Os Últimos Casos de Miss Marple
A boneca da modista
I
A boneca estava sobre a enorme poltrona de veludo. Não havia muita luz na peça; o céu de Londres estava escuro. Na suave penumbra, de um cinza esverdeado, as cobertas e as cortinas e os tapetes combinavam entre si, todos mantendo uma tonalidade sóbria de verde. A boneca também combinava com o cenário. Estava estendida, frouxa, bem espalhada em suas roupas de veludo verde, com sua touquinha feita do mesmo material, a face pintada. Ela era uma boneca de estimação, um capricho de mulheres ricas, a boneca refestelada ao lado do telefone, ou entre as almofadas do divã. Esparramava-se por ali, eternamente imóvel, mas estranhamente viva. Parecia um produto decadente do século XX.
Sybil Fox, entrando às pressas com alguns tecidos e croquis, olhou para a boneca com uma discreta sensação de surpresa e espanto. Ficou um pouco confusa, mas qualquer que tenha sido a natureza de sua confusão, não chegou à consciência. Em vez disso, perguntou a si mesma, “bem, o que aconteceu com o tecido de veludo azul? Onde o coloquei? Tenho certeza de que ele estava por aqui”. Foi até o patamar da escada e disse em direção à sala de trabalho:
– Elspeth, Elspeth, o tecido azul está por aí? A sra. Fellows-Brown estará aqui a qualquer momento.
Voltou a entrar na peça, acendendo as luzes. Novamente lançou um olhar para a boneca. “Mas que diabos, onde pode estar esse... Ah, aqui está.” Recolheu o tecido de onde ele caíra de suas mãos. Houve o costumeiro estalar do lado de fora, vindo do patamar, sinal de que o elevador fizera uma parada, e, depois de um ou dois minutos, a sra. Fellows-Brown, acompanhada de seu pequinês, entrou ofegante na peça, mais parecendo um trem barulhento que chegava a uma estação pouco movimentada.
– Vai vir uma chuvarada – ela disse –, uma água daquelas.
Desfez-se de suas luvas e de um casaco de pele. Alicia Coombe entrou. Nos últimos tempos, não era sempre que vinha, somente quando alguma cliente especial aparecia, o que por certo era o caso da sra. Fellows-Brown.
Elspeth, a encarregada da sala de costura, desceu com o vestido, e Sybil o passou pela cabeça da sra. Fellows-Brown.
– Aí está – ela disse –, acho que ficou bom. Sim, com certeza, acertamos em cheio.
A sra. Fellows-Brown ficou de lado e olhou-se no espelho.
– Devo confessar que suas roupas realmente dão um jeito de esconder a minha bunda – ela disse.
– Você está muito mais magra do que estava três meses atrás – garantiu-lhe Sybil.
– Para ser sincera, não – disse a sra. Fellows-Brown –, embora eu deva dizer que pareço mais magra neste vestido. Há alguma coisa no corte de vocês que realmente diminui a minha bunda. É quase como se eu não tivesse bunda nenhuma, quero dizer, como se tivesse uma como a maioria das pessoas tem.
Ela suspirou e cuidadosamente alisou a parte problemática de sua anatomia.
– Isso sempre foi uma dificuldade para mim – ela continuou. – Claro, por muitos anos eu consegui entrar nos vestidos, vocês sabem, esticando bem a parte da frente. Bem, mas agora isso não funciona mais, porque minha barriga está tão grande quanto a parte de trás. E bem, quero dizer, não se pode apertar dos dois lados, não é mesmo?
Alicia Coombe disse:
– A senhora deveria ver algumas das minhas clientes!
A sra. Fellows-Brown desfilou com o vestido para lá e para cá.
– Ter barriga é pior do que ter uma bunda grande – ela disse. – Aparece mais. Ou talvez a gente tenha essa impressão porque, quero dizer, quando estamos falando com as pessoas a gente está olhando para elas de frente, ou seja, elas não podem ver nossa bunda, mas podem ver nossa barriga. Seja o que for, decidi que é melhor apertar a barriga e deixar a bunda como está.
Ela estendeu o pescoço e o girou ainda mais, e então, de súbito, disse:
– Oh, essa boneca de vocês! Ela me dá arrepios. Há quanto tempo a tem?
Sybil lançou um olhar incerto para Alicia Coombe, que parecia confusa, mas não muito preocupada.
– Não lembro bem... acho que já faz algum tempo. Não sou boa em lembrar das coisas. Ando cada vez pior, simplesmente não consigo lembrar de nada. Sybil, há quanto tempo nós a temos?
Sybil disse com rapidez:
– Não sei.
– Bem – disse a sra. Fellows-Brown –, ela me deixa arrepiada. Bizarro! Parece que ela está nos observando, sabe, e talvez até rindo debaixo daquelas mangas de veludo. Eu me livraria dela se fosse vocês. – Tremeu de leve, então passou novamente a tratar dos detalhes da confecção do vestido. Deveria ou não encurtar um pouquinho mais as mangas? Depois que todos esses pontos importantes foram decididos de modo satisfatório, a sra. Fellows-Brown voltou a vestir sua própria roupa e se preparou para sair. Ao passar pela boneca, virou novamente a cabeça.
– Não – ela disse –, eu não gosto dessa boneca. É como se pertencesse à casa. Isso não é saudável.
