O Turno da Noite: O Livro de Jó (Volume 3)
Capítulo 94
A garoa continuava caindo do céu cinza. Dimitri não era afeito a rituais, mas era o único amigo presente ao enterro de Tobia. Não deixaria o sujeito descer ao solo sagrado sem que ao menos uma testemunha de sua ida estivesse ali, presente, até o fim. Quando finalmente os coveiros começaram a jogar pás de terra sobre o esquife luxuoso, Dimitri deu as costas e cruzou o cemitério. Em questão de minutos estava dentro de um Landau branco. O novo Comodoro, blindado, já tinha sido encomendado. Por enquanto dirigiria aquela barca beberrona até que a nova máquina estivesse preparada. Daria um tempo nessa história de vampiros. Tinha que cuidar de sua vida e sua carreira de assassino de aluguel. Voltar a contatar seu chefe, o Sofia, e avisar que estava de volta na área, pronto para qualquer treta que surgisse pela frente.
Quando o Landau branco parou, não estava em frente ao escritório do Sofia. Estava em frente ao condomínio luxuoso de Tobia. Dimitri não teve problemas para chegar ao apartamento do homem que não existia mais. Ficou pensando um instante sobre aquilo. Logo ele, o senhor Matador, o ceifador de tantas vidas, estava refletindo sobre a nossa ridícula existência. Quando se deu conta estava sentado à mesa do escritório de Tobia. Tinha feito uma promessa ao amigo. Uma promessa de continuar seu trabalho. De nunca esquecer o mal vampírico.
Dimitri abriu uma das gavetas em busca de documentos de Tobia que levaria para Sofia, o mafioso de Osasco que move seus pauzinhos para permitir que ele opere parte dos recursos da fortuna do empresário, na eventual continuidade da operação. Foi durante essa busca que Dimitri encontrou aquele envelope timbrado com o nome de um renomado laboratório; junto com os dados contidos no documento, a lembrança de Tobia dizendo que de um jeito ou de outro sua linhagem de caçadores de vampiros continuaria existindo.
No final da tarde, Dimitri adentrou uma academia de artes marciais de Osasco. Ali treinavam gratuitamente pessoas de toda a cidade, desde a periferia até a classe média. Sentou-se calado na plateia de madeira montada em frente a um grande tatame. Uma turma de alunas de tae kwon do estava correndo ao redor do chão acolchoado, aquecendo-se para a aula. Dimitri fixou o olhar em uma delas. Um rosto familiar, mas não lembrava onde tinha conhecido a garota. Ela era morena, da cor de chocolate, com um corpo definido, bastante alta, chamando a atenção. Os ombros largos e musculatura firme deixava claro que não era uma esportista de final de semana. Dimitri desviou o olhar quando Aragão sentou-se ao seu lado na arquibancada, com uma toalha jogada nos ombros. Aragão era o zelador do prédio de esportes da prefeitura.
— Pô, cara, fazia um tempão que não te via por aqui, Dimitrão.
Dimitri cumprimentou o conhecido com um aperto firme de mão. Aragão não estranhou o homem estar usando luvas de couro. Só não gostava muito daquilo. Sabia que quando Dimitri estava completamente vestido, era porque estava a trabalho e não podia deixar vestígios para trás. Notou que o funcionário de Sofia acompanhava Rebeca com os olhos.
— Veio ver a campeã olímpica?
Dimitri arqueou as sobrancelhas.
— Não sabia que Osasco tinha uma campeã olímpica de tae kwon do.
— E não tem - respondeu o baixinho, tirando a toalha dos ombros. -Esse trem de tae kwon do é novidade pra Rebeca.
