O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Érico Veríssimo · Capítulo 4 de 6 · parte 1/7

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O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Um certo major Toríbio

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.

1

A morte de Alicinha precipitou Rodrigo num desespero tão profundo, que o dr. Camerino chegou a temer pelo equilíbrio mental de seu amigo e protetor. À hora da saída do enterro, no momento em que, tão lívida quanto a defunta, Flora caía desmaiada nos braços do pai, Rodrigo abraçou o esquife e pôs-se a gritar que não lhe levassem a filha. Foram necessários três homens para arrancá-lo da sala mortuária e levá-lo para seu quarto, no andar superior, onde o dr. Carbone, chorando como uma criança, lhe aplicou uma injeção que o pôs a dormir.

Horas mais tarde, ao despertar, ficou num estado de estupor, saiu a caminhar pela casa com ar de sonâmbulo, murmurando coisas sem nexo, os olhos vazios e parados, a boca entreaberta, os lábios moles — e assim andou por quartos e corredores como quem, tendo saído em busca de alguma coisa, no caminho se houvesse esquecido do que era. Maria Valéria seguiu-o por toda a parte, sem ousar dizer ou fazer o que quer que fosse. Rodrigo entrou no quarto da filha morta, quedou-se a olhar para a boneca que jazia sobre a cama, e depois, vendo a tia parada à porta, perguntou:

— A Alicinha já voltou do colégio?

Maria Valéria não disse palavra, não fez nenhum gesto: continuou a olhar para o sobrinho com a face impassível. De repente, lembrando-se de tudo, Rodrigo soltou um gemido, precipitou-se para a velha, empurrou-a para o corredor, fechou a porta do quarto à chave, deitou-se na cama e desatou num choro convulsivo. Ficou ali horas e horas, conversando em surdina com a boneca, como se ela fosse uma pessoa. Quando batiam na porta, gritava: “Me deixem morrer em paz!”.

No quarto, de janelas fechadas, fazia um calor abafado. Anoiteceu e ele nem sequer pensou em acender a luz. Ouvia passos e murmúrios de vozes no corredor, sentia quando alguém parava junto da porta. Odiava toda aquela gente. Detestava a vida. Estava decidido a não deixar ninguém entrar. Recusaria comer e beber. Morreria de fome e sede.

O suor escorria-lhe pelo corpo dolorido. Fazia vários dias que não tomava banho, nem sequer mudava de roupa. Sentia agora o próprio fedor, e isso o levava a desprezar-se a si mesmo, e, em se desprezando, castigava-se, e, em se castigando, redimia-se um pouco da culpa que lhe cabia pela morte da filha. Ah! mas não merecia perdão. Tinham sido todos uns incompetentes. Ele, Carbone, Camerino e aqueles dois médicos que mandara vir às pressas de Porto Alegre. Todos uns charlatães. Não sabiam nada. A Medicina era uma farsa. A doença matara Alicinha em menos de dez dias. Era estúpido. Era gratuito. Era monstruoso. Se Deus existia, quem era que queria castigar? Se era a ele, por que matara uma inocente?

Que ia ser agora de sua vida? Revolvia-se na cama. A sede ressequia-lhe a boca, a vontade de fumar intumescia-lhe a língua. Remexeu nos bolsos na esperança de encontrar algum cigarro. Nada. Pensou em levantar-se, abrir a janela, respirar o ar da noite. Mas não merecia aquele alívio, aquele privilégio. Onde haviam entaipado Alicinha não existia ar nem luz. Só noite e morte.

Ocorreu-lhe que o processo de decomposição daquele pequeno corpo havia já começado. Soltou um grito, levou as mãos aos olhos. — Não! Não! — afugentou o pensamento horrendo. Mas foi inútil. Seu cérebro era agora a própria sepultura de Alicinha; lá estava ela, com a pele esverdeada, vermes a lhe saírem pelas narinas, toda uma colônia de bichos a lhe comerem as entranhas. Alicinha apodrecia. Alicinha fedia. Santo Deus! Saltou da cama e saiu a andar pelo quarto escuro, cambaleando como um ébrio, tropeçando nos móveis. Pôs-se a bater com a cabeça na parede, cada vez com mais e mais força, para fazê-la doer, para evitar que ela produzisse aqueles pensamentos... Depois tornou a cair na cama, com uma repentina pena de si mesmo, agarrou a boneca, apertou-a contra o peito, beijou-lhe as faces, os cabelos... Meteu a cara no travesseiro e procurou pensar na própria morte... Era, porém, Alicinha quem ele ainda via, coberta de vermes, a boca roída... e já a imagem da filha se fundia com a de outra pessoa — Toni Weber de lábios queimados... Ah! Agora ele tinha a certeza: era mesmo um castigo, um castigo! Rolou na cama, mordeu a colcha, as lágrimas entraram-lhe salobras e mornas pela boca. Descobria que o podre era ele. Sua decomposição havia começado fazia mais de uma semana. Mas que lhe importava? Não queria mais viver. Sem sua princesa a vida não tinha mais sentido.

 

As horas passaram. O relógio lá embaixo de quando em quando batia. Houve um momento em que Rodrigo ficou deitado de costas, as mãos sobre o peito, como um morto. Tentou fazer um movimento, mas não conseguiu. Procurou articular um som, mas seus lábios se moveram inutilmente. Viu vultos na penumbra do quarto. Ouviu vozes amortecidas. Estava agora dentro dum caixão de defunto. As sombras iam e vinham. Está na hora do enterro — cochichou alguém. Então compreendeu tudo. Iam sepultá-lo vivo. De novo tentou gritar, fazer um movimento, mas em vão. Explicou-se a si mesmo: é um ataque de catalepsia. Soltou um grito e sentou-se no leito num movimento de autômato. Olhou em torno, desmemoriado, e, por alguns segundos, foi tomado dum pavor sem nome, que lhe punha o coração numa disparada. Ficou, de novo deitado, a resfolgar como um animal acuado.

Um pesadelo... Enxugou com a ponta da colcha o suor que lhe molhava o rosto. Desejou de novo abrir a janela, respirar ar fresco. Sentia-se meio asfixiado. A sede aumentava. A bexiga inflava e começava a arder. Pensou em descer ao quintal, tirar água do poço, beber no balde, como um cavalo...

Mas não merecia aquele refrigério. Alicinha estava morta. Pensou nos dias que viriam. Teria de suportar as visitas de pêsames, a missa de sétimo dia. E o mundo vazio, vazio, vazio...

