Os Demônios Descem do Norte

Delcio Monteiro de Lima · Capítulo 2 de 4 · parte 2/2

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Os Demônios Descem do Norte

Capítulo III

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Ainda sobre a Igreja Católica. um jovem pastor da Assembléia de Deus do Recife observou maliciosamente para o repórter: "Se mantivermos as altas taxas de crescimento registradas pela nossa Igreja desde o início do movimento pentecostal entre nós. chegará breve o dia em que ninguém mais dirá que o Brasil é o maior país católico do mundo. Aliás. adotando um expediente para a aceitação dessa verdade de forma menos traumática. os católicos têm exagerado nos últimos anos a importância do seu movimento carismático, o qual, na essência, não passa de um arremedo da experiência pentecostal forjada nos Estados Unidos." A expansão da Assembléia de Deus parece, de fato, inspirada na consecução da expectativa triunfalista aludida pelo jovem pastor do Recife.

 

DONS E CARISMAS

 

O otimismo do pastor da Assembléia de Deus é aceitável por razões perfeitamente compreensíveis e que dispensam maior discussão. Todo crente, afinal, considera a sua única verdadeira e triunfante igreja sobre as demais. Mas a realidade é que a Igreja Católica não tem superestimado a sua corrente carismática. Ao contrário, é exageradamente cautelosa em valorizá-Ia. Nada além da exata medida do seu significado em termos de reforço das novas perspectivas que se abrem para o catolicismo. Muito menos procura identificá-Io com o pentecostalismo, sendo também excessivamente rigorosa em chamar a atenção para as diferenças que caracterizam e distinguem os dois movimentos.

A Renovação Carismática Católica (RCC) surgiu em 1967, a partir dos estudos da obra “A Cruz e o Punhal" pelos professores e jovens estudantes católicos da Universidade de Duquesne, pequena cidade nos arredores de Pittsburgh, nos Estados Unidos. Seu precursor foi o Papa João XXIII, que compôs uma oração de louvor ao Espírito Santo como preparação espiritual da Igreja para os trabalhos do Concílio Vaticano II. A palavra definitiva de aprovação do movimento veio, entretanto, em outubro de 1973, em Grottaferrata, perto de Roma, quando os participantes do I Congresso de Líderes da Renovação Carismática, àquela altura reunindo 34 países, ouviram do Papa Paulo VI as seguintes palavras:

"Estamos sumamente interessados no que estais fazendo. Ouvimos falar muito sobre o que acontece entre vós e nos regozijamos. Alegramo-nos convosco, queridos amigos, pela renovação de vida espiritual que hoje em dia se manifesta na Igreja, sob diferentes formas e em diferentes ambientes." Depois, o Papa João Paulo II, dirigindo-se aos líderes do IV Congresso Internacional da Renovação Carismática que foram recebidos em audiência especial nos jardins do Vaticano, endossou:

"Sinto-me verdadeiramente feliz em ter esta oportunidade para falar-vos de coração aberto, a vós que viestes de todo o mundo para participar desta conferência estabelecida para assistir-vos no cumprimento de vossa tarefa como dirigentes da Renovação Carismática. De modo especial, quero assinalar a necessidade de enriquecer e tomar realidade essa visão eclesial que é tão essencial para a Renovação, nesta etapa de seu desenvolvimento." Kharisma, em grego, significa graça, dom gratuito. Carismático, portanto, é a pessoa que possui carismas. No Novo Testamento, o vocábulo é largamente empregado em toda a narrativa para designar os ungidos do Senhor, aqueles que usufruiriam a vida eterna por força do dom da graça de Deus. Em sentido estrito, é um dom atribuído aos Apóstolos, como manifestação da presença do Espírito Santo. Nos tempos modernos, chamam-se carismáticos a certos movimentos da renovação espiritual baseados na oração em conjunto, na experiência do "batismo no Espírito Santo" e determinados carismas, especialmente a glossolalia ou dom das línguas. Tais movimentos registraram-se tanto nas igrejas tradicionais como nos grupos religiosos autônomos ou seitas, sendo este o motivo das inúmeras denominações surgidas. Decidiu-se. na Igreja Romana, chamá-Io Renovação Carismática Católica, embora houvesse nos Estados Unidos uma tendência que preferia a expressão "pentecostalismo católico". Mas, não prevaleceu. A Renovação Carismática Católica não é um movimento autônomo ou uma pastoral. Segundo seus participantes, é um sopro do Espírito Santo que pretende reavivar e fortalecer a Igreja Católica em todos os seus membros e estruturas, santificando-os com seus frutos e animando-os com seus carismas. Caracteriza-se pela valorização da oração individual e comunitária nas formas mais variadas, buscando uma vida nova, um novo Pentecostes. Sob a ação do Espírito Santo, as pessoas experimentariam libertação, alegria, segurança, cresceriam no amor ao próximo, na vivência comunitária, aprenderiam a discernir a vontade de Deus e permaneceriam em comunicação com a Hierarquia. A Renovação Carismática realiza uma forma de evangelização e de aprofundamento doutrinal, através da meditação e do estudo pessoal da Sagrada Escritura e outras leituras de orientação católica. Embora não tenha como objetivo principal uma intenção missionária, isto é, de conquistar pessoas não-cristãs ou afastadas da Igreja, os grupos de oração do movimento são abertos a todos. São, portanto, grupos de fronteira. Neles aparecem não-engajados e mesmo não-praticantes, os quais são possíveis de uma eventual conversão. A Renovação Carismática Católica abrange hoje cerca de 130 países, inclusive do Leste europeu, como Iugoslávia e Polônia. Chegou ao Brasil em 1972, trazido por padres jesuítas e espalhou-se logo por vários Estados, contando com mais de um milhão de adeptos, homens e mulheres, entre os quais quase mil sacerdotes e vários bispos. Só no VIII Cenáculo, em maio de 1986, conseguiu concentrar 85 mil pessoas no estádio do Pacaembu, em São Paulo. A direção mundial da RCC é o "International Catholic Charismatic Renewal Office (ICCRO), que funciona em Roma. À nível de América Latina, existe um escritório em Bogotá, Colômbia, e no Brasil uma Comissão Nacional de 15 membros, em Brasília, coordena as equipes regionais. Designados pela CNBB, dois bispos cuidam do acompanhamento espiritual dos carismáticos brasileiros: Dom David Picão, bispo de Santos, e Dom Victor Tielbeek, bispo de Formosa (Goiás). Em muitas cidades existem equipes de serviço da Renovação Carismática Católica, cuja incumbência é animar e acompanhar as tarefas dos grupos de oração e promover encontros no âmbito diocesano, geralmente assistidas por um sacerdote designado pelo titular local.

