Os Últimos Casos de Miss Marple

Agatha Christie · Capítulo 5 de 9

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Os Últimos Casos de Miss Marple

O caso da criada perfeita

 

I

 

– Ah, com sua licença, senhora, posso falar-lhe um momento?

Esse pedido poderia parecer de natureza absurda, uma vez que Edna, a criada de Miss Marple, já estava falando com sua patroa naquele momento.

Todavia, reconhecendo o modo de falar peculiar, Miss Marple disse de imediato:

– Claro, Edna, entre e feche a porta. O que foi?

Edna entrou no cômodo e fechou a porta de modo obediente, segurou a ponta do avental com os dedos e engoliu em seco algumas vezes.

– Pois não, Edna? – disse Miss Marple, encorajando-a.

– Ah, sim, senhora, é a minha prima, Gladdie.

– Meu Deus! – exclamou Miss Marple, sua mente imaginando o pior e, Deus do céu, a conclusão mais óbvia. – Está... está em apuros?

Edna apressou-se em tranquilizá-la.

– Não, senhora, não é nada disso. Gladdie não é esse tipo de garota. É só que ela está chateada. Perdeu o emprego, sabe.

– Minha nossa, sinto muito. Ela estava em Old Hall, com a srta., as srtas. Skinner, não é?

– Sim, senhora, isso mesmo, senhora. E Gladdie está muito aborrecida com isso, muito aborrecida mesmo.

– Mas Gladys já mudou de emprego várias vezes antes, não?

– Ah, sim, senhora. Ela está sempre mudando, Gladdie é assim. Nunca parece se fixar num lugar pra valer, se entende o que quero dizer. Mas era sempre ela que pedia demissão, sabe.

– E dessa vez foi diferente? – Miss Marple perguntou.

– Foi, senhora, e isso deixou Gladdie muitíssimo chateada.

Miss Marple parecia um pouco surpresa. Sua lembrança de Gladys, que ia de vez em quando tomar um chá na cozinha nos seus “dias de folga”, era de uma garota forte e risonha, com temperamento sempre estável.

Edna prosseguiu.

– Veja, senhora, foi o modo como tudo aconteceu; o modo como a srta. Skinner viu as coisas.

– Como – inquiriu Miss Marple de modo paciente – a srta. Skinner viu?

Nesse momento Edna deu início a seu boletim de notícias.

– Ah, senhora, foi um choque tão grande para Gladdie. Ouça, um dos broches da srta. Emily havia sumido, e isso levantou um clamor por justiça como nunca foi visto, e claro que ninguém gosta quando algo assim acontece; é constrangedor, senhora, se é que me entende. Gladdie ajudou a procurar por todo lugar, e a srta. Lavinia ficava dizendo que ia à polícia dar queixa, e aí o broche reapareceu, metido no fundo de uma gaveta da penteadeira, e Gladdie ficou muito contente. Aí, logo no dia seguinte, um prato quebrou, o que é comum, e a srta. Lavinia... ela falou sem rodeios e deu a Gladdie um aviso prévio. Mas o que Gladdie percebeu foi que não poderia ter sido por causa do prato e que a srta. Lavinia havia apenas inventado uma desculpa, e o motivo deve ter sido o broche. Elas devem ter pensado que Gladdie pegou o broche e devolveu-o quando a polícia foi mencionada, mas Gladdie nunca faria isso, ela jamais o faria. Mas ela se deu conta de que essa história vai se espalhar, vai se virar contra ela e isso é uma coisa muito séria para uma garota, como sabe, senhora.

Miss Marple anuiu com um aceno de cabeça. Embora não tivesse ligação alguma com a forte e orgulhosa Gladys, tinha quase certeza da honestidade da garota, e podia imaginar muito bem que o incidente deve tê-la aborrecido.

Edna falou de modo ansioso:

– Será, senhora, que não há nada que se possa fazer a respeito? Gladdie está de um jeito...

– Diga a ela para não fazer bobagem – disse Miss Marple, taxativa. – Se ela não pegou o broche, e tenho certeza de que ela não pegou, então não tem motivo para ficar aborrecida.

– Essa história vai circular – lamentou Edna, triste.

Miss Marple decidiu:

– Eu... hum... eu vou aparecer por lá esta tarde. Vou ter uma conversa com as srtas. Skinner.

