O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Érico Veríssimo · Capítulo 3 de 6

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O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Caderno de pauta simples

Tive esta noite uma longa e para mim proveitosa conversa com o Bandeira

o agente catalisador

o provocador de catarses

o carminativo espiritual.

Contei-lhe coisas que nunca tinha contado a ninguém.

Há pouco, antes de subir até aqui, passei pelo quarto de meu pai e espiei para dentro. O Velho dormia em calma. O enfermeiro roncava, deitado no seu catre junto da porta, como o cão que os vikings costumavam colocar aos pés do guerreiro morto, antes de queimar-lhe o corpo.

Cá estou com as minhas metáforas! Nem meu pai é um guerreiro viking morto nem o enfermeiro é um cão.

Agora me ocorre que talvez o romance nada mais seja que uma longa e elaborada metáfora da vida.

/

Esta noite, debaixo da figueira da praça, quando Tio Bicho me falava no contínuo devir que é a criatura humana, raciocinei assim:

Se existir é estar potencialmente em crise

se o homem não chega nunca à plena posse de si mesmo e de seu mundo

se não é um feixe de elementos estáticos

como descrevê-lo no ato de existir senão em termos dinâmicos? E como conseguir isso num romance? Não creio que tal coisa seja possível por meio dum processo lógico. Dum passe de magia, talvez.

Mas acontece que sou apenas um aprendiz de feiticeiro.

Nada mais embaraçoso para um escritor do que desconfiar das palavras, dos símbolos e das metáforas.

O Pto Donald transpõe a beira do abismo e, distraído, continua a caminhar no vácuo, com toda a naturalidade, como se estivesse pisando terra firme. Mas quando olha para baixo e dá pela coisa, fica em pânico e cai.

Só depois que li um livro sobre semântica geral é que percebi, com um frio de entranhas, que passara a vida caminhando desavisadamente sobre o vácuo, como Pato Donald. A sorte é que, em matéria de linguagem, os abismos não têm fundo e a gente nunca termina de cair.

Mas isso também é uma metáfora.

/

O mapa não é o território.

Um mapa não representa todo o território.

Claro. Um romance não é a vida. Não representa toda a vida.

Afirmam os semanticistas que o mapa ideal seria aquele que trouxesse também o mapa de si mesmo, o qual por sua vez devia apresentar seu próprio mapa. Teríamos então

o mapa

o mapa do mapa

o mapa do mapa-do-mapa.

Imagine-se um romance que trouxesse em seu bojo o romance de si mesmo e mais o romance desse romance-de-si-mesmo.

Nessa altura o romancista franze a testa, alarmado.

Que tipo de mapa me irá sair esse que estou projetando traçar do território geográfico, histórico e principalmente humano de minha cidade e, mais remotamente, do Rio Grande?

Na escola o Menino aprendeu que

De todas as artes a mais bela,

A mais expressiva, a mais difícil

É, sem dúvida, a arte da palavra.

De todas as mais se entretece

E compõe. São as outras como

Ancilas e ministros; ela,

Soberana universal.

Mas ninguém lhe ensinou que

a palavra não é a coisa que representa

e que toda a sentença deveria ser seguida implicitamente dum etc., para lembrar ao leitor ou ao interlocutor que nenhuma afirmativa — seja sobre pessoas, animais, coisas ou fatos do mundo real — jamais pode ser considerada definitiva.

E que é possível escrever ou dizer palavras a respeito de palavras

e palavras a respeito de palavras-a-respeito-de-palavras

e que portanto, no plano do comportamento individual, pode um homem reagir às suas reações e depois reagir também às suas reações às suas reações...

E assim por diante até o dia do Juízo Final. Que deve ser — desconfio — um outro equívoco semântico.

/

Meu avô Babalo, plagiando Heráclito sem o saber, costuma dizer que

ninguém cruza o mesmo rio mais duma vez.

Por quê, seu Aderbal?

Porque o rio corre, como o tempo, e as águas de hoje não são mais as de ontem.

Uma vez que o mundo e tudo quanto nele

existe se encontra num processo de mutação,

sugerem os semanticistas que todos os

termos, afirmações, opiniões, ideias,

tragam uma data.

Bem, mas é melhor parar aqui...

Sim, e descer para meu quarto e tentar dormir. Quase duas da madrugada. Mas o diabo é que estou sem sono. Lá embaixo a proximidade de S. me perturba. E também me sinto perto demais da morte de meu pai.

Estranho. Aos trinta e quatro anos ainda encontro neste cubículo um pouco da sensação de segurança e proteção que tão voluptuosamente tranquilizavam o Menino. De onde se conclui que meu objetivo principal agora deve ser mesmo o de abandonar duma vez por todas a torre, o refúgio, o ventre materno (eu ia quase escrevendo “paterno”).

