O Turno da Noite: O Livro de Jó (Volume 3)

André Vianco · Capítulo 28 de 46

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O Turno da Noite: O Livro de Jó (Volume 3)

Capítulo 77

Quando o Sol baixou no horizonte e o manto negro da noite começou a cobrir o firmamento, Patrícia abriu os olhos. Estava deitada no chão. A surpresa foi tanta que levantou-se num pulo. O chão coberto por mato seco. Cheiro de excremento de animais. Mais precisamente cheiro de excremento de vaca. Apurou sua visão de vampira. Estavam dentro de um imenso galpão, um tipo de celeiro de fazenda. Sua primeira reflexão girou em torno do Exército. Que tipo de instalação militar era aquela? Só que as coisas não batiam. As portas do Lexus tinham sido arrancadas. Podia ver Alexandre, ainda apagado, sentado no banco torto do motorista, com o cinto de segurança passado no peito, o saco vazio do airbag escorrendo do volante. Bruno deitado no banco de trás, com o braço ainda ferido. Olhou ao redor. Era um celeiro ordinário. Não estavam em poder do Exército brasileiro. Brites não deixaria o trio, assim, tão à vontade e livre das grades e grilhões de prata com a chegada da noite. A vampira, líder do esfacelado turno da noite, ergueu os olhos. Encontrou um par de brasas vermelhas num tipo de mezanino dentro do celeiro. Colocou-se em alerta por dois segundos, mas rapidamente entendeu. Era Samuel. Seu Samuel. Patrícia saltou para a parede de madeira, agarrando-se às reentrâncias e então alcançou o amigo. Olhou para baixo e viu Bruno deixando o caixão de prata. A blindagem ainda estava baixada, vedando os vidros. A vampira passou a mão na nuca, sentindo dores na coluna cervical. Os movimentos estavam estranhos, doloridos, meio que travados. Seu pescoço estalou umas quatro vezes quando moveu a cabeça de lá pra cá auto-examinando-se. Suas roupas estavam frias, molhadas e coladas ao corpo. Cheiro forte da baía de Guanabara. Olhou novamente para Samuel. O vampiro estava acocorado e calado. Ela se aproximou.

Samuel levantou-se e abraçou Patrícia com força. O corpo pequeno da garota ficou perdido no peito largo e nos braços fortes do vampiro. Ele ergueu seu rosto suavemente e ficou mudo, fitando seus olhos. Patrícia sentiu um frio na barriga. Os olhos negros e fantasmagóricos do vampiro pareciam invadir seu ser. Ela sondava a mente de Samuel com facilidade. Quanto mais se aprofundava nos pensamentos sinceros daquele sujeito, mais frio na barriga sentia. Era tanto carinho, tanto amor e desejo, que faria qualquer garota derreter num instante. Mas tinha tristeza. Esse cocktail de sentimentos trazia uma boa e amarga dose de melancolia e tristeza. Tão dúbio. Ela não conseguia penetrar mais. Se ele sentia-se feliz em tê-la nos braços, por que tanta tristeza esparramada em sua mente? Como se soubesse que ela tentava entrar em seus pensamentos, Samuel inclinou a cabeça para a frente, tocou sua testa na testa da vampira e suspirou fundo, seus lábios tão próximos não se tocaram. Ela quis. Ele se afastou. Recuou até as sombras.

— Estamos seguros aqui, por ora. Fiquem no celeiro.

Deu a advertência e desapareceu.

