O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Érico Veríssimo · Capítulo 2 de 6

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O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Reunião de família III

30 de novembro de 1945

Roque Bandeira deixa o Sobrado pouco depois das onze horas, em companhia de Floriano Cambará. A morna brisa que sopra do sueste espalha na noite uma fragrância adocicada de campos e pomares, que aqui na praça se mistura com um cheiro de pão recém-saído do forno.

Roque faz um gesto que abrange o largo:

— Olha só as medonhas tatuagens com que a campanha política desfigurou a tua cidade!

Além dos coloridos sinapismos dos cartazes aplicados sobre as pedras da praça, os nomes dos candidatos e seus gritos de guerra e promessas aparecem escritos a piche ou cal em paredes, calçadas e até troncos de árvores. O muro da Padaria Estrela-d’Alva está coberto de inscrições: VOTEM NO BRIGADEIRO DA VITÓRIA... GETULIO VOLTARÁ... VIVA PRESTES!... DUTRA É A SALVAÇÃO NACIONAL.

Pouco abaixo desta última frase, alguém gravou no reboco, possivelmente com a ponta dum prego e com raiva, cinco letras irregulares: MERDA.

— Merda! — grita Bandeira. — Eis o comentário do povo a todos esses candidatos e promessas. É o slogan dos slogans!

Rompe a rir e em breve o riso se transforma numa tosse convulsiva, que o põe de rosto congestionado, olhos esbugalhados e lacrimejantes, a andar dum lado para outro, dobrado sobre si mesmo, numa ansiada busca de ar. (A sombra da voz de Laurinda na mente de Floriano: “Era uma vez um sapo-boi que de tanto inchar estourou”.) E, quando o acesso abranda, Tio Bicho enxuga as lágrimas com os dedos, passa a ponta de uma das mangas do casaco pelo queixo, onde um filete de baba escorre, e depois encosta-se no muro e ali fica, arquejante e de olhos exorbitados — um condenado diante do pelotão de fuzilamento.

Floriano aproxima-se do amigo e, com uma ternura meio acanhada, toma-lhe do braço.

— Como é, compadre?

— Passou... passou... — murmura Bandeira, ainda com voz engasgada.

Dá três passos na direção do meio-fio da calçada, limpa a garganta num pigarro explosivo e expectora na sarjeta. Volta-se para o muro e aponta com um dedo trêmulo para o palavrão.

— Sabes o que é isso? A cristalização de quatrocentos anos de decepções e de amarga experiência. Nessa palavra está todo um programa político, social e filosófico. É a sabedoria da miséria. Mas vamos sentar lá debaixo da figueira, que estou sem sono.

Atravessam a rua lentamente.

— Tenho uma teoria — vai dizendo Floriano — ou, melhor, uma caricatura de teoria. Presta atenção. Durante sua história, o brasileiro tem vivido a oscilar entre dois exemplos, dois polos magnéticos representados por dois Pedros: Pedro II e Pedro Malasartes...

Bandeira solta um grunhido, que o outro interpreta assim: “Estou te escutando. Continua”.

Param junto da calçada da praça.

— O velho imperador — prossegue Floriano — era o símbolo da virtude, da austeridade, da retidão de caráter e de costumes. Malasartes é o safado, o sensual, o empulhador. A República mandou embora Pedro ¡ e Pedro Malasartes ficou com o campo livre. Mas foi só durante o Estado Novo que o simpático salafrário floresceu de verdade, tornando-se herói nacional, paradigma de comportamento político e social.

— Não está má a tua teoria — resmunga Roque Bandeira. — Nada má... como caricatura, é claro. Tens em casa um discípulo de Malasartes: o Sandoval.

Agora olham ambos para um grande letreiro branco que se estende sobre vários metros de calçada.

— O preço da liberdade — lê Tio Bicho, lentamente, como se soletrasse — é a eterna vigilância. Xô égua! O brigadeiro anda repetindo nos seus discursos essa besteira do Thomas Jefferson...

Volta-se para o amigo, segura-lhe as lapelas do casaco com ambas as mãos e pergunta-lhe, num bafio de cerveja:

— Liberdade? Mas que liberdade? Física? Psicológica? Religiosa? Econômica? É preciso especificar... Liberdade para quem? Para quê? Para a classe a que pertence o brigadeiro manter e aumentar seus privilégios? Para o povo continuar na miséria? Para os tubarões da burguesia seguirem nadando no gordo mar dos lucros extraordinários?

Retomam a marcha rumo da figueira. Bandeira aperta o braço do amigo. Mostra com um movimento de cabeça o busto do cabo Lauro Caré, que lá está no centro da praça, ao lado do coreto, coberto por um pano negro.

— Esse menino teve liberdade para dizer não quando o convocaram para a Força Expedicionária Brasileira, quando o tiraram de Santa Fé, de seu ofício de marceneiro, para ir morrer na Itália? Hein? Teve? E o piloto americano do avião que soltou a bomba atômica sobre Hiroshima teve liberdade para negar-se? Ou, melhor, teve liberdade de saber que ia transformar-se no coassassino de duzentas mil criaturas humanas?

Sentam-se no banco debaixo da grande árvore. Bandeira passa lentamente as mãos pelo rosto carnudo, pigarreia e depois, num tom menos enfático, continua:

— Por acaso será possível para o homem comum viver com liberdade neste nosso mundo de pressões? Pressões de todos os lados, da família, duma educação preconceituosa, do governo, dos grupos econômicos e da propaganda... me diga, é possível?

Floriano sacode a cabeça lentamente e pensa na sua contínua e prolongada luta em busca de liberdade. Desejou sempre com tal ardor ser livre, que acabou escravo da ideia de liberdade, tendo pago por ela quase o preço de sua humanidade. Sabe agora que conquistou apenas uma liberdade negativa, que pouco ou nada serve ao homem e ao escritor. Sente-se livre de compromissos políticos e vive tentando convencer-se de que está liberto — pelo menos teoricamente — dos preconceitos e atitudes da sociedade burguesa. Mas ser livre será apenas gozar da faculdade de dizer não aos outros (e às vezes paradoxalmente a si mesmo) — um eterno negar-se, um obstinado esquivar-se, um estúpido ensimesmar-se? Haverá alguma vantagem em ter uma liberdade de caramujo: defensiva, encolhida, medrosa, estéril? Chegou à conclusão de que, por obra e graça desse medo de comprometer-se, na realidade ele se comunica apenas tecnicamente com os outros seres humanos.

Tio Bicho acende um cigarro em silêncio, solta algumas baforadas e de novo desanda num acesso de tosse que o sacode todo. Ergue-se brusco, cospe fora o cigarro e, sempre tossindo e encurvado, dá uma volta inteira ao redor do tronco da figueira, num simulacro de dança ritual. Depois torna a sentar-se, arquejante, as mãos espalmadas sobre as coxas, o busto teso, a palheta empurrada para a nuca e fica olhando fixamente para a noite, como se dela esperasse socorro e alívio.

— És um teimoso, um caso perdido — murmura Floriano.

E, como para confirmar o que o amigo acaba de dizer, Bandeira tira do bolso outro cigarro feito e acende-o com mãos trêmulas.

— O Camerino não te proibiu de fumar?

— De fumar, de beber e de comer demais... — Tio Bicho recosta-se no banco, tira uma longa baforada e prossegue: — Diz o nosso dottorino que esta coisa — bate no peito à altura do coração —, este bicho aqui dentro pode rebentar duma hora para outra... No entanto eu fumo, bebo e como em excesso.

— Queres morrer?