– Ah, obrigada, senhora – agradeceu Edna.

 

II

 

Old Hall era uma mansão antiga rodeada por árvores e gramados. Desde que ficou provado que a casa não podia ser alugada nem vendida, um empreendedor ousado dividiu-a em quatro apartamentos, com um sistema de aquecimento central, e os “jardins” deveriam ser de uso comum entre os moradores. A iniciativa deu certo. Uma velha senhora rica e excêntrica ocupava um apartamento junto com sua criada. A velha senhora tinha paixão por pássaros e todo dia entretinha um bando emplumado com farelos. Um juiz indiano aposentado e sua esposa alugavam o segundo apartamento. Um casal muito jovem, recém-casado, morava no terceiro. E o último apartamento havia sido ocupado há apenas dois meses por duas senhoritas de sobrenome Skinner. Os quatro grupos de moradores eram o mais distante possível um do outro, pois nada tinham em comum. Ouviu-se do proprietário que isso era algo excelente. O que ele temia eram amizades seguidas de desavenças e, por conseguinte, queixas no seu ouvido.

Miss Marple conhecia todos os moradores, embora não soubesse nada em particular sobre eles. A mais velha das senhoritas Skinner, srta. Lavinia, era o que se pode chamar de a parte trabalhadora da família. A srta. Emily, a mais nova, passava a maior parte do tempo na cama sofrendo de várias doenças que, na opinião de St. Mary Mead, eram em grande parte imaginárias. Apenas a srta. Lavinia acreditava piamente no martírio da irmã e na sua paciência com a moléstia, e logo se encarregava de tarefas, saía às pressas pela vila, para cima e para baixo, atrás de coisas que “minha irmã cismou de uma hora para outra”.

Era a opinião de St. Mary Mead que se a srta. Emily sofresse metade do que dizia, teria sido examinada pelo dr. Haydock há muito tempo. No entanto, a srta. Emily, quando isso lhe era sugerido, piscava os olhos com ar de superioridade e segredava que seu caso não era simples (os melhores especialistas de Londres tinham ficado intrigados com o caso) e que um novo médico maravilhoso a tinha colocado sob o tratamento mais revolucionário, e que ela, de fato, acreditava que sua saúde melhoraria com isso. Nenhum clínico geral comum poderia jamais entender um caso como o dela.

– E essa é a minha opinião – disse a sincera srta. Hartnell –, ela é muito esperta por não se deixar examinar por ele. O querido dr. Haydock, com aquele seu jeito alegre, diria que não há nada de errado com ela e que deveria se levantar e deixar de manha! Isso faria muito bem a ela!

Todavia, na falta de um tratamento tão arbitrário, a srta. Emily continuava deitada no sofá, cercada com suas caixas de pequenos comprimidos, rejeitando quase tudo que preparavam para ela e pedindo por algo mais; na maior parte das vezes, algo inconveniente e difícil de conseguir.

 

III

 

A porta foi aberta para Miss Marple por “Gladdie”, parecendo mais deprimida do que Miss Marple poderia ter imaginado. Na sala de estar (reduzida a um quarto da antiga sala de visitas, que tinha sido dividida em sala de jantar, sala de visitas, banheiro e dispensa), a srta. Lavinia levantou-se para cumprimentar Miss Marple.

Lavinia Skinner era uma mulher de cinquenta anos, alta, magra e ossuda. Tinha uma voz áspera e um jeito rude.

– Que bom lhe ver – disse. – Emily está descansando, está sentindo-se fraca hoje, pobre criatura. Esperava que ela fosse lhe ver, isso a deixaria animada, mas há momentos em que ela não sente vontade de ver ninguém. Pobre criatura, ela é muito paciente.

Miss Marple respondeu de forma educada. Os empregados eram o assunto principal das conversas em St. Mary Mead, portanto não houve dificuldade em conduzir o diálogo nessa direção. Miss Marple comentou que tinha ouvido que aquela boa garota, Gladys Holmes, estava deixando a casa.

A srta. Lavinia confirmou com um movimento de cabeça.

– Na próxima quarta. Andou quebrando umas coisas, sabe. Não podia continuar assim.

Miss Marple deu um suspiro e disse que todas nós temos que relevar algumas coisas nos dias de hoje. Era tão difícil trazer as garotas para o interior. A srta. Skinner achava mesmo que deixar Gladys partir era o melhor a fazer?

