Os Últimos Casos de Miss Marple

Agatha Christie · Capítulo 6 de 9

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Os Últimos Casos de Miss Marple

Miss Marple conta uma história

 

 

Acho que nunca lhes contei, meus queridos, nem a você, Raymond, e nem a você, Joan, sobre o pequeno caso bastante curioso que aconteceu alguns anos atrás. Não quero parecer vaidosa, de modo algum. Sei, claro, que comparada a vocês, jovens, não sou nem um pouco inteligente. Raymond escreve aqueles livros muito modernos, tudo sobre garotos e garotas bastante desagradáveis. E Joan pinta aqueles quadros muito impressionantes de pessoas quadradas que têm saliências curiosas. Muito inteligente da sua parte, meu querido, mas como Raymond sempre fala (de um jeito muito respeitoso, porque ele é o mais amável dos sobrinhos), eu sou uma antiquada incorrigível. Admiro o sr. Alma-Tadema e o sr. Frederic

Leighton, mas suspeito que para vocês eles pareçam bastante vieux jeu[5]. Agora, deixe-me ver, o que eu estava falando? Ah, sim, que eu não queria parecer vaidosa. Mas não pude evitar de me sentir um tantinho satisfeita comigo mesma, porque apenas utilizando um pouco o senso comum, acredito que de fato solucionei um problema que havia confundido mentes mais espertas do que a minha. Embora, sem dúvida, devia ter imaginado que a coisa toda era óbvia desde o começo...

Bem, vou contar-lhes minha historinha, e se acharem que estou tentando ser convencida em relação a isso, devem lembrar-se de que pelo menos ajudei um ser humano que estava numa situação muito angustiante.

A primeira vez que soube desse caso foi numa noite, cerca de nove horas, quando Gwen (lembram-se de Gwen, minha criada ruiva?), bem, Gwen apareceu e me disse que o sr. Petherick e um cavalheiro tinham vindo me ver. Gwen, de modo adequado, tinha acomodado os dois na sala de visitas. Eu estava sentada na sala de jantar, porque, no início da primavera, acho um desperdício e tanto ter duas lareiras acesas.

Pedi a Gwen para trazer o licor de cereja e umas taças, e passei depressa para a sala de visitas. Não sei se vocês se lembram do sr. Petherick? Morreu há dois anos, mas foi meu amigo durante muito tempo e também tomava conta de toda minha vida burocrática. Um homem muito astuto e um advogado muito inteligente. O filho dele cuida dos meus documentos agora, um rapaz muito bom e muito atualizado, mas de algum modo não tenho a mesma confiança que tinha com o sr. Petherick.

Expliquei ao sr. Petherick sobre as lareiras, e ele disse, sem pestanejar, que iria para a sala de jantar junto com seu amigo. E então apresentou-me o amigo, o sr. Rhodes. Era um homem bastante jovem, não mais que quarenta anos, e eu sabia, desde o início, que havia algo muito errado. O jeito dele era muito peculiar. Diria até que era rude, caso não soubesse que o pobre homem estava sob pressão.

Quando sentamos na sala de jantar e Gwen trouxe o licor de cereja, o sr. Petherick explicou o motivo da visita.

– Miss Marple – disse –, perdoe um velho amigo por tomar essa liberdade. Vim aqui para uma consulta.

Não consegui entender o que ele queria, e ele continuou:

– No caso de uma doença, uma pessoa tem dois pontos de vista, o do especialista e o do médico de família. É de praxe considerar o primeiro como o mais correto, mas não tenho certeza se concordo. O especialista tem experiência apenas na sua própria especialidade. O médico de família tem, talvez, menos conhecimento, mas uma vasta experiência.

Sabia bem o que ele queria dizer, porque, não muito antes, uma de minhas jovens sobrinhas tinha corrido para levar o filho a um especialista muito indicado para doenças de pele, sem consultar o médico da família, que ela considerava um velho decrépito, e o especialista tinha indicado um tratamento muito caro. E aí mais tarde descobriu-se que tudo que a criança tinha era uma forma pouco comum de sarampo.

Apenas mencionei isso, embora tenha pavor a desviar do assunto, para mostrar que eu entendia o ponto de vista do sr. Petherick, mas eu continuava sem nenhuma ideia do que ele estava tentando dizer.

