Para que serve a psicanálise?

Denise Maurano · Capítulo 2 de 9

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Para que serve a psicanálise?

A psicanálise e o mundo de hoje

 

Há quem diga que “esse papo de Freud está ultrapassado. Com tantas mudanças em um século, Freud já era!” Ou ainda: “A psicanálise já era!”

Não faz muito tempo, participei de uma mesa-redonda cujo tema era a subjetividade na contemporaneidade. Nela um expositor, falando a respeito das novas tecnologias, mencionava o fato de vivermos na era da simulação, argumentando que, se a aceleração das mudanças nos lança na incerteza quanto ao futuro, resta-nos antecipá-lo levando a vida no interior de cenários virtuais. Assim, as novas tecnologias, aquelas de processamento e difusão de informação, como internet, televisão, rádio e similares, seriam os efetivos espaços vivenciais contemporâneos, e, para ele, falar a um analista sobre problemas, explorar idéias, reflexões, estaria ultrapassado frente às novas inquietações e aos recursos disponíveis em nossos tempos.

Seguramente eu não concordo com isso, e vou explicar por quê — afinal trata-se não apenas da questão “para que serve a psicanálise?”, mas do que ela nos vale hoje. Para começar essa discussão, uma lembrança me vem à mente. Há algum tempo, numa das entrevistas do programa Roda-Viva, na televisão, escutei um cientista americano, reconhecido pela quantidade de novos inventos tecnológicos que produziu ao longo de sua vida, ser interpelado por um dos entrevistadores que imaginava que, provavelmente, nada surpreendia esse grande inventor. O cientista replicou dizendo ter ficado espantado com o desenvolvimento das telecomunicações no último século. Disse ter esperado que a tecnologia se desenvolvesse muito mais na direção da facilitação do trabalho, execução de tarefas, e não tanto nesse outro sentido da comunicação entre os homens. Isso o surpreendeu.

Nesse mesmo sentido, é curioso observarmos as aspirações de desenvolvimento prospectadas no antigo desenho animado Os Jetsons, de mais de trinta anos atrás, para percebermos o quanto era exatamente a facilitação do trabalho que ali era privilegiada. Congestionamento de trânsito, problemas com a empregada doméstica? Nem pensar… Havia tubos acopláveis às costas, robôs para fazer as tarefas de casa, absoluta praticidade na alimentação, e por aí era anunciado o que se esperava para o futuro.

Eis que o futuro chegou, e o que tomou a frente da cena parece ter sido mesmo o que diz respeito à comunicação. Creio poder dizer que, no fim das contas, o que mais se acelerou em nossos tempos foram os laços que nos ligam, ou tentam nos ligar, uns aos outros. Afinal, a comunicação não visa isso? É verdade que mediados pela alta tecnologia — fios, eletricidade, dispositivos ópticos ou qualquer outro processo eletromagnético —, mas o que está no centro da cena é o apelo à criação de laços com os outros.

Se em outros momentos da história da humanidade o homem apelava a outros valores para se haver com as dificuldades da vida — como a constituição da lei, a fé em Deus, as luzes da razão —, na contemporaneidade parece ser no anseio de criar laços, de comunicar-se, que o homem aspira a encontrar a salvação para suas dificuldades e, sobretudo, para o seu desamparo. Ancorados uns nos outros buscamos obter algum apoio, mesmo que o outro ao qual nos ligamos esteja nas mesmas condições de desamparo que nós mesmos. Isso parece estar bem representado na pintura A parábola dos cegos, de 1568, do pintor flamengo Pieter Brueguel, chamado o Ancião, na qual uns tantos cegos, andando pela rua em fila, encontram-se certamente uns apoiados nos ombros dos outros, porém todos juntos não sabem aonde vão chegar.

Esse apelo a se ligar aos outros participa obviamente da história da humanidade, mas o que chamo a atenção aqui é para o fato de, na contemporaneidade, termos inflacionado essa estratégia. Assim, as pessoas recorrem mais facilmente a alguém ao alcance da mão, ou ao alcance da linha telefônica, do que a um templo religioso para se amparar. Da mesma forma, também não crêem mais nos poderes da racionalidade para encontrarem uma fórmula para melhor viver. Parece que estamos mesmo sob o império de Eros. E Eros não é apenas o deus do amor, mas, tal como propôs a psicanálise, é sobretudo a tendência à promoção de laços, tendência a estabelecer ligações. É claro que a forma como isso se dá, tête-à-tête ou via internet, faz diferença, mas o elemento motivador e a natureza da busca, creio estarem inalterados, pelo menos por enquanto. O que a psicanálise chamou de libido, energia de Eros, cobra incansáveis investimentos, sobretudo no amor e na sexualidade, e traz em seu rastro a outra face da mesma moeda: o ódio.

