O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Érico Veríssimo · Capítulo 6 de 6

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O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Caderno de pauta simples

Ao anoitecer tivemos de chamar o médico às pressas; o Velho se encontrava em estado de angústia, respirando com dificuldade e temendo uma recidiva do edema.

Nosso Camerino medicou seu impossível paciente e proibiu-o de receber visitas esta noite, fosse de quem fosse.

Está claro que a passagem de Sônia pela frente do Sobrado deixou-o perturbado. Estou certo também de que foi ele quem pediu à rapariga que fizesse aquele passeio.

O curioso é que nós quatro ficamos desconcertados ante a cena, cada qual à sua maneira e por suas razões. Para disfarçar meu embaraço, procurei comentar o fato objetivamente, mas esbarrei no silêncio encabulado do Zeca e no silêncio indignado do Edu. Mas Bandeira, refeito do choque (no fundo esse filósofo que quer parecer cínico não passa dum moralista), tratou de encarar a situação racionalmente. Examinamos seus muitos aspectos e naturalmente não chegamos a nenhuma solução.

Irmão Zeca escapuliu-se ao primeiro pretexto. Eduardo resmungou marxices. Achará ele que num Estado comunista coisas como essa não podem acontecer? Esperará que um soviete brasileiro possa regular o desejo carnal, controlar os pruridos sexuais, burocratizar o amor?

Curiosa a inibição que todos sentem (inclusive eu mesmo) de atacar de frente, como coisa natural, os assuntos de sexo...

Estou pensando agora numa coisa. Como poderei escrever o meu “pretensioso” romance-rio sobre os gaúchos, esses saudáveis carnívoros sensuais, sem falar (e muito) em sexo? Ou sem deixar que eles usem livremente sua própria linguagem, com todos os palavrões que com tanta frequência e espontaneidade lhes saem das bocas?

Privá-los desse vocabulário escatológico seria quase o mesmo que capá-los. Sim, uma castração psicológica. E um atentado à autenticidade da história.

As pessoas em geral têm mais medo das palavras do que das coisas que elas significam. Para muita gente é mais fácil cometer um desses atos que se convencionou chamar de imorais do que dar-lhe expressão verbal.

Por outro lado, conheço velhas damas gaúchas completamente desbocadas e verbalmente pornográficas mas que, não obstante, na vida privada são esteios da virtude e da moralidade, impecáveis matronas romanas.

/

Sônia me pareceu um misto de ave pernilonga e felino. Agora, revendo-a com a memória, sinto nela algo de reptil. É a teiniaguá da lenda da salamanca do Jarau. A lagartixa encantada que desgraçou o sacristão. Uma teiniaguá que não carrega seu carbúnculo ardente na cabeça, mas noutro lugar.

Há poucos dias reli essa lenda na versão de Simões Lopes Neto. Estou pensando agora que minha iniciação sexual aos quinze anos tem uma certa analogia com a aventura do gaúcho Blau Nunes.

Alma forte e coração sereno! A furna escura está lá: entra! entra! — disse o fantasma do sacristão. — E se entrares assim, se te portares lá dentro assim, podes então querer e serás ouvido.

Mas havia sete provas a vencer.

Blau Nunes foi andando. Entrou na boca da toca, meteu-se por um corredor de onde outros sete corredores nasciam.

Foi numa noite de dezembro, nas férias depois do meu primeiro ano no Albion College.

Por ordem de meu pai, tio Toríbio apadrinhava minha iniciação, levando-me à casa duma

mulher. Pelo caminho dava-me conselhos, como a alma do sacristão dera a Blau.

Entramos no Purgatório, metemo-nos em becos e labirintos como os com que se

defrontou o herói da lenda.

Mãos de gente invisível batiam no ombro de Blau Nunes.

Eu sentia no ombro a mão de minha mãe

e parecia-me ouvir sua voz:

Não vás! Volta, meu filho! Não vás!

Blau meteu o peito por entre um espinheiro de espadas.

Na escuridão duma ruela esbarrancada, atravessamos uma cerca de unhas- -de-gato, cujos espinhos me arranharam as mãos.

Blau Nunes foi andando. Eu também.

Num cruzamento de carreiros ouviu-se um ruído de ferros que se chocavam.

Na frente dum boliche homens brigavam num corpo a corpo. Adagas e espadas tiniam,

tio Toríbio sussurrou:

Não é nada. É uma patrulha do Exército contra uma patrulha da polícia.

Puxou-me pelo braço e entramos noutro beco, que desembocava noutro beco, de onde

saía ainda um outro beco. Um suor frio me escorria pelo corpo.

Vai então jaguares e pumas saltaram aos quatro lados de Blau Nunes.

No lusco-fusco cachorros nos atacaram, latindo, os dentes arreganhados. Tio Toríbio

espantou-os com pedradas.

Blau Nunes meteu o peito e continuou a andar.

Agora era um lançante e ao fim dele o gaúcho parou num redondel tapetado de ossamentas humanas.

Passamos por um pequeno cemitério, e minha imaginação viu no escuro esqueletos

brancos dançando uns com os outros.

Por fim chegamos à casa da mulher.

Escolhi esta rapariga — disse Tio Toríbio — porque é limpa e de confiança. Não é china

de porta aberta. Por sinal, mora com a família.

Blau Nunes foi rodeado por uma tropa de anões, cambaios e galhofeiros, fandangueiros e volantins, que pulavam como aranhões e faziam caretas impossíveis para rostos de gente.

Quando entramos na mei’água as crianças da casa (uns sete, contei, mesmo no meu

espanto) nos cercaram pulando e gritando, feios, seminus e barrigudos.