– Sei que é difícil conseguir empregados – admitiu a srta. Lavinia. – Os Devereux não conseguiram ninguém... mas, nesse caso, não me espanto... sempre discutindo, conversa fiada a noite toda... refeições a qualquer hora... aquela garota não sabe nada sobre como cuidar de uma casa. Tenho pena do marido dela! E depois, os Larkin acabaram de perder sua empregada. Claro, quem já viu a disposição daquele juiz indiano para

o seu desejoso chota hazri[3], como ele diz, às seis da manhã, e a sra. Larkin sempre aborrecida. Isso também não me espanta. Janet, a criada da sra. Carmichael, é parte da casa, claro, embora na minha opinião ela seja uma das pessoas mais desagradáveis, e sem dúvida incomoda a velha senhora.

– Então não acha que deve reconsiderar sua decisão quanto a Gladys? Ela é mesmo uma boa garota. Conheço toda a família dela; pessoas excelentes e muito honestas.

A srta. Lavinia balançou a cabeça em sentido negativo.

– Tenho meus motivos – respondeu, parecendo importante.

Miss Marple murmurou:

– A senhora perdeu um broche, entendo...

– Ora, quem andou falando? Creio que tenha sido a garota. Sendo franca, tenho quase certeza de que ela o pegou. Depois ficou assustada e devolveu, mas claro, ninguém pode afirmar nada sem ter certeza.

Ela mudou de assunto.

– Venha ver Emily, Miss Marple. Tenho certeza que fará bem a ela.

Miss Marple seguiu de modo obediente a srta. Lavinia, até esta bater em uma porta e ter sua entrada autorizada, conduzindo sua visita para o melhor cômodo do apartamento, em que boa parte da iluminação estava bloqueada pelas cortinas parcialmente fechadas. A srta. Emily estava deitada na cama, aparentando aproveitar o escuro e seu próprio sofrimento indeterminado.

A luz fraca mostrou uma criatura franzina, de aparência indefinida, com cabelo amarelo-acinzentado, desarrumado e solto ao redor da cabeça, fazendo cachos; a coisa toda parecia um ninho de pássaros, do tipo que nenhuma ave de respeito teria orgulho. Havia um cheiro no quarto de água de colônia, biscoito envelhecido e cânfora.

Com olhos semicerrados e uma voz fraca e fina, Emily Skinner explicou que aquele era “um dos seus dias ruins”.

– O pior de uma saúde debilitada é que – disse a srta. Emily em tom melancólico – a pessoa sabe o peso que é para todos que estão à sua volta. Lavinia é muito boa para mim. Lavvie, querida, eu detesto dar trabalho, mas se a minha garrafa de água quente puder ao menos ser cheia do jeito que eu gosto... muito cheia me aflige... mas se não for cheia o bastante, logo fica fria!

– Desculpe, querida. Me passe a garrafa. Vou esvaziá-la um pouco.

– Talvez, já que você vai fazer isso, poderia enchê-la outra vez. Acho que não tem torrada em casa... não, não importa. Pode ser outra coisa. Um chá fraco com uma rodela de limão... não tem limão? Não, de fato, não poderia beber chá sem limão. Acho que o leite estava um pouco coalhado hoje de manhã. Tomei aversão a leite no chá. Não importa. Posso deixar o chá de lado. Só que me sinto tão fraca. Dizem que ostras são nutritivas. Será que eu poderia comer umas? Não, não, é muito incômodo ir atrás disso a essa hora do dia. Posso esperar até amanhã.

Lavinia deixou o quarto murmurando algo incompreensível sobre ir de bicicleta até a vila.

A srta. Emily mostrou um sorriso débil à sua visita e comentou que odiava dar trabalho para qualquer pessoa.

Naquela noite, Miss Marple contou a Edna que receava que sua missão diplomática não tivesse obtido sucesso.

Ela ficou bastante preocupada ao saber que os rumores sobre a desonestidade de Gladys já haviam se espalhado pela vila.

