Políticas da Diversidade
A atuação dos mediadores da promoção da cidadania e a problemática da visibilidade do fenômeno migratório
A atuação dos mediadores da
promoção da cidadania e a
problemática da visibilidade do
fenômeno migratório
Daniel Etcheverry
Uma das particularidades do fenômeno migratório contemporâneo é sua grande visibilidade em determinados contextos sociais e sua quase total invisibilidade em outros. Para além de números e porcentagens – os quais indubitavelmente são importantes – existem fatores que fazem das migrações um tema de ampla repercussão e que o colocam nas agendas de alguns Estados e de organizações da sociedade civil como uma prioridade em determinados contextos, enquanto permanecem como um fenômeno sem importância em outros. Dessa forma, não só o fenômeno migratório adquire dimensões e formas específicas, mas também os próprios imigrantes moldam suas formas de relação com a sociedade de acolhida e suas percepções sobre si mesmos.
Este artigo analisa os debates sobre as migrações contemporâneas a partir de minha observação em duas cidades, Buenos Aires e Porto Alegre, nas quais o fenômeno migratório tem ganhado dimensões de visibilidade quase opostas. Tomo como base a atuação e discursos de agentes de mediação entre os imigrantes e as sociedades de acolhida em ambas as cidades, entre os quais se encontram organizações da sociedade civil, associações de imigrantes, meios de comunicação de massa e agentes do Estado. Todos eles têm algo a dizer sobre as migrações, legitimados por sua observação e/ ou atuação junto aos imigrantes, em alguns casos mais e, em outros, menos direta. Trata-se, portanto, de um estudo comparativo entre as formas de pensar e lidar com o fenômeno das migrações contemporâneas em ambas as cidades. Privilegio aqui reflexões sobre o trabalho de campo em Buenos Aires, considerando que a comparação permite "ver e escutar" melhor a temática das imigrações, uma vez que esta não a reduz a uma questão meramente "nacional", nos permitindo examinar o modo como lidamos com alteridades.
Trarei, inicialmente, os discursos mais comuns sobre o fenômeno migratório para, depois, ver a relação entre eles e, simultaneamente, procurar entender como a atuação dos mediadores influencia na
construção de um sujeito migrante, 1 às vezes acionando e outras desconstruindo as narrativas hegemônicas sobre o fenômeno e as consequências que isso tem sobre a problemática da visibilidade dos imigrantes e de sua participação na cidade de imigração.
O conceito de 'discurso', da forma como é utilizado por Foucault, é fundamental neste trabalho. Parto do princípio de que tudo o que é pensado sobre qualquer fenômeno social pode ser contextualizado dentro do conjunto de forças que o tornam possível e até inevitável. Diz Foucault: "No se puede hablar en cualquier época de cualquier cosa. No es fácil decir algo nuevo" (Foucault, 1995, p. 73). As construções discursivas, segundo o autor, não constituem um bloco homogêneo nem apresentam apenas contradições superficiais. As contradições são inerentes ao próprio discurso e é nelas que ele emerge, se recompõe e se transforma. Foucault é frequentemente criticado por restringir o conceito de discurso ao que é dito. O conceito de discurso que manejo leva também em conta tudo aquilo que é feito, como uma forma de manifestar um saber e um pensar sobre o tema.
Com o objetivo de analisar as observações de campo, é preciso considerar que todo discurso traz, implícita ou explicitamente, uma valoração ética associada a uma valoração estética (Foucault, 2006). Para compreender a inclusão é necessário levar em conta o conceito de (in)visibilidade. Veremos como as práticas de inclusão podem ser ambíguas e frequentemente trazem consigo a marca da exclusão.