Veio-lhe então a ideia de suicídio, o que lhe deu uma repentina esperança. Soergueu-se, moveu a cabeça dum lado para outro. Pensou na navalha que tinha no quarto de dormir. Abriria as veias dos pulsos e se dessangraria em cima da cama. Seria uma morte suave. O sangue alagaria o chão, escorreria para fora do quarto... Quando os outros arrombassem a porta, encontrariam ali apenas seu cadáver. Estaria tudo acabado.

Que horas são? Todos devem estar dormindo. “Eu me levanto e na ponta dos pés vou buscar a navalha.” Imaginou-se a fazer esses movimentos. Estava no corredor, as tábuas rangiam, era preciso pisar mais de leve... De repente surge-lhe um vulto pela frente. Reconhece o pai. “Aonde vai o senhor?” “Buscar a navalha.” “Pra quê?” “Vou me matar.”

“Deixe de fita!” “Juro por Deus que quero morrer!”

Deus era testemunha da sua sinceridade. Queria morrer, precisava morrer. Era um assassino. Tinha matado o pai. Tinha matado Toni. Sentia-se também culpado pela morte da filha.

Continuava, porém, deitado, como se o visgo pútrido que lhe cobria o corpo o grudasse irremediavelmente à coberta da cama. Se ao menos pudesse beber um copo d’água, fumar um cigarro... Sua bexiga parecia prestes a estourar. Sentia um desejo urgente de ir ao quarto de banho... Suas mãos tremiam. A fome lhe produzia no estômago uma ardência branca, uma leve náusea. Sua língua agora era um réptil, um lagarto que ia inchando cada vez mais, como o balão da bexiga...

Rodrigo encolheu-se, dobrou as pernas, apertou ambas as mãos entre as coxas. Era assim que fazia quando menino, sempre que no meio da madrugada lhe vinha o desejo de urinar, e o sono ou o medo do escuro o impedia de deixar a cama.

Pensou numa noite da infância, em 95. Os maragatos sitiavam o Sobrado. Fazia tanto frio, ventava tanto, que até as vidraças do casarão batiam queixo. Sua mãe estava gravemente doente. A criança tinha nascido morta e seu pai ia enterrá-la no porão... Sentado na beira do leito, Fandango contava-lhe a história do boi barroso. Tinha uma voz de taquara rachada. Cheirava a couro curtido e quase sempre trazia atrás da orelha um ramo de alecrim.

Rodrigo concentrou o pensamento na mãe e de súbito sentiu sua presença no quarto. Chegou a experimentar na testa o contato fresco da mão dela. A dor de cabeça cessou com uma rapidez mágica. Seus músculos se relaxaram, num abandono completo, e ele sentiu escorrer-lhe pelas coxas e pernas um líquido morno, à medida que ia sentindo uma deliciosa sensação de alívio. E então, sem ter consciência clara do que acontecia, resvalou das margens da sua angústia para dentro dum fundo e plácido lagoão de sono.

2

Quando acordou, a janela estava aberta, o quarto claro, e Toríbio ao lado da cama. Não o reconheceu no primeiro momento. Ficou pisca-piscando, focando o olhar no irmão. Olhou depois para a janela e viu que era dia. Soergueu-se, apoiado nos cotovelos. Sentia a cabeça pesada e dolorida, um gosto amargo na boca.

— Tive de arrombar a porta...

— Fecha a janela.

— Não fecho.

— Essa luz me dói nos olhos.

— O quarto está numa fedentina medonha. Tamanho homem!

Rodrigo sentiu uma súbita vergonha.

— Me deixa em paz — gemeu.

— Não deixo. Não podes ficar metido aqui dentro o resto da vida. Todo o mundo está preocupado contigo. Sabes que horas são? Quase meio-dia.

Rodrigo fechou os olhos, apertando as pálpebras como fazem as crianças quando querem fingir que dormem.

— Reage, homem! — exclamou o irmão mais velho. — Pensas que és a única pessoa nesta casa que sentiu a morte da menina? Tua mulher está lá atirada na cama, numa agonia danada, passou a noite em claro, soluçando, mas sem poder chorar. Devias estar ao lado dela, ajudando a coitada. Pensei que fosses um homem de verdade, mas não passas dum fedelho que ainda mija na cama. Ora, vai ser vil pro diabo que te carregue!

— Podes me insultar. Eu mereço.

— Eu devia te tirar daqui a bofetadas.

Toríbio acendeu um cigarro, soltou uma baforada de fumaça. Foi num tom mais calmo que perguntou:

— Queres um cigarro?

— Não.

Mas Rodrigo desejava desesperadamente fumar. Abriu os olhos e ficou seguindo o movimento da fumaça no ar, aspirando-lhe o cheiro. Depois, evitando encarar o outro, estendeu o braço:

— Me dá um...

Toríbio meteu-lhe um cigarro entre os lábios, acendeu-o, e por alguns instantes Rodrigo ficou a fumar em silêncio, olhando para o pedaço de céu nublado que a janela enquadrava. Sentia agora o mormaço do meio-dia, um calor úmido, que ardia na pele. O sol era uma brasa esbranquiçada, por trás da cinza das nuvens.

— Vamos — disse Bio, depois que o irmão fumou metade do cigarro. — Sai dessa cama...

— Pelo amor de Deus, me deixa!

— Toma um banho, faz a barba, estás pior que tapera.

Rodrigo virou-se e ficou deitado de bruços, apertando o travesseiro contra o estômago.

— Não estás ouvindo o barulho das crianças no quintal? Te esqueceste que ainda tens quatro filhos? Vamos, o mundo não acabou.

— Pra mim acabou.

— Te conheço. Amanhã isso passa.

— Tu não entendes dessas coisas. Nunca tiveste filho.

— É o que tu pensas. Mas isso não tem nada que ver com teu banho. Vamos.

Toríbio cuspiu fora, pela janela, o toco de cigarro que tinha colado ao lábio inferior, e aproximou-se da cama, murmurando: “Acho que não tem outro jeito”. Inclinou-se sobre o irmão, enlaçou-lhe a cintura com ambos os braços e ergueu-o no ar. Rodrigo deixou-se levar sem protesto, mole e sem vontade como um boneco de pano. Toríbio pô-lo dobrado sobre os ombros e assim o conduziu ao longo do corredor até o quarto de banho, onde o depôs sobre um mocho. Rodrigo ali ficou, as costas apoiadas na parede, os braços caídos. Não queria tomar a iniciativa de banhar-se. O banho era um sinal de vida, e ele ainda queria morrer.

