Os Últimos Casos de Miss Marple

Agatha Christie · Capítulo 1 de 9

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Os Últimos Casos de Miss Marple

Santuário

 

1

 

A esposa do vigário dobrou a esquina do vicariato com os braços carregados de crisântemos. Seus rústicos sapatos irlandeses arrastavam uma grande quantidade de terra do jardim. Seu nariz estava sujo de poeira, mas ela estava totalmente alheia a esse fato.

Ela teve certa dificuldade em abrir o portão do vicariato, que se sustentava apenas sobre a metade de suas dobradiças enferrujadas. Uma rajada de vento moveu seu chapéu surrado, assentando-o em sua cabeça de maneira ainda mais desengonçada do que antes.

– Diabos! – disse Bunch.

Batizada de Diana por seus esperançosos pais, a sra. Harmon passou a

ser chamada de Bunch[1] ainda na infância por razões óbvias, e esse nome a acompanhava desde então. Empunhando os crisântemos, ela atravessou o portão e chegou ao pátio da igreja, e em seguida à porta.

O ar de novembro era brando e úmido. Nuvens se moviam pelo céu e revelavam pedaços de azul aqui e ali. Do lado de dentro, a igreja era escura e fria; não era aquecida senão nos horários de culto.

– Brrrrrr! – Bunch arrepiou-se. – É melhor terminar logo com isso. Não quero morrer de frio.

Com a rapidez que advém da prática, ela reuniu a parafernália necessária: vasos, água, recipientes para as flores. “Gostaria que tivéssemos lírios”, pensou Bunch em silêncio. “Já estou cansada destes crisântemos ásperos.” Seus dedos ágeis arrumavam as flores em seus recipientes.

Não havia nada particularmente original ou artístico em suas decorações, pois Bunch Harmon não era nem original nem artística, mas eram composições simples e agradáveis. Carregando os vasos com cuidado, Bunch caminhou pela nave em direção ao altar. Enquanto ela fazia isso, o sol apareceu.

O astro brilhou através da janela leste, que tinha um vitral um tanto rústico, composto em azul e vermelho – presente de uma antiga devota rica que costumava frequentar igreja. O efeito era quase espantoso em sua repentina opulência. “Como pedras preciosas”, pensou Bunch. De repente ela parou, olhando para a frente. Nos degraus do presbitério havia um vulto escuro.

Depondo com cuidado as flores no chão, Bunch foi até os degraus e se abaixou. Era um homem que estava debruçado sobre si mesmo. Bunch se ajoelhou ao seu lado e, lentamente e com muito cuidado, virou o corpo. Seus dedos buscaram o pulso do homem, um pulso tão fraco e oscilante que revelava o estado de seu dono, assim como a palidez quase esverdeada de seu rosto. Não restava dúvida, pensou Bunch, de que ele estava morrendo.

Era um homem de aproximadamente 45 anos, vestido com uma roupa preta surrada. Ela pôs de volta no chão a débil mão que estava segurando e olhou para a outra. Esta estava cerrada sobre o peito. Olhando mais de perto ela pôde ver que os dedos estavam fechados sobre o que parecia ser um grande maço ou lenço que ele segurava firmemente contra o peito. A mão fechada estava coberta de respingos de cor marrom, que Bunch imaginou ser sangue seco. Bunch voltou a se equilibrar em seus calcanhares, franzindo a testa.

Até esse ponto, os olhos do homem tinham estado fechados, mas neste instante eles se abriram de súbito e se fixaram no rosto de Bunch. Eles não mostravam estupefação ou errância. Pareciam totalmente vivos e inteligentes. Os lábios do homem se moveram e Bunch se curvou para ouvir as palavras, ou melhor dizendo, a palavra. Ele disse apenas:

– Santuário.

Havia, pensou ela, um pequeno sorriso em seus lábios enquanto ele pronunciava essa palavra. Não poderia haver erro, pois depois de um instante ele disse de novo:

– Santuário...

Então, com um longo e lânguido suspiro, seus olhos se fecharam novamente. Mais uma vez os dedos de Bunch procuraram o pulso do homem. Continuava lá, mas agora ainda mais fraco e intermitente. Ela se levantou decidida.

– Não se mova – disse. – Vou buscar ajuda.

Os olhos do homem se abriram novamente, mas ele parecia agora estar com sua atenção voltada para a luz colorida que vinha da janela leste. Murmurou alguma coisa que Bunch não entendeu muito bem. Ela pensou, assustada, que poderia ter sido o nome do seu marido.

– Julian? – ela disse. – Você veio aqui procurar Julian?

Mas não houve resposta. O homem ficou ali estendido, a respiração curta e baixa.

Bunch virou-se e saiu rapidamente da igreja. Deu uma olhada no relógio e moveu a cabeça com certa satisfação. O dr. Griffiths ainda estaria em seu consultório, que ficava a poucos minutos a pé da igreja. Chegando lá, ela entrou, sem bater ou tocar a campainha, passando pela sala de espera até o consultório do médico.

– O senhor precisa vir rápido – disse Bunch. – Tem um homem à beira da morte na igreja.

Passados alguns minutos, o dr. Griffiths levantou-se após um breve exame.

– Seria possível levá-lo daqui até o vicariato? Não creio que haja muita esperança, mas lá eu poderei atendê-lo melhor.

– Claro – disse Bunch. – Vou indo na frente para aprontar as coisas. Vou mandar Harper e Jones para cá, para ajudar o senhor a carregá-lo.

– Obrigado. Quando chegar ao vicariato, posso telefonar para chamar uma ambulância, mas receio que quando ela chegar...

