Os Últimos Casos de Miss Marple
A extravagância de Greenshaw
I
Os dois homens viraram a esquina de arbustos.
– Bem, aqui está – disse Raymond West. – É isso.
Horace Bindler respirou fundo, apreciando.
– Nossa – falou –, que maravilha!
A voz dele elevou-se num tom alto de deleite estético, e em seguida intensificou-se em admiração reverente.
– É inacreditável! De outro mundo! Uma obra histórica das melhores.
– Sabia que você ia gostar – disse Raymond West, de modo complacente.
– Gostar? Meu querido...
Faltaram palavras para Horace. Desatou a tira da sua câmera e manteve-se ocupado.
– Essa será uma das preciosidades da minha coleção – disse, alegre. – Acho, de verdade, que é muito mais divertido ter uma coleção de excentricidades, concorda? A ideia me surgiu certa noite, há sete anos, durante o banho. Minha última preciosidade real foi no Campo Santo de Gênova, mas acredito de fato que essa aqui bate aquela. Como se chama?
– Não tenho a menor ideia – respondeu Raymond.
– Suponho que tenha um nome, não?
– Deve ter. Mas o fato é que nunca foi referida por aqui como outra coisa além de a extravagância de Greenshaw.
– Greenshaw foi o homem que a construiu?
– Foi. Em 1860 ou 1870, por aí. O grande acontecimento local da época. Um garoto sem nada que construiu uma enorme fortuna. A opinião local divide-se quanto ao motivo que o levou a construir essa casa, se foi para mostrar a opulência da riqueza ou para impressionar seus credores. No segundo caso não os impressionou. Ele foi à falência do mesmo jeito, ou quase isso. Daí o nome, a extravagância de Greenshaw.
A câmera de Horace disparou.
– Aqui está – disse com uma voz satisfeita. – Me lembre de lhe mostrar a número 310 da minha coleção. Uma inacreditável cornija de mármore em estilo italiano.
Acrescentou, olhando para a casa:
– Não consigo imaginar como o sr. Greenshaw concebeu tudo isso.
– Bastante óbvio em certos aspectos – observou Raymond. – Ele visitou os castelos do Loire, não acha? Aquelas torres pequenas e arredondadas. E também parece ter viajado pelo oriente. A influência do Taj Mahal é evidente. Prefiro o anexo mourisco – acrescentou – e os traços de um palácio veneziano.
– As pessoas devem se perguntar como ele conseguiu um arquiteto para executar essas ideias.
Raymond encolheu os ombros.
– Suponho que não teve dificuldade quanto a isso – rebateu. – É muito provável que o arquiteto tenha se aposentado com uma boa quantia para o resto da vida enquanto o pobre velho Greenshaw ia à falência.
– Podemos observá-la pelo outro lado? – perguntou Horace. – Ou estaríamos invadindo a propriedade?
– Já estamos invadindo – respondeu Raymond –, mas não acho que isso tenha importância.
Ele virou-se em direção à esquina da casa, e Horace foi atrás dele.
– Mas o que é essa casa, meu querido? Uma hospedaria, um orfanato? Não pode ser uma escola. Não há quadras de jogos nem capacidade suficiente.
– Ah, ainda há uma Greenshaw morando aqui – disse Raymond, olhando para trás. – A casa em si não foi à falência. O filho do velho Greenshaw a herdou. Ele era um tanto sovina e morou aqui, num canto da casa. Nunca gastou um centavo. É provável que nunca tenha tido um centavo para gastar. A filha dele mora aqui agora. Uma velha bastante excêntrica.
Enquanto falava, Raymond vangloriava-se por ter pensado na extravagância de Greenshaw como uma forma de entreter seu hóspede. Esses críticos literários sempre revelam o desejo de um fim de semana no interior, mas quando conseguem ir costumam achá-lo muito tedioso. Amanhã teriam os jornais de domingo, e por hoje Raymond West estava satisfeito com a sugestão de um programa que enriqueceria a tão conhecida coleção de excentricidades de Horace Bindler.
Contornaram a esquina da casa e saíram num gramado mal cuidado. Em um dos cantos havia um jardim artificial de pedras e plantas, e curvada sobre ele havia uma figura que, ao avistá-la, Horace agarrou encantado o braço de Raymond.
– Meu querido! – exclamou. – Vê o que ela está usando? Um vestido estampado com enfeites de ramos. Igual ao de uma criada de quarto, na época em que havia criadas de quarto. Uma de minhas lembranças mais queridas é de uma casa no interior, quando eu não era mais que um garoto, e uma criada de quarto de verdade vinha lhe acordar de manhã, toda enfeitada com um vestido estampado e uma touca de rede. Sim, meu caro, sem dúvida, uma touca de rede. De musselina e com fitas. Não, talvez fosse a copeira que tivesse as fitas. Mas, de todo jeito, era uma criada de quarto de verdade e ela me trazia uma enorme vasilha de metal com água quente. Que dia formidável estamos tendo!
A figura de vestido estampado levantou-se e foi em direção a eles, com a espátula na mão. Sem dúvida era uma figura surpreendente. Cachos desgrenhados de cabelo grisalho caíam ao acaso em seus ombros, um chapéu de palha muito semelhante ao usado pelos cavalos na Itália estava enfiado em sua cabeça. O vestido estampado colorido que vestia estendia-se até os tornozelos. Protegido do sol, um rosto um pouco sujo com olhos atentos examinava-os com cuidado.
– Devo me desculpar pela invasão, srta. Greenshaw – disse Raymond West, enquanto avançava em direção a ela –, mas o sr. Horace Bindler, que me acompanha...
Horace curvou-se e tirou o chapéu.
– ... é muito interessado em... hum... história antiga e... hum... belas construções.
Raymond West falou com a facilidade de um autor reconhecido que sabe que é uma celebridade e que pode aventurar-se em situações que outras pessoas não podem.
A srta. Greenshaw direcionou o olhar para a enorme exuberância atrás dela.
– É uma bela casa – disse, apreciando. – Meu avô a construiu, quando eu ainda nem era viva, claro. Contam que ele falou que pretendia surpreender os nativos.
– Diria que ele conseguiu, senhora – disse Horace Bindler.
– O sr. Bindler é um crítico literário de renome – informou Raymond West.
Ficou claro que a srta. Greenshaw não tinha veneração alguma por críticos literários. Ela permaneceu indiferente.