Toríbio tirou-lhe o casaco, a camisa, e desafivelou-lhe a cinta. Começou a operação com cuidado e certa brandura, mas de repente como que caindo em si e descobrindo naquela sua solicitude, na tarefa de despir o outro, algo de maternal e portanto feminino, tratou de contrabalançar o ridículo da atuação com uma certa rudeza de gestos. E a cada peça de roupa que tirava, soltava um palavrão. Puxou as calças do outro com tal fúria, que as rasgou pelo meio, ficando uma perna para cada lado. E, quando viu o irmão completamente despido, levou-o quase aos empurrões para baixo do chuveiro e abriu a torneira.

— Agora lava esse corpo, lorpa! — gritou, dando ao outro um sabonete. — Vais te sentir um homem novo depois do banho.

Rodrigo mantinha a cabeça erguida, os olhos cerrados, a boca aberta. Ficou nessa posição por alguns segundos, bebendo água. Depois, num súbito entusiasmo, começou a ensaboar-se com um vigor de que ele próprio se admirava.

Toríbio saiu do quarto de banho e voltou minutos depois trazendo roupa branca e um terno de brim claro. Sentou-se a um canto, acendeu outro cigarro e quedou-se a olhar para o irmão, que naquele instante esfregava as axilas ruidosamente, a cara e os cabelos cobertos de espuma.

— O doutor Carbone acha que deves ajudar a Flora...

— Como?

— Pode ser que a tua presença faça ela chorar...

Rodrigo deixou cair os braços, e por alguns instantes permaneceu imóvel sob o chuveiro.

— Não quero ver a Flora.

— Por quê?

— Tenho medo.

— Não sejas estúpido. Tens que ir. Já imaginaste o que é uma pessoa querer chorar e não poder? É o mesmo que ter uma bola trancada na garganta.

Alcançou uma toalha para o irmão, que se enxugou em silêncio, com gestos lentos, e depois começou a vestir a camisa...

— Estou tonto... — balbuciou, amparando-se na parede.

— Faz quarenta e oito horas que não comes nada...

Toríbio ajudou Rodrigo a terminar de vestir-se. Levou-o depois para o quarto de hóspedes e fê-lo sentar-se na cama, com o busto recostado em travesseiros.

Maria Valéria entrou, trazendo um prato de canja fumegante, e sentou-se na beira do leito.

— Tome — murmurou.

Rodrigo sacudiu negativamente a cabeça. Agora lhe vinha um absurdo medo de comer. Mas a velha aproximou a colher dos lábios dele e obrigou-o a tomar um gole.

— Está muito quente?

Ele sacudiu a cabeça negativamente. Sentia na boca o calor e o gosto da canja, mas tinha medo de engolir... Por fim decidiu-se. Como o cheiro e o gosto de cebola ficavam mal dentro daquele quadro de morte e angústia! Eram coisas quase sacrílegas.

Ouvia os gritos dos filhos, que brincavam no quintal. Um gramofone tocava nas vizinhanças. Cigarras rechinavam nas árvores da praça. Maria Valéria ali estava de olhos secos. Como era que a vida continuava como se nada houvesse acontecido? E ele comia, bebia, tomava banho, de novo se entregava covardemente à tarefa absurda de viver, enquanto Alicinha no seu caixão branco apodrecia...

— Mais uma colherada.

Abriu a boca, sorveu a canja. Aquele líquido grosso não vinha da colher, mas da boca da filha morta, eram os bichos que a roíam, e ele agora sorvia esses vermes sem repugnância, até com certa avidez, comungando com Alicinha, participando da sua putrefação, partilhando da sua morte.

— Coma agora um pedaço de galinha. Mas mastigue primeiro antes de engolir...

Carne de minha carne. Era o corpo da filha que ele devorava. Pensamentos absurdos, reconhecia. Não podia nem queria evitá-los. A sopa escorria-lhe pelo queixo barbudo, pingava-lhe no peito.

— Cuidado com a camisa, seu porcalhão!

Como era que a Dinda podia preocupar-se com aquelas trivialidades? Que importância tinha que uma camisa permanecesse limpa ou se manchasse de sopa, se ele estava vivendo a hora mais dolorosa de sua vida?

— Abra esses olhos... ou não quer enxergar a minha cara? Nunca vi um homem se entregar desse jeito!

Por que todos o tratavam com tanta rispidez? Precisava de carinho, de amparo, sentia-se infeliz, estava fraco, doía-lhe o corpo, não podia fazer nenhum movimento de cabeça sem sentir uma agulhada dentro do crânio.

— Depois de comer, vá ver sua mulher.

Ele fez que sim com a cabeça, obediente.

— Agora sirva-se sozinho. Vacê não é nenhuma criança. Tenho de ir dar de comer aos seus filhos.

Maria Valéria entregou o prato ao sobrinho, ergueu-se e saiu do quarto.

 

Momentos depois, Rodrigo no corredor dirigia-se lentamente para o quarto de Flora. Tudo lhe parecia andar à roda, manchas solferinas e esverdeadas aumentavam e diminuíam diante de seus olhos, estonteando-o. Um vulto veio ao seu encontro: Dante Camerino. Rodrigo prometera a si mesmo insultar o rapaz quando o encontrasse. Mas agora caía-lhe nos braços, desatava o choro.

— A menina morreu por minha culpa, Dante! — gemeu ele, com o rosto encostado no peito do outro, que lhe passava as mãos pelas costas, numa carícia canhestra.

— Não diga uma coisa dessas, doutor Rodrigo. O senhor é médico e sabe muito bem que não se pode culpar ninguém duma meningite tuberculosa. O senhor fez o que pôde. Todos nós fizemos. Mas Deus teve a última palavra.

— Deus não existe, Dante. Ou então existe e é pior que o diabo.

— Ora, doutor, nem diga isso!

Rodrigo endireitou o corpo, enxugou as lágrimas com as pontas dos dedos.

— Vou ver a Flora... — balbuciou.

— Vá. Ela precisa chorar. Fale na menina... Talvez o senhor... a sua presença... Vá...

Amparou o amigo até a porta do quarto da mulher, onde ambos pararam. Vinha lá de dentro um som agoniado de soluços.

Rodrigo teve um momento de pânico, e quase deitou a correr rumo da escada e da rua... Mas conteve-se. Olhou rapidamente para o amigo, abriu a porta devagarinho e entrou. Camerino ficou onde estava. Ouviu o ruído de passos no interior do quarto e depois um silêncio sempre cortado por soluços secos.

De súbito, como uma represa que se rompe, Flora desatou o pranto. Dante Camerino acendeu um cigarro e, com os olhos enevoados, dirigiu-se para a escada.

