Profissão: assistente social

Edméia Corrêa Netto · Capítulo 6 de 8 · parte 2/2

Páginas do PDF

Profissão: assistente social

3 Cotidiano profissional nas entidades sociais

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Dal Rosso (2008) faz uma distinção entre o trabalho imaterial

gerado a partir do trabalho material, e o trabalho gerado a partir da

imaterialidade. Os serviços de consertos, reparação, ou nos bares,

 

restaurantes, produção de alimentos tornam -se praticamente uma extensão do trabalho industrial, apresentando várias de suas

características.

 

O trabalho imaterial exige mais habilidades diferenciadas, como

afirma Dal Rosso (2008, p.33):

 

Os serviços com base na imaterialidade marcam diferenças

significativas em relação ao trabalho industrial pelo fato de

demandarem mais intensamente as capacidades intelectuais,

afetivas, os aprendizados culturais herdados e transmitidos, o cuidado individual e coletivo.

 

E prossegue mais adiante suas reflexões (2008, p.33-4):

 

Os setores que fazem apelo mais à inteligência, à afetividade, à

capacidade de representação cultural, à capacidade de

 

relacionar-se são os serviços de educação e cultura, os de

saúde, os serviços sociais, os de comunicação e telefonia, os

bancários e de finanças, importação e exportação e outros que

surgiram com a revolução informática. Tais serviços estão crescendo sistematicamente como empregadores de mão de

obra nas últimas décadas. A pesquisa futura precisa aprofundar

o estudo de como aparece a questão da intensidade nessas

formas imateriais.

 

A intensidade do trabalho do assistente social ainda não foi

devidamente compreendida, pois, além dos resultados que se

espera de sua ação profissional, também está o fato de trabalhar

constantemente com as refrações da questão social que se

manifestam no cotidiano das pessoas como situações complexas,

angustiantes e cuja solução imediata não está relacionada

diretamente ao Serviço Social, dependendo de recursos institucionais e comunitários, com sua efetiva resolução estando

relacionada às transformações societárias que ainda não ocorreram.

 

Tabela 26 – Procedimentos realizados

 

Tipo Frequência

 

Entrevista 15

 

Reunião 10

 

Visita domiciliar 16

 

Encaminhamento 7

 

Reunião de equipe 6

 

Relatório 5

 

Anamnese 5

 

Estatística 4

 

Reunião com usuários 2

Atendimento em grupo 2

 

Grupo operativo 2

 

Contato com parceiros 2

 

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

 

Outros procedimentos foram mencionados uma vez pelas

assistentes sociais:

 

– palestras;

 

– visitas a empresas e escolas;

 

– organização de cursos.

Gráfico 24 – Procedimentos realizados

 

Participação em conselhos

 

Das 19 assistentes sociais entrevistadas, 13 participam ou

participaram de conselhos (Tabela 27 e Gráfico 25).

 

Tabela 27 – Participação em conselhos

 

Participa ou participou como Nunca

membro participou

 

13 6

 

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

Gráfico 25 – Participação em conselhos

 

 

Os conselhos mencionados em que participam ou participaram como integrantes, representando a entidade social, foram: CMAS,

CMDCA, CMS, CMPPNE, além de três profissionais que participam

ou participaram de conselhos representando também a área

governamental, em virtude do vínculo de trabalho com a Prefeitura

Municipal.

 

Das seis que nunca participaram, quatro colocaram como

observação que participam das reuniões do CMAS ou do CMDCA

como ouvintes, indicando seu interesse pela relevância da ação dos

conselhos. O CMAS é gestor de recursos da política de assistência

social e o CMDCA possui recursos próprios provenientes da

campanha anual para doação de parte do imposto de renda, tanto

de pessoas físicas como de pessoas jurídicas.

 

A participação das assistentes sociais nos conselhos é bastante

relevante, uma vez que é uma atividade que sai da rotina cotidiana

de trabalho, e assume uma característica de participação na gestão

das políticas sociais.

Heller (1985, p.51) considera que “a esfera política (o ato consciente

 

de assumir a práxis da integração), portanto, destaca-se – tal como

a atividade científica – da cotidianidade”, o que pode gerar uma

suspensão total ou parcial dessa cotidianidade, imprimindo à realidade transformações maiores ou menores.

 

Por outro lado, é importante considerar que várias profissionais

possuem dois ou mais vínculos de trabalho, inclusive com a

Prefeitura Municipal, o que pode gerar uma posição no mínimo desconfortável quando houver divergência de interesses entre o

órgão gestor e as entidades sociais. Algumas assistentes sociais

trabalham em duas ou mais entidades sociais, cuja posição pode

representar interesses divergentes, embora esteja representando

apenas uma determinada entidade e não outra onde trabalha.

 

Entendemos que essa situação pode gerar conflitos íntimos,

profissionais e, em consequência, um alto nível de estresse,

dificultando a ação cotidiana. O interesse profissional de defesa dos

direitos da população podem não coincidir com os objetivos

profissionais em algum momento, mas, como a assistente social

representa a entidade social no conselho, deve defender, assim

entendem seus dirigentes, a posição da instituição. Os baixos salários, cargas horárias reduzidas, precariedade nas condições de

trabalho e a possibilidade sempre iminente de desemprego podem

se constituir em elementos altamente estressores, como afirma

Alves (2007, p.237):

 

o espectro do desemprego aberto e do precário mundo do

trabalho é um poderoso “agente estressor”. A condição de

proletariedade e de insegurança social em suas múltiplas

formas, colocam no dia a dia, homens e mulheres diante de

reações de seu organismo não muito diferentes das de seu

ancestral diante de um lobo.

 

A indicação da elevada participação das assistentes sociais nos

conselhos, por outro lado, evidencia a conquista de um espaço

profissional dentro das instituições, públicas ou privadas, uma vez que não há qualquer exigência para a participação de profissionais

de Serviço Social. Também indica que elas, ainda que imersas num

contexto de conflitos, de precarização nas relações de trabalho,

fazem uso da capacidade de escolher alternativas, valorizando sua participação nos conselhos e para isso lutando.

 

A condição de subalternidade da profissão na sociedade é

conhecida de sobejo, contra a qual as profissionais, de um modo

geral, lutam constantemente. A situação encontrada demonstra que elas não desistiram de lutar por um trabalho em melhores

condições, e que recebem algum reconhecimento por sua

competência profissional, como demonstra a condição de membro

dos conselhos.

 

Participação em reuniões com assistentes sociais de outras

instituições

 

Um dado significativo no presente estudo, é que, dentre as 19

assistentes sociais, 16 participam de reuniões com colegas de outras instituições, o que pode ser um indicativo da articulação do

trabalho desenvolvido nas diversas organizações, dando a ideia de

discussão conjunta de situações e dificuldades na busca de

alternativas comuns e/ou complementares (Tabela 28 e Gráfico 26).

 

Tabela 28 – Participação em reuniões com assistentes

sociais de outras instituições

 

Sim Não

 

16 3

 

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

Gráfico 26 – Participação em reuniões com assistentes sociais de

 

outras instituições

 

Na reunião inicial com as profissionais foi objeto de discussão, além do tema e do questionário da presente pesquisa, a atuação mais

ampla das assistentes sociais no município. Ressaltaram que o

contato entre elas era frequente, especialmente em reuniões e

encaminhamentos gerais através de contatos telefônicos, o que

pressupõe um bom entrosamento. Como aspecto negativo, as

profissionais relataramque as reuniões tratam de assuntos imediatos

do cotidiano profissional, não encontrando tempo para a discussão

de temas mais amplos relacionados à profissão como um todo ou mesmo sobre as condições de trabalho encontradas.