– Considero-a – disse a srta. Greenshaw referindo-se à casa – um monumento à genialidade de meu avô. Uns idiotas tolos vêm aqui e me perguntam por que não vendo a casa e vou morar num apartamento. O que eu faria num apartamento? É minha casa e moro nela – disse a srta. Greenshaw. – Sempre morei aqui – refletiu, pensando sobre o passado. – Havia três de nós. Laura casou-se com o pároco auxiliar. Papai não lhe deu dinheiro algum, dizia que os clérigos não deviam ser apegados às coisas mundanas. Ela morreu ao dar à luz. O bebê também não sobreviveu. Nettie fugiu com o professor de equitação. Papai tirou-a do seu testamento, claro. Um sujeito bonito, Harry Fletcher, mas ruim. Não acho que Nettie tenha sido feliz com ele. De todo jeito, ela não viveu muito. Tiveram um filho. Ele me escreve às vezes, mas claro que não é um Greenshaw. Eu sou a última Greenshaw.
Ergueu os ombros curvados com certo orgulho e endireitou a aba desfeita do chapéu de palha. Em seguida, virando-se, disse atenta:
– Sim, sra. Cresswell, o que é?
Saindo da casa e aproximando-se deles surgiu uma figura que, vista lado a lado com a srta. Greenshaw, parecia diferente em todos os aspectos. A sra. Cresswell tinha os cabelos penteados de forma impecável, levantados para cima com elegância, enrolados de forma meticulosa em cachos. Era como se tivesse arrumado o cabelo para ir a uma festa de gala tal qual uma marquesa da França. De resto, a figura de meia-idade vestia algo parecido a uma seda preta macia, mas era na verdade uma variedade brilhante de seda artificial. Embora não fosse gorda, tinha o busto farto e proeminente. Quando falou, de súbito sua voz ecoou grave. Falava com uma dicção diferente. Uma leve hesitação ao pronunciar palavras iniciadas com “s” ou que tivessem o som de “s” no meio delas levantava a suspeita de que em algum período remoto da sua juventude devia ter tido problemas com esse fonema.
– O peixe, senhora – disse a sra. Cresswell –, as postas de bacalhau. Não vieram. Pedi a Alfred para buscá-las, mas ele se recusa a fazer isso.
Sem que ninguém esperasse, a srta. Greenshaw deu uma gargalhada.
– Ele se recusa, é?
– Senhora, Alfred tem sido muito desobediente.
De repente, a srta. Greenshaw levantou dois dedos sujos de terra até os lábios, emitiu um assobio estridente e logo depois berrou:
– Alfred. Alfred, venha aqui.
Virando a esquina da casa, um jovem apareceu em resposta à chamada, carregando uma pá na mão.
Tinha um rosto bonito e valente. Ao se aproximar, lançou um olhar claramente malévolo para a sra. Cresswell.
– A senhorita me chamou? – indagou.
– Sim, Alfred. Soube que você recusou-se a ir buscar o peixe. O que está acontecendo?
Alfred respondeu com uma voz aborrecida.
– Vou buscá-lo, se é isso que quer, senhorita. É só dizer.
– Pois eu quero. Quero peixe na minha janta.
– Como quiser, senhorita. Vou agora mesmo.
Dirigiu um olhar insolente para a sra. Cresswell, que enrubesceu e murmurou entre os dentes:
– Nossa! Insuportável!
– Agora, tenho que falar – disse a srta. Greenshaw –, uma dupla de visitantes desconhecidos é exatamente o que precisamos, não acha, sra. Cresswell?
A sra. Cresswell pareceu confusa.
– Como, senhora...
– Para você-sabe-o-quê – disse a srta. Greenshaw, balançando a cabeça de modo afirmativo. – Os beneficiários de um testamento não podem servir de testemunhas dele. Não é isso?
Ela voltou-se para Raymond West.
– Isso mesmo – confirmou Raymond.
– Conheço o bastante sobre leis para saber isso – disse a srta. Greenshaw. – E os senhores são homens de reputação.
Ela jogou a espátula na cesta.
– Gostariam de vir até a biblioteca comigo?
– Adoraríamos – respondeu Horace, ansioso.
Fizeram o caminho passando pelas janelas francesas e por uma ampla sala de visitas amarelo-dourada, com brocados desbotados nas paredes e uma camada de poeira cobrindo os móveis. Depois passaram por um grande corredor escuro, subiram as escadas e entraram num cômodo, no primeiro andar.
– A biblioteca do meu avô – anunciou.
Horace olhou em volta da biblioteca com um prazer enorme.
Do ponto de vista dele, era um cômodo repleto de excentricidades. Cabeças de esfinges surgiam nas mais improváveis partes dos móveis, havia uma estátua de bronze colossal, que representava, deduziu, Paulo e Virgínia, e um relógio de bronze enorme com adornos clássicos dos quais ele desejava tirar fotos.
– Uma boa coleção de livros – disse a srta. Greenshaw.
Raymond já estava conferindo os livros. De acordo com o que pôde observar após uma olhada rápida, não havia livro algum ali de interesse particular ou, de fato, nenhum livro que parecesse ter sido lido. Todos faziam parte de coleções dos clássicos, encadernadas com elegância, fornecidas noventa anos atrás para suprir a biblioteca de um cavalheiro. Alguns romances antigos estavam incluídos. No entanto, também apresentavam poucos sinais de terem sido lidos.
A srta. Greenshaw estava remexendo as gavetas de uma mesa comprida. Por fim, retirou um pergaminho.
– Meu testamento – esclareceu. – Tenho que deixar o dinheiro para alguém... ou é o que dizem. Se eu morrer sem um testamento, suponho que o filho de um negociante de cavalos irá tomá-lo. Um sujeito bonito, Harry Fletcher, mas um malandro da pior espécie. Não vejo por que o filho dele deveria herdar este lugar. Não – continuou, como se respondesse a uma suposta objeção –, já decidi. Vou deixá-lo para Cresswell.
– Para sua governanta?
– Sim. Já expliquei a ela. Fiz um testamento deixando-lhe tudo que tenho, e então não preciso pagar-lhe salário. Economizo bastante com as despesas correntes e a mantenho dentro da linha. Ela não me dá trabalho, nem fica passeando a qualquer hora. Ela é bastante esnobe, não é? Mas o pai dela era um encanador bem simples. Ela não é ninguém para querer se gabar.
Nesse instante ela abriu o pergaminho. Pegando uma caneta, mergulhou-a no tinteiro e assinou, Katherine Dorothy Greenshaw.
– Aqui está – disse. – Os senhores me viram assiná-lo, e agora os dois assinam e isso faz dele um documento legal.