3

Naquele mesmo dia à tardinha, Neco Rosa veio fazer a barba de Rodrigo. Ensaboou a cara do amigo em silêncio, impressionado com seus olhos parados, injetados de sangue e profundamente tristes.

Pôs-lhe a mão no ombro e murmurou:

— Não há de ser nada. Deus é grande.

Estavam no escritório sombrio, fechadas todas as janelas. Neco acendeu a luz elétrica. Passou a navalha no assentador e começou o serviço, parando sempre que o amigo desandava numa crise de choro e ficava a lamentar-se baixinho, os ombros sacudidos pelos soluços. O barbeiro esperava com paciência num silêncio comovido.

— Neco, não tem explicação. Por mais que eu pense, não compreendo. A criança estava boa, de repente começou com uma febrinha... Pensei que era um resfriado. O Camerino também pensou. Dei aspirina, botei ela na cama, não me preocupei. Mas a febre não cedeu, a criaturinha começou a emagrecer, a ficar triste, não falava, só gemia, e de repente vieram aquelas dores de cabeça, as pontadas no ventre... Foi aí que me assustei. “Deve ser um caso de ventre agudo”, disse o Carbone. E o gringo já queria operar. Achei melhor esperar. E toca a dar remédio para o intestino...

Calou-se. Neco nada dizia, limitava-se a olhar para o soalho, a navalha na mão.

— Passamos três dias naquela incerteza, três dias, imagina! Uma noite acordei com os gritos dela, pulei da cama e foi então que me assustei mesmo, corri para o telégrafo, e mandei buscar de Porto Alegre dois médicos de renome... Ninguém pode me acusar de negligência, pode, Neco?

— Claro que não, homem!

— Quando eles chegaram eu não tinha mais dúvida, o diagnóstico estava feito, e a criança perdida...

— Agora fica quieto. Não adianta falar.

Rodrigo ergueu-se, com metade da cara ensaboada, uma toalha amarrada ao pescoço.

— Mas eu quero falar. Eu preciso falar.

— Está bem. Então fala.

Rodrigo tornou a sentar-se.

— E a fase pior da doença foi quando começaram as contrações musculares e a coitadinha ficava na cama, rangendo os dentes. Tudo doía nela. A luz, o menor ruído, tudo produzia dor naquele pobre corpinho, até o contato com os lençóis...

Rodrigo calou-se, lágrimas de novo rolaram-lhe pelas faces. Neco recomeçou o serviço e por alguns instantes só se ouviu ali naquela sala o rascar da navalha.

— E ninguém mais dormiu nesta casa, Neco. Três dias e três noites. O pior era quando ela soltava aqueles gritos... Uma madrugada não aguentei, saí desesperado porta afora, andei sem destino por essas ruas, com aqueles gritos nos ouvidos, pensei em me matar, em bater na porta da casa dos meus amigos, em acordar todo o mundo. Queria que alguém me explicasse por que era que toda aquela monstruosidade estava acontecendo...

Neco limitava-se a sacudir lentamente a cabeça. Apanhou o pincel e ensaboou de novo uma das faces do velho amigo. Este lhe apertou o braço como se quisesse magoá-lo.

— Pensa bem, Neco, pensa bem. Sabes o que foi para mim ver um pedaço da minha carne, a minha filha, murchando em cima duma cama, sofrendo dia e noite, noite e dia, e cinco animais, cinco quadrúpedes diplomados ao redor dela sem poderem fazer nada? Pensa bem. Não é estúpido? Quem ganhava com o sofrimento daquela criaturinha? Me diga, quem? É tudo absurdo. A vida não tem sentido. É uma miséria, uma mentira!

Neco puxou um pigarro prolongado, fungou, procurou alguma coisa para dizer, não encontrou: continuou calado. Recomeçou o trabalho.

— No oitavo dia da doença a menina estava irreconhecível, de pele murcha, ventre escavado... E o mais horrível, Neco, o mais pavoroso eram os movimentos automáticos que ela fazia, como quem queria pegar alguma coisa no ar. E a febre subindo, e a paralisia dos membros começando. O mais que a gente podia fazer era dar-lhe calmantes, que no fim não faziam mais efeito... e gelo na cabeça... que sei eu!

Rodrigo de novo se pôs de pé.

— Ah! O pior de tudo eram aqueles olhos. Ela me olhava. Neco, sabia que era a minha querida. Tinha confiança em mim. Parecia que estava me pedindo para salvá-la. E eu ali sem poder fazer nada. Tu sabes o que é isso? Impotente, vendo minha filha em convulsões na cama, se acabando aos poucos e... Aqueles olhos, Neco, aqueles olhos, pedindo, suplicando... olhos espantados de quem não sabia por que tudo aquilo estava acontecendo.

Cobriu o rosto com as mãos e desatou de novo a chorar. Neco caminhou para a porta na ponta dos pés e fechou-a. Depois tornou para o amigo e abraçou-o.

— Tu não deves... — começou a dizer.

Mas a comoção trancou-lhe as palavras na garganta e ele também largou o pranto.

Rodrigo sentou-se, enxugando os olhos com a ponta da toalha. De novo a navalha cantou-lhe no rosto. E houve um silêncio durante o qual se ouviu a voz de Edu, que passava no corredor.

— Deves dar graças a Deus por teres ainda quatro filhos...

— Não posso dar graças a quem me torturou e matou a filha predileta.

— O Homem lá em cima deve saber o que faz...

Rodrigo cerrou os olhos.

— Sou um fracasso, Neco. Um colossal fracasso.

— Fica quieto, senão posso te cortar.

— Que me importa? Já pensei em passar a navalha no pescoço.

— Rodrigo!

— Já imaginaste o que vai ser minha vida daqui por diante? Não ter mais a minha filha, nunca mais... Não ouvir mais a voz dela, as suas lições de piano... as... as... Se soubesses os planos que eu tinha para a Alicinha!

Quando Neco terminou o serviço, Rodrigo passou a toalha pelo rosto, num gesto distraído, e ficou a andar pelo escritório, metendo os dedos entre os cabelos revoltos. Parou diante do seu diploma, que estava enquadrado numa moldura de ébano, por baixo do retrato do Patriarca.

— De que serve este papel? Aqui diz que me formei em medicina. Mas que é que eu sei? Nada. Sou tão ignorante como o Camerino, o Carbone e aquelas duas cavalgaduras que mandei buscar de Porto Alegre.

Parou diante do armário envidraçado, em cujas prateleiras se alinhavam seus livros de medicina.

— E estas porcarias? Olha só o ar solene destes livros. Não servem para nada. Palavras, palavras, só palavras. A Alicinha está morta. Isso ninguém muda.