 

Tipo de relacionamento com outras assistentes sociais

 

Ficou convencionado na reunião com as profissionais presentes

como deveria ser compreendida a formalidade de relacionamento.

 

Referimo -nos ao contato originado pelas relações profissionais e à

informalidade pelo contato pessoal da vida privada.

 

A composição da vida cotidiana apresenta uma gama de diferentes

atividades, chamada de heterogeneidade, e envolve organicamente,

de acordo com Heller (1985, p.18), “a organização do trabalho e da

vida privada, os lazeres e o descanso, a atividade social

sistematizada, o intercâmbio e a purificação”.

As condições em que se realiza o trabalho na sociedade num dado

momento histórico determina a reprodução e a produção das

relações sociais. Na sociedade atual, o tempo dedicado ao trabalho

de sobrevivência ocupa grande parcela das horas diárias, mas a vida do ser social não pode se confundir com o trabalho. O trabalho

como realizado não proporciona as condições ideais para o

desenvolvimento pleno das habilidades e dos valores do humano

genérico.

 

O cotidiano é um espaço heterogêneo em que a multiplicidade de

tarefas se apresenta ao ser social, exigindo sua habilidade em

solucionar situações imediatas. É o espaço do repetitivo, mas

também precisa ser buscado o momento da reflexão.

 

Para que o ser social desenvolva suas potencialidades e os valores

do humano genérico, é fundamental resgatar ou criar um espaço em

que possa haver reflexão, descanso e atividades prazerosas. O

contato com outras profissionais é importante para identificar a

articulação existente na mesma cidade. Isto não implica, porém, o

grau de organização da categoria, até porque foi explicitada na

reunião a dificuldade encontrada em encontrar momentos comuns

para reflexão mais ampla sobre o trabalho profissional.

 

Além do relacionamento profissional, o estudo apontou a existência

também de vínculos pessoais entre as assistentes sociais, o que

pode facilitar o entrosamento entre elas, principalmente

considerando que a cidade não possui um elevado número de

profissionais. 12

 

Tabela 29 – Tipo de relacionamento com outras

assistentes sociais

 

Formal Informal

 

13 6

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

 

Gráfico 27 – Tipo de relacionamento com outras assistentes sociais

 

Frequência dos contatos com outras assistentes sociais

 

Sete assistentes sociais mantêm contato pouco frequente, e 12

mantêm contatos frequentes ou muito frequentes, o que indica uma facilidade de comunicação entre as profissionais, podendo tornar o

cotidiano profissional menos pesado, uma vez que ao menos a

discussão de situações imediatas pode ocorrer e agilizar soluções e

encaminhamentos referentes à população atendida (Tabela 30 e

Gráfico 28).

 

Tabela 30 – Frequência dos contatos com outras

assistentes sociais

 

Muito frequente Frequente Pouco frequente

 

3 9 7

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

 

Gráfico 28 – Frequência dos contatos com outras assistentes sociais

 

Contato com profissionais de outras áreas

 

Nosso estudo também apontou que todas as profissionais mantêm

contato com profissionais de outras áreas, mesmo as que trabalham como único profissional de nível técnico em instituições que

possuem menores recursos.13 Ver Tabela 31 e Gráfico 29.

 

A questão se referiu apenas ao contato originado pelo exercício da

profissão, e isso foi previamente esclarecido às assistentes sociais.

 

Tabela 31 – Contato com profissionais de outras áreas

 

Sim Não

 

19 0

 

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

Gráfico 29 – Contato com profissionais de outras áreas

 

 

Tipo de relacionamento com profissionais de outras áreas

 

Nosso levantamento identificou que a relação das assistentes

sociais com profissionais de outras áreas existe e esse aspecto foi levantado pelas próprias profissionais na reunião de apresentação

da pesquisa (Tabela 32 e Gráfico 30).

 

Elas preferiram responder em relação ao seu local de trabalho, pois

existem diferenças nos locais de trabalho, tanto pela existência de outros profissionais como pela tipicidade do trabalho e abertura da

coordenação/direção da instituição.

 

Tabela 32 – Tipo de relacionamento com profissionais

de outras áreas

 

Formal Informal

 

15 11

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

 

Gráfico 30 – Tipo de relacionamento com profissionais de outras

áreas

 

Frequência dos contatos com profissionais de outras áreas

 

Em 22 locais de trabalho, as assistentes sociais mantêm contato

muito frequente ou frequente com profissionais de outras áreas, e

quatro, com pouca frequência. Em 85% dos locais de trabalho é

possível o contato com técnicos de outras áreas de atuação, o que aponta para o trabalho articulado entre as próprias instituições que

representam, o que pode enriquecer o trabalho profissional (Tabela

33 e Gráfico 31).

 

As profissionais esclareceram nos contatos14 que a complexidade

das situações enfrentadas não pode ser compreendida somente

pelo aspecto social, e que constantemente recorrem a profissionais

de outras áreas para discussão e encaminhamentos, mesmo quando estes não existem na instituição em que trabalham.

 

Tabela 33 – Frequência dos contatos com profissionais

de outras áreas

 

Muito frequente Frequente Pouco frequente

9 13 4

 

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

 

Gráfico 31 – Frequência dos contatos com profissionais de outras

áreas

 

Os itens sobre os contatos com a diretoria da instituição referem-se

ao pessoal voluntário dirigente e foram por nós sugeridos (Tabela

34).

 

Tabela 34 – Contato com diretoria da instituição

 

Sim Não

 

23 3

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

 

Na reunião de apresentação da pesquisa, no entanto, as

profissionais presentes observaram que é importante também identificar se existe ou não possibilidade de participação no

processo decisório da instituição, observando ainda que a mesma

assistente social pode vivenciar possibilidades diferentes nos seus

diferentes locais de trabalho.

 

Em 23 postos de trabalho, as profissionais possuem contato com a

diretoria; somente em três as assistentes sociais não mantêm esse

contato.

 

Em 15 postos de trabalho, as assistentes sociais possuem contatos formais com a diretoria da entidade social, e, em oito, o contato é

informal (Tabela 35 e Gráfico 32).

 

Tabela 35 – Tipo de contato com diretoria da

instituição

 

Formal Informal

 

11 8

 

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

Gráfico 32 – Tipo de contato com diretoria da instituição

 

Frequência de contato com a diretoria

 

A diretoria de uma entidade social é responsável pela manutenção e

gestão dos recursos disponíveis, bem como por buscar outras

fontes de dinheiro, desde convênios a promoções festivas com

finalidade de arrecadação de verbas. Dada a complexidade da tarefa, é comum observar trabalhadores envolvidos igualmente no

trabalho voluntário. A coordenação da instituição é quase sempre

ocupada por pessoa com formação universitária, como no caso de

três assistentes sociais participantes da pesquisa. Para a busca de

recursos em outras fontes, a pessoa do(a) coordenador(a) é

fundamental para a adequação de documentos e orientação das

ações a serem desenvolvidas. Por outro lado, as assistentes sociais

também apresentaram a elaboração, coordenação e execução de projetos como uma das principais atividades desenvolvidas, e

afirmaram estar diretamente ligadas à captação de recursos.