Quando ouviu o nome, a ficha caiu. Rebeca tinha ficado famosa em Osasco e mundo afora na modalidade de ginástica olímpica, como outras tantas garotas de sua idade, impulsionadas pela admiração à ginasta Daiane dos Santos. Rebeca matriculou-se na ginástica olímpica, demonstrando imenso talento e tornando-se uma grande competidora, chegando a ganhar a medalha olímpica nas barras paralelas. Casou-se cedo, apaixonada por outro atleta, e foi do céu ao inferno em menos de um ano. Primeiro uma acusação de doping pesou em suas costas largas e talhadas pelo exercício. O COI acabou tirando a medalha da ginasta, mesmo comprovando que Rebeca não tinha sido responsável pela droga moderna encontrada em seu sangue e sim que a bula estava incompleta e o elemento existente na relação de drogas proibidas pela Federação Brasileira de Ginástica Olímpica. Para piorar, o casal de ginastas separou-se depois de a jovem Rebeca ter uma crise de ciúmes no meio de um campeonato brasileiro e abandonar a prova, sendo punida com uma longa suspensão. Afogando-se na depressão, a jovem viciou-se em crack e sua queda culminou com a prisão por porte ilegal de armas e drogas, terminando trancada atrás das grades por três anos. O nome de Rebeca desapareceu das páginas de esportes dos jornais, também das chamadas em televisão, e nunca mais conseguiu patrocinadores para sua carreira de atleta, vivendo um verdadeiro inferno. Agora Aragão explicava que a jovem seria uma promessa no tae kwon do, modalidade também olímpica a que tinha se entregado com verdadeira obsessão. Aragão ainda disse que infelizmente não acreditava que ela conseguisse chegar lá, a disputas grandiosas novamente. Rebeca carregava muitos estigmas. Passional, violenta, ex-presidiária, viciada em drogas e o doping. Essas “medalhas” pesavam muito no pescoço de qualquer atleta que almejasse uma carreira séria.
Dimitri agradeceu a explanação e deixou o ginásio.
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O crepúsculo dava os primeiros sinais de sua chegada quando as garotas deixaram a academia pública. Rebeca seguia solitária pela rua, subindo em direção à Vila Yara. Estava absorta em pensamentos ligados ao passado, aos dias sombrios atrás das grades. Dentro do ginásio, no tatame, esquecia de tudo. Lá não era uma ex-presidiária. Era só outra menina exercitando-se e treinando. O esporte tinha o dom mágico de afastá-la da realidade. Contudo, afundava tão rápido quando o passado a apanhava do lado de fora da academia, que não suportava o peso esmagador das lembranças. Com a respiração acelerada e uma opressão irracional roendo sua alma, sentou-se combalida num banco de praça e antes que entendesse o porquê estava vertendo lágrimas e soluçando. Rebeca queria mais uma chance. Uma chance para si mesma. Uma chance de mostrar para ela mesma que era capaz de construir e ser algo grande. Ela não era aquilo que lia nos recortes dos jornais guardados para servir de flagelo pessoal. Ela era uma garota, uma mulher de carne e osso que tinha tropeçado por culpa do coração, das flutuações do hormônio e armadilhas que os mais desatentos acabavam trombando e caindo no decorrer da vida.
Quando o carro branco parou, ela não levantou o rosto e continuou o choro até que um homem grande de sobretudo negro e touca na cabeça parou à sua frente. Rebeca ergueu os olhos e secou as lágrimas. Se o engraçadinho levantasse um dedo, receberia um chute tão forte nas bolas que ficaria sem voz por uma semana.
Dimitri suspirou.
— Escute, garota, eu conheço muita gente que passa pela barra que você passou e todo mundo, no fim das contas, quer só uma coisa.
Rebeca estranhamente manteve-se muda. O homem estava falando diretamente ao seu coração.
— O que todo mundo busca quando sai das drogas e da prisão é ter uma nova chance. Uma nova chance de viver decentemente.
— Me diga algo que não sei - falou a garota, secando novamente as lágrimas.
— Você está longe das drogas?
Rebeca bufou. Noventa por cento das pessoas com quem conversava ultimamente fazia essa mesma pergunta na primeira oportunidade.
— Dá pra notar tanto assim que já fui uma louca varrida?
— Hum. Não quero saber se já foi uma louca varrida, desde que o verbo continue no passado. Só perguntei uma vez e você só precisa responder uma vez.
— Para quê?
— Quer uma segunda chance de recomeçar com o pé direito ou não garota? Você escolhe.
Rebeca balançou a cabeça positivamente.
Em menos de um minuto, Dimitri e Rebeca estavam rodando pelas ruas de Osasco dentro do Landau branco, de vidros filmados erguidos, em baixa velocidade, com o misterioso homem explicando os detalhes e condições dessa segunda chance. Rebeca ouvia atentamente cada palavra. Não estranhou nenhuma vez as menções aos infectos e lobisomens. Tudo o que queria entender é como se encaixaria naquele cenário e quanto iria lhe custar essa segunda chance. Segundas chances nem sempre caíam do céu, mas podiam muito bem passear por aí em carruagens brancas como aquela em que estava. Quem era ela para prejulgar as pessoas? Rebeca foi só ouvidos a princípio e, quando abriu a boca, foi para dizer sim. Não iria tentar. Iria fazer exatamente o que o homem estava lhe sugerindo.