Ele não terminou a frase.

– Hemorragia interna? – perguntou Bunch.

O dr. Griffiths assentiu com a cabeça.

– Como ele conseguiu chegar até aqui? – ele perguntou.

– Eu acho que ele deve ter passado a noite toda aqui – disse Bunch, reflexiva. – Harper destranca a porta da igreja pela manhã quando sai para o trabalho, mas não costuma entrar.

Cerca de cinco minutos depois, o dr. Griffiths colocou o telefone de volta no gancho e voltou para a sala onde o ferido estava deitado sobre cobertores recém-postos no sofá. Bunch carregava uma bacia com água e organizava as coisas usadas no exame médico.

– Bem, isso é tudo – disse o dr. Griffiths. – Chamei uma ambulância e notifiquei a polícia. – Ele ficou parado, franzindo a testa, olhando para o paciente que estava deitado de olhos fechados, a mão esquerda se movendo em nervosos espasmos para o lado.

– Ele foi baleado – disse Griffiths. – Baleado à queima-roupa. – Ele enrolou seu lenço e o pressionou sobre a ferida para estancar o sangue.

– Ele poderia ter ido longe depois do acontecido? – perguntou Bunch.

– Ah, sim, é bem possível. Um homem mortalmente ferido é capaz de se levantar e caminhar ao longo de uma rua como se nada tivesse acontecido, e então desfalecer de repente, cinco ou dez minutos depois. Logo, ele não foi necessariamente baleado na igreja. Não, mesmo. Ele pode ter sido baleado a uma boa distância daqui. Claro, ele pode ter atirado em si mesmo, largado o revólver e cambaleado até a igreja. Eu só não entendo por que ele foi até a igreja e não até o vicariato.

– Ah, isso eu sei – disse Bunch. – Ele disse “santuário”.

O médico a encarou.

– Santuário?

– Aqui está Julian – disse Bunch, virando a cabeça ao ouvir os passos do marido no corredor. – Julian! Venha até aqui.

O reverendo Julian Harmon entrou no aposento. Seus modos vagos e professorais sempre o faziam parecer muito mais velho do que de fato era.

– Meu Deus! – disse Julian Harmon, olhando de maneira tranquila e curiosa para os instrumentos cirúrgicos e para a figura debruçada sobre o sofá.

Bunch explicou a situação em poucas palavras, como era de costume.

– Ele estava na igreja, à beira da morte. Foi baleado. Você o conhece, Julian? Pensei tê-lo ouvido dizer seu nome.

O vigário foi até o sofá e olhou para o homem agonizante.

– Pobre sujeito – ele disse, e sacudiu a cabeça. – Não, eu não o conheço. Tenho quase certeza de que nunca o vi antes.

Naquele instante os olhos do homem se abriram mais uma vez. Eles passaram do médico para Julian Harmon e dele para a sua esposa. Os olhos estacionaram ali, fitando o rosto de Bunch. Griffiths deu um passo à frente.

– Se você pudesse nos dizer... – ele disse rapidamente.

Mas com os olhos fixos em Bunch, o homem disse numa voz fraca:

– Por favor, por favor...

E então, com um leve tremor, morreu...

O sargento Hayes lambeu a ponta de seu lápis e virou a página do seu caderno de anotações.

– Então isso é tudo que a senhora pode me dizer, sra. Harmon?

– Sim, isso é tudo – disse Bunch. – Estas são as coisas que estavam em seus bolsos.

Sobre a mesa, perto do sargento Hayes, estavam uma carteira, um velho relógio danificado com as iniciais W.S. e a parte correspondente à volta de uma passagem de ida e volta para Londres. Nada mais.

– O senhor descobriu quem ele é? – perguntou Bunch.

– Um casal, sr. e sra. Eccles, telefonou para a delegacia. Ele é irmão da senhora, ao que parece. Seu nome é Sandbourne. Já estava mal de saúde e dos nervos há algum tempo. Andava cada vez pior. Anteontem ele saiu de casa e não voltou mais. Levava um revólver consigo.

– E ele veio até aqui e se deu um tiro com o revólver? – perguntou Bunch. – Por quê?

– Bem, ele andava deprimido...

Bunch o interrompeu:

– Não é isso que estou perguntando. O que quero saber é por que aqui?

Como o sargento Hayes obviamente não sabia a resposta para aquela pergunta, replicou de maneira evasiva:

– Ele chegou aqui no ônibus das 5h10.

– Sim – disse Bunch novamente –, mas por quê?

– Eu não sei, sra. Harmon – disse o sargento Hayes. – Não existe nenhuma explicação. Se o equilíbrio mental é perturbado...

Bunch terminou a sentença para ele:

– Eles podem fazê-lo em qualquer lugar. Mas ainda me parece desnecessário tomar um ônibus para uma pequena área rural como esta. Ele não conhecia ninguém aqui, não é?

– Não pelo que pôde ser averiguado – disse o sargento Hayes.

Ele tossiu de modo apologético enquanto se levantava e disse:

– Pode ser que o sr. e a sra. Eccles venham até aqui lhe fazer uma visita, se a senhora não se importar.

– Claro que eu não me importo – disse Bunch. – É muito natural. Eu só gostaria de ter algo a dizer a eles.

– Eu tenho que ir – disse o sargento Hayes.

– Fico muito aliviada – disse Bunch enquanto acompanhava o sargento até a porta da frente – que não tenha sido assassinato.