– O que será que ela quis dizer com isso? – perguntou Sybil, assim que a sra. Fellows-Brown desceu as escadas.
Antes que Alicia Coombe pudesse responder, a sra. Fellows-Brown retornou, enfiando a cabeça pela porta.
– Meu bom Deus, esqueci completamente de Fou-Ling. Onde está você, queridinho? Bem, vejam só!
Ela fixou os olhos, assim como as outras duas mulheres. O pequinês estava sentado na poltrona de veludo verde, o olhar cravado na boneca estirada. Não havia qualquer expressão em seus olhinhos saltados, fosse de prazer ou ressentimento. Ele estava apenas olhando para o objeto.
– Vem cá, queridinho da mamãe – disse a sra. Fellows-Brown.
O queridinho da mamãe não deu a mínima bola para ela.
– Ele está se tornando a cada dia mais desobediente – disse a sra. Fellows-Brown, com o ar de quem fosse capaz de catalogar virtudes. – Vamos, Fou-Ling. Hora do papazinho. Um figadozinho saboroso.
Fou-Ling moveu a cabeça alguns centímetros na direção de sua dona, então, cheio de desdém, voltou a apreciar a boneca.
– Ela certamente o impressionou – disse a sra. Fellows-Brown. – Não creio que ele a tivesse notado antes. Eu também não a tinha visto. Ela já estava aqui na última vez que eu vim?
As duas outras mulheres trocaram um olhar entre si. Sybil agora tinha o cenho franzido, e Alicia Coombe disse, enrugando a testa:
– Já lhe disse, simplesmente não consigo lembrar das coisas nos últimos tempos. Há quanto tempo a boneca está conosco, Sybil?
– De onde ela veio? – perguntou a sra. Fellows-Brown. – Vocês a compraram?
– Oh, não. – De algum modo a ideia a surpreendeu. – Oh, não. Acho que... acho que alguém deve ter me presenteado com ela. – Ela balançou a cabeça. – Isso é enlouquecedor! – exclamou. – Absolutamente enlouquecedor quando as coisas se apagam da sua cabeça logo depois de acontecer.
– Não seja estúpido, Fou-Ling – disse a sra. Fellows-Brown com rispidez. – Vamos. Terei que pegar você.
Ela o apanhou. Fou-Ling emitiu um curto latido como forma de agônico protesto. Saíram da peça com a cara de olhos esbugalhados voltada para trás, por sobre o tronco peludo, encarando ainda com enorme atenção a boneca sobre a poltrona...
– Aquela boneca ali – disse a sra. Groves – é de arrepiar os cabelos.
A sra. Groves era a faxineira. Ela acabara de limpar o chão, movendo-se como se fosse um caranguejo. Agora estava de pé e trabalhava vagarosamente na peça retirando o pó.
– Engraçado – disse a sra. Groves –, até ontem, eu nunca tinha reparado nela. E então fui pega de surpresa por ela, como se diz.
– Você não gosta dela? – perguntou Sybil.
– Confesso, sra. Fox, que ela me provoca arrepios – disse a faxineira. – Não é algo normal, se a senhora me entende. Essas pernas longas, o modo como ela se espalha por ali e o olhar penetrante cravado na gente. Não parece uma coisa saudável, é isso.
– Você nunca disse nada sobre ela antes – disse Sybil.
– Estou lhe dizendo, nunca tinha percebido a boneca, só notei hoje de manhã... É claro que eu sei que ela já estava há algum tempo por aí, mas... – Ela parou e uma expressão de perplexidade passou rapidamente por seu rosto. – Parece uma dessas coisas que a gente sonha à noite – ela disse e, juntando vários materiais de limpeza, se retirou da sala de prova, seguindo pelo patamar até a peça oposta.
Sybil parou diante da boneca. Uma expressão de espanto crescia em sua face. Alicia Coombe entrou e Sybil se voltou bruscamente.
– Srta. Coombe, há quanto tempo a senhorita tem essa criatura?
– O quê, a boneca? Minha querida, você sabe que não consigo lembrar de nada. Ontem, meu Deus, isso é tão ridículo!, eu estava indo assistir àquela palestra e não estava nem no meio do caminho quando descobri, de repente, que não conseguia lembrar para onde eu ia. Pensei e pensei. Finalmente disse para mim mesma: deve ser no Fortnums. Sabia que tinha algo importante para mim no Fortnums. Bem, você não vai acreditar, mas foi somente quando já estava em casa, tomando meu chá, que lembrei de fato da tal palestra. Claro, sempre escutei que as pessoas ficam gagás à medida que envelhecem, mas comigo está acontecendo muito rápido. Acabei de esquecer onde pus minha bolsinha, e também meus óculos. Onde foram parar esses malditos óculos? Estava com eles agora mesmo... Estava lendo alguma coisa no Times.
– Os óculos estão sobre a lareira – disse Sybil, alcançando-os a ela. – Como a senhorita conseguiu essa boneca? Quem lhe deu?
– Também isso não me vem, é um branco – disse Alicia Coombe. – Alguém me deu de presente ou a enviou para mim, acho... No entanto, ela parece combinar perfeitamente com a sala, não?
– Sim, me parece muito bem – disse Sybil. – O engraçado é que não consigo me lembrar da primeira vez que a vi.