O movimento carismático católico apresenta-se muito difundido entre nós ultimamente, principalmente pela força do rádio e da televisão. Para tanto, trabalha febrilmente um estúdio de produção de cassetes e vídeo-tapes em Cachoeira Paulista, São Paulo, responsável pela manutenção dos programas levados ao ar. Na mesma cidade, funciona também uma emissora de rádio de propriedade de uma fundação ligada à Renovação Carismática Católica. Em Eindhoven (Holanda) e Dallas (Estados Unidos), centros especializados preparam jovens do Brasil, Colômbia e México para a utilização dos meios de comunicação no trabalho missionário. Na área de imprensa, publica a revista “Jesus Vive e é o Senhor" e o "Boletim Nacional". Algumas cidades, como São Paulo, Belo Horizonte e Brasília, editam ainda seus boletins noticiosos.

O trabalho de envolvimento promovido pela Renovação Carismática Católica é extraordinário, tanto na adesão de novos adeptos, quanto em maturidade e engajamento eclesial. Grupos de oração são organizados em todas as regiões do Brasil, com centenas de milhares de pessoas comprometidas, notadamente sacerdotes e religiosos, através de freqüência a seminários e retiros específicos estabelecidos em vários pontos do País. Por outro lado, o movimento desenvolve um grande esforço para inserir-se no contexto global da Igreja, com a participação, por exemplo, em diversas pastorais, como as da Saúde, Catequese, Universitária e Penal. e em grupos paroquiais que organizam encontros de casais e de jovens.

 

COMPLICAÇÕES À VISTA

 

A Renovação Carismática. do ponto de vista teológico. nada modifica ou acrescenta ao catolicismo nos termos em que é conhecida. Reforça, entretanto, a consciência da experiência religiosa da Igreja, revitalizando seus fundamentos doutrinários. De outra parte, incorporando algumas formulações em voga fora da Igreja Romana, não aceita, contudo, o conteúdo teológico usual na cultura do pentecostalismo clássico ou do neo-pentecostalismo protestante, especialmente o fundamentalismo, tanto bíblico como doutrinal. Nesse particular, há que se levar em conta que aqueles movimentos são anteriores à Renovação Católica, o que não significa que esta seja necessariamente um produto de importação protestante.

Não obstante os movimentos carismáticos protestantes tenham aparecido algum tempo antes do católico, a fundamentação dos mesmos não é diferente da tradição do catolicismo, centrada no Novo Testamento e no cotidiano da Igreja primitiva, comum, portanto, a todas as correntes do cristianismo. A Igreja Católica reconhece, pois, como legítima a contribuição que pentecostais clássicos e neo-pentecostais protestantes trouxeram ao movimento carismático, considerando-a autêntica no contexto da doutrina. A Renovação Carismática, ainda, não é o primeiro nem o único movimento revitalizador ocorrido na história da Igreja Romana, ciclicamente sacudida por impulsos de reanimação. As divergências doutrinárias entre a Renovação Carismática Católica e os diversos grupos pentecostais estão situadas, antes, nos antagonismos existentes entre a Igreja Católica e tais grupos. São discordâncias profundas e envolvem aspectos delicados de questões fundamentais para aqueles credos, sem a mínima possibilidade de superação com a facilidade desejada. Para imaginar o grau de dificuldades, basta dizer que foram irrisórios os progressos registrados até hoje nas conversações iniciadas em 1969 entre o Secretariado para a Unidade dos Cristãos da Igreja Católica, de um lado, e dirigentes de algumas igrejas pentecostais e membros do movimento carismático em igrejas protestantes e anglicanas, de outro. Desde aquele ano, com efeito, já foram feitas, pela ordem, diversas rodadas de conversações em Horgen (Suíça), Roma, Schloss Graheim (Alemanha), Veneza e, novamente, Roma. todas com resultados pouco animadores. Logo nas primeiras reuniões, a Igreja Católica, sábia e prudentemente, excluiu do debate qualquer consideração de ordem pastoral conseqüente do seu relacionamento com o movimento carismático católico. Se houvesse, estaria adiada. Quando muito, admitia sua abordagem como contribuição ao esclarecimento das mesmas relações, mas nunca como objeto de deliberação. Era uma tentativa política de permitir o avanço da discussão de outras questões mais transcendentais. Mesmo assim, pouco valeu, porque a sustentação pelos católicos da fé em princípios que professam durante 19 séculos manteve as dissensões com seus interlocutores, igualmente radicalizados na defesa de suas crenças. O “batismo no Espírito Santo", por exemplo, foi longamente discutido, sem qualquer acordo. Enquanto representantes do movimento carismático nas igrejas protestantes históricas mostraram-se substancialmente favoráveis à perspectiva católica, outros ficaram com a visão pentecostal clássica.

Aquele e outros descompassos foram multiplicados na medida do aparecimento do interesse pela explicitação dos dons, tão relevantes para os carismáticos, como o das línguas, no qual elementos divinos e humanos combinam-se misteriosamente em sua manifestação ou exteriorização. No caso, diríamos que os carismáticos de todas as tendências não divergem, entendendo o dom das línguas como uma oração de glorificação a Deus, individual ou coletiva, feita em linguagem desconhecida, nunca estudada e nunca ouvida, através de palavras que não expressam um pensamento formulado pela mente. Orar em línguas não quer dizer que a pessoa fique em transe, sem controle de suas faculdades mentais. Isso não acontece. O crente pode interromper ou iniciar a oração de acordo com sua vontade, apenas empregando uma linguagem desconhecida. Geralmente são utilizadas línguas mortas, orientais na sua maioria, como o aramaico e o hebraico antigo, sendo que os ocidentais, via de regra, recebem o dom de falar línguas asiáticas e dialetos do Extremo Oriente. A pessoa recebe o dom das línguas durante a oração ou no curso de ocupações habituais, ou mesmo em meio ao sono, portanto, de forma imprevisível. Mas também pode perdê-Io da mesma maneira, como se esquece qualquer idioma aprendido por falta de uso, embora o privilégio tenha sempre caráter permanente.

A propósito, nota-se entre algumas correntes carismáticas, especialmente a Renovação Católica, a tendência para superestimar o dom das línguas e, mesmo, acreditar que o objetivo principal do movimento seja levar as pessoas àquele tipo de experiência. É um exagero, cuja prática se tem procurado corrigir, pois sua prevalência conduziria inevitavelmente a uma certa forma de subestimação de toda a gama de carismas, onde iremos encontrar vários outros dons, como o da interpretação das palavras, da profecia, da cura, do milagre, da fé, do discernimento dos espíritos, da sabedoria e da ciência, os quais, juntamente com o dom das línguas, formam o conjunto de atributos do Espírito Santo a que se refere a Carta de São Paulo aos coríntios. A fidelidade à doutrina da Igreja Católica e a obediência à hierarquia não são suficientes para assegurar à Renovação Carismática uma imunidade à oposição e às críticas de alguns segmentos do meio católico. O setor que se convencionou chamar de progressista aponta-a como co-responsável pela atmosfera de obstáculos que se levantam às conquistas sociais do povo de Deus. Os teólogos da Libertação, particularmente, acham que ela representa um anacronismo, verdadeiro retrocesso na trajetória histórica da Igreja Católica. Chamam-na de alienante. A Renovação Carismática conta naturalmente com boa cobertura de retaguarda da Igreja conservadora que, como ela, acredita que o certo é a dedicação exclusiva dos misteres espirituais, contra a secularização. Como os pentecostais, os carismáticos católicos consideram a indiferença, ou melhor, a apatia política, perfeitamente compatível com uma postura religiosa correta. O padre Caetano Tillesse, teólogo carismático de Fortaleza, vai mais longe, afirmando que "a Teologia da Libertação é uma opção política pelos pobres como classe e não pelos pobres como tais", e acusa:

