Para que serve a psicanálise?

Denise Maurano · Capítulo 3 de 9

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Para que serve a psicanálise?

A psicanálise, a história e a arte

 

Como mencionei acima, ao longo da história a cultura dispôs de diferentes valores de sustentação para o sujeito. Na Antigüidade grega, momento de inauguração do mundo ocidental, a organização da vida em cidades e o estabelecimento de suas leis de funcionamento, constituindo direitos e deveres, regulando relações sobretudo comerciais, configurava o anseio de que o direito fosse uma saída para a indeterminação das ações humanas. Esperava-se que as leis resolvessem o que era correto ser feito, acabando com o dilema que o livre-arbítrio nos impõe.

Cedo, a qualidade de cidadão mostrou-se insuficiente para abarcar todas as dimensões do sujeito, e eis que a religião, principalmente o cristianismo, veio em seu socorro. Durante quase quinze séculos, o apelo a Deus foi o recurso prevalente para o balizamento das questões da existência. Até que, pelos próprios excessos cometidos pela Inquisição, pelos efeitos da Reforma Luterana e o afloramento de mudanças sociais, políticas e artísticas radicais, o apelo à salvação divina deslocou-se para a razão.

Descartes, considerado o pai da Idade Moderna, encarna essa aspiração do homem moderno de tomar a razão, os recursos do pensamento, como medida de avaliação de si mesmo e de tudo mais. Através de uma avaliação de si mesmo, Descartes chama a atenção para os aspectos de nossa subjetividade, nossa singularidade, que podem confundir nosso raciocínio objetivo e nos fazer chegar a conclusões equivocadas. No anseio de criar métodos para neutralizar a interferência subjetiva nas proposições que se pretendiam gerais, ele abre as portas para o surgimento da ciência moderna. Esta, ao visar a criação de leis gerais e de previsibilidade, expressa o novo recurso para nos proteger tanto do que não sabemos quanto do que nos espera.

Porém, quando Descartes focaliza a interferência da singularidade de um sujeito e de suas particularidades nas produções da racionalidade, seu gesto só faz ressaltar a importância mesma da subjetividade. Essa focalização da subjetividade como o que não se conforma à razão, ou como o que a confunde, abriu os canais para o movimento oposto ao da valorização da razão cartesiana: a ênfase na emoção, nas intensidades psíquicas, naquilo que é bem próprio chamar de dimensão econômica do psiquismo, pois focaliza a existência de montantes de afeto, que operam nos investimentos e desinvestimentos psíquicos. Esse novo movimento que vai, a meu ver, inaugurar a contemporaneidade, eu proponho caracterizá-lo como momento da prevalência do apelo à libido, apelo ao amor e à sexualidade como via de solução dos problemas da vida. Será ele que dará margem ao surgimento da psicanálise.

Porém essa valorização da emoção já havia encontrado acolhida na cultura pela via das artes, ainda no tempo de Descartes, na idade dita Moderna. A arte barroca que se desenvolve nessa época, sobretudo no século XVII, é expressão da visão do sujeito afetado pela paixão. Veremos o quanto tal visão irá interessar à psicanálise. Ainda que naquele momento não fossem a libido e a sexualidade que prevalecessem como foco temático, não se pode deixar de observar a exuberância dos afetos, expressos pela via da exibição do corpo dos santos que chega quase à obscenidade, como se o ardor da alma fosse tornado visível pela focalização do corpo. Encontram-se, com isso, meios de dar visibilidade a questões de difícil apreensão.

A palavra “barroco” aparece, originalmente, como vocábulo especializado da ourivesaria para designar a pérola de forma irregular, que bem se presta, como lembra Claude-Gilbert Dubois em Le baroque, para que se associe nela o esplendor e a impureza. Em sua transposição para a arte, uma identidade a partir dos “defeitos” é transformada em eloqüente afirmação da natureza. Mas não foi à toa que essa expressão artística levou muito tempo para ser reconhecida como tal. Foi apenas no fim do século XIX que Heinrich Wölfflin, um historiador da arte, a reconheceu. Até então, designar uma obra como barroca era o mesmo que dizer que ela era bizarra, desproporcional, esquisita. Isso porque ela se diferenciava do que se tinha como modelo, ou seja, se diferenciava do ideal clássico de beleza, até então o único valorizado.