— Claro que não. Quero viver. Mas que diabo! Estas porcarias dominam a gente — acrescenta, tirando da boca o cigarro e mostrando-o ao outro. — Diante dum copo de cerveja gelada ou duma sopa de mocotó, todos os nossos bons propósitos se vão águas abaixo. É uma droga.

E de novo leva o cigarro à boca, inala com força a fumaça, despedindo-a depois pelas narinas. Ao cabo de um curto silêncio, torna a falar:

— Pois meu velho, tu sabes muito bem que o Tio Bicho ama a vida. Sempre amou. A ideia do Nada me dá um frio na barriga. Uma destas madrugadas acordei com uma dorzinha no peito e uma certa falta de ar. É Ela, pensei. É a Grande Cadela. Chegou a minha hora. Que é que vou fazer? Nada. Fiquei quieto, esperando... Tenho uma ampola de nitrito na gaveta da mesinha de cabeceira. Era simples. Bastava quebrar o vidro e levar a coisa ao nariz... No entanto fiquei deitado de costas, os olhos fechados, pensando, imaginando, vendo mesmo o coração na sua luta aflita... o fluxo do sangue grosso e velho nas artérias esclerosadas. Se me perguntas por que eu hesitava em lançar mão do remédio, eu não saberia te explicar. Curiosidade de saber o que ia acontecer? Ou o sono teria dominado o medo da morte? A verdade é que fiquei paralisado em cima da cama como num pesadelo, esperando a ferroada dilacerante da angina, respirando mal, suando frio, e sempre em estado de modorra, achando até um certo gosto em imaginar coisas macabras. Tu sabes, vivo sozinho com os meus peixes. Não tenho nem mesmo um cachorro em casa... ou um gato. Se morro, pensei, só vão descobrir meu cadáver muitos dias depois, pelo fedor. Então me imaginei apodrecendo e fedendo em cima da cama, minha podridão empestando o quarto, a casa, a vizinhança, os peixes morrendo no aquário... Kaputt! E ao mesmo tempo via, me lembrava de como era bom viver, fumar um cigarro, beber um chope geladinho, comer... E sabes no que pensei? Adivinha... Pensei num arroz de carreteiro bem molhado. Cheguei a saborear mentalmente uma garfada... e enquanto isso a dor no peito aumentava, e o mal-estar, e a sufocação... E houve um momento em que o medo de morrer foi mais forte que tudo. Estendi o braço, abri a gaveta, tirei a ampola, quebrei, cheirei... senti um alívio quase imediato... E sabes de uma coisa engraçada? Subitamente me esqueci de onde estava. Eu não era um ser no espaço, mas no tempo. Fiquei de barriga pra cima, vi o meu falecido pai andar pela casa arrastando os chinelos e resmungando, minha mãe fazendo um bolo na cozinha, voltei a ser menino e vim brincar aqui debaixo desta figueira, conversei com gente morta... E tudo de repente ficou claro... a vida, o passado e até o futuro. E quando o dia clareou e o sol me bateu na cara, eu não saberia te dizer se tinha dormido ou passado a noite em claro. Me levantei, aquentei a água para um chimarrão, dei comida para os peixes, fiz a barba e comecei um novo dia.

Solta um suspiro que lhe sai pela boca com uma baforada de fumaça. Depois, entre sério e zombeteiro, exclama:

— Existir, velhote, é uma coisa muito séria.

Tira a palheta da cabeça, aperta-a de borco contra o próprio ventre e começa a tamborilar na copa com os dedos, num ritmo gaiato de samba, que nada tem a ver com o que vai dizer:

— Conta-se que santo Tomás de Aquino chorava ao contemplar o mistério do Ser. Pois eu não choro: eu me borro.

— E eu fujo — murmura Floriano, deixando escapar quase involuntariamente esta confidência. Mas acrescenta: — Quando posso.

— Fazes mal. É preciso enfrentar a vida, e olhar na cara a morte, essa Grande Marafona. Neste anus mundi que é Santa Fé, levamos “vidinhas de segunda mão”, para usar a frase dum desses meus filósofos cujas “verdades”, tu sabes, me chegam por colis postaux. Pois é... Somos caricaturas do que poderíamos ser...

Floriano olha criticamente para o amigo. Suas roupas sempre o intrigaram. No inverno Roque Bandeira ordinariamente usa uma fatiota de casimira preta, muito sovada, por cima da qual nos dias mais frios enfia um sobretudo cor de chumbo, com uma comovente gola de veludo negro, já pelada pelo uso; na cabeça mete um chapéu de feltro quase informe, que, quando atirado numa cadeira, mais parece um gato preto enroscado sobre si mesmo. E os trajos de verão do Cabeçudo são estas roupas de brim claro, amassadíssimas, umas sandálias de couro, a palheta amarelada, de abas mordidas, e a eterna gravata: borboleta negra pousada sobre o colarinho branco, mole e geralmente encardido.

— Sim — repete Roque Bandeira —, pobres caricaturas. Por muito tempo pensei que podia levar a vida na flauta (e eu sei que às vezes dou a impressão disso). Achei que viver meio leviana e aereamente sem enfrentar o Problema era uma solução para a angústia de viver. Mas não é, te asseguro que não é. É antes uma fuga covarde e suicida. Porque resignando-nos a uma pobre subvida, estamos assassinando ou, melhor, impedindo que nasça o nosso eu verdadeiro. Como já te disse, precisamos agarrar o touro à unha, mesmo que isso nos leve a posturas ridículas. As pessoas em sua grande maioria são demissionárias da espécie humana. Vivem existências inautênticas.

— Mas que é ser autêntico?

Roque Bandeira põe a palheta sobre o banco, a seu lado, tira do bolso um canivete e um pedaço de fumo crioulo e fica-se a preparar um novo cigarro, embora ainda tenha o outro entre os lábios.

— É muito simples — murmura. — O homem é o ser que pode ter consciência de sua existência e portanto tornar-se responsável por ela. Assim, o ser autêntico é o que aceita essa responsabilidade.

Floriano encolhe os ombros. O outro prossegue:

— O ser inautêntico é aquele que vive subordinado aos outros, governado pela tirania da opinião pública.

— Se te consideras tão livre, por que não tens coragem de sair à rua sem essa gravatinha?

— Deixa em paz a minha gravata! É a única coisa que me resta do smoking que tive nos tempos de estudante. Este paninho preto já faz parte da minha anatomia. Sem ele me sinto castrado.

Floriano solta uma risada. O outro começa a palmear o fumo. Um cavalo vindo das bandas da Prefeitura atravessa a rua lentamente e o som de seus passos nítidos e ritmados parece acentuar o silêncio e a solidão da noite.

Floriano estende as pernas, inteiriça o corpo, apoia a nuca contra o duro respaldo do banco e assim, mais deitado que sentado, os olhos fechados, ambas as mãos metidas nos bolsos das calças, diz:

— Tu sabes que há certos problemas que só discuto contigo e com mais ninguém...

— Obrigado pela parte que me toca — murmura Bandeira, com fingida solenidade, despejando fumo no côncavo dum pedaço de palha de milho.

— Quando fico sozinho contigo, acabo sempre fazendo-te confidências. Por que será?

— Deve ser por causa de minha acolhedora presença bovina. — Roque Bandeira enrola a palha. — Ou então desta feiura que me torna uma espécie de marginal. Ou do fato de eu te conhecer desde que nasceste... Afinal de contas, sou ou não sou o Tio Bicho?

— Quando eu tinha oito anos (me lembro como se tivesse sido ontem), tu me deste um livro de histórias ilustradas de Benjamin Rabier... Quando completei doze, me levaste dois romances de Júlio Verne: A casa a vapor e Vinte mil léguas submarinas.

— E não te esqueças de que fui eu quem te iniciou em Zola e Flaubert, para horror do vigário, que te queria impingir vidinhas de santos e mártires, escritas por padres...