Um carro havia parado em frente ao portão do vicariato. O sargento Hayes, olhando rapidamente, comentou:

– Parece que o sr. e a sra. Eccles já estão aqui para falar com a senhora.

Bunch se preparou para suportar o que, ela pensava, poderia ser uma difícil provação. “De qualquer modo”, pensou, “posso chamar Julian para me ajudar se for o caso. Um homem do clero é de grande ajuda quando as pessoas estão desoladas pela perda de um parente.”

Bunch não sabia exatamente o que esperar do sr. e da sra. Eccles, mas foi acometida, ao cumprimentá-los, de certa perplexidade. O sr. Eccles era um homem corpulento e vistoso, de modos alegres e brincalhões. A sra. Eccles tinha um ar um pouco esnobe. Sua boca era pequena, bem delineada. Sua voz era fina e aguda.

– Foi um choque terrível, sra. Harmon, como a senhora bem pode imaginar – ela disse.

– Oh, eu sei – disse Bunch. – Deve ter sido. Sentem-se, por favor. Eu posso oferecer-lhes, bem, talvez seja um pouco cedo para o chá...

A sra. Eccles sacudiu sua pequena mão de dedos curtos:

– Não, não se incomode – ela disse. – É muito gentil da sua parte. Só gostaria de saber... bem... o que o pobre William disse e todo o resto, a senhora entende?

– Ele estava fora há tempos – disse o sr. Eccles –, e eu acho que ele deve ter tido algumas experiências muito desagradáveis. Desde que voltou para casa, andava muito quieto e deprimido. Dizia que o mundo não era um bom lugar para se viver e que não tinha nenhuma expectativa quanto ao futuro. Pobre Bill, ele sempre foi um sujeito melancólico.

Bunch olhou para eles por alguns instantes sem dizer nada.

– Ele roubou o revólver do meu marido – continuou a sra. Eccles – sem que percebêssemos. Então, ao que parece, veio até aqui de ônibus. Acho que foi sensível de sua parte. Ele não teria gostado de fazer isso em nossa casa.

– Pobre homem, pobre homem – disse o sr. Eccles com um suspiro. – Não se pode julgá-lo.

Houve outra pausa curta, então o sr. Eccles disse:

– Ele deixou uma mensagem? Últimas palavras, algo assim?

Seus olhos claros observavam Bunch atentamente. A sra. Eccles também se inclinou para frente como se estivesse ansiosa pela resposta.

– Não – disse Bunch em voz baixa. – Ele foi para a igreja quando estava à beira da morte, buscando um santuário.

– Santuário? – disse a sra. Eccles de maneira confusa. – Acho que não estou...

O sr. Eccles interrompeu:

– Lugar sagrado, minha querida – ele disse impacientemente. – É isso que a esposa do vigário quer dizer. Suicídio é pecado, você sabe. Suponho que ele quisesse se redimir.

– Ele tentou dizer algo um pouco antes de morrer – disse Bunch. – Começou dizendo “por favor”, mas não foi além disso.

A sra. Eccles colocou seu lenço sobre os olhos e fungou.

– Querido, é terrivelmente triste, não é?

– Acalme-se, Pam – disse seu marido. – Não se culpe, essas coisas não podem ser evitadas. Pobre Willie. Ele está em paz agora. Bem, muito obrigado sra. Harmon. Espero que não a tenhamos estorvado em nada. A esposa de um vigário é uma mulher ocupada, sabemos disso.

Eles se despediram com um aperto de mãos. Então Eccles se voltou repentinamente para trás, para dizer:

– Ah, sim, só mais uma coisa. Creio que o casaco dele está aqui, não?

– O casaco? – Bunch franziu a testa.

– Gostaríamos de ficar com todos os pertences dele, a senhora sabe. São de valor sentimental – disse a sra. Eccles.

– Ele tinha um relógio, uma carteira e uma passagem de trem nos bolsos – disse Bunch. – Eu entreguei tudo ao sargento Hayes.

– Então está bem – disse o sr. Eccles. – Ele entregará para nós, assim espero. Seus documentos particulares devem estar na carteira.

– Havia uma nota de uma libra na carteira – disse Bunch. – Nada além disso.

– Nenhuma carta ou coisa que o valha?

Bunch sacudiu a cabeça.

– Bem, mais uma vez obrigado, sra. Harmon. O casaco que ele estava vestindo, é possível que também esteja com o sargento?

Bunch franziu a testa tentando se lembrar.

– Não – ela disse –, acho que não... deixe-me ver. O doutor e eu o tiramos para examinar a ferida – ela deu uma olhada incerta ao redor do ambiente. – Devo tê-lo levado para o andar de cima, junto com as toalhas e a bacia.

– Eu estava pensando, sra. Harmon, se a senhora não se importar... Nós gostaríamos de ficar com o casaco, a senhora entende, a última coisa que ele vestiu. Bem, teria um valor imenso para minha esposa.

– Claro – disse Bunch. – O senhor gostaria que eu mandasse lavar antes?

– Oh, não, não, não, isso não é necessário.

Bunch franziu a testa.

– Agora eu me pergunto onde é que... me deem licença por um momento.

Ela subiu as escadas e demorou alguns minutos para retornar.

– Desculpem-me – ela disse ofegante –, minha diarista deve ter posto o casaco junto com as outras roupas que foram para a lavanderia. Levei um bom tempo para encontrá-lo. Aqui está. Vou embrulhá-lo para vocês.

Contrariando os protestos do casal, ela o fez; então, despedindo-se efusivamente mais uma vez, o sr. e a sra. Eccles partiram.