No correio, a srta. Wetherby difamou a garota:

– Minha querida Jane, deram a ela uma referência escrita dizendo que era disposta, sensata e respeitável, mas nada disseram sobre sua honestidade. Isso me parece muito significativo! Soube que houve uma confusão com um broche. Sabe, acho que deve ter algo a ver com isso, porque nos dias de hoje não se deixa um empregado ir embora, a não ser que seja algo muito grave. Elas terão muita dificuldade para encontrar outra pessoa. Garotas simplesmente não vêm para Old Hall. Elas ficam agoniadas em ir para casa nos dias de folga. A senhora vai ver, as Skinner não vão encontrar outra pessoa, e aí, quem sabe, aquela irmã ultra-hipocondríaca vai ter que se levantar e fazer alguma coisa!

Qual não foi o espanto da vila quando soube que as srtas. Skinner tinham arranjado, por meio de uma agência, uma nova criada, que, conforme se dizia, era um modelo de perfeição.

– Tem uma referência de três anos e foi muito bem-recomendada. Ela prefere o interior e, para completar, pediu um salário menor do que o de Gladys. Acho mesmo que tivemos muita sorte.

– Bem, se é assim – disse Miss Marple, para quem esses detalhes foram contados pela srta. Lavinia no mercado de peixes. – Parece muito bom para ser verdade.

Logo se tornou opinião corrente em St. Mary Mead que o modelo de perfeição desistiria na última hora e não viria.

Todavia, as previsões não se confirmaram, e a vila pôde observar a joia doméstica, chamada Mary Higgins, passar pela vila no táxi de Reed em direção a Old Hall. Não havia como negar que a aparência dela era boa. Uma mulher de aspecto assaz respeitável, muito bem-vestida.

Na visita seguinte de Miss Marple a Old Hall, na ocasião do recrutamento de colaboradores para a feira da paróquia, Mary Higgins foi quem abriu a porta. Era, sem dúvida, uma criada com aparência superior, devia ter uns quarenta anos, tinha cabelos muito negros e rosto corado, uma figura robusta, vestida com uma roupa preta discreta, um avental branco e uma touca de rede – “quase o bom e antigo modelo de empregada”, como Miss Marple diria depois, e com a apropriada voz respeitosa e baixa, bem diferente da voz anasalada e alta de Gladys.

A srta. Lavinia estava com a aparência bem menos angustiada do que de costume e, embora lamentasse não poder tomar conta de um estande devido à sua preocupação com a irmã, ofereceu uma boa contribuição em dinheiro e prometeu providenciar uma remessa de limpadores de caneta e meias para bebês.

Miss Marple comentou algo sobre a boa aparência da srta. Lavinia.

– Sinto, de verdade, que devo muito a Mary. Estou tão satisfeita por ter resolvido me livrar daquela outra garota. Mary é mesmo inestimável. Cozinha bem, serve divinamente e mantém nosso pequeno apartamento limpo de modo impecável... vira os colchões todos os dias. E é muito atenciosa com Emily!

Miss Marple logo perguntou sobre Emily.

– Ah, pobre criatura, tem estado muito indisposta nos últimos tempos. Não há nada que ela possa fazer, mas, sem dúvida, torna as coisas um pouco mais difíceis às vezes. Quer comer certas coisas e depois, quando estão prontas, diz que não pode comer no momento, e então, meia hora depois, quer comê-las de novo, e tudo tem que ser refeito. Claro, isso requer muito trabalho, mas graças a Deus Mary não parece se importar nem um pouco. Diz que é acostumada a servir doentes e os compreende. É um alívio tão grande.

– Nossa! – exclamou Miss Marple. – A senhora é muito sortuda.

– É, sou mesmo. Sinto, de verdade, que Mary foi enviada para nós como uma resposta às orações.

– Ela me parece – disse Miss Marple – quase boa demais para ser verdade. Eu seria... bem, eu seria um pouco cautelosa se estivesse no seu lugar.

Lavinia Skinner não conseguiu compreender a insinuação presente no comentário e disse:

– Posso lhe assegurar que faço todo o possível para que ela fique satisfeita. Não sei o que faria se ela fosse embora.

– Não espero que ela vá deixá-la antes que esteja pronta para partir – disse Miss Marple, encarando a anfitriã de modo bem firme.

A srta. Lavinia falou:

– Se uma pessoa não precisa se preocupar com a casa, tira um peso tão grande das costas, não acha? Como sua criada Edna está se adaptando?