Samuel cruzou a plantação em silêncio. Era a primeira vez em muito e muito tempo que voltava às suas velhas terras. Desta feita, o pisar dos seus pés era diferente. Não mais afundava botas no solo tratado para o plantio. Não tinha olhos para as nuvens nem para os jornais buscando colaboração do tempo para com as sementes lançadas na terra roçada. Não eram passos de fazendeiro, não senhor, seus passos eram de fantasma, que não deixavam trilha para ser encontrado. A luz fraca da lua que fazia noite escura para os humanos era suficiente para o caminhar daquela cria. Ao chegar à beira da estradinha de terra que passava na frente da velha casa que um dia fora sua, para trás olhou, observando o celeiro, distante, onde seus novos amigos eram guardados por Gregório e sua tropa de anjos de luz. O mesmo celeiro que anos atrás, no ingresso à vida dos mortos perambulantes, servira de refúgio e esconderijo para tirar o sangue de alguns peões daquela fazenda. Samuel inspirou fundo. Não importava o câmbio de ângulo e sentimentos. Não importava que anjos eram sua escolta nem que já rira alto na sala daquela casa nem que já tivera chorado debaixo do salgueiro perto do tanque de água. Os cheiros que invadiam e acionavam suas entranhas eram os mesmos, a fazenda era a mesma e, principalmente, o cheiro dela, que estava impregnado em todos os cantos, era o mesmo. Vera. Sua mulher na vida humana. A mulher que deixara para trás sem explicações e sem palavras, com medo de fazer dela algo tão ruim e danoso quanto ele próprio. No fim das contas era assim que o vampiro se enxergava. Qualquer vampiro olhando no espelho do poço veria o mesmo. Um monstro. Um gênio sem sangue corrente, de pele fria, que podia de tempos em tempos criar outro gênio tão vazio quanto o original.

Samuel parou na varanda esperando as divagações dissolverem-se como neblina. Olhou ao redor. Ninguém à vista. No passado, a essa hora, seria comum encontrar alguns dos peões ao pé da escada, jogando conversa fora com o patrão, esperando um café bem quente trazido pela sempre animada e também conversadeira Vera. Parecia que não era só ele que tinha se transformado. Tocou de suave a cadeira de balanço. A madeira estalou de leve e o objeto ganhou vida, indo para lá e para cá uma dúzia de vezes.

O vampiro circulou a casa. Tinha pisado mais de mil vezes em cada cantinho da propriedade, o que o sufocava em lampejos de lembranças, mas uma espécie de parede de tecido vivo o segurava, uma parede como a bolsa amniótica que segura os bebês no útero. Ele não conseguia penetrar as lembranças boas daquele lugar em sua plenitude. Sabia que tinha existido um beijo no canto da varanda, mas não sentia o gosto da boca da amada. Também sabia ter ouvido de uma das empregadas que a filha tinha ficado grávida do menino que levava o caminhão, mas a seus olhos e pensamentos eram escondidos os rostos de todos naquela conversa, deixando claro que aos poucos os vampiros passavam a viver apenas as lembranças dos mortos, a lembrança de quem passava para o outro lado do manto, ou, no caso das crias da escuridão, as lembranças confusas daqueles que terminavam emaranhados nos fios espaçados da grande trama da dama noturna. Uma melancolia profunda foi se apoderando, oprimindo sua mente e peito, a cada que se aproximava, cauteloso e felino, da janela. Uma sensação quase insuportável que por um instante fez o sempre decidido Samuel vacilar. O cheiro dela ficava cada vez mais poderoso e parecia vencer o véu, o tecido amniótico que o separava dos viventes. O gosto do beijo lhe foi concedido por uma centelha de tempo. As curvas da esposa. O sexo suado e cheio de graça, suavidade e amor. Estacou à beira da janela. Lá estava ela. Vera.

Deitada no sofá, cochilando na frente da TV. As botas cheias de barro, mostrando que estivera na labuta durante o dia e que aquele cochilo provavelmente era fruto de verdadeiro cansaço. O corpo suado da mortal exalava o perfume que encantava o demônio da madrugada. Os olhos de Samuel cresceram. Seus dentes ficaram prontos para penetrar na carne de sua viúva. Ele podia fazer aquilo. Era seu direito. Era seu dever trazê-la para o inferno desconhecido aos mortais. A trancafiaria nas cortinas pesadas da noite, empurraria sua mulher pelo abismo para que se emaranhasse nas tramas da passagem e ficasse nem lá nem cá. Ela não sentira o cheiro dos Campos Elíseos nem conheceria a tormenta ou tomaria um gole das águas do Éstige. Vera ficaria com ele. Teria a esposa novamente, em seus braços, em seus lençóis, estaria no corpo dela, beijaria sua boca, apertaria o tórax fino e feminino da esposa com suas mãos até roubar-lhe o ar, mesmo que não mais precisasse dele para sobreviver. Ela, como ele, teriam direito à vida eterna.