– Se o sr. Rhodes está doente... – disse e parei, porque o pobre homem deu uma risada horrenda.

Ele falou:

– Acho que vou morrer por enforcamento dentro de poucos meses.

Em seguida tudo veio à tona. Havia ocorrido um caso de assassinato recente em Barnchester, uma cidade a cerca de trinta quilômetros de distância. Receio que não dei muita atenção a isso na época, porque havia bastante agitação na vila em função da nossa enfermeira domiciliar, e eventos externos como um terremoto na Índia ou um assassinato em Barnchester, embora, claro, fossem de fato muito mais importantes, foram deixados de lado pelos nossos pequenos acontecimentos locais. Receio que as vilas sejam assim. Apesar disso, me lembrava de ter lido sobre uma mulher que havia sido apunhalada num hotel, embora não recordasse o nome dela. Mas, então, parecia que essa mulher era a esposa do sr. Rhodes, e como se não bastasse ele estava sob suspeita de tê-la assassinado.

Tudo isso foi explicado para mim pelo sr. Petherick, de modo bastante claro, dizendo que, embora o júri tenha chegado ao veredito de assassinato por uma ou mais pessoas desconhecidas, o sr. Rhodes tinha razões para acreditar na probabilidade de ser preso dentro de poucos dias, e tinha ido ao sr. Petherick e se colocado nas mãos dele. O sr. Petherick prosseguiu, dizendo que naquela tarde eles consultaram sir Malcolm Olde, conselheiro real, e na hipótese de o caso ir a julgamento sir Malcolm defenderia o sr. Rhodes.

Sir Malcolm era um homem jovem, disse o sr. Petherick, tinha métodos muito modernos e havia recomendado certa linha de defesa. Mas essa linha de defesa não deixou o sr. Petherick satisfeito por completo.

– Veja, minha querida senhora – ele disse –, isso tem a ver com o que eu chamo de o ponto de vista do especialista. Dê a sir Malcolm um caso e ele verá apenas um aspecto, a linha de defesa mais plausível. Porém, mesmo a melhor linha de defesa pode ignorar por completo o que, para mim, é o ponto crucial. Ela não leva em consideração o que aconteceu de fato.

Em seguida ele continuou dizendo umas coisas muito queridas e lisonjeiras sobre a minha perspicácia, o meu discernimento e o meu conhecimento da natureza humana, e pediu permissão para me contar a história do caso, na esperança de que eu pudesse indicar alguma solução.

Pude perceber que o sr. Rhodes estava bastante cético quanto a minha ajuda e estava aborrecido por ter sido trazido aqui. No entanto, o sr. Petherick não se deu conta disso e prosseguiu relatando os fatos que se sucederam na noite de 8 de março.

O sr. e a sra. Rhodes haviam se hospedado no Crown Hotel, em Barnchester. A sra. Rhodes, que era, talvez, apenas um pouco hipocondríaca (assim deduzi pela fala cuidadosa do sr. Petherick), havia ido dormir logo após o jantar. Ela e o marido ocupavam quartos adjacentes com uma porta que os interligava. O sr. Rhodes, que estava escrevendo um livro sobre rochas pré-históricas, acomodou-se para trabalhar no quarto adjacente. Às onze horas da noite ele juntou seus papéis e preparou-se para ir deitar. Antes disso, foi só dar uma olhada no quarto da esposa para saber se ela não queria alguma coisa. Encontrou a luz acesa e a esposa estirada na cama, apunhalada na altura do coração. Ela estava morta há pelo menos uma hora, talvez mais. O que se segue foram os fatos depreendidos. Havia outra porta no quarto da sra. Rhodes que dava para o corredor. Essa porta estava fechada e trancada por dentro. A única janela do quarto estava fechada com um trinco. De acordo com o sr. Rhodes, ninguém havia entrado no quarto em que ele estava, exceto uma camareira com as garrafas de água quente. A arma encontrada na ferida foi um estilete, que estava sobre a penteadeira da sra. Rhodes. Ela tinha o costume de usá-lo para cortar o papel. Não havia impressões digitais nele.