— E no entanto aqui estamos agora, praticamente homens da mesma geração, apesar da diferença de vinte anos que existe entre nós...

Roque Bandeira cospe fora o toco de cigarro que tem entre os dentes, acende o crioulo e dá a primeira tragada, expelindo fumaça com gosto e envolvendo Floriano numa atmosfera que lhe evoca imediatamente a imagem de seu avô Aderbal.

— Estás então disposto a fazer mais uma vez o padre confessor?

— Claro. Ajoelha-te e abre o peito. Pecaste contra a carne? Com quem? Quantas vezes?

Floriano continua na mesma posição, sempre de olhos cerrados.

— Falaste há pouco em ser autêntico ou inautêntico... Pois estou convencido de que a maior pedra de tropeço que tenho encontrado na minha busca de autenticidade é o desejo de ser aceito, querido, aprovado, e que quase me levou a um conformismo estúpido, uma inclinação que me vem da infância e que acabou entrando em conflito com outra obsessão minha não menos intensa: a de ser completamente livre. São ou não são desejos contraditórios?

Roque Bandeira dá de ombros.

— Meu velho, na minha opinião, amadurecer é aceitar sem alarme nem desespero essas contradições, essas... essas condições de discórdia que nascem do mero fato de estarmos vivos. Não escolhemos o corpo que temos (olha só o meu...) nem a hora e o lugar ou a sociedade em que nascemos... nem os nossos pais. Essas coisas todas nos foram impingidas, digamos assim, de maneira irreversível. O homem verdadeiramente maduro procura vê-las com lucidez e aceitar a responsabilidade de sua própria existência dentro dessas condições temporais, espaciais, sociológicas, psicológicas e biológicas. Que tal? Muito confuso?

Um galo canta, longe. O cavalo agora pasta em cima dum canteiro e o grugru de seus dentes arrancando a grama é um som que Floriano associa aos potreiros do Angico.

— Naturalmente já notaste que não fumo, não bebo e não jogo. Como interpretas isso?

— É uma atitude anti-Rodrigo Cambará.

— E por que não pró-Flora Cambará?

— Também. São dois lados da mesma moeda, inseparáveis um do outro.

Floriano abre os olhos e avista por uma fresta entre os galhos emaranhados da figueira o caco luminoso da lua.

— Quero ver se consigo verbalizar agora meu problema com um mínimo de fantasia...

— Por falar em verbalizar, às vezes não te perturba e inibe a ideia de que a realidade não é verbal? A consciência disso deve ser um veneno para o romancista, hein?

— Não aumentes a minha confusão, homem de Deus! Mas espera... Não ignoras a vida que meu pai sempre levou, desde moço, fazendo minha mãe sofrer com suas aventuras eróticas extraconjugais, seus apetites desenfreados, seus exageros... Um dia entreouvi esta frase dum diálogo entre ambos, no quarto de dormir: “Não respeitas mais nem a tua própria casa”. Quem dizia isso era a minha mãe, com voz queixosa. Descobri depois (mexericos de cozinha) que o Velho fora apanhado atrás duma porta erguendo a saia duma rapariga que tinha entrado no dia anterior para o serviço da casa...

Roque começa a rir um riso que é mais um crocitar, como se ele tivesse um sapo atravessado na garganta.

— Eu agora também posso rir de tudo isso, claro! — exclama Floriano. — Mas para o menino essa experiência foi traumatizante. Doutra feita vi meu pai em cima duma chinoca, num capão do Angico... Eu era então mais velho, teria os meus quatorze anos... Não preciso te dizer que fiquei espiando a cena escondido atrás dum tronco de árvore, com um horror cheio de fascínio... e depois fugi, correndo como um desesperado, como se eu e não ele fosse o criminoso.

— Criminoso?

— Bom, a palavra exata não é essa, mas tu sabes o que quero dizer...

Por alguns instantes Roque luta com novo acesso de tosse, ao cabo do qual reaviva o fogo do cigarro e diz:

— Eu me lembro dumas caboclinhas gostosas de seus quatorze ou quinze anos que vinham do Angico para trabalhar no Sobrado... umas chinocas peitudinhas, benfeitas... Umas “piroscas”, como se costumava dizer naquele tempo.

— Pois bem. Vi muitas vezes o Velho apalpar os seios ou as nádegas dessas meninotas, na minha frente, imagina, como se eu fosse um inocente ou um idiota... Eu ficava desconcertado, não sabia onde me meter quando via o nosso doutor Rodrigo dar presentinhos às rapariguinhas, cochichar-lhes convites, devorá-las com olhares lúbricos... Mas de que é que estás rindo?

— De teus ciúmes, menino.

— Bom, confesso que eu andava também atrás dessas chinocas, faminto de sexo mas sem coragem de agarrá-las... Como um Hamletinho amarelento, de olheiras fundas e cara pintada de espinhas, eu vivia o meu draminha. Agarrar ou não agarrar? E agora chego a um ponto importante. Não era apenas a timidez sexual que me tolhia...

— Eu sei — apressa-se a dizer Bandeira. — Era o medo das sanções da tua tribo, cuja maior Sacerdotisa era dona Maria Valéria, a vestal do Angico e do Sobrado, a Guardiã da Virtude. Certo?

— Certo. Mas havia outra razão mais poderosa ainda. Eu não queria decepcionar minha mãe. Não queria que dissessem que por ser filho de tigre eu tinha saído pintado... O meu sonho era ser o anti-Rodrigo para compensar as decepções de minha mãe...

— Em suma: serias o marido exemplar, já que o outro não era.

— Aí tens a história. O doutor Rodrigo fumava? Eu jamais poria um cigarro na boca. O doutor Rodrigo jogava? Eu jamais tocaria num baralho. O doutor Rodrigo bebia? Eu jamais tomaria bebidas alcoólicas.

Floriano ergue-se e começa a andar devagarinho na frente do banco, dum lado para outro.

— Quanto ao sexo — prossegue —, eu me contentava com minhas satisfações solitárias na água-furtada, a portas fechadas, em território que num gesto mágico eu proclamara livre da jurisdição da tribo e portanto de suas sanções.

— Mas aposto como vivias louco de medo das sanções da Natureza.

— Exatamente. Mas seja como for, na adolescência, inspirado por histórias sublimes, comecei a alimentar conscientemente um sonho: ser o homem exemplar, o que por um esforço de autodisciplina consegue acorrentar a besta e liberar o anjo, o que se coloca acima dos instintos animais: enfim, um produto acabado, uma espécie de cristal puro e imutável...

— Coisa que não só é impossível como também indesejável. Indesejável porque tal criatura seria apenas o Grande Chato. E impossível porque o homem não é um produto acabado, mas um processo transitivo, um permanente devenir... Tu mesmo disseste isto uma destas noites no quarto do teu pai...

Floriano caminha até o limite da sombra da figueira e ali fica a olhar para a única janela iluminada do Sobrado, a pensar em Sílvia, com a certeza de que nunca, mas nunca mesmo terá a coragem de confessar a ninguém o que sente por ela. Tio Bicho abre a boca num bocejo cantado e depois murmura:

— Eu bem podia comer um bife com ovos e batatas fritas antes de ir dormir. Que tal? Me acompanhas?

Floriano volta para junto do amigo e, como se não tivesse ouvido o convite, diz:

— Podes bem imaginar o que senti no dia em que papai mandou Tio Toríbio me levar à casa duma prostituta para a minha iniciação sexual. Pensa bem no meu draminha. Tinha dezesseis anos. Com o corpo sentia um desejo danado de mulher, uma curiosidade, uma comichão, uma necessidade de provar que era homem... Por outro lado odiava meu pai por ter forçado aquela situação. Bom... odiava não é o termo exato. Mas eu estava ressentido com ele, porque me mandando a uma puta...

