O Turno da Noite: O Livro de Jó (Volume 3)

André Vianco · Capítulo 34 de 46

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O Turno da Noite: O Livro de Jó (Volume 3)

Capítulo 83

Aléxia olhava para a ruiva sentada à sua frente. O helicóptero oscilava suavemente, para cima e para baixo. Seus potentes faróis varrendo a copa das árvores e buscando navegar em linha reta. A vampira transmutada virou a cabeça para o lado quando ouviu a voz carregada de nervosismo do piloto. Ao lado dele ia Ignácio e logo atrás Raul. Hélio, em sua forma humana, sentado nu no banco de couro, mantinha a cabeça baixa, mas seus olhos iam fixos na porta lateral aberta, por onde entrava um vento forte. Aléxia concentrou os ouvidos na conversa do piloto. Ele exalava medo e isso, mesmo tendo feito gorda refeição instantes atrás, fazia sua boca salivar. O medo dos humanos era o aroma mais instigante para as narinas de um vampiro. Era como um feromônio em tempos de acasalamento. Sedutor, convidativo, insuportável, irresistível.

— Os instrumentos, senhor! Entraram em parafuso! Não sei se estamos indo ou estamos voltando. Até o altímetro está maluco, não deveria estar oscilando desse modo.

— Estamos indo, posso garantir - retrucou Ignácio, soturno.

— Eu falei que sobrevoar essa floresta durante a noite era coisa perigosa.

— Essa floresta é perigosa de dia ou de noite, piloto, mesmo para Lockheed Martin militar.

— Mas não imaginei isso. O que está acontecendo? Por que a bússola não para de girar? Estamos em linha reta há dez minutos e ela roda que nem ventilador. Não sei a que altitude estamos. Esse painel do Merlin é monstruoso, eu não sei onde começa uma coisa e termina outra.

Bem completou a frase, o helicóptero soltou um barulho de seu ventre ao roçar na copa de uma seringueira. O piloto puxou o manche e a nave embicou perigosamente para cima. Isabela agarrou-se a uma alça de couro creme igual ao banco e sorriu para Aléxia.

— Estamos chegando, vampira. Quando as coisas pioram é porque estamos perto de Jó.

Aléxia devolveu o sorriso e ergueu as fendas em seu rosto e inalou fundo.

— Nós vamos perder o controle, Ignácio. Você está pagando uma fortuna para eu ir em frente, mas desse...

— Cale a boca, Laerte. Eu dobro o pagamento.

O piloto calou-se e aprumou a nave vinte metros acima das copas das árvores que conseguia enxergar com os faróis. Só podia confiar no que via. As relas de cristal líquido do cockpit exibiam chispas e traços que se distorciam, não correspondendo as leituras.

— Para a direita. Cinco minutos - indicou Ignácio. - Preparar para saltar! - Gritou para trás.

O piloto mudou suavemente de direção.

— Assim que saltarmos, voe em círculos por trinta minutos. Voltaremos. Quando eu disparar o sinalizador luminoso, procure uma clareira ou o ponto onde possa pairar mais baixo e com estabilidade, e iremos embora desse inferno deixando você podre de rico.

O piloto aquiesceu.

Estabilizou a aeronave e baixou o quanto pôde. Ligou o holofote auxiliar, apontando diretamente para o tapete verde logo abaixo, para que os ocupantes pudessem observar o terreno. Olhou desesperado para os instrumentos que pareciam mais endoidecidos ainda. Sorriu nervoso quando viu uma fenda entre as árvores, coisa de cem metros à frente. Podia ser um rio, uma estrada. Laerte engoliu em seco e concentrou-se na floresta escura. Um piloto experiente normalmente não entra em desespero quando marca um território e aguarda uma equipe de solo completar uma missão. Voar em círculos é o mais fácil e olhos treinados pegam qualquer marco natural ou construção artificial para servir de referência e mesmo com pane nos instrumentos de navegação ao menos estará orientado para voltar, cobrindo o caminho que tinha feito. Só que era experiente em voos com jatos e bimotores, com helicóptero a coisa ficava diferente. Já tinha pilotado R-22 e R-44, nunca uma máquina daquelas. O voo era robusto e seguro, mas dava medo. Era um helicóptero militar, pombas! No entanto o que mais enregelava seu coração e atormentava os sentidos era que voava sobre um mar verde. Tudo exatamente igual. Aquele vão encontrado por Ignácio serpenteava entre árvores sem ser rio ou rodovia. Era só um hiato, pequeno, sem árvores, que, no máximo, serviria de guia para seus giros esperando o retorno da equipe. Não saberia para qual rumo apontar o bico do helicóptero Merlin quando tivesse que voltar, caso tivesse que fazê-lo sozinho. O céu estava encoberto por nuvens, sem revelar estrelas ou a lua cheia. O lance era rezar para que aquele vampiro maluco conseguisse apanhar o que tinha vindo buscar e mandasse seu time de solo voltar para a bordo da nave e picarem a mula o mais rápido possível. Assistiu os componentes daquele grupo da noite saltarem da aeronave. Apenas o líder ficou parado na porta. Se Laerte tinha alguma dúvida de que as coisas não iam bem, agora tinha certeza. Era a primeira vez que via aquele sinistro senhor com uma expressão de medo estampada na cara.

Assim que tocou o solo, Hélio reassumiu sua forma de lobisomem, dobrando de tamanho e ganhando garras e presas para o combate. Bateu com a pata dianteira numa árvore, arrancando um pedaço de sua casca, testando as unhas afiadas. Inspirou o ar noturno e encheu os pulmões, colocando-se sobre duas patas, ergueu a cabeça e lançou um uivo de lobo comprido, indo do agudo ao grave.

Ignácio sentiu um bolo se formar em seu estômago ouvindo a manifestação sonora da fera que chegou aos seus ouvidos mesmo sem o auxílio do rádio. A porta traseira aberta do helicóptero trouxe o uivo, enchendo-o de raiva.

No chão, Isabela, de olhos arregalados, caminhou até Hélio e desferiu uma poderosa bofetada contra a fera que chegou a pender a cabeça para o lado e cair sobre quatro patas.

Isabela pôs o dedo indicador da mão direita sobre a própria boca, exigindo silêncio.

Do helicóptero, Ignácio lançava imprecações e saracoteava sentado como um lunático à beira de um ataque. Por que diabos aquele infeliz tinha uivado daquele jeito? Bicho burro! Aquilo já era o suficiente para denunciar seu grupo. Seus xingamentos chegaram pelo rádio e fizeram Raul e Isabela trocarem um sorriso.

— Vão em frente! - Berrou o vampiro.

Raul reforçou as presilhas de seu colete à prova de balas e depois ajudou a ajustar o de Isabela, por baixo de seu sobretudo de couro branco, sob o olhar enciumado de Aléxia, que grunhiu aproximando-se dos dois.