Por trás dum cortinado havia um socavão reluzente. E Blau Nunes viu sentada numa banqueta, fogueando cores como as do arco-íris, uma velha encurvada e toda trêmula.

Sentada a um canto, pitando um cigarro de palha cuja brasa lucilava na penumbra, vi

uma velha encarquilhada. Tio Toríbio murmurou:

É a avó da menina.

E, dirigindo-se à velha: Boa noite, dona Pulca, onde está a Carmelinda?

No quarto. ‘Tá esperando. Pode entrar.

Meu tio me deixou sozinho com a teiniaguá, que se enroscou em mim e me puxou para

a cama.

E então procurei sôfrego a cova escura e úmida

varei o cerro coberto de matagal.

Meu coração batia

meu corpo inteiro latejava

eu tinha vencido as sete provas

e dentro da salamanca estava o tesouro

e os prazeres cobiçados

e o meu documento de homem.

/

Basta. Levei longe demais a fantasia. Decerto forcei a memória a me fornecer elementos para a analogia.

Blau Nunes, alma forte e coração sereno, venceu os sete obstáculos. Ofereceram-lhe como prêmio todos os dons que um mortal pode desejar. Mas ele disse que cobiçava a teiniaguá.

Eu queria a ti, porque tu és tudo!

És tudo o que eu não sei o que é,

porém que atino que existe fora de mim,

Em volta de mim

Superior a mim...

Eu queria a ti, teiniaguá encantada!

Estará nessa lenda a chave da alma e do destino do gaúcho? Enigma a decifrar.

/

Avisto ali na estante de livros a lombada do Pygmalion de Bernard Shaw. Uma brochura da Coleção Tauchnitz. Apanho-a e leio a dedicatória na terceira página.

For my dear, dear Floriano,

with best wishes from his

devoted

Marjorie W. Campbell

Porto Alegre, December 5, 1928

O Albion College... Importante capítulo da minha adolescência.

Éramos acordados às seis e meia da manhã. Ginástica às sete. Banho frio às sete e meia. Café às oito.

Antes de cada refeição Mr. Campbell lia pequenos trechos da Bíblia com sua voz de mordomo inglês.

Nas manhãs de sábado, numa paródia de alpinismo, saíamos a escalar o morro da Polícia.

O diretor abria a marcha, com seu verde chapéu bávaro, sua camisa escocesa, seus knickerbockers, suas botinas com agarradeiras nas solas, e sua bengala com ponteira de metal.

Os alunos o seguiam em fila indiana.

Sem tirar o cachimbo da boca, Mr. C. costumava cantar pelo caminho uma canção que os Tommies cantavam durante a Guerra.

It’s a long way to Tipperary

It’s a long way to go...

A mulher do diretor em geral caminhava a meu lado, e achava sempre um pretexto para me pegar a mão.

Help me, dear boy!

Os meninos caminhavam com o olhar no chão. Dizia-se que o morro estava infestado de aranhas venenosas.

Quando chegávamos ao cume, Mr. C. respirava a plenos pulmões, movendo ritmicamente os braços, e exigia que fizéssemos o mesmo.

Nesses momentos assumia ares de triunfador, como se tivesse acabado de atingir as culminâncias do Himalaia. Só lhe faltava plantar no topo do morro a bandeira da Inglaterra.

Voltávamos para o colégio, cansados. E com um apetite de lobos.

/

Foi no meu derradeiro ano no Albion, na época em que sofri de insônias.

Mrs. Campbell compadeceu-se de mim — pity! pity! poor boy! — e me fazia tomar todas as noites, antes de ir para cama, um copo de leite morno.

Uma ocasião, depois que as luzes do dormitório se apagaram, ela entrou furtivamente no meu quarto, perguntou como eu me sentia, ajeitou-me as cobertas, acariciou-me rapidamente os cabelos, sussurrou: sleep tight, dear boy, and have sweet dreams — e se foi.

Outra noite, já tarde, sua presença no quarto se denunciou primeiro por uma fragrância de lavanda. Ouvi quando a mulher do diretor fechou a porta, vi seu vulto acercar-se de mim.

Pobrezinho! Insônia é uma coisa tão, tão horrível!

Sentou-se na cama e disse que ia cantar em surdina uma velha balada da Escócia, para me ninar. Sua voz, trêmulo falsete, era uma caricatura de soprano.

A coisa toda me divertia, e ao mesmo tempo me fazia sentir pena da criatura, e também me constrangia e alarmava, pois eu sabia o que estava para vir.

No princípio da balada, Mrs. C. me afagava os cabelos.

No meio da balada era meu ombro que seus dedos friccionavam.

Quando a cantiga terminou, a mão da inglesa insinuou-se por baixo das cobertas e, como uma aranha-caranguejeira, me subiu coxa acima, à procura de algo que não lhe foi difícil encontrar.

Senti a respiração arquejante da mulher bafejar-me a face.

Soltando um gemido débil, Mrs. C. meteu-se inteira debaixo das cobertas.

Don’t be afraid, dear one!

Decerto julgava que me ia desvirginar. Tive ímpetos de dizer-lhe que era homem, que já conhecera muitas mulheres.

Continuei, porém, calado e imóvel, deixando que ela tomasse todas as iniciativas.

Seus beijos, quentes na intenção mas frios no contato, sabiam a Odol e a uísque.

Nessa primeira noite Mrs. C. manteve um relativo decoro. Mas nas seguintes seus ardores foram ganhando aos poucos uma intensidade frenética. Por fim ela já me murmurava ao ouvido, com seu sotaque britânico, obscenidades brasileiras. (Onde, quando e com quem as teria aprendido?)