Barroco indica uma visão de beleza que escapa às exigências da ordem, da harmonia e do equilíbrio, próprias à visão clássica do belo. A beleza de uma Vênus de Milo, na qual nada excede ou falta, é completamente diferente da beleza que apresenta uma escultura de Aleijadinho, grande expressão do barroco brasileiro. Se designamos esta última como bela é porque estamos aí orientados por uma outra concepção de belo, que não está submetida a um ideal de perfeição, mas sim acolhe o dinamismo da vida, suas imperfeições, a força de suas intensidades. Em obras como as de Aleijadinho, o que vale não é a precisão das formas, mas a força de sua expressão, de seu poder de afetar a sensibilidade de quem a observa.

Dividida por visões de mundo opostas — como o sagrado e o profano, o sofrimento e a alegria, a razão e a emoção, a sensualidade e a espiritualidade, o bem e o mal, a obscuridade e a luz, a vida e a morte —, a expressão barroca é a configuração de uma crise. Tal crise, além de poder ser datável num período da história que abriga as cruzadas pelos mares, o desenvolvimento do mercantilismo, os conflitos religiosos provenientes da Reforma Luterana e uma série de questões que causaram turbulência nas verdades e nos modos de viver estabelecidos, prenuncia a própria modernidade, com tudo que esta trouxe de novidade e subversão, e não apenas para os padrões tradicionais das Academias de Belas-Artes.

Charles Baudelaire, poeta, escritor e crítico de arte francês, propôs em um pequeno ensaio intitulado Sobre a modernidade que a beleza é dividida em duas metades. Existe aquela do espírito clássico, que fixa as imagens na dimensão da eternidade. O que nela está posto não sugere nenhuma alteração, a imagem é apresentada como estática, alheia ao tempo e ao movimento. O exemplo da Vênus de Milo nos serve para observar isso. Mas o poeta lembra que a modernidade introduziu uma outra relação com a beleza: a beleza do que se movimenta, a beleza do que é transitório e mesmo do que perece. A beleza que se pode ver nos gestos, nas rugas, nas marcas da passagem do tempo. É essa dimensão de beleza na vida que é especialmente valorizada pela psicanálise.

Certa vez Freud estava passeando com um amigo por um jardim florido. Comentavam sobre a transitoriedade da beleza, a propósito, o fato de que, em breve, com a mudança das estações, aquelas belas flores não estariam mais ali. Diferentemente de uma perspectiva que veria nessa transitoriedade um motivo de pesar, ele, ao contrário, via no movimento do tempo uma afirmação da vida. O que está vivo se mexe, e é o contraste que aguça a percepção. Podemos ler isso num pequeno texto de Freud, intitulado A transitoriedade. Ele atesta o espírito do autor como sujeito inserido na modernidade, sensível a essa forma de beleza que vê para além do ideal. Que, mais do que enxergar o objeto, sempre finito e precário, vê para além dele.

Essa forma de ver as coisas indica tal modo de sensibilidade. Não diz respeito apenas a uma certa visão da arte ou da beleza, mas permeia todo o pensamento psicanalítico e toda a sua abordagem da condição humana. Acho mesmo que podemos dizer que a psicanálise serve para percebermos a vida e o mundo pela lente da beleza do que se movimenta, do que não se aquieta. Se isso implica um certo desassossego, uma certa falta de asseguramento, uma certa confrontação com o risco das mudanças, esse é o preço a ser pago pelo que está vivo.

Como eu disse acima, bem antes de Freud a expressão barroca já colocava em cena esse modo de exprimir a vida. O poema barroco “A uma ausência”, do poeta português Antônio Barbosa Bacelar (1610-1663), é exemplar para mostrar a visão do sujeito enquanto alguém dividido, visão esta que será posteriormente tão afeita à psicanálise:

 

Sinto-me sem sentir, todo abrasado

No rigoroso fogo que me alenta

O mal, que me consome me sustenta,

O bem, que me entretém, me dá cuidado;

 

Ando sem me mover, falo calado,

O que mais perto vejo se me ausenta,

E o que estou sem ver mais me atormenta,

Alegro-me de ver-me, atormentado;

 

Choro no mesmo ponto em que me rio,

No mor risco me anima a confiança,

Do menos que se espera estou mais certo;

 

Mas se de confiado desconfio,

É porque entre os receios da mudança

Ando perdido em mim como em deserto.