— Calma aí, princesinha morcego, só estou mexendo com a minha ruivinha porque vamos precisar de toda ajuda que pudermos contar, lembra do que o velho falou? Esses tais guardiões de Jó devem ser bichinhos porretas.

— Acreditem em mim. São. Já os enfrentei uma vez.

— São grandes?

Isabela deu de ombros.

— Como assim, você não sabe?

— Não sei o tamanho deles. Não deu tempo de medir, sabichão. Eles são rápidos e pegam fogo.

— Pegam fogo? - repetiu Raul, engatilhando a escopeta em sua mão.

Caminharam quatro minutos até que as árvores cessaram. Raul olhou para o chão que brilhava prateado. Pedras comuns. Como podiam brilhar tanto? Sorriu. Os olhos de um vampiro veem coisas fantásticas. Pisou naquela estrada. A Estrada da Lua que conduziria ao Deus Noite. A Jó. O lobisomem circulou ao seu redor e depois afastou-se um pouco, farejando o ar, farejando as árvores do outro lado.

Aléxia agitou suas asas e voou sobre a estrada, pairando cinco metros acima. Ela apontou o dedo para a direita de Raul.

— Ela está certa! - Veio a voz de Ignácio pelo rádio. - Sigam para lá. O templo está ao final da estrada.

— Que templo? - Ouviram a voz do piloto preocupado vazando pelo rádio do ancião.

Isabela olhou para cima. O helicóptero se afastava mais uma vez e fazia nova curva. Tal e qual da última vez, o medo havia posto grilhões de prata nas canelas do mestre. Uma metáfora e tanto para não admitir para si mesma que o bom e velho mestre estava se borrando nas calças de tanto medo.

Raul estacou. Olhou para a direção que tinham que seguir. Apertou a arma nas mãos. Olhando para o lado, viu que Isabela também preparava o fuzil. Uma sensação estranha percorrendo sua pele. Como eletricidade. Raul voltou a caminhar e cravou seus olhos na escuridão da floresta. Podia sentir. Eles já estavam ali. Não iam esperar até que chegassem ao templo para atacar. Iriam tentar bloqueá-los ali mesmo. Raul grunhiu nervoso e seus dentes cresceram ainda mais. A luta ia ser das boas. Assim que suas balas acabassem, arrancaria pedaços dos guardiões de Jó com a própria boca. Não deixaria uma subclasse de protetores interferir em seu objetivo. Se Ignácio tinha falhado antes era por culpa desse medo descarado que sentia por Jó. Ele, Raul, não tinha medo de nada, era filho de Sétimo, o pior demônio do Rio D`ouro.

Isabela estacou. Não conseguiu dar mais nenhum passo. Seus olhos dançavam nas órbitas. Ela também sabia que eles estavam ali. Espreitando. Começou a tremer dos pés à cabeça.

O lobisomem colocou-se sobre duas patas e grunhiu nervoso. Seus pelos eriçaram-se.

Aléxia subiu mais e desapareceu no céu escuro.

Raul virou-se, com os olhos fervendo em ódio e queimando como duas labaredas vermelhas. Encarou a vampira com tanta raiva que ela deu dois passos para trás quando o novato chegou à sua frente. E foi a vez dele desferir uma bofetada na cara da ruiva. Isabela girou para o lado e caiu sentada na estrada de pedras.

— Não sinta medo, sua vadia! Se eles sentirem o seu medo, poderão reagir como reagimos aos humanos: ficamos com mais fome e com mais poder para engoli-los. Se vai ficar com medo de alguém aqui é a mim que vai temer. Ouviu?!

Isabela balançou a cabeça positivamente.

— Dá a mão aqui. Vamos agir como vampiros, mulher. Vamos arrebentar esses cururus.

Isabela obedeceu Raul e apoiou-se no novo parceiro para ficar de pé.

— Você disse que eles já te botaram para correr. Ninguém põe amigo meu para correr. Agora a gente é irmão. Fica comigo e cobre as minhas costas que nada vai te acontecer.

Isabela ficou desconcertada. Tinha acabado de tomar um bofetada daquele filho de uma mãe e agora, num misto de repudia e animalesca atração, sentia-se excitada, sentia-se a vampira mais protegida do mundo.

Voltaram a caminhar pela Estrada da Lua em direção ao templo do Deus Noite, erigido milhares de anos atrás pela civilização Inca, ouvindo, distante, os rotores do helicóptero e, mais perto, o farfalhar das asas de Aléxia, que, inteligentemente, sobrevoava a estrada, ficando afastada de qualquer ataque surpresa.

Continuaram avançando. Cada passo uma conquista. A presença velada dos inimigos ainda ressoava no ar, batia contra suas peles e os mantinha alerta. O confronto seria inevitável.

Raul procurava sem cansar. Para onde olhava apontava sua escopeta. Seriam mortais os guardiões? Sangrariam caso fossem atingidos? Como seriam mortos? Precisariam de estacas no peito como os vampiros? Queimavam ao sol? Raul sorriu. Não. Não queimavam ao sol. Não eram vampiros. Eram outra coisa. Como Ignácio tinha dito lá na pista do aeroporto. Eles eram energia da terra. Eram ligados à natureza. Eram como duendes ou esquilinhos encapetados que não queriam o ser humano por perto. Talvez fossem pequenos como os Smurfs e ele pudesse pisar na cabeça deles. Eu odeio o Papai-Smurf, brincou Raul em seus pensamentos. Raul viu o primeiro deles. Ficou até contente. Não eram porra de Smurf nenhum. Um alívio. Mesmo tendo visto uma criatura de couro verde como um lagarto escondendo-se rápido atrás de uma pedra grande e trepar numa árvore com a agilidade de um macaco, realmente sentiu-se aliviado. Se eles fossem Smurfs, ele seria o Gargamel. O Gargamel sempre se dava mal, muito mal, nos desenhos dos Smurfs. Raul fechou o semblante e se concentrou. Não pareciam grande coisa. Tinham o tamanho de uma criança com nove, dez anos. Apontou na direção onde tinha visto o inimigo. Isabela caminhou para perto da margem da floresta e vigiou, enquanto Raul avançava em passos lentos e estudados. Viu outro. Agora esse outro não se preocupou em esconder-se com rapidez. Raul engolia em seco. Aqueles segundos de estudar o inimigo antes do combate eram cruciais. E sabia que o inimigo fazia exatamente a mesma coisa. Estava lhe observando, procurando seus pontos fracos, enquanto Raul ainda tentava entender que diabo de criatura era aquela. Não era humano. Era material, mas não era humano. Um monstro de coloração esverdeada e uma cabeleira intensa, longa, que ia até o meio das costas. Se achava que Isabela tinha cabelos vermelhos, agora o rubro dela era piada. Eles, sim, tinham cabelos vermelhos. A frase jogada pela vampira assombrou seus pensamentos. “Eles são rápidos e pegam fogo.” Aquilo na cabeça deles... Seria pelagem, simples cabelos? Raul podia jurar que eram chamas quase liquefeitas, ora lisas, ora ondulantes, enfeitando o topo da criatura e caindo em suas costas. Não sabia se o bicho estava de pé ou agachado, mas já tinha tamanho suficiente para aguentar umas boas bordoadas. No combate, ser pequeno nem sempre significava desvantagem, ainda quando rodeado de tanta mata, tanta floresta. O guardião se moveu e foi eclipsado por uma árvore larga. Raul não sentia cheiro de medo. Não sentia cheiro nenhum. Foi então que deu atenção para a coisa mais sinistra. Não sentia vento. Não ouvia piado de pássaros nem zumbido de insetos. O silêncio era avassalador. Até mesmo o som dos rotores especiais do helicóptero, mesmo daqueles bem silenciosos, estaria chegando aos seus ouvidos. Seus olhos varreram as laterais. Viu mais dois daqueles sujeitos. Raul ergueu a mão. Isabela parou. O lobo observando o movimento na floresta começou a rosnar como cão de guarda. Então o primeiro deles saltou de uma árvore, voando para cima do couro de Hélio. O lobisomem ergueu-se sobre duas patas e tombou para trás propositadamente.

