Rei Davi

Allan Massie · Capítulo 3 de 4 · parte 3/3

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Rei Davi

Livro Dois

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

- Ela am a o m arido?

- Casou com ele porque o avô assim determ inou. Urias há m uito que é um dos seus agentes.

- E ela virá se a cham arm os a esse pretexto?

- Quem pode recusar algum a coisa ao rei?

- E quando a trouxeres ao m eu quarto, o que pensará ela?

- Repito, quem pode recusar algum a coisa ao rei? - Um sorriso de prazer trocista ilum inou-lhe o rosto, com o um relâm pago. - Que m ulher o quereria fazer?

Ordenar o que se devia proibir: fazer o que se sabe que não se deve. Haverá prazer m ais intenso e urgente? Enxagüei a boca com óleo de hortelã-pim enta para purificar o hálito. O silêncio da noite foi quebrado pelo ladrar de cães nos j ardins da cidade. A calm a do palácio envolvia-m e. Com prim i-m e contra o m arm ore casto e fresco de um a coluna. A m úsica dançava em todos os m eus m em bros e órgãos. E eu esperava.

Ela entrou no m eu quarto com o passo leve da aurora, a túnica revelando um seio soberbo, o olhar úm ido e os lábios m acios entreabertos.

- Rosa de Sharon, lírio dos vales - disse eu. Ela aj oelhou-se perante m im e agarrou-m e as m ãos.

- Meu rei e senhor, diz-m e Jonadab que tens notícias de m eu m arido Urias.

Eu coloquei a m ão na floresta m acia do cabelo dela e entrelacei-o nos m eus dedos. Olhei, por cim a da cabeça dela, para Jonadab, e fiz-lhe sinal para que nos deixasse. Ele retirou-se, sorridente, e eu levantei Betsabé, e inclinei-lhe o queixo para que ela m e olhasse nos olhos.

- Cheiras a flores de am endoeira - disse eu. - Não tenho notícias de teu m arido.

- Oh, m eu rei e senhor, nesse caso eu não deveria estar aqui ela suspirou, baixando os olhos, m as estendendo-m e os lábios. Eu atraí-a a m im e beij ei-lhe os lábios, alim entei-m e de rosas e provei o prazer. A língua dela procurou a m inha e dançou. Eu deixei escorregar a m ão sob a fina túnica dela, abri-a e deixei-a cair para o chão de m árm ore. Beij ei-lhe os seios quentes e deixei as m ãos percorrerem -lhe o corpo, e a carne dela cedia e ela apertava-se contra m im .

- Eu am o o rei - m urm urou ela -, desde que o vi quando era m enina e não tinha seios.

Ela encostou-se aos m eus braços e eu levantei-a e levei-a para o m eu leito.

- Oh, m inha pom ba, entra nos lugares secretos... alim enta-te de lírios... até que o dia nasça... até que as águas... as flores apareçam na terra... o canto da rola se ouça... Oh, m eu am or, m inha pom ba...

E assim entrei nela e nos tornam os um a só carne, três, não, quatro vezes, e ela suspirava as palavras entrecortadas do am or, dorm indo, depois, nos m eus braços, os profundos olhos azuis-escuros fechados, serenos, e as tranças de corvo do seu cabelo espalhadas sobre m im . Provei o vinho do corpo dela e a m inha m ão repousava na fenda m acia, o local secreto de prazer entre as suas coxas, enquanto ela, a dorm ir, soltava leves gem idos, e a sua m ão, que desafiava o sono, m e agarrava. Libertei o braço de debaixo do seu corpo e debrucei-m e sobre ela, beij ando a m aciez de penas do seu ventre, e ela não se m ovia, suspirando apenas suavem ente em doce rendição:

Trouxeste-m e flores de am endoeira, e o sopro

de um vento distante im pregnado de apaixonada doçura

Com o se o m ar estivesse no teu corpo.

A alegria da tua carne m acia!

Para lá do am or ha um fantasm a dessa necessidade

Que respira pela alm a, tão calm a,

E, contudo, o vento do deserto leva-a para lá do pôr do Sol.

