O Turno da Noite: O Livro de Jó (Volume 3)
Capítulo 54
Padre Moscado acordou com o grito da mulher. Levantou correndo, colocando calças de moletom e camiseta e desceu descalço as escadas de sua casa paroquial. Tinha gente se juntando na frente da igreja para acudir dona Verônica. Nem era hora de missa nem atividade comunitária. Padre Moscado continuou correndo. Aos quarenta anos seu físico ainda era de fazer inveja a muito garoto de vinte. Chegou até a frente da paróquia sem estar com a goela para fora nem suor brotando na testa. Olhou para dona Verônica, caída, com a cabeça apoiada na perna de Tião da Agulha. Ela gemia e tremia. O burburinho entre os presentes não cessou com a chegada do padre e Moscado só se deu conta do cenário geral quando um garoto engraxate que atendia na rodoviária de Roda Velha lhe puxou a mão.
— Óia, padre.
— O quê, piá?
— Óia.
O padre olhou. As pessoas se afastaram. Um rapaz ainda bem jovem, com a mão costurada ao braço, estava morto, naturalmente caído sobre o chão de cimento, com os olhos fechados, imóvel e pálido como os defuntos tinham de ser. Moscado não teve reação imediata. Ficou olhando o rapaz, para depois abaixar-se colocando um joelho ao lado e benzer o defunto.
— Piá, corre até o delegado Faria. Diz que eu tô chamando.
O menino disparou que nem bala. A delegacia ficava a duas quadras apenas e não tardou para o delegado surgir nas escadarias da paróquia trazendo perguntas.
— O senhor conhece esse rapaz, padre?
— Nunca vi por aqui, não. Já perguntei pro pessoal, nada. Ninguém conhece.
O delegado agachou-se ao lado do cadáver, tirou uma caneta do bolso e com ela espetou o braço do garoto na altura do corte no pulso. A pele estava enrijecida e não havia mais sangramento. Podia colocar mais de oito horas para a hora da morte. Virou um pouco o quadril do aparecido e tirou uma carteira fina do bolso da calça. Delegado Faria abriu a pequena peça sem cerimônia. Certamente o defunto não ficaria mais vexado com qualquer intrusão, por mais esdrúxula que fosse. Olhou a identidade militar. Era um soldado. Faria coçou o queixo. Olhou mais atentamente para o rosto do rapaz, depois do outro lado. Além de bater com a fotografia da identidade, o delegado encontrou outra coisa ao lembrar do fax recebido dias antes por parte do Exército. Aquele rapaz tinha o sinal suspeito que falavam no tal do documento. Perfurações no pescoço. Um par. Faria levantou e mostrou a identidade para o padre.
— Um soldado - balbuciou o homem da igreja. - Diego Souza. Vinte anos. Deus, como era novo.
— Vou ligar para o Exército. Aí tá escrito que ele é do Serviço de Contenção. Não dou até o meio-dia para esse menino estar numa geladeira verde-oliva. Se quiser rezar pela alma dele, vai rezando, padre, mas não tire ele daí.
— Bá, mas que barbaridade.
— Não tira ele daí, padre. Não quero os milicos enchendo o saco. Já vão fazer perguntas o suficiente. Quem encontrou o defunto?
Nesse instante, dona Verônica, semi-recomposta, levantou o dedo. A mulher, ainda gemendo, sentou-se, saindo do colo do prestativo Tião da Agulha.
— Fui eu, delegado. Eu que achei. O guri devia estar aí desde a madrugada. Ninguém viu antes porque o pobrezinho tá bem encostado na porta da igreja. A escadaria tampa a visão da gente.
— Podem ter achado que ele era o Zelão da Rodoviária que dorme na porta de todo mundo - interferiu o pequeno engraxate.
— Pode ser - concordou o delegado. - Bem, mas não há mais nada para fazer por esse aí, já passou dessa pra melhor.
Dona Verônica benzeu-se.
O padre Moscado entrou na igreja e não demorou para voltar com um longo pano branco que resguardou o defunto.
— Bem, vamos cuidar da vida pessoal. Ninguém aglomera aqui, por favor senão isso vira um circo - sentenciou Faria.
O delegado bateu palmas, afugentando os curiosos.
— Cuida um pouco dele, padre. Tomarei as providências cabíveis.
Padre Moscado disse que cuidava de pronto. Não ia enjeitar o rapaz em sua paróquia só porque estava morto. Era nessas horas que as pobres almas mais precisavam dos préstimos de um bom padre. Rezaria uma missa em seu nome, pedindo descanso para sua alma. Daria toda a assistência necessária ao defunto. Era só o tempo de mais alguém ficar de olho no garoto para tirar aquela roupa de dormir e se colocar dignamente para celebrar a cerimônia do meio-dia. Até lá o corpo deveria estar liberado da frente da igreja. Não que fosse o pior lugar de Roda Velha, mas certamente não era um bom local para um perdido descansar.