A situação resumia-se a isso: ninguém além do sr. Rhodes e da camareira entraram no quarto da vítima.

Perguntei sobre a camareira.

– Essa foi a nossa primeira linha de investigação – respondeu o sr. Petherick. – Mary Hill é uma nativa. É camareira do Crown há dez anos. Parece não haver razão alguma para que ela cometesse um ataque repentino contra uma hóspede. De todo jeito, ela é muito bobinha, quase idiota. A versão dela nunca mudou. Ela trouxe a garrafa de água quente para a sra. Rhodes e disse que a hóspede estava sonolenta, quase caindo de sono. Para ser franco, não acredito que ela tenha cometido o crime, e tenho certeza de que nenhum júri acreditaria.

O sr. Petherick mencionou ainda uns poucos detalhes adicionais. No topo da escadaria do Crown Hotel há uma espécie de saleta, onde as pessoas sentam para tomar um café de vez em quando. Um corredor segue para a direita, e a última porta desse corredor é a mesma que dá acesso ao quarto ocupado pelo sr. Rhodes. O corredor em seguida vira de repente para a direita outra vez e a primeira porta, dobrando, é a porta do quarto da sra. Rhodes. Sendo assim, essas duas portas poderiam ser vistas por testemunhas. A primeira porta, aquela do quarto do sr. Rhodes, que vou chamar de A, poderia ser vista por quatro pessoas: dois caixeiros viajantes e um casal de velhinhos que estava tomando café. De acordo com eles ninguém entrou nem saiu pela porta A, exceto o sr. Rhodes e a camareira. Quanto à outra porta no corredor B, havia um eletricista trabalhando lá e ele também jura que ninguém entrou nem saiu pela porta B, a não ser a camareira.

Era sem dúvida um caso interessante e curioso. À primeira vista parece que o sr. Rhodes poderia ter matado a esposa. No entanto, pude perceber que o sr. Petherick estava bastante convencido da inocência de seu cliente, e Petherick era um homem muito astuto.

Durante o inquérito, o sr. Rhodes contou uma história hesitante e vaga sobre uma mulher que tinha escrito cartas ameaçadoras para sua esposa. A história dele, deduzi, não foi nada convincente. Ao ser solicitado pelo sr. Petherick, explicou-se:

– Na verdade – ele disse –, nunca acreditei nisso. Pensei que Amy tivesse inventado aquilo.

A sra. Rhodes, inferi, era uma dessas mentirosas sonhadoras que passam a vida fantasiando tudo que lhes acontece. Conforme seu próprio cálculo, a quantidade de histórias que acontecia com ela em um ano era simplesmente inacreditável. Se ela desse um leve escorregão em uma casca de banana, era quase como ter escapado da morte por um triz. Se um abajur pegasse fogo, era resgatada de um prédio em chamas na situação de maior perigo da sua vida. Seu marido acostumou-se a dar um desconto nas suas declarações. A história que ela contou era de uma mulher cuja filha ela havia ferido num acidente de carro e que tinha jurado vingança contra ela. Bem, o sr. Rhodes havia ignorado isso. O incidente havia acontecido antes de ele se casar com a mulher, e, embora ela tivesse lido para ele cartas escritas numa linguagem estranha, ele suspeitava de que ela própria as tivesse escrito. Ela já havia feito coisa semelhante uma ou duas vezes antes. Era uma mulher de tendências histéricas, que sempre precisava de uma agitação.

Agora tudo isso me parece muito natural. Na verdade, temos uma jovem na vila que faz exatamente a mesma coisa. O perigo de pessoas assim é que, quando algo extraordinário realmente acontece com elas, ninguém acredita que estão sendo sinceras. Tenho a impressão de que foi isso o que aconteceu nesse caso. Desconfiei que a polícia apenas achasse que o sr. Rhodes estivesse inventando aquela história inverossímil a fim de afastar as suspeitas dele.