"A Teologia da Libertação mostra que se deve libertar de um sistema opressivo para outro sistema também opressivo. Na verdade, quase todos os teólogos da Libertação vêm de Louvaine, na Bélgica, e são de influência marxista." Não é improvável que, no futuro, apareçam, na Igreja Católica, maiores resistências à Renovação Carismática, exatamente à medida em que esta alargue sua órbita de ação e as idéias progressistas, por outro lado, ganhem mais consistência nos círculos católicos, bem como cresçam os partidários da Teologia da Libertação. Aí, as radicalizações ficarão certamente mais perigosas.

 

PORTA-VOZ DO PAPA

 

Existem, naturalmente, outras barreiras ou pólos de contenção aos avanços da corrente progressista dentro da Igreja Católica. Não era de se admirar, por exemplo, que um dos primeiros decretos do Papa João Paulo II, ao assumir o pontificado, fosse sobre a aprovação dos estatutos de um movimento de centro-direita, ao qual concedeu a condição de Fraternidade, instituto secular com status quase de ordem religiosa. Quando bispo de Cracóvia, o então cardeal Woityla, juntamente com o falecido cardeal Wysznski, bispo de Varsóvia, ajudou a instalá-Io na Polônia. Não era, pois, de se estranhar que, assentando no trono de São Pedro. João Paulo 11 lhe desse o máximo de prestígio e o transformasse, inclusive, no mais fiel intérprete do pensamento da Santa Sé. Foi o que aconteceu ao “Comunhão e Libertação", virtual porta-voz do Vaticano em assuntos políticos, em cuja comemoração do trigésimo ano de existência, Sua Santidade enfatizou: "A vossa presença cada vez mais consistente e significativa, na vida da Igreja na Itália e nas várias nações nas quais a vossa experiência começa a difundir-se, é devida a esta certeza de que deveis aprofundar e comunicar, porque é esta certeza que sensibiliza o homem."

No cenário político italiano, é sabido que Comunhão e Libertação fala a mesma linguagem e esposa as mesmas idéias do Partido Democrata Cristão, ao qual tem ajudado no esforço de arrebatar algumas Prefeituras importantes das mãos dos comunistas. É um concorrente das esquerdas no plano social, com grande influência nos meios de comunicação da Itália. Comunhão e Libertação é oriundo de um movimento estudantil da Ação Católica de Milão. Apareceu a partir do grupo "Gioventú Studentesca" e sempre teve Dom Luigi Giussani como o seu principal inspirador e incentivador. Hoje, está também na Alemanha, Suíça, Espanha, França, Iugoslávia, Luxemburgo, Bélgica, Inglaterra, Irlanda, Polônia, Hungria, Uganda, Quênia, Costa do Marfim, Canadá, Estados Unidos, Peru, Paraguai, Brasil, Chile, Argentina, Líbano, Israel, Japão, Coréia e Nova Zelândia. Dom Luigi Giussani nasceu em Désio, Itália, em 1922, e fez os primeiros estudos em Milão, onde depois foi ordenado sacerdote. Aprofundou-se em Teologia na Faculdade de Venegono. Por volta de 1950, voltou-se para a ativação do movimento destinado a avivar a presença cristã entre os estudantes, embrião do Comunhão e Libertação. Leciona, atualmente, Introdução à Teologia, na Universidade Católica do Sagrado Coração, em Milão, atividade que acumula com a supervisão, a nível mundial, da instituição que fundou. Publicou "Teologia Protestante Americana" e inúmeros ensaios e artigos sobre as motivações racionais da adesão à fé e à Igreja Católica, temas de seus livros "Caminhos da Experiência Cristã" e “Em Busca do Rosto do Homem". “Aquilo que o movimento não é, nem quer ser, é um co-acervo de iniciativas" - destaca Dom Giussani, sintetizando o Comunhão e Libertação. A fundamentação do valor da experiência do movimento - explica - está numa analogia com relação à vida global da Igreja. Seu sentido profundo é chamar a atenção para a memória de Cristo. E dentro dessa finalidade colocam-se a educação à moralidade e o exercício da cultura na perspectiva da fé. A finalidade precípua - repete - é lembrar em nossas vidas que Cristo está presente. Trata-se, portanto, de um apelo a renovar a memória pessoal de Cristo, memória de uma pessoa conhecida e amada, pessoa hoje presente em tudo aquilo que ela é, e que ela fez pelo mundo inteiro e por cada um de nós em particular. Assim, cada qual, através da lembrança desta presença ativa e marcante, tem a possibilidade de viver o movimento que o convida a renovar a memória como uma maravilhosa valorização de tudo aquilo que lhe aconteceu na vida e de tudo aquilo que 'aconteceu no transcorrer da história da humanidade. É a possibilidade de tocar e testar, de relembrar e fazer reviver tudo aquilo que aconteceu, descobrindo a olho nu, nesta história, o plano misericordioso que vale mais do que a vida.

Comunhão e Libertação chegou ao Brasil sustentado financeiramente pela direção italiana do movimento e experimenta boa penetração a nível nacional, atuando de forma intensiva em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Amazonas e Pará. Com o nome" Cultura e Fé" , mantém centros em São Paulo, Belo Horizonte e Manaus, destinados a atividades culturais de jovens e adultos, com prom'Oção de conferências, debates, simpósios, cursos, publicações de revistas, boletins, livros, organização de férias, passeios, espetáculos, eventos e exposições de arte.

O movimento vem organizando, a partir de 1970, as Comunidades Universitárias de Base (CUBs), que desenvolvem grande trabalho no plano social, sobretudo a articulação de mutirões para construção de moradias para as populações faveladas das periferias em terrenos devidamente legalizados, em São Paulo e Belo Horizonte. As CUB’s geralmente são formadas de universitários, os quais, tão logo terminam seus cursos, ingressam automaticamente nas Comunidades de Profissionais Cristãos (CPC’s), permanecendo e dando seqüência, assim, ao seu trabalho no movimento. Também existem as Comunidades de Base das Escolas Secundárias (COBES), primeiro estágio da participação do estudante no serviço comunitário.

O ponto de vista do Vaticano sobre os temas mais polêmicos da atualidade pode ser conhecido com a leitura regular de "30 Giorni" (30 Dias), publicação bimensal em várias línguas, editada na Itália, com o apoio do Comunhão e Libertação. A revista já circula no Brasil, traduzida em português, e, em 1987, passará a ser inteiramente produzida em São Paulo.