Em suma, quebrar a bicadas a casca do ovo onde estou semiencerrado, e acabar de nascer.

Quanto à semântica... viva Aristóteles!

/

Este nome me traz outros à mente.

Descartes

Voltaire

Rousseau

Lamartine

Montaigne

Taine

Renan

Nomes em letras douradas que o Menino costumava ler nas lombadas dos livros da biblioteca do pai,

onde havia também espécimes duma literatura nada respeitável

delgadas brochuras de papel gessado

novelas de bulevar com ilustrações sugestivas

coristas dançando cancã

bons pedaços de coxas nuas entre as meias negras e as rendas das calcinhas.

/

O dr. Rodrigo era um parisiense extraviado em meio das coxilhas da região serrana gaúcha. Imagino que meu pai, em avatares prodigiosos,

dançou minuetos na corte do Rei Sol

e mais tarde, com a turba dos sans-culottes, assaltou a Bastilha.

Como bom bulevardeiro, em épocas várias foi

um Muscadin

um Incroyable

um Gandin

um Raffiné

um Dandy.

Seguiu os exércitos de Napoleão e, com cada soldado que caía, gritava: “Vive l’Empereur!”.

Car ces derniers soldats de la dernière guerre

Furent grands: ils avaient vaincu toute la Terre.

E, quando Victor Hugo completou oitenta anos, nosso herói lá estava na multidão que foi cobrir de flores a calçada, à frente da casa do Poeta.

Tomou intermináveis absintos com Verlaine nos cafés de Montparnasse.

Frequentou o Moulin Rouge

sentou-se à mesa de Toulouse-Lautrec

riu-se das piruetas de La Goulue

e pagou bebidas para o magro Valentin.

E em certas manhãs de sol, de braço dado com Anatole France, percorreu os buquinistas ao longo do cais do Sena.

Oui, cher Maître, vous avez raison: la clarté, toujours la clarté.

O primeiro tiro de canhão da Guerra de 1914 pingou um ponto final na Belle Époque.

Agora abram alas para os boys do Tio Sam

que vêm salvar o mundo para a Democracia

com suas almas e suas armas

sua eficiência

e sua inocência.

Terão seu batismo de fogo nos campos de Château-Thierry

e seu batismo de sexo na cama das demoiselles d’Armentières.

São filhos dum Mundo Novo

cujo passado de glórias,

thank God!,

está todo no futuro.

/

Ó carambolas do Destino!

A Pathé Films queria aumentar seus lucros

e Mr. Hearst, a circulação de seus jornais.

Vai então se juntaram o magnata e os cinemeiros

para produzirem um filme seriado

que sacudisse o público dos USA.

Cada episódio devia aparecer no mesmo dia nas páginas dos diários e nas telas dos cinemas.

E assim nasceram Os mistérios de Nova York.

Os rolos de celuloide, postos em latas como de goiabada, eram exportados e iam através do mundo alimentar a fantasia de centenas de milhares de seres humanos, entre os quais estava

um remoto menino

numa remota cidade

num remoto país.

Cada episódio terminava deixando a história suspensa e nossos corações apertados

A destemida Elaine na cova dos leões

ou dentro dum submarino que ia ser dinamitado

ou amarrada nos trilhos pelos bandidos (e o trem vinha vindo, vinha vindo, vinha vindo).

Conseguirá a heroína salvar-se?

É o que veremos na próxima semana no episódio intitulado

“A caverna do desespero”.

/

Pela mão de Pearl White entrei nesse Mundo Novo, preparado para aceitar seus mitos e ritos.

Era uma terra de

caubóis

boy scouts

mecânicos

esportistas

humoristas

samaritanos

puritanos

estatísticos...

Um mundo em que havia muitas maneiras de ser herói:

salvando a mocinha das garras dos malfeitores

ajudando uma senhora idosa a atravessar a rua

dizendo a verdade como o menino George Washington

fazendo-se campeão de beisebol

ficando milionário pelo próprio esforço

batendo um recorde qualquer

inventando uma engenhoca

ou uma religião.

No Cine Recreio do Calgembrino, através de toda uma enciclopédia americana de celuloide, aprendi que

o mexicano era bandido

o chinês, traiçoeiro e cruel

o negro, um ser inferior

o europeu, um homem grotesco de cavanhaque e fraque.

E que bom, bravo e belo

era o americano branco

(se protestante, tanto melhor).

Eddie Polo, de torso nu, derrotava sozinho a socos sete peles-vermelhas armados de arcos, flechas e Winchesters.

William S. Hart, o caubói que nunca ria, duas pistolas no cinto, olhos de lince, a boca um só traço no rosto de aço, era o terror do faroeste, mas sempre do lado da Lei e do Bem.