Os discursos sobre os imigrantes e
as migrações
O antropólogo espanhol Manuel Delgado (2002, p. 14-15) diz: "En el imaginario social en vigor, inmigrante es un calificativo que se aplica a indivíduos con determinadas características negativas". Entre as características negativas mencionadas pelo autor, estão: ser alheio ao lugar, pobre, culturalmente atrasado e excessivo em número. Por sua parte, o sociólogo franco-argelino Abdelmaek Sayad (1991) lembra como as representações, ou 'illusions' em seus próprios termos, são compartilhadas pelas sociedades de recepção e de procedência e até pelos próprios imigrantes, e procedem das mesmas categorias sociais, econômicas, culturais e políticas. Para ele, estas representações, ou discursos no vocabulário foucaultiano, são solidárias entre si, e basta com que uma delas seja desmentida para que o total do conjunto se desmorone. Não pretendo, neste trabalho, analisar em detalhe a pertinência destas representações, senão apresentá-las, lembrando que, mesmo que contextualizados, estes discursos são anônimos e difundidos; não revelam nem excluem, em princípio, sujeitos nem lugares de locução. Eles serão, neste trabalho, frequentemente contrastados com contra-discursos que, agora sim, falam de lugares de locução específicos.
Os imigrantes e o desemprego
A associação entre imigração e desemprego é, talvez, uma das mais difundidas: os imigrantes ocupam empregos porque, sem papéis, aceitam baixos salários, exonerando também os contratantes da carga impositiva. Este é um discurso notoriamente difundido nas sociedades receptoras de imigrantes, sobretudo quando as taxas de desemprego aumentam. Um contra-discurso é comumente acionado por parte dos mediadores que advogam em favor dos direitos humanos dos imigrantes. Segundo estes últimos, os imigrantes ocupariam os postos de trabalho que os nacionais recusam. Aqueles que têm uma visão mais focalizada do assunto conseguem articular seus discursos sobre fatos mais concretos, considerando, por exemplo, as possibilidades de contratos temporários em setores específicos da economia e frequentemente originados em políticas públicas destinadas a suprir a sociedade de recepção com mão de obra não especializada, porém circunscrita a um tipo de ocupação, como é o caso das empregadas domésticas equatorianas na Espanha. É o caso também da associação de imigrantes de determinadas nacionalidades com características pessoais particulares, como as babás e empregadas domésticas paraguaias em Buenos Aires.
Os imigrantes e os recursos públicos
Os serviços de saúde e educação estão comumente em pauta quando se fala de migrações, principalmente na Argentina. Ambos os países, Brasil e Argentina, têm serviços de saúde e educação primária, secundária e terciária públicos e gratuitos. Sua universalidade, no que concerne às migrações, está, de forma pouco clara, amarrada às legislações migratórias nacionais. No caso
argentino, a nova lei migratória2 explicitamente desvincula o status migratório do acesso a estes serviços, mas trata-se de uma mudança relativamente nova e pouco conhecida, especialmente pelos agentes de saúde, e que com frequência entra em conflito com legislações provinciais ou municipais. Na Argentina, este fato tem sido amplamente discutido por mediadores e acadêmicos, denunciando quão fragilmente fundamentadas são as acusações de supersaturação dos serviços públicos de saúde e educação por
parte dos imigrantes. 3
Os perigos associados à imigração
Identifiquei, durante o trabalho de campo, duas formas de perigo associadas às migrações: a criminalidade – assaltos e roubos na rua – e a transmissão de doenças. Dadas a racialização das migrações e da pobreza – dois assuntos que não analisarei neste trabalho – resulta fácil entender que esse tipo de perigo esteja associado à figura do imigrante estrangeiro. Ao criticar o Estatuto do
Estrangeiro e a lei Videla,4 os mediadores costumam ressaltar como as leis migratórias nacionais revelam uma percepção do imigrante estrangeiro como um perigo à segurança nacional, frequentemente associada à importação e criminalização da pobreza.
Fala-se também da importação de doenças, sobretudo daquelas já erradicadas ou sob controle no país, tais como a malária e a tuberculose, trazendo novamente à tona a relação entre a pobreza e o subdesenvolvimento alheios com o perigo de perder aquilo que foi conquistado. O caso da tuberculose é paradigmático, pois está associado ao trabalho dos bolivianos nas oficinas de costura,
comuns em Buenos Aires,5 em ambientes sem ventilação, fechados – "nadie sabe lo que pasa allí adentro". A imigração paraguaia é responsabilizada pela transmissão da malária, doença característica dos climas quentes. Nunca escutei que esses discursos fossem negados no âmbito dos agentes de mediação.