– Por favor, não comece a seguir o mesmo caminho que eu – admoestou-a Alicia Coombe. – Afinal, você ainda é jovem.
– Mas é verdade, srta. Coombe, não consigo me lembrar. Quero dizer, olhei para ela ontem e achei que havia algo, como bem disse a sra. Groves, algo assustador nela. E então me dei conta que já havia pensado nisso, e então tentei me lembrar da primeira vez que tinha pensado nisso, e... bem, eu simplesmente não conseguia lembrar de nada! De certa maneira, era como se eu nunca a tivesse visto antes... só que uma sensação aqui dentro dizia o contrário. Era como se ela estivesse ali há um longo tempo, mas só agora eu a notasse.
– Talvez ela tenha entrado voando pela janela certo dia num cabo de vassoura – disse Alicia Coombe. – Seja como for, agora este é o seu lar. – Ela deu uma olhada ao redor. – É difícil imaginar esta sala sem ela, não lhe parece?
– Pois é – disse Sybil, com um leve tremor –, mas eu gostaria de poder.
– O quê?
– Imaginar a sala sem ela.
– Será que estamos todas ficando malucas com a boneca? – perguntou Alicia Coombe com impaciência. – O que há de errado com a pobrezinha? Parece-me um repolho podre, mas talvez – ela acrescentou – porque eu esteja sem meus óculos. – Ela colocou-os no nariz e olhou fixamente para a boneca. – Sim – ela disse –, entendo o que você quer dizer. Ela é assustadora... Tem uma aparência triste, mas ao mesmo tempo parece astuta e bastante determinada.
– Engraçado – disse Sybil – a sra. Fellows-Brown ter sentido tanta aversão pela boneca.
– Ela é do tipo que não se importa em dizer o que lhe vem à cabeça – disse Alicia Coombe.
– Mas é estranho – insistiu Sybil – que essa boneca tenha lhe causado tão forte impressão.
– Bem, as pessoas às vezes sentem uma súbita antipatia pelas coisas.
– Talvez – disse Sybil com um risinho – essa boneca não estivesse aí até ontem... Talvez ela tenha entrado voando pela janela, como a senhorita diz, e tenha se acomodado ali.
– Não – disse Alicia Coombe –, tenho certeza que ela já está ali há algum tempo. Talvez ela só tenha ficado à vista ontem.
– É o que eu acho também – disse Sybil –, que ela já está ali há algum tempo... mas, por outro lado, não consigo lembrar de tê-la visto até ontem.
– Agora, querida – disse Alicia Coombe vigorosamente –, basta. Você está fazendo eu me sentir bastante estranha por causa disso, sinto uns arrepios subindo pela minha espinha. Você não vai começar com uma série de crendices e eventos sobrenaturais para explicar a criatura, vai?
Ela apanhou a boneca, deu-lhe uma chacoalhada, arrumou seus ombros e a fez sentar novamente sobre a poltrona. Sem demora a boneca deslizou um pouco e perdeu a postura.
– Não parece viva, de modo algum – disse Alicia Coombe, olhando para a boneca. – Ainda assim, de um modo engraçado, ela parece viva, não é?
II
– Ah, aquela coisa me perturba – disse a sra. Groves, enquanto percorria o salão de exposição, tirando o pó. – Perturba de tal maneira que tenho pavor de entrar na sala de prova.
– O que é que perturba você? – perguntou a srta. Coombe, que estava sentada na escrivaninha no canto da peça, ocupada com várias contas. – Essa mulher – ela acrescentou, mais para si mesma do que para a sra. Groves – acha que pode ter dois vestidos de noite, três vestidos de baile e um traje completo a cada ano sem me pagar um centavo sequer por eles! Realmente, cada uma que me aparece!
– É aquela boneca – disse a sra. Groves.
– O quê? Está falando de nossa boneca outra vez?
– Sim, sentada lá sobre a mesa, como se fosse gente. Ela me assusta demais!
– Do que você está falando?
Alicia Coombe se levantou, cruzou a sala, passou pelo patamar lá fora e entrou na sala oposta – o provador. Havia uma pequena mesa ao estilo
Sheraton[6] num dos cantos, e lá, sentada numa cadeira, com os longos braços estendidos sobre o tampo, estava a boneca.
– Parece que alguém andou se divertindo – disse Alicia Coombe –, fazendo-a sentar dessa maneira. Realmente, ela parece bem natural.
Sybil Fox apareceu naquele momento, vinda do andar superior, trazendo um vestido que deveria ser provado naquela manhã.
– Venha aqui, Sybil. Veja a nossa boneca, sentada na minha mesa particular, agora ela escreve cartas.
As duas mulheres olharam a cena.
– Realmente – disse Alicia Coombe –, é ridículo! Me pergunto quem a colocou ali. Foi você?
– Não, não fui eu – disse Sybil. – Deve ter sido uma das garotas lá de cima.
– Uma brincadeira totalmente sem graça – disse Alicia Coombe. Ela tirou a boneca de cima da mesa e a colocou de novo no sofá.
Sybil acomodou com cuidado o vestido sobre uma cadeira, depois saiu e subiu mais uma vez para a oficina.
– Vocês já viram uma boneca – ela disse –, uma boneca de veludo que fica na sala da srta. Coombe, na sala de prova?