Bunch voltou lentamente pelo corredor e entrou no escritório. O reverendo Julian Harmon levantou os olhos e seu rosto desanuviou-se. Ele estava escrevendo um sermão e receava ter sido desviado do rumo pelo interesse que lhe despertaram as relações políticas entre a Judeia e a Pérsia, durante o reinado de Ciro.

– Sim, querida? – ele disse esperançoso.

– Julian – perguntou Bunch –, o que é exatamente um santuário?

Julian Harmon pôs de lado a folha do sermão.

– Bem – ele disse –, santuário em templos gregos e romanos era a cella na qual ficava a estátua de um Deus. A palavra em latim para altar, “ara”, também significa proteção – ele continuou doutamente. – No ano 399 d.C., o direito a santuário foi enfim reconhecido nas Igrejas Cristãs. A mais antiga menção do direito a santuário na Inglaterra está no Código de Leis emitido por Ethelbert no ano 600 d.C....

Ele continuou por algum tempo com sua explicação. Julian seguidamente ficava desconcertado com a receptividade da esposa aos seus pronunciamentos eruditos.

– Querido – ela disse –, você é um doce.

Inclinando-se, ela o beijou na ponta do nariz. Julian se sentiu um pouco como um cão que fosse recompensado por um truque engenhoso.

– O sr. e a sra. Eccles estiveram aqui – disse Bunch.

O vigário franziu a testa.

– O sr. e a sra. Eccles? Eu não me lembro...

– Você não os conhece. Ela é irmã do homem da igreja e ele é seu marido.

– Minha querida, você deveria ter me chamado.

– Não houve necessidade – disse Bunch. – Eles não estavam precisando de consolo. Será que... – ela franziu a testa – se eu deixasse um ensopado no forno amanhã, você conseguiria se virar, Julian? Estou pensando em ir até Londres ver as liquidações, que são uma joia!

– Uma joia? – O marido a olhou sem entender. – Você diz ouro, brilhante ou coisa parecida?

– Não, querido. Há uma liquidação especial ocorrendo na Burrows & Portman’s. Você sabe, lençóis, toalhas de mesa e panos de prato. Não sei o que nós fazemos com nossos panos, mas eles ficam gastos em muito pouco tempo. Além disso – ela acrescentou habilmente –, acho que está na hora de visitar a tia Jane.

 

II

 

Aquela doce velhinha, Miss Jane Marple, estava gozando dos prazeres da metrópole por duas semanas, confortavelmente instalada no apartamento do seu sobrinho.

– É tão gentil da parte de Raymond – ela murmurou. – Ele e Joan foram para os Estados Unidos por duas semanas e insistiram para que eu ficasse aqui e me divertisse. E agora, querida Bunch, me conte o que a está preocupando.

Bunch era a afilhada predileta de Miss Marple, e a velha senhora a olhava com grande afeição quando Bunch, com seu chapéu enfiado na parte de trás da cabeça, começou a contar a história.

O relato de Bunch foi claro e conciso. Miss Marple acenou com a cabeça quando Bunch terminou.

– Entendo – ela disse –, entendo.

– É por isso que eu achei que deveria vir até a senhora – disse Bunch. – A senhora vê, sem ser muito esperta...

– Mas você é esperta, minha querida.

– Não, não sou. Não como Julian.

– Julian, é claro, tem um intelecto muito sólido – disse Miss Marple.

– Exatamente – disse Bunch. – Julian tem o intelecto, mas eu, por outro lado, tenho a sensibilidade.

– Você tem muito bom-senso, Bunch, e é muito inteligente.

– A senhora vê, eu não sei muito bem o que fazer. Não posso perguntar a Julian porque, bem, quero dizer, Julian é tão cheio de integridade...

A declaração pareceu ter sido perfeitamente compreendida por Miss Marple, que disse:

– Eu entendo o que você quer dizer. Para nós mulheres, bem, é diferente. – Ela continuou. – Você me contou o que aconteceu, Bunch, mas eu gostaria de saber primeiro exatamente o que você pensa sobre isso.

– Está tudo errado – disse Bunch. – O homem que estava na igreja, morrendo, sabia tudo sobre santuário. Ele disse exatamente da maneira que Julian teria dito. Quero dizer, ele era um homem instruído e culto. E se ele tivesse dado um tiro em si mesmo, não se arrastaria, depois disso, até uma igreja para dizer “santuário”. Santuário significa que quando você está sendo perseguido, ao entrar numa igreja, você está salvo. Seus perseguidores não podem tocá-lo. Em certa época nem mesmo as autoridades podiam pegar você.

Ela olhou inquisitivamente para Miss Marple. Esta acenou com a cabeça. Bunch continuou:

– Aquelas pessoas, o sr. e a sra. Eccles, eram bem diferentes. Ignorantes e vulgares. E tem mais uma coisa. O relógio, o relógio do falecido. Tinha as iniciais W.S. na parte de trás. Mas dentro, eu o abri, estava escrito em letras muito pequenas “Para Walter, de seu pai” e tinha uma data. Walter. Mas o sr. e a sra. Eccles se referiam a ele como William ou Bill.

Miss Marple parecia pronta para dizer alguma coisa, mas Bunch continuou, afobada:

– Ah, eu sei que nem sempre alguém é chamado pelo nome de batismo. Quero dizer, posso entender que você seja batizado William e seja chamado de “Peixe” ou “Cenoura” ou algo assim. Mas a sua irmã não chamaria você de William ou Bill se o seu nome verdadeiro fosse Walter.

– Você quer dizer que ela não era irmã dele?