Foi a inquietação da falta, vivida na contemporaneidade como falta de amor, ou insatisfação sexual, que deu origem à invenção da psicanálise. A psicanálise veio servir para tratar dos impasses decorrentes disso. Cedo, Freud percebeu que aquilo que fazia sofrerem as mulheres que ele atendia, e lhes fazia produzir sintomas inexplicáveis aos olhos dos médicos de seu tempo, não eram senão diferentes expressões de um mal inexorável: o mal de amor. Cedo, ele se deu conta, também, de que o tratamento para isso passava pela fala, pelos efeitos do acionamento desse fantástico dispositivo que é a fala. Através dela, nos incluímos nessa rede que nos envolve e tenta nos articular uns com os outros. E não importa se se trata de um surdo-mudo: certamente este também está incluído na estrutura de relações tecidas pela linguagem.

É verdade que desde a invenção da psicanálise até agora muita coisa mudou. Mudaram os costumes, a sociedade certamente não é mais a mesma, diferentes recursos para se lidar com a vida dominam a cena contemporânea. Porém não creio que tenhamos nos deslocado do apelo à libido como modo de operar com nossas inquietações. Muito pelo contrário, como bem observou o inventor americano acima mencionado, nunca se produziram tantos artifícios para ampliarmos nossos laços. O sucesso das salas de bate-papo e toda a correspondência veiculada pela internet o atestam. Isso sem falar da exploração que o marketing faz da questão, erotizando todo e qualquer objeto que se apresente ao consumo para melhor veiculá-lo.

Assim, diante da compatibilidade entre a natureza da inquietação que domina a cena atual e a natureza da invenção psicanalítica, esta última continua sendo um recurso privilegiado em nossos tempos. Com isso, quero dizer que diante dos inúmeros sintomas decorrentes do mal de amor, que constitui a tônica do mal-estar da atualidade, a psicanálise apresenta-se como opção para tratar dessa questão. No que se refere a maneira de lidar com as inquietações amorosas, as mudanças são acessórias, não fundamentais. Daí a pertinência da presença da psicanálise. Afinal, seja bem ou mal falada, a psicanálise continua sempre sendo lembrada.

Inúmeras propostas apresentam-se a cada dia para responder a essa idéia de que o “bom exercício da libido” resolve as dificuldades da vida. Desde o apelo ao consumo, seja de carros, mulheres, drogas, medicamentos, conhecimento, informação, tecnologia e tudo quanto se suponha que o dinheiro possa comprar, até as terapias mais diversas, tudo vai no sentido de sanar aparentemente, apaziguar imaginariamente, as pressões que movem esse apelo feito a Eros.

O que decorre dessa profusão de estratégias disponíveis na cena contemporânea é que o caminho que um sujeito trilha desde a constatação de seu mal-estar até chegar a um tratamento psicanalítico é, freqüentemente, bastante alongado. Muitas vezes ele só recorre à psicanálise depois de inúmeras tentativas fracassadas de suprimir seu mal-estar. É como se a sensação de vazio e desamparo, que ocasionalmente experimentamos de maneira mais grave, fosse um indicativo de uma doença que acomete a uns poucos desprivilegiados, da qual teríamos a todo custo que nos livrar o mais rápido possível. Tornamo-nos, assim, presas fáceis de vendedores de ilusões. Não que eu tenha algo contra as ilusões, muito pelo contrário: elas são alimentos fundamentais de nossas vidas. Sublinho apenas o risco da manipulação sórdida, cruel, que se faz nesse campo.

Na contracorrente dessas estratégias encontra-se a psicanálise. Por mais que em sua difusão ela tenha sido propagada das formas mais estapafúrdias, sua proposta, desde seus suados primórdios no rigor da ética cunhada por Freud, foi a de ser uma estratégia para tratar desse vazio, que na maior parte do tempo traduzimos por falta de alguma coisa ou falta de alguém. Sua intenção não foi a de constituir-se como promessa de saná-lo. Aqui, o tratamento é a cura, já que não podemos nos curar da ferida de sermos humanos. Ou seja, substituindo a idéia de cura como o que estaria na finalização de um tratamento, por meio da extirpação de um mal, entra em cena o procedimento investigativo do tratamento psicanalítico, que traz como uma de suas conseqüências o efeito terapêutico. O vazio é impossível de ser extirpado, mas cabe-nos encontrar meios menos nefastos de abordá-lo. Como li num folhetim: “Não se pode mudar a direção do vento, mas pode-se alterar a posição das velas.”