A encarregada da oficina e as três garotas a olharam.
– Sim, senhorita, claro que já vimos.
– Quem de brincadeira a colocou sentada na mesa hoje de manhã?
As três garotas olharam para ela, então Elspeth, a encarregada, disse:
– Sentada na mesa? Não fui eu.
– Nem eu – disse uma das garotas. – Foi você, Marlene?
Marlene negou com a cabeça.
– Não foi mesmo uma piadinha sua, Elspeth?
– Não, de jeito nenhum – disse Elspeth, uma mulher rígida, que parecia trazer a boca sempre cheia de alfinetes. – Tenho mais o que fazer do que ficar brincando com bonecas.
– Escutem – disse Sybil, e para sua surpresa sua voz tremia um pouco. – Foi uma ótima piada, isso foi, eu só quero saber quem foi que fez isso.
As três garotas se eriçaram.
– Já lhe dissemos, sra. Fox. Nenhuma de nós fez isso, certo, Marlene?
– Não fui eu – disse Marlene –, e se Nellie e Margaret disseram que não foram elas, bem, então não foi nenhuma de nós.
– Já dissemos o que sabíamos – disse Elspeth. – Do que se trata afinal, sra. Fox?
– Não pode ter sido a sra. Groves? – perguntou Marlene.
Sybil balançou a cabeça.
– Não pode ter sido a sra. Groves. Ela levou um senhor susto.
– Vou descer para ver isso com meus próprios olhos – disse Elspeth.
– Ela já não está mais lá – disse Sybil. – A srta. Coombe já a recolheu da mesa e a colocou de volta no sofá. Bem – ela fez uma pausa –, isso significa que alguém a sentou lá na escrivaninha achando que ia ser engraçado. É o que me parece. E... e eu não consigo entender por que a piadista não se entrega.
– Já lhe disse duas vezes, sra. Fox – disse Margaret. – Não sei por que a senhora insiste em nos acusar de mentirosas. Não faríamos uma brincadeira tola dessas.
– Me desculpem – disse Sybil. – Não queria incomodá-las. Mas... mas quem mais poderia fazer uma tontice dessas?
– Talvez ela tenha chegado até a mesa com suas próprias pernas – disse Marlene e deu uma risadinha.
Por alguma razão, Sybil não gostou do comentário.
– Na verdade nada disso faz sentido – ela disse, e voltou a descer as escadas.
Alicia Coombe murmurava faceira uma melodia. Olhou ao redor da sala.
– Perdi meus óculos de novo – ela disse –, mas não tem importância. Não quero ver nada neste momento. O problema, claro, é que quando alguém é tão cego como eu e perde seus óculos, a não ser que tenha um outro par para pôr enquanto procura o que está perdido, não poderá achá-los, porque simplesmente não enxerga nada.
– Eu vou dar uma olhada para a senhorita – disse Sybil. – Há pouco a senhorita ainda estava com eles.
– Fui até a outra peça quando você subiu. Acho que os deixei por lá.
Ela foi até a outra peça.
– Que chateação – disse Alice Coombe. – Quero fechar essas contas. Como posso fazer isso sem meus óculos?
– Vou lá em cima e pego seu par sobressalente no quarto – disse Sybil.
– Não tenho um segundo par aqui comigo – disse Alice Coombe.
– Por quê? O que aconteceu com ele?
– Bem, acho que o esqueci ontem quando fui almoçar. Já telefonei para lá, e também para as outras duas lojas em que estive.
– Ah, querida – disse Sybil –, acho que a senhorita precisa de três pares.
– Se eu tivesse três pares de óculos – disse Alicia Coombe – passaria o resto da vida procurando por eles. Acho mesmo que o melhor é ter apenas um par. Então é preciso procurar até encontrá-lo.
– Bem, deve estar em algum lugar – disse Sybil. – A senhorita só esteve nessas duas peças. Certamente não está aqui, então a senhorita deve tê-lo deixado na sala de prova.
Ela retornou, percorreu a peça, procurando com afinco. Finalmente, como último recurso, ela ergueu a boneca do sofá.
– Estão aqui – ela anunciou.
– Ah, você os encontrou, Sybil?
– Debaixo da preciosa boneca. Acho que a senhorita os tirou quando foi colocá-la de volta no sofá.
– Não. Tenho certeza que não.
– Oh – disse Sybil com exasperação. – Então acho que a boneca pegou os óculos e os estava escondendo da senhorita!
– Com certeza – disse Alicia, olhando pensativa para a boneca. – Sabe, eu não menosprezaria a capacidade dela. Parece uma boneca muito inteligente, não, Sybil?
– Não vou com a cara dela – disse Sybil. – Ela tem um ar de quem sabe alguma coisa que não sabemos.
– Você não acha que ela parece ter uma expressão um pouco triste e ao mesmo tempo doce? – perguntou Alicia Coombe apelativa, mas sem convicção.
– Não vejo qualquer doçura nela – disse Sybil.
– Pois é... talvez você esteja certa... Bem, vamos continuar nossas tarefas. Lady Lee estará aqui em dez minutos. Quero apenas terminar e despachar estas faturas.
III
– Sra. Fox? Sra. Fox?
– Sim, Margaret? – perguntou Sybil. – O que é?
Sybil estava ocupada, reclinada sobre a mesa, cortando um pedaço de cetim.