– Ela está indo bem. Nada demais, claro. Não é como a sua Mary. Mas sei tudo sobre Edna, porque ela é uma garota da vila.

Quando ela saiu da sala, ouviu a voz da doente falar de mau humor.

– Essa compressa foi esquecida até ficar quase seca... o dr. Allerton disse com clareza que a água precisa ser renovada. Vá, vá, leve-a. Quero uma xícara de chá e um ovo cozido... deixe o ovo no fogo por apenas três minutos e meio, lembre-se, e chame a srta. Lavinia para mim.

A eficiente Mary saiu do quarto e ao mesmo tempo em que dizia para Lavinia “a srta. Emily está lhe chamando, senhora”, conduzia Miss Marple até a porta, ajudando-lhe a colocar o sobretudo e passando-lhe o guarda-chuva da forma mais impecável.

Miss Marple segurou o guarda-chuva, deixou-o cair, tentou pegá-lo, mas sua bolsa escorregou e abriu-se de repente. Mary, de modo educado, recolheu várias bugigangas: um lenço, uma agenda, uma carteira de couro de modelo antigo, dois xelins, três centavos e um pedaço de bala de menta colorida.

Miss Marple apanhou a última coisa com a expressão um tanto confusa.

– Ah, querida, deve ter sido o garotinho da sra. Clement. Ele estava chupando uma, me lembro, e pegou minha bolsa para brincar. Deve ter colocado a bala aí dentro. Gruda em tudo, não é?

– Quer que eu a descarte, senhora?

– Oh, você o faria? Muito obrigada!

Mary abaixou-se para pegar o último item, um espelhinho. Ao ser devolvido, Miss Marple exclamou com veemência:

– Nossa, que sorte a minha de ele não ter se quebrado!

Em seguida ela foi embora, enquanto Mary, de modo cortês, permanecia em pé na porta segurando um pedaço de bala colorida com o rosto sem expressão alguma.

 

IV

 

Por não mais do que dez dias St. Mary Mead teve de aturar a ladainha sobre as qualidades do achado das srtas. Lavinia e Emily.

No décimo primeiro dia, a vila despertou para uma grande surpresa.

Mary, o modelo de perfeição, estava sumida! Ninguém havia dormido na cama dela e a porta da frente foi encontrada entreaberta. Ela fugiu no meio da noite, sem chamar atenção.

E não era só Mary que estava sumida! Dois broches e cinco anéis da srta. Lavinia, além de três anéis, um pingente, um bracelete e quatro broches da srta. Emily também tinham desaparecido!

Foi o começo de uma série de catástrofes.

A jovem sra. Devereux tinha perdido os diamantes que guardava numa gaveta destrancada, e também umas peles valiosas que havia ganhado de presente de casamento. O juiz e sua esposa também tiveram umas joias perdidas e certa quantia de dinheiro. A sra. Carmichael foi quem mais sofreu. Haviam levado não apenas algumas joias muito caras, mas também uma enorme quantia de dinheiro que ela mantinha no apartamento. Tinha sido a noite de folga de Janet, e sua patroa tinha o hábito de caminhar pelos jardins ao anoitecer, chamando os passarinhos e espalhando migalhas de pão. Parecia claro que Mary, a criada perfeita, tinha tido as chaves para entrar em todos os apartamentos!

É preciso dizer que, em certa medida, houve um prazer mórbido em St. Mary Mead. A srta. Lavinia gabava-se tanto da sua maravilhosa Mary.

– E todo esse tempo, meu Deus, apenas uma ladra comum!

Seguiram-se revelações interessantes. Não apenas Mary havia desaparecido do nada, como também a agência que a indicou e apresentou suas referências estava chocada ao descobrir que a Mary Higgins que havia se inscrito lá e cujas referências eles tinham tomado, para todos os efeitos, nunca existiu. Era o nome real de uma empregada que havia morado com a irmã real de um deão, mas a verdadeira Mary Higgins estava em algum lugar de Cornwall, morando em paz.

– Muito bem tramada, a coisa toda – o inspetor Slack foi obrigado a admitir. – E, se alguém me perguntar, aquela mulher não trabalha sozinha. Um ano atrás houve um caso muito parecido em Northumberland. Os objetos nunca foram localizados e nunca pegaram a criatura. De todo jeito, vamos fazer melhor que isso em Much Benham!

