O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Érico Veríssimo · Capítulo 5 de 6 · parte 1/3

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O Tempo e o Vento: O Arquipélago (Volume 2)

Reunião de família IV

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

1o de dezembro de 1945

Sete e meia da manhã. Floriano barbeia-se diante do espelho do quarto de banho, pensando que dentro de alguns minutos terá de enfrentar a família à mesa do café. À medida que passam os dias, mais constrangedores se vão tornando para ele esses encontros. A presença física de Sílvia causa-lhe uma perturbação cada vez mais difícil de dissimular.

Que fazer? — pergunta mentalmente à imagem que do espelho também o contempla com ar indagador. Que fazer?

Os olhos ainda um tanto enevoados de sono, dois ou três fios prateados apontando entre os cabelos negros das têmporas, o tom de marfim dos dentes, acentuado pelo contraste com a espuma branca que lhe cobre as faces — Floriano sorri para a própria imagem, tendo ao mesmo tempo consciência dum narcisismo que o desagrada, pois ele (ou o Outro?) deseja mesmo acreditar que não é, nunca foi vaidoso.

Ali está um sujeito que o conhece melhor que ninguém: o olho implacável que lhe vigia e critica pensamentos, gestos, palavras e até sentimentos. Como seria bom poder livrar-se desse incômodo anjo da guarda, desse capanga metafísico!

A cerimônia matinal de fazer a barba foi sempre para Floriano a hora de dialogar com seus fantasmas, fazer planos para a vida e para os livros, ruminar emoções passadas, corrigindo às vezes o que aconteceu, imaginando o que poderia ter feito e dito em determinadas ocasiões, em suma, passando a vida a limpo. Essa é também a hora em que costuma projetar suas fantasias no futuro, dando às coisas que estão para vir o desenho mais conveniente a seus desejos.

Apanha o aparelho Gillette e começa a escanhoar uma das faces. Curioso: não consegue dissociar este devaneio meio sonolento e voluptuoso das suas masturbações da infância, aqui neste mesmo quarto. Não haverá acaso entre esses dois exercícios solitários um certo parentesco, pelo lado do faz de conta? E não serão ambos em última análise um melancólico pecado contra a existência autêntica?

Passa agora a lâmina pelo pescoço. (No pátio da Intendência degolavam-se maragatos.) Degolar o Outro, liquidar o Anjo... Não. O melhor será descobrir uma fórmula mágica para promover a fusão das duas partes de seu Eu. Deixar de ser ao mesmo tempo sujeito e objeto: eis a questão. Unificar-se... Avante, Garibaldi!

É sempre assim. Todas as suas autoanálises acabam em farsa. Tempo houve em que achava isso uma atitude estoica diante da vida. Seria pelo menos uma paródia de estoicismo... Agora, porém, sabe que suas fugas pela porta do humor nada mais são que a tentativa de pregar um rabo de papel colorido nos seus problemas, pintar um bigode caricatural na face dramática da vida, em suma, eliminar ou atenuar o caráter ameaçador de tudo quanto — por misterioso, estranho, hostil ou insuperável — lhe possa aumentar a angústia de existir. Sim, não se levando a sério e não levando a sério suas situações, ele se exime da responsabilidade de viver a sério. Mas, por outro lado, o levar-se demasiadamente a sério não oferecerá riscos maiores? A incapacidade de duvidar, de rir dos outros e de si mesmo não poderá levar um homem à intolerância e ao fanatismo?

Por um instante Floriano fica atento aos ruídos da casa e da manhã. Depois aproxima mais o rosto do espelho, para escanhoar o queixo. Se ele se livrasse do Outro, que vantagens teria na vida? Para principiar, quando se deitasse com uma mulher (fosse ela quem fosse) iria inteiro para a cama — carne, ossos, nervos, vísceras, sangue — e não teria aquele Fiscal absurdo e frio a seu lado, a observá-lo e a insinuar coisas que lhe aguçavam o sentimento de culpa e ridículo. Sim, e quando escrevesse, escreveria com o corpo todo, sem ter o Outro — no fundo um representante dos Outros, da Família, da Crítica, da Sociedade, da Ordem Estabelecida —, sem ter aquele Censor a ler por cima de seu ombro... merda então para o Outro! Merda para a Família! Merda para a Sociedade! Merda para a Crítica! Merda para a Ordem Estabelecida! E por fim merda para a Merda! E assim, senhoras e senhores, fechamos o círculo, voltando ao ponto de partida, isto é, à Merda inicial.

Floriano grita de repente o palavrão, fazendo estremecer o chuveiro de lata pintada de verde que pende do teto. (Adolescente, ele cantava aqui árias de ópera, orgulhando-se de fazer vibrar o chuveiro: pois Caruso não tinha quebrado um copo com um dó de peito?)

O homem do espelho parece apreensivo. A escatologia não é solução. Floriano quer pronunciar a Palavra com absoluta convicção, com um certo fervor cívico e até religioso. Talvez nisso esteja a sua salvação. Mas qual! Sente que no fundo é ainda o menino bem-comportado, de boa família, que não escreve nem diz nomes feios, porque Papai e Mamãe não querem, a Dinda não quer, a Professora não quer...

Dum pequeno talho no queixo lhe escorre uma gota de sangue, que tinge a espuma de carmesim. Morango com nata batida: a sobremesa predileta de Mandy. O homem estendido na calçada em Chicago, seu sangue avermelhando a neve... Sangue nos algodões e gazes nos baldes da sala de operações do dr. Carbone. Do you like strawberries and cream, dear? O apartamento de Mandy, a janela aberta sobre a baía de San Francisco... No, dear, I don’t.

Mas em que ficamos? Qual a solução? Antes de mais nada, qual o problema? Mesmo em pensamento lhe é difícil, constrangedor, verbalizar sua situação. Estás apaixonado pela mulher do teu irmão. Quem constrói a frase é o Outro. Nessa formulação está encerrado um julgamento moral, uma censura. Não será mais verdadeiro dizer simplesmente: Estou apaixonado por Sílvia? Mas apaixonado será a palavra exata? A palavra nunca é a coisa que pretende exprimir. A realidade não é verbal. Merda para a semântica!