É com alguma hesitação que Floriano pronuncia esta última palavra, cujo som lhe vem acompanhado da imagem de Maria Valéria (“Te boto pimenta na boca, maroto!”).

— ... ele me puxava para seu nível, me fazia da sua igualha moral, me obrigava a atraiçoar minha mãe...

— Não. Tu querias acreditar que estavas sendo obrigado a procurar mulher, pois assim dividias com teu pai ou, melhor, empurravas para cima dele toda a responsabilidade do ato... e do desejo.

— Bom. Saí da casa da prostituta com o espírito confuso. Decepcionado porque afinal de contas o ato sexual não fora bem o que eu esperava... Orgulhoso porque havia provado que era homem... Envergonhado porque tinha feito uma “bandalheira”, segundo o código e o vocabulário da Dinda... Sim, também com a sensação de estar sujo e com o medo de ter contraído alguma doença venérea. No dia seguinte não tive coragem de encarar as mulheres do Sobrado. E quando à hora do almoço papai fez diante delas uma alusão velada mas maliciosa ao “grande acontecimento”, piscando-me o olho, assim como quem diz “nós homens nos entendemos”, engoli em seco, fiquei com o rosto em fogo, desejei me sumir. E nessa hora, nessa hora, sim, odiei o Velho...

Um apito de trem, prolongado e trêmulo, vindo de longe, das bandas da Sibéria, dá ao espaço da noite uma súbita e mágica dimensão de tempo: transporta Floriano por uma fração de segundo a uma madrugada da infância, num frio agosto: no seu quarto do Sobrado, encolhido debaixo das cobertas, ele ouviu o apito do trem de carga que todas as noites passava àquela hora: e o menino então era Miguel Strogoff, o correio do Czar, e estava dentro do transiberiano que cruzava apitando a estepe gelada...

Roque Bandeira põe o chapéu na cabeça e murmura:

— Estou com uma broca medonha. Vamos até o Schnitzler comer alguma coisa?

Continua, porém, sentado, o ventre caído como um saco sobre as coxas, o ar sonolento. Floriano dá-lhe uma palmadinha no ombro.

— Tem paciência. Estou em maré de confidência. Me deixa continuar o romance do romancista. Ah! Esqueci um pormenor importante na minha história. É que paralelamente a todos esses sentimentos com relação ao Velho, sempre senti por ele uma irresistível fascinação...

— E quem não sentiu? Teu pai é um sedutor profissional, um charmeur, um feiticeiro.

— Vou tentar te dizer como eu sentia a presença dele... Tu sabes, sou muito sensível a cheiros, que associo espontaneamente a pessoas, lugares e situações. Cigarro de palha: o velho Aderbal. Bolinhos de milho: vovó Laurentina. Cera de vela: a Dinda. Patchuli e linho limpo: dona Vanja. Picumã e querosene: a casa da estância. Casca de laranja e de bergamota: o inverno. E assim por diante... Ora, o Velho recendia a Chantecler (perfume que usava com seu exagero habitual) de mistura com sarro de cigarro e charuto e com um leve, tênue bafio de álcool... Tu sabes qual era a minha reação ao fumo e à bebida... Quanto ao Chantecler... bom, tenho de te explicar que desde muito pequeno eu me sentia atraído pela figura do galo estampada no frasco de perfume. Mais tarde, no Angico, vi um belo galo de crista vermelha pôr-se numa galinha. Um peão me explicou o que era aquilo... Depois ouvi histórias de cozinha e galpão em torno de proezas eróticas de galos, e de homens “que eram como galos”; aprendi o significado do verbo galar e o da expressão mulher galinha. Daí por diante associei todas essas noções ao “cheiro de pai”, e o perfume Chantecler passou a ter para mim um forte elemento de atração e outro não menos forte de repulsa...

— Exatamente o que sentias pelo veículo do cheiro.

— Isso! Havia no Velho outro aspecto perturbador: sua beleza física tão decantada por toda a gente, e da qual ele próprio tinha uma consciência tão vaidosamente aguda. Eu me comprazia em comparar o famoso retrato pintado por Don Pepe com o seu modelo vivo, e às vezes, quando me pilhava sozinho na sala, ficava na frente da tela, namorando a imagem paterna, numa espécie de inocente narcisismo, pois era voz corrente que eu me parecia com o Velho. (“Cara dum, focinho do outro”, dizia a Dinda.) Em mais de uma ocasião, me lembro, cheguei a cheirar a pintura. Não sei se estou fantasiando quando te digo que dum modo obscuro, não articulado, eu via naquele retrato uma projeção da pessoa de meu pai num plano ideal muito conveniente aos meus sonhos de menino, isto é, numa dimensão em que ele não só permanecia sempre jovem e belo mas principalmente puro, impecável... quero dizer, um Rodrigo que jamais faria minha mãe sofrer, que jamais sairia atrás de outras mulheres...

— Nem seria teu competidor...

— A presença de vovô Babalo era para mim sedativa, tranquilizadora como a dum boi. A de minha mãe, doce e morna. A da Dinda, um pouco ácida mas sólida. Agora, a presença de meu pai eu sempre a senti quente, efervescente, agressiva... Sua fama de macho no sentido da coragem física me fascinava de maneira embriagadora, talvez porque eu não a sentisse em mim... Criei-me ouvindo na estância e no Sobrado as histórias do rico folclore da família em torno da bravura pessoal de Tio Toríbio e do Velho, e uma das minhas favoritas era a que se contava do jovem doutor Rodrigo que um dia, todo endomingado e perfumado, mas sem um canivete no bolso, em plena rua do Comércio dera uma sumanta num capanga armado até os dentes, e que o agredira a golpes de rebenque.

— A história é autêntica. Eu fui testemunha visual. Isso aconteceu lá por voltas de 1910...

— Também fui alimentado com histórias em torno da decência e da pureza de caráter dos Terras e dos Cambarás. Havia duas palavras que meu pai usava com muita frequência: uma era hombridade e a outra honra.

— Tens de confessar que possuías um pai fabuloso, pelo menos para uso externo.

— Sim, era muito agradável e conveniente ser filho do senhor do Sobrado. Pertencer ao clã dos Cambarás me dava uma sensação não apenas de importância como também de segurança: a certeza de que ninguém jamais ousaria me tocar...

— E não te tocaram?

— Tocaram. E como! É um episódio que nunca pude esquecer. Foi numa manhã de primavera, no pátio da escola de dona Revocata, durante a hora do recreio. Não sei por que motivo um de meus colegas, um pouco mais velho e mais forte que eu, me agrediu e derrubou com uma tapona no ouvido. Fiquei caído, estonteado de dor e surpresa. Formou-se a nosso redor um círculo de meninos que nos açulavam como se fôssemos cachorros ou galos de rinha. “Levanta! Mete a mão nele! Vamos.” E como eu não levantasse (não vou te negar que estava com medo) rompeu a gritaria: “Arrolhou! Frouxo! Galinha!”. No meio duma vaia fugi do pátio, chorando de vergonha, de ódio, de impotência, sim, e também de paixão, diante daquela enorme injustiça. Eu, filho do doutor Rodrigo Cambará, eu, o menino do Sobrado, tinha sido esbofeteado por um “guri qualquer”. (O meu adversário era um mulatinho, filho dum sapateiro.) E ninguém tinha erguido um dedo em minha defesa! Para encurtar o caso: voltei para casa, fui direito ao Velho, contei-lhe chorando o que me acontecera, esperei que ele pusesse o chapéu, saísse como uma bala e não só repreendesse dona Revocata por ter permitido aquela barbaridade, como também puxasse as orelhas do meu agressor. Bom. Sabes qual foi a reação do meu pai?

