O Turno da Noite: O Livro de Jó (Volume 3)
Capítulo 95
Com os queixos batendo ele deixou o estádio da Portuguesa. Ao contrário do que imaginara, apesar de não haver mais nevascas dentro do Condado das Sombras nos últimos dias, a neve acumulada não tinha desaparecido. O campo branco estava lá.
A única excursão que fizera até então fora sair dos vestiários e caminhar até o outro lado da ponte, saindo da névoa, e deparando-se com uma fantástica floresta que antes ali não existia.
Não achava que estava louco, não pensava em alucinação. Depois de Jó, sabia que qualquer coisa era possível a um vampiro. Ele mesmo tinha desistido de tudo. Apenas atendia a um clamor natural de suas entranhas por alimento. Atravessou o anel de floresta com mais de um quilômetro de largura e finalmente alcançou ruas onde o sol brilhava lá no alto. Ele ergueu a cabeça gratamente para o céu recebendo o calor do dia.
Quem passava acreditava estar próximo a um mendigo. Um homem desleixado, com roupas rasgadas e fedorentas. Seu uniforme esfarrapado pelas duras provações dos últimos dias e pelas recentes enganchadas em galhos de árvores em nada lembrava os austeros trajes do Serviço de Contenção.
O homem andou até uma loja de conveniência e encheu sua bolsa com mantimentos.
Incomodado, o gerente da loja chamou um segurança que adiantou-se para expulsar o atrevido mendigo. O segurança agarrou o esfarrapado pelos ombros e puxou-o com força. Para sua surpresa, o homem não saiu do lugar. Quando preparava-se para puxá-lo novamente, afundando os dedos na roupa suja, o mendigo agarrou sua mão e torceu-lhe o braço, dobrando-o para a frente, e terminou arremessado sobre um pilha de enlatados.
Outros seguranças chegaram para acudir o primeiro, carrancudos, prontos para espancar o engraçadinho. Contudo refrearam ao terem uma pistola .40 apontada para as fuças. O mendigo deitou seus últimos trocados no balcão do caixa, colocou a bolsa de lona nas costas e deixou a loja.
Agora cruzava os metros finais da floresta fria. Calado. Tenso. Avançava. Seus olhos subiram até as nuvens cinzas que giravam acompanhando o topo da magnífica muralha de nevoeiro. Respirou fundo antes de entrar, como quem faz um mergulho profundo num lago. Avançou pela muralha. Só névoa. Nada via. Nada enxergava. Então veio o asfalto. Estava novamente sobre a ponte. Teria que cruzar o condado para encontrar seu tesouro.
A escuridão eterna não permitia que soubesse se era dia ou se era noite. Deveria ser fim de tarde do lado de fora do condado. A barriga roncava. O frio era excruciante. Ele jogou um pouco de álcool em gel dentro de uma lata de tinta de vinte litros. Jogou pedaços de madeira. O fogo subiu e ele pôde esquentar as mãos sobre a chama viva. Abriu a mochila com calma. Revirou os suprimentos e tirou um pacote de bolacha. Bastante calórico, pouco nutritivo. Apanhou quatro biscoitos e começou a mastigá-los. Abriu uma garrafa de água e cuidou de hidratar-se. Queria chegar ao palácio antes de cair esgotado. Pensava nisso quando viu pela primeira vez. Os pelos dos braços se ergueram com o susto e a excitação. Uma sombra. Alguém vindo na neblina que se juntara ao redor sem que ele se desse conta. Levou a mão à arma, mas recuou assim que lembrou das palavras do vampiro Jó. Não podia fazer mal a nenhuma criatura ali dentro. Era a regra para atravessar o condado vivo. A sombra vinha em sua direção. Era um homem. Sentou-se ao seu lado. O velho soldado não sabia o que dizer e permaneceu de boca aberta até que o homem falou:
— Te avisei tanto para não fazer isso.
O militar não sabia o que responder ao velho.
— Não foi por falta de falar com você. Sempre duro. Sempre querendo tudo certinho - queixou-se a aparição.
— Eu acreditava nisso tudo. Foi minha escolha.
— Por que você nunca me escuta?
— Nunca tive vontade.
Ficaram calados por um bom tempo. O homem surgido da neblina era um velho senhor, com características físicas bem próximas às do militar. O velho tinha apanhado um pedaço de caixote do chão e riscava a neve, esparramando o gelo.
— Eu nunca tinha visto a neve. Interessante, não é? - Perguntou.
O militar sorriu para o velho. De fato era interessante. Suspirou profundamente, batendo os dentes. Apesar do frio assombroso, sim, era muito interessante para quem topava com aquele volume de gelo pela primeira vez. Mantendo o sorriso e olhando para o velho, o militar animou-se:
— Conta daquela vez em que eu caí no rio.
