Os Últimos Casos de Miss Marple

Agatha Christie · Capítulo 4 de 9

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Os Últimos Casos de Miss Marple

O caso da zeladora

 

I

 

– E aí – perguntou o dr. Haydock para sua paciente –, como estão as coisas?

Recostada no travesseiro, Miss Marple mostrou a ele um sorriso lívido.

– Creio, de fato, que estou melhor – reconheceu –, mas sinto um desânimo tão grande. Não consigo parar de pensar o quanto teria sido melhor se tivesse morrido. Afinal, sou uma velha. Ninguém me quer, ninguém se preocupa comigo.

O dr. Haydock parou com o jeito brusco que lhe era peculiar.

– Sim, eu sei, uma típica reação desse tipo de gripe. O que a senhora precisa é de algo que preencha sua mente. Um tônico cerebral.

Miss Marple suspirou e balançou a cabeça.

– E adivinhe só – continuou o dr. Haydock –, trouxe os medicamentos comigo.

Ele jogou um envelope grande na cama.

– Feito sob medida para a senhora. O tipo de enigma que combina com o seu estilo.

– Um enigma? – Miss Marple mostrou-se interessada.

– Uma proeza literária de minha parte – disse o médico, enrubescendo um pouco. – Tentei fazer uma história comum com isso. “Ele disse”, “ela falou”, “a garota pensou” etc. Os fatos da história são verdadeiros.

– Mas por que é um enigma? – quis saber Miss Marple.

O dr. Haydock deu um sorriso largo.

– Porque a interpretação depende da senhora. Quero ver se a senhora é tão esperta quanto sempre pareceu.

Depois dessa alfinetada, ele foi embora.

Miss Marple apanhou o manuscrito e começou a ler:

“– E onde está a recém-casada? – perguntou a srta. Harmon, animada.

“Toda a vila estava ansiosa para ver a jovem esposa rica e bela, que Harry Laxton tinha trazido de fora. Havia um consentimento geral de que Harry, um mísero jovem vigarista, tinha tido muita sorte. Todos sempre foram tolerantes com Harry. Até mesmo os donos das janelas que tinham sofrido com o uso indiscriminado do estilingue de Harry tiveram sua indignação dissipada pela expressão miserável de arrependimento do jovem rapaz. Ele havia quebrado janelas, roubado pomares, furtado coelhos e, mais tarde, tinha contraído dívidas, se envolvido com a filha do dono da tabacaria (se livrou dela e se mandou para a África), e a vila, representada por muitas velhas solteironas, murmurava de forma indulgente:

“– Ora, ora! Loucuras da juventude! Ele vai sossegar um dia!

“E agora, de fato, o pródigo tinha voltado, não em desgraça, mas sim triunfante. Harry Laxton tinha ‘se dado bem’, como se costuma dizer. Havia se recomposto, trabalhado duro, e por fim encontrado e cortejado com sucesso uma jovem meio inglesa meio francesa, dona de uma fortuna considerável.

“Harry poderia ter morado em Londres, ou adquirido uma propriedade rural em algum condado de caça da moda, mas preferiu retornar à parte do mundo onde se sentia em casa. E assim, do modo mais romântico, ele comprou a propriedade abandonada da residência da viúva, onde havia passado sua infância.

“A casa Kingsdean estava desocupada há cerca de setenta anos. Foi aos poucos decaindo até ser abandonada. Um antigo zelador e sua esposa moravam no único lugar habitável da casa. Era uma mansão enorme, imponente e pouco graciosa, jardins cobertos por uma vegetação espessa e árvores que cercavam a casa como se fosse uma toca encantada e sombria.

“A residência da viúva era modesta e aprazível, tendo sido deixada há muito tempo para o major Laxton, pai de Harry. Quando garoto, Harry tinha perambulado pela propriedade Kingsdean e conhecia cada centímetro do intrincado bosque. A velha casa o tinha sempre fascinado.

“O major Laxton havia morrido uns anos atrás, então devem ter pensado que Harry não teria vínculo algum que o trouxesse de volta. Apesar disso, foi para casa de sua infância que Harry trouxe sua recém-esposa. A casa Kingsdean, velha e decadente, foi demolida. Um exército de mestres de obra e pedreiros tomou conta do lugar, e num espaço de tempo quase milagroso a casa nova foi levantada, branca e reluzente entre as árvores.