O inspetor Slack era sempre confiante.

No entanto, as semanas passavam e Mary Higgins continuava livre e

triunfante. Em vão, o inspetor Slack[4] redobrava a energia, negando a ideia equivocada que seu nome poderia sugerir.

A srta. Lavinia seguia chorosa. A srta. Emily ficou tão desapontada e sentiu-se tão assustada com sua situação que terminou sendo enviada para o dr. Haydock.

Toda a vila estava ansiosíssima para saber o que ele pensava sobre as queixas da srta. Emily referente à sua saúde comprometida, mas, claro, ninguém poderia perguntar a ele. Contudo, para satisfação de todos, informações sobre o tema vieram à tona através do sr. Meek, o assistente do farmacêutico, que estava saindo com Clara, a criada da sra. Price-Ridley. Assim, ficaram sabendo que o dr. Haydock havia prescrito uma combinação de assa-fétida e valeriana que, de acordo com o sr. Meek, era o remédio principal daqueles que se fingiam de doentes no exército!

Logo depois soube-se que a srta. Emily, não satisfeita com a atenção médica que havia tido, declarou que devido ao seu estado de saúde, sentia-se na obrigação de estar perto de um especialista em Londres que compreendia seu caso. Era, ela disse, mais do que justo para Lavinia.

O apartamento foi colocado para sublocação.

 

V

 

Poucos dias depois, Miss Marple, bastante emocionada e atrapalhada, foi até a delegacia de Much Benham e perguntou pelo inspetor Slack.

O inspetor Slack não gostava de Miss Marple. No entanto, sabia que o chefe de polícia, coronel Melchett, não tinha a mesma opinião. Por isso, apesar da má vontade, ele a recebeu.

– Boa tarde, Miss Marple, em que posso ajudá-la?

– Oh, Deus – disse Miss Marple –, receio que o senhor esteja ocupado.

– Muito trabalho a ser feito – respondeu o inspetor Slack –, mas posso parar por uns minutos.

– Ah, Senhor – disse Miss Marple. – Espero que eu consiga dizer o que quero de forma apropriada. Sabe, é tão difícil se explicar, não acha? Não, talvez o senhor não ache. Mas veja, não fui educada no estilo moderno... tive apenas um professor que ensinava as datas dos reis da Inglaterra e conhecimentos gerais, sabe. Dr. Brewer, três tipos de moléstias do trigo... mangra, míldio e... qual era a terceira... carvão?

– A senhora gostaria de falar sobre o carvão? – perguntou o inspetor Slack e em seguida enrubesceu.

– Ah, não, não – Miss Marple logo negou qualquer desejo de falar sobre o carvão. – Apenas um exemplo, entendeu? Como as bússolas são feitas e tudo mais. Argumentativo, sabe, mas não ensina a pessoa a manter o foco no assunto. E é isso o que quero fazer. É sobre a criada da srta. Skinner, Gladys, sabe.

– Mary Higgins – rebateu o inspetor Slack.

– Ah, sim, a segunda criada. Mas eu me refiro a Gladys Holmes... uma garota bastante insolente e muito cheia de si, mas de fato muito honesta, e é muito importante que isso seja reconhecido.

– Até onde eu sei não há acusação alguma contra ela – disse o inspetor.

– Não, sei que não existe uma acusação, mas isso torna tudo ainda pior. Porque, veja, as pessoas começam a pensar coisas. Ah, meu Deus... sei que explicarei tudo de modo confuso. O que quero mesmo dizer é que o mais importante é encontrar Mary Higgins.

– Com certeza – concordou o inspetor Slack. – Tem alguma ideia sobre isso?

– Bem, na verdade, tenho – admitiu Miss Marple. – Posso perguntar-lhe uma coisa? Impressões digitais têm alguma utilidade para o senhor?

– Ah – disse o inspetor Slack –, nesse ponto ela nos pareceu bastante hábil. Fez a maior parte do trabalho com luvas de borracha ou de cozinha, parece. E foi cuidadosa... limpou tudo no quarto dela e na pia. Não foi encontrada nenhuma impressão digital no lugar!

– Se o senhor tivesse as impressões digitais, ajudaria?

– É provável, senhora. Ficariam sabendo na Yard. Este não é o primeiro trabalho dela, posso afirmar!