Isabela ficou estática por um segundo, seus olhos brilhando vermelhos tinham reencontrado um pesadelo.

Antes que Hélio se refizesse, outro dos guardiões de Jó abandonou a mata e correu para dentro da estrada de pedras, rugindo de forma alucinante, um som metálico que vinha do fundo da garganta da fera, com a boca aberta e cheia de dentes finos e pequenos que cravaram-se numa das patas do lobisomem.

Raul sentiu uma descarga elétrica em seu corpo. Eram ágeis. Moviam-se rápido. Criaturas de um metro e cinquenta, largas, com braços longos e costas curvadas, corcundas. O vampiro estendeu a escopeta e disparou arrancando o bicho do pé de seu aliado. Hélio imediatamente conseguiu virar o corpo e sua boca escancarada voou para o pescoço do outro que tripudiara em suas costas. O som de ossos se partindo atravessou a Estrada da Lua. Raul sorriu e disse olhando para Isabela:

— Eles morrem com tiros e têm ossos que estalam quando quebram. Então são de carne e osso, seja lá o que sejam no fim das contas.

Isabela girava lentamente sobre as botas, olhando para o fundo da floresta.

— Mas eles ainda não começaram a fazer.

Raul baixou o cano fumegante da escopeta, olhando para o fundo escuro da mata, vendo mais alguns dos inimigos correndo em direção à estrada.

— A fazer o quê, vampira?

— Fazer um lance que os deixa bem, bem mais complicados mesmo.

Raul virou de costas. Por um instante tinha deixado de vigiar o outro lado da estrada. De lá também via as silhuetas de mais guardiões aproximando-se.

— Quantos são?

— Não fazemos ideia - respondeu Isabela.

— Tanto tempo com medo desses caras, tanto tempo querendo botar as mãos em Jó, e não sabem porcaria nenhuma sobre esses guardiões?

— Tudo que sabemos é que eles são um pé no saco, garoto. Vai ficar falando ou vai derrubar mais alguns deles para chegarmos ao templo?

Raul franziu o cenho. Pela primeira vez desde o racha, queria seus amigos por perto. Sabia que Bruno era bom para peitar qualquer fera. Patrícia era inteligente, pensaria alguma coisa para deixar a parada mais difícil para os guardiões de Jó. E Alexandre, com aquele jeitão malandro, ia sentar o dedo sem dó. Não tinha nenhum deles por perto. Só a ruiva ao seu lado esquerdo, o lobisomem com o pé ferido e a vampira morcego onde quer que ela estivesse.

Raul andou até perto da criatura que fora abocanhada por Hélio. O lobo girava, farejando e olhando para todos os lados. Raul cutucou o monstro morto com o cano da escopeta. Tinha couro de lagarto da cabeça aos pés, com uma coloração verde em sua maior parte, e no centro do abdômen, subindo até o meio do peito, um filete avermelhado. Os cabelos, se podiam ser chamados assim, eram mechas longas, mais vermelhas que as de Isabela, como se carregassem labaredas acima da cabeça. Quando inclinou-se para a frente, aquele cheiro entrou forte em suas narinas. O cheiro do sangue! O sangue das criaturas tinha um cheiro adorável. Raul ajoelhou-se e, sem notar, passou a língua pelos lábios, vendo as grossas gotas caindo do pescoço perfurado do animal. Desceu os olhos pelas pernas do bicho. Sentiu-se enregelar. Os pés da criatura eram voltados para trás. Tinham quatro dedos, mas o calcanhar ocupava a frente do pé e os dedos o final. Era medonho. Observou as pegadas que a criatura tinha deixado na beira da estrada. Sorriu. Lembrava daquilo. Das lendas que falavam na escola na semana do folclore. Será? As pegadas invertidas que enganavam os caçadores e os homens que queriam construir na floresta, derrubando árvores. As pegadas do curupira.

— Só pode ser zueira essa parada aqui - resmungou Raul.

— O quê?

— Olha essa pegada na terra, antes de chegar na estrada de pedras. Isabela baixou os olhos um segundo, ainda preocupada com os guardiões.

— Você também percebeu, é?

— Curupira. Te lembra alguma coisa? Hehehe.

Isabela meneou a cabeça positivamente.

— Calíope me falou disso, das pegadas. Eu não tive tempo de ver muita coisa da última vez que estive aqui. Eles estão muito quietos e isso é estranho. Nada bom, nada bom - ressoou a voz grave da vampira.