Imigração e tráfico de pessoas
Esta associação é recorrente, inclusive e especialmente nos discursos dos mediadores. Este tipo de criminalidade não é pensado como um perigo à nação, já que supostamente acontece dentro de redes fechadas de estrangeiros, originam-se no exterior e têm vida limitada. Duas formas de tráfico de pessoas são as mais mencionadas: as de mulheres jovens para a prostituição – as paraguaias e as dominicanas, cada uma com suas especificidades –, e a mão de obra escrava para as oficinas de costura clandestinas, ambas tendo lugar nas grandes cidades como São Paulo e Buenos Aires. Na maioria das entrevistas que realizei em Buenos Aires, este tema foi trazido à tona espontaneamente pelos mediadores. Em ambos os casos, os estrangeiros são pensados como vítimas de malfeitores ambiciosos compatriotas seus e da pobreza de seus países de origem. Encontrei vários programas de combate a este tipo de imigração, implementados por ONGs que geralmente trabalham em rede e são financiadas por organismos internacionais. O fato de estes projetos terem recortes nacionais ajuda na configuração do tráfico de pessoas como um problema associado a imigrantes de origens específicas. Os discursos sobre esses tipos de tráfico de pessoas têm em comum a noção de exploração de imigrantes por seus compatriotas, e são reproduzidos com poucas variações pelos mediadores e por qualquer pessoa que se manifeste a respeito. Contudo, vale a pena ressaltar que alguns imigrantes, em seus papéis de sujeitos que migram e não de mediadores, ofereceram-me visões mais amplas que permitem entender não apenas o tráfico em si, mas também como se originam, reproduzem e perpetuam as visões sobre estes acontecimentos.
A cultura dos imigrantes
Os imigrantes provêm sempre de um país mais atrasado, perceba-se isso com condescendência ou rejeição. Os imigrantes – diferentemente dos estrangeiros, os quais fazem parte de uma sociedade global e provêm de economias mais prósperas que as nossas ou de setores mais favorecidos de suas sociedades de
origem – formam minorias étnicas e têm uma 'cultura'. 6 Suas formas de comportar-se e pensar estão determinadas por ela e grande parte de suas dificuldades derivam de não poder dela se livrar.
Migrações e pobreza
De todos os discursos sobre migrações, o discurso da pobreza é não apenas o mais difundido, mas aquele que está na base de todos os outros, que os fundamenta e explica. O emigrante emigra porque é pobre; a carência de recursos em seu país de origem ou a falta de oportunidades de construir um futuro mais promissor, na melhor das hipóteses, são os dois extremos de um leque de possibilidades não muito amplo. Os mediadores, embora apoiados em visões um pouco mais amplas sobre as migrações, reproduzem esse discurso que associa migrações e pobreza de forma quase automática. Quem ousaria negar a pobreza dos imigrantes? A falta de recursos faz com que se torne a única opção de vida. A pobreza é vista como uma condição inata do imigrante; ele nasce e vive pobre, e pode vir a ser menos pobre se se integra à sociedade de recepção.
Sutilezas e superposição de
representações
Existem algumas sutilezas no discurso sobre a pobreza imigrante. Em princípio, pareceria razoável pensar que os imigrantes de países mais pobres sejam mais pobres que aqueles que vêm de países menos pobres. Por exemplo, os peruanos na Argentina são, supostamente, pessoas com níveis de educação mais elevados que os imigrantes bolivianos. Sempre que se fala em imigrantes peruanos, se mencionam as universidades do Peru e se enfatiza que foram as condições econômicas e políticas atuais do país que tornaram difícil encontrar um emprego naquele país. Nunca escutei associar a pobreza do imigrante peruano à falta de educação formal ou a características próprias dos peruanos. Diz-se sempre que eles acabam ocupando na Argentina empregos menos qualificados e pior remunerados dos que encontrariam em seu país, se não fosse pelas condições em que o Peru se encontra atualmente.