O velho começou a rir. Riram juntos sem que dissessem nada por um bom tempo. O velho, olhando para o homem, secou as lágrimas do rosto.
— Essa era a preferida do Nestão. A gente tinha tomado todas aquela tarde e, você, garoto teimoso, pescando na beira do rio, quase lá dentro. Teimoso. Sempre muito teimoso. E eu, o Nestão, o Mario e a dona Bastiana jogando dominó e gargalhando das piadas. Então escutamos um tibum! Um tichbunzão! - O velho parou e secou as lágrimas de risada novamente. Falava e ria. - Corremos até a beira do rio. Só tinha a varinha lá. Eu, bêbado que nem um peru de véspera, comecei a gritar pro Nestão te acudir, pular no rio, porque eu não sabia nadar. Só o Nestão. E o cumpadre mais bêbado do que eu. Aí ele tirou o chapéu de palha que usava pra onda. Baixou o zíper da bota da direita, pedindo calma. Eu branco, desesperado, procurando você no rio, porque você não nadava porcaria nenhuma. Ah! Ah! Ah! Muito teimoso. Desde cedo.
— Ah! Ah! Ah! E o tio Nestão não pulou na água.
— Vai escutando, moleque. Ele tirou a bota da direita, com toda a calma. Depois começou a descer o zíper da bota da esquerda, eu quase pulando na garganta dele. Vai, Nestão! O menino vai afogar! Calma, Tadeu, calma, ele respondia, naquela maciota do Nestão. Aí começou a tirar as meias. Depois a camisa. Quando achei que ele ia pular, virou de costas pro rio e ajoelhou, balançando de bêbado, e baixou a cabeça. Eu comecei a gritar de desespero porque pra mim você já tinha morrido de tanto tempo debaixo d’água. Que que ia dizer pra tua mãe? Gritei com o Nestão. Ele disse que só entrava no rio depois de rezar sete ave-marias e quinze padre-nossos. Aí eu pulei no rio sem saber nadar mesmo, pra caçar o meu menino. Foi nessa hora que o safado começou a rir e gritou preu voltar. Catou o remo do bote e me estendeu. Puxou meu esqueleto molhado pra beira do rio e apontou o bote. Você tinha caído dentro do barquinho de madeira e ele tinha piscado pra você! O Nestão filho da puta. Sempre fazia essas graças fora de hora, faltando infartar um. O tchibum tinha sido um pedaço de barro, grande, que caiu da beira do rio. Você desequilibrou, mas por sorte caiu dentro do bote. Eu, travado de cachaça, não vi você no barquinho. Ah! Ah! Ah! Aí o Nestão deitou e rolou, né? Ficou fazendo cera. E tira bota! E tira meia! Desabotoou camisa, botão por botão! Ah! Ah! Ah! Quem é que acode criança assim? Todo mundo gritando, eu suando frio. Preocupado com meu filho. Ah! Ah! Ah!
O militar acompanhou o pai na gargalhada. Riu até também precisar secar as lágrimas do rosto. Tirou as luvas para oferecer ao velho. Quando olhou para o lado, novamente aquele arrepio. Não tinha ninguém do seu lado. O homem passou a mão sobre os olhos. O pai tinha desaparecido como tinha chegado. Suspirou soltando uma longa baforada de vapor. Seus olhos ficaram parados na lata com as chamas subindo e a madeira crepitando, lançando fagulhas para cima. Depois foram para o lado. A madeira que o espectro tinha brincado estava lá, recostada ao assento improvisado. O chão com a neve revolvida. O militar benzeu-se. Tão estranho. Fazia quatorze anos que o pai tinha falecido. Quatorze anos. Duas lágrimas desceram pelo rosto enquanto terminava de comer as bolachas. Levantou-se, colocando a mochila nas costas, deixando a lata com o fogo aceso para trás. Se não aquecesse nenhum viajante, ao menos traria um pouco de luz para as almas penadas que vagavam dentro do condado assombrado. Sentiu as costas doendo de tanto frio, mas não se importou. As pernas afundavam agora até quase os joelhos, quando entrou na avenida Dom Pedro I; tirou um grande binóculo da mochila e enxergou parte do museu do Ipiranga. Via cavaleiros cavalgando próximo aos portões da imensa propriedade. Cavaleiros com penachos vermelhos no alto da cabeça. Via estacas apontadas para o firmamento, com corpos atravessados, formando uma trilha de corpos cobertos de branco, imóveis, um memorial no descampado, para lembrar a qualquer viajante que era inútil lutar contra Jó. Guardou o binóculo na bolsa e ajeitou mais uma vez a mochila. Encontraria seu tesouro. Um tesouro que tinha olhos brilhantes cor de sol. Um tesouro que atendia pelo nome de Calíope. Juntar-se-ia à sua amada nas trevas do condado das sombras. Essa seria a pena a pagar por todos os seus pecados.