Perguntei se havia mais alguma mulher hospedada por conta própria no hotel. Parecia haver duas: a sra. Granby, uma viúva meio inglesa meio indiana, e a srta. Carruthers, uma solteirona com estilo caipira que não pronunciava os “g”. O sr. Petherick acrescentou que os interrogatórios não conseguiram apontar ninguém que tivesse visto uma delas perto da cena do crime, e não havia nada que as conectasse de alguma maneira com o ocorrido. Pedi-lhe que descrevesse a aparência física delas. Ele disse que a sra. Granby tinha o cabelo ruivo e desarrumado, o rosto amarelado e cerca de cinquenta anos. As roupas dela eram bastante pitorescas, feitas basicamente de seda natural, etc. A srta. Carruthers tinha por volta de quarenta anos, usava um pincenê, tinha cabelos bem curtos como os de um homem e vestia casacos masculinos e saias.

– Meu Deus – eu disse –, isso torna as coisas muito difíceis.

O sr. Petherick olhou para mim com ar interrogativo, mas eu não quis dizer nada além disso. Depois perguntei o que sir Malcolm Olde tinha dito.

Sir Malcolm estava confiante sobre a possibilidade de alegar insanidade mental e sugerir algum jeito de lidar com o problema da impressão digital. Perguntei ao sr. Rhodes o que ele achava e ele respondeu que todos os médicos eram trouxas, mas ele próprio não podia de modo algum acreditar que sua esposa havia cometido suicídio.

– Ela não era esse tipo de mulher – disse de modo simples.

E eu acreditei nele. Pessoas histéricas não costumam cometer suicídio.

Pensei por uns instantes, e então perguntei se a porta do quarto da sra. Rhodes dava direto no corredor. O sr. Rhodes respondeu que não, havia um pequeno saguão com um banheiro e um lavabo. Era a porta do quarto para o saguão que estava fechada e trancada por dentro.

– Nesse caso – disse –, a coisa toda parece bastante simples.

E era mesmo, sabe... a coisa mais simples do mundo. Ainda assim ninguém parecia enxergar isso.

Tanto o sr. Petherick quanto o sr. Rhodes estavam me encarando com olhos tão arregalados que me senti um tanto desconcertada.

– Talvez – disse o sr. Rhodes – Miss Marple não tenha percebido as dificuldades.

– Sim – disse –, acho que percebi. Há quatro possibilidades. Ou a sra. Rhodes foi assassinada pelo marido, ou pela camareira, ou cometeu suicídio, ou foi morta por um estranho que ninguém viu entrar nem sair.

– E isso é impossível – o sr. Rhodes interrompeu. – Ninguém poderia entrar nem sair do meu quarto sem que eu visse, e ainda que alguém conseguisse entrar no quarto da minha esposa sem que o eletricista visse, que diabo essa pessoa fez para conseguir sair outra vez deixando a porta fechada e trancada por dentro?

O sr. Petherick olhou para mim e falou de forma encorajadora:

– E aí, Miss Marple?

– Gostaria – disse – de fazer uma pergunta. Sr. Rhodes, qual era o aspecto da camareira?

Ele respondeu que não tinha certeza; achava que era meio alta, não lembrava se tinha pele clara ou escura. Olhei para o sr. Petherick e fiz a mesma pergunta.

Ele disse que ela tinha altura mediana, cabelos louros, olhos azuis e a pele um tanto rosada.

O sr. Rhodes falou:

– É um observador melhor do que eu, Petherick.

Atrevi-me a discordar. Então perguntei ao sr. Rhodes se poderia descrever a criada da minha casa. Nem ele nem o sr. Petherick souberam responder.

– Não veem o que isso significa? – perguntei. – Os senhores vieram aqui cheios de seus problemas particulares, e a pessoa que os recebeu era apenas uma criada. O mesmo aconteceu com o sr. Rhodes no hotel. Ele viu o uniforme dela e o avental. Estava com a atenção toda voltada para o trabalho dele. No entanto, o sr. Petherick interrogou a mesma mulher numa situação diferente. Olhou para ela como uma pessoa. Foi com isso que a mulher que cometeu o assassinato contou.

Como eles continuavam sem entender, tive que explicar.