Raul ergueu novamente a arma. Ouviu mais daqueles grunhidos guturais. Sons de línguas estalando. Os bichos, apesar da forma humanóide, tinham um ar totalmente réptil por causa da pele escamosa, a boca oblíqua, projetada para a frente, como um bico de ave. Aqueles cabelos chamavam tanto a atenção, que era difícil se concentrar no resto do corpo. O animal ferido próximo a eles rastejava de volta para a floresta. Raul pensou em disparar novamente para encerrar com a vida do verme, mas se conteve. Era sabido poupar munição. Continuou acompanhando o rastejar do monstro de pé invertido. A ferida que a escopeta tinha aberto em suas costelas era grande o suficiente para enfiar um abacate por ali. O sangue cheiroso da criatura ia ficando nas pedras, brilhando, mudando do vermelho para um tom purpúreo, cintilante. Tinha um cheiro bom pra cacete. Talvez fosse boa ideia cravar as presas no pescoço daquele ali e terminar com o jogo. Contudo Raul estava aproveitando a rápida vitória. Queria deixar que os outros guardiões o vissem ali, o semelhante rastejando aos seus pés, aos pés de um vampiro, de um filho de Sétimo, procurando fugir, mas já sem forças. Raul só não gostava de uma coisa. O verme não exalava medo. Talvez não fossem dotados desse sentimento. Talvez fossem coisas de outro mundo, do espaço sideral, sei lá. Balançou a cabeça negativamente enquanto inspirava fundo. Só o cheiro do sangue. Não fazia sentido. Qualquer criatura, qualquer ser vivente que sentisse dor, que tivesse a vida em risco, sentiria medo. Fosse o que fosse, aquele guardião era para estar cagando nas calças a essa altura, clamando por misericórdia, caso falasse alguma língua. Chorando, implorando. Mas não, só rastejava, cada vez mais fraco. Cada vez mais lentamente e deixando uma trilha grossa de sangue hemorrágico no seu rastro. Raul pisou no pé invertido da criatura. O guardião olhou para trás e rosnou fraquinho. Os olhos amarelos, feito os de certos lagartos, certos sapos de rios distantes, piscaram como os anfíbios piscam, crotalídeos, deixando um rastro, uma membrana. Eram interessantes. Raul ergueu a escopeta. Os olhos do guardião não se mexeram. Raul desferiu uma coronhada no pé invertido do bicho que gritou um grito agudo quando os ossos que faziam as vezes de calcanhar arrebentaram. Sentia dor o infeliz. Mas não sentia medo. Raul coçou a cabeça perturbado.

Isabela olhava para o espécime morto ao lado do lobo, que começava a destroçá-lo a bocadas, de puro ódio. A vampira cerrou os olhos. O que estava acontecendo? Tinha visto uma porção deles na floresta. Por que não estavam atacando de uma vez? Isabela só lembrava do inferno e dos gritos quando tentaram trilhar aquela Estrada da Lua pela primeira vez. Os guardiões tinham investido tão rápido e ferozmente que não tiveram tempo de entender como destruíram tantos vampiros de uma só vez. A luta tinha sido sangrenta e sem tempo para descanso. Agora estavam caminhando. Um dos guardiões tinha sido morto facilmente por Hélio. Raul tinha dado cabo de outro. Será que Ignácio estava mesmo certo? Será que por serem filhos de Sétimo, terem o sangue de um demônio temido, estavam sendo respeitados ou sendo até mesmo temidos? O que Raul tinha de especial? Petulância sobrava.

Raul fechou o sorriso quando o guardião chegou ao fim da estrada. Parecia que o monstro não conseguiria fazer mais nenhum movimento. Escapava da boca da coisa um barulho de respiração engulhada, como se a hemorragia agora subisse pela garganta da criatura. Contudo a fera teve força para mais algum esforço. Segurou firme numa pedra e projetou o corpo para cima, saindo da estrada rochosa e deitando o queixo na parte de terra. Ergueu a outra mão e agarrou as raízes de uma árvore que estava na beira do caminho e puxou o corpo mais uma vez. Virou-se de costas para a árvore e ficou olhando para Raul, piscando os olhos com aquelas membranas úmidas, moribundo, parecendo que cerraria as pálpebras e exalaria a última respiração a qualquer instante. Raul, capturado por aquele momento mágico, de soberba e alegria por ter dado fim num tão falado guardião de Jó, hipnotizado por aquele ritual sombrio e inescapável a qualquer ser vivente que era o desenlace do mundo vivo para a escuridão, acocorou-se perto do réptil, anfíbio, guardião do raio que o parta e, inebriado, ficou a absorver aquela sensação. A morte deveria estar ali, bem ao lado da criatura, descendo seus dedos esqueléticos, igual para humanos, igual para guardiões, igual para tartarugas, joaninhas e pelicanos. Ela, com o rosto de caveira, desprovida de carne, parecendo sempre a rir e zombar dos viventes, tocaria no animal moribundo e engoliria sua alma, para cuspi-la no Aqueronte. Raul aproximou-se mais. Ele estava morrendo. Raul sorria. E o sorriso durou até que seus olhos voltaram a olhar para a mão do guardião. A mão que agarrava a raiz da árvore para que ele se recostasse ao tronco da frondosa sumaúma. A mão continuava firme na raiz e difícil precisar se era dos dedos do bicho ou se da raiz do antigo vegetal que saía um sutilíssimo halo de luz verde-amarelado. Raul fechou a boca e seus olhos foram crescendo de tamanho na mesma proporção que seu espanto. Saía de um espetáculo para cair em outro. Certamente a dona morte, a descer a gadanha sobre o alvo, segurou a ferramenta de trabalho e quedou-se boquiaberta, também capturada naquele momento um tanto que fantástico.

Isabela aproximou-se por trás, seu sobretudo branco chamou a atenção do guardião ferido que virou lentamente a cabeça. Raul deteve os olhos nos cabelos vermelhos do curupira. Os fios de fogo encostaram e abraçaram o frondoso tronco da deslocada sumaúma, árvore rara em pedaços de floresta fechada e abundante nas várzeas amazônicas, e não menos imponente que o mogno e as seringueiras que fechavam suas copas cinquenta metros para cima, tornando o terreno ali, junto à Estrada da Lua, mais frio, mais escuro, mais sombrio que nas florestas espaçadas. O garoto vampiro deu um passo para trás. Sentia que o animal, o guardião, estava executando alguma função orgânica sensacional, algo de simbiose ou, até mesmo, valendo-se de algum tipo de magia. Os cabelos vermelhos, brilhantes, incandesceram ainda mais e pareceram mergulhar dentro da árvore. A imensa sumaúma foi ressecando, suas folhas verdes e vigorosas tornaram-se cinzas e secas e em questão de segundos uma chuva de folhagem solta, como se o inverno tivesse apanhado única e exclusivamente aquele exemplar para tomar-lhe o viço. O tronco largo envergou-se para o lado e, de repente, ouviu-se um estalo avassalador.

— Meu Deus! - Berrou Isabela. - Ele está fazendo.

Raul, olhando hipnotizado para a árvore que tombava em sua direção, ficou petrificado por um momento. Como era possível? O ser aos pés da árvore estava se levantando, vivo, e a sumaúma estava morta, desabando sobre sua cabeça. O vampiro ergueu os braços infantilmente, buscando proteção, mas o tronco que pesava toneladas achataria seu corpo contra as rochas, tirando-o do combate irremediavelmente.

Como um carcará, num mergulho certeiro, Aléxia passou voando por baixo da copa da árvore que tombava e agarrou Raul, tirando-o dali.

— Corram! - Gritou o vampiro ao ser apanhado pela vampira morcego.

— Eu vi o templo - grunhiu Aléxia, com a voz descaracterizada. - Tem muita energia saindo de lá.

— Leve-me agora!

Aléxia girou o corpo e tomou o rumo do templo do Deus Noite.