— Está claro que só podia ter sido uma. Te deu outra sova...

— Exatamente. Me aplicou um boa dúzia de chineladas no traseiro e mais tarde, quando me viu a um canto soluçando, disse: “Filho meu que apanha na rua e não reage, apanha outra vez em casa. Se é covarde, não é meu filho”. E quando pensei que o caso estava encerrado, o Velho me pegou com força pelo braço e exigiu que eu voltasse à escola no dia seguinte e, na hora do recreio, na frente de todos os colegas, tirasse a desforra. “Mas ele é maior que eu”, aleguei. E o Velho: “Pois se é assim, pegue um pau, uma pedra, mas ataque-o, limpe o seu nome”. E repetiu: “Se é covarde não é meu filho”. Bom. Passei uma noite de cachorro, pensando na minha responsabilidade do dia seguinte. Inventei que estava doente para faltar à aula (se não me engano, tive mesmo uma diarreia nervosa), mas papai não admitiu nenhuma desculpa: levou-me em pessoa até a porta da escola. Na hora do recreio reuni toda a coragem de que era capaz, agarrei um pau e fui para cima do meu “inimigo”. Resultado: levei outra sova maior. Voltei para casa com o rosto cheio de equimoses e arranhões. As mulheres se alarmaram...

— E teu pai?

Floriano encolhe os ombros, olha na direção do Sobrado.

— Não estava mais interessado no assunto. Não me perguntou nada. Nem sequer tomou conhecimento de meus “graves ferimentos”. Mais tarde comecei a ligar pedaços de informações e concluí que nessa época ele andava metido com uma castelhana... uma história que acabou em escândalo público. Decerto naquele dia a crise chegara ao auge. Parece que o “marido ultrajado” chegou a dar-lhe um tiro de revólver...

— Houve mais de uma castelhana na vida do doutor Rodrigo — diz sorrindo Tio Bicho.

E acende mais um cigarro, puxa um par de tragadas, cai num novo acesso de tosse e, com o corpo convulso, curva-se para a frente em agonia, como quem vai vomitar. Por fim, amainado o acesso, solta um palavrão e fica derreado, a soprar forte, a gemer e a enxugar as lágrimas. Apanha o cigarro que caiu mas sem apagar-se, leva-o de novo à boca e balbucia:

— Continua o teu folhetim.

— Bom. Como sabes, muito mais tarde a vitória da Revolução de 30 nos levou a todos para o Rio e lá fui eu, com meus dezenove anos, sem rumo certo, sem saber ainda o que queria da vida. Não, espera... Eu já sabia. Queria escrever, ler, ouvir música, cultivar, em suma, uma espécie de ócio inteligente, sem compromissos maiores com a realidade, sem me prender a ninguém e a nada (isso era o que eu dizia a mim mesmo) para poder continuar na minha busca de liberdade... E a todas essas, andava ainda obcecado pelo desejo de ser aceito, querido, aprovado. Não é absurdo?

Roque encolhe os ombros, sem dizer palavra.

— Vivi três anos à custa do Velho, coisa que às vezes me deixava um pouco perturbado. Fiz uns vagos cursos, andei publicando contos em suplementos literários, e aos vinte e dois anos escrevi uma novelinha muito falsa, cuja publicação meu pai custeou, distribuindo exemplares entre amigos... Por fim me arranjou um emprego público, uma sinecura, ordenado razoável, nenhuma obrigação de ir à repartição, tu sabes... Aceitei a situação, meio encabulado... mas a verdade é que me acomodei. E no mais continuei a viver, fascinado pela nova vida, a bela cidade, a praia, o mar... Meti-me em aventuras amorosas que me criavam problemas de consciência (já te contei meu caso com a americana), pois se por um lado o leitor do Omar Khayyam que eu era procurava apanhar e comer sem remorso os frutos do caminho, beber o vinho de todas as taças, por outro não me podia livrar de meus fantasmas familiares. Muitas vezes, quando na cama com uma mulher, eu via grudados no travesseiro os olhos acusadores da Dinda, ou sentia o vulto da minha mãe no quarto, ou então a presença do Outro, da parte do meu Eu que reprovava aquelas promiscuidades sexuais.

— Já reparaste como nesses casos de sexo o Outro é quase sempre a parte mais fraca?

— Eu fazia propósitos de mudar de vida, tornar-me um escritor sério, deixar de ser um parasita do Estado e da família, realizar enfim plenamente o meu ideal de liberdade. Mas que queres? Lá estava sempre a cidade, o calor, as tentações, as mulheres seminuas na praia, e os meus vinte e poucos anos. Sim... e a bolsa paterna. Afinal de contas, meu caro, tu sabes como é bom viver. E assim, alternando momentos de abandono epicurista com crises de consciência, fui vivendo... Mas há outro assunto mais sério... Não sei nem se terei coragem de...

Cala-se. Tio Bicho remexe-se no banco e diz:

— Compreendo. Teu maior problema era ainda o teu pai.

— Precisamente.

— Vou te facilitar o resto da confidência, embora tenha de ser um pouco rude. Tu te preocupavas principalmente com (vamos usar uma frase do código da gente antiga do Sobrado) com a “desintegração moral” do Velho. Certo?

— Certo. Ainda há pouco estive relendo, num jornal, o discurso que papai fez na estação aqui de Santa Fé em outubro de 1930, antes de embarcar para o Norte, no trem que passou com Getulio Vargas e seu Estado-Maior. Ele jurava pelo sangue dos mortos daquela revolução que tudo faria para ajudar a “regenerar o Brasil”.

— Podes acreditar — diz Roque Bandeira — que naquele instante teu pai estava sendo sincero.

Floriano olha para o Sobrado em cuja fachada neste exato momento se apaga a última janela iluminada. Fica por um instante a pensar se deve ou não discutir com Roque uma das noites mais terríveis de toda a sua vida: 3 de outubro de 1930... Mas não — decide —, o melhor será não reabrir a velha ferida...

— O primeiro erro de meu pai — continua — foi ter aceito logo ao chegar ao Rio o cartório que o doutor Getulio lhe ofereceu. Lembro-me de que ele nos explicou, meio constrangido, que fora forçado a isso, pois suas despesas então eram enormes, havia perdido muito dinheiro com a falência do Banco Pelotense, o negócio de gado ia mal, o Angico não estava dando resultado...

— Tudo isso também era verdade.

— Não preciso te repetir, porque sabes, as coisas que se disseram do Velho. Ele tem sido acusado de ter feito advocacia administrativa, de, sendo uma das pessoas chegadas ao doutor Getulio, ter “vendido influência”. Foi apontado também como um dos “príncipes do câmbio negro”. Naturalmente de tudo isso devemos descontar as mentiras e os exageros. Mas houve coisas tão flagrantes, tão claras que até um “cego voluntário” como eu não podia deixar de ver... E a verdade era que o Rodrigo Cambará que em 1932 andava pelos corredores do Catete e dos ministérios, amigo de figurões do Governo Provisório, evidentemente não era o mesmo que menos de dois anos antes havia feito aquele discurso romântico na plataforma da estação de Santa Fé, com lágrimas nos olhos e um lenço branco no pescoço...

— Claro que não era! Teu pai estava vivo, existia. Não podia deixar de mudar, embora não necessariamente nessa direção. Existir é estar sempre emergindo... uma espécie de contínuo deslizar...