E havia também a menina Pollyanna, que nos fazia chorar

a doce Mary Pickford

a namorada da América

esposa do atlético Douglas Fairbanks

ágil e elegante como um galgo

em seus pulos sensacionais.

/

Quando o Menino se fez adolescente, quem contribuiu para completar sua educação ianque foi um missionário metodista do Texas, vizinho do Sobrado.

O rev. Robert E. Dobson

perfil de águia

pescoço de peru

coração de pomba.

Passava ao rapaz por cima da cerca, no fundo do quintal, números atrasados de revistas americanas, em cujas páginas se viam

brancos bangalôs em meio de verdes tabuleiros de relva

belas, coradas raparigas anunciando

sabonetes

aveia Quaker

Coca-Cola

automóveis

laranjas e limões.

Missões franciscanas ao claro sol da Califórnia

os arranha-céus de Nova York

milionários flanando nas areias de Palm Beach

miríficas máquinas que tudo faziam, bastando que a gente

apertasse um botão.

Eram imagens dum mundo asséptico, elétrico, envernizado e em tricromia, no qual o adolescente buscava refúgio quando seu mundinho santa-fezense o entristecia, entediava ou agredia.

/

Deixei a pena correr nas páginas que ficaram para trás. Está claro que estou sendo esquemático e possivelmente fazendo uma fantasia em torno de outra fantasia. Mas que importa? Escrevo para mim mesmo. Não creio que as notas deste caderno possam ser aproveitadas no romance que estou projetando. O que procuro agora é explicar a mim mesmo por que minha gente e minha terra sempre foram os grandes ausentes nos meus livros. E por que até hoje não usei em meus romances minhas vivências gaúchas. Tio Bicho tem razão: o Pássaro Azul bem pode estar no quintal do Sobrado ou nos capões do Angico. Ou escondido dentro de mim mesmo. Frase besta. Mas que diabo! Preciso ter intimidade pelo menos comigo mesmo. Ter intimidade com alguém é a rigor não esconder desse alguém a nossa nudez mais nua, e os nossos erros e ilusões, por mais tolos que possam ser ou parecer.

/

Para o Adolescente (e essas ideias, em grau maior ou menor, contaminaram o adulto insidiosamente) era inconcebível que

o homem da casa vizinha

ou o de sua própria casa

o vendeiro da esquina

o escrivão da coletoria

o peão de estância

o aguateiro

ou a prostituta municipal

pudessem ser heróis de novela.

A aventura só podia acontecer para além dos horizontes domésticos: era o estrangeiro. Achava o Adolescente que pessoas, animais, coisas e paisagens que o cercavam estavam embaciados pela cinza do não novelesco, azedados pelo ranço do cotidiano.

Mas é preciso não esquecer também que o moço quietista e arredio que olhava o mundo com um morno olho poético, achava difícil compreender, estimar e descrever artisticamente uma gente extrovertida e sanguínea como a do Rio Grande, que se realiza mais na ação que na contemplação, mais na guerra que na paz.

/

O relógio lá embaixo bate três horas. Lembro-me de certas madrugadas terríveis da minha infância, nas quais procuro não pensar muito.

Eu tinha dez anos. Alicinha estava gravemente enferma, desenganada pelos médicos. Seus gritos me acordavam de madrugada — guinchos medonhos que transfixavam minha cabeça, meu peito, o casarão, a noite... Mesmo depois que cessavam, continuavam a doer no silêncio. E eu, sem poder dormir, ficava ouvindo o relógio bater as horas. Muitas noites, com lágrimas nos olhos, pedi a Deus que não deixasse minha irmã morrer. Prometia rezar mil padre-nossos e mil ave-marias, se ela se salvasse.

Mais de uma vez eu vira Alicinha retorcer-se em cima da cama em convulsões como de epiléptica. Seus olhos, duros e fixos, parecia que iam saltar das órbitas. Tinha no pobre rostinho uma expressão de cego pavor. Sua magreza — a pele lívida em cima dos ossos — tornava-a irreconhecível. (Que é a formosura — pensou o estudioso menino — senão uma caveira bem vestida a que a menor enfermidade tira a cor? Padre Antônio Vieira. Seleta em prosa e verso.)

Uma madrugada os gritos da menina começaram exatamente quando o relógio acabava de bater três horas. Foram aos poucos enfraquecendo, até cessarem por completo.

Ao clarear do dia Laurinda veio me contar que Alicinha tinha morrido durante a noite. Os galos pareciam estar anunciando à cidade a triste notícia.

Pulei da cama sem dizer palavra. Vesti-me mas recusei ir ver a defunta. Subi para este refúgio e à tarde, ali da janela, vi o enterro sair, primeiro do Sobrado e depois da igreja. O remorso e o medo de ser punido me estrangulavam.