Isabela começou a correr, alcançando o lobo que tinha disparado em galope, saltando em suas costas e usando-o como montaria. Atrás deles, ainda se levantando, e agora bem maior do que anteriormente, o guardião lançava um grito para o céu, com seus cabelos vermelhos de fogo iluminando tudo ao redor. A criatura dobrou as pernas e começou a correr beirando a estrada. As pegadas invertidas ficando para trás. Mais velocidade e saltou no ar, agarrando-se ao tronco de um mogno, subindo seus galhos e logo tornando a saltar. Os outros guardiões escondidos na mata também gritaram, enquanto podia-se ouvir aqui e ali estalos de madeira quebrando e o som de grandes árvores tombando.

De cima, a salvo no helicóptero, Ignácio arregalava os olhos enquanto mandava o piloto se calar. Parecia que um incêndio tinha tomado a floresta escura logo abaixo, com grandes e inúmeros pontos vermelhos surgindo entre as copas das árvores. Esses pontos dividiam-se às margens da estrada de pedras. Esses pontos perseguiam seus pupilos.

— São eles! Os guardiões de Jó. Mantenha esse helicóptero longe deles, entendeu?

— Não precisava nem pedir, seu Ignácio. Não mesmo.

Aléxia baixou de altitude e largou Raul que, tomado pela euforia e pelo medo, rolou no chão, desequilibrado. O vampiro levantou-se correndo atrás da escopeta. A arma, que deslizou pelo chão de pedra, parou quando bateu contra uma elevação a noventa graus. Raul apanhou a peça e ergueu a cabeça. Degraus sem fim subiam em direção ao céu negro. O templo do Deus Noite existia, bem como os guardiões de Jó e, se até aqui os itens iam se revelando um a um, era certo que lá dentro encontraria a tumba que guardava o vampiro temido por Ignácio. Raul olhou para trás. Isabela vinha montada nas costas do lobo que corria o mais rápido que suas pernas aguentavam. A criaturinha que estivera à beira da morte agora vinha, saltando alternadamente do chão para as árvores, envergando troncos centenários com o peso adquirido. Não podia chamá-lo de criaturinha. Era um monstro com quase três metros de altura. Raul olhou para a escadaria. Aléxia ainda voava em direção ao topo do templo. Não ia ficar ali parado esperando para descobrir o que o guardião faria quando lhe alcançasse os ossos. Tratou de galgar os primeiros degraus. Seus olhos de noturno ajudavam a se desviar do emaranhado de raízes e cipós que cobriam as pedras que formavam a arquitetura do templo do Deus Noite.

Isabela virou-se para trás tirando a pistola do coldre, e, começou a disparar contra a criatura que vinha ao seu encalço. Apesar de saber que cada bala tinha chegado ao destino, o guardião não diminuiu a velocidade nem acusou dor. A vampira ruiva virou-se para a frente e flexionou o corpo, chegando mais próximo da cabeça da fera.

— Corre, lobo! Suba as escadas do templo, vou tentar segurar esse desgraçado.

Hélio continuou galopando enquanto agilmente Isabela trocou a munição da pistola, recolocou-a no coldre, e agarrou o fuzil que vinha pendurado em seu pescoço.

— Encontre o túmulo e devore o corpo de Jó! - Bradou Isabela.

Ouvindo as ordens da mulher, o lobo alcançou o primeiro degrau e iniciou saltos para cima. Isabela desmontou e caiu de joelhos numa das pedras, apoiando-se em grossas raízes que tinham varado a rocha e ganhando espaço ao ar livre. Ela apontou o fuzil para o monstro e esperou que ele chegasse mais perto. Mais perto. Seus olhos de vampira cintilaram. Apesar de focar no monstro que tinha se regenerado ao roubar a vida da árvore, via que mais daquelas criaturas com cabelo de fogo vinham de dentro da mata, na direção do templo do Deus Noite. Isabela fingiu respirar fundo. Pressionou a coronha contra o ombro direito, deixou o dedo envolto na luva branca tocar suavemente o gatilho. Tinha a cabeça do monstro na mira. Ele tocou o primeiro degrau, gritando e uivando como uma besta insana. Saltou para o alto, passando três ou quatro daqueles colossais degraus de uma só vez, batendo com estardalhaço contra a rocha, fazendo a escadaria tremer.

Raul, no meio do caminho, arriscou outra parada. Agora estava coisa de sessenta metros acima da Estrada da Lua, via o mar verde a perder de vista e pelo menos seis daquelas criaturas rodeando o templo, espalhando uma luminosidade vermelha, incandescente, por baixo da copa das árvores, fogueiras vivas que vinham ao seu encontro. Seus olhos se detiveram na destemida vampira de branco que estava a um palmo de distância do guardião mais próximo. Hélio passou galopando ao seu lado, com o couro transpirando, conferindo um aspecto brilhante à sua pelagem lupina.

— Pare! - Gritou Raul.

O lobo colocou-se sobre duas patas e rosnou ameaçadoramente para o vampiro.

— Quer tomar um balaço de prata na cabeça, o idiota? Tá pensando que eu sou um otário da matilha do Afonso?

O lobo uivou enfurecido e baixou as patas batendo-as perto de Raul.

— Vamos ajudá-la. Eu não deixo mulher lutando sozinha.

Hélio lembrou-se da ordem recebida pela ruiva. Raul iria ajudá-la sozinho. Antes que o filho de Sétimo pudesse fazer qualquer coisa, o lobisomem desferiu-lhe uma patada e girou o corpo, voltando a galopar em direção ao cume do templo.

Raul rolou sete degraus para baixo, com a façanha de não desgrudar da escopeta.

— Miserável. Depois cuido disso.

Olhou para Isabela que estava em situação crítica.

A vampira ergueu mais o cano. O monstro deu o último salto em sua direção e então ela puxou o gatilho até o final, iniciando uma saraivada de disparos precisos. Em segundos a rota do monstro foi alterada, e ele tombou ao lado da vampira, com a cabeça moída pelos projéteis e os membros estremecendo, espasmódicos. O guardião de Jó não seria mais problema.

Isabela olhou para cima. Raul tinha voltado para auxiliá-la.

— Preocupado com o ancião, novato?

— Hum. Um pouco. Um par de braço a mais nessas vizinhanças faz uma falta danada.

— Fico tocada com a sua sensibilidade. Mas eu dou conta do recado.

— Dá?

— Aham.

— Então dá conta daquele recado ali, faz favor - pediu Raul, apontando para a Estrada da Lua.

A estrada, antes deserta, estava tomada agora por seis criaturas do mesmo porte daquele agonizante na escadaria. Elas caminhavam lentamente, lembrando titãs de pedra, moais desenterrados, com as cabeças em chamas e os pés voltados para trás.

— Curupiras. Dá pra acreditar nisso?

Raul olhou para Isabela e soergueu as sobrancelhas.