 

Dos 23 postos de trabalho com contato com a diretoria, em 21 os

contatos são muito frequentes ou frequentes, e somente em dois

locais os contatos são pouco frequentes (Tabela 36 e Gráfico 33).

 

Tabela 36 – Frequência de contato com a diretoria

 

Muito frequente Frequente Pouco frequente

11 10 2

 

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

 

Gráfico 33 – Frequência de contato com a diretoria

 

Participação no processo decisório e planejamento da instituição

 

Dos 23 postos de trabalho onde as assistentes sociais possuem

contato com a diretoria, em 17 deles as profissionais participam do

processo decisório e do planejamento da instituição (Tabela 37 e

Gráfico 34).

 

Tabela 37 – Participação no processo decisório e

planejamento da instituição

 

Sim Não

 

17 6

 

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

Gráfico 34 – Participação no processo decisório e planejamento da

 

instituição

 

A conquista das assistentes sociais em participar do planejamento

da instituição ocorre num espaço de contradições e

simultaneamente à precariedade das condições de trabalho e

precarização nas relações trabalhistas, com pouco espaço de

decisão, e sim de influência nas decisões.

 

Não foi possível identificar no estudo15 o grau de influência do seu

saber e do seu direcionamento político nas ações, mas, mesmo sendo um espaço contraditório, fica a possibilidade de luta por

melhores condições de trabalho, bem como pela execução de uma

política de assistência social na ótica do direito e não do favor, da

filantropia, ainda que os últimos tenham relevância entre as

entidades sociais.

 

Isso demonstra também que a profissão começa a conquistar

espaços para além do simples cumprimento de tarefas. A

elaboração de projetos contribui no planejamento das ações, na

sistematização, mas, se realizada em excesso, pode levar à perda

da noção da totalidade e ao não atendimento dos objetivos

institucionais. Por isso, precisa ser utilizada com cuidado e

 

competência teórico -operativa, e de modo a desvendar os verdadeiros objetivos da ação pretendida.

 

O envolvimento das assistentes sociais no planejamento e nas

decisões da instituição, aliado à participação nos conselhos gestores e de cidadania, demonstra que as profissionais, ainda que

com baixos salários, longa jornada fracionada em pequenas partes

em diferentes vínculos de trabalho, difíceis condições de trabalho,

conquistaram algum reconhecimento profissional. Demonstra ainda que as condições ruins de trabalho podem dificultar, mas não

impedir totalmente que elas façam avançar as conquistas da

profissão.

 

Sua participação na gestão institucional e nos conselhos, entrementes, não garante per se o avanço, mesmo porque vai

 

depender do posicionamento político-ideológico da assistente social

para influenciar ações na direção da transformação ou da

reprodução das relações sociais e dos valores hegemônicos.

 

Daí a importância de se criar espaços de reflexão no mimético dia a

dia, em que as ações são respostas ao imediato que ocorre com

certa regularidade. Para ações criativas e criadoras, de superação,

de suspensão da cotidianidade, é fundamental resgatar (ou criar) a

noção de totalidade social, identificar as conexões mediáticas que

determinam e singularizam os heterogêneos fenômenos cotidianos.

 

Forma de participação no processo decisório e de planejamento da

instituição

 

A questão foi apresentada de forma aberta, de modo a permitir a

representação da situação vivenciada. As assistentes sociais que

participam do processo decisório em 23 postos de trabalho

apresentaram as seguintes respostas:

 

– elaboração e acompanhamento de projetos, mencionados

sete vezes;

 

– reuniões de diretoria, mencionadas sete vezes;

 

– reuniões com a coordenadora, mencionadas quatro vezes;

 

– sugestões técnicas à diretoria, mencionadas duas vezes;

– reuniões com equipe de trabalho, mencionadas duas vezes;

 

– projeto em que trabalha, mencionado uma vez.

 

Percebemos que os projetos se constituem em importante

instrumento de negociação para influenciar o poder de decisão da direção da instituição, dependendo em parte da capacidade

 

teórico-metodológica da profissional em realizar a análise crítica da

realidade vivenciada, apontando os problemas e as possíveis

respostas, ainda que não possua total autonomia de ação e de

decisão.

 

Saber identificar os desafios e as possibilidades que se apresentam

desvendando a concretude da realidade só é possível através da

formação de qualidade da profissional e do desenvolvimento das

habilidades pessoais necessárias não somente para responder às

demandas imediatas postas à profissão, mas também de imprimir

um direcionamento consciente às próprias ações em conformidade

 

com o projeto ético -político do Serviço Social.

 

Para Heller (1985, p.39), “a vida cotidiana não é alienada

necessariamente, em consequência de sua estrutura, mas apenas

em determinadas circunstâncias sociais”. Por isso, as atividades não

repetitivas, como o descanso, o lazer, a convivência social, oferecem oportunidades de reflexão, mas, segundo a mesma

autora, só poderá provocar a verdadeira suspensão da vida

cotidiana, nela imprimindo alterações e em si mesmo, a partir da

 

arte, da ciência e da política (1985, p.26 -7).

 

Espaços de reflexão na vida cotidiana

 

Oferecimento de estágio supervisionado

 

Um espaço altamente significativo para a formação profissional

básica e para a formação permanente e continuada é o do estágio supervisionado.

A dicotomia entre teoria e prática profissional, presente sobretudo

na formação da assistente social anterior às atuais diretrizes

curriculares que buscam a sua superação, pode estar presente na

supervisão direta, especialmente quando se considera que a maioria das profissionais possui formação anterior ao atual currículo.

 

Diante das dificuldades que encontram no seu cotidiano, é difícil

encontrar possibilidades para a atualização da profissão, em

especial os baixos salários, as longas jornadas, muitas vezes acrescidas pelo tempo no transporte entre um local de trabalho e

outro, as atividades familiares.

 

O supervisor direto do estágio para o aluno tem que reunir

condições objetivas de trabalho que lhe permitam participar do processo da supervisão acadêmica, bem como os cursos de Serviço

Social podem se constituir em negociadores dessas condições com

a instituição, além de poder proporcionar a atualização dos

conhecimentos profissionais e se tornar um centro de referência

para a discussão da profissão, para além dos cursos lato sensu e

 

stricto sensu de pós-graduação.

 

As condições objetivas, materiais de trabalho do profissional, como

espaço físico e local para guardar material sigiloso, são essenciais

no exercício do Serviço Social. A Resolução CFESS sobre as

condições éticas para a profissão é fundamental, mas não pode ficar

somente sob a fiscalização individual das profissionais,

considerando a precarização das relações de trabalho a que se encontram submetidas, principalmente no setor privado beneficente

em que estão as entidades sociais.

 

Motivos para não oferecer estágio supervisionado

 

Em 16 postos de trabalho, as assistentes sociais oferecem estágio

supervisionado, mas, em outros dez, isso não ocorre (Tabela 38).

 

Tabela 38 – Oferecimento de estágio supervisionado

Sim Não

 

16 10

 

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

 

Dentre as causas apontadas para não oferecer estágio estão as

condições de trabalho, como falta de espaço físico, mencionada três

vezes, e a carga horária reduzida, mencionada uma vez.