Órgão de centro-direita, "30 Giorni" adota uma linha editorial rigorosamente conservadora, já tendo publicado reportagens e artigos de opinião em que deixa claro seu antagonismo à Igreja progressista e à Teologia da Libertação. Combate, igualmente, o fundamentalismo protestante e islâmico, os maçons, o Conselho Mundial de Igrejas, o congregacionalismo religioso americano e as seitas, de modo geral. O diálogo ecumênico é, da mesma forma, tratado com enormes restrições.

 

IV

O ORIGINAL E O BIZARRO

 

Quem corta o bairro do Caxingui pela avenida Professor Francisco Morato, logo depois do Morumbi, a fim de alcançar a rodovia Régis Bittencourt, em São Paulo, tem a atenção forçosamente voltada para um grandioso conjunto arquitetônico que fica à direita. dominado, no primeiro plano, por um templo imponente e de linhas suaves. É uma edificação, segundo projeto americano, apta a suportar abalos sísmicos de até 8 pontos na escala Richter. Atrás, erguem-se vários blocos amplos, prédios destinados a serviços administrativos, centro de treinamento de missionários, unidade de computação e uma igreja de menor porte (capela). Uma imensa área construída numa das zonas supervalorizadas da Capital paulista. São os domínios dos mórmons, ou melhor, da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, nome oficial da seita. Os mórmons são, hoje, cerca de 7 milhões no mundo, estabelecidos em 96 países e 18 colônias, praticamente dobrando o seu número a cada 15 anos. No Brasil, já passam de 300 mil os registros de fiéis batizados e que freqüentam as 287 casas de oração (capelas) existentes. A propósito, os mórmons fazem distinção entre templos e capelas: os primeiros são considerados locais santificados, morada de Deus, não abertos ao público, destinados apenas às ordenanças sagradas, como o selamento para a eternidade (casamento) e o batismo vicário, enquanto as outras são casas de oração no sentido convencional, como as igrejas católicas ou protestantes, onde se permitem reuniões e atividades culturais e filantrópicas do interesse da comunidade. Só existem 46 templos, dos quais 11 nos Estados Unidos, ao passo que são milhares as capelas mórmons em funcionamento em todo o mundo.

A primeira Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias surgiu a 6 de abril de 1830, em Fayette, Seneca, Estado de Nova Iorque, Estados Unidos, organizada por Joseph Smith, fIlho de família de lavradores humildes, nascido em 23 de dezembro de 1805, em Sharon, Vermont. Contou Smith que, aos 15 anos, confuso como todos os adolescentes a respeito das religiões, orava em um bosque perto da fazenda onde morava, em Palmyra, no Estado de Nova Iorque, quando teve a visão de dois personagens celestiais. Eram Deus, o Pai, e Seu Filho, Jesus Cristo. Entre outras advertências, disseram-lhe que não se juntasse a nenhuma das igrejas existentes, porque mais tarde, caso se provasse digno, ser-lhe-ia confiada a missão de fundar a igreja original de Jesus Cristo. Três anos depois, ainda segundo o relato de Joseph Smith, apareceu-lhe um anjo que se identificou por Morôni e que o levou a uma montanha próxima a Palmyra, mostrando-lhe um registro sagrado, gravado em placas de ouro, que continha a história secular e religiosa de uma antiga civilização americana. Só quatro anos após, entretanto, o mesmo Morôni retornou e permitiu-lhe retirar aquelas placas do esconderijo e traduzi-Ias para o inglês, com o auxílio de duas pedras cabalísticas - U rim e Tumim – por ele fornecidas, dando origem ao Livro de Mórmon, nome de um profeta e general que viveu no quarto século d.C., pai de Morôni, que foi o último profeta a possuir as antigas e sagradas escrituras e as escondeu no Monte Cumorah antes de passá-Ias às mãos de Smith.

Traduzidas, as placas de ouro foram devolvidas ao anjo Morôni, que as teria levado para o Reino dos Céus. A obra narra a história de várias civilizações que viveram na América antiga, entre 2.200 A.C. e 420 D.C., contendo, inclusive, um relato sobre a misteriosa presença de Jesus Cristo no continente americano, onde pregava o Evangelho após sua ressurreição. O Livro de Mórmon tem, para a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, autoridade superior à da própria Bíblia, porque esta é questionada e corrigi da em vários pontos à luz do mesmo Livro de Mórmon. "Eliminam-se o Livro de Mórmon e as revelações, e onde estará a nossa religião? Não teremos nenhuma." - ensinou Joseph Smith. A divulgação das fantásticas visões e das manifestações celestiais do profeta desencadearam tenaz perseguição aos mórmons e à sua igreja em Nova Iorque, forçando-os a se mudarem para Kirdand, no Ohio, e depois para o Missouri e Illinois. Em Nauvoo ergueram a maior e mais próspera comunidade daquele Estado e Joseph Smith, prefeito da cidade, com grande fama e popularidade, chegou a candidatar-se e iniciar campanha de âmbito nacional à Presidência da nação. Foi o máximo, em matéria de provocação. Logo foi acusado de diversos crimes. Acabou trancafiado na cadeia de Carthage, Illinois, de onde foi arrancado pela turba enfurecida e linchado em praça pública, juntamente com seu irmão Hyrum, a 27 de junho de 1844.

Morto Smith, Brigham Young assumiu, então, a liderança da seita, conduzindo seus adeptos de Nauvoo até o vale do Grande Lago Salgado. Um ano e meio de viagem por planícies desérticas para vencer as 1.400 milhas que os separavam da nova terra prometida, numa jornada que terminou a 24 de julho de 1847 para o primeiro comboio de colonos mórmons. Trabalharam duramente para construir uma cidade a mais de mil milhas de distância do povoado mais próximo a Leste e a 750 milhas do Oceano Pacífico. Quatro anos após sua chegada ao vale do Lago Salgado, os mórmons já fundavam vilas e cidades onde agora estão os Estados da Califórnia, Idaho, Wyoming, Arizona e Novo México, num total de 600 comunidades, do Canadá ao México. Atualmente, conquanto representem considerável segmento da população. em to.das as cidades dos Estados Unidos, recente pesquisa demonstrou que 70 por cento dos habitantes do Estado. de Utah são nominalmente mórmons e igual percentagem é registrada como de membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em Salt Lake City, que tem para a seita a mesma significação do Vaticano para os católicos. Salt Lake City é a cidade santa dos mórmons.

A seita é governada por um conselho de três membros, a Primeira Presidência, cujo presidente é chamado Profeta e suas decisões seriam inspiradas por Deus. Abaixo, estão o Conselho dos Doze Apóstolos e o Patriarca.