 

******

 

Patrícia, Alexandre e Bruno chegaram até a porta do galpão. Até onde suas vistas alcançavam, viam uma linha viçosa, uma plantação de talos altos, verdes, amarelos e vermelhos

— É milho - balbuciou Alexandre.

— É lindo - rematou Bruno.

Patrícia deu mais alguns passos. Um vento ligeiro começava a soprar na noite. Fraco e suave. Uma carícia em sua pele e também naquelas hastes verdejantes e vigorosas que balançavam suavemente, emitindo um chiado tranquilizante.

— Onde diabos estamos?

Os amigos olharam para a vampira adolescente. Não tinham como responder. Ergueram os ombros em resposta e ameaçaram se separar.

Bruno segurava o braço ferido. Assim que despertara, tratou de enfiar a ponta dos ossos partidos para dentro do machucado. Quando seu corpo encantado começasse a se recuperar automaticamente, sentiria menos dor com as coisas colocadas no devido lugar.

— Fiquem por aqui. Não é seguro abandonar o celeiro. Ele pediu para aguardarmos - pediu Patrícia.

— Ele?

— Samuel, nosso amigo. Lembra daquele vampiro que vocês estavam apostando que tinha se mancomunado com Ignácio contra nós?

Bruno e Alexandre trocaram um olhar sem graça.

— Eu... Eu não disse que ele tinha nos traído. Estávamos putos da vida, querendo entender como aquele cerco tinha acontecido tão rápido. Sabiam exatamente em qual carro procurar. Alguém foi um filho da mãe conosco. Estava procurando um bode expiatório.

— Mas graças ao tal bode, estamos a salvo - suspirou Patrícia. Alexandre coçou a cabeça olhando ao redor: plantação, veículo semi-destruído dentro do celeiro, não conseguia entender como tinha escapado do cerco do Exército. Tá, lembrava-se de ter pisado fundo no acelerador, lembrava dos airbags explodindo no seu rosto e dos barcos girando ao redor da ponte. A água turva da baía. O frio. Tudo isso lembrava. Só não conseguia de forma alguma juntar o cenário subaquático com aquela pintura rural à sua frente. Como e quando Samuel interferiu? O sol raiava quando tomou a decisão louca e salvadora de atirar o caixão de prata ao mar.

O trio assustou-se com a luz brilhante que surgiu no alto do celeiro e, num piscar de olhos, viu-se cercado por treze daqueles impressionantes seres alados luminescentes. Os anjos pareciam ter firmado aliança com os integrantes do turno da noite, haja vista que haviam lhes salvado em momento crucial no passado. Essa nova presença em momento de agonia deixava clara a queda dos protetores por vampiros em apuros.

— Anjos?! - Soltou a vampira, sem conter a surpresa. - Isso explica tudo!

— Samuel chamou Gregório que, por sua vez, desobedeceu meu general Thal, vindo socorrê-los. Vocês se meteram em uma enrascada daquelas, outra vez. - Respondeu o anjo com a face de bronze e os olhos amarelos chamejantes, tão luminescentes que pareciam arder como labaredas douradas escapando das órbitas e subindo em direção à testa.