Havia momentos em que eu me assustava, com a impressão de que ia ser devorado ou privado de alguma parte essencial da minha anatomia.

Havia momentos em que o Cambará que dormia dentro de mim despertava e vinha à tona. E eu tinha então a orgulhosa ilusão de que estava cavalgando o Império britânico!

Mrs. C. devia andar pelos seus trinta e cinco anos, mas para o adolescente era uma senhora idosa.

Isso não só me impedia de ter por ela um desejo autêntico, integral, como também me deixava perturbado, com a desagradável sensação de estar cometendo incesto.

A esse constrangimento se mesclava o puro temor de sermos descobertos.

E Mr. Campbell — perguntei uma noite. — E se ele entra de repente e descobre tudo?

A mulher, que me apertava contra seu corpo, soltou uma risadinha seca.

Não se preocupe. Mr. Campbell a esta hora anda atrás de seus meninos. Tem um fraco pelos louros de pele branca. Eu prefiro os morenos.

Depois de nosso primeiro contato carnal, pensei que a inglesa não me desse mais uma noite de folga.

Enganava-me. Mrs. C. era metódica. Vinha a meu quarto apenas nas noites de quarta-feira.

Fiquei sabendo depois que tinha outros amantes. No internato havia mais rapazes morenos que louros...

Essa situação durou quase todo um ano letivo.

Quando os colegas descobriram a minha história, não me deixaram mais sossegar com seus trotes e dichotes, suas alusões veladas ou claras ao caso.

Mas neguei tudo. Continuei a negar até o fim.

Depois daquele ano não tornei a rever o Albion College.

Jamais contei essa aventura a quem quer que fosse.

Por que a relembro agora?

Talvez para contar ao homem adulto o segredo do adolescente.

Aconteceu também que naquele último ano de internato meu amor platônico por Mary Lee havia chegado a seu zênite.

A menina teria seus treze ou quatorze anos.

Loura e espigada, parecia uma guardadora de gansos saída dum conto de fadas.

Era, para o adolescente, uma espécie de anti-Marjorie Campbell.

Uma personificação das coisas belas, puras e inatingíveis.

Filha dum missionário episcopal, americano de Alabama, morava na casa vizinha ao colégio. Frequentava os Campbells, a cuja mesa muitas vezes se sentava, no refeitório geral, para meu encanto e espanto.

Eu a adorava de longe.

Muitas vezes, escondido atrás do tronco de um dos cedros do jardim, ficava contemplando a menina dos cabelos de ouro, que, sentada na beira da fonte do fauno, traçava com o dedo desenhos n’água.

Certa manhã (findava o ano, e nós já fazíamos as despedidas) reuni todas as forças de que era capaz, furtei uma rosa vermelha do jardim e dei-a a Mary Lee.

Ela se negou a aceitar a flor. Encolheu os ombros. Virou-me as costas. E com sua clara e fina voz de cristal, disse:

I don’t like you, negro boy. Go back to where you belong.

Não me lembro de nada que me tenha doído tanto como esse gesto e essas palavras.

FIM DO SEGUNDO TOMO

Cronologia

Esta cronologia relaciona fatos históricos a acontecimentos ficcionais dos três volumes de O arquipélago e a dados biográficos de Erico Verissimo.

 

1916

 

Nascimento de

 

O deputado João

 

Antônio

 

1917 Cambará

 

(Jango), filho

O Brasil declara

de

guerra

Rodrigo e

à Alemanha.

Flora.

Em 11 de

 

novembro,

 

ocorre a Revolução 1918

Comunista na

 

Rússia. Nascimento de Começo da Eduardo

 

formação Cambará,

 

da União Soviética. filho de Rodrigo

 

Na Europa, e

 

levantes de Flora.

 

soldados e Nacimento

 

marinheiros de Sílvia,

 

do Exército alemão afilhada de

 

forçam a Alemanha Rodrigo, que se

 

a casará

 

pedir armistício. A com Jango.

 

paz

 

é assinada a seguir 1920

 

e

Nascimento de

funda-se a Liga das

Bibi

Nações Unidas.

Cambará, filha

No Rio Grande do Sul, de

 

Borges de Medeiros Rodrigo e

 

é Flora.

 

reeleito para mais

 

um 1922

 

mandato.

Em fim de

 

1922 Outubro,

Licurgo afasta-

 

Em fevereiro se do

 

realiza-se Partido

 

a Semana de Arte Republicano

 

Moderna no Teatro por não

 

Municipal, em São concordar com

 

Paulo. apolítica de

 

Em julho, em meio Borges

 

às revoltas de Medeiros tenentistas, para

 

eclode a revolta do os municípios.

 

Forte de Rodrigo e Flora

 

Copacabana. retornaram de

 

Fundação do uma

 

Partido viagem ao Rio

 

Comunista do Brasil de

 

(PCB). Janeiro.

 

Início do governo Rodrigo

 

de renuncia ao

 

Artur Bernardes. cargo de

 

Na Itália, ascensão deputado

 

do estadual pelo

 

fascismo. Partido

 

No Rio Grande do Republicano.

 

Sul, Rodrigo

 

para as eleições do participa

ativamente da

 

campanha

 

governo estadual, oposicionista.

 

o Partido

 

Federalista e

 

os dissidentes do

 

Partido

 

Republicano

 

fundam

 

a Aliança

 

Libertadora

 

(que depois origina

 

o Partido

 

Libertador)

 

e lançam a

 

candidatura

 

de Joaquim

Francisco

 

de Assis Brasil.

 

Borges de Medeiros

 

vence as eleições,

 

em

 

meio a acusações

 

de fraude.