 

A falta de interesse e o transtorno que ocasiona na rotina de

trabalho foram citadas duas vezes cada uma, o que também pode

estar vinculado à pequena carga horária e vários obstáculos

enfrentados cotidianamente devido às condições de trabalho, sem

mencionar que o estágio não é remunerado, o que pode gerar falta

de compromisso por parte do estagiário e, então, de fato ocasionar

dificuldades na rotina de trabalho, já bastante sobrecarregada de

atividades para pouca carga horária. Ver Tabela 39 e Gráfico 35.

 

Tabela 39 – Motivos para não oferecer estágio

supervisionado 16

 

Motivo Frequência

 

Falta de espaço físico 3

 

Falta de autorização da entidade 1

 

Falta de interesse 2

Dificulta a rotina de trabalho 2

 

Pequena carga horária de trabalho 1

 

Trabalho noturno 1

 

Cursos não procuraram 3

 

Estágio não remunerado 2

 

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

 

Gráfico 35 – Motivos para não oferecer estágio supervisionado Participa ou participou de reuniões de supervisores de campo com

professores de cursos de Serviço Social

 

Das 19 assistentes sociais participantes da pesquisa, somente sete

referiram haver participado ou participar das reuniões de

supervisores de campo com professores de cursos de Serviço

Social (Tabela 40).

 

Tabela 40 – Participa ou participou de reuniões de

supervisores de campo com professores de cursos de

Serviço Social

 

Sim Não

 

7 12

 

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

 

Não levantamos a origem dos estagiários, mas existem cursos em

Bebedouro, Barretos, Ribeirão Preto e em São José do Rio

 

Preto, o que pode dificultar a presença em outras cidades, se o

estagiário for de curso de cidades vizinhas.

 

Não pudemos identificar através do levantamento o motivo da

significativa ausência do contato das profissionais com a instituição de ensino, que precisa ser mais bem investigada, tanto da parte das

profissionais como das unidades de ensino.

 

Por outro lado, as profissionais reconhecem a importância do

estágio na formação profissional, como apontado pelo estudo.

 

Importância do estágio para a prática profissional A pergunta foi aberta, para melhor refletir a opinião das

profissionais. Três assistentes sociais não responderam. Foram

mencionados os seguintes itens:

 

– adquirir conhecimento, qualificação – três vezes;

 

– colocar em prática a teoria – duas vezes;

 

– construir novos saberes através da prática – duas vezes;

 

– autoavaliação e reformulação de ações – duas vezes;

 

– estabelecer relações entre o conhecimento teórico e o trabalho profissional – uma vez;

 

– universitário pode agregar teoria com a prática;

 

– oportunidade para conhecer a linha de atuação e o campo em

que deseja trabalhar;

 

– é o ponto mais importante na vida profissional;

 

– aplicação da teoria aprendida na sala de aula, tirando dúvidas

com o supervisor;

 

– garante uma noção do trabalho executado;

 

– conhecimento da realidade;

 

– conhecimento das diversas áreas de atuação do Serviço

Social;

 

– crescimento do estagiário no processo de aprendizagem da

teoria na prática;

 

– experiência para escolher área de atuação;

 

– conhecimento da prática profissional e sua relação com a

teoria;

– experiência em diversas áreas de trabalho;

 

– conhecer teoria com a prática profissional;

 

– para conhecimento da realidade da profissão;

 

– para amadurecimento profissional do aluno;

 

– aprendizagem prática;

 

– troca de experiência.

 

Podemos perceber que ainda existe alguma tendência em

dicotomizar a teoria e a prática – por exemplo: “colocar em prática a

teoria” – , ou de supervalorização da prática, como aponta a menção

“é o ponto mais importante na vida profissional”.

 

Na trajetória histórica do Serviço Social, a prática tem sido mais

valorizada do que a chamada teoria, quando, na verdade, a práxis

profissional só pode ser realizada através da reflexão do vivido,

numa relação dialética com os marcos teóricos fundamentais da

profissão.

 

Participa ou participou em grupo de estudo

 

A participação em grupos de estudo não atinge a metade das

profissionais, mas oito assistentes sociais participam ou

participaram (Tabela 41 e Gráfico 36).

 

Tabela 41 – Participa ou participou em grupo de estudo

 

Sim Não

 

8 11

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

 

Gráfico 36 – Participa ou participou de grupo de estudo

 

O grupo que recebia supervisão não se reúne mais, conforme

informações das assistentes sociais, mas os demais grupos se

encontram em funcionamento.

 

A prática profissional sem reflexão transforma -se em um fazer que

tende a responder somente às situações imediatas, dificultando a

apreensão das conexões entre os diferentes complexos da

totalidade social, o que, por seu turno, dificulta o direcionamento das

ações para a construção de novos valores.

 

Evidentemente, o grupo de estudos não é a única forma de reflexão,

mas facilita a organização e a sistematização de um tempo

dedicado ao afastamento da rotina que aliena.

 

A luta pela subsistência pode se sobrepor com facilidade às

necessidades humanas, especialmente num contexto de salários

mais baixos, mas, se é fator que dificulta, não impede a reflexão da

própria realidade.

 

O currículo mínimo para a formação atual de assistentes sociais

privilegia a pesquisa, a investigação, o que acreditamos que pode

imprimir uma nova característica à profissão, apreendida desde os primeiros momentos da formação profissional como parte integrante

da ação profissional.

 

A ação propositiva não pode ocorrer sem a observação e a

investigação cuidadosa de aspectos da realidade vivenciada, a fim

de se compreender as determinações de uma situação posta à ação

profissional.

 

Mais do que simplesmente estudar é preciso incorporar o espírito

investigativo nos profissionais durante a formação básica, para que

possam enfrentar a sua cotidianidade sem necessariamente

 

alienar-se nela.

 

Tipos de grupo de estudo

 

Interessante observar que quatro assistentes sociais mencionaram participar de grupo formado a partir do grupo de trabalho, como na

instituição em que trabalha (3) e na saúde mental (1), criando um

espaço de reflexão coletiva da própria realidade vivenciada.

 

Duas profissionais disseram participar de grupo de estudo oferecido pelo curso de Serviço Social do Instituto Municipal de Ensino

Superior de Bebedouro (Imesb). Ver Tabela 42 e Gráfico 37.

 

O papel da universidade em relação à formação continuada dos

profissionais de modo geral é indiscutível. Os profissionais da docência devem também se pautar pela prática investigativa para

identificar a realidade que envolve o Serviço Social, tanto no nível

imediato como no mediato, a fim de proporcionar espaços em que

os assistentes sociais possam encontrar identificação e

oportunidade para a reflexão.

 

Tabela 42 – Tipo de grupo de estudo

 

Grupo de estudo Frequência

Da instituição onde trabalha 3

 

Supervisão em grupo* 3

 

Imesb** 2

 

Saúde mental *** 1

 

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

 

*Refere-se a um grupo de profissionais da cidade que solicitou

supervisão à professora dra Raquel Santos Sant’Ana, UNESP – Franca, e que funcionou entre 2000 a 2003, com reuniões mensais,

e do qual participamos nos anos de 2002 e 2003.