– Sra. Fox, é a boneca de novo. Fui descer o vestido preto como a senhora pediu e lá estava a boneca sentada na escrivaninha outra vez. E não fui eu que pus ela ali, não foi nenhuma de nós. Por favor, sra. Fox, nós não faríamos uma coisa dessas.
A tesoura de Sybil deslizou um pouco.
– Veja – ela disse zangada –, olha só o que você me fez fazer. Oh, bem, depois se dá um jeito. Agora, como é essa história da boneca?
– Ela está sentada na mesa outra vez.
Sybil foi até lá e entrou na sala de prova. A boneca estava sentada na cadeira do mesmo modo como já estivera antes.
– Você é muito determinada, não? – disse Sybil, falando com a boneca.
Ela a pegou sem cerimônia e devolveu-a ao sofá.
– Este é o seu lugar, minha garota – ela disse. – Fique aí.
Caminhou até a outra sala.
– Srta. Coombe.
– Sim, Sybil.
– Alguém está brincando conosco, sabe. A boneca estava sentada de novo na escrivaninha.
– Quem você acha que pode ser?
– Uma daquelas três lá de cima – disse Sybil. – Ela deve achar que é engraçado, decerto. Claro que todas elas juram que não têm nada a ver com isso.
– Quem você acha que é? Margaret?
– Não, acho que não é ela. Ela parecia bastante esquisita quando veio me falar. Apostaria na sorridente Marlene.
– De qualquer modo, é uma tolice completa fazer uma coisa dessas.
– Sim, claro, uma estupidez – disse Sybil. – No entanto – acrescentou com acidez –, vou pôr um fim nisso.
– O que fará?
– A senhorita já vai ver – disse Sybil.
Naquela noite, ao sair, ela chaveou a porta da sala de prova pelo lado de fora.
– Estou trancando esta porta – ela disse – e levando a chave comigo.
– Ah, entendo – disse Alicia Coombe, com um leve ar de divertimento. – Você começa a achar que sou eu, não é? Acha que estou tão atrapalhada que entro na sala a fim de escrever, mas em vez disso pego a boneca e a coloco na escrivaninha para escrever para mim. É essa a sua opinião? E depois eu me esqueço de tudo?
– Bem, é uma possibilidade – admitiu Sybil. – De toda maneira, tenho certeza de que nenhuma brincadeirinha acontecerá na sala esta noite.
Na manhã seguinte, com os lábios apertados, a primeira coisa que Sybil fez ao chegar foi destrancar a porta da sala de prova e entrar a largas passadas. A sra. Groves, com uma expressão injuriada, esfregão e espanador na mão, esperava no patamar.
– Veremos agora! – disse Sybil.
Então ela recuou com um fraco suspiro.
A boneca estava sentada na escrivaninha.
– Ui! – exclamou a sra. Groves às suas costas. – Que coisa estranha! Isso sim. Olhe para a senhora, sra. Fox, está muito pálida, como se tivesse visto uma assombração. A senhora precisa tomar alguma coisa. Será que a sra. Coombe não tem alguma coisa lá em cima?
– Estou bem – disse Sybil.
Caminhou até onde estava a boneca, levantou-a com cuidado e cruzou a sala com ela.
– Alguém está aplicando um truque na senhora outra vez – disse a sra. Groves.
– Não sei como alguém pode ter aplicado um truque em mim desta vez – disse Sybil devagar. – Tranquei a porta na noite passada. Você mesma sabe que não teria como alguém entrar aqui.
– Talvez alguém tenha outra chave – disse a sra. Groves, prestativa.
– Acho que não – disse Sybil. – Nós nunca nos preocupamos em trancar essa porta antes. É uma dessas chaves antigas e há somente uma delas.
– Talvez uma outra chave se encaixe, a chave da porta em frente.
Na sequência, elas testaram todas as chaves que havia na loja, mas nenhuma se encaixava na fechadura da sala de prova.
– Isso é estranho, srta. Coombe – disse Sybil mais tarde, enquanto almoçavam juntas.
Alicia Coombe parecia um bocado satisfeita.
– Minha querida – ela disse. – Acho isso simplesmente extraordinário. Creio que deveríamos escrever ao pessoal que desenvolve pesquisas psíquicas. Você sabe, eles talvez mandem um investigador, um médium ou algo assim para ver se há alguma coisa peculiar em relação à sala de prova.
– A senhorita não parece nem um pouco preocupada – disse Sybil.
– Bem, de certo modo, estou gostando disso – disse Alicia Coombe. – Quero dizer, na minha idade, é muito divertido quando coisas assim acontecem! Apesar disso, não... – acrescentou pensativa – ...não gosto do rumo que as coisas estão tomando. Quero dizer, essa boneca está saliente demais, não é verdade?
Naquela noite, Sybil e Alicia Coombe trancaram mais uma vez a porta pelo lado de fora.
– Continuo achando – disse Sybil – que alguém está fazendo uma piada conosco, embora, na verdade, eu não consiga entender por quê...
– Você acha que ela vai estar junto à escrivaninha amanhã de manhã? – perguntou Alicia.
– Sim – disse Sybil –, acho sim.
Mas as duas se enganaram. A boneca não estava na escrivaninha, estava sobre o peitoril da janela, olhando para a rua. E novamente havia uma extrema naturalidade em sua posição.