– Tenho certeza de que ela não era irmã dele. Eles eram repugnantes, os dois. Foram até o vicariato para pegar as coisas do homem e para saber se ele havia dito alguma coisa antes de morrer. Quando eu lhes disse que ele não havia dito nada, vi apenas uma coisa escrita em seus rostos: alívio. Pensei comigo mesma – concluiu Bunch – que foi Eccles que atirou nele.

– Assassinato? – disse Miss Marple.

– Sim – disse Bunch. – Assassinato. É por isso que eu procurei a senhora, querida tia.

As observações de Bunch poderiam ter parecido incongruentes para um ouvinte comum, mas Miss Marple era famosa, em certas esferas, por desvendar assassinatos.

– Ele disse “Por favor” para mim, antes de morrer – disse Bunch. – Ele queria que eu fizesse alguma coisa por ele. O mais triste é que eu não faço ideia do que essa coisa possa ser.

Miss Marple refletiu por alguns instantes, e então perguntou algo que já tinha ocorrido a Bunch:

– Mas por que ele estava lá, afinal?

– A senhora quer dizer – disse Bunch – que, se você está procurando um santuário, pode entrar numa igreja em qualquer lugar. Não há necessidade de pegar um ônibus que só sai quatro vezes ao dia e ir até um local isolado como o nosso.

– Ele deve ter ido até lá com algum propósito – cogitou Miss Marple. – Deve ter ido para ver alguém. Chipping Cleghorn não é uma cidade grande, Bunch.

Bunch repassou em sua mente todos os habitantes do lugarejo antes de sacudir a cabeça ainda um tanto hesitante.

– De certo modo – ela disse –, poderia ser qualquer pessoa.

– Ele não mencionou nenhum nome?

– Ele disse Julian, ou eu pensei tê-lo ouvido dizer Julian. Poderia ter sido Júlia, acho. Mas até onde sei, não há nenhuma Júlia vivendo em Chipping Cleghorn.

Ela apertou os olhos enquanto se lembrava da cena. O homem deitado nos degraus da capela, a luz entrando pela janela, brilhando como joias azuis e vermelhas.

– Joias – disse Miss Marple, pensativa.

– Agora estou chegando – disse Bunch – na parte mais importante de todas. A senhora vê, o sr. e a sra. Eccles fizeram a maior questão de ficar com o casaco do falecido. Nós o tiramos quando o médico estava examinando ele. Era um casaco velho e surrado, não haveria nenhuma razão para eles quererem tanto a peça. Eles fingiram que era algo sentimental, mas aquilo foi pura tolice. De qualquer maneira, subi até o andar de cima para buscá-lo, e quando eu estava subindo as escadas, me lembrei que ele havia feito um gesto com a mão, tateando o casaco como se quisesse pegar alguma coisa. Então, quando peguei o casaco, examinei-o bem e vi que, numa das partes, o forro havia sido recosturado com uma linha diferente. Então eu descosturei essa parte e encontrei um pequeno pedaço de papel lá dentro. Tirei o papel e costurei o forro novamente com a linha apropriada. Fui muito cuidadosa e não acho que o sr. e a sra. Eccles notaram o que eu fiz. Acho que eles não notaram, mas não posso ter certeza. Depois eu desci com o casaco, entreguei a eles e inventei alguma desculpa para a demora.

– E o pedaço de papel? – perguntou Miss Marple.

Bunch abriu sua bolsa.

– Não mostrei para Julian – ela disse –, porque ele teria dito que eu deveria tê-lo entregado ao sr. e a sra. Eccles. Mas pensei que seria melhor trazê-lo para a senhora em vez disso.

– Um canhoto de guarda-volumes – disse Miss Marple olhando para o papel. – Estação de Paddington.

– Ele tinha uma passagem de volta para Paddington no bolso – disse Bunch.

Os olhos das duas mulheres se encontraram.

– Precisamos agir – disse Miss Marple vivamente. – Mas seria aconselhável ter muita cautela. Você notou, minha querida Bunch, se estava sendo seguida em sua vinda para Londres esta tarde?

– Seguida! – exclamou Bunch. – A senhora não acha que...

– Bem, eu acho que é possível – disse Miss Marple. – Quando tudo é possível nós temos que tomar precauções. – Ela se levantou num movimento rápido. – Você veio até aqui, minha querida, com o pretexto de ver as liquidações. Eu acho que a coisa certa a fazer seria irmos até algumas lojas. Mas antes de começarmos, é melhor fazermos alguns ajustes. Suponho – acrescentou Miss Marple sombriamente – que não precisarei do velho casaco de tweed com a gola de pele de castor esta tarde.

Cerca de uma hora e meia depois, as duas senhoras, muito mal vestidas e parecendo esgotadas, ambas agarradas a suados embrulhos contendo roupas de cama e mesa, sentaram-se numa pequena e isolada hospedaria chamada Galho de Maçã, para recuperar suas forças com uma torta de miúdos seguida de torta de maçã com creme.

– Com certeza são toalhas de rosto de qualidade, como as antigas – disse Miss Marple ofegante. – E têm um jota bordado. É uma alegre coincidência que a esposa de Raymond se chame Joan. Eu vou guardá-las até que sejam realmente necessárias, e elas poderão servir para Joan caso eu vá desta para melhor antes do esperado.

– Eu estava mesmo precisando de uns panos de prato – disse Bunch. – E estas peças estavam muito baratas, embora não tão baratas quanto as que aquela ruiva arrancou da minha mão.