Como podem observar, não estamos aí no mundo da contradição, mas no do paradoxo. Um paradoxo implica a possibilidade de se acolher idéias antagônicas, sem para isso fazer exclusões ou sínteses. O que se faz aí é afirmar a presença simultânea de elementos que são heterogêneos. Isso é tão presente na arte barroca quanto nas manifestações do inconsciente. Assim, posso expressar o sucesso e a decadência simultâneos de alguém. Por exemplo, quando pinto um quadro de uma pessoa ricamente vestida e situada num cenário estupendo e insiro nele um crânio, marcando sua degeneração — como se vê em Os embaixadores, de 1533, de Hans Holbein. Coisa bastante comum nas imagens barrocas e que bem podem fazer parte de sonhos, que são as expressões excelentes do inconsciente.

Nos sonhos podemos aparecer simultaneamente como crianças e velhos, como pobres e ricos, como gloriosos e decadentes, sem que uma coisa anule a outra. Também nos atos falhos — esses equívocos de linguagem que ocorrem quando queremos dizer uma coisa e dizemos outra, por vezes seu oposto — a presença do inconsciente é atestada, revelando seu modo particular de funcionamento, no qual os opostos não se anulam. Isso ocorre também em nossas fantasias, em nossos sintomas, e ainda nos chistes, esse modo peculiar de piadinhas, ditos espirituosos, através dos quais dizemos, pelo humor, o que jamais poderíamos dizer seriamente. Nossos sonhos, atos falhos, fantasias, sintomas e chistes são abordados pela psicanálise como formações do inconsciente. Como se pode facilmente perceber, essas produções não obedecem às leis da racionalidade consciente, que exige clareza, coerência, ausência de contradição. Elas revelam as leis de funcionamento do inconsciente e mostram que nosso psiquismo é muito mais amplo do que aquilo a que temos acesso pela nossa consciência.

Influenciados pela consciência, temos a tendência de sempre buscar semelhanças entre as coisas, abolindo diferenças e contradições. Tendemos a desprezar o que parece ilógico ou incoerente. Julgamos tudo isso uma besteira e nos afastamos do que parece equivocado. O reconhecimento do diferente como o que é errado não apenas afeta nosso pensamento racional, como até motiva inúmeros conflitos étnicos, religiosos, políticos e de diversas outras naturezas. Quando a psicanálise sublinha que o psiquismo não é só a consciência; quando valoriza nossas produções psíquicas, como sonhos e fantasias, tidas até então como bobagens, promove uma reviravolta na abordagem do psiquismo, que implica simultaneamente uma subversão na visão tradicional da vida e do mundo. O que explica o porquê de a psicanálise poder ser melhor compreendida pela arte do que pela ciência tradicional.

Não quero com isso que vocês entendam que o inconsciente é o domínio do caótico e do ilógico. Não se trata disso. A questão é que a psicanálise serviu para ressaltar o funcionamento de uma outra lógica também operante no psiquismo, que eu diria tratar-se da lógica do paradoxo. Cabe ressaltar que nesse plano do paradoxo, tão afeito ao inconsciente quanto à expressão barroca, a visão que se tem do Eu, da afirmação de si mesmo, como o que viria a definir o sujeito, passa a ser um tema sobre o qual recai todo questionamento. Não se tem como afirmar algo sem se perguntar pela possibilidade de seu contrário. A psicanálise vem ressaltar que o Eu não é senão a fachada de nós mesmos, do sujeito que somos. O que realmente somos escapa às possibilidades de apreensão do Eu.