Ela passou a caneta para Raymond West. Ele hesitou por um momento, sentindo uma repulsa inesperada pelo que haviam lhe pedido para fazer. Em seguida rabiscou com pressa a assinatura bem conhecida, para qual seu correio matinal costumava trazer pelo menos seis correspondências diárias.
Horace pegou a caneta da mão de Raymond e acrescentou sua assinatura diminuta.
– Está feito – disse a srta. Greenshaw.
Foi em direção à estante e permaneceu olhando para eles de modo vago. Depois abriu uma porta de vidro, pegou um livro e enfiou nele o pergaminho dobrado.
– Tenho meus próprios lugares para guardar as coisas – disse.
– O segredo de Lady Audley – observou Raymond West, vendo de relance o título enquanto o livro era guardado.
A srta. Greenshaw deu mais uma gargalhada.
– Um sucesso de vendas no seu tempo – comentou. – Diferente dos seus livros, hein?
Deu uma cutucada amigável e repentina nas costelas de Raymond. Ele ficou muito surpreso por ela ao menos saber que ele escrevia livros. Embora Raymond West fosse um tanto conhecido na literatura, não poderia ser considerado um sucesso de vendas. Ainda que suavizado um pouco pelo advento da meia-idade, seus livros lidavam de modo frio com o lado torpe da vida.
– Poderia – Horace pediu sem fôlego – apenas tirar uma foto do relógio?
– Com certeza – anuiu a srta. Greenshaw. – Acredito que ele veio de uma exposição em Paris.
– É muito provável – concordou Horace.
Ele tirou a foto.
– Esta biblioteca não tem sido muito utilizada desde o tempo do meu avô – informou a srta. Greenshaw. – Essa mesa é cheia de antigos diários dele. Interessante, acredito. Não tive vistas para lê-los. Gostaria de publicá-los, mas suponho que alguém teria que trabalhar bastante neles.
– Poderia encarregar alguém para fazer isso – sugeriu Raymond West.
– Poderia mesmo. É uma ideia, sabe. Vou pensar sobre isso.
Raymond West deu uma olhada para o relógio.
– Não vamos tomar mais o seu tempo – disse.
– Foi um prazer vê-los – disse a srta. Greenshaw de forma cordial. – Pensei que fosse um policial quando o vi contornando a esquina da casa.
– Por que um policial? – indagou Horace, que nunca se importava em fazer perguntas.
A srta. Greenshaw respondeu de modo inesperado.
– Se quer saber as horas, pergunte a um policial – brincou, e cutucou as costelas de Horace e deu uma gargalhada sonora.
– Foi uma tarde maravilhosa – suspirou Horace enquanto voltavam para casa. – Realmente aquele lugar tem de tudo. A única coisa que a biblioteca precisa é de um corpo. Aquelas velhas histórias de detetive sobre assassinato na biblioteca... tenho certeza de que é justo esse tipo de biblioteca que os autores têm em mente.
– Se quer discutir sobre assassinato – disse Raymond –, deve conversar com minha tia Jane.
– Sua tia Jane? Você quer dizer Miss Marple?
Ele sentiu-se um pouco perdido.
A velha senhora encantadora à qual havia sido apresentado na noite anterior parecia ser a última pessoa que cogitaria em relação a assassinatos.
– Isso mesmo – respondeu Raymond. – Assassinato é uma especialidade dela.
– Mas meu querido, que coisa intrigante! O que quer dizer exatamente?
– Quis dizer apenas o seguinte – anunciou Raymond e parafraseou: – Certos tipos cometem homicídio, alguns se envolvem em assassinatos e outros têm os crimes confiados a eles. Minha tia Jane entra no terceiro grupo.
– Você está brincando.
– Nem um pouco. Posso colocá-lo em contato com o antigo comissário da Scotland Yard, com vários chefes de polícia e alguns inspetores diligentes do Departamento de Investigação Criminal da Yard.
Horace disse, animado, que milagres sempre acontecem. À mesa do chá, eles apresentaram a Joan West, esposa de Raymond, a Lou Oxley, sua sobrinha, e à velha Miss Marple, um resumo dos acontecimentos da tarde, recontando em detalhes tudo que a srta. Greenshaw havia lhes dito.
– Mas continuo achando – disse Horace – que tem algo sinistro nisso tudo. Aquela criatura com ar de duquesa, a governanta... talvez arsênico no chá, agora que ela sabe que a patroa fez um testamento em seu benefício?
– Diga-nos, tia Jane – pediu Raymond. – Vai haver assassinato ou não? O que a senhora acha?
– Acho – respondeu Miss Marple, torcendo sua lã com um ar bastante sério – que não se deve brincar com as coisas desse jeito, Raymond. Arsênico é, sem dúvida, uma boa possibilidade. Tão fácil de obter. É provável que já tenha um na casa de ferramentas, na forma de um herbicida.
– Acha mesmo, querida? – disse Joan West, afetuosa. – Não seria muito óbvio?
– Tudo muito apropriado para fazer um testamento – disse Raymond. – Não acredito mesmo que a pobre velha tenha alguma coisa para deixar, a não ser o tremendo elefante branco que é aquela casa. E quem ia querer aquilo?
– Uma companhia de cinema – sugeriu Horace –, ou um hotel ou uma instituição?
– Eles gostariam de comprar a casa a preço de banana – rebateu Raymond, mas Miss Marple estava balançando a cabeça em sentido negativo.
– Sabe, querido Raymond, não concordo com você nesse ponto. Quanto ao dinheiro, digo. O avô era, com certeza, um desses pródigos esbanjadores que fazem dinheiro de modo fácil, mas que não conseguem guardá-lo. Ele deve ter quebrado, como você disse, mas não deve ter ido à falência, caso contrário seu filho não teria herdado a casa. Quanto ao filho, como de costume tinha uma personalidade bem diferente da do pai. Um sovina. Um homem que economizava cada centavo. Diria que ao longo da sua vida é provável que tenha juntado uma boa quantia. Essa srta. Greenshaw parece ter puxado a ele, pois não gosta de gastar dinheiro, sem dúvida. Sim, acho que é muito provável que ela tenha uma boa quantia guardada.
– Nesse caso – disse Joan West –, gostaria de saber... que tal a Lou?
Olharam para Lou enquanto se sentava, calada, ao lado da lareira.
Lou era sobrinha de Joan West. Seu casamento tinha, como ela mesma dizia, fracassado, há pouco tempo, deixando-a com duas crianças e um rombo financeiro que mal dava para sustentá-los.
– Quero dizer – explicou-se Joan –, se essa srta. Greenshaw quer mesmo alguém para ler os diários do começo ao fim e preparar um livro para publicação...