Já quando o tema é os bolivianos, é sempre a pobreza estrutural da Bolívia que causa a emigração. Simultaneamente, se menciona a timidez como uma característica diacrítica dos bolivianos, e se associa esta a uma menor capacidade intelectual. Essa associação entre pobreza, capacidade intelectual diminuída e timidez é perigosa, e não deixa de ter consequências tanto no cotidiano das pessoas como nas práticas e políticas que são implementadas. Algo semelhante nos menciona a antropóloga Aihwa Ong ao falar dos imigrantes asiáticos nos Estados Unidos. Em Buddha is hiding, Ong conta como imigrantes chineses, japoneses, laosianos, vietnamitas e cambojanos são, à primeira vista, todos asiáticos. Entretanto, um olhar mais profundo revela que a categoria 'asiático' abre passo a uma segmentação baseada nas características adjudicadas a cada indivíduo conforme sua nacionalidade, e que acabam redundando em posições sociais diferenciadas, em identificações com certas confissões religiosas e em ações também diferenciadas, especialmente por parte das igrejas.
Na Argentina, a categoria 'limítrofe',7 que abarca bolivianos, chilenos, peruanos e paraguaios, inclui uma segmentação que não chega a se traduzir em ações políticas específicas para cada grupo, mas que sim se traduz em um discurso que, de alguma maneira, acaba moldando o ingresso dos imigrantes no mercado de trabalho, entre outras coisas. O trecho que segue foi extraído de uma entrevista com ex-militante do movimento boliviano:
Fijate como era, me dijeron 'nosotros no vamos a hablar con los bolivianos
porque ustedes ni siquiera manejan un vocabulario técnico. No nos van a
entender de qué estamos hablando, no saben conceptualizar' me gritó un
funcionario argentino. Yo le dije, bueno, debatamos, demuéstreme que yo no
sé conceptualizar.
Assim, as mulheres paraguaias, consideradas doces e humildes, são boas para os trabalhos domésticos e o cuidado de anciãos. As peruanas são também boas empregadas domésticas, com o acréscimo de que, por terem bons níveis de educação, podem ajudar as crianças nas tarefas escolares, o que é um importante ponto a ser considerado quando se trata de conseguir uma empregada para morar em casa.
Numa entrevista com um membro de uma organização internacional de ajuda a imigrantes, ele argumentou a favor da oficialização dos despachantes que ajudam na tramitação da documentação de imigrantes estrangeiros, com a seguinte frase: "Hay que reconocer que muchos inmigrantes no tienen la capacidad intelectual para hacer um trámite burocrático, por más simple que sea".
Sem querer pôr em dúvida as boas intenções dos programas de recepção e ajuda a imigrantes, resulta interessante notar que a grande maioria dos cursos que têm por objetivo ajudar os imigrantes na inserção no mercado de trabalho são de ofícios manuais, como marcenaria, costura, artesanato, eletricidade ou encanamento. Não se trata nunca de cursos que lhes possibilitem trabalhar em áreas de maior exigência intelectual, como tradução, secretariado ou informática. Ou seja, se por um lado se critica a fragmentação do mercado de trabalho, dizendo que os imigrantes acabam ocupando os trabalhos de menor escalão social, por outro se tem como dado que não poderão fazer outra coisa.
Logicamente, não são somente os discursos que associam características pessoais às suas origens nacionais e que influenciam no ingresso no mundo do trabalho desses imigrantes. Há bons exemplos na literatura sobre migrações, que mostram como funcionam as redes de base étnico-nacional no mundo do trabalho. Dois deles são os trabalhos de Patricia Vargas (2005) sobre bolivianos, paraguaios e argentinos na construção civil e de Verónica Trpin (2004) sobre chilenos e a cultura da maçã no sul da Argentina. Contudo, no primeiro caso especialmente, é possível ver como os imigrantes recorrem aos estereótipos de "boliviano" e "paraguaio", os quais incluem virilidade, força física e coragem para enfrentar o medo da altura, para facilitar o próprio ingresso no mundo do trabalho. Ou seja, estas associações entre características pessoais, determinadas aptidões para certos trabalhos e origem étnica, apesar de ser o resultado de um encontro com o 'outro' e este 'outro' sendo agora o nacional do país de recepção, podem, de fato, virem a ser pontos a favor em certas ocasiões.
