocês não têm, nos rostos, proteção contra explosão.

Vernon e Eddie, que deveriam fazer a aproximação inicial, tinham que usar proteção balística por baixo das

roupas civis. Os demais podiam ir com blindagem comum, à prova de fogo de rifles.

— Bobby, não se esqueça de pôr um de seus aparelhos manuais em cada furgão para o motorista, de modo que a gente não se atrapalhe para conversar com esses caras do DEA — pediu Randall.

A DEA usava rádios UHF em seus reides, enquanto o FBI usava VHF; isso causara problemas anteriormente.

Eles estavam preparados para a maior parte das eventualidades, dia e noite: para escutar, tinham Wolf’s Ears e um VanSleek Farfoon, para ver dispunham de dispositivos para visão noturna. As armas com visores para a noite pareciam instrumentos de banda de música em seus avantajados estojos.

Aquilo iria ser uma operação cirúrgica precisa e as armas refletiam tal condição.

O grupo enfiou suas mochilas de equipamento quando os flapes do avião abaixaram.

Randall recebia notícias de Calumet em seu fone portátil. Cobriu o microfone e falou de novo para o grupo: — Camaradas, eles reduziram as possibilidades a dois endereços. Ficamos com o melhor e a SWAT de Chicago atenderá o outro.

O campo de pouso era o Aeroporto Municipal de Lansing, o mais próximo de Calumet no lado sudeste de Chicago. O avião recebeu licença para pousar imediatamente. O piloto levou-o taxiando até parar com um cheiro de borracha queimada ao lado de dois veículos com os motores acionados no extremo do campo mais afastado do terminal.

Houve rápidas saudações ao lado do caminhão de florista. O comandante do DEA entregou a Randal o que parecia ser um amplo arranjo floral. Era uma marreta de arrombar portas de seis quilos, com a cabeça enrolada em papel metálico colorido, como um vaso, e a folhagem presa no cabo.

— Você talvez deseje entregar isto — disse ele. —

Bem-vindo a Chicago.

CAPÍTULO 56

O Sr. Gumb prosseguiu em seu plano no meio da tarde. Com lágrimas perigosamente constantes nos olhos, ele assistiu ao seu vídeo uma, duas, três vezes. Na pequena tela Mamãe trepava no escorregador e tchimbum! Mergulhava na piscina, tchimbum! Mergulhava na piscina. As lágrimas molhavam a visão de Jame Gumb como se ele próprio estivesse na piscina.

Na sua cintura, um saco de água quente gorgoleja-va, como fazia o estômago da cachorrinha quando se a-comodava no colo dele.

Não podia tolerar aquilo por mais tempo — aquela coisa que, no porão, mantinha Preciosa prisioneira, ameaçando-a. Preciosa estava sofrendo, ele sabia. O que não sabia era se conseguiria matar aquela coisa antes de ela fatalmente machucar Preciosa, mas tinha que tentar. Imediatamente.

Tirou as roupas e vestiu o robe, ele sempre finaliza-va sua colheita nu e sujo de sangue como um recém-nascido.

Do enorme armário de remédios, tirou a pomada que usara em Preciosa quando fora arranhada pelo gato.

Pegou alguns Band-Aids pequenos e cotonetes, bem co-mo a coleira de plástico “Elizabethan Collar” que o veterinário lhe dera para evitar que ela ficasse mexendo num lugar machucado com os dentes. Ele tinha pedaços miúdos de madeira no porão que poderia empregar como talas na perna quebrada do animal e um tubo de Sting-Eez

para aliviar-lhe as dores se aquela coisa estúpida a machu-casse na sua agitação antes de morrer.

Um tiro cuidadoso na cabeça, e sacrificaria apenas o cabelo. Preciosa valia mais para ele do que aquela cabeleira.

Esse sacrifício era uma oferenda para a salvação da cachorrinha.

Desceu então devagar a escada para a cozinha. Tirou os chinelos e meteu-se pelos degraus escuros que de-sembocavam no porão, sempre junto à parede para evitar que rangessem.

Não acendeu a luz. Embaixo da escada voltou-se em direção à oficina, movimentando-se pelo tato na escuridão familiar, sentindo as irregularidades do chão debaixo de seus pés.

Sua manga roçou por uma das gaiolas e ele ouviu o cricri baixo e zangado de uma mariposa. Ali estava o armário. Encontrou a lanterna infravermelha e acavalou os óculos no nariz. Agora o mundo tinha um tom verde. Parou um momento, escutando o agradável borbulhar dos tanques, o quente chiado do vapor nos canos. Mestre da escuridão, imperador das trevas.

Mariposas livres, no ar, traziam verdes traços de fosforescência à sua visão. Suas asas adejando fracamente afloravam seu rosto no ambiente sombrio.

Verificou a Python. Estava carregada com balas especiais de chumbo 38. Elas penetrariam no crânio e se expandiriam provocando uma morte instantânea. Se a coisa estivesse de pé quando fosse o alvo, e se ele atirasse de cima para baixo no alto da cabeça, a bala tinha menos probabilidade do que uma carga de Magnum de sair pela mandíbula inferior e rasgar o peito.

Continuar: parte 4 de 4