 

**Espaço oferecido pelo Curso de Serviço Social do Imesb.

 

*** Grupo formado por profissionais de diferentes áreas.

 

Gráfico 37 – Tipo de grupo de estudo

 

A supervisão acadêmica é importante instrumento para a

organização de um espaço de estudo, a partir das necessidades dos profissionais que atuam nos campos de estágio. É imperioso

desconstruir a noção dicotomizada de “assistente social da prática”

e “assistente social da teoria”, porque ambas, prática e teoria,

devem caminhar juntas para se constituir em práxis profissional.

 

Dificuldades, avanços e desafios da vida

 

profissional

 

Elementos dificultadores para o desenvolvimento do trabalho

 

A questão foi apresentada de forma aberta. Obtivemos as seguintes

respostas:

 

a) Condições de trabalho

 

Os itens a seguir foram mencionados em ordem decrescente:

 

– falta de verbas para recursos humanos, reposição de

materiais, investimento em cursos de aperfeiçoamento;

 

– falta de transporte;

 

– falta de sala adequada para trabalho interno; – falta de sala

para atendimento das famílias; – falta de comunicação interna;

 

– sobrecarga de funções devido à inexistência de equipe de

apoio, como secretaria, limpeza, etc.;

 

– falta de profissional de Psicologia; – falta de cursos de

capacitação;

 

– falta de supervisão profissional; – falta de sede própria da

entidade.

 

b)População usuária

 

– pouca participação dos usuários em conselhos para a defesa

de seus direitos;

– falta de adesão das famílias nas atividades propostas.

 

c)Políticas públicas

 

– falta de políticas públicas para atender a demanda;

 

– resistência do Poder Judiciário para integrar atendimento em

rede.

 

d)Voluntariado e equipe de trabalho

 

– desconhecimento pela diretoria da prática do assistente

social;

 

– pessoas com conceito de assistencialismo;

 

– falta de reconhecimento da importância do assistente social

na instituição por parte dos diversos setores.

 

Nas respostas das profissionais percebemos que a falta de condições objetivas imediatas para o desenvolvimento de um

trabalho técnico e ético foram as mencionadas com maior

frequência, como falta de sala adequada para atendimento e o

trabalho interno, falta de transporte, falta de recursos humanos, falta

de reposição de material.

 

É possível visualizar que não há somente luta pela sobrevivência. A

falta de condições adequadas de trabalho precisa ser enfrentada no

dia a dia profissional, o que exige um dispêndio de tempo e de

energia que poderiam estar concentrados na ação profissional

dirigida ao usuário, à prática investigativa e à formação permanente

do profissional.

 

Isto é reflexo da “política pobre para os pobres”, pois os recursos

públicos nunca são suficientes para o cumprimento da política de

assistência social, cuja responsabilidade de execução tem sido

transmitida à sociedade civil, pulverizando os já parcos recursos

existentes.

Além de não atender a população dentro do princípio de

universalidade, os trabalhadores nas entidades sociais ficam

submetidos aos baixos salários, às precárias condições para um

trabalho de boa qualidade.

 

O relacionamento cotidiano no ambiente de trabalho apresenta

dificuldades pela desinformação sobre o que é o que faz o

assistente social. 17

 

Avanços conquistados no trabalho

 

A questão foi apresentada de forma aberta. Foram apresentadas as

seguintes respostas:

 

a) Condições de trabalho

 

– sala adequada para trabalho;

 

– telefone;

 

– autonomia para realizar atividades próprias da profissão;

 

– participação na criação de conselhos, de associações e

implantação de projetos de prevenção de deficiência nas

escolas da cidade;

 

– contratação de diretora com formação em Serviço Social;

 

– execução de projetos;18

 

– adequação dos projetos da instituição aos aspectos exigidos

por lei;

 

– pagamento de cursos de capacitação (na área específica de

atuação).

 

b)População usuária

– comprometimento das famílias nas atividades propostas; –

continuidade de projetos com famílias;

 

– fortalecimento dos vínculos familiares dos usuários; – vínculo

com usuários, famílias;

 

– resultados positivos nos casos acompanhados.

 

c)Instituição, equipe de trabalho

 

– reconhecimento profissional por parte da instituição;

 

– pagamento de cursos de capacitação (na área específica de atuação);

 

– adequação das condições de trabalho, como sala,

equipamentos, materiais e transporte para visitas e reuniões;

 

– implantação do setor de prevenção;

 

– bom entrosamento da equipe de assistentes sociais; –

mudanças estruturais na instituição;

 

– mudança de diretoria na instituição;

 

– aprovação pelos conselhos e instituições financiadoras de

projetos elaborados;

 

– vínculo com a diretoria;

 

– integração entre equipe técnica, educadores e diretoria.

 

Dentre os avanços conquistados, as profissionais destacaram os

ocorridos em relação às condições de trabalho.

 

O levantamento demonstrou que as profissionais se empenham

para melhorar as condições de trabalho. A legislação atualizada da

profissão não é de conhecimento geral, mas parece haver um

descontentamento generalizado, assim como o esforço para melhorar essas condições, mesmo enfrentando condições difíceis

nas relações de trabalho.

 

Ao mesmo tempo em que a falta do reconhecimento profissional foi

 

mencionada, apontou -se também a conquista do reconhecimento da

profissão como fruto de um trabalho desempenhado.

 

Outras situações que podem ser favoráveis ou desfavoráveis ao

trabalho da assistente social são a formação da diretoria e do

pessoal voluntário que organiza a manutenção da instituição e que

determina as diretrizes do serviço a ser prestado pelas profissionais.

 

Estas se reportaram à elaboração de projetos como sendo uma das

principais funções, mas a aprovação dos projetos por conselhos e

instituições financiadoras foi mencionada apenas uma vez. Como

algumas assistentes sociais dependem da aprovação dos projetos

como fonte de recursos para o pagamento de seus próprios

serviços, podemos supor que continuam trabalhando porque seus

 

projetos têm recebido aprovação, constituindo -se em fonte essencial à continuidade das ações da instituição e de seu próprio trabalho,

mas esse fato não é devidamente dimensionado pelas profissionais.

 

Elementos facilitadores e/ou motivadores do trabalho

 

A questão foi apresentada de forma aberta. Agrupamos as

respostas de acordo com a relação estabelecida pelas profissionais,

abrangendo população usuária dos serviços, condições de trabalho,

valores pessoais, e os itens foram mencionados em ordem

decrescente:

 

a)Condições de trabalho

 

– equipe multidisciplinar;

 

– integração entre equipe de trabalho;

 

– bom relacionamento entre coordenação, equipe técnica e

diretoria;

– integração e coordenação e equipe técnica;

 

– respeito e liberdade de expressão;

 

b) População usuária

 

– compromisso das famílias;

 

– carinho dos usuários;

 

– conhecer a população que atende;

 

– relatos das famílias sobre a importância da ação do assistente

social em suas vidas;

 

– participação da população em geral com doações diversas;

 

– melhora na qualidade de vida dos usuários.

 

c)Competência profissional e valores pessoais

 

– gostar do que faz;

 

– conhecimento da população atendida;

 

– conquistas alcançadas;

 

– área de atuação;

 

– aprendizado de vários anos;

 

– luta pela conquista de direitos dos usuários;

 

– poder contribuir na transformação da realidade das pessoas

que necessitam de apoio moral, material, afetivo;

 

– acreditar na transformação da sociedade.