Não é apenas no mundo do trabalho que estas associações operam. A figura do imigrante é quase sempre o resultado da superposição de categorias da qual nos fala Avtar Brah (1996). Em Cartographies of Diaspora, a autora nos leva a pensar na necessidade dos sujeitos se encaixarem em determinadas classificações que nem sempre se correspondem com as do sujeito em deslocamento, mas que, no fim das contas, são assumidas como próprias a fim de poder estabelecer um diálogo com qualquer instância superior, mesmo quando esta supostamente o representa, como é o caso dos mediadores.
Nesse sentido, o mundo do trabalho é apenas um dos âmbitos em que o imigrante deve conformar-se a um estereótipo de si mesmo, e aceitar que para dialogar com o 'outro', o nacional neste caso, deve fazer o papel que lhe foi adjudicado. As observações realizadas no trabalho de campo mostram que não somente devem adaptar-se a esses papéis, mas que primeiro devem compreendê-los, e que a descoberta dos novos códigos e sua adoção tem um preço. Observei que o fato de haverem solicitantes de refúgio e imigrantes dentro e fora – na rua – de alguns locais de atendimento não respondia a questões de espaço ou à quantidade de pessoas que procuravam atendimento, senão a comportamentos prévios supostamente não coerentes com os esperados dentro da instituição. Assim, falar em voz muito alta ou reclamar mais do que se espera podem resultar em que lhes seja negado o ingresso a um lugar que supostamente deveria ajudar.
Da mesma forma, os cartazes que cobrem a pequena sala de espera de uma associação de imigrantes residentes em Buenos Aires deixam explícito que ao chegar, o imigrante deve ser 'domesticado'. O contato com os já estabelecidos pode ser o caminho, mas um caminho a ser percorrido com muito cuidado. Frases como "no escupa en el suelo", "no muestre cómo se comporta en su casa", "si su hijo ensucia el piso, límpielo", entre muitas outras semelhante, tornam evidente o processo de adoção de uma nova cultura, principalmente em função da natureza das representações das que se parte.
Passemos então, a um ponto importante que levanta dois questionamentos fundamentais: lembrando que se trata de um estudo comparativo, quais são os motivos da hipervisibilidade do fenômeno migratório em Buenos Aires e a invisibilidade quase absoluta do mesmo em Porto Alegre; e, o que mais interessa a este trabalho, o que é visível e invisível em cada caso?
A (in)visibilidade das migrações
Brasil e Argentina são dois casos onde a problemática da visibilidade das migrações alcança dimensões quase opostas. No caso argentino, a hipervisibilidade das migrações parece estar relacionada aos discursos sobre a origem e constituição da população nacional. Ambos os países manejam a metáfora do crisol de raças; entretanto, o crisol argentino está, ou esteve até pouco tempo atrás, composto apenas por brancos europeus. "Los argentinos bajaron de los barcos" é o lema normalmente usado para falar sobre este tema, e é duramente criticado por aqueles que pensam o fenômeno migratório. Não poderia afirmar em que medida a invisibilidade do fenômeno migratório no Brasil está associado aos discursos sobre o Brasil multirracial difundido amplamente nos meios de comunicação de massa. De fato, as imagens do Brasil veiculadas na televisão incluem brancos, negros, indígenas e asiáticos, mas o espectro racial brasileiro carece de nuances sobre os latino-americanos, mesmo nos estados da federação que são fronteiriços com os outros países da América Latina. Poderíamos também pensar nas políticas de migração seletiva, aplicadas em ambos os países ao longo dos séculos XIX e XX, ou nas formas como os censos são realizados e fundamentalmente, nas legislações migratórias de ambos os países das últimas décadas.
Entretanto, neste momento, parece-me mais pertinente pensar na segunda questão: o que é que se vê e o que é que não se vê? É, de fato, isso que aparece com mais nitidez nos discursos sobre os migrantes e nas práticas dos mediadores.