Uma mulher jovem e elegante, usando uma quantidade considerável de blush e batom, entrou no Galho de Maçã naquele instante. Depois de olhar em volta por alguns instantes de modo vago, precipitou-se até a mesa onde estavam sentadas Bunch e Miss Marple. Ela colocou um envelope sobre a mesa perto de Miss Marple.

– Aqui está, Miss – ela disse alegremente.

– Obrigada, Gladys – disse Miss Marple. – Muito obrigada. Muito gentil da sua parte.

– É uma satisfação servi-la – disse Gladys. – Ernie sempre me diz, “Tudo de bom que você aprendeu foi com aquela Miss Marple para quem você trabalhou”, e sem dúvida eu sempre fico feliz em ajudá-la, senhora.

– Uma moça muito simpática – disse Miss Marple enquanto Gladys se retirava. – Sempre tão disposta e tão gentil.

Ela olhou dentro do envelope e depois o passou para Bunch.

– Agora tenha muito cuidado, querida – ela disse. – A propósito, aquele simpático inspetor ainda trabalha em Melchester?

– Não sei – disse Bunch. – Espero que sim.

– Bem, se não for este o caso – disse Miss Marple pensativamente –, posso ligar para o chefe de polícia. Acho que ele ainda deve estar lembrado de mim.

– É claro que ele vai lembrar da senhora – disse Bunch. – Qualquer pessoa se lembraria da senhora. A senhora é única – ela concluiu.

Chegando a Paddington, Bunch se dirigiu ao guichê de bagagens e apresentou o canhoto do guarda-volumes. Após alguns instantes uma velha e surrada mala foi entregue a ela, e carregando-a ela caminhou até a plataforma.

A viagem de volta para casa foi tranquila. Bunch levantou-se quando o trem se aproximou de Chipping Cleghorn e pegou a velha mala. Assim que ela desceu do vagão, um homem, correndo rapidamente ao longo da plataforma, puxou de repente a mala da mão de Bunch e saiu, disparado com ela.

– Pare! – gritou Bunch. – Detenham-no! Ele pegou a minha mala!

O bilheteiro que, nessa estação rural, era um homem de reações um tanto lentas, apenas começara a dizer: “Olhe aqui, você não pode fazer isso...”, quando um forte golpe no peito o empurrou para o lado, e o homem correu para fora da estação, carregando a mala. Ele foi até um carro que o esperava. Jogou a mala para dentro e estava prestes a segui-la, mas antes que pudesse se mover uma mão segurou seu ombro, e a voz do chefe de polícia Abel disse:

– E então, o que está acontecendo aqui?

Bunch chegou ofegante, vinda da estação.

– Ele roubou a minha mala. Eu tinha acabado de sair do trem com ela.

– Bobagem – disse o homem. – Eu não sei o que esta senhora está falando. Esta mala é minha. Eu acabo de descer do trem com ela.

Ele fitou Bunch com um olhar estúpido e imparcial. Ninguém diria que o chefe de polícia e a sra. Harmon haviam passado longos períodos, durante os intervalos de Abel, discutindo as respectivas virtudes do adubo e da farinha de ossos para as roseiras.

– A senhora afirma que a mala é sua? – disse o chefe de polícia Abel.

– Sim – disse Bunch. – Definitivamente.

– E o senhor?

– Eu digo que a mala é minha.

Era um homem alto, moreno e bem-vestido, falava lentamente e agia de maneira superior. Uma voz feminina vinda de dentro do carro disse:

– É claro que esta mala é sua, Edwin. Eu não sei do que esta mulher está falando.

– Vamos ter que esclarecer esta situação – disse o chefe de polícia Abel. – Se esta mala é sua, madame, diga-me o que tem dentro dela.

– Roupas – disse Bunch. – Um longo casaco de tweed com gola de pele de castor, dois blusões de lã e um par de sapatos.

– Bem, isso foi claro o suficiente – disse o policial. Ele voltou-se para o outro.

– Eu sou figurinista de teatro – disse o homem com arrogância. – Esta mala contém objetos cenográficos que eu trouxe até aqui para uma performance amadora.

– Muito bem, senhor – disse o chefe de polícia Abel. – Bem, vamos ter que dar uma olhada, não é? Podemos ir até a delegacia de polícia ou, se estiverem com pressa, podemos levar a mala até a estação e abri-la lá mesmo.

– Para mim está bem assim – disse o homem moreno. – A propósito, meu nome é Moss, Edwin Moss.

O chefe de polícia, carregando a mala, voltou para a estação.

– Só vou levar isto até o setor de despacho, George – ele disse ao bilheteiro.

O chefe de polícia Abel colocou a mala sobre a bancada do despacho e puxou o fecho para trás. A mala não estava chaveada. Bunch e o sr. Edwin estavam um de cada lado do policial, os olhares se encontrando num mesmo sentimento de vingança.

– Ah! – disse o chefe de polícia Abel, conforme puxava a tampa.

Do lado de dentro, primorosamente dobrado, estava um surrado casaco de tweed com uma gola de pele de castor. Havia também dois blusões de lã e um par de sapatos.

– Exatamente como a senhora havia dito, madame – disse o policial voltando-se para Bunch.

Ninguém podia dizer que o sr. Edwin Moss não fazia as coisas direito. Sua consternação e remorso foram impressionantes.

– Me desculpe – ele disse. – Mil perdões. Por favor, acredite em mim, cara senhora, quando eu lhe digo que sinto muitíssimo. É imperdoável, totalmente imperdoável o meu comportamento – ele olhou para o seu relógio. – Bem, tenho que ir agora. É provável que a minha mala tenha ido com o trem.