– É uma possibilidade – falou Raymond.
Lou disse em voz baixa:
– É um trabalho que poderia fazer... e gostaria de fazê-lo.
– Vou escrever para ela – disse Raymond.
– Queria saber – disse Miss Marple, pensativa – o que a velha senhora quis dizer com aquele comentário sobre um policial.
– Ah, era apenas uma piada.
– Isso me lembrou – disse Miss Marple, fazendo sinal positivo com a cabeça de forma vigorosa –, sim, isso me lembrou muito o sr. Naysmith.
– Quem foi o sr. Naysmith? – perguntou Raymond, curioso.
– Ele criava abelhas – respondeu Miss Marple – e era muito bom em solucionar as palavras cruzadas dos jornais de domingo. E ele gostava de dar às pessoas impressões falsas apenas por divertimento. Mas às vezes isso trazia problemas.
Todos ficaram em silêncio por uns instantes, pensando no sr. Naysmith, mas como não parecia haver semelhança alguma entre ele e a srta. Greenshaw, pensaram que a querida tia Jane talvez estivesse ficando um pouquinho desconexa devido à idade.
II
Horace Bindler voltou para Londres sem coletar mais excentricidades, e Raymond West escreveu uma carta para a srta. Greenshaw contando-lhe que sabia de uma sra. Louisa Oxley que teria competência para encarregar-se do trabalho com os diários. Após alguns dias chegou uma carta, escrita em caligrafia antiquíssima, em que a srta. Greenshaw revelava-se ansiosa para utilizar-se dos serviços da sra. Oxley, e solicitava um encontro com a tal senhora para que a conhecesse.
Lou marcou logo o encontro, condições generosas foram acertadas e ela começou a trabalhar no dia seguinte.
– Sou muito grata a você – disse para Raymond. – Tudo se encaixa de modo perfeito. Posso levar as crianças à escola, ir à extravagância de Greenshaw e pegá-las na volta. É incrível como tudo deu certo! Só vendo para acreditar naquela velha senhora.
No fim da tarde do seu primeiro dia de trabalho, ela retornou e contou como foi seu dia.
– Quase não vi a governanta – disse. – Ela entrou com café e biscoitos às onze e meia, com a boca torcida e cerrada, e quase não falou comigo. Acho que ela não concorda nem um pouco com a minha contratação.
Prosseguiu:
– Parece haver quase uma rixa entre ela e o jardineiro, Alfred. É um rapaz daqui e é bastante indolente, imagino, e os dois não se falam. A srta. Greenshaw disse do seu jeito distinto: “Até onde me lembro, sempre houve rixas entre os jardineiros e os empregados da casa. Era a mesma coisa no tempo do meu avô. Naquela época, havia três homens e um rapaz no jardim, e oito criadas na casa, mas sempre tinha atrito”.
No dia seguinte, Lou retornou com mais novidades.
– Adivinhem? – disse. – Hoje de manhã fui incumbida a telefonar para o sobrinho.
– O sobrinho da srta. Greenshaw?
– Sim. Parece que ele é ator de uma companhia que está se apresentado na temporada de verão do Boreham on Sea. Liguei para o teatro e deixei uma mensagem convidando-o para um almoço amanhã. Muito divertido, na verdade. A velha não queria que a governanta soubesse. Acho que a sra. Cresswell fez alguma coisa que a deixou aborrecida.
– Amanhã mais um episódio dessa novela assustadora – murmurou Raymond.
– É igualzinho a uma novela, não é? Reconciliação com o sobrinho, o sangue é mais forte que tudo... novo testamento a ser feito e o antigo será desfeito.
– Tia Jane, a senhora está muito séria.
– Estou, minha querida? Ouviu mais alguma coisa sobre policiais?
Lou pareceu confusa.
– Não sei nada sobre policiais.
– Aquele comentário dela, minha querida – disse Miss Marple – deve significar alguma coisa.
No dia seguinte Lou chegou ao trabalho de bom humor. Passou pela porta da frente que estava aberta; as portas e janelas da casa estavam sempre abertas. A srta. Greenshaw parecia não temer assaltantes, o que era justificado, pois a maioria dos objetos da casa pesava muitas toneladas e não tinha valor no mercado.
Lou passou por Alfred no caminho. Quando o viu pela primeira vez, estava apoiado numa árvore, fumando um cigarro, mas assim que ele a notou, pegou uma vassoura e começou a varrer as folhas com atenção. Um jovem preguiçoso, pensou, mas bonito. Os traços dele lembravam-lhe alguém. Quando atravessou o corredor a caminho da biblioteca lá em cima, deu uma olhada para a grande imagem de Nathaniel Greenshaw, que ocupava posição de destaque acima da cornija da lareira, mostrando-se no auge da prosperidade vitoriana, recostado numa poltrona enorme, com as mãos repousadas na corrente de ouro do relógio de bolso, cruzadas sobre seu estômago volumoso. Quando o olhar dela moveu-se do estômago para o rosto com bochechas salientes, sobrancelhas grossas e um viçoso bigode preto, ocorreu-lhe o pensamento de que Nathaniel Greenshaw deveria ter sido bonito quando jovem. Talvez se parecesse um pouco com Alfred...
Ela entrou na biblioteca, fechou a porta, abriu a máquina de escrever e tirou os diários da gaveta na lateral da mesa. Através da janela aberta viu, de repente, a srta. Greenshaw com uma roupa enfeitada com folhas de cor marrom-avermelhada, curvada sobre o jardim artificial de pedras e plantas, capinando de modo incansável. Havia feito dois dias de chuva, dos quais as ervas daninhas tinham tirado proveito.
Lou, uma moça criada na cidade, decidiu que se um dia tivesse um quintal, ele jamais abrigaria um jardim ornamental que precisasse ser capinado à mão. Em seguida ela concentrou-se no trabalho.
Quando a sra. Cresswell entrou na biblioteca com a bandeja de café, às onze e meia, ela estava sem dúvida de muito mau humor. Bateu a bandeja na mesa e falou para o nada:
– Visita para o almoço... e não tem nada na casa! O que eu devo fazer? Gostaria de saber. E nem sinal de Alfred.
– Quando cheguei ele estava varrendo a entrada para carros da casa – informou Lou.
– É o que eu digo. Um trabalhinho bobo.
A sra. Cresswell saiu do cômodo e bateu a porta. Lou deu risada sozinha. Ficou imaginando como seria o “sobrinho”.