Bruno suspirou. Sentiu-se pequeno rodeado por aqueles tantos anjos. Eram de uma aparência belíssima e, ao mesmo tempo que emanavam segurança e paz, seus olhos ardentes e as enormes espadas em suas cinturas despertavam uma sufocante inquietação, dado o mutismo do restante da tropa e o inusitado da situação. Aquele que havia lhes dirigido a palavra usava uma túnica em tom levemente prateado e Bruno, chegando a achar que era apenas uma impressão, percebia uma leve camada de luz esverdeada escapar de seu redor. Uma criatura e tanto.

— Nós tiramos seu veículo da baía de Guanabara. Aqui estão longe e a salvo do Exército.

Alexandre encarou Tertoziel que, agora calado, o olhava de forma dura e, a despeito da gentileza da explicação dada, pouco amistosa. O anjo tinha um garbo impressionante. Parecia ter mais de dois metros de altura e peito e ombros largos. A mão forte sempre na empunhadura da espada. O garoto vampiro passou a mão no rosto e sorriu para o restante da tropa celeste.

— Não acredito! - Balbuciou Alexandre. - Queria só ver a cara daquele capitão do Serviço de Contenção! Ah! Ah! Ah! Fantástico! Vocês são fantásticos!

Alexandre correu e abraçou o anjo que falara primeiro, sem saber que agarrava entre as mãos um dos mais valorosos e corajosos anjos do exército de luz, muito amigo do general Thal, que batera milhares de demônios naquelas terras de Belo Verde poucos anos atrás.

Tertoziel, ainda de semblante fechado e incomodado com a ousadia para com seu igual, tirou a espada e colocou-a no queixo do atrevido rapaz, empurrando e tirando-o de perto do seu companheiro.

Patrícia e Bruno deixaram seus olhos acenderem e grunhiram.

Alexandre encontrou um ponto de equilíbrio e então saltou para trás e também exibiu seus caninos e deixou seus olhos brilharem vermelhos.

Muitos daqueles anjos haviam servido com o general Thal e aqueles pares de olhos vermelhos em terras de Belo Verde arremeteu-os a perturbadoras lembranças de uma dolorosa e recente batalha. Era como olhar para os olhos das bestas de Khel.

A luz ao redor do trio intensificou-se brutalmente quando todas as espadas foram postas para fora e colocadas em posição de defesa pelos guerreiros.

— Calma, garotos. Não os trouxemos aqui para fazer picadinho de vampiros. Gregório não mobilizou tantos dos nossos à toa. Segundo Samuel, vocês têm uma missão a cumprir - proferiu Tertoziel.

— Foi seu amigo que começou, leão-de-chácara! - Bradou Patrícia. - Foi ele que colocou a espada no pescoço de Alexandre.

Tertoziel olhou para Alanca com um sorriso no rosto.

— Não é porque seu igual é irmão de um vampiro que gosto de todos vocês, menina. Dominem seus ânimos.

— Guardem suas espadas! - Bradou Gregório, entrando no celeiro. Gregório embainhou sua espada chamejante, sendo prontamente imitado pelo resto da tropa de luz.

Alexandre passou a mão no queixo que queimava.

— Minha vó sempre disse para rezar pelo meu anjo da guarda... Vivia pendurando aqueles bibelôs bonitinhos pela casa e acendendo velas. Tomara que o meu anjo da guarda não seja você - queixou-se, olhando para o anjo Tertoziel, ainda sentindo seu queixo queimar. - Ela ia ficar muito magoada em saber que vocês são um bando de brutamontes sem educação. Muito magoada!

Patrícia agarrou Alexandre pelo pescoço e puxou-o até perto de seu nariz.

— Chega de seu sarcasmo, Alexandre. Já reparou que só você me tira do sério nesta jornada? Esqueceu que estamos no meio de uma situação que não tem graça alguma? Não sabemos onde estamos, não sabemos se a garota ainda corre perigo nem onde Ignácio está neste exato momento.

Gregório aproximou-se e pousou a mão no ombro da vampira. Patrícia sentiu-se invadida por uma serenidade entorpecente e no segundo seguinte sua garra se abria, livrando Alexandre do aperto.