De súbito, num acesso de fúria, desferiu um soco num dos vidros do armário e rompeu-o em pedaços. Neco segurou os braços do amigo, um de cujos pulsos sangrava.

— Me deixa, homem, não é nada.

Rodrigo escancarou as portas do armário, pegou dois dos tratados mais volumosos e disse:

— Tive uma ideia, Neco. Uma ideia genial!

Sorria agora como se suas tristezas e dores tivessem de repente desaparecido. O barbeiro mirava-o sem compreender.

— Daqui por diante começa uma era nova na minha vida. O doutor Rodrigo Cambará vai morrer na fogueira. Um outro Rodrigo nascerá... Um Rodrigo cínico, realista, sem sonhos nem ideais. Me ajuda a carregar estes calhamaços.

— Pra onde?

— Pro quintal. Vamos. Não discutas.

Tinha nos braços uma pilha de livros que lhe subia até a altura do queixo.

— Agora pega tu mais uns volumes e vem comigo.

Neco obedeceu.

Rodrigo saiu do escritório e encaminhou-se para a porta dos fundos. Ao passar pela cozinha, gritou para Leocádia:

— Vá ajudar o Neco a trazer para fora os livros do armário do escritório. Raspa!

Desceu a escada. A sombra da casa cobria agora mais da metade do quintal. Edu e Jango corriam atrás de Zeca, que ostentava ao redor da cabeça as penas dum velho espanador, dispostas à guisa de cocar. Os caubóis perseguiam a tiros o pele-vermelha, que procurava refúgio atrás do tronco da marmeleira.

Rodrigo depôs os volumes no centro do quintal. Neco, seguido de Leocádia, desceu com mais livros, que foram atirados no chão, ao lado dos outros.

— Voltem — ordenou Rodrigo. — Tragam o resto!

A pretinha tornou a entrar em casa, mas Neco ficou onde estava, olhando, grave, para o amigo.

— Vamos amarrar esse pulso, botar um remédio no talho.

— Volta e traz mais livros, Neco, não temos tempo a perder.

Rodrigo sentia um estranho prazer em ver seu sangue pingar sobre aqueles tratados franceses de medicina, muitos deles com capas de couro. Olhou na direção da casa e viu numa das janelas Maria Valéria e noutra Floriano. Ambos o contemplavam. Havia espanto nos olhos do menino. Mas a cara da velha estava imperturbável.

— Que é isso no pulso? — perguntou ela.

— Nada — respondeu o sobrinho, e encarou a tia, num desafio.

Sentia agora uma estranha felicidade. Estava tomando uma resolução que mudaria a sua vida por completo. Todo o esquema se lhe formava na cabeça. Como era que não lhe havia ocorrido aquilo antes? Naquele auto de fé queimaria o charlatanismo! Destruiria os seus livros de medicina, abandonaria definitivamente a profissão, acabaria com a farsa, a impostura, o ridículo. Havia ainda mais: ia vender a farmácia e a Casa de Saúde... Ardia-lhe o pulso. Ergueu-o e viu um caco de vidro cravado na carne. Arrancou-o com raiva.

Neco voltou para dentro, com alguma relutância. Cruzou na escada com Leocádia, que trazia nova braçada de livros.

Rodrigo tinha agora a seus pés quase toda a sua biblioteca médica. Toríbio surgiu à porta da cozinha.

— Que é que vais fazer, homem?

— Espera e verás.

Correu para dentro, entrou no escritório, tirou o diploma da parede, pô-lo debaixo do braço, voltou para a cozinha, apanhou uma garrafa de querosene e tornou a descer para o pátio. A cabeça de Chico Pais apareceu por cima da cerca que separava o quintal do Sobrado do quintal da padaria. O padeiro olhava com olhos arregalados e perplexos o “menino do seu Licurgo”. Zeca, Edu e Jango, que haviam interrompido seus brinquedos, estavam numa expectativa silenciosa, a poucos passos de Rodrigo, que desarrolhava agora a garrafa, esvaziando-lhe todo o conteúdo em cima dos livros.

— Raspem daqui! — gritou para as crianças, que recuaram.

Toríbio e Neco, sentados nos degraus da escada de pedra, entreolharam-se em silêncio. Rodrigo riscou um fósforo e atirou-o sobre os livros. Uma labareda se ergueu. As crianças romperam em gritos de alegria. Rodrigo quebrou o quadro em dois, sobre o joelho, arrancou o diploma da moldura e jogou-o no fogo.

Maria Valéria sacudiu a cabeça.

— Que é que adianta isso? — perguntou Toríbio. — Estás só dando um espetáculo.

Rodrigo limitou-se a encolher os ombros. Não tirava os olhos das chamas. As capas dos livros começavam a retorcer-se, carbonizadas, em movimentos agônicos que tinham algo de humano. As crianças puseram-se a correr ao redor da fogueira, gritando: “Viva são João! Viva são João!”.

Chico Pais olhava de Toríbio para Maria Valéria, como a pedir uma explicação de tudo aquilo. A velha, debruçada à janela, continuava a mirar o sobrinho. Seguiu-o com os olhos quando ele voltou para dentro de casa. Ouviu seus passos na escada. Sabia para onde ele se dirigia. Ia atirar-se na cama de Alicinha e ali ficar chorando abraçado à boneca.

4

No dia seguinte Flora levantou-se, alimentou-se, reagiu. No fim daquela semana, compareceu à missa de sétimo dia, coisa que Rodrigo não teve a coragem de fazer. Finda a cerimônia, amparada pela mãe e pelo pai, recebeu de pé, e com os olhos secos, os intermináveis abraços de pêsames. Foi depois chorar em casa, fechada no quarto. Mas saiu de lá, horas mais tarde, com a fisionomia despejada e composta, e tratou de dar a todos a impressão de que, por maior que fosse a sua dor pela perda da filha, aceitava como natural e necessária a ideia de que a vida tinha de continuar. E quem mais a ajudou a manter esse espírito foi Maria Valéria, que naquele mesmo dia decidiu fazer um tacho de pessegada. Era uma boa provedora: o inverno jamais a surpreenderia com a despensa desfalcada. Havia outras tarefas urgentes: preparar Floriano e Jango para a escola, que se reabriria dentro de uma semana, começar um casaco de tricô para Bibi, comprar sapatos para os meninos e arranjar roupas para o Zeca, o “agregado da família”, que andava sujo e maltrapilho como um cigano.