— Eu o observava ora com um olho frio e malicioso de romancista, ora com um terno e meio assustado olho filial (e tanto o escritor como o filho se sentiam igualmente fascinados pela personagem) e notava que à medida que ia fazendo concessões à nova vida, ao novo habitat, à medida que ia esquecendo ou transgredindo o famoso código de honra do Sobrado, o Velho (não sei se consciente ou inconscientemente) exagerava suas manifestações exteriores de gauchismo: usava termos e ditados campeiros, ele que sempre foi mais homem da cidade do que do campo, carregava no sotaque gaúcho e chegou até a adquirir no Rio o hábito diário do chimarrão matinal, que não tinha quando deixou Santa Fé.

Floriano cala-se, admirado de estar falando tanto e tão livre de inibições. Que diabo! Era necessário desabafar com alguém. A que outra pessoa de suas relações podia exprimir-se assim com tamanha franqueza? Sua mãe? Não. Ela se recusaria a escutá-lo, obrigá-lo-ia a calar-se. Jango? Faria o mesmo, apenas de maneira mais rude. Bibi? Tempo perdido. A Dinda? Nem por sonhos. Eduardo? Veria o problema apenas à luz do materialismo dialético. Irmão Zeca? Escutaria com afetuosa atenção, mas acabaria analisando o caso sub specie aeternitatis. Sílvia? Talvez... mas com ela gostaria de ter a coragem de discutir outro problema, e com uma franqueza ainda maior.

— Vamos embora — convida Roque, tomando-lhe do braço.

Saem a andar lado a lado, lentamente, sob as estrelas.

— Haverá habitantes em Aldebarã? — pergunta Tio Bicho, erguendo os olhos para o céu e enganchando os polegares nas alças dos suspensórios. — Quando menino, eu me divertia a recriar o cosmos à minha maneira. Inventei que as pessoas que morriam na Terra ressuscitavam com outro corpo noutro planeta. Eu queria renascer em Antares, com o físico do Davi de Miguel Ângelo.

Sem dar atenção às palavras do companheiro, Floriano diz:

— Tenho pensado muitas vezes como se poderia dar, num romance, os diversos estágios dessa... dessa deterioração, dessa decomposição, assim de maneira microscópica, acompanhando a personagem dia a dia, hora a hora, minuto a minuto... Talvez seja impossível. Claro que é... — acrescenta depois de curta pausa. — Conta-se (e aqui temos de novo o folclore de Rodrigo Cambará) que no seu primeiro ou segundo mês de Rio de Janeiro, um aventureiro qualquer se aproximou dele para lhe propor uma negociata, tu sabes, do tipo: “Tu consegues que o presidente assine tal e tal decreto e eu te dou tanto em dinheiro”. Como única resposta papai quebrou-lhe a cara.

— Ouvi também essa história.

— Tu vês... é possível que a contaminação tenha começado nesse momento, apesar do gesto indignado.

— Qual! Teu pai levou daqui de Santa Fé o germe disso a que chamas infecção. O Rio de Janeiro e o Estado Novo foram apenas o caldo de cultura em que o micróbio proliferou...

— Imagina a transplantação. Rodrigo Cambará longe do seu chão, do Sobrado, das suas coordenadas santa-fezenses... Pensa na sedução das oportunidades cariocas, as eróticas e as outras... E os cassinos, e a roleta... E principalmente as fêmeas, e os maridos que chegavam quase a oferecer-lhe as mulheres para obter favores... E as jovens datilógrafas e secretárias... e a necessidade de dinheiro para comprar as belas coisas com que se conquistam as belas mulheres: joias, carros, apartamentos, vestidos... E mais o gosto da ostentação, a volúpia de gastar, de ser adulado, de se sentir prestigioso, querido, requestado... E, envolvendo tudo aquela... aquela cantárida de que está saturado o ar do Rio. Bom, e mais o descomunal apetite pela vida que sempre caracterizou o Velho... Mas de que te ris?

— De ti, da apaixonada veemência com que estás censurando teu pai. Não negues, porque estás... E com a voz, o vocabulário e a tábua de valores da tua mãe, da tua tia, dos teus avôs Licurgo e Aderbal...

— Pode ser, mas...

— E te irrita um pouco não poderes fugir a essa tábua de valores que intelectualmente repudias. No entanto todas essas regras de comportamento, esses tabus, esses “não presta”, “não pode”, “não deve”, “não é direito”, em suma, toda essa moral que no fundo nasceu da superstição e do utilitarismo, estão incrustados no teu ser como um cascão do qual gostarias de te livrar. O que te preocupa também é saber que por baixo dessa crosta és um homem igual a teu pai, com as mesmas paixões, impulsos e apetites... apenas com menos coragem de existir autenticamente.

Param perto do coreto. Floriano dá um pontapé num seixo, que vai bater na base do busto do cabo Lauro Caré. Amanhã — pensa — tenho de aguentar o discursório na hora da inauguração...

— E não quero me inocentar — diz em voz alta. — Pelo meu silêncio, pela minha acomodação, eu me acumpliciei com o Velho durante pelo menos os sete anos em que vivi meio embriagado pelos encantos e facilidades do Rio.

— Isso é história antiga — exclama Tio Bicho. — Não tem nenhuma importância. Joga fora o passado. E alegra-te com a ideia de que o homem é o único animal que tem um futuro.

— Me deixa continuar a história, já que comecei...

— Está bem, mas vamos andando. Estou morto de fome.

Retomam a marcha. Floriano vai segurando o braço do amigo. (Suor antigo, bafio de álcool, sarro de cigarro: o cheiro “oficial” de Roque Bandeira.)

— Algo que tio Toríbio me disse naquele negro 31 de dezembro de 1937, e mais a profunda impressão que sua morte estúpida me causou, fizeram que eu pensasse a sério na minha situação e resolvesse reagir... Em fevereiro de 38 voltamos para o Rio e o Velho quis me meter no Itamaraty sem concurso, como “ventanista”. Garantiu que me arranjaria tudo com facilidade, era tiro e queda. Quando recusei me a prestar à farsa, apesar da atração que sentia pela possibilidade que o posto me daria para viajar, papai ficou furioso. “Que puritano me saíste! Que é que tu pensas? Que és melhor que os outros? Afinal de contas, que queres? Vais passar o resto da vida nesse empreguinho mixe?” Aproveitei a ocasião para lhe dizer que não queria emprego nenhum, que ia abandonar o que tinha para viver minha vida à minha maneira... O Velho ficou tão indignado que quase me esbofeteou. Creio que naquela época andava irritado, incerto de si mesmo. Queria convencer os amigos democratas da legitimidade e da necessidade do golpe de Estado, quando no fundo ele próprio não parecia muito convencido disso. E a maneira que encontrava para compensar seu sentimento de culpa era afirmar-se desafiando ou agredindo os que discordavam dele, fosse no que fosse.

— E não esqueças que a morte do irmão lhe devia estar também pesando um pouco na consciência.

— Pois bem. Pedi demissão de meu “cargo” e passei a viver de artigos de jornal e traduções de livros. Era a ocupação ideal para quem como eu não queria compromisso com horários fixos. E para completar meu “grito do Ipiranga”, decidi deixar o apartamento do doutor Rodrigo com armas e bagagens.

Tornam a parar, desta vez na calçada da praça que dá para a rua do Comércio. Um soldado da Polícia Municipal passa a cavalo e, reconhecendo Roque Bandeira, faz-lhe uma continência.

— Estás vendo? — graceja Tio Bicho. — Ele sabe que sou coronel da Guarda Nacional.