Nem a Igreja Católica, nem as igrejas protestantes históricas, consideram os mórmons como cristãos. Segundo a doutrina da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, o grande conselho que dirige o universo compreende três personagens: Deus, o Pai Eterno; Seu Filho, Jesus Cristo; e o Espírito Santo. Os mórmons acreditam que esses três são entes separados, individualmente distintos uns dos outros, mas unidos em propósito. O Pai e o Filho têm físicos materialmente bem parecidos com os nossos, enquanto o Espírito Santo é uma entidade de Espírito. Cada um dos membros da Trindade é chamado Deus e, juntos, constituem a Divindade. Deus, o Pai, é um homem de carne e osso glorificado e vive, fisicamente, próximo à estrela "Kolob", com suas várias esposas.

Os mórmons crêem na Bíblia, como palavra de Deus escrita pelos homens, mas repleta de erros que são corrigidos e complementada pelo Livro de Mórmon. Acreditam, também, como palavra de Deus, em dois outros livros de escrituras: "Doutrina e Convênios", compilação das revelações para a Igreja e para alguns de seus membros nos primórdios da restauração, e "A Pérola de Grande Valor", seleção de revelações e traduções de Joseph Smith, mais uma curta história do profeta mórmon. Aspecto doutrinário que abre um fosso de intransponível separação entre mórmons e católicos é a afirmação da seita de que não houve interveniência sagrada do Espírito Santo no processo da concepção de Jesus Cristo. Segundo os mórmons, Maria teve relações sexuais com Deus, o qual acreditam, como foi dito, ter configuração, isto é, ser de carne e osso. Dessa forma, a Virgem Maria não seria, de fato, uma virgem, e José, seu marido, foi, na verdade, seu segundo esposo, porque o primeiro foi Deus. Esses princípios são sustentados desde Joseph Smith, passando por seu sucessor Brigham Young e figuras de primeira linha da seita, como os apóstolos Orson Pratt, Joseph Fielding Smith e Heber Kimball, até chegar ao apóstolo Bruce McConkie, principal doutrinador do mormonismo atual, estando contidos no seu livro "Mormon Doctrine".

 

PRAGMATISMO RELIGIOSO

 

A narrativa da evolução do mormonismo no Brasil retrocede a 1923, quando Roberto Lippelt, com mulher e três filhos, emigraram de Hamburgo, na Alemanha, para o Brasil, indo fixar-se em Ipoméia, em Santa Catarina, local onde se concentrava um núcleo importante de famílias alemãs. Augusta, a esposa, logo começou a se corresponder com a sede mundial dos mórmons, em Salt Lake City, pedindo literatura para aprofundar seu relacionamento com a seita, que já conhecia no seu país de origem. Foram efetuados diversos contatos e, em 1926, o presidente da missão sul-americana da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, Rheinold Stooff, concordou em sair de Buenos Aires para visitar Ipoméia.

Entusiasmado com o que viu ali, um clima de ampla abertura às novas religiões, Stooff estabeleceu uma missão em Joinville, sob o comando de Jack Cannon e David Barchted, para, a partir do eixo Ipoméia-Joinville, fazer proselitismo nas terras catarinenses. Em 1935, a sede da missão mudou-se para a cidade de São Paulo e o mormonismo passou a experimentar crescimento progressivo, até assumir a expressão que tem hoje no País. O trabalho de aliciamento para as fileiras do mormonismo no Brasil, contudo, encontrou à frente, até há bem pouco tempo, a barreira do preconceito racial em relação aos negros, aos quais era vedado, por mais de 100 anos, o acesso ao sacerdócio. A proibição estava incorporada à doutrina da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias:

"Os negros não são iguais às outras raças no que diz respeito às bênçãos espirituais, especialmente o sacerdócio e as bênçãos do templo que procedem disso, mas esta desigualdade não é da origem do homem. É ação do Senhor baseado em Suas eternas leis de justiça, e procede da falta de valor espiritual dos negros, enquanto se achavam no estado original." Entretanto, a 9 de junho de 1978, o então profeta e presidente da seita, Spencer Kimball, para surpresa geral, proclamou em Salt Lake City que "o sacerdócio mórmon está aberto a todos os membros masculinos dignos sem fazer caso da cor da pele ou descendência racial". Não era uma revelação divina, tão ao gosto mórmon, e, sim, uma solução de natureza política feita sob medida para o caso do Brasil. É que negros e mestiços, expressiva parcela da população nacional que não é caracterizadamente branca, haviam dado grande contribuição, inclusive com o pagamento de dízimo, à construção do grande templo de São Paulo, cuja inauguração deveria acontecer dois meses depois da proclamação, em agosto do mesmo ano, e aguardavam com enorme ansiedade o fim da discriminação. Era mantida, todavia, a restrição aos casamentos inter-raciais, conforme o apóstolo LeGrand Richards lembrou na ocasião:

"Temos sempre recomendado que as pessoas vivam dentro de sua própria raça - que os japoneses devem se casar com japoneses, os chineses com chineses, os havaianos com os havaianos, e os pretos devem se casar com pretos." As sólidas raízes da poligamia na tradição mórmon, é outro motivo de relutância para os brasileiros no momento de uma eventual opção pela seita fundada por Joseph Smith, por sinal, também polígamo. Nos dias atuais, embora formalmente abolida pela legislação americana, a prática dos casamentos plurais do passado nunca deixou de ser chocante para a cultura cristã ocidental, não podendo ser esquecidas facilmente, portanto, as insólitas palavras com que o profeta Brigham Young pretendeu justificá-Ia: "Jesus Cristo foi polígamo: Maria e Marta, as irmãs de Lázaro, eram suas esposas pluralistas, e Maria Madalena era outra. A festa nupcial de Caná da Galiléia, onde Jesus transformou a água em vinho, foi por ocasião de um de seus próprios casamentos." Brigham Young, aliás, tinha 25 esposas. Seus 56 filhos viviam na mais perfeita harmonia e devotavam grande amor ao pai, chamando também respeitosamente de "titias" as mulheres que não eram suas mães e privavam do mesmo teto e da mesma cama do profeta.

Desde a permissão para que pessoas de raças não-brancas sejam ordenadas sacerdotes, se bem que nenhum negro jamais ascendeu ao ministério mórmon, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias encetou um planejamento de envergadura para aumentar rapidamente os 300 mil adeptos e as 287 casas de oração existentes no Brasil. O plano compreende metas ousadas de ação proselitista de curto e longo prazo. Para acompanhá-Io, foi inaugurado, em 1986, na sede administrativa de São Paulo, um centro para utilização dos avanços da informática nos serviços religiosos. A sofisticada aparelhagem permite um controle perfeito de todas as atividades dos militantes mórmons do País, com um fluxo contínuo de informações com os escritórios do Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre, Curitiba e Bauru, todos interligados por teleprocessamento. Os micros também são usados na conciliação bancária da Igreja, gerindo todo o sistema contábil e o monitoramento da circulação da revista "Lahona", com 50 mil exemplares de tiragem.