Ela terminou o café e voltou a se concentrar no trabalho. Era tão cativante que o tempo passou rápido. Nathaniel Greenshaw, quando começou a escrever um diário, entregou-se aos prazeres da confidência. Examinando uma passagem relacionada ao charme particular de uma garçonete da cidade vizinha, Lou achou que seria necessária uma boa edição.
Enquanto pensava nisso foi surpreendida por um grito vindo do jardim. Deu um pulo e correu para a janela aberta. A srta. Greenshaw estava cambaleando, saindo do jardim ornamental em direção a casa. Suas mãos apertavam o peito, e entre elas projetava-se uma haste emplumada, que Lou identificou, estupefata, ser a haste de uma flecha.
A cabeça da srta. Greenshaw, com seu chapéu de palha gasto, caiu para frente, por cima do peito. Ela gritou para Lou com uma voz falha:
– ...me atingiu... ele me atingiu... com uma flecha... peça ajuda...
Lou correu para a porta. Virou a maçaneta, mas a porta não abria. Foram necessárias algumas tentativas inúteis para se dar conta de que estava trancada. Correu de volta para a janela.
– Estou trancada.
A srta. Greenshaw, com as costas viradas para Lou e girando um pouco os pés, estava gritando para a governanta numa janela mais distante.
– Chame a polícia... ligue...
Em seguida, balançando-se de um lado para o outro como bêbada, desapareceu da vista de Lou, entrando na sala de visitas debaixo da janela. Logo depois, Lou ouviu um barulho de louça quebrando, uma queda forte e, por fim, silêncio. A imaginação dela reconstruiu a cena. A srta. Greenshaw deve ter cambaleado às escuras até uma mesa pequena contendo um jogo de chá de porcelana de Sèvres.
Desesperada, Lou batia à porta, chamando e gritando. Não havia uma trepadeira nem um cano de escoamento do lado de fora da janela que pudesse ajudá-la a escapar dali.
Por fim, cansada de bater à porta, voltou para a janela. A cabeça da governanta apareceu na janela da sala de visitas defronte, bem distante.
– Venha aqui e me deixe sair, sra. Oxley. Estou trancada.
– Também estou.
– Meu Deus, não é terrível? Liguei para a polícia. Tem uma extensão aqui no cômodo, mas o que não consigo entender, sra. Oxley, é como ficamos trancadas. Eu não ouvi nenhuma chave girar, e a senhora?
– Não. Não ouvi nada. Oh, Deus, o que devemos fazer? Talvez Alfred possa nos ouvir.
Lou gritou o máximo que pôde:
– Alfred, Alfred.
– Deve ter ido almoçar, como sempre. Que horas são?
Lou deu uma olhada no seu relógio.
– 12h25.
– Ele não deveria sair antes do meio-dia e meia, mas escapa sempre que pode.
– Acha que... acha que...
Lou queria perguntar “acha que ela está morta?”, mas as palavras ficaram presas na sua garganta.
Não havia nada a fazer a não ser esperar. Lou acomodou-se no peitoril da janela. Pareceu uma eternidade até a figura impassível do chefe de polícia com seu capacete aparecer na esquina da casa. Ela apoiou-se na janela e ele olhou para cima em direção a ela, protegendo os olhos da claridade com as mãos. Quando falou, sua voz era de reprovação.
– O que está acontecendo aqui? – perguntou, contrariado.
De suas respectivas janelas, Lou e a sra. Cresswell despejaram uma enxurrada de informações confusas em cima dele.
O chefe de polícia providenciou um caderno de anotações e um lápis.
– As senhoras subiram as escadas e se trancaram? Posso perguntar os nomes das duas, por favor?
– Não. Alguém trancou a gente. Ajude-nos a sair.
O chefe de polícia falou de modo repreensivo:
– Cada coisa a seu tempo – e desapareceu debaixo da janela.
Outra vez a espera pareceu uma eternidade. Lou ouviu o barulho de um carro chegando e, após o que parecia ter sido uma hora, mas foram apenas três minutos, a sra. Cresswell e Lou, nessa ordem, foram soltas por um sargento da polícia mais ágil do que o outro policial.
– E a srta. Greenshaw? – a voz de Lou vacilou. – O que... o que aconteceu?
O sargento limpou a garganta.
– Lamento ter que contar, senhora – começou –, o que já falei para a sra. Cresswell. A srta. Greenshaw está morta.
– Assassinada – disse a sra. Cresswell. – Foi o que aconteceu, assassinato.
O sargento ponderou, duvidoso:
– Pode ter sido um acidente... uns rapazes locais atirando com arco e flecha.
Mais uma vez ouviu-se o som de um carro chegando. O sargento falou:
– Deve ser o médico legista – e desceu as escadas.
No entanto, não era o médico legista. Enquanto Lou e a sra. Cresswell desciam as escadas, um rapaz surgiu, hesitante, na porta de entrada, e parou, olhando ao redor com um aspecto um tanto desnorteado.
Em seguida, falando com uma voz aprazível que, de alguma forma, soava familiar a Lou (talvez a voz fosse semelhante à da srta. Greenshaw), ele perguntou:
– Com licença, a... hum... a srta. Greenshaw mora aqui?
– Pode me dizer seu nome, por favor – pediu o sargento dirigindo-se a ele.
– Fletcher – respondeu o rapaz. – Nat Fletcher. Sou o sobrinho da srta. Greenshaw, na verdade.
– Entendido, senhor, bem... sinto muito... tenho certeza de que...
– Aconteceu alguma coisa? – perguntou Nat Fletcher.
– Houve um... acidente... sua tia foi atingida por uma flecha... penetrou a veia jugular...
A sra. Cresswell disse de modo histérico e sem o aprimoramento costumeiro:
– Zua tia foi azazinada, foi o que acontezeu. Zua tia foi azazinada.
III
O inspetor Welch aproximou um pouco sua cadeira da mesa e passou os olhos em cada uma das quatro pessoas que ali estavam. Era o fim da tarde daquele mesmo dia. Ele foi à casa dos West para pegar, mais uma vez, o depoimento de Lou Oxley.
– Tem certeza de que essas foram as palavras exatas? “Me atingiu... ele me atingiu... com uma flecha... peça ajuda.”
Lou assentiu com um gesto.
– E quanto ao horário?
– Olhei para o meu relógio instantes depois... era então 12h25.
– Seu relógio funciona bem?
– Olhei para o relógio de parede também.
O inspetor voltou-se para Raymond West.
– Parece, senhor, que cerca de uma semana atrás o senhor e um tal de sr. Horace Bindler foram testemunhas do testamento da srta. Greenshaw.
De forma breve, Raymond relatou os eventos da visita que havia feito à extravagância de Greenshaw junto ao sr. Horace Bindler naquela tarde.