Como mencionei anteriormente, o imigrante é sempre portador de uma 'cultura'. Uma 'cultura' que está, em primeiro lugar, associada a sua pobreza e em segundo, às suas características pessoais, com as quais se confunde. Uma 'cultura' da qual também depende o sucesso de seu empreendimento migratório. Uma 'cultura' também que, nos casos bem sucedidos, termina sendo itemizada, resumida a um conjunto de danças, música e culinária nos dias festivos.
Ao imigrante lhe é permitida a celebração de sua 'cultura', desde que de forma pontual e, sobretudo, sob uma estética que seja agradável aos nossos sentidos. Supostamente, os bons imigrantes
alegram-nos com suas 8 quenas e samponias , agradam nossos olhos com suas indumentárias coloridas e seus cabelos rastafári. Dessa forma, fazem sentirmo-nos cosmopolitas e abertos aos outros. Já quando o sotaque interfere na comunicação, quando uma palavra é dita fora do lugar, quando as roupas têm aspecto velho e os cabelos estão desarrumados, estamos frente ao imigrante que deve ser desculturalizado, aquele que poderá deixar para trás esses sinais de pobreza se reformular sua atitude perante os nacionais. Dessa forma ele poderá apagar da sua pele, frequentemente, vista como não branca, algumas das marcas de sua origem.
Aquilo que não é permitido, e que, portanto, acaba sendo mais visível, é que o imigrante confronte nossa estética, no sentido mais amplo do termo. Ou seja, o enfrentamento com esse 'outro' num território que é nosso passa, necessariamente, pela valoração estética de seus hábitos, de sua aparência, de sua forma de relacionar-se. Deve, em princípio, ser comovente, assim poderemos transformá-lo, mas, ao mesmo tempo, nos coloca frente a frente com aquilo que não queremos para nós, aquilo que tememos. Por isso o imigrante deve ser pobre, mas também deve querer deixar de sê-lo, considerando sempre a pobreza unicamente em nossos próprios termos. Novamente Foucault nos lembra que todo discurso, sobre as migrações neste caso, é sempre um discurso estético, é a necessidade de impor nossa estética sobre a do 'outro' (Foucault, 2006). O imigrante é, assim, uma construção constante que sentimos a necessidade de desconstruir.
Trata-se, então, de compreender o papel que os mediadores, no sentido mais amplo do termo, como mencionei no início, têm na construção desse sujeito imigrante. Os discursos éticos e estéticos mencionados não são somente produzidos dentro de lugares de poder legitimados. Organizações e associações de imigrantes são também sujeitos de elaboração de uma ética e uma estética migrantes, que é, em parte, condição de inclusão. Os próprios imigrantes, enquanto sujeitos, não estão alheios a esses processos. Retomando Aihwa Ong, a autora mostra como os imigrantes cambodianos inserem-se na lógica capitalista norte-americana mediante sua incorporação à Igreja dos Santos dos Últimos Dias – os Mórmons – uma confissão religiosa que está longe de ser um modelo da vida norte-americana. Os imigrantes incorporam uma religiosidade ambivalente e, em grande medida, marginal à sociedade de recepção, mas dessa forma conseguem se apropriar dos valores da nova sociedade.
Em nosso caso, é um pouco diferente, dadas as características da atividade dos mediadores, a maioria dos quais são também vinculados a uma igreja. São os imigrantes que se vinculam marginalmente à vida da igreja. Até o momento, não escutei nenhum caso de conversão religiosa associado à experiência da migração; sua relação com a igreja mantém-se dentro dos parâmetros anteriores ao deslocamento. No entanto, tanto as associações com vínculo religioso como aquelas que são declaradamente não confessionais, resultam ter um papel crucial na incorporação, por parte do imigrante, da ética e da estética locais.
Reflexões finais
Estamos, de um lado, frente a alguns casos concretos. Existem, de fato, redes de tráfico de trabalhadores e de prostituição, por exemplo, assim como também existe uma pobreza migrante, países mais e menos pobres, etc. Por outro lado, temos o fenômeno de construção de estas narrativas hegemônicas que a recorrência dos fatos e sua frequente menção vão delineando. O efeito de estes discursos ou narrativas hegemônicas é a construção de um fato social, a imigração como problema social e visível. A 'criminalidade' do 'outro' e as doenças que este 'outro' traz não são nem mais nem menos reais que as já vividas no país de acolhida.