Miss Marple concordou com um aceno de cabeça, satisfeita. Abriu a bolsa e retirou uma pequena caixa de papelão. Dentro da caixa, envolvido em lã de algodão, estava um espelhinho.

– Da minha bolsa – disse Miss Marple. – As impressões da criada estão nele. Acho que devem ser suficientes... ela havia tocado numa substância bastante grudenta no momento anterior.

O inspetor Slack arregalou os olhos:

– A senhora pegou as impressões digitais dela de propósito?

– Claro.

– Então a senhora suspeitava dela?

– Bem, sabe, me intrigava que ela fosse um tanto boa demais para ser verdade. Fiz um comentário desse tipo para a srta. Lavinia. Mas ela simplesmente não entendeu a indireta! Acho, sabe, inspetor, que não acredito em modelos de perfeição. Muitos de nós temos nossos defeitos... e eles se revelam, sem demora, nos serviços domésticos!

– Bem – disse o inspetor Slack, recuperando-se do susto –, sou grato à senhora, com certeza. Enviaremos isto a Yard e veremos o que eles têm a dizer.

Ele parou. Miss Marple tinha posicionado a cabeça um pouco para o lado e estava observando-o de um modo bastante expressivo.

– O senhor não consideraria, inspetor, observar a casa um pouco mais de perto?

– O que a senhora quer dizer, Miss Marple?

– É muito difícil de explicar, mas quando a gente se depara com uma coisa peculiar, consegue perceber. Embora, muitas vezes, coisas peculiares possam ser meros detalhes. Senti isso o tempo todo, sabe; digo em relação a Gladys e o broche. Ela é uma garota honesta; não pegou aquele broche. Então por que a srta. Skinner achou que ela tivesse pegado? A srta. Skinner não é boba; muito pelo contrário! Por que ela estava tão ansiosa para deixar uma garota, que era uma boa criada, ir embora, sendo que é muito difícil arranjar empregados? Isso é algo peculiar, entende. Então fiquei intrigada. Fiquei muito intrigada. E observei outra coisa peculiar! A srta. Emily é hipocondríaca, mas ela é a única hipocondríaca que não foi examinada por um ou outro médico alguma vez. Hipocondríacos adoram médicos, mas a srta. Emily não!

– O que a senhora está sugerindo, Miss Marple?

– Bem, sabe, estou sugerindo que a srta. Lavinia e a srta. Emily são pessoas peculiares. A srta. Emily passa quase o tempo todo num quarto escuro. E se aquele cabelo dela não é uma peruca, eu... eu não me chamo Miss Marple! E o que tenho a dizer é isto... é perfeitamente possível para uma mulher magra, pálida, de cabelos acinzentados e chorosa ser igual a uma mulher rechonchuda, corada e de cabelos negros. E ninguém que eu conheça jamais viu a srta. Emily e Mary Higgins juntas ao mesmo tempo. Houve tempo suficiente para tirar cópias de todas as chaves, tempo suficiente para descobrir tudo sobre os outros moradores e, por fim, para livrar-se da criada local. Certa noite a srta. Emily fez um rápido passeio pela cidade e chegou na estação como Mary Higgins no dia seguinte. E depois, no momento certo, Mary Higgins desapareceu e começaram as buscas. Vou lhe dizer onde o senhor vai encontrá-la, inspetor. No sofá da srta. Emily Skinner! Pegue as impressões digitais dela, se o senhor não acredita em mim, e vai descobrir que estou certa! Uma dupla de ladras esperta, é isso o que as Skinner são! E não resta dúvida de que estão mancomunadas com um esperto receptador ou uma quadrilha ou seja lá o nome que tiver. Mas não vão escapar com a mercadoria desta vez! Não vou deixar que a honestidade de uma das nossas garotas da vila seja comprometida dessa forma! Gladys Holmes é tão honesta quanto possível, e todos vão saber disso! Boa tarde!

Miss Marple andou a passos largos antes que o inspetor Slack se recuperasse.

– Caramba! – murmurou. – Será que ela está certa?

Logo ele descobriu que Miss Marple tinha razão mais uma vez.

O coronel Melchett cumprimentou Slack pela eficiência, e Miss Marple recebeu Gladys para um chá com Edna e falou com ela sobre estabelecer-se de verdade quando conseguisse um bom emprego.