O centro de computação instalado em São Paulo é diretamente conectado com Salt Lake City, onde os mórmons possuem a maior biblioteca genealógica do mundo, toda microfilmada, reunindo mais de 500 milhões de páginas de registros de nascimento, casamento, óbito e outras informações estatísticas consideradas importantes pela seita. Os arquivos estão protegidos num depósito subterrâneo escavado em rocha sólida de granito, à prova até de uma hecatombe nuclear.

Cerca de mil missionários americanos, ajudados por dois mil brasileiros, por outro lado, passaram a ativar em tempo integral o aliciamento para a seita no Brasil, desenvolvendo programa idêntico ao que fazem 30 mil outros pregadores no mundo e que encontra o forte dessa ação na doutrinação de casa em casa. O plano inclui ainda a abertura de seminários e institutos da religião, como os 700 em funcionamento nos Estados Unidos e Canadá, bem como de escolas e faculdades semelhantes às da Nova Zelândia, Tonga, Samoa Ocidental, Taiti, Chile, Bolívia, Paraguai, Peru, México, Indonésia e Ilhas Gilbert.

Os mórmons também estão transferindo para o Brasil a aplicação das diretrizes responsáveis pelo sucesso econômico da seita nos Estados Unidos, produto de uma concepção pragmática em relação aos bens materiais consagrada pelo próprio Livro de Mórmon (Alma 1,31; 4 Néfi 23). Não é, pois, a simples transposição de conceitos referentes à economia comunitária, como, por exemplo, a operação da rede de lojas "Deseret", nas quais uma mentalidade de cooperativismo capitalista regula as transações. Mas, sobretudo, uma política voltada para negócios que lhe propiciaram acumular um patrimônio superior a 20 bilhões de dólares e fazer investimentos rendosos e de grande porte na economia americana, como os realizados na ATT, IBM e General Electric. Toda a orientação espiritual e política dos mórmons vem dos Estados Unidos. Afora os mil missionários americanos que aqui trabalham em tempo integral, supervisionando a ação de proselitismo, também de lá vêm 83 por cento dos recursos financeiros consumidos pela seita no Brasil. A arrecadação do dízimo e alguns negócios geram somente 17 por cento da receita. Estes são dados oficiais, fornecidos pelo escritório administrativo da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias em São Paulo. O montante do dinheiro, contudo, não foi revelado, nem o repórter teve condições de apurar.

Os mórmons, doutrinariamente, são submissos a todos os reis, presidentes, governadores e magistrados. Radicalmente anticomunista, a seita não tem sabido, porém, manter-se à distância dos órgãos do governo americano interessados em conter o esquerdismo na América Latina, permitindo a sua infIltração pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos, especialmente a CIA, que tem recrutado, inclusive, grande número de seus líderes para suas fileiras. O quadro é o mesmo em relação aos missionários americanos que trabalham no estrangeiro, não sendo diferente quanto aos nacionais que fazem proselitismo mormonista em países cujos governos se preocupam em combater o comunismo. Um arranjo de múltiplas conveniências.

 

OS INOCENTES ÚTEIS

 

A indiferença ou mesmo aversão à atividade política de algumas seitas em processo de expansão no Terceiro Mundo nunca escapou à atenção dos formuladores da política externa dos Estados Unidos, principalmente se o seu universo de adeptos abranger os estratos mais pobres da população. Desse modo, ao estudo de certos grupos religiosos, como as Testemunhas de Jeová, nas últimas décadas na América Latina, incluindo o Brasil, faltaria correção e fidelidade se subestimasse aquela variante. O caminho histórico percorrido pelas Testemunhas de Jeová, com efeito, é pontilhado de acontecimentos políticos explorados de acordo com os interesses da política americana da época, tanto no plano interno, no passado, quanto no cenário continental, na atualidade.

Testemunhas de Jeová é um movimento religioso iniciado em 1872, em Pittsburg, Pensilvânia, nos Estados Unidos, por Charles Taze Russell, antigo presbiteriano e adventista. Seu primeiro objetivo era promover estudos bíblicos, organizados sob o nome de União Internacional dos Verdadeiros Inquiridores da Bíblia, posteriormente mudado para Sociedade de Tratados da Torre de Vigia do Sião e Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, até ganhar, em 1931, a denominação definitiva atual. Russell dedicou-se especialmente à interpretação dos livros de Daniel e do Apocalipse, buscando dados sobre o fim do mundo, que acreditava iminente e previu, sucessivamente, para 1874, 1914 e 1925. Em 1909, a seita, já atuando em âmbito internacional, mudou sua sede para o Brooklyn, Nova Iorque, começando a editar jornais, revistas e livros com elevada tiragem, fartamente distribuídos na América do Norte e Europa. Por essa época, foi também estruturado o programa de visitas para levar o testemunho de casa em casa e a exibição de audiovisuais produzidos para o trabalho de conversão, assistidos por milhares de pessoas. Morto em 1912, Russell teve seu lugar ocupado por Joseph F. Rutherford, que introduziu várias mudanças na seita, para torná-Ia mais dinâmica na conquista de fiéis. Usaram, então, intensamente o rádio, nas décadas de 20 e 30, para a transmissão de conferências bíblicas, chegando a utilizar 403 emissoras em rede por volta de 1933, sendo igualmente ampliados o esquema de visitas de casa em casa e de círculos de estudos bíblicos domiciliares.

Rutherford faleceu em 1942 e foi sucedido na presidência da seita por Nathan Homer Knorr, cuja gestão marcou-se pela execução de planejamento para o setor de instrução. Em 1943, foi fundado um instituto de preparação especial de missionários, a Escola Bíblica da Torre de Vigia de Gilead, em South Lansing, Estado de Nova Iorque, de onde saem graduados os pregadores que são enviados a 166 países do mundo. Outra conseqüência dessa política foi o surgimento de novas congregações em nações onde não havia nenhuma. Era a meta de estabelecer filiais e congêneres em escala internacional. Foi Knorr quem, antes de morrer, em 1977, deu nova estrutura organizacional às Testemunhas de Jeová, com as responsabilidades administrativas divididas entre diversas comissões que compõem o Corpo Governante sediado no Brooklyn e, de lá, dirige a seita no mundo.

A prioridade que as Testemunhas de Jeová deram à produção de material impresso para o proselitismo levou a seita a construir um colossal complexo gráfico anexo, operado por cerca de 2.400 trabalhadores, e outro conjunto acoplado a uma fazenda perto de Wallkill, Estado de Nova Iorque, no qual trabalham mais de 600 pessoas. Essas unidades, subordinadas a "Watchtower Bible and Tract Society of New York lnc.", são responsáveis pelos milhões e milhões de jornais, revistas, livros e panfletos com que são bombardeados permanentemente os lares americanos. A nível mundial, a revista quinzenal "Sentinela", editada em 103 idiomas, tem uma tiragem de 12 milhões de exemplares, enquanto "Despertai", também quinzenal, circula em 53 línguas, com quase 11 milhões de exemplares. As edições em português e espanhol são rodadas em São Paulo, no grande parque gráfico montado no quilômetro 43 da rodovia SP-141, em Cesário Lange, cidade onde a seita tem sua representação brasileira. Em pouco mais de um século, as Testemunhas de Jeová chegaram a 4 milhões de crentes no mundo, número que cresce rapidamente pela força de doutrinação de mais de 100 mil missionários, a maioria de americanos, todos dedicados ao proselitismo domiciliar em tempo integral. Só no Brasil, eles completaram 30 milhões de horas indo de porta a porta, em 1985. A insistência, aliás, é uma característica dos propagandistas da seita, não lhes importando qual seja a receptividade da sua pregação. Levantamento feito no final de 1986 mostrou que as Testemunhas de Jeová chegam a perto de 300 mil adeptos no Brasil, organizados em 3.180 congregações. Seus templos, chamados Salões do Reino, são 2.200 no País e, embora a maior concentração esteja em São Paulo, sua presença é registrada em todos os Estados brasileiros.