— Foi nesse momento que entrou em cena uma personagem em geral silenciosa ou reticente dessa “tragédia grega de Pathé-Baby”: minha mãe. Em 1937 já a desintegração do clã Cambará no Rio era quase completa. Dona Flora e o doutor Rodrigo (ninguém ignorava lá em casa) já não eram mais marido e mulher, tinham quartos separados, guardavam apenas as aparências... Mamãe e Bibi tinham conflitos de temperamento. Aos dezessete anos minha irmã mandara para o diabo o código do Sobrado e adotara o da praia de Copacabana, o que era motivo para discussões e emburramentos sem fim lá em casa. Eduardo estava já em lua de mel com seu marxismo, começava a sentir-se mal como membro daquela família de plutocratas, e não perdia oportunidade de me agredir por causa do que ele chamava (e ainda chama) de meu “comodismo”. Jango estava longe. Quem sobrava? Este seu criado. Foi nele que dona Flora concentrou seu amor, seus cuidados. Não podes calcular como se impressionava com o meu caso com a americana. Era uma ciumeira danada...

— Tudo isso é natural. Eu me lembro, sempre foste o mimoso dela. E no fim de contas, de todos os filhos, és o mais parecido com o marido que ela perdeu...

— A Velha me suplicou que não abandonasse a casa. Relutei, dei-lhe minhas razões, que não a convenceram. E assim, continuei sob o teto do doutor Rodrigo Cambará, comendo suas sopas...

— E como te tratava ele?

— Nos primeiros dias que se seguiram à nossa altercação, não olhava para mim nem me dirigia a palavra.

— Naturalmente isso não durou...

— Claro. Se há coisa que meu pai não suporta é a ideia de não ser querido, respeitado, consultado, ouvido, obedecido... Depois de duas semanas começou a campanha de reconquista do filho pródigo: primeiro, observações casuais feitas na minha direção, como para testar minha reação... depois, presentes... uma gravata, um livro... entradas para concertos... Por fim eram abraços e até confidências que às vezes me embaraçavam... Mas a verdade é que nos encontrávamos muito pouco. Ele levava uma vida política e social muito intensa. Eu passava parte da manhã na praia, o resto do dia no meu quarto, escrevendo, e à noite ia para a rua.

Floriano faz uma pausa, olha para a grande lâmpada no alto dum poste, a um dos ângulos da praça, e fica a observar o voo das mariposas e dos besouros ao redor do foco luminoso.

— Um dia — continua — me chegou um convite que me pareceu providencial: uma universidade americana me oferecia um contrato de um ano para dar um curso de história da civilização brasileira... Aceitei logo. Era não só a oportunidade de viajar e satisfazer a curiosidade do menino que ainda morava dentro de mim, como também de ficar uma larga temporada longe da minha família, compreendes?

— Como foi que “aconteceu” o convite. Caiu do céu?

Floriano solta um suspiro.

— Qual! A coisa me veio por interferência direta do doutor Rodrigo, no seu papel de Deus Todo-Poderoso. Tinha amigos no escritório do coordenador de assuntos interamericanos... Embarquei para os Estados Unidos para ficar lá um ano, mas acabei ficando três. E agora me deixa pingar o ponto final no “folhetim”. Quinze anos depois da decantada “arrancada de 30”, estamos os Cambarás de volta ao ponto de partida. A família se encontra reunida, se é que posso usar esta palavra. Seu chefe gravemente enfermo. O país numa encruzilhada. E eu, como um pinto a dar bicadas na casca do ovo, tentando acabar de nascer. Que me dizes a tudo isto?

— Ao bife com batatas! — exclama Roque Bandeira, puxando o amigo pelo braço.

Lado a lado começam a descer pela rua quase deserta, na direção da Confeitaria Schnitzler. Com o rabo dos olhos Floriano observa o amigo. Tio Bicho vai na postura costumeira, as mãos trançadas às costas, o casaco aberto, o passinho leve e meio claudicante de quem tem problemas com os joanetes.

— Antes de mais nada — torna a falar Bandeira — não podes, não deves julgar teu pai à luz de suas fornicações extramatrimoniais. O doutor Rodrigo, homem mais do espaço do que do tempo, agarrou a vida à unha com coragem e, certo ou errado (quem poderá dizer?), fez alguma coisa com ela. E aqui estás tu a simplificar o problema, a olhar apenas um de seus múltiplos aspectos. Pensa bem no que vou te dizer. É um erro subordinar a existência à função. O doutor Rodrigo não é apenas o Grande Fornicador. Ou o Amigo do Ditador. Ou o Jogador de Roleta do Cassino da Urca. Ou o Mau Marido. É tudo isso e mais um milhão de outras coisas. O que foi ontem não é mais hoje. O que era há dois minutos não é mais agora e não será no minuto seguinte.

— Eu sei, eu sei...

— Cala a boca. Escuta. O que importa agora é isto: teu pai está condenado. Teu pai vai morrer. É questão de dias, semanas, talvez meses, quando muito. Eu sei, tu sabes e ele também sabe.

Roque estaca, volta-se para o amigo, segura-o fortemente pelos ombros e diz:

— Lá está o teu Velho agora sozinho no quarto, decerto pensando na Torta. Morrer é uma ideia medonha para qualquer um, especialmente para quem como ele tanto ama a vida. Agora eu te pergunto, que gesto fizeste ou vais fazer que esteja à altura deste grande, grave momento?

— Já te disse que estou pensando em ter uma conversa amiga mas também muito franca com ele.

— Eu sei. Tu disseste. Tu repetes. Mas já foste? Já foste?

— Não, mas...

— Olha que não tens muito tempo. Amanhã pode ser tarde demais. Se queres mesmo acabar de nascer, tens de ajustar contas com teu pai no sentido mais cordial e mais legítimo da expressão, através da aceitação plena do que ele é. Não se trata de ir pedir-lhe perdão ou levar-lhe o teu perdão. O que tu tens de fazer, homem, é um gesto de amor, um gesto de amor!

Diz essas palavras quase a gritar, e sua voz ergue-se na noite quieta.

Um pouco impaciente, Floriano desvencilha-se do amigo e diz:

— Não precisas repetir o que eu já te tenho dito tantas vezes. Eu sei muito bem o que devo fazer, o que quero fazer. Mas tu bem sabes que não é fácil. Conheces o Velho. Há certos assuntos em que não posso tocar sem irritá-lo, e isso agora seria perigoso.

Retomam a marcha e dão alguns passos em silêncio. Em cima do telhado da casa da Mona Lisa um gato cinzento passeia.

Mais calmo, Roque prossegue:

— Tudo depende de jeito. Entendam-se como seres humanos. Manda pro diabo o código do Sobrado. Abre o coração para o Velho. Mas abre também as tripas, sem medo. Se for necessário, primeiro insultem-se, digam-se nomes feios, desabafem; numa palavra: limpem o terreno para o entendimento final. O importante é que depois fiquem os dois um diante do outro, psicologicamente despidos, nus como recém-nascidos. Estou certo de que nessa hora algo vai acontecer, algo tão grande como existir ou morrer...

— Ou nascer de novo — completa Floriano.

— Sim. Terminado o diálogo terás cortado para sempre teu cordão umbilical. Te aconselho que o enterres no quintal, ao pé da marmeleira-da-índia. E desse momento em diante passarás a ser o teu próprio pai.

— E ao mesmo tempo o meu próprio filho.

— Sim, e teu próprio Espírito Santo. Por que não, hein? Por que não?

Entram rindo na Confeitaria Schnitzler, e ocupam uma mesa, na sala quase deserta. A um canto Quica Ventura está sentado diante dum cálice de caninha, o chapéu na cabeça, as abas puxadas truculentamente sobre os olhos, um lenço vermelho no pescoço. Roque e Floriano o cumprimentam com certa cordialidade, mas o maragato mal lhes responde com um resmungo e um quase imperceptível movimento de cabeça. A seus pés um perdigueiro dorme com o focinho entre as patas. Marta atravessa a sala arrastando as pernas de paquiderme, e vai servir café com leite e torradas a um casal: um cabo do Regimento de Artilharia e uma mulher de tipo sarará, vestida de solferino e recendente a Royal Briard.