“Em seguida veio um grupo de jardineiros, e depois uma procissão de caminhonetes com a mobília.

“A casa estava pronta. Os empregados tinham chegado. Por último, uma limusine luxuosa deixou o sr. e a sra. Harry na porta de entrada.

“A vila correu para o telefone, e a sra. Price, que tinha a maior casa e se considerava a líder social do lugar, enviou convites de uma festa ‘para conhecer a recém-casada’.

“Foi um grande evento. Muitas senhoras colocaram vestidos novos para a ocasião. Todos estavam empolgados, curiosos, ansiosos para ver a criatura fabulosa. Diziam que tudo parecia um conto de fadas!

“A srta. Harmon, uma solteirona vigorosa e de tez bronzeada, lançou sua pergunta enquanto abria caminho em meio à multidão concentrada na porta da sala de visitas. A pequena srta. Brent, uma solteirona magra e ferina, passou as informações.

“– Ah, minha querida, é uma menina muito charmosa. Tão bem educada. E muito jovem. Sem dúvida, sabe, é de deixar as pessoas com uma ponta de inveja ao ver alguém que tem tudo assim. Beleza, dinheiro e boas maneiras... é muito distinta, não há o que falar dela... e o querido Harry é tão dedicado!

“– Ah – disse a srta. Harmon –, ainda é cedo!

“O nariz fino da srta. Brent farejou com apreço:

“– Minha querida, você acha mesmo que...

“– Todos sabemos o que Harry é – interrompeu a srta. Harmon.

“– Nós sabemos o que ele foi! Mas espero que agora...

“– Ah – disse a srta. Harmon –, os homens são sempre iguais. Uma vez conquistadores baratos, sempre conquistadores baratos. Conheço o tipo.

“– Meu Deus! Pobre jovem.

“A srta. Brent parecia mais animada.

“– Sim, suponho que ela terá problemas com ele. Alguém deve avisá-la, sem dúvida. Me pergunto se ela sabe alguma coisa sobre o passado.

“– Parece tão injusto – disse a srta. Brent – que ela não saiba nada. Tão inadequado. Ainda mais com apenas uma farmácia na vila.

“A outrora filha do dono da tabacaria estava agora casada com o sr. Edge, o farmacêutico.

“– Seria muito mais apropriado – disse a srta. Brent – se a sra. Laxton fosse comprar seus remédios na Boots, em Much Benham.

“– Diria que – falou a srta. Harmon – o próprio Harry Laxton vai sugerir isso.

“E, mais uma vez, olhares sugestivos foram trocados entre elas.

“– Mas acho, com certeza, que ela deve ser avisada – opinou a srta. Harmon.

 

II

 

“– Desprezíveis! – exclamou Clarice Vane indignada para seu tio, o dr. Haydock. – Certas pessoas são totalmente desprezíveis.

“Ele olhou para ela, curioso.

“Era uma bela garota morena, alta, simpática e impulsiva. Seus grandes olhos castanhos estavam ardentes de indignação quando ela disse:

“– Todas essas cobras... dizendo coisas, fazendo insinuações.

“– Sobre Harry Laxton?

“– Sim, sobre o caso dele com a filha do dono da tabacaria.

“– Ah, é isso!

“O médico encolheu os ombros.

“– Muitos rapazes têm casos desse tipo.

“– Claro que têm. Mas são casos encerrados. Então por que relembrar o assunto? Trazê-lo de volta anos depois? Parece um bando de urubus na carniça.

“– Eu diria, minha querida, que isso parece ser assim para você. Mas entenda, não há muito o que conversar por aqui, então eu creio que as pessoas tendem a falar sobre mexericos do passado. Mas estou curioso para saber por que isso lhe deixa tão perturbada.

“Clarice Vane mordeu os lábios e enrubesceu. Disse, com uma voz curiosamente abafada:

“– Eles... eles parecem tão felizes. Os Laxton, digo. São jovens e apaixonados, e é tudo tão romântico para eles. Odeio pensar que isso pode ser estragado por cochichos, indiretas, insinuações e fofocas corriqueiras.