– É uma tolice, mas dá medo, não? – perguntou Alicia Coombe, enquanto tomavam uma rápida xícara de chá naquela tarde. Por consenso, elas não a mantinham na sala de prova, como de costume, mas na sala de Alicia Coombe, que ficava do outro lado.
– Tolice em que sentido?
– Bem, quero dizer, não há nada com que se preocupar. É apenas uma boneca que está sempre num lugar diferente.
À medida que os dias avançavam, parecia cada vez mais fácil observar o fenômeno. Agora não era apenas à noite que a boneca se movia. A qualquer momento que entrassem na sala de prova, depois de terem se ausentado por alguns minutos, podiam encontrar a boneca num lugar diferente. Deixavam-na no sofá e a encontravam numa poltrona. Em outra oportunidade, ocupava uma poltrona diferente da anterior. Algumas vezes aparecia sentada no peitoril da janela, noutras, outra vez na escrivaninha.
– Ela se movimenta de acordo com a própria vontade – disse Alicia Coombe. – E eu acredito, Sybil, que isso a diverte.
As duas mulheres ficaram olhando para aquela figura inerte e espraiada em seu veludo macio e solto, com seu rosto de seda pintado.
– Alguns pedaços de veludo e seda e um pouco de tinta, só isso – disse Alicia Coombe. Sua voz trazia certa constrição. – Creio que nós poderíamos nos livrar dela.
– O que a senhorita quer dizer com nos livrar dela? – perguntou Sybil. Sua voz revelava um certo espanto.
– Bem – disse Alicia Coombe –, nós podíamos pô-la no fogo, se houvesse fogo. Queimá-la, quero dizer, como se fosse uma bruxa... Ou, claro – acrescentou sem rodeios –, poderíamos simplesmente jogá-la na lata do lixo.
– Não creio que isso seria uma boa ideia – disse Sybil. – Alguém provavelmente veria a boneca no lixo e a traria de volta para a gente.
– Poderíamos também mandá-la para algum lugar – disse Alicia Coombe. – Você sabe, para uma dessas sociedades que estão sempre escrevendo para pedir alguma coisa para vender ou pôr num bazar. Acho que essa é a melhor ideia.
– Não sei... – disse Sybil. – Ficaria quase com medo de fazer isso.
– Medo?
– Bem, acredito que ela poderia voltar – disse Sybil.
– Você está dizendo que ela poderia voltar para cá?
– Sim, é isso que estou dizendo.
– Acho que estamos cada vez mais dementes, não lhe parece? – disse Alicia Coombe. – Talvez eu realmente esteja gagá e você esteja apenas me divertindo, é isso?
– Não – disse Sybil. – Mas estou com uma terrível e assustadora sensação, sabe, uma horrível sensação de que ela é forte demais para a gente.
– O quê? Esse monte de trapos?
– Sim, essa horrível e molenga mistura de trapos. Porque, veja, ela está tão determinada.
– Determinada?
– A seguir seu próprio caminho! Quero dizer, este é o quarto dela agora.
– Sim – disse Alicia Coombe, olhando ao seu redor –, é isso, não é?, a cor das paredes e tudo mais... Acreditava que ela se adaptava à sala, mas é a sala que se adapta a ela. Devo dizer – acrescentou a modista, com um toque de vivacidade na voz – que é meio absurdo que uma boneca chegue e tome posse das coisas. Você sabe, a sra. Groves já não vem limpar esta peça.
– Ela disse ter medo da boneca?
– Não. Simplesmente dá as mais variadas desculpas. – Então Alicia acrescentou, com uma nota de pânico: – O que vamos fazer, Sybil? Isso está me atrapalhando, sabe? Não consigo desenhar um vestido sequer há semanas.
– Não consigo me concentrar decentemente nos cortes – confessou Sybil. – Cometo os erros mais tolos. Talvez – ela disse receosa – sua ideia de escrever para um centro de pesquisas psíquicas possa dar certo.
– Isto fará apenas com que façamos papel de idiotas – disse Alicia Coombe. – Quando eu disse aquilo não estava falando sério. Não, acho que teremos que seguir em frente até que...
– Até que o quê?
– Oh, não sei – disse Alicia, e sorriu de modo incerto.
No dia seguinte, ao chegar, Sybil encontrou a porta da sala de prova trancada.
– Srta. Coombe, a senhorita tem a chave? Trancou a sala na noite passada?
– Sim – disse Alicia Coombe –, tranquei a porta e assim ela permanecerá.
– O que está dizendo?
– Que simplesmente desisti da peça. A boneca pode ficar com ela. Não precisamos de duas salas. Podemos nos virar com esta aqui.
– Mas é a sua sala de estar particular.
– Bem, não preciso mais dela. Tenho um ótimo quarto. Posso fazer uma sala de estar por lá, não?
– Está dizendo que não vai mais entrar na sala de prova? – perguntou Sybil com incredulidade.
– Exatamente.
– Mas... E quanto à limpeza? A peça ficará em péssimo estado.
– Que fique! – disse Alicia Coombe. – Se este lugar está sofrendo algum tipo de possessão por parte da boneca, tudo bem... deixe que ela mantenha suas posses. E que ela mesma limpe os seus aposentos. – E acrescentou: – Ela nos odeia, você sabe.