Que pequeno é o m undo, que leve, nas tuas m ãos!

Com o as areias do deserto se estendem , vazias, para além de nós.

 

Perto da m adrugada, ela m oveu-se, e não havia nela nem ansiedade nem - o que eu receara -vergonha. Atraiu-m e de novo a si, e m esm o então, à m edida que a luz crescia, estava relutante em partir.

- Coloca-m e com o um selo no teu coração - m urm urou ela -, pois o m eu am or é forte com o a m orte...

Seria porque sabia, desde o início, que Betsabé seria a últim a m ulher a quem eu renderia todo o m eu ser, a últim a que m e envolveria com pletam ente, que fiz am or com ela com um a intensidade que não conhecera antes? Os am ores da j uventude têm o seu próprio ardor, pois são viagens de exploração. Mas, no am or da m aturidade, tam bém há recordação, e um a consciência de que o carro do tem po avança, veloz, em direção ao abraço negro da noite. Falei em rendição, m as havia tam bém conquista, pois o desej o inspirado e arrebatador dela exigia a sua absoluta subm issão às m inhas exigências. E, além disso, ela conhecia, com o que por natureza, toda a perícia, todos os requintes e expedientes pelos quais o prazer é intensificado e prolongado e, de fato, deve ter sido por natureza, j á que ela foi dura, quando lho perguntei, e m e respondeu que o m arido, Urias, não tinha habilidade para a arte do am or, e estava acostum ada, com o ela disse, a que ele a m ontasse com o ím peto de um touro, não se preocupando nada com o prazer dela. Prazer verdadeiro! - um a palavra pobre e m eio-m orta para descrever o que experim entam os j untos. Ela tinha o ardor da m inha selvagem Maaca, agora m eio-dom ada, associado a um a im aginação e destreza que eu antes apenas conhecera num a cortesã filisteia.

Um a m anhã, acordando nos m eus braços, e sentindo a paixão im paciente da carne ainda adorm ecida com prim ida contra m im , eu pensei com o Mical sem pre escondera de m im um a parte dela, talvez a parte essencial, negando-m e aquela subm issão venerável que, exigindo a própria rendição do am ante, transform am m acho e fêm ea num a só carne, num só ser, sendo cada um , no m esm o m om ento, conquistador e conquistado.

Nesse instante perguntei-m e com o pudera algum a vez ter suposto que am ava Mical verdadeiram ente. O verdadeiro am or pressupõe conhecim ento com pleto, e ela proibiu-m o.

Betsabé acordou, então, com um a estranha, distante, por um m om ento, e até perigosa expressão no olhar brilhante. Em seguida essa expressão desapareceu, com o se tivesse sido dirigida a outro que podia partilhar o seu leito, m as de quem ela não recebia qualquer satisfação, com quem ela nunca conheceria êxtase, m as cuj a aproxim ação ela aceitava com o um dever, com indiferença. E então sorriu, aquele m eio-sorriso ao canto da boca e que lhe dançava nos olhos, um sorriso acolhedor, lascivo na sua sensual e voluptuosa certeza, um sorriso que m e atraiu a ela e para dentro dela, aniquilando a distinção entre sexo e ser, e, contudo, engrandecendo, ao m esm o tem po, a m inha sensação de am bos. Ela aceitava o que eu oferecia, o que eu fazia, para ela e com ela, com o se todos os atos que criávam os j untos fossem um só ato, um a celebração contínua da união de hom em e m ulher, corpo e alm a, tem po passado e tem po presente.

Fizem os am or à m edida que o dia regressava à cidade e o Sol ilum inava o nosso leito com os seus raios de vida.

Havia perigo nas suas visitas dem asiado freqüentes ao palácio, pois a Lei de Moisés é dura, e o castigo para o adultério é a m orte.