“– Hum, entendo.

“Clarice prosseguiu:

“– Ele estava falando comigo agora mesmo. Tão feliz, exultante e agitado... diria até emocionado por ter sua tão desejada Kingsdean reconstruída. Parece uma criança quando fala disso. E ela... bem, não imagino nada de errado em toda sua vida. Ela sempre teve tudo. Você já a viu. O que acha dela?

“O médico não respondeu de imediato. Para outras pessoas, Louise Laxton poderia despertar inveja. Uma riquinha mimada. Para ele, Louise apenas lembrava o refrão de uma antiga canção popular: Pobre menina rica...

“Uma figura pequena e delicada, com cabelo louro encaracolado, bem preso ao redor do rosto, e olhos azuis melancólicos.

“Louise estava um pouco abatida. A grande enxurrada de felicitações deixou-a cansada. Ansiava que logo fosse hora de partir. Talvez, agora mesmo, Harry sugerisse isso. Olhou para ele de esguelha. Tão alto e robusto, com seu prazer jovial naquela festa horrível e enfadonha.”

Pobre menina rica...

 

III

 

“– Ufa!

“Foi um suspiro de alívio.

“Harry, animado, voltou o olhar para sua mulher. Estavam no carro, indo embora da festa.

“Ela disse:

“– Querido, que festa medonha!

“Harry deu risada.

“– Sim, terrível mesmo. Mas não importa, meu amor. Tinha de ser feita, entende. Todas essas velhinhas me conheciam quando morava aqui, na infância. Ficariam muito despontadas se não tivessem vindo dar uma olhada de perto em você.

“Louise fez uma careta. Disse:

“– Teremos de ver muitas delas?

“– Como? Ah, não. Elas virão e farão ligações formais com felicitações, e você irá retornar as ligações, e depois não vai precisar se preocupar mais. Poderá ter seus próprios amigos aqui ou o que você quiser.

“Logo depois, Louise perguntou:

“– Não tem ninguém interessante morando por aqui?

“– Ah, sim. Isto aqui é o interior, sabe. Talvez você vá achá-los um tanto maçantes, também. A maioria tem interesses em plantas, cachorros e cavalos. Você vai andar a cavalo, claro. Vai gostar disso. Tem um cavalo em Eglinton que valeria a pena você conhecer. Um animal belíssimo, bem treinado, impecável e cheio de espírito.

“O carro diminuiu a velocidade para fazer a curva rumo aos portões de Kingsdean. Harry torceu bruscamente a direção e praguejou ao ver surgir uma figura grotesca no meio da pista e, por pouco, conseguiu desviar. A figura permaneceu lá, sacudindo as mãos e gritando para eles.

“Louise agarrou o braço do marido.

“– Quem era aquela... aquela mulher horrorosa?

“A fronte de Harry tornou-se sombria.

“– Aquela é a velha Murgatroyd. Ela e o marido eram os zeladores da antiga casa. Ficaram lá por quase trinta anos.

“– Por que ela ficou apontando o dedo para você?

“O rosto de Harry corou.

“– Ela... bem, ela se sentiu ofendida quando a casa foi demolida. Foi demitida, claro. O marido morreu há dois anos. Dizem que ela ficou um tanto esquisita após a morte dele.

“– Ela está... ela não está... passando fome?

“As ideias de Louise eram descabidas e de certa forma melodramáticas. A riqueza impede qualquer um de manter contato com a realidade.

“Harry sentiu-se indignado.

“– Pelo amor de Deus, Louise, que ideia! Eu pago uma pensão para ela... um valor bastante considerável! Arrumei um chalé novo para ela e tudo mais.

“Louise perguntou, confusa:

“– Então por que ela está chateada?

“Harry ficou carrancudo, suas sobrancelhas juntaram-se.

“– Ah, como posso saber? Maluquice! Ela adorava a casa.

“– Mas estava em ruínas, não é?