– O que está dizendo? – disse Sybil. – A boneca nos odeia?
– Sim – disse Alicia. – Você não sabia? Pois precisava saber. É impossível que não tenha percebido isso ao olhar para ela.
– Sim – disse Sybil de modo pensativo. – Acho que sim. Acho que senti isso desde o início... Ela sempre nos odiou, sempre quis que déssemos o fora daqui.
– É uma criaturinha maliciosa – disse Alicia Coombe. – Seja como for, ela deve estar satisfeita agora.
Depois disso, as coisas seguiram de maneira mais tranquila. Alicia Coombe anunciou às suas funcionárias que estava desativando momentaneamente a sala de prova, eram muitas salas para limpar e tirar o pó, explicou.
Mas isso mal pôde evitar que ela ouvisse, por acaso, naquela mesma noite, uma das garotas da oficina comentar à outra:
– Agora a srta. Coombe enlouqueceu de vez. Sempre achei ela um pouco estranha, o modo como esquecia ou perdia as coisas. Mas agora ela se superou, não? Foi longe essa história dela com a boneca lá de baixo.
– Oh, você não acha que ela enlouqueceu de verdade, não é? – perguntou a outra garota. – E se ela tentar nos matar a facadas?
As duas passaram, conversando, e Alicia sentou-se indignada em sua poltrona. Enlouquecendo! Então acrescentou com pesar para si mesma:
– Acho que se não fosse por Sybil, eu pensaria que estou mesmo ficando louca. Mas como tenho do meu lado Sybil e a sra. Groves, isso faz parecer que há alguma coisa acontecendo. Mas o que não tenho como saber é de que modo isso vai terminar.
Três semanas depois, Sybil disse para Alicia Coombe:
– Temos que entrar de vez em quando naquela sala.
– Por quê?
– Bem, quero dizer, ela deve estar numa terrível imundície. As traças devem estar tomando conta de tudo. Deveríamos ao menos tirar o pó e fazer uma faxina. Depois trancamos novamente.
– Eu preferia manter a peça fechada e não voltar a entrar – disse Alicia Coombe.
Sybil disse:
– Sabe, a senhorita é, de fato, ainda mais supersticiosa do que eu.
– Acho que sim – disse Alicia Coombe. – Estou muito mais disposta a acreditar nessas coisas do que você, mas, para começo de conversa, bem, eu acho esse acontecimento de certa maneira emocionante. Não sei. Simplesmente tenho medo, e prefiro não entrar naquela sala outra vez.
– Bem, eu quero entrar – disse Sybil –, e é o que farei.
– Sabe qual é o seu problema? – perguntou Alicia Coombe. – Você deixa que a curiosidade a domine completamente.
– Tudo bem, então sou curiosa. Quero ver o que a boneca fez.
– Continuo achando que é melhor deixá-la em paz – disse Alicia. – Agora que não entramos mais na sala, ela está satisfeita. O melhor que você pode fazer é deixá-la assim. – Deixou escapar um suspiro de exasperação. – Quanta tolice estamos dizendo!
– Sim, sei que o que estamos dizendo não faz nenhum sentido, mas se a senhorita quer me dar uma oportunidade de parar com essas tolices, passe-me a chave, vamos, agora.
– Tudo bem, tudo bem.
– Creio que a senhorita está com medo de que eu a deixe escapar ou algo assim. É mais fácil pensar que ela tem poderes para atravessar portas e janelas.
Sybill destrancou a porta e entrou.
– Nossa, isso é muito estranho – ela disse.
– O que é estranho? – disse Alicia Coombe, espiando por sobre o ombro da outra.
– Quase não há pó na sala, não é? Qualquer um pensaria que depois de todo esse tempo fechada...
– Sim, isso é mesmo estranho.
– Lá está ela – disse Sybill.
A boneca estava no sofá. Não estava estendida em sua tradicional posição relaxada. Sentava-se com aprumo, ereta, uma almofada apoiada atrás das costas. Por seu aspecto, presumia-se que era a dona da casa, à espera de suas visitas.
– Bem – disse Alicia Coombe –, ela parece estar em casa, não? Sinto-me quase na obrigação de lhe pedir desculpas por ter entrado dessa maneira.
– Vamos – disse Sybill.
Ela recuou, fechou a porta ao sair e voltou a passar a chave.
As duas mulheres se olharam.
– Gostaria de saber por que ela nos assusta tanto... – disse Alicia Coombe.
– Por Deus, quem não ficaria assustada?
– Bem, quero dizer, o que acontece, afinal? Se formos pensar bem, não acontece nada, ela não passa de uma boneca que se move de lá para cá na peça. Acredito que não seja a própria boneca, mas que ela esteja tomada por um poltergeist.
– Bem, essa parece ser uma boa ideia.
– Sim, mas não consigo acreditar nisso de verdade. Acho que é... que é mesmo aquela boneca.
– Tem certeza de que não sabe mesmo de onde ela veio?
– Não tenho a mais vaga ideia – disse Alicia. – E quanto mais penso nisso, mais me convenço de que não a comprei, e de que ninguém a deu para mim. Creio que ela... bem, que ela simplesmente apareceu.
– A senhorita acha que ela... que ela irá embora um dia?
– Na verdade – disse Alicia –, não sei por que ela iria... Ela tem tudo de que precisa.