Floriano põe a água da torneira a correr e nela lava o aparelho de barbear. Depois torna a ensaboar as faces.

Só há duas soluções possíveis. Ou tomo Sílvia nos braços e a levo para longe daqui e vamos viver nós dois a nossa vida, mandando o resto para o diabo... ou então me convenço duma vez por todas de que não há solução... e me vou embora amanhã. Não há meio-termo. Mas não terei sido sempre o homem dos meios-termos, das meias soluções? E... e será que ela ainda me ama?

E por um momento lhe vem, agudo, urgente, o desejo de fugir. Fugir de Santa Fé, do Sobrado, sim, da morte do Pai e do amor de Sílvia.

Não! Desta vez é preciso ficar. Vim para enfrentar a situação. Esse problema e os outros. Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico. (D. Revocata em cima do estrado, peitos murchos, bigodes de granadeiro.)

Passa agora a lâmina pelo espaço entre o nariz e o lábio superior. Mas distrai-se, vendo refletida no espelho a bandeirola tricolor da janela. Nos banhos da meninice muitas vezes o sol projetava-lhe no peito manchas vermelhas, verdes e amarelas. Isso lhe inspirara aos doze anos um poema.

O sol me pinta no peito

a bandeira do Rio Grande.

Vêm-lhe à mente agora imagens do sonho que teve há duas ou três noites. Andava atrás de Sílvia dentro dum imenso casarão cheio de portas fechadas e proibidas, ao longo de imensos corredores; o casarão era ora o Sobrado, ora o internato do Albion College, ora um quartel... e ele perseguia o vulto branco (seria mesmo Sílvia?) mas não conseguia alcançá-lo... E de repente se viu deitado em sua cama e Sílvia entrou no quarto na ponta dos pés (ou era Mandy?) e meteu-se nua debaixo das cobertas... Ele quis tocá-la mas não conseguiu mexer-se, estava paralisado, incapaz dum gesto... e a mulher imóvel a seu lado, esperando. E, quando finalmente conseguiu mexer-se e ia abraçar Sílvia — pois agora tinha a certeza de que era ela —, despertou...

Fica a imaginar a sensação de ter Sílvia desnuda nos braços, mas só de pensar nisso lhe vem um sentimento de culpa mesclado de uma fria vergonha, como se por desejá-la fisicamente ele estivesse cometendo uma espécie de “incesto branco”. Não se trata da mulher de seu irmão? E não foi ela criada no Sobrado quase como sua irmã? (Ah! mas a diferença de idade nos separava na infância... e as minhas prolongadas ausências... Seja como for, merda para o incesto!)

Por muito tempo ele se defendeu da ideia de que desejava Sílvia como mulher. Preferia acreditar que sua afeição por ela pouco ou nada tivesse de carnal. Leituras e superstições da adolescência. La chair est triste, hélas!, et j’ai lu tous les livres.

Havia de me acontecer essa... a mim, que sou o capitão. (Três a mexer, quatro a comer... quem falar primeiro come, menos eu que sou capitão.) Mas preciso me analisar mais a sério. E me barbear melhor...

O sangue continua a escorrer-lhe do corte.

Sejamos realistas. O que se passa comigo é que há mais de um mês não tenho mulher: a castidade forçada aumenta meu desejo por Sílvia. Logo, o remédio é procurar uma mulher... Mas quem? Onde? Como? A ideia de recorrer a uma prostituta lhe é constrangedoramente repugnante. Outro preconceito, meu amigo! (A voz de Tio Bicho.) A pessoa não é a sua profissão ou a sua função!

Sônia no Hotel da Serra. Floriano repele imediatamente a sugestão, procura, quase em pânico, esquecê-la. A ideia lhe veio porque ele a temia ou ele a temia por ter a intuição de que ela se aproximava, inapelavelmente? Está claro que a coisa toda é absurda, indecente, indigna, impossível. (Tio Bicho: “Palavras, palavras, palavras! E tu não sentes nada do que estás dizendo”.) Dormir com a amante do pai? A possibilidade deixa-o estranhamente excitado. Como e por que negar que se sente fisicamente atraído pela rapariga? Mas como negar também que a ideia o envergonha? E por que imaginar que Sônia queira dormir com ele? Só por ter pensado nessa possibilidade Floriano se despreza, e por desprezar-se fica irritado, sentindo-se ridiculamente como um cachorro que tenta morder o próprio rabo.

Gosto de sangue na boca. Floriano parte um pedaço de papel higiênico e cola-o sobre o minúsculo manancial.

Existir não será, entre outras coisas, estar condenado a, mais tarde ou mais cedo, comer as porcarias da Vaca Amarela? Ninguém é Capitão. Talvez só Deus. Ou talvez não exista nenhum Capitão. O que não exclui a existência da Vaca Amarela. Bandeira diria que o Capitão é uma verdade abstrata, ao passo que a Vaca Amarela é uma realidade existencial.

Larga o aparelho Gillette. Afinal de contas preciso acabar com essa ideia pueril de que é possível atravessar a vida sem ferir ninguém nem sujar as mãos. Escrever mil vezes como castigo a frase: Não devo iludir-me: não sou um sujeito decente. Por que não me aceitar a mim mesmo como sou e arcar com todas as consequências? Sim, as más e as boas. O Outro, o do espelho, replica: “Bela desculpa para fazeres tudo quanto desejas sem olhar o interesse dos outros”. Besteira! Vocês (mas vocês quem?) inventaram e nos impingiram a vergonha do corpo, a vergonha dos desejos do corpo e como resultado disso nos transformaram em eunucos.

Enquanto enxuga o aparelho de barbear, sempre a assobiar um trecho do adágio do Quinteto para clarineta e cordas, de Brahms, a melodia lhe desenha na mente a figura de Sílvia. De certo modo essa música é Sílvia. Ao banho!