 

1923

Lenço encarnado

 

Licurgo,

1923

Rodrigo e

 

Toríbio

Inconformados,

organizam a

federalistas e

Coluna

dissidentes

Revolucionária

começam uma

de Santa Fé e

rebelião

partem armada. Os para o interior

 

republicanos do

 

seguidores de município e

 

Borges adjacências.

 

de Medeiros No inverno,

 

passam a Licurgo

 

ser conhecidos é morto em

 

como combate,

 

"chimangos". num tiroteio

 

Os federalistas contra os

 

(maragatos) inimigos

 

passam governistas.

 

a ser chamados de Com o acordo

 

"libertadores". A de paz,

 

luta Rodrigo e

 

armada se expande Toríbio

 

por voltam ao todo o estado. Sobrado.

 

Em 7 de novembro

 

é

 

assinado um

 

armistício

 

entre federalistas.

 

Em 14 de

 

dezembro,

 

paz definitiva com

 

o

 

acordo conhecido

 

como

 

Pacto de Pedras

 

Altas.

 

A paz foi assinada

 

no

 

castelo de Assis

Brasil,

 

na presença do

 

ministro

 

da Guerra, gen.

 

Setembrino de

 

Carvalho. Morre Rui

 

Barbosa.

 

Um certo major

 

Toríbio

 

1924

 

1924

Em julho,

 

Revolução Morre Alicinha,

 

Tenentista em São a filha

 

Paulo. As forças predileta de legalistas atacam a Rodrigo.

 

cidade, usando até Desolado,

 

aviões. Sob o Rodrigo

 

comando abandona

 

do gen. Isidoro definitivamente

 

Dias a

 

Lopes, os rebeldes profissão de

 

se médico,

 

retiram para oeste, vende a

 

chegando ao norte farmácia e o

 

do consultório.

 

Paraná. Em dezembro,

 

Em outubro Toríbio

 

eclodem sai de Santa Fé

 

revoltas nas e se

 

guarnições junta à Coluna

 

militares da região Prestes.

das

 

Missões, no Rio

 

Grande

 

do Sul.

 

Perseguidos, os

 

rebeldes se movem

 

para

 

o norte, iniciando a

 

Coluna que levaria

 

o 1925

 

nome do cap. Luiz

 

Carlos Prestes. Floriano vai

 

Reúnem-se às para um

 

colunas colégio interno

 

revolucionárias de em

 

São Porto Alegre.

 

Paulo e começam a marcha que durou

 

dois

 

anos e percorreu 24

 

mil

 

quilômetros pelo

 

território nacional.

 

Em abril, a Coluna

 

Prestes avança

 

para

 

o norte, incitando

 

as

 

populações locais a

 

reagir contra as

 

oligarquias.

 

Morre Lênin.

1926

 

Fim do governo de

 

Artur Bernardes.

 

O paulista

 

Washington

 

Luís é indicado para

 

substituí-lo na

1927

presidência.

 

Toríbio, feito

1927

prisioneiro,

 

escapa de

A Coluna Prestes se

ser fuzilado.

desfaz e os

Localizado

principais

pela familía no

líderes refugiam-se

Rio de

na

Janeiro, Bolívia. retorna a

 

Santa Fé.

O cavalo e o

 

obelisco 1928

 

1928 Rodrigo

 

Cambará

 

Getulio Vargas é torna-se

 

eleito intendente de

 

governador do Rio Santa Fé.

Grande do Sul.

 

1929

 

1929

Quebra da Bolsa de

 

Valores de Nova Floriano decide

 

York. tornar-se

 

Colapso da escritor. economia

 

cafeeira no Brasil.

 

Paulistas e mineiros

 

se

 

desentendem sobre

 

a

 

sucessão

 

presidencial.

 

O gaúcho Getulio

 

Vargas e o

 

paraibano

 

João Pessoa, como

 

vice,

 

lançam-se candidatos

 

pela oposição.

 

Vitória

 

eleitoral de Júlio

1930

Prestes, candidato

 

dos

Rodrigo

paulistas, em meio

arregimenta

a

forças

acusações de

oposicionistas

fraude.

em

 

Santa Fé e

1930

invade o

 

Inconformadas, as quartel do

 

oligarquias Exército,

 

dissidentes obrigando o

 

resolvem assumir filho mais o comando de uma velho, Floriano,

 

conspiração contra a

 

o governo. participar da

 

Em 30 de julho, luta.

 

João Morre o ten.

 

Pessoa é Bernardo

 

assassinado no Quaresma,

 

Recife. Embora o amigo da

 

crime família, que

 

tenha motivos defendia

 

pessoais, a posição

 

deflagra enorme legalista.

 

comoção política, Rodrigo aceita

 

favorecendo a o

 

revolta. convite de

 

Em 3 de outubro, Getulio

 

eclode a revolta no Vargas, chefe Rio da

 

Grande do Sul. Em revolução

 

seguida, vitoriosa, e

 

oposicionistas viaja ao Rio de

 

insurgem-se no Janeiro

 

Nordeste, sob o no mesmo

 

comando de Juarez trem que o

 

Távora, e em Minas novo

 

Gerais. Ocorrem presidente.

 

tiroteios sangrentos

 

em

 

Porto Alegre, que

 

logo

 

cai em poder dos

 

rebeldes.

 

Na iminência de

 

uma

guerra civil, os

 

chefes

 

militares depõem o

 

presidente

1930-1931

Washington

 

Luís. Em 3 de Para resolver a

 

novembro, Getulio crise

 

Vargas assume o financeira da

 

governo provisório família,

 

do Brasil. Rodrigo aceita

 

um

Noite de Ano-Bom

cartório no Rio.