Mas parecia que a boneca ainda não conseguira tudo de que precisava. No dia seguinte, quando Sybill entrou no salão de exposição, suspendeu a respiração com um suspiro súbito. Então dirigiu um chamado para o andar de cima.
– Srta. Coombe, srta. Coombe, venha até aqui.
– O que foi?
Alicia Coombe, que se levantara tarde, desceu as escadas, manquejando um pouco, pois sofria de reumatismo no joelho direito.
– O que está acontecendo, Sybil?
– Veja. Veja o que acaba de acontecer.
As duas pararam junto à porta do salão de exposição. Sentada no sofá, espraiada tranquilamente sobre um dos braços do móvel, estava a boneca.
– Ela conseguiu sair – disse Sybil –, conseguiu escapar daquela peça! Agora quer se adonar também do salão.
Alicia Coombe sentou na soleira da porta.
– No final – ela disse –, creio que ela vai querer se apossar da loja toda.
– É possível – disse Sybil.
– Sua criatura nojenta, ladina e maliciosa – disse Alicia, dirigindo-se à boneca. – Por que veio até aqui nos molestar dessa maneira? Não queremos você por aqui.
Tanto ela quanto Sybil tiveram a impressão de que a boneca se moveu de modo muito sutil. É como se seus membros se afrouxassem ainda mais. Um de seus longos braços estendia-se sobre o braço do sofá, e sua face semioculta parecia espiar por cima dele. Além disso, seu olhar tinha um aspecto dissimulado e malicioso.
– Criatura horrível – disse Alicia. – Já não posso suportá-la! Não consigo suportá-la mais um minuto sequer.
De repente, pegando Sybil completamente de surpresa, ela avançou pela sala, apanhou a boneca, correu até a janela, abriu-a e lançou a boneca no meio da rua. Sybil deixou escapar um pequeno grito e um suspiro.
– Oh, Alicia, a senhorita não devia ter feito isso! Tenho certeza de que não devia ter feito isso!
– Eu precisava fazer alguma coisa – disse Alicia Coombe. – Simplesmente não a aguentava mais.
Sybil juntou-se a ela à janela. Lá embaixo, no meio da calçada, estendia-se a boneca, os membros espalhados, a face voltada para o chão.
– A senhorita a matou – disse Sybil.
– Não seja ridícula... Como posso matar algo que é feito de veludo e seda, de fragmentos e pedaços. Não é real.
– É terrivelmente real – disse Sybil.
Alicia trancou a respiração.
– Céus. Aquela criança...
Uma criança maltrapilha estava junto da boneca na calçada. Ela olhou para um lado e para o outro da rua, uma rua que não estava excessivamente cheia àquela hora da manhã, embora houvesse algum tráfego de automóveis; então, como se estivesse satisfeita, a menina se curvou, apanhou a boneca e atravessou a rua correndo.
– Pare, pare! – gritou Alicia.
Ela se voltou para Sybil.
– Aquela criança não pode levar a boneca. Não pode! Aquela boneca é perigosa... é diabólica. Precisamos detê-la.
Não foram elas que a pararam. Foi o tráfego. Naquele momento três táxis vinham de um lado e dois furgões de comerciantes do outro. A criança estava isolada num espaço entre as duas faixas. Sybil desceu as escadas correndo, com Alicia Coombe atrás. Esquivando-se entre um furgão e um carro particular, Sybil, seguida de perto por Alicia Coombe, chegou no espaço em que estava a criança antes que ela pudesse vencer o tráfego e chegar até o outro lado.
– Você não pode ficar com essa boneca – disse Alicia Coombe. – Devolva-a para mim.
A criança olhou para ela. Era uma garotinha muito magra, de cerca de oito anos, com um leve estrabismo.
– Por que eu devo dar ela pra você? – ela disse. – Você jogou ela pela janela que eu vi... vi você jogando. Se você jogou ela pela janela é porque não queria a boneca. Então, agora ela é minha.
– Eu lhe compro outra – disse Alicia, desesperada. – Iremos até uma loja de brinquedos, qualquer uma que você quiser, e eu lhe comprarei a melhor boneca que você encontrar. Mas me devolva essa aí.
– Nada feito – disse a criança.
Seus braços envolveram protetoramente a boneca.
– Você precisa devolver essa boneca – disse Sybil. – Ela não pertence a você.
Ela se esticou para tomar a boneca da criança e naquele instante esta lhe pisou o pé, deu meia-volta e começou a gritar:
– Nada feito! Nada feito! Nada feito! Ela é minha. Eu amo ela. Vocês não amam ela. Vocês odeiam ela. Se vocês não odiassem ela, não tinham jogado ela pela janela. Eu amo ela, eu estou dizendo, e é isso que ela quer. Ela quer ser amada.
E então, como uma enguia deslizando por entre os veículos, a criança atravessou a rua, tomou uma ruela e saiu do alcance de visão das duas mulheres antes que elas pudessem decidir desviar dos carros para segui-la.
– Ela se foi – disse Alicia.
– Ela disse que a boneca queria ser amada – disse Sybil.
– Talvez – disse Alicia –, talvez fosse isso o que ela quisesse todo esse tempo... ser amada...
No meio do tráfego londrino, as duas mulheres se entreolharam assustadas.