Para que serve a psicanálise?
Quando cabe procurar um psicanalista?
Quando alguém vem pedir ajuda a um analista, é obviamente porque está sofrendo ou, no mínimo, tem alguma questão que o está intrigando. Senão, nem tem sentido o encontro. É certo que, às vezes, a pessoa não tem muita idéia do que a traz. Às vezes diz: “Ah, eu vim porque minha mãe quer que eu venha.” Ou: “Meu médico disse que eu precisava.” Ou ainda, “É importante para o meu trabalho eu me conhecer melhor.” São incontáveis as formas de as pessoas chegarem. A questão é que esse pedido de ajuda precisa ser avaliado para que o analista averigue se há algo a ser feito que seja da competência da sua função.
Nem todo sofrimento, ainda que seja um sofrimento psíquico, está na ordem de competência da intervenção de um analista. E isso não porque um analista não seja indicado para tratar certos quadros. Às vezes, ainda se questiona: será que a psicanálise serve para tratar psicótico? Ou ainda para tratar alcoolista ou toxicômano? Ou então alguém com câncer em fase terminal? São inúmeras as questões, e respondo-as dizendo que a psicanálise é indicada para tratar todo tipo de doença, dado que não tratamos a doença mas o sujeito que nela está implicado, ou seja, o sujeito que faz da doença um sintoma que chamamos analítico.
Vocês podem me perguntar: mas o que é esse sintoma analítico? É qualquer sintoma que seja tomado pelo sujeito como fonte de questionamento de si mesmo. É isso que faz com que um sintoma seja analisável. É claro também que não se trata de um questionamento qualquer: trata-se de um questionamento dirigido ao saber inconsciente, saber a que o analista deve dar suporte. Ou mesmo dirigido à psicanálise, desencadeado às vezes em um sujeito antes mesmo de ele ter escolhido um analista para o acompanhar. Um questionamento dirigido pela aposta de que existe, em alguma esfera do meu psiquismo, um saber que age em mim, através de uma outra lógica que não aquela que eu reconheço conscientemente.
Posso acreditar que a depressão toma conta de mim porque isso é um desígnio dos céus, uma doença hereditária, um castigo de Deus, a praga de um vizinho, o efeito de minha alimentação, ou posso ainda pensar que há em minha depressão um saber inconsciente que nela opera. Posso até vir a sentir uma secreta e sinistra satisfação que me move em sua direção, apesar da dor que ela me provoca. Será essa fé no inconsciente que fará dessa depressão um sintoma analítico, se houver um analista a quem esse sintoma passe a ser dirigido.
Acontece de alguém passar tempos intrigado com suas questões, percebendo-se nos sintomas que faz, trabalhando de certa forma sobre eles, até que um dia resolve procurar um analista. Acontece também de uma pessoa ser identificada por todos os amigos como alguém que precisa de análise, dado que está sofrendo psiquicamente, atormentando a todos que o rodeiam, mas a própria pessoa nem se dar conta disso e estar a léguas de distância de pensar em tirar algum proveito da psicanálise. Isso revela o quanto a psicanálise não é uma questão de necessidade, mas sim de desejo. Sem que a própria pessoa queira, não há análise possível.
É por isso que não é a natureza do sofrimento que delimita o campo de intervenção do analista, mas o modo de relação do sujeito com seu sofrimento, seja ele qual for. Lembro-me de um moço que me procurou para tratamento no momento em que se encontrava em franco surto psicótico. Logo que entrou no consultório, queixando-se de alucinações sinestésicas, nas quais sentia seu corpo sendo cutucado, anunciou com o que disse o longo e fecundo trajeto de trabalho que teríamos pela frente: “Falta mediação! Essa complexidade eu não suporto. Quero que a parafernália de máquinas que invadem meu pensamento possa ser substituída por uma parafernália filosófica, onde eu, como humano, encontre espaço para existir.” Clamava por resgatar pela fala, pela “parafernália filosófica”, recursos simbólicos que lhe protegessem da invasão do não-senso do mundo, invasão do real como algo assustador. Buscava formas de mediação para haver-se com esse real. A psicanálise trabalha nessa direção.
Com relação a essa questão da especificidade da procura de um analista, uma vez num programa de TV perguntaram-me qual era a diferença entre psiquiatra, psicólogo e psicanalista. Essa é uma questão que nos endereçam bastante freqüentemente. Na rapidez do tempo na televisão, utilizei um exemplo que me parece elucidativo, embora obviamente por demais sumário, mas que serve para nossos fins agora. Sugeri: vamos supor que você esteja com uma terrível insônia, e por causa dela vá procurar ajuda. Se sua questão é tentar eliminar de imediato a insônia e pronto, você pode recorrer a um psiquiatra, que, considerando sua insônia como sintoma de uma suposta doença, te dará um remédio para intervir no seu sintoma. Isso porque a “doença” motivadora da insônia não é senão suposta.
Digo suposta doença porque a grande diferença da psiquiatria para outros ramos da medicina é que quando você procura um médico, queixando-se de um sintoma, o médico irá tratar da causa dele, ou seja, da doença da qual seu sintoma é sinal. Assim, se você está com azia, ele não vai medicar sua azia, mas sim a gastrite, a úlcera, ou seja lá qual for a doença que é causa dela. Já no caso dos sintomas diretamente psíquicos, quando se trata de abordá-los de forma medicamentosa, a questão é bem mais complexa. Você toma o remédio para dormir, mas a “doença” que te deixa acordado permanece intocada.