Despe-se, coloca-se debaixo do chuveiro e puxa no barbante — a mesma engenhoca da infância — pensando no banheiro coletivo do Albion College. Nas manhãs de inverno os rapazes tiritavam e gritavam sob o chuveiro gelado, seus corpos despedindo “fumaça”. Floriano sorri, lembrando-se de Mr. Campbell, que invariavelmente entrava no quarto de banho a essa hora, a pretexto de apressar os rapazes, e ali se deixava ficar, lançando olhares ávidos para a nudez dos meninos. Come on, boys! Hurry up! Hurry up! E cantava canções inglesas, batendo palmas para marcar o compasso; uma lubricidade meio fria e senil lhe vidrava os olhos injetados de bebedor de uísque.

Floriano torna a pensar em Sônia, e contra sua vontade compara-a com Sílvia, como fêmea, e se odeia por fazer isso, mas nem assim consegue afastar esses pensamentos. Esfrega com força o sabonete na cabeça, no pescoço, no torso, com frenética energia, como na esperança de poder tirar do corpo todos esses desejos, e limpar o pensamento dessas sujeiras. Merda para a limpeza!

 

Deixa o quarto de dormir pouco antes das oito. Acaba de enfiar umas calças de alpaca cor de chumbo e uma camisa de linho branco. Agora aqui vai ao longo do corredor a pensar, contrariado, que terá de pôr gravata e casaco às dez da manhã para assistir à inauguração do busto do cabo Lauro Caré e aguentar a oratória e as patriotadas sob o olho do sol. Sim, e terá também de apertar a mão do prefeito municipal e do comandante da Guarnição Federal, e comunicar-lhes que ali está como representante do dr. Rodrigo Cambará, etc., etc., etc. Como está passando o senhor seu pai? Melhor, muito obrigado. E a senhora sua mãe? Mas que é que a senhora minha mãe tem a ver com isto? Vamos, senhores! Depressa com os discursos e os hinos! Ó mísero apátrida! Ó homem sem passaporte! Serás acaso incapaz de vibração cívica? Que sentes ao ouvir o nosso hino? Nó suíno? Cacófato! Serei um cacófato vicioso nesse concerto patriótico. Desculpem o mau par.

Floriano para junto da janela que dá para o patamar da escada interna e olha para fora. Que sol! Que céu! Que verdes! No fim de contas quem tem razão mesmo é o Hino Nacional. “Nossos bosques têm mais vida e nossa vida em teu seio mais amores”.

Passa a mão pelas faces, arrependido já de as ter friccionado com loção de alfazema. A Dinda detesta qualquer água de cheiro. Jango tem em péssima conta homem que se perfuma. Mas quando é que vou aprender a fazer o que me agrada sem me preocupar com os outros?

Quando entra na sala de jantar, que recende a café recém-passado, o relógio de pêndulo começa a bater as oito. Além de Maria Valéria, só Sílvia se encontra à mesa. Ao ouvir os passos de Floriano, ergue a cabeça e sorri. A velha nem dá tempo ao recém-chegado para lhes dizer bom-dia.

— Estava com bicho-carpinteiro no corpo? — pergunta. — Passou a noite caminhando.

Floriano depõe um beijo na testa da Dinda, depois senta-se, apanha um guardanapo, desdobra-o e estende-o sobre o regaço.

— Quem foi que lhe contou?

— Ouvi seus passos.

— Como é que sabe que eram meus e não do Jango ou do Eduardo?

— Conheço muito bem o tranco do meu gado. Jacira! Traga esse café duma vez.

O relógio bate a última badalada, que soa longa, com uma gravidade meio fanhosa e desafinada como a fermata dum velho cantor de ópera que está perdendo a voz mas que ainda não perdeu a dignidade. É um som antigo, familiar mas nem por isso totalmente amigo. O menino Floriano sempre sentiu nele algo de autoritário e quase fatal. Era o “relógio grande” quem lhe dizia que era hora de levantar da cama, de ir para a escola e voltar para a cama à noite. Havia em suas ordens um tom definitivo e irrevogável.

E agora, como é preciso dizer alguma coisa, Floriano conta que quando criança sempre teve uma vontade danada de saber que era que a máquina do tempo tinha “na barriga”.

— Um dia teu pai te pegou mexendo na caixa do relógio — diz Maria Valéria — e te deu umas palmadas.

— Teria sido papai ou a senhora?

— Foi seu pai. Ainda não estou caduca.

Sílvia sorri, e seus dentes alvos e regulares aparecem.

— Pra mim — diz ela — esse relógio sempre foi uma pessoa, um membro da família. Mas confesso que tinha um certo medo dele. Um dia eu estava sozinha aqui e de repente ele bateu... Levei um susto e desatei o choro. Foi quando dona Maria Valéria apareceu e eu me agarrei nas saias dela. Lembra-se, Dinda?

A velha encolhe os ombros.

— Se eu fosse contar todas as vezes que vocês se agarraram nas minhas saias...

Jacira entra trazendo uma bandeja com um bule de café, outro de leite e um prato de torradas. Coloca todas essas coisas fumegantes em cima da mesa.

Floriano olha em torno. A luz da manhã, entrando pelas janelas, parece esforçar-se por dar um pouco de alegria e brilho à baça severidade desta sala.

Desde que veio morar no Sobrado, Sílvia se tem empenhado numa campanha lenta mas pertinaz para vestir a nudez do casarão e dar-lhe alguma graça. Tudo lhe ficou um pouco mais fácil depois que Maria Valéria perdeu a visão. A velha, por exemplo, não sabe que uma toalha de linho amarelo cobre agora a mesa, nem que o serviço de café é de cerâmica cor de terra de siena, em desenho não convencional. Se soubesse, protestaria contra todo “este desfrute”. Faz relativamente pouco que se veem tapetes nos soalhos das salas principais do Sobrado, cortinas nas janelas e uns quadros nas paredes: reproduções de Degas, Cézanne, Utrillo e Renoir. Antes, além do retrato de Rodrigo, dumas fotografias ampliadas e pintadas a óleo de pessoas falecidas, enquadradas em funéreas molduras cor de ouro velho, o mais que Maria Valéria se permitia ter em casa em matéria de “arte” eram os cromos das folhinhas que a Casa Sol distribuía como brinde entre seus fregueses. Quanto a móveis e utensílios, ela e Jango se contentavam com o mínimo. Esta mobília de jacarandá lavrado, pesada e triste, sempre causou um certo mal-estar a Floriano, que, quando menino, descobriu entre ela e os ataúdes do Pitombo um certo ar de família. Dentro da grande cristaleira, que lembra uma vitrina de museu — juntamente com bibelôs, xícaras de porcelana e cálices de cristal que jamais se usam —, vê-se a famosa coberta de mesa de louça holandesa, herança de sua bisavó Luzia e que, segundo a tradição oral da família, pertenceu originalmente ao príncipe Maurício de Nassau.