— Não comes alguma coisa? — pergunta Tio Bicho a Floriano, que lhe responde com um aceno negativo de cabeça. — Claro. Teu pai era o homem das ceatas tardias, logo tu as evitas... Espero que não sejas casto...

Entrando no espírito da brincadeira, Floriano exclama:

— Ora, vai-te pro inferno!

A filha do confeiteiro aproxima-se da mesa, risonha. A luz fluorescente dá um tom violáceo à sua pele cor de salsicha crua. Vem dela um fartum de suor temperado com cebola e manteiga.

— Ó Marta — saúda-a Tio Bicho. — Onde está o Júlio?

— Na cama. Anda meio gripado. Hoje vamos fechar a casa mais cedo. Que é que os senhores querem?

— Me manda fazer um bom bife malpassado, com dois ovos fritos e umas batatinhas torradas... Ah! Me traz uma garrafa de cerveja. — Olha para o companheiro. — E aqui para nosso jovem...

Floriano completa a frase:

— Água mineral.

Tio Bicho repete o pedido numa careta de nojo. A mulher faz meia-volta e encaminha-se para a cozinha. Bandeira segue-a com o olhar, murmurando:

— Parece um monstro antediluviano. É incrível. Quando menina, a Marta era uma “pirosca”. — Pisca o olho para o amigo. — Teu pai andou dando em cima dela. Acho que a “alemoa” marchou...

Floriano sorri e, olhando também para as nádegas avantajadas da mulher, murmura:

— Como dizia santo Agostinho, inter urinas et faeces nascimur...

Tio Bicho tira a palheta e coloca-a em cima duma cadeira, a seu lado.

— Botando esse latinório em termos geográficos, quer dizer que saímos dum buraco limitado ao norte pela urina e ao sul pelas fezes...

— E o que depois fazemos vida em fora... literatura, pintura, gestos de heroísmo, de santidade, a busca da sabedoria... não será tudo um esforço para negar, apagar essa nossa origem animal e prosaica? E “pecaminosa”, como diria o Zeca?

— Sim. É também o desejo de nos transcendermos a nós mesmos e exprimirmos a verdade de nossa existência na arte, na religião e na ciência.

Minutos depois, quando Marta volta com o prato e as bebidas, pondo-os sobre a mesa, Tio Bicho lança um olhar alegre para o bife fumegante, coroado por dois ovos e cercado de batatinhas em forma de canoa. Floriano enche o copo do amigo de cerveja e o seu de água mineral. Roque Bandeira põe-se a comer com entusiasmo e em breve tem os lábios e o queixo respingados de gema de ovo. Só faz pausas para tomar largos sorvos de cerveja.

Quica Ventura emborca o cálice de caninha, puxa um pigarro que parece cortar o ar da sala como uma faca dentada, e de novo baixa a cabeça soturna. A mulher do cabo, muito encurvada sobre a mesa, segura a xícara de café entre o indicador e o polegar, enristando o mínimo, enquanto o companheiro tira do bolso um pente e põe-se a pentear amorosamente a cabeleira crespa e reluzente de brilhantina. Marta começa a fechar as janelas. Um cachorro chega à porta, espia para dentro, faz meia-volta e se vai. Floriano fica por alguns instantes silencioso, a mirar o amigo, que come com uma alegre voracidade.

— Marta! — grita Tio Bicho. — Outra cerveja!

A filha do confeiteiro traz nova garrafa. Roque torna a encher o copo e a beber. Depois, limpando com a língua a espuma que lhe ficou nos lábios, diz:

— Queres saber duma coisa? Quando eu dava balanço em minha própria pessoa, levando em conta apenas uma parte da realidade, chegava às conclusões mais pessimistas... Aqui está o Tio Bicho, feio, cabeçudo, cinquentão... Quem sou eu? Um saco de fezes. Uma bostica de mosca na superfície da Terra. E a Terra? Uma bostica de mosca no Cosmos. Que é o tempinho da minha vida comparado com a Eternidade? Agora eu te pergunto, Floriano Cambará: qual é a conclusão a que se chega ao cabo dum raciocínio como esse? É a de que estamos encurralados, num beco sem saída. O remédio é cruzar os braços abjetamente ou meter uma bala na cabeça.

Floriano olha em silêncio para dentro de seu copo.

— Um dia pensei a sério no suicídio — continua Roque. — E sabes o que aconteceu? Quando compreendi que estava a meu alcance acabar com tudo, passei a ter mais respeito pela vida. A ideia da morte, menino, dá à existência mais realidade, mais solidez. Minha vida daí por diante ganhou como que uma quarta dimensão.

Tio Bicho parte um pedaço de pão, esfrega-o no molho amarelento que ficou no fundo do prato, e mete-o na boca.

— Estava eu numa encruzilhada terrível, nesses namoricos com a morte (no fundo eu sabia que não sairia casamento), quando os meus filósofos de colis postaux me valeram. Quem me salvou mesmo foi um alemão. Não te direi o nome dele porque é inútil, não o conheces. Vocês romancistas em geral não estão familiarizados com a gente que pensa...

Bebe novo gole de cerveja, estrala os beiços e continua:

— Sim, concluí eu, ao cabo de sérias leituras e cogitações: posso ser uma porcaria e a Big Cadela me espreita, pronta a saltar sobre mim a qualquer instante... Mas acontece (e é isto que deixa os psicólogos loucos da vida) que há um abismo entre as coisas que são abstratamente verdadeiras e as coisas que são existencialmente reais. Ora, acontece que, queira ou não queira, eu existo nesta hora e neste lugar. Que fazer então com a minha vida? Por que não opor à minha insignificância na ordem universal, à minha mortalidade, à minha impotência diante do Desconhecido uma espécie de... de atitude arrogante... erguer meu penacho, lançar um desafio meio desesperado a isso a que convencionamos chamar Destino? A vida não tem sentido... mas vamos fazer de conta que tem. E daí? Bom, aí eu transformo minha necessidade em fonte de liberação e passo a ser, eu mesmo, a minha existência, a minha verdade e a minha liberdade.

Floriano encara o amigo.

— Mas essa ideia de que somos livres e os únicos responsáveis por nossa vida e destino não será uma fonte permanente de angústia?

— Claro que é.

— E não é a angústia o nosso grande problema?

— Homem, há um tipo de angústia do qual jamais nos livraremos, porque ele é inerente à nossa existência. É o preço que pagamos por nos darmos o luxo caríssimo de ter uma consciência, por sabermos que vamos morrer, e por termos um futuro. Assim sendo, o mais sábio é a gente habituar-se a uma coexistência pacífica com esse tipo de ansiedade existencial, fazendo o possível para que ele não tome nunca um caráter neurótico.

Quica Ventura levanta-se bruscamente, quase derribando uma cadeira, atira uma cédula em cima da mesa e sai do café pisando duro, sem se despedir de ninguém, seguido do perdigueiro sonolento. O soldado faz um sinal para Marta e pergunta-lhe: “Quanto le devo, moça?”.

— E tu achas que essa atitude é uma solução? — murmura Floriano, ao cabo dum curto silêncio.

Roque enfia o chapéu na cabeça e responde:

— Que solução? Não há solução. Como disse um desses berdamerdas europeus, estamos condenados a ser heróis.

Mete as mãos nos bolsos, vasculha-os e depois anuncia:

— Vais ter que pagar a despesa. Estou sem um vintém.