De acordo com a história da seita, as primeiras Testemunhas de Jeová entre nós foram tripulantes da Marinha Mercante nacional convertidos em Nova lorque, em 1920, e o primeiro representante da então Torre de Vigia, mandado pela direção dos Estados Unidos, aqui chegou em 1922.

A doutrina das Testemunhas de Jeová situa-se bem distanciada dos cristãos. Para elas, o nome de Deus é Jeová e a Bíblia, vista segundo sua exegese, a única fonte da verdade. Assim, negam a existência da Santíssima Trindade, a divindade de Jesus Cristo, a condição pessoa divina do Espírito Santo, a imortalidade da alma, a existência do inferno, a validade dos sacramentos, o valor das orações pelos mortos e a crucificação de Cristo, que teria morrido numa estaca. Acreditam, entre outras coisas, que as igrejas chamadas cristãs, sobretudo a católica, são obra de Satanás, que Maria não é mãe de Deus e teve vários filhos, o inferno é a sepultura comum da humanidade e que constitui violação das leis divinas a assimilação de sangue pela boca ou pelas veias (transfusão).

Interpretando literalmente o Apocalipse, as Testemunhas de Jeová pregam que, ao fim do milênio, iniciado em 1914, haverá o Juízo Final e que somente se salvarão 144 mil eleitos, os quais irão para o "ar superior", onde viverão e reinarão com Cristo. Uma segunda classe de salvos da morte eterna serão deixados em carne e osso, sem, contudo, necessitarem de alimento, vivendo na terra em paz perene, livres das doenças, do medo e da opressão. O restante dos homens, aqueles sabida e voluntariamente maus, serão impiedosamente aniquilados, pois não existe inferno ou purgatório. As Testemunhas de Jeová consolidaram idéias próprias sobre direitos e deveres civis. Recusam-se sistematicamente a prestar serviço militar, à saudação à bandeira e a outros símbolos nacionais, bem como ao respeito aos feriados e quaisquer manifestações de caráter patriótico, por encará-Ias como idolatria. No Brasil, milhares já foram punidos com a cassação dos direitos políticos, por se negarem a servir às forças armadas alegando razões de consciência.

As Testemunhas de Jeová ostentam uma onerosa tradição de luta na defesa da liberdade religiosa nas diversas partes do mundo. O pacifismo embutido nas convicções da seita tem sido entendido como desobediência civil ou mesmo violação das leis de segurança nacional por vários governos, levando-a a amargar os efeitos de implacáveis procedimentos penais desde a época em que a presidência do grupo religioso foi exercida por Joseph F. Rutherford.

Ao começo da Primeira Guerra Mundial, o próprio Rutherford e alguns de seus colaboradores passaram nove meses na cadeia, sob acusação de "atividades anti-americanas". Nos anos 30 e 40, verificaram-se muitas prisões de iniciados. Duras batalhas jurídicas foram travadas em conseqüência, tendo Rutherford, antigo juiz de direito, auxiliado pelo advogado texano Hayden Covington, seu assistente, ganho 46 apelações no Supremo Tribunal dos Estados Unidos, 150 em cortes superiores estaduais, mais diversas ações no Canadá e em outros 22 países. A respeito, escreveu o professor C. S. Braden no seu livro "Estes Também Crêem", publicado em várias línguas: "Prestaram um serviço notável à democracia com sua luta em favor da preservação dos direitos civis, pois fizeram muita coisa para assegurar esses direitos a todo grupo minoritário na América".

A partir de 1960, entretanto, reformulando completamente sua posição em relação à matéria, o governo americano cessou todas as perseguições às Testemunhas de Jeová nos Estados Unidos e começou, no exterior, por via diplomática, a pressionar governos de países do Terceiro Mundo para que adotassem uma atitude de tolerância para com a seita. Além das facilidades no plano interno, como a recomendação à Justiça para que obedecesse as leis que asseguram a liberdade religiosa e a concessão de incentivos fiscais às doações em dinheiro ao grupo religioso, o Departamento de Estado orientou as diversas agências governamentais que operam no estrangeiro no sentido de proteger a seita, cujos missionários passaram, assim, a ter cobertura integral nos países onde prestam serviços.

A reviravolta é explicada pelo correto entendimento do real papel representado pelas Testemunhas de Jeová no contexto da bipolarização internacional contemporânea. Acreditam, agora, os formuladores da política americana que a idiossincrasia pela política incutida pela seita nos seus adeptos como princípio de fé, se não sufoca, pelo menos retarda o surgimento de uma postura que reflita aspirações mais identificadas com as reivindicações comuns às camadas mais pobres da população, justamente o universo por ela atingido. O pacifismo do grupo religioso, em outras palavras, pode constituir-se numa barreira que impeça o seu alinhamento entre as correntes que desejam alterar o establishment. O aIheamento político das Testemunhas de Jeová, enfim, seria poderoso aliado dos Estados Unidos na luta anticomunista nas nações mais pobres do Terceiro Mundo. Por que, então, não prestigiar o importante parceiro?

Por razões diametralmente opostas, a União Soviética recrudesceu, nos últimos tempos, a repressão às Testemunhas de Jeová, em todo o país e nas nações que estão sob seu domínio na Europa Central. Há centenas de pessoas condenadas a trabalhos forçados por se recusarem a prestar serviço militar, votar em eleições, integrar os komsomol e filiar-se ao Partido Comunista, todos pertencentes à seita, clandestina na “Cortina de Ferro". Em setembro de 1986, Yakov Gojan, apontado como líder do grupo religioso na República da Moldávia, foi encarcerado, acusado de vários delitos. Por outro lado, a imprensa russa vem se ocupando freqüentemente do assunto, prevenindo os soviéticos contra a pregação das Testemunhas de Jeová, e o "Komsomolskaya Pravda", órgão oficial da juventude comunista, denunciou a seita por "desviar as pessoas da edificação do comunismo".

 

DA CORÉIA, COM RANCOR

 

Aquele sexagenário coreano é, de fato, o tormento das igrejas cristãs.