Assim Maria Valéria retomou o seu trancão doméstico. Uma vez que outra, quando não havia ninguém no andar superior, entrava no quarto de Alicinha, abria o guarda-roupa da menina, acariciava rapidamente os vestidos com suas mãos ossudas e longas, tocava de leve na escova de cabelo e no pente, que estavam sobre o mármore do penteador, olhava em torno, via a cama, a boneca, um triste par de sapatos brancos da menina, que haviam ficado esquecidos a um canto — e depois saía na ponta dos pés...

Aderbal e a mulher vinham ao Sobrado quase todas as noites. Laurentina não afastava da filha o olhar tristonho; não falava mas dizia tudo por meio de fundos suspiros. Ninguém pronunciava o nome da morta, nem fazia a ela a menor referência. Discutiam o tempo, a safra, a situação política do país... Babalo escondia sua dor por trás da cortina de fumaça do cigarro. Andava sensibilizado com a atitude de Rodrigo, que passou a evitá-lo desde o dia da morte da criança. O genro não queria deixar-se consolar, obstinava-se em não sentar-se à mesa com o resto da família, à hora das refeições. Comia no quarto, em horário incerto, e sempre que os amigos, mesmo os mais íntimos, queriam vê-lo, dava um pretexto qualquer e recusava-se. E, quando os Carbone visitavam o Sobrado, a situação piorava, pois tanto Santuzza como Carlo começavam a chorar no momento em que batiam à porta.

O retraimento agressivo de Rodrigo durou boa parte daquele março mormacento, em cujas tardes de ar parado as cigarras cantavam nas árvores do quintal e as moscas zumbiam e esvoaçavam nas salas do casarão.

Em muitas daquelas tardes ele entrava no Ford, mandava Bento tocar para o cemitério e lá ficava horas inteiras, dentro do jazigo da família, ao lado da sepultura da filha, conversando com ela, baixinho, numa esquisita e triste felicidade.

Naquelas noites quentes e abafadas, custava-lhe dormir. Revolvia-se no leito e, quando via que era inútil continuar na tentativa de capturar o sono, erguia-se, debruçava-se na janela, acendia um cigarro e ficava a olhar para as árvores da praça e para as estrelas. Não raro saía pelo corredor, como um fantasma, entrava no quarto da filha, deitava-se na cama e punha-se a chorar um choro manso e lento, já sem desespero. E muitas vezes era ali que o sono vinha surpreendê-lo. As piores noites, porém, eram aquelas em que despertava de repente, com impressão de que alguém lhe havia tocado no ombro, e então lhe vinha a ideia de que Alicinha àquela hora estava sozinha, fechada na sepultura. Abandonada, no escuro, com medo, coitadinha!

Certa madrugada despertou com a impressão nítida e perturbadora de que alguém batia no piano lá embaixo... Alicinha — pensou. Sim, tinha ouvido alguns compassos de “Le Lac de Como”, a peça preferida da menina. Mas não! Devia ter sido um sonho. Sentou-se na cama, e ficou um instante com as mãos na cabeça, ouvindo, atento. O casarão estava agora silencioso. “Tenho a certeza”, disse para si mesmo, “não foi sonho. Ouvi. Não estou louco. Ouvi.” Saiu do quarto, desceu as escadas na ponta dos pés. Acendeu a luz do vestíbulo e ficou à escuta... Silêncio. Entrou na sala. Ninguém. Ali estava a um canto o piano fechado, o banco giratório vazio. Mas era estranho... Parecia andar no ar uma espécie de eco daquela música. Foi então que Rodrigo sentiu uma invisível presença na sala. Sim — concluiu — foi ela que veio e tocou... Tocou pra mim. Um sinal, um aviso.

Aproximou-se do piano, ergueu-lhe a tampa, perpassou os dedos pelo teclado. Não ousava olhar para os lados, para os cantos da sala em penumbra. Sabia que a filha morta estava a seu lado, quase a tocá-lo...

Em alguma parte do universo ela vive — dizia-se ele em pensamentos. E essa ideia lhe dava um doce tremor, um medo quase voluptuoso. Era uma esperança, um consolo... Por que não tinha pensado naquilo antes? Que estúpido! Aceitara como um idiota a ideia da destruição total e irremediável de sua princesa, como se ela fosse apenas corpo, apenas matéria. Deus era bom. Deus era grande. Deus era justo.

Agora compreendia. Estava tudo claro. Estava tudo bem. Um dia, numa outra vida, iam encontrar-se. Por enquanto o remédio era ter paciência, ir vivendo, esperando a grande hora. Sem desespero. Sempre atento àqueles sinais...

Ficou por algum tempo junto do piano, imóvel, os olhos cerrados, sentindo um calafrio em todo o corpo, mal ousando respirar.

Quando voltou para o quarto, encontrou Flora acordada.

— Estás sentindo alguma coisa? — perguntou ela.

— Não, meu bem, não é nada.

— Por que desceste?

Não respondeu. Estendeu-se na cama, ao lado da mulher, cerrou os olhos e, pela primeira vez naqueles últimos trinta anos, murmurou um padre-nosso. Sentiu a mão de Flora na testa. Decerto a mulher temia que ele estivesse febril.

— Não é nada, minha flor. Estou bem.

Pensou em contar-lhe tudo, mas teve medo de revelar o seu segredo. Medo e um certo ciúme. Calou-se e pouco depois adormeceu, sorrindo.

5

Foi ainda naquele mês que Rodrigo recebeu a visita do pastor metodista que morava numa das casas vizinhas, cujo pátio estava separado por uma cerca de tábuas do quintal do Sobrado. Fazia poucos meses que aquele americano, natural do Texas, chegara a Santa Fé. Rodrigo conhecia-o de vista, cumprimentava-o de longe e muitas vezes o vira nos fundos de sua residência cingindo um avental feminino, evidentemente ajudando a mulher na cozinha — coisa que o deixava intrigado — ou em mangas de camisa a jogar bola com a mais velha de suas três filhas — cena que em geral o enternecia. Era o rev. Robert E. Dobson um indivíduo que logo chamava a atenção pelo porte. Tinha um metro e noventa e dois centímetros de altura — o homem mais alto da cidade, dizia-se. Era seco de carnes e um pouco encurvado. Apesar dos pés enormes e das pernas longas, tinha passos leves e curtos, numa cadência rápida e regular, como se o pastor caminhasse sempre ao ritmo de um one-step. O rosto rubicundo era longo e fino. Seu perfil agudo lembrava um pouco as feições clássicas do polichinelo da caricatura. Seus olhos, dum cinzento desbotado e distante, tinham a fresca limpidez da inocência. O que, porém, o texano possuía de mais notável eram as mãos, longas e benfeitas, muito mais expressivas que o rosto. Quanto à voz, nem mesmo nos sermões ele a alteava. Tinha algo de vago e quebradiço: uma espécie de crepitar de palha. Sua mulher, também americana, era magra e frágil, de cabelos cor de areia, cútis muito branca, olhos dum verde de malva ressequida. Maria Valéria, que já mantivera com ela um diálogo por cima da cerca — mais por meio de gestos e de onomatopeias que propriamente de palavras — dizia que a “pastora” parecia um desenho mal apagado com borracha.