Viver sem se haver com a dor da falta, seja esta identificada ao que quer que seja, é simplesmente inumano. Não podemos nos livrar daquilo que constitui propriamente a nossa humanidade, a nossa diferença em relação aos outros animais. O que pode ser alterado é a maneira como vivemos a experiência da vida, a posição que ocupamos ao nos defrontarmos com a falta daquilo que supostamente iria nos tornar completos. Sugiro que a palavra “psicopatologia” — em sua origem grega, “psico-pathos-logia” — seja traduzida ao pé da letra: busca de sentido (logia) daquilo que causa espanto (pathos) à alma (psico). Sem dúvida que esta incompletude nos espanta, e podemos reagir a isso, neurótica, psicótica ou perversamente. Voltarei a essa questão em breve.

Não pensem que estou defendendo uma posição pessimista, do tipo que toma essa incompletude como um defeito de fabricação com o qual teríamos que nos conformar. Não concordo com a idéia de que Freud ou Lacan — psicanalista francês, que se propôs a retornar ao rigor de Freud — sejam pessimistas. Defendo, sim, essa orientação ética que funda a proposta psicanalítica, acolhendo a vida não em uma dimensão ideal, como gostaríamos que ela fosse, mas em sua dimensão real. Sofremos os efeitos desse real todas as vezes que nos confrontamos com o fato de que as coisas não estão ao alcance de nossas mãos, como gostaríamos que estivessem. Isso é duro? Certamente. A expressão brasileira “cair na real” é primorosa na indicação da queda de ilusões que decorre da confrontação com o real, porém, negar sua existência, na promessa de que pelas forças da mente ou do que quer que seja poderemos escapar, intensificará, por conseqüência, nossa fragilidade — e não nossa força. Afirmar a vida com tudo o que nela há, de alegria e de sofrimento, de leveza e de dureza, é não a mutilar de nenhum de seus componentes. Mas obviamente, se é simples falar assim, não é simples viver dessa forma. Somos facilmente atraídos pela posição ressentida, “que injustiça fizeram contra mim!” Ou pela posição nostálgica, “bom é como era antes!” Ou, ainda, pelo vislumbre romântico que suspira por um ideal jamais passível de realização, sob pena de, caso efetivado, perder todo o encantamento.

Assim estamos nós em nossa radical humanidade, nessa condição de errantes, suplicantes de algo que nos oriente, que nos complete e acene com a possibilidade de precisão na adequação de nossas ações, dado que nunca sabemos direito se o que resolvemos fazer está certo ou não. Como humanos, subvertemos as determinações do instinto. Não comemos meramente por fome, nossas atividades sexuais não se limitam às funções biológicas, nosso sono tampouco. Somos afetados por inúmeras variáveis.

Nosso universo de necessidades é intermediado pelo das representações. As coisas não são o que são, mas o que representam para nós. Desta forma, podemos perder o apetite, ou comer demais, se ficamos tristes; podemos optar pela abstinência sexual por uma razão ideológica ou moral; podemos perder o sono diante de uma preocupação. O que nos rege não é propriamente um instinto, mas algo de outra natureza, que Freud propõe chamar de pulsão.

A adequação de nossa percepção ao que existe de fato é permeada por esse universo que nomeamos como campo da linguagem. Isso quer dizer que, se não temos um acesso direto e objetivo às coisas, inventamos um estratagema para contornar esse abismo que nos separa do mundo: inventamos a linguagem. Ou seja, desenvolvemos, mais que qualquer outro animal, nossa capacidade de nos comunicarmos por recursos simbólicos e imaginários. Inventamos palavras para designar as coisas, nomear o que nos falta; criamos ícones para adorar, ideologias para nos salvar do desamparo.

Construímos, com o desenvolvimento da linguagem, uma rede de elementos através da qual encontramos meios de nos referendar. Situamos, com isso, o Outro a quem nos dirigimos. Assim, eu não sou apenas Fulano de Tal, eu sou Fulano, filho de Sicrano, neto de Beltrano, ou seja, sou parte de uma rede de relações, por onde apreendo algo da enigmática significação de mim mesmo. Encontro-me dentro de uma estrutura de parentesco, na qual assumo funções diferentes conforme o elemento com o qual me relaciono: em relação aos meus pais sou filha, em relação aos meus filhos sou mãe, e assim por diante.

Porém o universo de linguagem é também o universo da mais absoluta arbitrariedade, afinal as palavras não são as coisas, e seu sentido deixa sempre margem a diferentes interpretações. É por isso mesmo que os valores aos quais nos agarramos para nos proteger não necessariamente nos protegem em definitivo. E isso vale tanto para as nossas vidas individuais como para a história da humanidade.

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