 

d) Voluntariado

– diretoria atuante;

 

– participação da população em geral com doações diversas;

 

– atuação do grupo de voluntários.

 

Equipe multidisciplinar, integração entre equipe de trabalho,

compromisso das famílias e gostar do que faz foram elementos

facilitadores e/ou motivadores mais apontados, e não as condições

objetivas de trabalho.

 

Interessante observar que bons salários, instalações adequadas não

foram apontados como elementos motivadores, e sim os recursos

humanos envolvidos, a “diretoria atuante” e aspectos subjetivos,

como “gostar do que faz”, ou “acreditar na transformação da

sociedade”.

 

A participação das famílias nas atividades e o carinho que

demonstram apontam para aspectos bastante subjetivos na relação

 

profissional-usuário, que necessita de melhor investigação.

 

A relação pessoal entre assistente social e usuário já foi objeto de

discussão quando se falava em Serviço Social de Caso, Serviço

Social de Grupo e Serviço Social de Comunidade. Eram valorizadas

as técnicas de abordagem, porém dentro de uma concepção de

sociedade imutável, de integração dos “desajustados” à sociedade,

 

enfim, culpabilização do indivíduo. Apregoava-se a neutralidade profissional como devendo ser perseguida pelos assistentes sociais,

que não deveriam se envolver emocionalmente com seus “casos”.

 

A concepção crítica da totalidade social, do compromisso com uma postura ética e valorativa de transformação da sociedade

atualmente embasadora da formação profissional, muito tem

contribuído para o desenvolvimento de uma postura profissional

compromissada com a defesa dos direitos humanos, sociais e

políticos. Entretanto, isso não implica relegar a segundo plano a

 

relação profissional-usuário, de modo a não sobrevalorizar a técnica, mas instrumentalizar o assistente social em sua formação

para uma relação horizontal e empática, em que o profissional saiba

 

se conduzir nos seus contatos, colocando-se no lugar do outro,

compreendendo a sua trajetória histórica e o meio em que se encontra.

 

Falar de instrumentais em Serviço Social é quase temeroso na

atualidade, sob pena de ser considerado um profissional

conservador. No entanto, as demandas sociais se apresentam de acordo com o momento histórico, necessitam de respostas

imediatas, mas com visão mediata, no mínimo de médio prazo, 19 e

dentro dos objetivos mais amplos da profissão, no caso, do projeto

 

ético-político do Serviço Social.

 

É fundamental o conhecimento específico do âmbito de atuação,

mas é imprescindível a apropriação dos referenciais

 

teórico-metodológicos para identificar o que pertence à sua área de atuação, bem como de técnicas e instrumentos que permitam a

objetivação de sua intencionalidade.

 

Desafios no trabalho

 

A pergunta foi aberta e três profissionais não responderam à

questão. As respostas apresentadas foram agrupadas de acordo

com o assunto explicitado, em ordem decrescente:

 

a)Condições de trabalho

 

– melhoria da comunicação interna;

 

– melhoria do relacionamento entre equipe técnica e diretoria;

 

– melhoria do nível salarial – atualmente em R$ 11,00 a hora;

 

– conseguir reconhecimento institucional da profissão;

 

– continuidade do aprimoramento profissional. b) População usuária

 

– preconceito ao usuário;

 

– resistência de familiares quanto à aceitação e acolhimento às

Pessoas Portadoras de Deficiência (PPDs);

 

– mobilização da população atendida para buscar direitos já

garantidos em lei;

 

– manutenção dos vínculos familiares;

 

– reinserção de crianças e adolescentes na família e evitar

novos reabrigamentos;

 

– amenização do sofrimento de pacientes portadores de câncer

e seus familiares;

 

– falta de comprometimento das famílias em relação a

adolescentes.

 

c) Processo de trabalho

 

– reavaliação de cursos semiprofissionalizantes para as

famílias;

 

– melhora do entrosamento com a equipe pedagógica;

 

– execução do cronograma de atividades, principalmente

reunião semanal de equipe para discussão das solicitações;

 

– definição de critérios de inclusão na instituição.

 

d)Políticas públicas

 

– sensibilização de conselhos e órgãos gestores para

implantação de programas de apoio sociofamiliar;

 

– inclusão social de portadores de deficiência na sociedade;

– trabalho social com adolescente autor de ato infracional;

 

– melhor entrosamento com o Poder Judiciário.

 

e) Coordenação e voluntariado

 

– compreensão da diretoria para a necessidade de reiniciar

projetos;

 

– captação de novos financiadores para suprir necessidades da

entidade;

 

– mudança de visão da diretoria e da coordenação sobre o Serviço Social – duas vezes;

 

– discriminação do assistente social dentro da instituição;

 

– entendimento de dirigentes e voluntários sobre o processo de

marginalização e situação de risco da população atendida.

 

Podemos perceber o indício de problemas na instituição, como os

aspectos apresentados agrupados no item ”Coordenação e

voluntariado”, os quais podem estar vinculados à compreensão da

assistência social não como direito, mas como conjunto de

atividades de filantropia, de favor, que geram dependência e

obrigações de quem recebe para quem doa. Por outro lado, pessoas

envolvidas no trabalho social possuem suas próprias convicções,

nem sempre de acordo com as diretrizes da Política Nacional de

 

Assistência Social, que procuram colocá-las em prática, independentemente dos aspectos legais da atualidade.

 

A condição salarial aparece como desafio, juntamente com a

informação do valor da hora de trabalho do profissional em R$

11,00,20 muito abaixo do valor da hora técnica estipulada até agosto

de 2009 pelo CFESS em R$ 74,66 para graduados,21 R$ 83,84 para

especialistas, R$ 105,67 para mestres e R$ 109,44 para doutores. Sociabilidade pessoal

 

Desenvolvimento de atividade religiosa

 

A história do Serviço Social no Brasil possui estreita relação com a

assistência praticada pela Igreja Católica. Não nos importou

conhecer a procedência religiosa, mas a existência ou não de

prática religiosa, uma vez que, em nossa experiência, identificamos

uma relação acentuada de assistentes sociais com alguma religião,

embora não seja apenas a católica.

 

Importou-nos, assim, conhecer se a prática religiosa está presente

na vida cotidiana das assistentes sociais sujeitos da pesquisa, o que

de fato se confirmou, pois, das 19 entrevistadas, somente três não

praticam alguma religião (tabelas 43 e 44 e gráficos 38 e 39).

 

Tabela 43 – Desenvolvimento de atividade religiosa

 

Sim Não

 

16 3

 

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

Gráfico 38 – Desenvolvimento de atividade religiosa

 

Tabela 44 – Tipo de participação religiosa

 

Participante Liderança

 

15 1

 

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

Gráfico 39 – Tipo de participação religiosa

 

Desenvolvimento de atividade política (associação profissional, sindicato, partido político)

 

Considerando atividade política a participação em associação

profissional, sindicato, partido político, o envolvimento das

assistentes sociais é pequeno, pois, das 19 profissionais, cinco

participam (tabelas 45 e 46 e gráficos 40 e 41).

 

Tabela 45 – Desenvolvimento de atividade política

(associação, sindicato, partido político)

 

Sim Não

 

5 14

 

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

Gráfico 40 – Desenvolvimento de atividade política (associação,

sindicato, partido político)

 

Tabela 46 – Tipo de participação política

 

Participante Liderança

 

5 0

 

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

Gráfico 41 – Tipo de participação política

 

Participação em atividade de organização da categoria profissional

 

Nenhuma das assistentes sociais participantes da pesquisa atua em

organização da categoria profissional (Tabela 47 e Gráfico 42).

