Para que serve a psicanálise?

Denise Maurano · Capítulo 1 de 9

Páginas do PDF

Para que serve a psicanálise?

Introdução

 

A questão “Para que serve a psicanálise?” pode ser pensada por duas vertentes. Uma, mais pragmática, do tipo: sendo a psicanálise um tratamento, ela serve para tratar o quê? Que tipos de patologias ou sofrimentos? Há um momento apropriado para buscar esse tipo de ajuda? E ainda, no que ela pode ajudar? Ela resolve os sintomas? Qual a diferença da ajuda de um psicanalista para aquela do psicólogo ou do psiquiatra?

Há, ainda, uma segunda vertente. Trata-se daquela que, inserindo a psicanálise no universo dos dispositivos inventados pela cultura, busca pensar sua utilidade nesse plano mais amplo. Ou seja, o que será que a psicanálise, o pensamento psicanalítico, trouxe de novidade para a cultura? A psicanálise serve para marcar que tipo de orientação ética na abordagem da condição humana?

A questão-título será aqui abordada nesses dois planos, até porque eles encontram-se imbricados um no outro. O caráter propriamente utilitário da psicanálise não pode ser abordado rigorosamente, nem é passível de ser bem apreendido, se não se explicita qual é sua direção ética.

Se queremos saber para que serve a ação de um psicanalista, devemos então retornar ao sentido dessa ação para averiguar o que a fundamenta e sobretudo o que ela visa. Fazer isso é refletir sobre o sentido da ação — o que significa realizar uma reflexão ética.

Transmitir aquilo a que a psicanálise diz respeito não é uma tarefa nada fácil, sobretudo porque a objetividade tão cara ao discurso científico é impotente para abordar a complexidade do psiquismo humano. Não é à toa que Freud, o inventor da psicanálise, valeu-se inúmeras vezes da arte, da literatura, da mitologia, da filosofia, entre muitos outros recursos, para explicitar seus pressupostos. É como se encontrasse neles vias para mostrar a dimensão do indizível, do que escapa à possibilidade de ser abordado pelo universo da lógica da consciência.

Como a psicanálise se situa nesse campo entre a ciência e a arte, decidi, então, não me furtar de me valer desses recursos, já que como bem se sabe o cientista tem sempre muito a aprender com aquilo que o artista antecipa. Assim, vocês encontram nesse livro o amalgamento de questões relativas a aspectos práticos da clínica psicanalítica estrito senso, articuladas a uma reflexão sobre a função da psicanálise na história da cultura.

Isso lhes é apresentado em seis seções, começando pela discussão do lugar da psicanálise no mundo de hoje. Nesse mundo da virtualidade, da fascinação pela “telinha”, das telecomunicações, do consumo desenfreado, qual será a pertinência da psicanálise? Passo, então, para uma interlocução entre a psicanálise, a história e a arte. Busco situar os fundamentos da proposta ética da psicanálise como articulados a perspectivas que certas estéticas, certas expressões artísticas, bem servem para explicitar.

Tendo mais claro o que a psicanálise visa no sentido mais amplo, podemos então pensar quando cabe procurar um psicanalista. Assunto de nosso terceiro capítulo. Isso posto, mais um passo pôde ser dado na direção de situar as condições preliminares de um processo psicanalítico. Afinal, uma psicanálise não começa só porque se foi ao consultório de um psicanalista. Não se define nem mesmo pela freqüência a esse consultório, mas depende de certas condições que tento esboçar nessa seção e que se referem ao desejo decidido, implicado nesse processo.

Passamos, então, a uma explicitação do conceito de desejo em psicanálise e à discussão sobre sua abordagem na clínica psicanalítica. Na conclusão, a questão da ética da psicanálise foi retomada nesse momento não tanto na perspectiva de seus fundamentos, mas sim de suas conseqüências, novamente, não apenas no campo da clínica, mas também no campo da cultura.

Tento com isso aportar-lhes uma visão, ainda que sumária, o mais rigorosa possível, da questão: para que serve a psicanálise?

OceanofPDF.com