Antes de bater à porta do Sobrado, o metodista telefonou a Rodrigo pedindo permissão para visitá-lo e perguntando qual seria a hora mais oportuna. Rodrigo, curioso, respondeu-lhe que viesse na noite daquele mesmo dia, por volta das oito.

Às oito em ponto o rev. Robert E. Dobson entrou no Sobrado sobraçando uma Bíblia de capa negra. Apertou a mão do dono da casa, que o conduziu à sala de visitas, fazendo-o sentar-se no sofá onde o homem ficou, de busto teso, as pernas juntas, o livro sempre debaixo do braço, uma das garras espalmadas sobre a coxa. Rodrigo examinava o vizinho de alto a baixo. Era a primeira vez que o via de perto. Achava-o estranho, absolutamente diferente dos caboclos da terra, na cor e na forma. Não se parecia nem mesmo com os santa-fezenses descendentes de alemães. Tinha no seu desengonçamento, no pescoço de gogó saliente, na forma do rosto algo que lembrava Abraão Lincoln — mas um Lincoln em tons avermelhados. A mecha de cabelo que caía sobre a testa do homem (Quantos anos teria? Quarenta? Cinquenta?) dava-lhe um certo ar juvenil e esportivo de universitário.

Por alguns momentos nenhum dos dois falou. O rev. Dobson limitava-se a sorrir um sorriso tímido mas aliciante, que lhe punha à mostra os dentes postiços. Rodrigo mantinha-se na atitude de “pé atrás” que sempre assumia quando era procurado por algum vendedor ambulante ou agente de seguro de vida.

O rev. Dobson mexeu as pernas. Suas botinas grosseiras e pretas, quase informes, tinham algo de reiuno. Que quereria aquele homem?

A explicação não tardou. O pastor soubera da grande perda que a família sofrera, imaginava a dor que lhes partia o coração e por isso ousara visitar o chefe da casa...

Rodrigo escutava-o um pouco impaciente, porque a voz apagada do ministro, aquela espécie de cochicho em mau português tornava-lhe difícil prestar atenção ao que ele dizia. O rev. Dobson falava com hesitações, ficava roncando — ah... ah... ah... — quando não encontrava a palavra adequada. Contou quem era, de onde vinha. Nascera e fora criado numa estância, no Texas, como um verdadeiro caubói. Mudara-se para El Paso, onde terminara o high school e conhecera o pecado...

Rodrigo franziu a testa. Não podia imaginar o rev. Dobson conhecendo o pecado. Que forma teria esse pecado? A duma rapariga loura? Morena? Ou ruiva? Sem prestar mais atenção à voz de palha, ficou a fantasiar a adolescência pecaminosa de Bob Dobson em El Paso, na fronteira com o México... Ouvia uma que outra palavra do que o homem lhe dizia — “dez dólares... ’aus amigos... ’eiro trago de uísque... well”. Talvez tivesse sido com uma mexicana de sangue índio, o que naturalmente, para aquele homem branco, num ambiente racista, agravara a natureza do pecado... Dormir com americana loura fora do casamento é uma iniquidade. Dormir com uma mexicana de raça inferior: dupla iniquidade... O reverendo pedia desculpas — “escuse-me, por favor” — por estar entrando naqueles detalhes pessoais e íntimos. Queria, you know, queria com isso mostrar que era um homem como os outros, um pobre pecador; em suma: o fato mesmo de haver já mais de uma vez transgredido as leis do Senhor não significava que... ah... ah... ah... ah...

De novo Rodrigo perdeu-se num devaneio. El Paso... Como seria a cidade? Descruzou e tornou a cruzar as pernas. Fazia calor. Passou o dedo entre o colarinho e o pescoço, esfregou o lenço pela testa. O americano também trançou as longas pernas, suas reiunas moveram-se: pareciam dois gatos. Mas aonde diabo queria aquele homem chegar? El Paso... decerto era uma cidade com casas de tijolo nu, pesadas e tristes. A bomba de gasolina... A igrejinha branca de madeira...

O pastor chegou ao ponto culminante da sua história: a conversão. Passava, um domingo, pela frente dum templo metodista quando... De novo Rodrigo desligou a atenção.

Finalmente o rev. Dobson revelou o objetivo da visita. Não só vinha apresentar suas condolências como também pedir a Rodrigo que pensasse no consolo da religião. Deus era o remédio para todos os males, tanto para os pequenos como para os grandes. Deus era a razão de tudo, o princípio e o fim. Sem Deus o mundo e a vida não teriam sentido.

O rev. Dobson falava num tom monocórdio, sem um momento de exaltação. Suas palavras pareciam apenas fazer cócegas no ar e nos ouvidos do interlocutor. Rodrigo, porém, começava a apiedar-se do homem. Sua candura, sua absoluta falta de malícia, cativavam-no, davam-lhe desejos de protegê-lo. Se o missionário fosse um vendedor, Rodrigo estaria já disposto a dizer: “Compro tudo o que o senhor tem na sua mala. E não discuto preço”.

O pastor estava tentando vender-lhe Deus. Mas ele já havia comprado Deus na noite em que Alicinha lhe dera aquele aviso... Andava pensando vagamente em comparecer a uma sessão espírita. Chiru Mena lhe falara num médium vidente seu conhecido, que tinha poderes extraordinários. Por que não tentar? Havia fenômenos metapsíquicos para os quais a ciência oficial ainda não encontrara explicação. E, depois, não perderia nada por tentar.

— Permite? — perguntou o texano.

Rodrigo ergueu interrogadoramente as sobrancelhas.

— Como?

— Permite que eu leia meu... ah... ah... passagem de Bíblia favorito?

— Pois não, reverendo, pois não!

— É um salmo de Davi...

Rodrigo mudou de posição na cadeira. Agora sentia sede. Pensava numa cerveja gelada. O pastor abriu o livro numa página marcada por uma fita, puxou um discreto pigarro, fitou os olhos de cinza apagada no dono da casa, tornou a baixá-los e leu:

— O Senhor é o meu pastor: nada me faltará. Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas... Refrigera a minha alma: guia-me pelas veredas da justiça...