O que se apresenta na arte barroca não é mais uma perspectiva de apaziguamento do ser e da vida, não é mais uma negação de sua instabilidade e dinamismo, mas sim uma focalização na aceleração do tempo. É isso que incita à desestagnação, e a uma certa pressa. Na arte barroca exibe-se um comportamento passional que revela que é preciso todo o vigor para nos defendermos do aniquilamento, sem que a morte seja por ela negada. O que a articula tanto com a posição teórica quanto com a posição clínica da psicanálise: a idéia da confrontação do homem com um limite, onde em última instância situa-se a morte, é a convocação a que se viva a vida.

A paixão e a turbulência que a arte barroca incita são as marcas indeléveis que expressam a subjetividade, não enquanto remetida a uma afirmação de si, mas em um movimento de evasão motivada pela inquietação. Poderíamos pensar que, nela, é a vida pulsional, ou seja, a energia fundamental que rege a dinâmica do sujeito, que não está encoberta em função das exigências de harmonia e ordenação. Uma visão clássica de mundo apela a tais exigências visando um plano ideal. No barroco, o Eu e a natureza são tidos como manifestações legítimas e únicas próximas da verdade, que não deve ser interpretada pela lógica intelectualista, mas sim deixada para ser expressa livremente.

Na arte barroca, trata-se de situar o infinito do ser na dimensão finita da natureza e do humano. Nessa perspectiva, o sujeito encontra-se impregnado de mundo e é mesmo confundido com ele. Daí a utilização que faço da noção de dessubjetivação como o que viria paradoxalmente designar a subjetividade barroca. Ou seja, na perspectiva da subjetividade barroca, o sujeito, imbricado no que o circunda, apresenta-se em evasão, exibe-se como fora-de-si, remetido intimamente ao que lhe é exterior, tendo como referência uma relação com o que o transcende. O que é bastante diferente de uma visão de sujeito enquanto um ser bem delimitado e circunscrito na consciência que teria de si mesmo, e no que se poderia definir por uma psicologia do seu comportamento.

Essa noção de dessubjetivação será preciosa para que se possam abordar questões inerentes ao que se espera do final de uma análise. Isso será retomado mais adiante, mas, só para adiantar, refiro-me à análise como o percurso que o sujeito empreende desde a investigação do que fundamenta sua constituição, do que opera em seus processos de identificação, até um certo despojamento da ancoragem que a subjetividade promove, o que se propõe chamar de destituição subjetiva. Trata-se, de certa forma, de destituir o herói épico que fizemos de nós mesmos, para o melhor e para o pior, fascinados por essa imagem na qual nos fixamos, em detrimento de vivermos a dimensão mutante da vida.

Foram os longos desdobramentos e a intensificação desses questionamentos do “si mesmo”, do que é o sujeito, da participação dos afetos na formação do Eu, que vieram a fomentar algum tempo depois, na Idade Contemporânea, o surgimento da psicanálise.

A psicanálise veio tratar desse sujeito que cai de uma perspectiva ideal e vai ter que se haver com seus conflitos, suas divisões, e que tem a particularidade de aspirar que o sucesso no amor e na sexualidade resolva suas questões, como mencionei anteriormente. Esse é o nosso típico sujeito contemporâneo; somos nós. É óbvio que a abordagem da condição humana enfatizando nossa fragilidade, ou mesmo a força de nossa fragilidade, pode também ser identificada ainda nos primórdios da civilização ocidental através da invenção do teatro — como teatro trágico —, quando o homem resolveu colocar em cena não as facilidades da existência, mas justamente seus impasses. Vemos assim que esse modo de sensibilidade tem suas incidências ao longo da história da humanidade, sobretudo da história da arte. Porém, foi somente nos tempos atuais que a tentativa de resolução dos impasses da vida pela via da libido ganhou a cena.

Costumo dizer em minhas aulas e seminários que a clínica psicanalítica, embora se constitua como a “hora da verdade”, promove a experiência do amor em um contexto, de certo modo, artificial. Não se trata de bater um papo com um amigo que também te pede coisas e que você encontra ocasionalmente. As sessões têm hora e lugar marcados previamente, ainda que eventualmente isso possa se alterar. Não se trata de uma relação onde as duas pessoas interagem a partir do mesmo plano, simetricamente. Se fosse, obviamente não teria por que uma pagar à outra. Pode parecer meio esquisito pensar as coisas dessa forma, mas vejamos meus argumentos.

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