Quando ela pensava em Urias, chorava, m as de raiva, não de pena. E am aldiçoava Aitofel, que a obrigara a aceitar aquele casam ento, fazendo, assim , com que o seu am or fosse um pecado contra a Lei. É que am bos sabíam os que nem m esm o o rei pode transgredir a Lei, e que, à face da Lei, se Urias cham asse esta em seu auxílio, nem m esm o a m inha proteção lhe poderia assegurar a vida. Ela reconhecia isso, sendo tão inteligente com o era bonita, e sabendo que os sacerdotes tinham poder até sobre os reis. E a consciência do nosso pecado e do perigo que ela corria era com o um a nuvem negra que se elevava por detrás de m ontanhas proibidas na m anhã brilhante do nosso am or.

Assim , form ei o hábito de m e escapar do palácio quando a noite caía e de m e dirigir, disfarçado, para a casa de Betsabé. A sua velha am a, em cuj a fidelidade ela confiava, era a única pessoa a que perm itim os acesso ao nosso segredo, e ela era pelo m enos suficientem ente discreta para respeitar o m eu anonim ato e para não m e dar qualquer indício de que reconhecia o rei, em bora, naturalm ente, eu soubesse que o m eu disfarce não a enganava.

Betsabé adorava ouvir-m e falar das m inhas façanhas, das guerras e das batalhas em que participara, da ira de Saul, e do am or de Jónatas. Só a ela confessei a m inha antipatia por Joab, e ela respondeu-m e com um aviso contra o seu próprio avô, Aitofel.

- Acredita, m eu am or, ele deixou-se corrom per pela invej a. Em bora o tenhas transform ado num grande hom em em Israel, ele acha que podia ser m aior ainda, e porque é dissim ulado e traiçoeiro por natureza, a tua virtude incom oda-o. Ele obrigou-m e a casar para ligar Urias a si, e Urias inform a-o de tudo o que se passa no exército, de qualquer rum or que ouve, qualquer descontentam ento que é expressado. E Aitofel usa Urias para atrair a si j ovens oficiais, de form a a que se convençam de que devem fidelidade a ele próprio e não a ti, que és o rei.

Um a noite ela chorou, e quando eu a pressionei, ela disse:

- Estou com m edo. Urias é um hom em cruel e violento. Quando descobrir o nosso am or, o nosso am or... - e a sua voz desfaleceu.

- Mas achas que eu não te protegerei?

- Contra a Lei?

- Contra a Lei.

Mas eu sabia que ela não acreditava em m im , nem confiava no m eu poder. Tom ei-a nos braços para lhe provar m ais um a vez a força do m eu am or, e, por algum tem po, ela ficou ali deitada, a trem er, com o se se negasse a m im . Então, à m edida que eu explorava o corpo dela, o trem or cessou, e ela entregou-se-m e com um abandono tão com pleto que eu fiquei a conhecer a profundidade do seu tem or e da sua apreensão.

- Urias nunca m e usou com o um a m ulher deve ser usada - m urm urou ela. - Eu nunca conheci o prazer até... outra vez, outra vez, leva-m e ao m onte da m irra, ao outeiro do incenso, ó m eu am ado, passa a m ão pela fresta da porta, e eu abrir-te-ei...

- Meu am or, Betsabé, m eu j ardim secreto de prazeres... quão m elhor é o teu am or do que o vinho, e o cheiro do teu corpo do que todas as especiarias...

(Porquê? Porque é que agora m e torturo com estas lem branças, escrevendo pensam entos com o palavras soltas, as palavras soltas de canções, da m úsica dos céus que nunca é tocada por instrum entos terrenos? Pensando em Betsabé, transform o-a em Mical, que nunca m e libertou desta m aneira do seu ser, e cham o Ahlsag para m e trazer alívio com os seus lábios de cerej a, para afastar de m im a m inha angústia, para que eu possa encontrar prazer através do conhecim ento da sua obediência envergonhada...)

E então ela disse-m e que estava grávida.

Na m istura de alegria e terror que ela sentia, a sua beleza estrem eceu nos m eus olhos. As suas têm poras tinham um toque de orvalho, e os lábios trem iam -lhe com o folhas ao vento do seu m edo.

- Urias fará com que eu sej a j ulgada - soluçava ela -, e o rei não pode confessar o seu pecado perante todo o povo.