Sílvia acaba de encher de leite com algumas gotas de café a xícara de estimação de Maria Valéria, presente que o dr. Carl Winter lhe deu no Natal de 1905 — um xicarão que ostenta um ramo de flores amarelas e azuis pintado à mão, circundando um coração branco em relevo, sobre o qual se lê em letras douradas: ZUM ANDENKEN.

O maior aliado que o sol encontra aqui na sua tentativa de animar o ambiente é a reprodução em tamanho natural dum quadro de van Gogh, de cores vivas e quentes, e que parece ser também um foco de luz.

Maria Valéria segura a xícara com ambas as mãos e leva-a aos lábios. A fumaça lhe sobe para o rosto dum moreno terroso de cigana, onde rugas fundas se cruzam e entrecruzam como gretas no leito adusto dum rio que secou. Por um instante Floriano fica a comparar a face da velha com a da figura do quadro.

— Não achas que a Dinda e aquele camponês podiam ser parentes chegados? — pergunta.

Sílvia, que tem o bule de café na mão, lança rápido olhar para trás e depois, tornando a encarar o cunhado, diz:

— Primos-irmãos. — E, mudando de tom: — Preto ou com leite?

— Preto, por favor.

Floriano empurra para o centro da mesa a xícara, que a cunhada, de braço estendido, enche de café. A cor de sua tez, dum moreno parelho, enxuto e cetinoso, parece continuar fragmentada nos pratos, xícaras e pires. Floriano lembra-se de que viu essas mesmas qualidades na pele duma dançarina chinesa no Chinatown de San Francisco da Califórnia. A criatura, que dançava completamente desnuda na atmosfera crepuscular do cabaré, lhe trouxera à mente, de maneira perturbadora, a imagem de Sílvia.

— Mais alguma coisa?

— Não. Obrigado.

Floriano puxa a xícara, serve-se de açúcar e começa a passar manteiga numa torrada, com um cuidado lento e exagerado, como se quisesse esconder-se atrás desse gesto para melhor ruminar suas lembranças proibidas. Maria Valéria dá ordens em voz alta a Jacira. Da cozinha vêm os resmungos de Laurinda. Ruído de passos no andar superior.

Foi talvez naquela noite californiana, em plena Guerra, que pela primeira vez ele teve consciência da natureza carnal de seu amor por Sílvia. A chinesinha movia-se na pista perseguida pela luz do holofote. Em torno dela marinheiros e soldados embriagados diziam-lhe gracejos ou simplesmente urravam. Segurando um balão amarelo de borracha, com o qual escudava o sexo, ela rodopiava leve como uma figurinha de papel. Seus seios miúdos, firmes como as nádegas, tinham algo de patético. E ele seguia a dançarina com os olhos, perturbado pela descoberta...

Toma um gole de café e olha para a cunhada, irresistivelmente. Sim, ela tem algo de oriental. (Algum antepassado bugre?) No rosto alongado, de pômulos salientes, os olhos de castanha e mel são levemente oblíquos. Quando ela sorri o nariz se franze, os zigomas se acentuam, apertando os olhos, que ganham uma expressão entre lânguida e menineira. Aos vinte e sete anos, Sílvia tem algo que a Floriano parece uma espécie de precoce aura outonal: é como se a criatura andasse permanentemente tocada pela luz de maio. Sua voz fosca, surpreendentemente grave num corpo tão frágil, sugere a cor e a esquisita fragrância da folha seca. De novo uma clarineta toca na mente de Floriano uma frase do adágio do Quinteto de Brahms. Mas é preciso dizer alguma coisa.

— Acho que já te contei, Sílvia, por que comprei essa reprodução de van Gogh. Encontrei-a numa livraria de Nova York. Gostei das cores, desse fundo de laranja queimado contrastando com o blusão azul e o chapéu cor de sol. Mas o que mais me tocou foi a cara desse camponês mediterrâneo. Achei nele uma parecença extraordinária com vovô

Babalo...

Sílvia torna a voltar a cabeça.

— Tens razão...

— ... a cara angulosa, a tez tostada, a barbicha branca, os olhos ao mesmo tempo bondosos e lustrosos de malícia. E repara nas mãos... que integridade! São mãos de gente acostumada a mexer na terra.

— Eu me lembro que, ao ver este quadro pela primeira vez, o velho Liroca notou logo essa espécie de lenço vermelho que o homem tem no pescoço e perguntou: “Quem é o maragato?”.

De novo Sílvia está voltada para Floriano, e desta vez os olhos de ambos se encontram. Ela baixa a cabeça em seguida. Ele faz o mesmo, mordisca uma torrada, toma um gole de café — amargo, pois não o mexeu — e depois olha para Maria Valéria, que passa mel numa fatia de pão.

É admirável — reflete — como apesar de ter os olhos velados pela catarata a velha caminha por toda a casa, sobe e desce escadas, sem jamais dar um passo em falso ou colidir com pessoas, móveis ou paredes. É como se tivesse a guiá-la uma espécie de radar. Um dia, como alguém a elogiasse por isso, resmungou: “Depois de velha virei morcego”.

Ruídos de passos na escada.

— É o Jango — murmura a Dinda.