1932 Flora e

 

os filhos

 

Em São Paulo, mudam-se para

 

insatisfação contra o Rio de

 

o governo. Janeiro.

Exigência

 

de nova

 

constituição

 

para o Brasil.

 

No Rio Grande do

 

Sul,

 

Borges de Medeiros

 

adere ao

 

movimento.

 

Em 9 de julho,

 

começa 1932

 

a luta armada em São Em Santa Fé,

 

Paulo. Após três Toríbio

 

meses apoia a revolta.

 

de guerra civil, os

 

rebeldes rendem-se

 

às

forças federais.

 

Formação da Ação

 

Integralista

 

Brasileira

 

(aib), liderada por

 

Plínio Salgado.

 

1933

 

Ascensão do

 

nazismo na

 

Alemanha.

 

1934

Promulgação da

 

terceira

 

Constituição

 

brasileira, que

 

estabeleceu

 

avanços

 

como o voto

 

secreto e o

 

voto feminino.

 

Getulio

 

Vargas permanece

 

na

 

presidência.

 

1935

Criação da Aliança

 

Nacional

 

Libertadora

 

(ANL). Luiz Carlos

 

Prestes, líder da

 

Coluna

 

e membro do PCB,

 

é

 

eleito presidente de

 

honra do partido.

 

Em 11 de julho, o

 

governo federal

 

decreta

 

o fechamento dos

 

núcleos da ANL.

 

Em 27 de

 

novembro, eclodem revoltas

 

militares de

 

inspiração

 

comunista,

 

sobretudo

 

no Rio de Janeiro e

 

em

 

Natal, onde se

 

forma

 

um governo

 

provisório.

 

O movimento não obtém apoio

 

popular e

 

logo é sufocado. No

 

país todo sucedem-

 

se

 

prisões em massa

 

de

 

esquerdistas, entre

 

elas a

 

do escritor

 

Graciliano

 

Ramos.

 

1936 1936

 

O gen. Franco se De Santa Fé,

 

insurge contra o Arão

Stein, amigo de governo Rodrigo, parte

 

republicano para a

 

na Espanha. Início Espanha para

 

da Guerra Civil juntar-se

 

Espanhola. às Brigadas

 

Os falangistas Internacionais.

 

(partidários de O mesmo faz

 

Franco) Vasco,

 

recebem personagem do

 

armamento romance Saga,

 

e ajuda militar dos de Erico

 

fascistas italianos e Verissimo.

 

dos

 

nazistas alemães.

 

Os

 

republicanos

 

recebem

apoio da União

 

Soviética. Formam-

 

se 1937

 

Brigadas

Começa o

Internacionais

romance

de apoio aos

de Floriano

republicanos. Cerca

com a

de 30 mil

norte-

combatentes

americana

acorrem do mundo

Marian

inteiro para lutar

(Mandy)

contra

Patterson.

os falangistas.

Rodrigo, figura

Entre

política

eles vão dezesseis

influente do

brasileiros: dois

governo

civis

e catorze militares.

 

1937

 

Preparativos para

 

as

 

eleições

 

presidenciais

 

de 1938. Getulio

 

Vargas

 

consegue apoio de

 

dois

 

generais, Góes

 

Monteiro e Eurico

Vargas, vai a

 

Santa Fé

 

para tentar

Gaspar Dutra.

Em 10 de convencer

 

novembro, os amigos da

 

o Congresso é legitimidade do

 

fechado, golpe.

 

alguns comandos Enfrenta a

 

militares são oposição de

 

substituídos e o seu irmão,

 

Diário Toríbio.

 

Oficial publica uma Em 31 de

 

Constituição dezembro,

 

outorgada, festeja-se o

 

chamada de noivado de

 

"Polaca". Jango e Sílvia,

 

Em dezembro, afilhada

 

todos os de Rodrigo.

 

partidos políticos Rompimento

 

são entre extintos. os irmãos

 

Implantação Rodrigo

 

do Estado Novo. e Toríbio.

 

Toríbio vai a

 

Do diário de Sílvia uma festa

 

num bar e é

1938

morto

 

durante uma

Os integralistas

briga.

tentam

 

derrubar Getulio

1938

Vargas, mas são

 

derrotados. Plínio Floriano e

 

Salgado exila-se Mandy se

 

em separam. Ela

 

Portugal. vai para os

 

Estados

1939

Os republicanos são Unidos.

 

derrotados na

 

Espanha. 1939

 

Muitos membros

Arão Stein

das

refugia-se na

Brigadas

França. O

Internacionais

personagem

se refugiam na

Vasco, de

França,

Saga, faz o

onde permanecem

mesmo.

em

 

campos de

1940

concentração.

 

Em 1o de Em abril, Arão

 

setembro, a Stein

 

Alemanha invade a volta a Santa

Fé. Antes, Polônia. Início da repatriado ao

 

Segunda Guerra Brasil,

 

fora preso e

 

torturado

 

no Rio como

 

Mundial. Em 17 de comunista.

 

setembro, a União

 

Soviética também

 

invade a Polônia.

 

Partilhando esse

 

país,

 

alemães e

 

soviéticos

 

celebram um pacto

 

de não agressão.

 

De 28 de maio a 3 de junho, a França

 

é

 

derrotada.

 

Soldados

 

ingleses e

 

franceses que

 

não aceitam a

 

derrota

 

são evacuados para

 

a

 

Inglaterra na

 

Retirada

 

de Dunquerque, um

1941

dos

 

episódios mais

Em 24 de

dramáticos da

setembro,

Segunda Guerra. Os alemães Sílvia começa a

 

começam o redigir

 

bombardeio um diário, no

 

da Inglaterra pelo qual

 

ar. reflete sobre o

 

fracasso

 

amoroso de

 

seu

1941

casamento.