“– Claro que sim... caindo em pedaços, com goteiras no telhado e pouco segura. Mesmo assim, suponho que a casa signifique algo para ela. Esteve lá muito tempo. Ah, não sei! Vai ver a velha enlouqueceu.

“Louise disse, preocupada:

“– Ela... acho que ela amaldiçoou a gente. Ah, Harry, queria que ela não tivesse feito isso.

 

IV

 

“Para Louise, parecia que seu novo lar estava amaldiçoado e envenenado pela figura malévola de uma velha maluca. Quando ela descia do carro, montava a cavalo ou passeava com os cachorros, havia sempre a mesma figura a esperando. Curvada, um chapéu puído sobre cachos de cabelo grisalho e os lentos murmúrios de imprecações.

“Louise passou a acreditar que Harry estava certo, a velha senhora estava maluca. Todavia, isso não tornava as coisas mais fáceis. A sra. Murgatroyd nunca ia à casa, não representava uma ameaça real, nem agia com violência. Sua figura atarracada permanecia sempre do lado de fora dos portões. Chamar a polícia teria sido inútil e, de qualquer modo, Harry Laxton era relutante quanto a essa ideia. Dizia que aumentaria a simpatia local pela velha bruta. Ele lidava melhor com a situação do que Louise.

“– Não se preocupe com isso, querida. Ela vai se cansar dessa bobagem de maldição. É provável que ela esteja apenas querendo nos aborrecer.

“– Não está não, Harry. Ela... ela odeia a gente! Sinto isso. Ela... ela está nos rogando pragas.

“– Ela não é uma bruxa, querida, embora ela possa parecer uma! Não fique obcecada com isso.

“Louise acalmou-se. Agora que a agitação inicial da mudança havia passado, ela se sentia estranhamente sozinha e sem ter o que fazer. Tinha sido acostumada à vida em Londres e na Riviera. Não tinha conhecimento nem interesse na vida do interior da Inglaterra. Não entendia sobre jardinagem, exceto sobre a parte final de ‘arrumar as flores’. Não se importava nem um pouco com cachorros. Estava entediada pelos tais vizinhos que conheceu. O que ela mais gostava de fazer era montar a cavalo, às vezes com Harry, às vezes sozinha, quando ele estava ocupado com a propriedade. Ela cortava caminhos e bosques, adorava o trote leve do belo cavalo que Harry tinha comprado para ela. Até mesmo Prince Hal, o mais terno dos cavalos alazões, costumava espantar-se e resfolegar quando passava com sua dona perto da figura da velha malévola.

“Um dia Louise tomou coragem. Estava caminhando do lado de fora. Passou pela sra. Murgatroyd, fingindo não vê-la, mas de repente fez a volta e foi, sem rodeios, em direção a ela. Disse, um pouco sem fôlego:

“– O que é? Qual é o problema? O que a senhora quer?

“A velha deu uma olhada para ela. Tinha um rosto astuto, pardo como o dos ciganos, com cachos de cabelo grisalho e olhos escuros e suspeitos. Louise ficou pensando se a velha não teria bebido.

“Ela falou com uma voz chorosa e ainda assim ameaçadora.

“– O que eu quero, é o que me pergunta? O que, de fato! Aquilo que foi tirado de mim. Quem me mandou embora de Kingsdean? Morei lá por quase quarenta anos, de garota até adulta. Foi um golpe baixo me botar para fora, e isso vai trazer muita má sorte para a senhora e para ele!

“Louise revidou:

“– A senhora tem um chalé muito bom e...

“Ela parou de falar. Os braços da velha levantaram-se. Ela gritou:

“– O que aquilo tem de bom para mim? O que quero é o meu próprio lugar, a minha própria lareira, que eu me sentava ao lado durante todos aqueles anos. E tanto para a senhora quanto para ele digo que não haverá felicidade para os dois na sua bela casa nova. Um sofrimento tenebroso cairá sobre vocês! Sofrimento e morte e minha maldição. Seu rosto bonito irá se estragar.

“Louise virou-se e desatou numa corrida curta e incerta. Pensou: ‘Tenho de ir embora daqui! Devemos vender a casa! Temos de ir embora!’.