– Este seu depoimento pode ser importante – disse Welch. – A srta. Greenshaw disse-lhe de forma clara que o testamento dela havia sido feito em favor da sra.
Cresswell, a governanta, para a qual ela não pagava nenhum salário em razão da perspectiva de a sra. Cresswell ser beneficiada com a morte dela, foi isso?
– Foi isso que ela me contou. Sim.
– Diria que a sra. Cresswell estava, com certeza, ciente desse fato?
– Diria que sim, sem dúvida. A srta. Greenshaw fez referência, na minha presença, de que os beneficiados não podiam ser testemunhas de um testamento, e a sra. Cresswell com certeza entendeu o que ela quis dizer com isso. Além disso, a própria srta. Greenshaw disse-me que havia chegado a esse acordo com a sra. Cresswell.
– Então a sra. Cresswell tinha razão para acreditar que era a parte beneficiada. O motivo era bastante claro no caso dela, e diria que seria nossa principal suspeita no momento, não fosse pelo fato de que com certeza estava trancada em seu cômodo, tal qual a sra. Oxley, e também que a sra. Greenshaw disse, sem dúvida, que um homem atirou nela...
– Ela estava mesmo trancada no cômodo?
– Ah, sim. Foi o sargento Cayley que a tirou de lá. Era uma fechadura grande e antiga, com uma chave também grande e antiga. A chave estava na fechadura e não havia como ter sido virada por dentro, nem ter havido alguma manobra do tipo. Não, pode ter certeza de que a sra. Cresswell foi trancada dentro daquele cômodo e não tinha como sair. Não havia nenhum arco e flecha no local e a srta. Greenshaw não poderia, em hipótese alguma, ter sido atingida por aquela janela, o ângulo não deixa dúvida. Não, a sra. Cresswell está fora disso.
Fez uma pausa e prosseguiu:
– Na sua opinião, diria que a srta. Greenshaw era uma trapaceira experiente?
Do canto onde estava, Miss Marple levantou os olhos com um movimento rápido.
– Então, depois de tudo, o testamento não era em benefício da sra. Cresswell? – ela conjecturou.
O inspetor Welch examinou-a de um jeito bastante surpreso.
– Esse é um palpite muito inteligente da sua parte, senhora – disse. – Não. A sra. Cresswell não foi nomeada como beneficiária.
– Da mesma forma como fez o sr. Naysmith – disse Miss Marple, balançando a cabeça em sentido afirmativo. – A srta. Greenshaw disse a sra. Cresswell que deixaria tudo para ela, e assim livrou-se de pagar-lhe um salário... e, entretanto, deixou o dinheiro para outra pessoa. Não tenho dúvida de que ela ficou demasiado satisfeita consigo mesma. Com certeza ela disfarçou o riso quando guardou o testamento dentro de O Segredo de Lady Audley.
– Foi uma sorte a sra. Oxley ter sido capaz de nos contar sobre o testamento e em que lugar estava – disse o inspetor. – Não fosse por isso, teríamos feito uma longa busca até encontrá-lo.
– Um senso de humor das antigas – murmurou Raymond West.
– Então, depois de tudo, ela deixou o dinheiro para o sobrinho – disse Lou.
O inspetor mexeu a cabeça de forma negativa.
– Não – disse –, ela não o deixou para Nat Fletcher. A história que corre por aqui... claro que sou novo no local e só soube da fofoca em segunda mão... mas parece que, tempos atrás, a srta. Greenshaw e sua irmã faziam investidas para cima do jovem e belo professor de equitação, e a irmã ficou com ele. Não, a srta. Greenshaw não deixou o dinheiro para o sobrinho... – ele fez uma pausa e coçou o queixo. – Ela deixou-o para Alfred – revelou.
– Alfred, o jardineiro? – Joan perguntou com um tom de surpresa na voz.
– Sim, sra. West. Alfred Pollock.
– Mas por quê? – bradou Lou.
Miss Marple tossiu e murmurou:
– Imagino, embora talvez esteja errada, que deve ter havido... o que chamamos de razões familiares.
– Pode chamá-las assim, de certa maneira – concordou o inspetor. – Parece que é um tanto bem conhecido na vila que Thomas Pollock, avô de Alfred, era um dos filhos ilegítimos do sr. Greenshaw.
– Claro – gritou Lou –, a semelhança! Percebi a semelhança hoje de manhã.
Ela lembrou-se de como, após passar por Alfred, entrara na casa e olhara para cima em direção à imagem do velho Greenshaw.
– Suponho que – disse Miss Marple – ela pensou que Alfred Pollock deveria ter orgulho da casa, queria, ao menos, morar nela, já que para seu sobrinho a casa não era de nenhuma serventia e ele a venderia assim que pudesse. Ele é um ator, não é? Qual é mesmo a peça que ele está encenando no momento?
O inspetor Welch pensou que a velha senhora estava desviando do assunto, mas ainda assim respondeu de modo educado:
– Acredito, senhora, que estejam apresentando uma temporada de peças de James Barrie.
– Barrie – repetiu Miss Marple, pensativa.
– What Every Woman Knows – disse o inspetor Welch, e em seguida enrubesceu. – Esse é o nome da peça – disse, rápido. – Não sou muito frequentador de teatro – acrescentou –, mas minha mulher foi e assistiu à peça na semana passada. Muito bem feita, ela achou.
– Barrie escreveu algumas peças muito interessantes – disse Miss Marple –, embora deva dizer que quando fui com um velho amigo, general
Easterly, assistir à peça de Barrie Little Mary[7] – balançou a cabeça desconsolada –, nenhum de nós sabia para onde olhar.
O inspetor, que desconhecia a peça Little Mary, pareceu totalmente perdido. Miss Marple explicou-lhe:
– Quando era garota, inspetor, ninguém sequer mencionava a palavra estômago.
O inspetor pareceu ainda mais perdido. Miss Marple estava murmurando títulos em voz baixa:
– The Admirable Crichton, muito inteligente. Mary Rose, uma peça encantadora. Chorei, me lembro. Não gostei muito de Quality Street. Depois veio A Kiss for Cinderella. Ah, claro.
O inspetor Welch não tinha tempo a perder com discussões sobre teatro. Voltou ao assunto em voga.
– A pergunta é – anunciou – Alfred Pollock sabia que a velha havia feito um testamento em benefício dele? Ela contou-lhe?
O inspetor acrescentou:
– Veja, tem um clube de arco e flecha adiante, em Boreham Lovell, e Alfred Pollock é um dos membros. Ele é, de fato, um excelente atirador de arco e flecha.