 

Registra

Em junho, a

também como

Alemanha

o grupo

 

invade a União do Sobrado

 

Soviética, pondo vive os

 

fim ao acontecimentos

 

pacto de não da

 

agressão. Segunda Em dezembro, os Guerra.

 

alemães são Em 26 de

 

derrotados novembro,

 

em Moscou, mas Floriano passa

 

continuam lutando alguns

 

em dias no

 

Stalingrado, numa Sobrado, antes

 

batalha que dura de seguir para

 

um os

 

ano e quatro Estados Unidos

 

meses. como

 

Em 7 de dezembro, professor

 

os japoneses convidado

 

atacam na

 

de surpresa a base Universidade

 

norte-americana da

 

de Pearl Harbor. Califórnia.

Desenham-se

 

definitivamente as

 

grandes formações

 

da

 

Segunda Guerra: de

 

um lado, os Aliados

1942

 

Em julho,

 

e a União Soviética; Floriano

 

do outro, o Eixo, publica o

 

com romance

 

Alemanha, Itália e O beijo no

 

Japão. espelho.

Em Santa Fé,

 

1942 como em

cidades Em 23 de agosto, brasileiras

 

diante do reais,

 

torpedeamento de há quebra-

 

navios brasileiros, o quebra em

 

governo declara lojas e

 

guerra empresas cujos

 

ao Eixo. proprietários

 

são

 

1943 alemães ou

 

seus

Os alemães são

descendentes.

derrotados em

Em 14 de

Stalingrado, na

setembro, o

União

pintor Pepe

Soviética, em

García

janeiro.

retorna a Santa

Em 13 de maio, os

Fé.

alemães e italianos

 

são

 

derrotados no 1943

 

Norte

Nos Estados

da África.

Unidos,

Em 11 de junho, os

Floriano

Aliados iniciam a

reencontra

invasão da Itália.

Mandy.

Em 26 de

Arão Stein é

novembro,

expulso do

Roosevelt, Churchill

Partido

e Stálin reúnem-se

Comunista sob

em

acusação de

Teerã.

ser

 

trotskista.

1944 1944

 

Em 6 de junho, os Em Monte

 

Aliados Castelo o

 

desembarcam cabo Lauro

 

na França. Em 16 Caré morre

 

de ao enfrentar

 

julho, chega a sozinho

 

Nápoles, uma patrulha

 

na Itália, a Força alemã.

 

Expedicionária Torna-se herói

 

de

 

guerra.

 

Brasileira para lutar

 

ao

 

lado dos Aliados.

 

Em

setembro a FEB

 

entra

 

em ação, seguindo

 

para

 

o Norte da Itália.

 

De 29 de novembro

 

de

 

1944 a 20 de

 

fevereiro

 

de 1945, Batalha

 

de

 

Monte Castelo,

 

entre

 

tropas brasileiras e

 

alemãs. Vitória dos

 

brasileiros.

Reunião de família

 

e

 

Caderno de pauta

 

simples

 

1945

 

1945 Floriano

Cambará, que

 

Em 8 de maio, a está na

 

Alemanha se rende Universidade

 

aos da

 

Exércitos Aliados e Califórnia como

 

à professor

 

União Soviética, e convidado,

 

põe prepara-se

 

fim à guerra na para voltar Europa. ao Brasil.

 

As tropas

 

brasileiras que

 

estão na Itália

 

retornam

 

ao Brasil.

 

Em 6 de agosto, os

 

Estados Unidos

 

lançam

 

uma bomba

 

atômica

 

sobre Hiroshima,

 

no

 

Japão.

 

Em 9 de agosto,

 

lançam

 

uma bomba

atômica

 

sobre Nagasaki.

 

O Japão se rende

 

incondicionalmente.

 

Fim da Segunda

 

Guerra

 

Mundial.

 

Em 29 de outubro,

 

no

 

Rio de Janeiro,

 

golpe militar para

 

derrubar o

 

presidente Getulio

 

Vargas.

 

Vargas renuncia em

 

30

 

de outubro e segue para

 

o Rio Grande do

 

Sul.

 

No começo de

 

dezembro, o gen.

 

Eurico Gaspar Dutra

 

é

 

eleito para a

 

presidência

 

da República e

 

Getulio

 

Vargas para o

 

Senado.

 

Doente, com

 

problemas

 

cardíacos,

Rodrigo volta

 

para o Sobrado

 

com a

 

família. Sônia

 

Fraga,

 

jovem amante

 

de

 

Rodrigo,

 

também o

 

acompanha.

 

Rodrigo sofre

 

militar para um edema

 

derrubar o agudo de

 

presidente Getulio pulmão.

Vargas.

 

Vargas renuncia em 1945

 

30

de outubro e segue Em 1o de

 

para dezembro,

 

o Rio Grande do inauguração de

 

Sul. um

 

No começo de busto em

 

dezembro, o gen. homenagem

 

Eurico Gaspar Dutra ao cabo Lauro

 

é Caré na

 

eleito para a praça da

 

presidência Matriz.

 

da República e Floriano

 

Getulio comparece,

 

Vargas para o representando

 

Senado. o pai.

 

Em 18 de

 

dezembro,

Arão Stein se

 

enforca

 

diante do

 

Sobrado.

Encruzilhada

Em 22 de

 

dezembro,

 

durante a

 

madrugada,

 

Rodrigo sofre

 

novo

 

infarto e morre

 

como

 

não queria: na

 

cama. É

 

enterrado no

 

mesmo dia.