Levantando mais uma vez seu chapéu, ele disse docemente a Bunch:

– Perdoe, senhora – e saiu apressado da sala de despacho.

– O senhor vai deixá-lo escapar? – perguntou Bunch em tom conspirador ao chefe de polícia.

O último fechou lentamente um de seus olhos apáticos numa piscadela.

– Ele não irá muito longe, dona – ele disse. – Quero dizer, ele não irá muito longe sem que seja visto, se a senhora me entende.

– Ah – disse Bunch aliviada.

– Aquela velha senhora me telefonou – disse o chefe de polícia Abel –, aquela que esteve aqui há alguns anos. Esperta ela, não é? Mas hoje teve muito movimento por aqui. É provável que o inspetor ou o sargento fale com a senhora amanhã de manhã.

 

III

 

Foi o inspetor quem compareceu, o inspetor Craddock, de quem Miss Marple havia se lembrado. Ele cumprimentou Bunch com um sorriso nos lábios, como um velho amigo.

– Mais um crime em Chipping Cleghorn – ele disse animado. – Aqui não se sente falta de emoção, não é, sra. Harmon?

– Eu estaria satisfeita com bem menos – disse Bunch. – O senhor veio para me fazer perguntas ou para me contar alguma coisa, afinal?

– Primeiro eu vou lhe contar algumas coisas – disse o inspetor. – Para começar, o sr. e a sra. Eccles já estavam sendo vigiados havia algum tempo. Há suspeitas de que eles estejam envolvidos em diversos roubos na região. E mais, embora a sra. Eccles tenha um irmão chamado Sandbourne, que há pouco voltou do exterior, o homem que a senhora encontrou agonizando na igreja ontem definitivamente não era Sandbourne.

– Eu sabia que não era ele – disse Bunch. – Para começar seu nome era Walter, e não William.

O inspetor concordou com um aceno de cabeça.

– O nome dele era Walter St. John, e ele havia fugido da prisão de Charrington 48 horas antes.

– Claro – disse Bunch baixinho para si mesma –, ele estava sendo perseguido pela lei e procurou um santuário.

Então ela perguntou:

– O que ele havia feito?

– Vou ter que retroceder bastante para lhe contar. É uma história complicada. Há muitos anos, havia uma certa dançarina que apresentava números num teatro de variedades. A senhora provavelmente nunca ouviu falar dela, mas ela havia se especializado numa dança de As mil e uma noites: “Aladim na Caverna das Joias”, como era chamada. Ela usava alguns diamantes falsos e pouquíssima roupa. Não era uma grande dançarina, mas era bem atraente. De qualquer modo, um nobre asiático se apaixonou por ela. Entre outras coisas, ele a presenteou com um magnífico colar de esmeraldas.

– As históricas joias de Rajah? – murmurou Bunch extasiada.

O inspetor Craddock tossiu.

– Bem, uma versão mais moderna, sra. Harmon. O caso não durou muito tempo. Acabou-se quando a atenção do potentado foi capturada por uma estrela de cinema cujas exigências eram bem menos modestas.

“A dançarina, vamos chamá-la de Zobeida, seu nome artístico, ficou com o colar, e este foi roubado pouco tempo depois. O colar desapareceu do seu camarim no teatro, e havia uma suspeita fundada das autoridades de que ela mesma haveria planejado o sumiço. Esse tipo de coisa era um golpe para chamar a atenção, para encobrir algo ainda mais desonesto. O colar nunca foi recuperado, mas durante o curso da investigação a atenção da polícia se voltou para esse homem, Walter St. John. Era um homem de boas maneiras e boa formação, que havia entrado em decadência e trabalhava como vendedor de joias para uma firma um tanto obscura, que era suspeita de ser receptadora de joias roubadas. Havia evidências de que este colar havia passado por suas mãos. Porém, foi só quando se pôde provar a sua ligação com outro ladrão de joias que ele foi enfim levado a julgamento e condenado à prisão. A pena não seria muito longa, por isso sua fuga pegou a todos de surpresa.

– Mas por que ele veio até aqui? – perguntou Bunch.

– É isso que nós queremos descobrir, sra. Harmon. Seguindo seu rastro, parece que ele foi primeiro a Londres. Não visitou nenhum de seus antigos sócios, mas visitou uma senhora idosa, a sra. Jacobs, que havia sido figurinista de teatro anteriormente. Ela não quis dizer uma palavra sobre o motivo de sua visita, mas de acordo com outros inquilinos da residência, ele saiu de lá carregando uma mala.

– Entendo – disse Bunch. – Ele deixou a mala no guarda-volumes em Paddington e veio até aqui.

– A essa altura – disse o inspetor Craddock –, Eccles e o homem que se apresentou como Edwin Moss já estavam em seu encalço. Eles queriam aquela mala. Eles o viram entrar no ônibus. Devem ter vindo de carro um pouco à frente e esperado que ele saísse do ônibus.

– E então ele foi assassinado? – disse Bunch.

– Sim – disse Craddock. – Ele foi baleado. O revólver era de Eccles, mas eu acho que foi Moss quem atirou. Agora, sra. Harmon, o que queremos saber é: onde está a mala que Walter St. John de fato guardou na estação de Paddington?

Bunch deu uma risada.

– Acho que já deve estar com a tia Jane – ela disse –, quero dizer, Miss Marple. Este era o plano dela. Mandou uma antiga empregada fazer uma mala com algumas coisas dela e depositá-la no guarda-volumes de Paddington. Depois, nós trocamos de recibo. Retirei a mala que a empregada havia deixado e a trouxe de trem. Miss Marple já estava prevendo que haveria alguma tentativa de tomar a mala de mim.