– Sendo assim, esse caso está bem resolvido, não? – perguntou Raymond West. – Faria sentido que as portas tivessem sido trancadas com as duas mulheres dentro. Ele com certeza saberia onde elas estavam na casa.
O inspetor olhou para ele e falou com um desânimo profundo.
– Ele tem um álibi – revelou o inspetor.
– Sempre penso que álibis são muito suspeitos.
– Talvez, senhor – disse o inspetor Welch. – O senhor fala como um escritor.
– Não escrevo histórias de detetive – rebateu Raymond West, horrorizado só de pensar na ideia.
– Muito fácil dizer que álibis são suspeitos – prosseguiu o inspetor Welch –, mas infelizmente temos que lidar com os fatos.
O inspetor suspirou.
– Temos três bons suspeitos – disse. – Três pessoas que, por coincidência, estavam muito próximas à cena naquele momento. Ainda assim, o estranho é que parece que nenhum dos três poderia tê-lo feito. A governanta, já tratei dela... o sobrinho, Nat Fletcher, no momento em que a srta. Greenshaw foi atingida, estava a algumas milhas de distância, estacionando o carro em uma vaga e perguntando o caminho... e quanto a Alfred Pollock, seis pessoas juram que ele entrou no Dog and Duck, às 12h20, e lá ficou durante uma hora, comendo seu costumeiro pão com queijo e cerveja.
– Criou o álibi de forma intencional – disse Raymond West, esperançoso.
– Talvez – disse o inspetor Welch –, mas, se o fez, ele de fato tem um álibi.
Fez-se um silêncio longo. Então Raymond virou a cabeça para onde Miss Marple estava sentada, ereta e pensativa.
– É com a senhora, tia Jane – disse. – O inspetor falhou, o sargento falhou, eu falhei, Joan falhou e Lou também. Mas para a senhora, tia Jane, está claro como água. Estou certo?
– Não diria isso, querido – disse Miss Marple –, não claro como água, e assassinatos, querido Raymond, não são brincadeira. Não acredito que a srta. Greenshaw quisesse morrer, e foi um assassinato particularmente cruel. Muito bem planejado e quase a sangue frio. Não é algo para se fazer piadas!
– Sinto muito – Raymond desculpou-se, embaraçado. – Não sou tão insensível quanto pareço. Algumas pessoas tratam as coisas de forma leve para fugir do... bem, do horror que são.
– Acredito que essa é a tendência atual – disse Miss Marple. – Todas essas guerras, e surgem piadas sobre funerais. Sim, talvez não tenha pensado direito quando lhe chamei de insensível.
– Não conhecíamos ela muito bem – observou Joan.
– Isso é bem verdade – disse Miss Marple. – Você, querida Joan, nunca a conheceu. Eu também não. Raymond teve uma impressão dela a partir de uma tarde de conversas. Lou a conheceu por poucos dias.
– Vamos, tia Jane – impacientou-se Raymond – conte-nos suas impressões. O senhor não se importa, não é, inspetor?
– De jeito nenhum – respondeu o inspetor, de modo cortês.
– Bem, meu querido, parece que há três pessoas que tinham, ou achávamos que tinham, um motivo para matar a velha senhora. E três razões bem simples pelas quais nenhuma delas poderia tê-lo feito. A governanta não poderia ter sido, porque estava presa no cômodo e porque a srta. Greenshaw afirmou, sem dúvida, que foi um homem que atirou nela. O jardineiro não foi, porque estava no Dog and Duck no momento do assassinato. O sobrinho também não foi, pois ainda estava a alguma distância dali, no seu carro, no momento do crime.
– Muito bem colocado, senhora – disse o inspetor.
– E supondo que parece muito improvável que tenha sido um estranho, então em que pé nós estamos?
– É isso que o inspetor quer saber – disse Raymond West.
– As pessoas costumam ver as coisas pelo lado errado – disse Miss Marple, apologética. – Se não podemos alterar os movimentos nem a posição dessas três pessoas, então poderemos, talvez, alterar o momento do assassinato, não?
– Quer dizer que tanto o meu relógio quanto o relógio de parede estavam errados? – perguntou Lou.
– Não, querida – respondeu Miss Marple –, não quis dizer isso de maneira alguma. Quis dizer que o assassinato não ocorreu no momento em que você pensou ter ocorrido.
– Mas eu vi – gritou Lou.
– Bem, estive pensando, minha querida, se tudo não foi arranjado para que você visse. Sabe, me pergunto se essa não foi a razão verdadeira de você ter sido contratada para esse trabalho.
– O que quer dizer, tia Jane?
– Bem, querida, parece estranho. A srta. Greenshaw não gostava de gastar dinheiro, mas ainda assim contratou-a e concordou de bom grado com as condições que você pediu. Pareceu-me que, talvez, queriam que você estivesse naquela biblioteca no primeiro andar, olhando pela janela, de modo que você pudesse ser a testemunha-chave, alguém de fora e de inquestionável boa-fé para determinar o lugar e o momento exato do crime.
– Mas não pode dizer – contestou Lou, incrédula – que a srta. Greenshaw planejava ser assassinada.
– Quero dizer, querida – disse Miss Marple –, que você não conhecia a fundo a srta. Greenshaw. Não há um motivo real para acreditar que a srta. Greenshaw que você viu quando foi à casa é a mesma srta. Greenshaw que Raymond viu uns dias atrás, ou há? Ah, sim, eu sei – continuou, a fim de evitar uma réplica de Lou –, ela usava o peculiar vestido antigo e estampado, além do esquisito chapéu de palha, e tinha o cabelo desgrenhado. Correspondia tal qual à descrição que Raymond nos deu no fim de semana passado. Mas essas duas mulheres tinham a mesma idade, altura e tamanho. Refiro-me à governanta e a srta. Greenshaw.
– Mas a governanta é gorda! – exclamou Lou. – Tem seios enormes.
Miss Marple tossiu.
– Mas minha querida, sem dúvida, hoje em dia eu os vejo... hum... nas lojas, expostos da forma mais inapropriada. É muito fácil para qualquer pessoa ter um... seio... de qualquer forma e tamanho.
– O que está tentando dizer? – perguntou Raymond.
– Estava apenas pensando, querido, que durante os poucos dias em que Lou esteve trabalhando lá, uma mulher poderia ter encenado as duas partes. Lou, você diz que pouco via a governanta, exceto de manhã, quando ela trazia a bandeja com café para você. Vemos aqueles bons artistas no palco entrando como personagens diferentes, tendo apenas um ou dois minutos para gastar, e tenho certeza de que a troca poderia ter sido feita de forma bem fácil. Aquele penteado de marquesa poderia ser apenas uma peruca colocada e retirada sem dificuldade.