Fala-se do mal que a imigração causa à economia local, dos imigrantes que passam dificuldades, do abuso dos serviços públicos. Entretanto, nas ruas das cidades, de Buenos Aires especialmente, uma enorme quantidade de agências de viagens anunciam passagens aéreas aos países de origem dos imigrantes, locutorios ofertam ligações telefônicas aos países de emigração e lojas anunciam comestíveis e produtos em geral originários dos países de emigração. E, além do mais, as figuras humanas utilizadas em seus anúncios publicitários realçam traços e cor de pele que evocam uma origem andina. Locutorios, armazéns e pequenos supermercados são, no imaginário popular, associados à figura do imigrante e não é sem motivo; a maioria deles são de propriedade e atendidos por imigrantes. Em Buenos Aires, a produção de hortaliças é, atualmente, desenvolvida quase exclusivamente por bolivianos que, de vendedores destes produtos na capital, passaram a instalar-se e produzi-los no cinturão urbano da capital. Isso tudo indica que longe de ser um peso para a economia do país, a imigração contribui para a movimentação da economia local, desde a produção, o consumo e a geração de empregos.
Se os imigrantes se inserem no mercado de trabalho formal ou informal, o fazem em setores e postos que lhe são reservados, como a construção, os cuidados domésticos, os serviços de manutenção e o comércio, tanto porque os locais não querem ocupá-los por serem de baixo escalão social como também porque os programas de assistência a imigrantes, baseados em parte nas narrativas hegemônicas sobre a imigração, contribuem para balizar seu caminho a esses setores do mercado de trabalho.
Ainda, quaisquer dos fatos que tanto geram discursos sobre a imigração não são exclusividade dos imigrantes. Não existem, acaso, redes de prostituição nacionais, nem nacionais compatriotas nossos explorando nossa mão de obra, em condições de trabalho impróprias? Não há costumes que são para nós desagradáveis em compatriotas nossos? São todos nossos conterrâneos uniformemente "aculturados"? Fredrick Barth, em A análise das culturas nas sociedades complexas já mostrou como a cultura é distribuída diferencialmente a partir da experiência social (Barth, 2000). No entanto, quando um imigrante se comporta de forma não adequada às expectativas, o faz porque é imigrante, porque não conseguiu desprender-se de sua 'cultura', precisa tornar-se dócil à domesticação, precisa 'integrar-se'.
O papel das organizações de acolhida a imigrantes é ambíguo. Não é em vão que são chamados de mediadores, pois devem supostamente mediar a interação entre os diferentes. A questão que se coloca então é em que bases cada mediador pensa e elabora suas ações. A inclusão do 'outro' é com demasiada frequência pensada em termos de uma adaptação à ética e à estética hegemônicas, acionando uma percepção homogênea de si mesmo que obscurece qualquer diversidade. Desde esse patamar, pretende-se ajudar o 'outro' e o processo de integração, afim de que deixe de ser uma ameaça a sensibilidades e discursividades hegemônicas.
Quando um membro de uma organização de acolhida, então, compadece-se publicamente do pobre imigrante que não tem, de partida, as capacidades necessárias para sobreviver numa sociedade como a nossa, quando reduz a vivência da 'cultura' desse 'outro' a um conjunto de itens consumíveis, quando oferece cursos de capacitação obedecendo os ditames de um mercado de trabalho setorizado ou, ainda, quando anuncia publicamente seu programa de combate a redes de tráfico de pessoas elaborados com base em recortes nacionais está, inadvertidamente, reproduzindo e reforçando os discursos ou narrativas hegemônicas sobre a imigração. O fenômeno migratório ganha então visibilidade enquanto problema social, onde não há pessoas com diversos graus de agenciamento de suas vidas e em circunstâncias que precisam ser melhoradas, senão vítimas e malfeitores. Nesse sentido, cabe pensar em que medida os esforços pela inclusão dos imigrantes por parte do mediadores, sem a intenção de desvalorizar seu trabalho, trazem implícita a marca da exclusão.
Referências
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