Na verdade, ninguém acreditava que a seita suportasse o massacre. Aqueles dias de agosto de 1981 foram terríveis. Em todo o país explodiram perseguições às missões do grupo religioso. Dezesseis templos-sede destruídos, documentos incendiados, pastores agredidos, fiéis ameaçados. Um clima de terror por todas as partes. Chamadas, as autoridades não apareceram. Ou melhor, só apareceram para prender centenas de membros e insultá-Ios na polícia. Nenhuma voz se levantou na imprensa, rádio ou na televisão, para defender os perseguidos. Ao contrário, os meios de comunicação apoiaram o quebra-quebra e justificaram a revolta da, população contra a seita. Dizia-se que a família brasileira estava seriamente ameaçada pelo fanatismo de uma religião exótica. A opinião pública nacional fazia o mesmo juízo da atuação da Associação do Espírito Santo para a Unificação do Cristianismo Mundial - a seita Moon -, não obstante o governador de São Paulo à época, Paulo Salim Maluf, pela lei estadual 2.331, a reconhecesse de utilidade pública, em 16 de abril de 1980.

A violência popular contra as missões do grupo religioso deu lugar às mais desencontradas ilações. Primeiramente, não se tinha notícia, nos tempos modernos, de uma demonstração de intolerância de tamanha envergadura por parte do povo brasileiro. Depois, a feição organizada do movimento evidenciava a existência de uma autoria intelectual concebida fora do País. Nessa linha de raciocínio, a seita, embora sem muita convicção, tentou culpar a KGB, a polícia secreta soviética, mas, logo, ela própria descartou a hipótese, também rechaçada pela Polícia Federal. Antes que outras suposições fossem igualmente afastadas por absoluta falta de consistência, a suspeita recaiu, sobre a CIA – a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos -, à qual já se acostumou a atribuir tudo o que há de mal feito no mundo nos dias atuais. A ação, apoiada por grupos de esquerda, visaria a criar uma comoção social para desestabilizar politicamente a ditadura militar brasileira. Nenhuma prova mais convincente contra a CIA, contudo, foi apresentada, e o assunto, após algumas semanas, caiu no esquecimento, com a seita cuidando de juntar os destroços do que sobrou do quebra-quebra e seguir em frente. A história da Associação do Espírito Santo para a Unificação do Cristianismo Mundial gira em torno de Sun Myung Moon, nascido a 6 de janeiro de 1920 numa granja do interior da Coréia do Norte. segundo filho de uma família de oito irmãos. Seus pais eram presbiterianos. Aos 16 anos, conforme contou, enquanto orava em uma montanha perto de sua casa, teve uma visão de Jesus Cristo, que lhe confiou a missão de continuar a obra de restauração da humanidade deixada incompleta por Ele, em virtude de Sua morte prematura e injusta.

Em 1938, Moon deixou a Coréia, então sob ocupação militar pelo Japão, para estudar engenharia eletrônica na Universidade de Waseda, em Tókio. Mantinha boas relações com os japoneses, tanto assim que, de acordo com o historiador J. Isamu Yamamoto. alguns militares e industriais nipônicos, todos considerados criminosos de guerra pelos americanos, continuaram seus aliados e protetores nos negócios.

Por volta de 1946, terminada a Segunda Guerra Mundial, Moon reapareceu em Pyongyang, capital da Coréia do Norte, ocupada por tropas soviéticas. Ali, começou a dar vazão a sua vocação de pregador, a princípio numa igreja pentecostal. Depois, internou-se por seis meses numa comunidade religiosa do Paju, ao norte de Seul. estudando a doutrina de Pek Moon Kin, espécie de messias coreano. Casou-se duas vezes, razão pela qual foi excomungado pela Igreja Presbiteriana em 1948. Em maio de 1948, foi preso e enviado pelas autoridades comunistas da Coréia do Norte para o campo de prisioneiros de Hung Nam, onde ficou por 2 anos e meio, até ser libertado pelas tropas da ONU em 1950. Retornou à Coréia do Sul e, mais tarde, em Seul, fundou oficialmente a Igreja da Unificação, a 10 de maio de 1954. A seita popularizou-se e cresceu extraordinariamente no país e no Japão. Foi nesse período áureo que conheceu o coronel Bo Hi Pak, que servia no quartel-general das forças americanas na Coréia. e a professora Young Oon Kim. doutora em Teologia, pessoas que viriam a ter excepcional importância em sua vida. O primeiro seria o braço direito em todas as atividades políticas patrocinadas pela seita Moon no mundo e a segunda formularia a Teologia da Unificação, principal fundamento do seu grupo religioso, exposta em um livro que ela escreveu. A mudança do principal centro irradiador da seita Moon para os Estados Unidos, materializada com a compra de uma sede monumental, foi iniciada na década de 60, quando o coronel Bo Hi Pak, recompensado por sua participação no golpe militar de direita que levou ao poder o general Pak Chung Hi, em 1961, foi nomeado assistente do adido militar da Coréia do Sul em Washington. Estava à frente de todas as iniciativas de natureza cultural, como a criação da fundação de defesa da liberdade – a KCCE - e da rádio Ásia Livre - a ROFA -, além de promover diversos eventos em que a Igreja da Unificação tinha interesse direto naquele país, a exemplo da apresentação do coral infantil “Os Pequenos Anjos da Coréia", organizado por Moon. Em 1964, o coronel deixou as funções diplomáticas para dedicar-se completamente à seita do amigo. A Igreja da Unificação é, tipicamente, uma transnacional político-religiosa. Inteiramente distanciada das raízes do movimento milenarista tradicional da Coréia, alinhando-se ao figurino do conservadorismo americano, ocupa posição de vanguarda no combate ao comunismo internacional. Consiste numa nova interpretação da história bíblica, da história das religiões e da história universal. O pensamento da Unificação tenta exprimir a união de todos os sistemas filosóficos, propiciando soluções consistentes às questões que considera deixadas sem resposta pelos pensadores até nossos dias. O moonismo, a despeito de várias alusões a Jesus Cristo na sua doutrina, não é considerado cristão, pois nega a autoridade das Sagradas Escrituras, o dogma da Santíssima Trindade, do pecado original, a divindade de Cristo, a virgindade de Maria e a validade dos sacramentos, entre outros fundamentos do cristianismo. Para os moonies (lunáticos), como são conhecidos os seguidores da seita nos Estados Unidos, o livro sagrado, de valor superior ao da Bíblia, é "O Princípio Divino", de autoria de Moon, a quem chamam "Nosso Verdadeiro Pai".

Os ensinamentos do mestre coreano guardam, curiosamente, muita analogia com a Doutrina de Segurança Nacional, vedete durante os anos de ditadura no pensamento brasileiro, enfocando, de forma semelhante, a bipolarização comunismo-democracia e a guerra psicológica. Isso explica a presença volumosa de militares reformados, apaixonados por geopolítica, e cientistas políticos da direita brasileira nos seminários que a seita Moon promove para debater a questão da segurança internacional em face da ameaça comunista.