— Pergunta meio ridícula vinda de uma vampira do século passado, que subiu até aqui montada nas costas de um lobisomem peludo e que tomou uma mordida de uma mulher morcego horas atrás... Mas tudo bem, você tem razão. Curupira já é demais nesta história! Às vezes me pego imaginando se somos de verdade também ou habitamos a cabeça de algum maluco.

Isabela soltou o municiador vazio que quicou na rocha enquanto ela abastecia a arma com outro carregado até a boca.

— Taí, garoto. Numa coisa a gente combina. Vivo num mundo tão extraordinário que não acredito no que vejo de vez em quando.

— Só não para de acreditar agora, titia ruiva. Se sairmos vivos desta, a gente retoma essa prosa filosófica num boteco. Tomando vinho do bom, se é que você me entende.

— Quanta munição você tem aí?

Raul deu de ombros.

— Olhando para esses monstrengos, acho que tenho pouca.

— Não precisamos matá-los. Precisamos segurá-los até que Aléxia e Hélio encontrem a tumba de Jó e destruam-no.

— E depois disso eles viram purpurina e nos deixam ir como se nunca tivéssemos esfarelado o deus vampiro deles?

— Depois é depois. Achei bonito aquilo que você falou pro velho Ignácio.

As feras continuavam se aproximando, passo a passo, circundando as escadarias do templo do Deus Noite, enquanto os vampiros trocavam amenidades.

Raul olhou curioso para Isabela.

— O que você achou bonito, ruiva?

— Aquele lance de que vampiro que tem medo de morrer é um vampiro morto.

— Sim. Tudo a ver, mina. Eu tava brisando, mas é tudo a ver.

— Brisando?

Raul riu.

— Viajando. Eu tava viajando, tia vampiro.

— E parafraseando meu mais novo e não tão nobre amigo, vamos ter que agir feito vampiros dos bons, não como um dentucinho mariquinha.

Raul pousou uma mão no ombro de Isabela.

— Olha ruiva, você não faz o meu tipo, nem de leve. Não pego coroas, sabe. Mas se escaparmos dessa aqui pra contar a história depois, essa história do vinho é verdade. Eu pago.

— Também não curto cheiro de fraldas, moleque. E quem disse que tomo vinho, Raul?

— Ah! Ah! Ah! Te pago um drink, o que você quiser.

— No Theatro dos Vampiros.

— Fechado. No Theatro dos Vampiros.

Raul ergueu a escopeta e começou a descer a escadaria.

— Eu pego esses três da direita. Boa sorte com os seus.

Bem ouviu a frase, Isabela ergueu o fuzil e sentiu o chão estremecer.

Os novos guardiões estavam longe ainda. Não tinham saltado. O que provocara aquele tremor? O fato é que pedriscos rolaram escadaria abaixo e um som abafado de explosão se fez ouvir. Os seis guardiões pararam, imóveis como estátuas. Foi então que os olhos da vampira ruiva encontraram os dedos do guardião abatido pelos tiros de fuzil. O corpo que até a poucos segundos estrebuchava nos segundos finais de vida, estava fincando os dedos nas raízes expostas pelos vãos das pedras. O resto do monstro deitado na diagonal estava parado, mas seus cabelos labaredas levantaram-se mais uma vez e um clarão rubro tomou aquela porção da escadaria. Raul soltou um berro e foi ao ar dezenas de metros. As raízes tinham ganhado vida e uma delas enrodilhara em seu calcanhar, suspendendo-o do chão. Atônita, Isabela viu outra porção de raízes soltarem-se com estardalhaço e provocando novo tremor na escadaria. Elas não saíam por vontade própria, eram arrancadas, e seus finos filamentos, ainda cravados na rocha, iam se partindo, movidos por uma força descomunal. Era o curupira. Ele comandava as forças da natureza naquele rincão de mundo. Ele conseguia fazer que as árvores lhe dessem forças para continuar vivendo e ainda conseguia controlar aquelas raízes como cordas nas mãos de um mago. Raul, imobilizado e ainda tomado de surpresa, não viu quando cinco pontas do outro ramo da raiz voltaram-se em sua direção, deformadas, afiadas, legítimas lanças de madeira que iriam tomar-lhe a vida se afundassem em seu peito. Isabela não pensou. Disparou. Os projéteis foram explodindo as estacas e, ao final, Raul tomou uma sarrafada que o arremessou longe, caindo aos pés de um dos gigantes que esperavam ao final da escadaria, ferido por farpas de madeira que começou a retirar do braço e do tronco.

— Ai, monstro! Isso dói!

 

******

 

Aléxia pousou ao final da escadaria a tempo de ver Raul sendo sacolejado no ar. Seus olhos brilharam de ódio. A criatura caída nos degraus ainda vivia. Olhou para dentro do templo, indecisa por um segundo se mergulhava em voo para mais uma vez defender o parceiro ou se vasculhava o mais rápido possível aquelas ruínas para acabar logo com aquilo. Bufava, seu peito subia e descia, seu corpo envergado para a frente, novamente lembrando uma gárgula no topo de uma igreja, com as asas fechadas e os olhos felinos, acompanhando os movimentos do corpo de Raul que era suspenso de lá pra cá, como que apanhado por um dos tentáculos de um Kraken surgido das profundezas da terra em vez do mar.

O lobisomem passou pela vampira morcego e adentrou o templo. Seu faro aguçado guiava seu galope desenfreado. Aquela parte do templo estava completamente tomada pelas raízes e plantas que cresciam rasteiras, livres da cortina compacta das copas das árvores que roubavam-lhe o sol e com isso a vida. Bromélias, samambaias, cipós, raízes e pequenas árvores germinavam de rachaduras e pelos cômodos nunca terminados pelos escravos incas desaparecidos. Hélio parou, derrapando num chão úmido, escorregando em húmus e enchendo sua pelagem com restos de folhas em decomposição. Aquele cheiro, do apodrecimento vegetal, estava por toda parte e velava seu sentido mais aguçado quando assumia a forma lupina, o faro. Não sentia o cheiro de um corpo morto. Urrou raivoso e continuou correndo, afundando-se em câmaras escuras.