Foi a vez de o inspetor Craddock rir.

– Foi o que ela disse quando telefonou. Vou até Londres para vê-la. A senhora quer vir junto, sra. Harmon?

– Bem... – disse Bunch, pensativa. – Bem... para falar a verdade, é uma grande coincidência. Eu tive uma dor de dente na noite passada, então realmente devo ir a Londres para fazer uma visita ao dentista, não devo?

– Definitivamente – disse o inspetor Craddock...

Miss Marple correu os olhos do rosto do inspetor Craddock diretamente para o rosto ávido de Bunch Harmon. A mala estava sobre a mesa.

– É claro que não a abri – disse a velha senhora. – Nunca pensaria em fazer qualquer coisa antes que chegasse alguma autoridade. Além do que – ela acrescentou com um recatado e comedido sorriso malicioso –, ela está trancada.

– A senhora gostaria de arriscar um palpite sobre o que tem dentro, Miss Marple?

– Imagino – disse Miss Marple – que sejam os figurinos de Zobeida. O senhor gostaria de um cinzel, inspetor?

O cinzel logo cumpriu sua função. As duas mulheres deram uma leve arfada quando a tampa abriu. A luz do sol vinda da janela iluminou o que parecia um inesgotável tesouro de joias brilhantes: vermelhas, azuis, verdes, laranjas.

– A Caverna de Aladim – disse Miss Marple. – As joias falsas que a garota usava para dançar.

– Ah! – disse o inspetor Craddock – O que há de tão precioso nisto para que um homem tenha sido assassinado em nome de sua captura?

– Ela era uma garota esperta, acredito – disse Miss Marple pensativamente. – Ela já está morta, não está, inspetor?

– Sim, morreu há três anos.

– Ela tinha um valioso colar de esmeraldas – disse Miss Marple, refletindo. – Retirou as pedras do cordão e as ajustou aqui e ali em suas fantasias de teatro, onde todos as veriam como meras pedras de vidro colorido. Então mandou fazer uma réplica do colar verdadeiro, e essa réplica, obviamente, é que foi roubada. É por isso que nunca chegou ao mercado. O ladrão logo descobriu que as pedras eram falsas.

– Tem um envelope aqui – disse Bunch, empurrando algumas das pedras brilhantes.

O inspetor Craddock pegou o envelope das mãos de Bunch e tirou dele dois documentos oficiais. Leu em voz alta:

– “Certidão de Casamento entre Walter Edmund St. John e Mary Moss.” Esse era o verdadeiro nome de Zobeida.

– Então eles eram casados – disse Miss Marple. – Muito bem.

– O que é o outro papel? – perguntou Bunch.

– A certidão de nascimento de uma filha, Jewel.

– Jewel? – gritou Bunch. – Mas é claro. Jewel! Jill! É isso. Agora eu entendo por que ele veio para Chipping Cleghorn. É isso que ele estava tentando me dizer. Jewel. O sr. e a sra. Mundy. Laburnum Cottage. Eles criam uma menininha para alguém. Eles são muito afeiçoados a ela. Eles a tratam como se fosse sua própria neta. Sim, agora eu me lembro, o nome dela era Jewel, só que, é claro, eles a chamam de Jill. A sra. Mundy teve um derrame há mais ou menos uma semana, e o sr. Mundy está muito doente, pneumonia. Os dois iam ter que ir para o hospital. Tenho tentado encontrar um bom lar para Jill. Não queria que ela fosse levada para uma instituição. Acho que seu pai deve ter ouvido essas notícias na prisão e dado um jeito de escapar e de pegar esta mala que, ele ou a sua mulher, havia deixado com a velha figurinista. Suponho que se as joias de fato pertenciam à sua mãe, elas podem ser usadas para ajudar a menina agora.

– Imagino que sim, sra. Harmon. Se elas estiverem aqui.

– Ah, elas estarão aqui com certeza – disse Miss Marple animada.

IV

 

– Graças a Deus você está de volta, querida – disse o reverendo Julian Harmon, saudando sua esposa com afeição e uma ponta de satisfação. – A sra. Burt sempre faz o melhor que pode quando você não está, mas ela me serviu uns bolinhos de peixe muito peculiares no almoço. Eu não queria

magoá-la, então os dei para o Tiglath-Pileser[2], mas nem ele quis comê-los, então eu tive que jogá-los pela janela.

– Tiglath-Pileser – disse Bunch acariciando o gato do vicariato, que estava ronronando encostado ao seu joelho – é muito seletivo em relação aos peixes que come. Sempre digo que ele tem um paladar refinado!

– E o seu dente, querida? Resolveu o problema?

– Sim – disse Bunch. – Nem doeu muito, e já aproveitei para visitar a tia Jane de novo.

– Querida velhinha – disse Julian. – Espero que ela não esteja muito debilitada.

– Nem um pouco – disse Bunch com uma risada.

Na manhã seguinte Bunch levou uma leva fresca de crisântemos para a igreja. O sol estava mais uma vez vertendo pela janela leste, e Bunch parou nos degraus do altar sob a luz brilhante. Numa voz muito baixa e suave ela disse:

– A sua menininha vai ficar bem. Vou cuidar para que isso aconteça. Eu prometo.

Então ela arrumou a igreja, foi até um banco e se ajoelhou por alguns momentos para fazer suas preces. Depois teria que retornar ao vicariato para enfrentar as tarefas acumuladas de dois dias de ausência.