O garoto vampiro caiu, com a mão no pescoço.

— A bruxa não corre perigo, menina vampira. Ela continua protegida por meus irmãos. O inimigo de Samuel deve despertar agora, com a chegada da noite. Não demorará para dar sinais de onde está. Ignácio está correndo contra o relógio. Está sentido-se cada vez mais encurralado e assustado. Há de tropeçar nos demônios de sua mente.

Patrícia suspirou fundo e olhou para Alexandre, que começava a resmungar, levantando do chão e espalhando a grama que tinha grudado em sua roupa úmida.

— Eu só me ferro nesta merda de história. Preferia continuar sendo humano, sem nunca ter sabido que vocês existem mesmo. Até quando trombo com anjo da guarda tomo na tarraqueta. Se falo qualquer coisa, doida varrida já se atraca com meu pescoço. Tô cansado disso! - Bufou Alexandre, andando com passos rápidos e duros na direção do milharal. Gregório alçou voo e pousou suavemente à frente de Alexandre.

— Espere, garoto - soou a voz metálica do anjo. Alexandre, ainda com os olhos vermelhos, mediu Gregório de cima a baixo. Teria alguma chance contra aquela criatura se quisesse continuar em frente?

— Não quero seu mal. Vocês são acolhidos de meu irmão e, por consequência, são meus acolhidos também. Samuel sabe que as coisas estão conturbadas e, para evitar um mal maior para todo o mundo, vai precisar de tantos e quantos amigos tiver à sua disposição, sejam vampiros, anjos de luz ou qualquer mão auxiliadora que venha.

— A coisa tá feia assim? - Perguntou Alexandre, soerguendo as sobrancelhas.

— Temo que sim - confirmou o anjo. - Voltemos ao celeiro. Nós somos invisíveis aos olhos humanos quando queremos, vocês não.

Finalmente, os rapazes pálidos e confusos tornaram para o fundo escuro do celeiro. A dupla trocou um olhar. Onde estava Patrícia? A pergunta que estalou ao mesmo tempo na mente de ambos parecia ser transmitida ao anjo Gregório que abriu as asas suavemente e decolou voando sobre a plantação de milho. A garota tinha saído um segundo de baixo de seus olhos. Ela não podia deixar traços de sua estada por ali nem pôr a vida de nenhum humano em perigo. Poderia estar faminta, buscando sangue.

Bruno e Alexandre ainda estavam um tanto confusos. Era óbvio que os anjos tinham retirado o caixão do fundo do mar, mas o que se dera a seguir? Anoitecia. Aidara estaria mesmo segura? Qual significado tinha aquela passagem meteórica e desastrada pela encantadora cidade do Rio de Janeiro? Que poder de fato se encerrava no corpo mirrado de uma garota que nem bruxa sabia ser? O Turno da Noite vagava em terreno pantanoso cada vez mais encoberto por neblina, cada vez mais lamacento e profundo, mas não via outra forma de proceder a não ser avançar contra Ignácio, instando seu desespero e descuido.

Patrícia localizou facilmente quem procurava. Ele estava em frente a uma casa de madeira escurecida pelo tempo, com telhas recobertas de musgo, que ficava difícil precisar quando os cuidados foram esquecidos. A varanda ampla, bem ao estilo estilo interiorano, dava um ar de casa-grande de fazendas antigas. Samuel estava parado junto de uma janela, com a testa colada no vidro, de onde saía fraca luz amarelada, emoldurando seu rosto pálido. A vampira caminhou silenciosa, desejando não ser ouvida, desejando ser mais leve que seu corpo poderia ser. E seus passos foram silenciosos como os de gato e sua aproximação perfeita. Samuel não moveu um músculo e por essa assustou-se tanto quando escutou a voz de garota.

— Quem é ela?