 

******

 

Aléxia arregalou os olhos quando um daqueles tentáculos feitos de raízes vergou suas pontas e formou várias estacas. O guardião ia acabar com Raul. Ia acabar uma vez mais com Sétimo. Aléxia ergueu o corpo e estendeu as asas, ouvindo os disparos de Isabela que também lutava para defender Raul; quando saltou para voar e apanhar o parceiro, tombou na escadaria. Uma raiz fina, soltando uma rala luminosidade amarela, agarrou-se ao seu pé e girou várias vezes em seu tornozelo. Aléxia tombou de costas e abriu as asas tentando se posicionar melhor. Colocou-se agachada e bateu as asas subindo três metros. Nisso a raiz agarrada ao seu calcanhar deu uma chicoteada e a derrubou mais uma vez. Então novas raízes apanharam suas asas de morcego e se fecharam com tanta força que arrancaram um gemido de dor da vampira. Uma das raízes levantou-se para o ar como uma naja hipnotizada por um encantador de serpentes e, a certa altura, a ponta do vegetal se retorceu em espirais, formando uma ponta aguda, e desceu velozmente contra o peito da vampira. Aléxia arregalou os olhos e agarrou a raiz que rompeu-se, largando uma estaca em seu peito. A vampira desmoronou para trás, com a boca aberta, os dentes reduziram-se imediatamente, a coloração de suas escamas recrudesceu por um segundo e descambou para um tom cinza uniforme. Imóvel e sem vida a personagem ficou.

A munição do fuzil Isabela tinha chegado ao fim, abrindo buracos no couro verde do curupira que emitia gritos e silvos tão agudos e intensos que a vampira chegou a cair de joelhos para tapar os ouvidos. A vampira largou a arma longa e abriu o sobretudo branco, tirando as duas pistolas dos coldres que iam por cima do colete à prova de balas. Caso os guardiões de Jó estivessem atirando contra seu peito, aquela peça seria uma defesa extraformidável, e a vampira sabia muito bem que aqueles coletes resistiam a disparos de armas de fogo, mas seriam ineficazes contra facas, espadas e muito provavelmente não suportaria a pressão das raízes em forma de estacas. Com as duas Desert Eagles apontadas para os olhos do monstro que virara em sua direção, Isabela começou a disparar. O monstro fechou os olhos e tombou a cabeça, mantendo-se abaixado e agarrando-se firmemente às raízes que estavam em sua mão. A vampira mudou o alvo. Tinha que separá-lo daquele pedaço de vegetal. Era por meio daqueles troncos secos que ele dava vida àqueles tentáculos assombrados. Quando disparou nos dedos do monstro, ele silvou novamente e soltou uma mão. Isabela apontou para a outra mão e, antes que pudesse puxar o gatilho, sua cintura foi envolta por uma das raízes que arremessou-a no ar, fazendo-a bater coisa de quinze degraus mais para cima, perdendo abruptamente as pistolas, ficando zonza e atordoada e, sem o luxo do tempo em suas mãos, procurou levantar-se o mais rápido que pôde.

Raul, aos pés da escadaria do templo do Deus Noite, foi recebido pelo segundo guardião a se aproximar. A fera, com coisa de três metros de altura e cabeleira igualmente vermelha e incandescente, desferiu um potente soco cruzado no rosto do vampiro, fazendo os ossos da mandíbula do garoto estalarem. Raul que, miraculosamente tinha conseguido se manter de pé, mas tendo o corpo curvado pelo impacto, levou dois segundos para voltar à posição ereta e, com um tapa no sentido inverso ao que foi atingido, recolocou o maxilar no lugar, cuspindo um dente ao chão.

— Ah. Essa doeu. Doeu pra valer - disse encarando o bicho, enquanto cuspia outro dente e observava o osso branco misturado ao sangue no chão. Raul apontou o dedo para o guardião. - Agora vou te dizer, você deu uma sorte danada de não ter sido meu canino, infeliz, se não eu ia ficar puto pra cacete.

O monstro soltou um grito estridente e exibiu a boca pontuda, bicuda, cheia de dentes pequenos, parecendo uma serra.

— Você chama isso de dentes, filho da mãe? Eu vou te mostrar o que são dentes.

Raul ergueu a pistola e descarregou no peito do monstro que foi indo para trás a cada disparo. No décimo segundo ele tombou de costas e Raul correu para cima dele, pulando em seu peito, quebrando os ossos da caixa torácica e, em seguida, abriu a boca e grunhiu, saltando na garganta do monstro. Cravou os dentes no couro esverdeado e começou a drenar o sangue do guardião de Jó. Levantou a cabeça para o céu, com a boca cheia do sangue escuro e purpúreo da fera, e gritou.

— Isso aqui é bom demais!

Antes que baixasse a cabeça, outra daquelas raízes enrolou em sua garganta, arrancando-o de cima do protetor das matas e do templo do Deus Noite.

O tentáculo vegetal apertou tanto dessa vez que os olhos de Raul se esbugalharam, evidenciando o aumento abrupto da pressão intracraniana. Outros tentáculos levantaram-se ao seu redor, raízes, como cercas vivas, prendendo-o, e suas pontas foram mais para o alto, retorcendo-se; Raul olhou para o lado e viu por uma fresta o mesmo azar sucedendo com Isabela. Quando, com dificuldade, girou os olhos para cima, com eles a ponto de saltar para fora de seus orifícios naturais, Raul viu as pontas afiadas das raízes. Elas desceram rápido e no instante seguinte só havia silêncio absoluto e escuridão.

 

******

 

Ignácio apontava a direção. O piloto, sem os instrumentos de navegação operando na normalidade, somando o estresse da situação, não tinha a menor ideia de localização. Os olhos dotados do vampiro tinham mais sorte e também traziam mais agonia. Ignácio via os guardiões de Jó ao pé da escadaria e nessa nova aproximação não conseguia mais ver seu time. O branco do sobretudo de Isabela chamou-lhe a atenção, bem como a meia dúzia de estacas no peito da vampira e sua fatal imobilidade.

— Inferno! Inferno! Eles não estão conseguindo! Gire a nave outra vez. Preciso ter certeza de que algum deles entrou. Mantenha esse helicóptero distante daqueles pontos luminosos.

— Eles podem voar, senhor Ignácio?

— Não. Não que eu saiba.

— Isso me alivia.

— A mim também.

— Não poderemos ficar muito mais tempo aqui.

— Como?

— Veja. Não sei se o instrumento que marca combustível está funcionando. Não temos muito mais tempo de voo.

— Dê outra volta. Preciso achar meus sequazes.