Poucos segundos depois Jango entra na sala. Está sem casaco, veste uma camisa branca de mangas arregaçadas acima dos cotovelos, bombachas de brim xadrez e botas. Resmunga um bom-dia geral, senta-se ao lado da mulher e, sem olhar para ninguém, começa a servir-se.

— Esse amanheceu com o Bento Manoel atravessado — resmunga Maria Valéria.

— Não achei a minha faca de prata — diz Jango.

— Já está na tua mala — informa Sílvia.

— Mandaste lavar o meu lenço branco de seda?

— Mandei. Está também na mala.

O sol bate em cheio no rosto de João Antônio Cambará. Em suas faces, dum moreno iodado, azuleja sempre a sombra duma barba cerrada, por mais que ele as escanhoe. Tem uma vigorosa cabeça de campeiro a que as costeletas dão um ar um pouco espanholado e anacrônico. Nos olhos escuros e apertados do irmão, Floriano descobre algo que em seu jargão particular poderia ser definido como “uma expressão babalesca”. No físico Jango se parece principalmente com o avô paterno. É o mais alto dos Cambarás, o que levou Maria Valéria a dizer um dia que “esse menino mais parece filho do Sérgio Lobisomem que do Rodrigo”. Quanto ao temperamento, Jango herdou de ambos os avós o amor pela vida do campo e uma certa impaciência com relação ao que ele costuma chamar de “bobagens de cidade”.

Floriano observa o irmão furtivamente. A presença de Jango é dessas que logo se impõem ao olfato e à vista. Recende a suor, de mistura com sarro de crioulo e com o cheiro de couro curtido das botas e da guaiaca. Há certas pessoas vagas, meio apagadas, como um pastor metodista que Floriano conheceu quando menino: parecem desenhadas a lápis e depois pintadas com aquarela diluída. Mas Jango, de cabelos negros e sobrancelhas bastas, braços peludos e traços fisionômicos nítidos — é positivamente um desenho feito a nanquim e colorido com têmpera.

Enquanto Maria Valéria e Sílvia confabulam em voz baixa, decidindo o que vão mandar preparar para o almoço, Floriano fica olhando para dentro da sua xícara e analisando o Jango que ele “vê” na galeria fotográfica de sua memória, em meio de incontáveis retratos, uns mais apagados que outros.

Que será que ele pensa de mim? E que será que eu penso mesmo dele? Se não nos entendemos melhor, a culpa por acaso não será mais minha que dele? Acho que Jango sente por mim uma afeição morna misturada com certa perplexidade diante do bicho raro que sou: o homem que viaja, escreve e lê livros, que detesta a vida de estância e que — pecado dos pecados! — gosta de música... Minha afeição por ele talvez seja o resultado dum hábito combinado com a consciência dum dever. (Nunca tentei esconder nem de mim mesmo que sempre tive mais afeição pelo Eduardo.) Sim, às vezes Jango me irrita pelas suas qualidades positivas que tanto põem em relevo as minhas negativas. (Positivo e negativo, entenda-se, de acordo com a tábua de valores do Rio Grande.)

Talvez o que me separa dele seja o meu espírito crítico... Mas desde quando tenho espírito crítico? Não vivo a dizer a mim mesmo que sou mais um mágico que um lógico? Que sei eu! Temos vivido muito separados um do outro geograficamente, mas a verdade é que nossa maior separação deve ser na dimensão dos temperamentos. Acho Jango superior a mim. Ah! Como busco solução fácil para os problemas! Rebaixo-me, sou um réprobo, pequei contra os deuses guascas, bato no peito, faço ato de contrição e liquido o assunto. Não senhor! Nada é tão simples assim. Sou diferente de Jango, nem melhor nem pior. Jango, que em matéria de leitura não vai além do Correio do Povo, deve ter lido pouquíssimos livros em toda a sua vida, ao passo que eu já perdi a conta dos que li e reli. Mas como é grande o número das coisas que ele sabe e eu não sei — coisas práticas, coisas essenciais! Essenciais? Opa! Uma palavra perigosa. Grande demais. Mas Jango goza de intimidade com a terra, conhece as manhas do céu e do tempo, tem os pés bem plantados no chão. Não é um estrangeiro no território que habita. Seu conhecimento das pessoas e dos bichos é instintivo, deixa longe o falso psicologismo de meus romances. (“A modéstia”, dizia d. Revocata, “é uma das mais belas virtudes que ornamentam o caráter humano.” Mas merda para a modéstia! “Menino, não diga nome na mesa!”) Há nele muita coisa que me desagrada: essa melena, essas costeletas platinas, a voz um pouco pastosa, como se tivesse sempre na boca um naco de churrasco gordo. E esse tom afirmativo e autoritário de quem está habituado a lidar com a peonada. Sim, e seu apego muar a um punhado de ideias feitas, de prejuízos... Essa tendência de considerar “coisa louca” tudo quanto esteja fora de seu código ético, de seus hábitos e de seu gosto. É o homem da tábua rasa. Fanático do trabalho, nada existe que despreze mais que o vadio. Fanático da propriedade, poderá ser tolerante para com um assassino, porém jamais perdoará a um ladrão de gado. Senhor de mui arraigado senso de hierarquia, parece achar que, se há ricos e pobres no mundo, é apenas em virtude dum decreto divino inapelável. Mas poderá alguém honestamente negar que ele seja um homem bom, decente, e um amigo fiel?

Maria Valéria grita uma ordem para a cozinha. Floriano ergue os olhos. Sílvia, visivelmente perturbada, mantém os olhos baixos e mexe o café com a colher, dando a esse gesto uma importância exagerada. Jango continua a mastigar pão vigorosamente e a tomar largos sorvos de café, sempre com o cenho franzido. Por alguns segundos Floriano fica a olhar fascinado para o irmão.