 

O município de Bebedouro pertence à Regional do Cress de

Ribeirão Preto, distante 90 quilômetros, 22 com dois pedágios, o que

encarece, dificulta ou até mesmo inviabiliza a participação, principalmente se considerarmos a elevada carga horária total de

trabalho e os baixos salários.

 

O desinteresse pela participação foi mencionado apenas duas vezes

como motivo pela falta de participação (Tabela 48 e Gráfico 43).

 

Tabela 47 – Participação em atividade de organização

da categoria profissional

 

Sim Não

0 19

 

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

 

Gráfico 42 – Participação em atividade de organização da categoria

profissional

 

Tabela 48 – Motivo para a não participação

 

Motivo Frequência

 

Desinteresse 2

 

Falta de tempo 7

 

Distância da Delegacia Regional 10

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

 

Gráfico 43 – Motivo para a não participação

 

Tabela 49 – Desenvolvimento de habilidade artística

 

Sim Não

 

5 14

 

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

Gráfico 44 – Desenvolvimento de habilidade artística

 

Tabela 50 – Tipo de habilidade artística

 

Habilidade Quantidade

 

Artesanato 5

 

Pintura em tela 4

 

Jardinagem 2

 

Canto 1

 

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

Gráfico 45 – Tipo de habilidade artística

 

 

Tabela 51 – Atividades de lazer

 

Atividade Frequência

 

Cinema 8

 

Leitura de livros 13

 

Passeio com a família 16

 

Shopping center 7

 

Viagem a cidades vizinhas 5

Visita a amigos/parentes 12

 

Prática de esporte/academia 7

 

Teatro 3

 

Outras* 3

 

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

 

* Mencionados: repouso do corpo e da mente, artesanato, pintura em tela. Obs.: Artesanato aparece

na pesquisa como renda, habilidade artística e lazer.

 

Gráfico 46 – Atividade de lazer

 

Tabela 52 – Tempo semanal para o lazer

Tempo Frequência

 

 

Fim de semana 11

 

Uma vez por semana 2

 

Fim de semana e duas noites 2

 

Meio dia por semana 5

 

Fonte: Pesquisa de campo realizada em 2008/2009.

 

Gráfico 47 – Tempo semanal para o lazer

 

As atividades políticas, mesmo não vinculadas diretamente ao

trabalho profissional, as de lazer, o desenvolvimento de habilidades artísticas/culturais e científicas podem fazer parte da vida do ser

social, mas geralmente não são rotineiras, e, por isso mesmo,

possibilitam um distanciamento da repetição das atividades diárias

para a sobrevivência.

 

O trabalho imaterial do assistente social exige diversas habilidades

que facilitam o seu cotidiano profissional, mas que também podem

gerar uma intensificação no ritmo de trabalho.

 

Como já mostramos, Dal Rosso (2008) faz uma distinção entre o

trabalho imaterial gerado a partir do trabalho material e o trabalho

gerado a partir da imaterialidade. Para ele, o trabalho imaterial exige

mais habilidades diferenciadas:

 

Os serviços com base na imaterialidade marcam diferenças

significativas em relação ao trabalho industrial pelo fato de

demandarem mais intensamente capacidades intelectuais,

afetivas, os aprendizados culturais herdados e transmitidos, o

cuidado individual e coletivo. A intensidade em tais serviços não é adequadamente avaliada caso se expresse exclusivamente

em termos corporais, físicos, materiais. Que é intensidade para

um pesquisador, se não for considerado o aspecto imaterial de

seu trabalho, o apelo à inteligência? Que é para um professor,

caso não seja levada em consideração a sua capacidade de se

relacionar com seus estudantes? E para um enfermeiro ou um

médico, se não forem considerados aspectos afetivos e

psicológicos da relação com o paciente que necessita de apoio e cuidados? Para um comunicador, um jornalista, um repórter,

um entrevistador, caso não seja levada em consideração a

pressão pela produção de matéria jornalística, a sua veiculação

para um público de massa? Para um secretário ou uma

secretária, se não for levado em consideração o aspecto afetivo

da relação com o chefe e o consumidor? Como analisar a

intensidade de uma telefonista ou de um operador de

comunicação, se não for levada em conta a relação comunicativa? (Dal Rosso, 2008, p.33)

O assistente social é permanentemente pressionado a “resolver a

situação” de um usuário, seja pessoa ou família. A pressão não é

somente institucional, mas também social e pessoal, pois, no

contato com as pessoas, não existe neutralidade de sentimentos. De fato, é preciso manter um distanciamento, mas até que ponto?

 

É bom abraçar um usuário dos nossos serviços? Parece que não.

Mas e se esse usuário for uma criança pequena em situação de

vitimização? Ou uma mãe abandonada, espancada, ou que tenha o seu filho adolescente envolvido com drogas e preso por ter cometido

atos infracionais para a manutenção de seu vício? Ou alguém que

tenha perdido um familiar jovem na luta contra alguma doença

incurável? Difícil estabelecer os limites da afetividade na relação

entre assistente social e usuário.

 

Para o exercício da profissão, as assistentes sociais nas entidades

sociais, em meio a grandes dificuldades, desenvolvem habilidades e

uma sociabilidade característica para enfrentar seu cotidiano

profissional, em que a capacidade de comunicação com os

usuários, com outros profissionais, com autoridades, com dirigentes,

com outros recursos sociais, de improvisar soluções para garantir

direitos já conquistados ou ainda conquistar outros são fatores decisivosna sua intervenção técnica. Contam ainda seu saber

acumulado, suas experiências e habilidades pessoais para a criação

de alternativas 23 no enfrentamento das dificuldades cotidianas vivenciadas no exercício da profissão.

 

No entanto, a diversificação e o acúmulo de tarefas para serem

executadas em curto espaço de tempo, aliados à falta de condições

adequadas de trabalho e à instabilidade das relações de trabalho, podem gerar estresse físico, emocional e intelectual.

 

Como afirma Dal Rosso (2008, p.33),

 

Os setores que fazem apelo mais à inteligência, à afetividade, à

capacidade de representação cultural, à capacidade de

 

relacionar-se são os serviços de educação e cultura, os de

saúde, os serviços sociais, os de comunicação e telefonia, os

bancários e de finanças, de importação e exportação e outros

que surgiram com a revolução informática.

 

Esses aspectos da imaterialidade precisam ser mais bem

investigados e compreendidos, para identificar tanto o processo de

intensificação do trabalho como as formas de enfrentamento

possíveis, para que possam ser potencializados em seus aspectos

positivos, sem o excesso de trabalho.

 

1 Enquanto escrevemos, as aulas estão suspensas em escolas e

universidades no Estado de São Paulo e em vários outros estados no Brasil, para evitar a propagação da “gripe suína”, provocada pelo

vírus H1N1, que está no mundo todo.

 

2 A respeito das cidades globais, sociedade global, ver interessantes

reflexões em Ianni, 2003 e 2004.