 

******

Foi de repente que aquele cheiro infestou suas fuças, vencendo o odor forte das folhas em decomposição. Era o cheiro de sangue. Muito sangue humano. Tanto e tão fresco que sua barriga roncou. O lobisomem ganhou rumo. Como se acendessem uma lanterna, como se lhe dessem um guia. Apesar de dotado da forma lupina, alguns instintos e pensamentos lógicos lampejavam vez e outra. O cheiro de sangue fresco não batia com o que procurava. Procurava um cadáver com mais de quinhentos anos. Um morto ressequido. Aquele cheiro era de sangue novo. Sangue quase vivo. Hélio continuou seu galope urgente, descendo por fendas e buracos, arrastando o corpo e puxando com as patas. Cada vez mais fundo naquele templo de rochas que pareciam vivas. Cada vez mais escuro e mais frio. O cheiro do sangue enlouquecendo-o. As patas deslizaram no húmus e afundaram em uma espécie de lama, seu corpo pesado começou a descer em velocidade e o lobo percebeu estar num duto de pedra escorregadia, limosa, e cheia daquela vegetação rasteira morta. Tentou abocanhar as raízes que iam ficando mais grossas conforme afundava. Então sentiu seu corpo no ar, solto, caindo. Tombou numa câmara nova. Sangue. O sangue estava ali. Rosnou. Hélio viu dúzias de corpos. Perto dele um velho degolado, com terno claro, bengala na mão, óculos trincados. Capacetes de trabalhadores por toda parte. Um homem sem sangue algum, com algemas penduradas na cinta, uma carteira de delegado ao seu lado. Uniformes com um símbolo SML. Corpos amontoados, alguns nus, outros ainda vestidos. Alguns mortos há poucas horas, outros, mortos a mais tempo, com cheiro da podridão começando a exalar de seus orifícios, de seus olhos, suas peles se liquefazendo. O lobo tinha a respiração agitada. Colocou-se sobre duas patas e uivou a pleno pulmões para ser ouvido por seus companheiros. Era o sinal de que tinha encontrado a tumba. Era o sinal para que viessem em seu socorro. O lobo, com os olhos vermelhos e brilhantes olhando para cima, para o duto de pedra que terminava naquela câmera, não ouviu resposta. Não ouviu nada nem sentiu nada. Arreganhou a boca deixando as presas descomunais expostas e rosnou feroz. Não eram seus amigos que vinham pelo duto de pedra. Hélio soube. Eles estavam mortos e agora era sua vez de lutar. Seus parceiros tinham sido batidos. Devoraria os ossos de Jó. Era essa sua missão. Então, num átimo, raízes grossas desceram do duto e cravaram-se em seu peito, enquanto outras surgiram da terra e prenderam seus pés. Mais duas deram conta de suas patas dianteiras e estas ricochetearam com tanta violência que os braços do lobisomem foram arrancadas, tirando dele também um uivo de dor. Hélio, o último soldado do grupo de Ignácio, desmoronou, abatido.

 

******

 

O helicóptero completou a volta e estava bem acima da Estrada da Lua, aproximado-se lentamente do templo do Deus Noite.

Ignácio pediu que o piloto pairasse, imóvel, naquele ponto, por um instante.

— Consegue ver? - Perguntou Ignácio, apontando para a escadaria do templo.

O piloto só via os sete clarões vermelhos como fogo, andando num promontório, numa elevação. Ligou os holofotes e os direcionou para lá. Então seus olhos se arregalaram. Os clarões eram criaturas vivas que se moviam e brilhavam daquele jeito.

— Seu Ignácio?! O que é isso?

Ignácio, vendo os guardiões perfilarem os corpos de Raul, Aléxia, Isabela e o lobo desmembrado nas escadarias do templo, demorou para responder e, quando o fez, não trouxe tanto alívio ao piloto.

— São os guardiões de Jó. Eles conseguiram novamente. Destruíram meu exército. Fui derrotado.

— Pelo amor de Deus, seu Ignácio... Podemos ir embora agora?

Ignácio suspirou, carregado de pesar. Não desceria ao templo. Não encararia o velho inimigo sozinho. Nem mesmo se atreveria a lutar contra os guardiões. Aquela batalha tinha acabado e estava perdida. Ao menos restava a certeza de que os guardiões estavam alertas e continuavam tão poderosos como nunca. Se ele não tinha conseguido penetrar o templo do Deus Noite, ninguém conseguiria, nem o exército nem Patrícia e os novatos.

— Dê meia-volta. Não nos resta nada a fazer aqui.

O piloto puxou o manche suavemente e o helicóptero deslizou para o lado, embicou para o sul e acelerou, distanciando-se do templo inca.

Ignácio enfrentava uma tormenta nunca vista em sua mente. Seu eu, sua psique, parecia um pequeno bote, lançado nas vagas, sopradas por ventos intermináveis, tentando afundá-lo no mar de noite escura. Quando o pequeno bote subia, ele sentia-se feliz por estar deixando para trás o templo do Deus Noite, de não ter despertado Jó, de não ter caído nas garras de seus guardiões e continuar como um fantoche a perambular pelos dias e noites lançados pelas mãos de Eón. Quando o bote afundava, sentia-se desesperado. Jó ainda existia. Jó ainda estava escondido naquele ninho de rochas. Seria um recife contra o qual mais cedo ou mais tarde o casco do seu pequeno e frágil bote se arrebentaria em mil pedaços. Não podia vencê-lo. Seria um fantasma eterno. Mesmo vivendo mais dois mil e cem anos, viveria à margem, com as palavras do insolente novato martelando em sua cabeça. Um vampiro morto.

Foi despertado de seus pensamentos metafóricos por uma voz conhecida. Ela não chegava pelo rádio. Ela não vinha de fora da nave. Era uma voz, melodiosa, cheia de vida, vinda dali, de dentro do helicóptero. Havia, na parte de trás da nave, um ocupante clandestino. Ignácio tremeu da cabeça aos pés. Enquanto virava-se para olhar para trás, o piloto também gritou.

— Veja aquilo, senhor!

Esferas de luz, em alta velocidade, aproximavam-se, não vinham exatamente em direção ao helicóptero. Passaram perto. Uma violácea, outra verde clara, mais tantas cores, parecendo discos voadores.

— Meu Deus do Céu! - Gritou o piloto.

Ignácio tremia. Jamais tremia. Aquela visão assombrosa dos guarda-costas do vampiro Samuel, somada à impressão daquela voz vívida na traseira do helicóptero, rompeu o último fio de controle em seu comportamento. Os anjos dariam cobertura para que Patrícia e os demais se aproximassem de Jó. Não conseguiriam passar pelos sentinelas. Os guardiões tinham a força de toda a mata em redor do templo. Mas a voz soou novamente. A voz disse:

— Eles vão passar, velho amigo. Eles vão passar.

Os olhos do vampiro se arregalaram. Ignácio manteve a cabeça baixa e agarrou o batente divisor entre a cabine e a ala de cargas belamente transformada, tentando inutilmente controlar o tremor e horror que consumiam seu corpo e sua mente. Ignácio ergueu lentamente a cabeça. Não conteve o queixo que caiu e escancarou a boca, dando ao rosto do pálido vampiro a caricatura de uma máscara de terror.

— Demorou muito tempo para que este dia chegasse, velho Ignácio. Não morra agora, devorado pelo espanto. Há tanto para você ver. Há tanto para você pagar e sofrer.

O passageiro, envolto na escuridão do fundo da aeronave, abriu um sorriso dócil e inofensivo.

Ignácio tombou para a frente, desmaiado, vítima do medo extremo.

Jó fechou os olhos e o helicóptero foi consumido por um globo de fogo, explodindo sobre a floresta, deixando um rastro de destruição e morte.