Ali está um homem que tem objetivos claros. Viver a sua vida, ter filhos e criá-los à sombra de sua autoridade e dentro de seus princípios... conduzir bem seus negócios, manter a propriedade que possui, aumentando-a sempre que possível... Nas horas vagas, divertir-se... Mas qual é seu conceito de diversão? Detesta cinema: coisa pra crianças ou para vadios. Não tem — parece — nenhuma necessidade de música. Como o velho Licurgo, não consegue assobiar nada, além da melodia óbvia do “Boi barroso”. Quais então os seus prazeres? O chimarrão, um assado de costela, um crioulo, melancia fresca, banho na sanga, bons cavalos, corridas em cancha reta, rinhas de galo... Sim, e mais esse gosto, que lhe deve encher o peito, de saber-se coproprietário de vastos campos povoados, essa volúpia de dar ordens, de entregar-se à atividade campeira como ao mais excitante e viril dos esportes. De vez em quando uma “espiada” na cidade e — quem sabe? — uma escapadinha sexual, mas muito discreta, pois um homem deve antes de mais nada manter sua fachada de respeitabilidade...

A voz de Jacira:

— Dona Maria Valéria, o enfermeiro disse que o doutor já acordou.

— Está bem. Aquente a água pro chimarrão.

Floriano censura-se a si mesmo. Não devia estar analisando meu irmão dessa maneira, mas sim procurando aceitá-lo tal como ele é. Sim, e amá-lo. Principalmente amá-lo. A ele e a todos os outros. Talvez seja esse o caminho da minha... (Até em pensamentos lhe soa falsa a palavra salvação.) Construir pontes e outros meios de comunicações entre as ilhas do arquipélago — não será mesmo o supremo objetivo da vida?

Volta a cabeça e olha para a velha ilha que é Maria Valéria — ilha de clima áspero (na aparência apenas), roída pela erosão, batida pela intempérie e pela idade. A velha está agora de cabeça alçada, narinas palpitantes, farejando o ar, como um cão de caça:

— Quem é que está me cheirando a barbearia?

— Sou eu, Dinda — confessa Floriano.

Jango levanta a cabeça e diz sério:

— Logo que cheguei também senti...

Floriano não consegue conter-se:

— Desculpa. Eu sei que teu perfume predileto é o de creolina.

Arrepende-se imediatamente de ter pronunciado essas palavras.

Jango lança-lhe um olhar hostil e diz:

— Creolina é cheiro de quem trabalha.

Pronto. Recebeste o que mereces. E lá se vai águas abaixo a pinguela que existia entre a ilha-Jango e a ilha-Floriano...

O marido de Sílvia parte um pão sovado quase com raiva. Floriano fica a olhar disfarçadamente para os dedos do irmão, longos, fortes e nodosos como raízes. Essas mãos maltratadas, mas cheias duma grande integridade, o fascinam e ao mesmo tempo lhe causam uma vaga inveja. São mãos que sabem fazer coisas — trançar lombilhos, curar bicheiras, plantar, colher, usar a plaina, o formão, o serrote, a tesoura de tosquiar —, mãos hábeis e úteis. Sim, mãos que também sabem castrar. Floriano ouve mentalmente as palavras que o velho Liroca um dia lhe disse: “Quando Jango capa um animal, o talho nunca infecciona. Flor de mão!”. Mas, lançando um rápido olhar para Sílvia, ele sente de maneira aguda o contraste entre a fragilidade da moça e a rudeza do marido. Quer-se mal, despreza-se ao pensar que naquele inesquecível ano de 1937 tudo dependera duma palavra sua, dum gesto seu. E ele não fizera esse gesto, não pronunciara essa palavra. Idiota! Idiota! Mas não se insulta com muita convicção. Talvez as coisas estejam certas da maneira como estão. Qual! Está claríssimo que Sílvia e Jango não se entendem, não são felizes um com o outro. Quem a merece sou eu. Merece? Fugi dela como um covarde. Encontrei admiráveis desculpas para não fazer o gesto decisivo. E depois fiquei ressentido, quase irritado porque ela casou com o Jango. Querias — ridículo romanticão! incurável egoísta! —, querias que ela te permanecesse fiel e ficasse aqui como uma Penélope guasca a tricotear eternamente um suéter para este Ulisses sempre ausente e indeciso.

Neste momento Flora entra, bate de leve no ombro de Jango: “Como vai, meu filho?”, passa a mão na cabeça de Sílvia, toca no braço de Maria Valéria. “Bom dia!”, beija o rosto de Floriano e depois vai sentar-se à outra cabeceira da mesa.

Por que beijo só para mim? — pergunta Floriano a si mesmo. Essa preferência não só o constrange como também lhe pesa como uma ameaça potencial à sua liberdade.

— Jacira! — exclama a velha. — Traga mais café e mais leite quente. — Seus olhos de estátua estão voltados na direção de Flora. — Onde estão os lordes?

Refere-se a Bibi e Sandoval. Jacira, que entra neste momento, informa:

— Dona Bibi deixou um bilhete, pra eu acordar eles às nove e levar café na cama.

— Não leve coisa nenhuma! — exclama a velha. — Se quiserem, que venham tomar café na mesa com os outros. Isto não é hotel.

— A Bibi e o Marcos voltaram da rua muito tarde ontem — diz Flora.

— Eu ouvi.

— Estiveram jogando bridge na casa do doutor Prates.

— Jogando o quê?

— Bridge, um jogo de cartas.

A velha franze o nariz, com nojo. Flora pega o bule para servir-se de café. Suas mãos tremem. Embacia-lhe os olhos machucados uma expressão que é ao mesmo tempo de abandonada tristeza e quase de susto — a gazela indefesa que no meio do mato começa a pressentir a aproximação dum grande perigo. Seu rosto, sem um pingo de pintura, parece esculpido em cera. (O menino Floriano detestava os anjos de cera do Pitombo, símbolos de morte que lhe davam um medo mesclado de náusea.) Flora envelheceu alguns anos nestas últimas semanas... Os cabelos embranqueceram de repente. Ou deixou de tingi-los? (Odeia-se por causa desse pensamento, no qual descobre um grão de sarcasmo.) Mas não pode deixar de reconhecer que sente muito mais ternura por esta mãe envelhecida e apagada do que pela outra que via no Rio, perturbadoramente jovem, bem cuidada, bem vestida e sempre maquilada.