Rodrigo escutava, de olhos baixos. Já folheara muitas vezes a Bíblia: era um dos cem livros que havia posto de lado para “ler depois”. Esse depois nunca chegava.

— ... Ainda que eu andasse pelo vale da sombra e da morte...

Aquilo era bonito e dramático: pelo vale da sombra e da morte. Alicinha andava agora por esse escuro vale, mas tudo estava bem, porque Deus a guiava...

— ... não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam. Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda...

Rodrigo notou que agora Maria Valéria aparecia como uma assombração à porta que dava para o vestíbulo, lançava um olhar intrigado para o visitante e depois sumia. No andar superior Bibi desatou a chorar.

— Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida: e habitarei na casa do Senhor por longos dias.

O pastor fechou a Bíblia, colocou-a sobre os joelhos, estendeu sobre ela as manoplas, e encarou o dono da casa, que murmurou:

— Muito bonito. — E mentiu cordialmente: — Eu já conhecia esse salmo.

Fez-se um curto silêncio. Com um movimento de cabeça o rev. Dobson afastou a mecha de cabelo que lhe caíra sobre um dos olhos.

— Eu só gostaria ah... ah... que o doutor não esquecesse aquelas primeiras palavras: “O Senhor é o meu pastor: nada me faltará”.

Disse mais que tinha em casa, à disposição do caro vizinho, várias biografias de homens eminentes que haviam encontrado consolo e alimento espiritual em Cristo. Conhecia ele a aventura de Livingstone em pleno coração da África, em meio aos selvagens e às feras? E a daqueles heroicos passageiros do Titanic que, enquanto o vapor afundava, permaneceram reunidos na popa até o momento derradeiro, a cantar um hino religioso?

— Reverendo, o senhor deve saber que aqui somos todos católicos.

O pastor ergueu a mão.

— Longe de mim, oh, longe de mim a ideia de tentar... ah... ah... ah... converter o senhor ao metodismo. Seria... seria... oh, my!

— Eu sei... só quis informar...

— Mas Deus é um só. O Deus dos católicos é também o nosso Deus.

Rodrigo havia “esquecido” que o homem era tão alto e quase teve um choque quando o viu erguer-se. Fez o mesmo.

— Não toma alguma coisa, reverendo?

— Oh, não, agradecido. Devo ir.

Apesar do tamanho — refletia Rodrigo — o texano tinha uma presença transparente e leve. A sua magreza, a natureza neutra da voz, a maneira impessoal do vestuário, a ausência de paixão na palavra e no gesto tornavam-no por assim dizer imponderável. Um homem de fumaça? Talvez fosse uma boa definição. Concluiu que era impossível amar ou odiar uma pessoa assim. Em todo o caso, não podia deixar de ficar grato ao vizinho pela visita, pela intenção, pela...

— Bem, estou indo — disse o pastor. — Posso deixar-lhe esta Bíblia?

— Ora, não se incomode...

— É um prazer.

Depôs o livro em cima do consolo, sob o espelho, para o qual, entretanto, evitou olhar. Parou um instante diante do Retrato, olhou da tela para Rodrigo e disse:

— Muito bom. Fino portrato.

Encaminhou-se para o vestíbulo, onde apanhou o chapéu. O dono da casa acompanhou-o até a porta, levemente irritado por se sentir tão baixo perto do outro. Apertaram-se as mãos, trocaram-se boas-noites e agradecimentos.

Ora essa! Já se viu? — pensou Rodrigo, fechando a porta.

Maria Valéria esperava-o ao pé da escada grande.

— Que é que o Jerivá queria?

— Nada, titia.

— Le vendeu alguma coisa?

— Não.

A velha lançou-lhe um olhar enviesado de desconfiança.

— Não venha me dizer que esse bife não queria nada...

— Foi apenas uma visita de pêsames.

— Ah! Mas que era que ele estava lendo?

— Um trecho da Bíblia.

Apontou para o consolo. Maria Valéria viu o livro e murmurou:

— Se o vigário descobre, vai ficar brabo.

— Que fique! Não é meu tutor. Recebo nesta casa quem eu quiser. Protestante, muçulmano, budista, ateu e até macumbeiro.

Pegou a Bíblia e começou a folheá-la. Depois, largando o livro, ergueu a cabeça e ficou a namorar-se diante do espelho, examinando o branco dos olhos, arreganhando os lábios para ver melhor os dentes, ajeitando a gravata...

Maria Valéria sorriu. Aquilo era um sinal de que o sobrinho aos poucos voltava a ser o que sempre fora.

6

Era a opinião geral. Rodrigo Cambará tornava aos poucos ao seu natural. Tinha atenções e carinhos para com Flora, preocupava-se com a palidez e a magreza da mulher, insistia para que ela se alimentasse melhor, tomasse os remédios que Camerino lhe prescrevia. Interessava-se também pela vida dos filhos, fazia perguntas a Floriano sobre as matérias que o rapaz estudava na escola, andava frequentemente com Bibi no colo, beijando-lhe as faces e dizendo-lhe coisas carinhosas, discutia problemas do Angico com Jango e brincava de “touro e toureiro” com Edu.

E em meados daquele outono, atravessou um período de religiosidade e espiritualismo que deixou Stein surpreendido.

— Pensas — perguntou ele ao judeu uma noite —, imaginas que tudo se pode explicar com a história? E que a história é o único absoluto moral da humanidade?

Stein olhava para a ponta de seus sapatos esfolados. Aquele ano se havia tornado membro do Partido Comunista Brasileiro. Andava com a cabeça mais que nunca cheia de leituras, ideias, planos... Os livros marxistas, que tinham sua circulação proibida no Brasil, ele os recebia clandestinamente do Uruguai e da Argentina. A velha Sara, como sempre, tomava conta do ferro-velho, enquanto ele passava os dias a ler. Fazia um que outro serviço de cobrança ou de banco, coisas pelas quais sentia o maior desprezo e repugnância. No seu pequeno quarto já não tinha mais onde guardar livros. Eles se empilhavam pelos cantos, debaixo da cama, em cima do guarda-roupa... A questão social apaixonava-o cada vez mais, e quanto mais lia, quanto mais observava o cenário político e econômico do Brasil e do mundo, mais e mais se convencia de que a solução para aquelas crises frequentes, para aquele estado crônico de injustiça social e para as guerras era o socialismo, o comunismo, que alguns reacionários ainda insistiam em chamar ridiculamente de maximalismo.

Continuar: parte 2 de 7