Em seguida, acrescentou:

- A m inha am a Sara tirar-m e-á a criança.

De início, eu não com preendi. Pensei: « isso não servirá, pois ela não poderá disfarçar o seu estado perante o m undo, nem poderá evitar que Urias ou Aitofel tenham disso conhecim ento» . Eu receava

- sim , receava - que Aitofel descobrisse no m eu am or os m eios para m e destruir.

E então soube o que ela pretendia, e gritei:

- Não. A vida da criança é a dádiva do Senhor. \

No dia seguinte, disse-lhe:

- Cham arei Urias do exército. Descobrirei um pretexto de que ninguém suspeitará. E então enviar-te-ei, e deves deixar que ele se deite contigo. Assim ele acreditará que o filho é seu, e tudo estará bem .

Ela lançou-m e um olhar de censura.

- Se m e am asses, não m e pedirias que m e deitasse com outro hom em .

- Ele é teu m arido.

- Quero eu dizer - continuou ela -, especialm ente com o m eu m arido. Se m e am asses, não m e pedirias que m e deitasse com o m eu m arido, que nunca foi para m im um verdadeiro m arido.

- É porque te am o e m e preocupo contigo que te peço para que o faças.

Durante m uito tem po, ela resistiu, odiando a realidade, com o é típico das m ulheres.

- Se m e am asses - dizia ela -, abandonarias tudo por m im , renunciarias ao trono em favor de Am non, e levar-m e-ias daqui contigo. Eu viveria feliz contigo no deserto.

Eu sabia que ela m entia. Sabia que ela não tinha a percepção de que estava a m entir, m as enganava-se a si própria.

- Não fiques zangado com igo, m eu am ado - disse ela -, por eu ser fraca e ter m edo, m as não posso fazer o que m e pedes. Não posso subm eter-m e àquele hom em . Preferia m orrer.

Apertei-a contra m im , coloquei a língua j unto à orelha dela e pronunciei doces palavras de am or, e ela gritou:

- Estou doente de am or. Foi o am or que m e fez, e é o am or que m e destrói. Porquê, m eu am ado? Porque m e observaste no terraço, porque vieste ter com igo com o um j ovem veado, para m e fazeres dançar nas m ontanhas, num a dança que m e destruirá? Eu não estava viva até tu m e tocares.

Eu lisonj eei, eu persuadi, eu argum entei. Tudo em vão. Em seguida tom ei-a nos braços e ela gem eu:

- Deixa-m e m orrer de am or, Ó Senhor! - e eu bebi lágrim as salgadas das suas faces.

Mas, ao am anhecer, ela com pôs o rosto. Enfrentou o Sol que se levantava e disse que seria com o eu desej ava.

- Mas faço-o - disse ela - por tua causa, para que não sofras desonra em frente de todo o povo, pois eu própria escolheria a m orte.

Puxou-m e a si, exigindo am or com o se não houvesse am anhã, com o se estivéssem os deitados num j ardim que envolvesse o m undo inteiro.

Encontrava-se perante m im , m oreno e bruto, e desfazia-se em sorrisos. Movim entava desaj eitadam ente o corpo pesado. Interroguei-o sobre o cerco de Rabá e sobre o estado de espírito das tropas. Dei-lhe a entender que Aitofel m e inform ara de que ele, Urias, era um hom em em quem eu podia confiar para que m e relatasse qualquer descontentam ento, quaisquer dúvidas quanto à m aneira com o Joab estava a conduzir o ataque à cidade. Pedi-lhe a opinião sobre os m otivos por que estava a levar tanto tem po. Deixei-o com preender que estava preocupado, que Joab m e enviara inform ações que eu considerava inquietantes, m as, de que, no entanto, não tinha razões sólidas para duvidar. Eu disse, em quase tantas palavras, que o poder do rei era lim itado, um a vez que tinha de confiar em inform ações que lhe eram dadas por aqueles em quem ele, por necessidade, depositara a sua confiança, m as que poderiam ter m otivos para o enganarem . Era por isso que o m andara cham ar à m inha presença, porque Aitofel m e assegurara que ele era um hom em em quem eu podia confiar plenam ente. Mais do que isso, disse eu, eu entendia que Aitofel dem onstrara a sua própria confiança nele, e a elevada consideração que tinha por ele, dando-lhe a sua neta em casam ento, um a donzela, segundo m e tinham inform ado, de notável beleza e virtude, digna de um grande guerreiro. Eu posso até ter ido tão longe - de fato, eu fui tão longe - ao ponto de insinuar que, sob recom endação de Aitofel, eu dera instruções para que Urias fosse prom ovido, até ao m ais alto nível. Joab, afinal, estava a envelhecer, e os seus poderes podiam estar em declínio.