– Tia Jane! Está insinuando que a srta. Greenshaw estava morta antes de eu começar a trabalhar lá?
– Morta não. Mantida sob efeito de remédios, diria. Um trabalho muito fácil para ser executado por uma mulher sem escrúpulos como a governanta. Em seguida, ela fez o acordo com você e colocou-a para telefonar para o sobrinho marcando um almoço numa hora determinada. A única pessoa que poderia saber que essa srta. Greenshaw não era a verdadeira era Alfred. E caso você se lembre, nos dois primeiros dias em que trabalhou lá, estava chovendo, e a srta. Greenshaw permaneceu dentro da casa. Alfred não entrou na casa em momento algum, devido à rixa com a governanta. E na última manhã, Alfred estava na entrada para carros da casa, enquanto a srta. Greenshaw estava trabalhando no jardim ornamental... gostaria de dar uma olhada naquele jardim.
– Acha que foi a sra. Cresswell que matou a srta. Greenshaw?
– Acho que, após trazer-lhe o café, a mulher trancou a porta ao sair, com você dentro, carregou a srta. Greenshaw inconsciente para a sala de visitas do térreo, depois disfarçou-se de “srta. Greenshaw” e saiu para trabalhar no jardim ornamental, de onde você poderia vê-la da janela. No devido tempo ela gritou e cambaleou em direção à casa, apertando uma flecha como se tivesse penetrado sua garganta. Pediu ajuda e foi cuidadosa ao dizer “ele me atingiu”, de modo a afastar a suspeita da governanta. Também gritou para a janela da governanta como se a tivesse visto lá. Em seguida, já dentro da sala de visitas, derrubou as porcelanas de cima da mesa e subiu as escadas com pressa, colocou a peruca de marquesa e, poucos instantes depois, pôde colocar a cabeça para fora da janela e dizer-lhe que também estava trancada.
– Mas ela estava trancada lá dentro – disse Lou.
– Sei. É aí que entra o policial.
– Que policial?
– Isso mesmo... que policial? O inspetor se importaria de dizer-me como e quando o senhor chegou ao local?
O inspetor pareceu um pouco desnorteado.
– Às 12h29 recebemos um telefonema da sra. Cresswell, governanta da srta. Greenshaw, relatando que sua patroa havia sido atingida. O sargento Cayley e eu fomos diretamente para lá de carro e chegamos na casa às 12h35. Encontramos a srta. Greenshaw morta e as duas senhoras trancadas em diferentes cômodos.
– Então, está vendo, minha querida – disse Miss Marple para Lou. – O chefe de polícia que você viu não era o chefe de polícia verdadeiro. Você nunca chegou a pensar nele, ninguém o faria, apenas reconhecemos mais um uniforme como se fosse legítimo.
– Mas quem foi... por quê?
– Quanto à pessoa... bem, se eles estão encenando A Kiss for Cinderella, o policial é o ator principal. Nat Fletcher teria apenas que conseguir o figurino que usava na peça. Perguntaria o caminho até a garagem, sendo cuidadoso com o horário, 12h25, e depois seguiria adiante, sem perder tempo, deixaria seu carro próximo à esquina, tiraria o uniforme policial e faria seu “papel”.
– Mas por quê? Por quê?
– Alguém tinha que trancar a porta da governanta por fora, e alguém tinha que atravessar a flecha na garganta da srta. Greenshaw. É possível perfurar qualquer um com uma flecha apenas lançando-a, mas é necessário ter força.
– Quer dizer que ambos estavam juntos nisso?
– Ah, sim, acho que sim. Mãe e filho, é muito provável.
– Mas a irmã da srta. Greenshaw morreu anos atrás.
– Sim, mas não tenho dúvida de que o sr. Fletcher casou-se outra vez. Ele parece o tipo de homem que se casaria de novo, e acho possível que a criança tenha morrido também, e o tal dito sobrinho era filho da segunda mulher, e nunca foi um parente. A mulher assumiu o cargo de governanta e pesquisou o terreno. Em seguida ele escreveu como se fosse o sobrinho e sugeriu visitá-la, deve ter feito alguma brincadeira com referência a vir vestido de policial, ou a chamou para assistir à peça. Mas acho que ela desconfiou da verdade e recusou-se a vê-lo. Ele teria sido seu herdeiro se ela tivesse morrido sem fazer um testamento, mas claro que uma vez tendo feito o testamento em benefício da governanta, como eles pensavam, ficou tudo resolvido.
– Mas por que utilizaram uma flecha? – observou Joan. – É tão improvável.
– Não é improvável de modo algum, querida. Alfred pertencia ao clube de arqueiros... pretendiam que ele levasse a culpa. O fato de ele estar no pub cedo, às 12h20, foi muita falta de sorte para eles. Alfred sempre saía um pouco antes do horário certo, e esse teria sido o momento certo... – ela balançou a cabeça negativamente. – Em termos morais, parece mesmo errado que a indolência de Alfred tenha salvado sua vida.
O inspetor limpou a garganta.
– Bem, senhora, suas insinuações são muito interessantes. Terei, claro, que investigar...
IV
Miss Marple e Raymond West pararam próximos ao jardim artificial e olharam para baixo para a cesta de flores cheia de plantas mortas.
Miss Marple sussurrou:
– Alyssum, saxífraga, giesta, campânula... Sim, aqui está toda a prova que eu preciso. Quem quer que estivesse capinando aqui ontem não entendia de jardinagem – ela arrancou plantas e sementes. – Então agora sei que estou certa. Obrigada, querido Raymond, por me trazer aqui. Queria ver o lugar com meus olhos.
Ela e Raymond olharam para cima em direção à construção extraordinária que era a extravagância de Greenshaw.
Uma tossida os fez olhar para trás. Um jovem bonito também estava olhando a casa.
– Maldito casarão! – disse o jovem. Muito grande para os dias de hoje... ou, pelo menos, é o que dizem. Não tenho certeza disso. Se eu ganhasse a aposta de futebol e embolsasse muito dinheiro, esse era o tipo de casa que gostaria de construir.
Sorriu um pouco tímido para eles.
– Suspeito que eu possa dizer isso agora, que essa casa foi construída por meu bisavô – disse Alfred Pollock. – E é uma bela casa, por isso que é chamada de a extravagância de Greenshaw!
Você terminou Os Últimos Casos de Miss Marple
Agatha Christie