“Naquele momento tal solução pareceu fácil para ela. Mas a total falta de compreensão de Harry espantou-a. Ele indignou-se:

“– Deixar esta casa? Vendê-la? Por causa das ameaças de uma velha louca? Você só pode estar fora de si.

“– Não, não estou. Mas ela... ela me assusta, sei que alguma coisa vai acontecer.

“Harry Laxton disse, aborrecido:

“– Deixe a sra. Murgatroyd comigo. Vou dar um jeito nela!

 

V

 

“Uma amizade havia surgido entre Clarice Vane e a jovem sra. Laxton. As duas garotas tinham a mesma idade, embora diferentes tanto em personalidade quanto em gostos. Na companhia de Clarice, Louise reencontrou sua confiança. Clarice era tão autoconfiante, tão segura de si. Louise contou sobre a sra. Murgatroyd e suas ameaças, mas Clarice pareceu considerar a questão como algo mais irritante do que assustador.

“– Esse tipo de coisa é tão ridículo – disse. – E, sem dúvida, muito chato para você.

“– Sabe, Clarice, eu... eu me sinto um tanto assustada às vezes. Meu coração dá saltos enormes.

“– Bobagem, você não deve deixar uma coisa boba como essa lhe atingir. Daqui a um tempo ela vai se cansar disso.

“Ela ficou em silêncio por um momento. Clarice perguntou:

“– Qual é o problema?

“Louise hesitou por uns minutos, em seguida sua resposta veio como uma avalanche:

“– Odeio este lugar! Odeio estar aqui. A floresta e esta casa, o terrível silêncio da noite e o barulho esquisito que as corujas fazem. Ah, e as pessoas e todo o resto.

“– As pessoas. Que pessoas?

“– As pessoas da vila. Aquelas velhas senhoras fofoqueiras e abelhudas.

“Clarice perguntou de repente:

“– O que elas falaram?

“– Não sei. Nada em particular. Mas elas têm mentes perversas. Quando você fala com elas, sente que não se pode confiar em ninguém... ninguém mesmo.

Clarice disse com severidade:

“– Esqueça essas mulheres. Elas não têm nada para fazer, a não ser fofocas. E a maioria das besteiras que falam é apenas invenção.

“Louise rebateu:

“– Gostaria que nunca tivéssemos vindo para cá. Mas Harry adora tanto este lugar.

“A voz dela suavizou-se.

“Clarice pensou: ‘Como ela gosta dele’. Disse de repente:

“– Preciso ir agora.

“– Vou mandar o carro levá-la. Mas volte em breve.

“Clarice anuiu com a cabeça. Louise sentia-se confortada pela visita de sua nova amiga. Harry ficava satisfeito por vê-la mais animada, e por isso incentivava a esposa a ter Clarice em casa com frequência.

“Então um dia ele disse:

“– Boas notícias para você, querida.

“– Ah, o que é?

“– Dei um jeito em Murgatroyd. Ela tem um filho na América, sabe. Bem, arrumei um jeito de ela ir encontrá-lo. Vou pagar a passagem dela.

“– Harry, que maravilha! Vou passar a gostar de Kingsdean depois disso.

“– Passar a gostar? Mas veja, é o lugar mais maravilhoso do mundo!

“Louise sentiu um leve arrepio. Não conseguia livrar-se de seus medos fantasiosos de modo tão fácil.

 

VI

 

“Se as senhoras de St. Mary Mead estavam aguardando o prazer da revelação sobre o passado do marido da recém-casada, esse prazer lhes foi negado pela própria atitude sagaz de Harry Laxton.

“A srta. Harmon e Clarice Vane estavam na loja de Edge, uma comprando naftalinas e a outra ácido bórico, quando Harry Laxton e sua esposa entraram no recinto.

“Após cumprimentar as duas mulheres, Harry virou-se para o balcão, e estava apenas pedindo uma escova de dentes quando parou no meio da fala e exclamou, entusiasmado:

“– Ora, ora, veja quem está aqui! Bella, é você!