Floriano não se sente feliz por verificar que suas reações de homem adulto não diferem muito das do menino que não queria aceitar, por indecente, a ideia de que os pais ainda pudessem ter hábitos e apetites de gente moça — do menino para quem só as prostitutas é que andavam enfeitadas, perfumadas e de cara pintada.

Sempre as contradições! Apesar de partidário do divórcio e de seu horror cerebral às atitudes convencionais, reagiu como um moralista ao casamento por contrato de Bibi. Ele, o puritano impuro!

Agora aqui está, perturbado como um colegial, por ter Sílvia ali do outro lado da mesa, lutando entre o desejo de olhar para ela e o temor de revelar seu segredo. E como pode sequer pensar em levá-la daqui, se a simples ideia de que os outros possam desconfiar de seu amor deixa-o aterrorizado?

Faz-se na sala um silêncio que Floriano sente prenhe das coisas que não se dizem sobre a situação: a presença de Sônia em Santa Fé, a visita que Rodrigo lhe fez, o perigo de que ele repita a façanha e morra na cama da rapariga, naquele sórdido quarto de hotel... (Sórdido? Outra vez o puritano. Nem sequer conheço o hotel.) A amante do dr. Rodrigo é o grande assunto do momento, mais sensacional talvez que o da eleição presidencial. A cidade inteira comenta a história, enriquecendo-a com fantasias maldosas. Há dois dias Esmeralda Pinto não se conteve e veio ao Sobrado visitar Flora, que a recebeu fria na sala de visitas, sentada na ponta da cadeira. Depois do intróito costumeiro — “Como vais, Flora? Muita saudade do Rio? E o doutor Rodrigo, está melhor?” — a maldizente municipal entrou de chofre no assunto, que era evidentemente o objetivo principal da visita. “Por falar no doutor Rodrigo, eu invejo a coragem dele. Trazer essa moça para um lugar pequeno como Santa Fé, e ainda por cima ir visitar ela no hotel... Te digo, Flora, é preciso ter muito caracu.” Flora não disse palavra, limitou-se a olhar impassível para a mexeriqueira. “Não vais me dizer que não sabes... Todo mundo sabe, até as pedras da rua... Todo mundo comenta o acinte. Pobre da Flora, dizem, tão distinta, tão boazinha, não merecia.” Flora mantinha os lábios apertados. “Queres saber de uma coisa?”, continuou a outra. “Se fosse comigo, eu entrava naquele hotel e tirava a china de lá a bofetadas.” Nesse momento d. Maria Valéria surgiu à porta e gritou: “Fora daqui, sua cadela!”.

Quem quebra agora o prolongado silêncio é a velha:

— Ontem os cupinchas do Rodrigo ficaram até tarde conversando lá em cima. O Dante devia proibir esses ajuntamentos.

— Proibir? — repete Floriano. — A senhora não conhece o papai.

— Conheço como se lo hubiera parido, como dizia o Fandango.

Floriano sorri ao ouvir tais palavras da boca duma virgem.

— Mas quem insiste nessas reuniões é ele. Manda chamar os amigos, reclama quando eles não vêm...

— O pior — insiste a velha — são esses tais de queremistas que aparecem aos magotes. Ficam horas e horas lá em cima, pitando e bebendo, e o sem-vergonha do Rodrigo aproveita o entrevero e pita e bebe também com os outros...

Jango ergue a cabeça e, com a boca cheia de pão, diz:

— O papai está praticamente dirigindo o movimento queremista no município. Eu até me admiro de ele não ter insistido em ir falar em praça pública.

A velha alça a cabeça e fica à escuta. Soam passos na escada.

— É o touro xucro — murmura ela.

Eduardo entra, resmunga um mal audível “Bom dia para todos” e senta-se ao lado de Floriano.

— Bom dia, mal-educado! — exclama a velha. — Não dormimos juntos.

— Eu disse bom dia — replica Eduardo, sorrindo.

— Só se foi pra ouvido de cachorro. Não ouvi nada.

Flora serve café para o recém-chegado.

— Deves ter dormido muito pouco, meu filho. Voltaste tarde ontem.

— Às três — apressa-se a informar a velha.

— Como é que a senhora sabe a hora? — indaga Floriano.

Maria Valéria leva o indicador à testa:

— Tenho um relógio aqui dentro.

Floriano lança um olhar furtivo para Sílvia. As mãos de Jango amarfanham o guardanapo amarelo que ele leva aos lábios. Eduardo assobia baixinho uma melodia que Floriano não consegue identificar. Positivamente, esta é a família mais amelódica do mundo! Tem vontade de estender o braço, abraçar o irmão, fazer-lhe perguntas cordiais. Mas contém-se, inibido pela lembrança das recentes agressões do outro. Claro que ele não pode levar Eduardo rigorosamente a sério. Não que ele não seja sincero ou inteligente no que diz... O que lhe parece um pouco juvenil e risível é o seu fervor frenético de templário.

Jango olha para Eduardo e diz:

— Então amanhã temos finalmente essas famosas eleições...

— A primeira em quinze anos — diz o irmão mais moço. — Parece mentira.

Esfregou a palma da mão na coroa da cabeça, num gesto que se lhe torna compulsivo sempre que tem de falar na presença de mais de uma pessoa. É curioso — reflete Floriano — como por trás de toda essa agressividade se possa esconder uma tão grande timidez.

— E os comunistas esperam eleger esse candidato mixe de última hora? — pergunta Jango, num tom provocador.

Eduardo dá de ombros.

— Está claro que não. Se apresentamos um candidato nosso é porque não podemos votar num nazista nem num reacionário. E, depois, queremos dar um balanço nas nossas forças eleitorais.

Toma um gole de café, e pouco depois pergunta:

— E vocês esperam eleger o brigadeiro?

— E por que não?

— Não sejas bobo. O Getulio recomendou aos seus apaniguados que votem no Dutra. O general está eleito.

— Queres apostar?

— Não.

— Irá haver barulho? — pergunta Maria Valéria, que não concebe carreira, rinha de galo e eleições sem briga.