 

Na noite de

Ano-Bom,

 

Floriano

 

começa a

 

escrever o

 

romance da

 

saga de uma

 

família

 

gaúcha através

 

da

 

história: O

 

tempo e o

 

vento.

Crônica biográfica

Erico Verissimo escreve O arquipélago, terceira parte de O tempo e o vento, entre janeiro de 1958 e março de 1962. Foram mais de 1600 páginas datilografadas, num processo extremamente difícil de criação, segundo depoimento do escritor no segundo volume de Solo de clarineta, seu livro de memórias. O arquipélago foi publicado em três volumes: os dois primeiros no final de 1961 e o terceiro no ano seguinte.

O Retrato, a segunda parte da trilogia, fora lançado em 1951. Há um longo período entre a publicação da segunda e da terceira parte de O tempo e o vento. Durante esse intervalo, em 1953, Erico escreve Noite, novela que lembra o conto “O homem da multidão”, de Edgar Allan Poe. No mesmo ano muda-se com a família para os Estados Unidos, onde permanecerá até 1956, como diretor do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana, secretaria da Organização dos Estados Americanos. Em 1955 viaja em férias ao México e em seguida publica uma narrativa de viagem intitulada México. Em 1959, quando já começara a escrever O arquipélago, vai à Europa pela primeira vez, fazendo uma longa visita a Portugal e também a Espanha, Itália, França, Alemanha, Holanda e Inglaterra.

Erico enfrentava a última parte de O tempo e o vento com temor. A magnitude da obra o assustava um pouco. Em O Continente acompanhara um século e meio da formação guerreira do Rio Grande do Sul. A quase ausência de documentação facilitara sua liberdade de imaginar. Em O Retrato começara a desenhar o processo de modernização do estado e o embaralhamento dos laços tradicionais na fictícia Santa Fé. Mas agora a complexidade crescente da matéria o assustava, por convergir vertiginosamente para o presente. As sucessivas viagens e os outros livros lhe ofereciam caminhos de fuga.

Várias vezes, diz Erico em suas anotações, sentou-se diante da máquina de escrever para encarar o romance... e nada vinha à tona, ou ao papel. Numa dessas oportunidades, por exemplo, distrai-se e, sem dar-se conta, desenha rostos de índios mexicanos — nasce daí mais um livro de viagens. Erico atribui a México, escrito em 1956, o mérito de começar o “descongelamento da cidade de Santa Fé e dos personagens de O arquipélago”. Mas não é de todo improvável que a decisão de começar a escrever essa última parte e de prosseguir até o fim com pressa crescente também lhe tenha ocorrido aos poucos, mas dramaticamente, devido a sua condição de saúde.

Segundo suas memórias, em abril de 1957 Erico teve um primeiro aviso: uma angustiante taquicardia durante uma conferência. E no verão de 1958, quando já começara O arquipélago, testemunha a morte de um jovem turista na praia de Torres. Tenta ajudá-lo, mas sem sucesso. O acontecimento o faz refletir sobre a vida e a morte e desperta no escritor alguma urgência no sentido de terminar a trilogia. Em 1959, porém, decide realizar uma protelada viagem à Europa — e os personagens de O arquipélago são mais uma vez postos de lado...

Em 1960, de volta a Porto Alegre, continua a trabalhar intensamente no livro, várias horas por dia, até o entardecer. Tem duas máquinas de escrever. Uma tradicional, negra — e reservada para os momentos de dúvida e impasse. Outra nova, de fabricação chinesa e de cor vermelha, abriga os momentos inspirados, quando escreve páginas e páginas sem parar.

No entanto, na noite de um domingo de março de 1961, Erico sofre a primeira crise cardíaca grave. Medicado com urgência por médicos amigos, acha que vai se recuperar logo. Mas na noite de segunda para terça sobrevém-lhe a segunda crise, já anunciando um infarto. O escritor só se levanta da cama dois meses mais tarde, para retomar o romance a todo o vapor. Diz ele que destruiu o primeiro capítulo do livro — em que o dr. Rodrigo Cambará sofre um ataque de insuficiência cardíaca que lhe provoca um edema pulmonar — e o reescreveu. Agora tem conhecimento direto da matéria.

Erico termina O arquipélago no ano seguinte, nos Estados Unidos, quando faz uma viagem para visitar a filha, o genro e os dois netos. Há um terceiro a caminho. Clarissa, a filha mais velha, casara-se em 1956 com David Jaffe, físico norte-americano. Seu primeiro filho, Mike, nasceu em 1958. O segundo, Paul, em 1960.

Muitos já disseram que o escritor Floriano Cambará, filho do dr. Rodrigo, é uma espécie de espelho da alma de Erico Verissimo. É verdade. Mas, sem querer reduzir a ficção a mero espelho da vida do romancista, é possível perceber, com esta breve crônica biográfica, que o próprio dr. Rodrigo também é, em parte, um espelho do olhar de Erico. Tolhido pela convalescença, ameaçado pela ideia de ser o primeiro Cambará a morrer numa cama, o personagem de Erico quer pôr em dia sua vida, acertar as contas com o filho, com a nora, com o passado, com o mundo.

Em Solo de clarineta, Erico lastima o destino de seu personagem: “Eu sabia que o pai de Floriano ia morrer no último capítulo do livro, e isso me dava uma certa pena. Aquele homem sensível e sensual adorava a vida”. Nos últimos momentos, o dr. Rodrigo tem uma conversa definitiva com o filho. É uma conversa sincera, que não recua nos momentos difíceis. No fim, ao despedir-se, Floriano diz ao pai que espera que o diálogo não lhe tenha feito mal. O pai responde: “Mal? Pelo contrário. Eu andava louco por conversar contigo. Tu é que me fugias”.