Samuel encarou Patrícia com os olhos arregalados e não teve como esconder seu ar de garotinho pego espiando mulher pela fresta nem os rastros de angústia que tomavam sua face. Saltou ágil, deixando a varanda e batendo no pátio em frente à casa, e esgueirou-se até o mato alto ao lado da velha residência.

Patrícia, perplexa e desta feita mais surpresa que o amigo apanhado, ficou com a boca aberta, com palavras por dizer que não saíram da garganta. Não conseguiu traduzir de imediato a reação do perturbado fugitivo. Aproximou-se do vidro um momento e viu uma mulher bonita, de corpo bem feito, deitada numa poltrona, cochilando com um livro no colo. Olhou para o mato e foi ao encalço do misterioso vampiro. Tornou a olhar para dentro. O peito da mortal subia e descia ressonando. Patrícia mordeu os lábios e afastou-se do vidro. Pulou para fora da varanda e entrou mansamente no matagal ao redor da casa. Samuel estava parado junto a uma árvore seca onde existia um balanço de criança com cordas esfarrapadas e um assento de madeira rajada por fungos e musgo. Pássaros noturnos empertigaram-se nos galhos, alguns colocando-se a arrulhar com a aproximação da vampira. Uma coruja pousou próximo ao balanço, muda, olhos arregalados como as corujas devem ter, imóvel por segundos, observado a menina vampira, como se quisesse adivinhar o que viria a seguir. Patrícia parou ao lado de Samuel e pendeu o corpo para a frente, fitando seus olhos. O vampiro, sempre tão seguro e controlado, chorava. Era um choro velado, daqueles comedidos em que a pessoa evita externar mais emoções que as lágrimas podem carregar. Um choro infestado de melancolia e saudade de beijos furtados, de beijos na cama, de beijos enamorados, nos quais as línguas travavam contato tão intenso que o corpo todo incendiava. Os vampiros vertem lágrimas escuras, de sangue morno, de líquidos podres. Mesmo assim, aquelas lágrimas que manchavam a face pálida de Samuel emanavam o belo perdido que ia dentro de seu coração seco. Patrícia aproximou-se mais enquanto ele permaneceu imóvel. Quando a vampira de corpo pequeno abraçou-o com toda a força do mundo, a criatura que um dia tinha sido homem desmantelou, curvando o corpo para tocar o queixo na saboneteira da figura feminina enlaçada ao seu peito. Ali sentia-se novamente envolto no embalo dos amantes. Aquela pequena vampira, de olhos misteriosos, de personalidade cortante, tinha tomado seu coração de assalto e conseguia preencher o vazio que há muito teimava existir. Ela começava a tomar um espaço que pertencera a uma vivente. Ele sentia alívio.

— Ela era tudo para mim - pranteou Samuel.

— Shhhh. Shhhh - repetiu Patrícia, para que ele se calasse e apenas desse vazão à tristeza que o consumia no momento.

Samuel apertou Patrícia nos braços com mais força. A vampira sentiu algo diferente naquele instante. Sentiu que Samuel, paradoxalmente ao pranto pela esposa perdida, entregava-se a ela, Patrícia, agarrando-a como uma amante, como a grossa corrente de uma âncora em meio à tormenta.

— Fugi da minha terra. Tinha medo de fazer mal aos que eu amava. Por mais que tentemos enganar nossas mentes, não conseguimos enganar a sede, não conseguimos enterrar nossa natureza a sete palmos terra abaixo.

— Shhhh.

— Eu tinha Vera, Patrícia. Eu não merecia ter perdido a mulher da minha vida.

Patrícia ergueu a cabeça pálida e de traços finos de Samuel. Os olhos do vampiro cintilaram com o brilho da lua.

— Agora eu sou a mulher da sua vida.

A garota levantou-se na ponta das botas e beijou a boca do homem em seus braços. Um beijo cheio de paixão e necessidade, que emanou para o corpo de Samuel, aplacando o sofrimento do confronto com o passado. Patrícia afundou as mãos na nuca e nos cabelos de Samuel, não soltando os lábios másculos nem a língua macia que explorava sua boca.