 

3 Commodities são mercadorias cultivadas em larga escala e

mundialmente co mercializadas. Podem ser agrícolas (café, soja, trigo, suco concentrado de laranja), minerais (bauxita, prata, ouro,

etc.), financeiras (moedas negociadas em vários países, etc.) e

ambientais (créditos de carbono). Atualmente, lotes de camisetas

brancas e calças jeans também são considerados commodities.

 

4 Mészáros (2006, p.180) resume as mediações de segunda ordem

do capital como sendo: a família nuclear; os meios alienados de

produção; o dinheiro; os objetivos fetichistas de produção; o mercado mundial e as diferentes formas de formação do Estado.

 

5 A crise mundial do capital iniciada em 2008 demonstrou de sobejo

a correria de empresas, de todos os setores, inclusive financeiro,

para suplicar investimentos públicos diretos para evitar a falência.

Indiretamente, o Estado também foi convocado a reduzir a

arrecadação de impostos sobre mercadorias, de modo a facilitar o

consumo pela classe trabalhadora. Apesar do auxílio com recursos públicos para o setor privado, os postos de trabalho têm sido

constantemente reduzidos, conforme previsão da OIT.

 

6 Segundo o autor, o referido encontro foi organizado pelo Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas).

 

7 Pela nossa convivência cotidiana com outras profissionais, tanto

na esfera pública quanto na privada, já havíamos detectado a

dificuldade em se identificar o que são técnicas e o que são

instrumentos de trabalho, sendo mais acentuada a dificuldade entre

as profissionais mais recentes, pois existe dificuldade ou até

resistência em se tratar do tema específico dentro dos novos parâmetros curriculares, embora exista um consenso de que os

instrumentais devam estar incluídos nos conteúdos de Processos de

Trabalho e/ou em disciplinas relacionadas ao estágio. Também é de

se notar a ausência de literatura específica atualizada no Serviço

Social. Durante nossa participação na XIX Conferência Mundial de

Serviço Social, em 2008, tivemos a oportunidade de conversar com

duas estudantes de mestrado na PUC/SP que desenvolviam suas

pesquisas na área dos instrumentais técnicos do Serviço Social; elas expuseram suas dificuldades em encontrar literatura atualizada,

bem como certa resistência por parte de alguns colegas e

professores para abordar o tema.

 

8 Interessante tese de doutorado foi realizada recentemente no

 

Programa de Pós -Graduação da UNESP – Franca por Brandão

(2006).

 

9 Os pareceres estão disponíveis no site do CFESS –

www.cfess.org.br.

 

10 Importante mencionar que, nos contatos informais com as

profissionais e na reunião preparatória da pesquisa, várias

assistentes sociais salientaram sua participação em reuniões de

diretoria.

11 Em nossa experiência como assistente social em entidade social

nos anos 2002 e 2003, cujas famílias atendidas residiam em

extenso raio de distância, a utilização do transporte para visitas não

era permitido, muito embora houvesse a disponibilidade, o que nos

obrigava a utilizar veículo próprio nas visitas, quando necessário,

sem ressarcimento de custos pela instituição.

 

12 Como apontado na introdução do presente estudo, existem no

município 41 assistentes sociais.

 

13 Através da reunião com as profissionais sobre a pesquisa, das

visitas nas instituições, dos contatos diversos com as profissionais e

pela nossa experiência, embora esse aspecto não tenha sido objeto

de nosso levantamento, identificamos que algumas entidades

sociais dispõem apenas de um técnico de nível universitário, e este é a assistente social.

 

14 Reunião, contatos pessoais e visitas às instituições.

 

15 O presente estudo possuía originalmente um segundo momento

de entrevistas semiestruturadas com as profissionais, mas foi

suprimido em decorrência das dificuldades apresentadas por

algumas profissionais.

 

16 Quatro assistentes sociais mencionaram no questionário que,

embora ofereçam vaga para estágio, não têm sido procuradas nem

por alunos nem pelos cursos de Serviço Social. Esse fato necessita

ser mais bem investigado, pois há uma diminuição no número de

alunos de Serviço Social nos cursos presenciais em geral, em parte

pelo surgimento de vários cursos à distância oferecidos na cidade e

na região.

 

17 Em nossa experiência de docência e como assistente social

ouvimos com frequência queixas de que as pessoas pensam o que

é o Serviço Social e constroem uma expectativa da ação profissional

baseada em suas ideias e não na profissão em si.

18 Através de nossa experiência no órgão gestor da assistência

social no município, sabemos que, há alguns anos, era comum a

apresentação de projetos que não eram efetivamente executados.

Desde 2000, o controle dos projetos e das ações da instituição é

maior, tanto por parte do município como dos conselhos.

 

19 Lembramo-nos de uma aluna no último ano do curso de Serviço

 

Social que certa vez, após o término da aula, perguntou-nos se

conhecíamos algum material sobre morte. Diante do nosso espanto,

informou que estava trabalhando em equipe multidisciplinar na área

da saúde pública para acompanhamento de pacientes terminais, e

ela e sua supervisora de estágio estavam com dificuldades para identificar qual a contribuição do Serviço Social. Buscamos literatura

pertinente com profissional da área de Psicologia sobre aspectos

gerais desse tema, mas discutimos com a aluna qual a contribuição

do profissional de Serviço Social para não se confundir com outras

áreas de atuação. Se o objeto da nossa profissão são as refrações

da questão social, o profissional precisa compreender como

 

identificá-las nos mais diferentes contextos, sob pena de ser

absorvido por outras áreas do conhecimento, como a Psicologia, confundindo papéis e áreas de atuação, bem como cair em

descrédito por dificuldade em contribuir com sua área de

conhecimento.

 

20 Valor referenciado durante a reunião realizada com as assistentes

sociais.

 

21 o A Resolução CFESS n 418/2001 instituiu a Tabela Referencial

de Honorários de Serviço Social, alterada pela Resolução CFESS no

467/2005, que apresentou a diferenciação entre graduados,

especialistas, mestres e doutores, cujos valores são corrigidos anualmente em setembro pelo ICV/Dieese.

 

22 A distância, percorrida com carro, pode levar entre 45 a 60

minutos. Os pedágios custam atualmente R$ 5,90 e R$ 4,50, o que totaliza um custo de R$ 20,80 por viagem a Ribeirão Preto, além do

combustível para o percurso de 180 quilômetros de rodovia.

 

23 Quando coordenamos em 2003 e 2004 o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) no Departamento Municipal

de Promoção Social em Bebedouro, fazíamos reuniões mensais

com três grupos de famílias. Com um dos grupos, a discussão

ficava sempre dispersa, havia casos de violência doméstica mais

graves, chegando a ocorrer uma agressão a uma criança durante a

reunião, que não teve consequências mais graves pela interferência

das pessoas presentes. A partir de então, avaliamos que algo

estava errado com a nossa forma de abordar o grupo. Fizemos outra proposta: na reunião seguinte, faríamos pães e depois

 

sentaríamos todos juntos para saboreá -los. Como não havia

recursos para a contratação de um padeiro para ensinar a fazer

pães, e o objetivo não era mesmo esse, e sim de possibilitar uma

forma de concentrar a atenção de todos, utilizamos uma atividade

que poderia ser prazerosa para todos, e contando com nossa

habilidade pessoal para fazer o pão. Ou seja, assistente social

fazendo pão na cozinha, e depois reunindo as pessoas e realizando uma discussão sobre as relações familiares a partir do fazer e do

comer pão.