A frase pode se estender ao escritor real, fora do livro. Criador e criatura se encontraram e seus destinos se confundiram por um momento. O espírito de Erico, como o de Floriano, estava pronto para novas partidas.

 

Erico Verissimo nasceu em Cruz Alta (RS), em 1905, e faleceu em Porto Alegre, em 1975. Na juventude, foi bancário e sócio de uma farmácia. Em 1931 casou-se com Mafalda Halfen von Volpe, com quem teve os filhos Clarissa e Luis Fernando. Sua estreia literária foi na Revista do Globo, com o conto "Ladrão de gado". A partir de 1930, já radicado em Porto Alegre, tornou-se redator da revista. Depois, foi secretário do Departamento Editorial da Livraria do Globo e também conselheiro editorial, até o fim da vida.

A década de 30 marca a ascensão literária do escritor. Em 1932 ele publica o primeiro livro de contos, Fantoches, e em 1933 o primeiro romance, Clarissa, inaugurando um grupo de personagens que acompanharia boa parte de sua obra. Em 1938, tem seu primeiro grande sucesso: Olhai os lírios do campo. O livro marca o reconhecimento de Erico no país inteiro e em seguida internacionalmente, com a edição de seus romances em vários países: Estados Unidos, Inglaterra, França, Itália, Argentina, Espanha, México, Alemanha, Holanda, Noruega, Japão, Hungria, Indonésia, Polônia, Romênia, Rússia, Suécia, Tchecoslováquia e Finlândia. Erico escreve também livros infantis, como Os três porquinhos pobres, O urso com música na barriga, As aventuras do avião vermelho e A vida do elefante Basílio.

Em 1941 faz uma viagem de três meses aos Estados Unidos a convite do Departamento de Estado norte-americano. A estada resulta na obra Gato preto em campo de neve, primeira de uma série de livros de viagens. Em 1943, dá aulas na Universidade de Berkeley. Volta ao Brasil em 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo. Em 1953 vai mais uma vez aos Estados Unidos, como diretor do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana, secretaria da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Em 1947 Erico Verissimo começa a escrever a trilogia O tempo e o vento, cuja publicação só termina em 1962. Recebe vários prêmios, como o Jabuti e o Pen Club. Em 1965 publica O senhor embaixador, ambientado num hipotético país do Caribe que lembra Cuba. Em 1967 é a vez de O prisioneiro, parábola sobre a intervenção dos Estados Unidos no Vietnã. Em plena ditadura, lança Incidente em Antares (1971), crítica ao regime militar. Em 1973 sai o primeiro volume de Solo de clarineta, seu livro de memórias. Morre em 1975, quando terminava o segundo volume, publicado postumamente.

Obras de Erico Verissimo

Fantoches [1932]

Clarissa [1933]

Música ao longe [1935]

Caminhos cruzados [1935]

Um lugar ao sol [1936]

Olhai os lírios do campo [1938]

Saga [1940]

Gato preto em campo de neve [narrativa de viagem, 1941]

O resto é silêncio [1943]

Breve história da literatura brasileira [ensaio, 1944]

A volta do gato preto [narrativa de viagem, 1946]

As mãos de meu filho [1948]

Noite [1954]

México [narrativa de viagem, 1957]

O senhor embaixador [1965]

O prisioneiro [1967]

Israel em abril [narrativa de viagem, 1969]

Um certo capitão Rodrigo [1970]

Incidente em Antares [1971]

Ana Terra [1971]

Um certo Henrique Bertaso [biografia, 1972]

Solo de clarineta [memórias, 2 volumes, 1973, 1976]

 

O TEMPO E O VENTO

Parte I: O Continente [2 volumes, 1949]

Parte II: O Retrato [2 volumes, 1951]

Parte III: O arquipélago [3 volumes, 1961-1962]

 

OBRA INFANTOJUVENIL

A vida de Joana D’Arc [1935]

Meu ABC [1936]

Rosa Maria no castelo encantado [1936]

Os três porquinhos pobres [1936]

As aventuras do avião vermelho [1936]

As aventuras de Tibicuera [1937]

O urso com música na barriga [1938]

Outra vez os três porquinhos [1939]

Aventuras no mundo da higiene [1939]

A vida do elefante Basílio [1939]

Viagem à aurora do mundo [1939]

Gente e bichos [1956]

Copyright © 2004 by Herdeiros de Erico Verissimo Texto fixado pelo Acervo Literário de Erico Verissimo (PUC-RS) com base na edição princeps, sob coordenação de Maria da Glória Bordini.

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.

CAPA E PROJETO GRÁFICO Raul Loureiro

FOTO DE CAPA Luiz Carlos Felizardo [Fazenda Cerca Velha, Vacaria, RS, 2003]

FOTO DE ERICO VERISSIMO Leonid Streliaev, 1974

SUPERVISÃO EDITORIAL Flávio Aguiar

CRONOLOGIA E CRÔNICA BIOGRÁFICA Flávio Aguiar

PESQUISA Anita de Moraes

PREPARAÇÃO Cristina Yamazaki

REVISÃO Maysa Monção e Isabel Jorge Cury

ATUALIZAÇÃO ORTOGRÁFICA Página Viva

 

ISBN: 978-85-8086-015-3

 

Os personagens e as situações desta obra são reais apenas no universo da ficção; não se referem a pessoas e fatos concretos, e sobre eles não emitem opinião.

Todos os direitos desta edição reservados à EDITORA SCHWARCZ LTDA.

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04532-002 – São Paulo – SP

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