– Acho – disse – que foi assim que aconteceu. A camareira entrou pela porta A, passou pelo quarto do sr. Rhodes em direção ao quatro da sra. Rhodes com a garrafa de água quente, e saiu para o corredor B através do saguão. X, assim vou chamar nossa assassina, entrou pela porta B para o pequeno saguão, escondeu-se ali... bem, em um certo compartimento... e esperou até a camareira passar. Então ela entrou no quarto da sra. Rhodes, pegou o estilete na penteadeira... sem dúvida ela havia examinado o quarto mais cedo naquele dia... caminhou até a cama, perfurou a mulher sonolenta, limpou a lâmina do estilete, fechou e trancou a porta pela qual havia entrado e, depois, saiu pelo quarto onde o sr. Rhodes estava trabalhando.

O sr. Rhodes gritou:

– Mas eu a teria visto. O eletricista a teria visto entrar.

– Não – rebati. – É aí que o senhor se engana. O senhor não a veria... não se ela estivesse vestida como uma camareira.

Deixei aquilo assentar e em seguida continuei:

– O senhor estava concentrado no seu trabalho... com o canto do olho o senhor viu uma camareira entrar, ir para o quarto da sua esposa, voltar e sair. Era o mesmo uniforme, mas não a mesma mulher. Isso foi o que o pessoal que tomava café viu, uma camareira entrar e uma camareira sair. Foi o mesmo que o eletricista viu. Ouso dizer que se a camareira fosse muito bonita, um cavalheiro teria notado seu rosto, a natureza humana é assim, mas se ela era apenas uma simples mulher de meia-idade, bem... era o uniforme de camareira o que seria visto, não a mulher em si.

O sr. Rhodes gritou:

– Quem era ela?

– Bem – disse – isso vai ser um pouco difícil. Pode ter sido tanto a sra. Granby quanto a srta. Carruthers. A sra. Granby dá a impressão de usar sempre uma peruca, então ela pode ter usado o próprio cabelo para se passar de camareira. Por outro lado, a srta. Carruthers, com seu corte masculino de cabelos curtos, poderia sem dificuldade colocar uma peruca para cumprir seu papel. Arrisco dizer que os senhores vão descobrir qual delas foi de uma forma bastante fácil. Em minha opinião, estou inclinada a pensar que foi a srta. Carruthers.

E de fato, meus queridos, esse é o final da história. Carruthers era um nome falso, mas era ela a mulher que procuravam. Havia desequilibrados na sua família. A sra. Rhodes, que era uma motorista muito imprudente e perigosa, havia atropelado a garotinha dela, e isso tinha deixado a mulher fora de controle. Ela disfarçava sua loucura muito bem, exceto quando escrevia cartas claramente insanas para sua pretensa vítima. Ela vinha perseguindo a sra. Rhodes há algum tempo, e traçou seus planos de forma muito inteligente. A primeira coisa que fez na manhã seguinte foi despachar a peruca e o uniforme de criada. Quando confrontada com a verdade, ela sucumbiu e confessou de uma vez. A pobre coitada está agora em Broadmoor. Nem um pouco equilibrada, claro, mas um crime arquitetado de forma muito inteligente.

O sr. Petherick veio me visitar depois e me trouxe uma carta muito querida do sr. Rhodes; na verdade a carta me fez enrubescer. Em seguida meu velho amigo me disse:

– Só uma coisa, por que a senhora achou que estava mais para ser Carruthers do que Granby? A senhora nunca viu nenhuma das duas.

– Bem – respondi –, foi por causa dos “g”. O senhor disse que ela engolia os “g”. Sei que isso é feito por muitos caçadores nos livros, mas não conheço muitas pessoas que façam isso na vida real... com certeza nenhuma com menos de sessenta anos. O senhor disse que essa mulher tinha quarenta anos. Aqueles “g” não pronunciados pareciam coisa de uma mulher que estava atuando e fingindo aquilo.

Não vou contar a vocês o que o sr. Petherick disse sobre isso, mas ele foi muito lisonjeiro e não pude evitar sentir-me um tantinho satisfeita comigo mesma.

E é impressionante como as coisas sempre acabam da melhor forma neste mundo. O sr. Rhodes casou-se outra vez... uma garota tão legal e sensata... e eles tiveram um bebezinho lindo e, adivinhem só, me chamaram para ser a madrinha. Não foi carinhoso da parte deles?

Bem, espero que vocês não pensem que me alonguei demais...