— Vai tudo correr bem, Dinda — assegura-lhe Floriano.

— Não sei... — murmura a velha. — Mas eu preferia os tempos do doutor Getulio. Não tinha eleição pra incomodar a gente.

— Nem diga isso! — protesta Jango.

Floriano pousa a mão no pulso da tia-avó e diz, sorrindo:

— Mas alguém tem alguma dúvida? A Dinda é totalitária. Esse foi sempre o regime político e econômico do Sobrado.

— Não sei o que vacê está dizendo. Mas eu preferia que não houvesse eleição.

Jango faz um gesto que lembra a Floriano o velho Aderbal: afasta de si a xícara vazia. (Faz sempre isso com o prato, ao terminar cada refeição.) Tira do bolso da camisa um cigarro de palha feito e acende-o.

— Voltas hoje para o Angico? — indaga Eduardo.

É uma pergunta inocente, mas Floriano sente de imediato suas possibilidades de perigo. E não se engana, porque Jango responde com voz sombria:

— Vou, e sozinho como sempre. — Faz um sinal com a cabeça na direção de Sílvia. — Esta moça aqui não gosta lá de fora...

— Por favor, Jango — murmura ela —, não vamos recomeçar...

— Ora, Sílvia, todo o mundo sabe que tu tens raiva do Angico.

Sílvia lança um olhar de súplica para a sogra, como a pedir-lhe auxílio. Mas o socorro vem de outro quadrante.

— A Sílvia precisa ficar, Jango — intervém Maria Valéria. — Se ela for pro Angico, quem é que vai me ajudar a cuidar do Rodrigo?

Floriano olha instintivamente para a mãe, que baixa os olhos. Desta vez a frechada foi dirigida contra ela. Maria Valéria não se conforma com a atitude de retraimento de Flora para com o marido. Ela se limita a aparecer periodicamente à porta do quarto e a perguntar: “Precisa de alguma coisa?”, feito o quê se retira para continuar no seu silêncio arredio. Floriano, porém, compreende o drama da mãe, que deve debater-se continuamente entre o dever de esposa e o orgulho de mulher. (E a formulação do problema nesses termos lhe soa desagradável e ridiculamente como uma situação de novela de rádio.)

— Vocês se lembram do Manequinha Teixeira? — pergunta Jango, soltando uma baforada. — Casou-se com uma moça que não gostava da campanha. Quando ele ia pra estância, ela ficava na cidade. Pois tanto o rapaz ficou sozinho, que acabou se amasiando com uma china.

Floriano sente o sangue subir-lhe à cabeça. Não se contém:

— A moral da tua história é muito simples, Jango. No fundo o que o Manequinha Teixeira merecia mesmo era a china.

— Meninos — grita Maria Valéria. — Vamos parar com isso!

Jango ergue-se intempestivamente, atirando o guardanapo em cima da mesa.

— Está pronta a minha mala? — pergunta.

Sílvia limita-se a fazer um sinal afirmativo com a cabeça.

— Pois então, até outro dia!

Sai da sala pisando duro. Faz-se um silêncio, quebrado poucos segundos depois por Maria Valéria:

— Jacira, vá levar a água pro chimarrão do doutor.

Floriano serve-se de mais café, sem vontade, apenas para fazer alguma coisa, já que não sabe o que dizer. Pensa em erguer-se da mesa mas não atina como fazer isso de maneira natural, sem dar a esse movimento um caráter dramático.

Quando, alguns minutos depois, Sandoval e Bibi entram na sala — ele muito expansivo, de calças e sapatos brancos, camisa esportiva italiana cor de jade, um lenço dum verde-musgo amarrado ao pescoço, o cabelo muito lambido e reluzente; ela vestida de vermelho com ar azedo mas já completamente maquilada, com uma pesada máscara de pancake no rosto — Floriano se faz a si mesmo estas perguntas: por que estamos todos aqui reunidos? Que grande acontecimento esperamos? E a primeira resposta que lhe ocorre, deixa-o gelado. Estamos todos, duma maneira ou de outra, esperando a morte do dono da casa.

Tomado de uma súbita pena do pai, sente um enternecido desejo de vê-lo.

 

O relógio lá embaixo está ainda a bater nove horas quando Floriano entra no quarto do doente. Ao passar pelo enfermeiro, que monta guarda à porta como um cão de fila, contém a respiração, pois Erotildes como de costume está envolto na sua aura fétida.

— Que milagre! — exclama Rodrigo.

Mais sentado que deitado na cama, entre travesseiros, tem na mão a cuia de mate e ao seu lado, em cima da mesinha, a chaleira com água quente.

— Senta, meu filho. Que é que há de novo?

Floriano senta-se na ponta da cadeira, o busto ereto, como numa visita de cerimônia, mas percebendo imediatamente o absurdo de sua postura, corrige-a, procurando ficar mais à vontade.

— De novo? A inauguração da herma do herói, daqui a pouco... E as eleições amanhã.

— Não. Quero saber que é que há de novo contigo.

— Comigo? Nada.

— Deves estar morrendo de tédio neste cafundó do judas.

— Nem tanto.

— Estás, eu sei. — Rodrigo toma um longo sorvo de mate. — Me arrependo de ter te trazido. Não tens nada que fazer aqui.

Bela deixa para entrarmos no nosso ajuste de contas — reflete Floriano. Posso dizer: “O senhor está enganado. Tenho uma coisa muito importante a fazer em Santa Fé: acabar de nascer. Esta é a grande oportunidade. Talvez a última”. Mas continua calado. Por quê? Sente que a hora não é propícia ao tipo de conversação que precisa ter com o Velho. Jamais conseguiu escrever ou ler com proveito o que quer que fosse de sério nas primeiras cinco ou seis horas após o nascer do sol. Tem a impressão de que até a música de Bach quando ouvida pela manhã perde parte de seu sabor, como a fruta gelada. É como se a leveza fresca da atmosfera matinal se comunicasse às ideias e aos problemas, diminuindo-

Continuar: parte 2 de 3