“A sra. Edge, que havia corrido da sala dos fundos para atender o movimento da loja, sorriu para ele, alegre, mostrando seus grandes dentes brancos. Ela havia sido uma bela morena, e continuava sendo uma mulher razoavelmente bonita, embora tivesse engordado e acentuado os traços do rosto. No entanto, seus enormes olhos castanhos estavam cheios de ternura quando ela respondeu:

“– Bella, isso mesmo, sr. Harry, e que prazer revê-lo depois de tantos anos!

“Harry virou-se para sua esposa.

“– Bella é uma antiga namorada minha, Louise – disse. – Fui perdidamente apaixonado por ela, não é, Bella?

“– Isso é o que você diz – respondeu a sra. Edge.

“Louise deu risada. Disse:

“– Meu marido fica muito feliz por rever velhos amigos.

“– Ah – disse a sra. Edge –, nós não o esquecemos, sr. Harry. Parece um conto de fadas pensar que você se casou e construiu uma casa nova no lugar daquela velha e decadente Kingsdean.

“– Você parece muito bem e muito contente – observou Harry.

“ A sra. Edge sorriu, disse que não havia nada de errado com ela e perguntou sobre a escova de dentes que ele havia solicitado.

“Clarice, observando o olhar perplexo no rosto da srta. Harmon, disse para si mesma, exultante: ‘Ah, muito bem, Harry. Acabou com a munição delas’.

 

VII

“O dr. Haydock perguntou para sua sobrinha com aspereza:

“– O que significa toda essa maluquice sobre a velha sra. Murgatroyd passar o tempo em Kingsdean sacudindo as mãos e rogando pragas nos novos donos?

“– Não é maluquice. É a mais pura verdade. Isso deixa Louise bastante desnorteada.

“– Diga-lhe que não precisa se preocupar. Quando os Murgatroyd eram os zeladores, nunca pararam de vociferar contra o lugar. Eles só ficaram porque Murgatroyd bebia e não conseguia arranjar outro emprego.

“– Vou dizer a ela – disse Clarice, em dúvida –, mas não acho que ela vá acreditar. A sra. Murgatroyd vive gritando raivosa.

“– Sempre gostei do garoto Harry. Não consigo entender.

“Clarice disse:

“– Ah, bem... eles vão livrar-se dela em breve. Harry vai comprar para ela uma passagem para a América.

“Três dias depois, Louise sofreu uma queda do cavalo e morreu.

“Dois homens, que estavam numa caminhonete da padaria, testemunharam o acidente. Viram Louise passar a cavalo pelos portões, observaram a velha levantar-se de um salto na estrada, sacudindo os braços e gritando, viram o cavalo empacar, dar uma guinada e, em seguida, disparar furiosamente estrada a baixo, lançando ao chão Louise Laxton por cima da sua cabeça.

“Um dos homens ficou parado próximo à figura desmaiada, sem saber o que fazer, enquanto o outro correu até a casa em busca de ajuda.

“Harry Laxton veio apressado, com o rosto pálido. Eles abriram uma porta da caminhonete e levaram-na ali dentro até a casa. Ela morreu sem recuperar os sentidos e antes do médico chegar.”

(Fim do manuscrito do dr. Haydock.)

 

VIII

 

Quando o dr. Haydock chegou no dia seguinte, ficou contente ao observar as bochechas coradas de Miss Marple e sem dúvida mais animação na sua conduta.

– Bem – ele perguntou –, qual é o veredicto?

– Qual é a questão, dr. Haydock? – rebateu Miss Marple.

– Ah, minha querida senhora, terei de lhe contar isso?

– Suponho – disse Miss Marple – que é o comportamento curioso da zeladora. Por que ela se comportou daquele jeito tão estranho? As pessoas, de fato, se importam de serem colocadas para fora de suas casas. Mas a casa não era dela. Na verdade, ela costumava reclamar e praguejar quando estava lá. Sim, isso, com certeza, parece muito suspeito. A propósito, o que aconteceu com ela?

– Fugiu para Liverpool. O acidente a deixou assustada. Acho que ela esperou o navio por lá.

– Tudo muito conveniente para certa pessoa – afirmou Miss Marple. – Sim, acho que “a questão da conduta da zeladora” pode ser solucionada de modo fácil. Suborno, não foi?

– É essa a sua resolução?