Faço aqui um parêntese para comentar que caminhões de dinheiro são gastos com pesquisas sobre os sintomas psíquicos, e isso acontece também porque os psicofármacos (nome que se dá aos medicamentos correlativos a esses sintomas) são a maior fonte de rendimento dos laboratórios. Temos semanalmente o alarido de que uma nova droga irá resolver nossos males. Entretanto, apesar dos esforços, nada se consegue encontrar de definitivo, no que diz respeito à relação entre sintomas psíquicos e a doença da qual esse sintoma é sinal. A questão é que, mesmo quando se detecta uma disfunção orgânica, fisiológica ou similar, não se tem como avaliar efetivamente o que a motivou. Mesmo o famoso exemplo, sempre citado, da relação do chamado transtorno afetivo bipolar — oscilação entre mania e depressão — como efeito da deficiência de produção de lítio nada responde acerca do que motivou essa deficiência. Volta-se à velha questão: o que veio primeiro — o ovo ou a galinha?
Não quero com isso dizer que os psicofármacos e as pesquisas acerca deles são inúteis. Quero apenas alertar que não são remédios para doenças, mas sim para sintomas. Têm obviamente suas indicações, até porque há sintomas que são insuportáveis e que incapacitam a pessoa para fazer o que quer que seja, por vezes colocando até mesmo suas vidas em risco. Às vezes, devido a fatores econômicos e sociais, não há outra alternativa, e essa ajuda pode ser preciosa e fundamental. Mas o que efetivamente preocupa é o uso abusivo que deles é feito, não apenas trazendo como conseqüência pesados efeitos colaterais que portam, mas também isentando completamente do sujeito toda e qualquer responsabilidade pelo que faz com o seu psiquismo.
Iludidas com a idéia de que em algum lugar existem seres que não têm problemas, dificuldades, carências, timidez ou conflitos, as pessoas tendem a avaliar qualquer malestar inerente aos impasses de se ser humano como sinais de doenças sanáveis por medicações. Hoje em dia, ninguém mais fica triste, fica “deprimido” (isso até parece dar mais status). Se alguém é tímido, o que poderia ser visto como um jeito de ser que tem inclusive seu charme, é logo induzido a pensar que sua timidez é doença. A situação poderia ser ainda pior, caso as lobotomias e outras cirurgias cerebrais se encaixassem tão bem na sociedade de consumo quanto os medicamentos. Há pouco vi anunciado no jornal francês Le Monde um tipo de lobotomia para o que nomearam como Transtorno Obsessivo-Compulsivo, o T.O.C. Assim, até tique nervoso já tem extração cirúrgica. Já pensaram se isso se alastra, o que acontecerá?
Mas voltemos ao nosso exemplo da insônia. Vamos supor que você não se incomode de tomar remédios e siga a vida satisfeito ou conformado com isso. Ótimo! Se o que você encontra como solução está em linha de sintonia com o que você procura, isso é o mais importante.
Existe também a possibilidade de você achar que esse sintoma é decorrente do fato de sentir-se estressado, com baixa motivação, inseguro, e decidir então que ir ver um psicólogo com quem possa conversar, obter algumas sugestões, um certo apoio e incentivo, possa ajudá-lo a se acalmar. Um psicólogo focalizará suas questões no plano da consciência ou mesmo do comportamento, ou ainda a partir de exercícios cognitivos, dependendo da escola de psicologia pela qual ele se orienta. O contato escolhido pode ser regenerador para você e possibilitar-lhe meios de melhor adaptar-se no contexto de sua vida.
Ou, ainda, você pode perceber que seu sintoma não diz respeito a um estresse qualquer, mas que apareceu num momento especial de sua vida e a partir de certos fatores que escapam à sua possibilidade de apreensão consciente. Com isso, para além de se livrar dele, você pode querer também saber o que ele pode te informar acerca de seu próprio funcionamento, de como você reage na vida, de como tem se conduzido. Se você tem essa perspectiva, um psicanalista será o profissional mais indicado para ajudá-lo.
Seu sintoma será abordado numa análise como um sinal do que você é; como um modo paradoxal de obter algum tipo de satisfação, por mais sinistra que ela seja. Chama-se a isso gozo, o processo onde prazer e dor se entrelaçam secretamente. A expressão “volúpia do aborrecimento”, do nosso querido Machado de Assis em Memórias póstumas de Brás Cubas, nos dá a medida desse gozo sinistro. Uma analisanda que iniciou seu tratamento queixando-se de síndrome do pânico, à qual voltarei a me referir mais adiante, após ter perdido seu sintoma, comenta lamentando-se dessa perda: “Você não sabe como é isso; no meu sintoma eu era absoluta!”
Obviamente, estou me referindo a satisfações que respondem a processos inconscientes, e que não se submetem a injunções como “não devo pensar isso, devo pensar aquilo”, ou outros modos de auto-sugestão, muito em voga na atualidade. Refiro-me a sintomas que escapam à possibilidade de dominação consciente, sintomas frente aos quais o sujeito se sente impotente, tendo às vezes já tentado os métodos citados, sem contudo obter resultados.
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