— Se chorar, daqui para diante, vai chorar por mim. Aquela mulher na sala que um dia foi sua casa está do lado de lá. Nós não estamos mais entre eles. Nós pertencemos a outro canto. A vida escura é um fardo que torna todos em nossa condição em irmãos. Devíamos nos intitular a Fraternidade -Recusados. Não pertencemos mais ao mundo dos vivos e não nos recebem no mundo dos mortos. Somos párias. Somos um resto de corpo que perambula pela noite.

Samuel levantou o queixo e mirou os olhos para baixo, encantando-se com a força da pequena vampira.

— Isso eu já me repeti um bilhão de vezes, querida. E cá entre nós... Chamar você de um resto de corpo é um sacrilégio. Sou o vampiro mais sortudo do mundo inteiro por ter um restão desse pendurado no meu pescoço.

Patrícia secou as lágrimas do amado e sorriu com lábios largos, projetando seu tórax para a frente, iluminando seu colo que era observado pelo vampiro.

Outra vez suas bocas se encontraram e desta feita as mãos de Samuel foram aos botões da camisa negra que a vampira vestia. A pele branca ressoava com o brilho da lua, enquanto suas mãos passavam pelos ombros, pescoço e depois pelos seios da garota. Quando ele a tocou com seus lábios, a vampira não conteve um gemido longo e infestado da boa e velha luxúria. Os botões da calça jeans do vampiro também foram vencidos e em pouco tempo os pássaros a arrulhar e saltitar nos galhos da árvore seca e o vento leve que fazia o balanço esquecido ir e vir como se usado por uma assombração de criança foram testemunhas da paixão represada nos corpos acinzentados do casal noturno.

Ao fundo, Gregório sobrevoava a casa e depois a plantação, emanando sua luminosidade sutil e natural, vasculhando os cantos em busca de seu irmão vampiro e da garota perdida. Mas existem horas que até os anjos ficam cegos e seus olhos de luz não penetram a escuridão, preservando e deixando serenar as paixões impulsivas que rebuliçam no mundo das trevas.

Mais tarde, o casal recomposto e flagrantemente cheio de sorrisos, retornou ao celeiro. Os sete anjos estavam no topo da construção de madeira, com as asas flexionadas e relaxadas, cada qual de costas para o outro, com os olhos perdidos no horizonte a vigiar a noite. Foi Gregório quem avistou primeiro o irmão e o objeto de suas recentes loucuras e pedidos de intervenção. Nessa hora o anjo foi cúmplice do fraterno e também manteve um sorriso tolo pendurado no rosto. O amor trazia luz até aos desgraçados.

Alexandre cutucou Bruno que estava deitado e recostado a um dos pilares celeiro.

— Olha lá.

Bruno sentou-se e viu Patrícia aproximando-se de mãos dadas com Samuel. Fechou o rosto e conteve-se para que seus olhos mantivessem a serenidade. Segurou a mão esquerda que começava a tremer e lutou com a raiva que encheu sua cabeça. Não seria raiva a palavra exata para tentar chegar perto de seus sentimentos. Raiva era pouco. Uma mescla de ciúme e decepção. Os sorrisos nos lábios dos dois e a demora para o ressurgimento falavam mais que as mãos dadas e as insinuações carregadas de sarcasmo saídas da boca de Alexandre. Bruno percebia que estava num combate perdido. Sentia que era ele e não Raul quem deveria estar do lado de lá. Ele deveria deixar o turno da noite e juntar-se aos perdidos do clã de Ignácio. Ao menos não teria que conviver com aquela visão, de sua mulher carregada pelas mãos de outro vampiro. Bruno recuou até as sombras. Seus olhos encheram-se de lágrimas negras. O rapaz afastou-se sem ser visto e correu pela plantação. Precisava gritar e extravasar a dor que rasgava seu peito.