– Bem, se não era natural para ela comportar-se daquele jeito, deve ter sido “colocada em ação”, como as pessoas dizem, e isso significa que alguém pagou para ela fazer o que fez.

– E a senhora sabe quem era essa pessoa?

– Ah, acho que sim. Temo que seja, outra vez, uma questão de dinheiro. E sempre notei que os homens tendem continuamente a admirar o mesmo tipo.

– Bem, isso agora está além da minha capacidade.

– Não, não, está tudo ligado. Harry Laxter admirava Bella Edge, morena e cheia de vida. O mesmo tipo da sua sobrinha Clarice. Mas a pobre esposa pequenina era um tipo bem diferente... loura e melancólica. Nem de longe o tipo dele. Então ele deve ter casado com ela pelo dinheiro. E assassinou a esposa por esse mesmo motivo!

– A senhora usa a palavra “assassinato”?

– Bem, ele parece o tipo ideal. Atraente para as mulheres e bastante inescrupuloso. Suponho que ele quisesse pegar o dinheiro da esposa e casar-se com sua sobrinha. Ele pode ter sido visto falando com a sra. Edge. Mas não acredito que ainda estivesse ligado nela. Embora ouse dizer que ele fez a pobre sra. Edge pensar isso, por interesses próprios dele. Harry logo obteve o que queria dela, suponho.

– Exatamente de que forma a senhora acha que ele matou a esposa?

Por alguns instantes os meditativos olhos azuis de Miss Marple fixaram-se à sua frente.

– Foi muito bem cronometrado... teve a caminhonete da padaria como testemunha. Eles puderam ver a velha e, claro, atribuíram o susto do cavalo a ela. Mas eu imaginaria uma arma de ar comprimido ou, talvez, um estilingue. É isso, no exato momento em que o cavalo passava pelos portões. O cavalo disparou, óbvio, e a sra. Laxton foi arremessada.

Ela fez uma pausa e franziu o cenho.

– A queda deve tê-la matado. Mas ele não podia ter certeza disso. E parece ser o tipo de homem que prepara seus planos com cuidado e não confia na sorte. Depois do ocorrido, a sra. Edge pôde trazer-lhe algo apropriado, sem que o marido dela soubesse. Caso contrário, por que Harry se preocuparia com ela? Sim, acho que ele teve acesso a algum medicamento poderoso, que pode ter sido administrado antes de o senhor chegar. Afinal, se uma mulher é atirada do seu cavalo, se machuca seriamente e morre sem recuperar os sentidos, bem... em geral um médico não teria do que suspeitar, não é? Ele atribuiria isso à queda ou a alguma outra coisa.

O dr. Haydock confirmou com um gesto.

– Por que o senhor suspeitou? – Miss Marple indagou.

– Não foi nenhuma sacada especial de minha parte – respondeu o dr. Haydock. – Foi apenas o fato trivial e corriqueiro de que um assassino fica tão satisfeito com sua esperteza que não toma as devidas precauções. Eu estava apenas dizendo umas palavras de consolo para o marido desolado, e também me sentindo terrivelmente triste pelo rapaz, quando ele lançou-se ao sofá para fazer um pouco de encenação e a seringa subcutânea caiu do seu bolso. Ele apanhou a seringa e pareceu tão assustado que comecei a pensar. Harry Laxton não tomava remédios, tinha uma saúde perfeita... o que estava fazendo com uma seringa subcutânea? Fiz a autópsia tendo em vista algumas possibilidades. Encontrei estrofantina. O resto foi fácil. Havia estrofantina na propriedade de Laxton, e Bella Edge, ao ser interrogada pela polícia, sucumbiu e confessou ter levado a substância para ele. Por fim, a velha sra. Murgatroyd admitiu que foi Harry Laxton quem contratou-a para o truque da maldição.

– E sua sobrinha recuperou-se disso?

– Sim, ela estava encantada pelo rapaz, mas a história não tinha ido longe.

O médico pegou seu manuscrito.

– Pontuação máxima para a senhora, Miss Marple... e pontuação máxima para mim também pela minha prescrição. A senhora está parecendo quase a mesma de novo.