Respondeu-m e daquela form a balofa de fanfarrão, própria de soldado, e que eu sem pre desprezei, e com aquela presunção peculiar e irrefletida que provém de um a total insensibilidade aos outros. À m edida que ele falava, o j uízo que Betsabé fazia dele confirm ou-se: o hom em era grosseiro, pesado e hipócrita, sem um a centelha de im aginação. Devia ser cium ento, com certeza.

Ao m esm o tem po era evidente - pois quero ser j usto para com ele, tanto m ais porque ele despertava em m im um a sensação de repulsa pela sua pessoa - que ele dem onstrava um certo dom ínio dos assuntos puram ente m ilitares. Os seus com entários à form a com o o cerco estava a ser conduzido não eram desprovidos de sentido. Quando, induzido à irreflexão pela sim patia que eu m ostrava, ele falou com desdém da form a com o Joab conduzia as coisas, e reconheci perspicácia no seu j ulgam ento. Eu não podia negar que ele era provavelm ente um oficial de regim ento eficiente, em bora a sua brutalidade inata evidenciada na form a com o falava, e, na verdade, tam bém na form a com o m ovia aquele corpo pesado de boi, sugeria que ele devia com andar o m edo, m ais do que o afeto, dos soldados subalternos. Quando, para m e im pressionar, ele m e contou com o reprim ira um a incipiente explosão de revolta, a m inha adm iração pela sua eficiência (partindo do princípio de que ele falava verdade) foi tem perada pela repugnância que causou em m im o prazer claro que ele obtivera com o castigo que infligira.

Mesm o assim , louvei-o, elogiei-o, até, pois era m inha intenção fazê-lo acreditar que encontrara favor a m eus olhos. E, além disso, nada dá a um hom em um a opinião tão boa de um superior com o a atribuição de elogios por parte deste.

- Vej o que és um soldado de raro calibre - disse eu -, um hom em à m inha m aneira, e em cuj o bom senso e perspicácia eu posso confiar.

Em seguida interroguei-o exaustivam ente, em grande porm enor, sobre as fortificações de Rabá, e, ao fazê-lo, tive o cuidado de lhe lem brar, sem que ele se apercebesse de que eu o estava a fazer, que eu próprio era um general de grande experiência e renom e, com quem ele tinha a sorte de estar a falar de igual para igual.

Finalm ente, eu disse:

- Estou-te m ais agradecido, Urias, do que as m inhas palavras o poderão dizer. Não podes im aginar quanto m e é difícil, aqui, afastado do cam po de batalha por necessidade, obter um a im agem clara e coerente de com o as coisas estão na frente. Preencheste adm iravelm ente as lacunas inevitavelm ente deixadas pelos outros relatos que tenho recebido, e sugeriste m edidas em que pensarei m uito, e estou certo de que, m uitas delas, pelo m enos, deverão ser colocadas em prática. Aitofel, em cuj os conselhos sensatos há m uito que confio, com o tenho a certeza que sabes, falou-m e m uito bem de ti. Por isso, eu esperava ficar im pressionado, sabendo que ele não é hom em dado a exageros, m as estou ainda m ais im pressionado do que estava à espera. Assim , estou-te m uito agradecido pelo tem po que m e concedeste, pela tua clara exposição do estado das coisas, que se vê que consideraste longam ente e com inteligência. Mas és um j ovem , e sem dúvida que és vigoroso, e m antive-te afastado, por m ais tem po do que seria razoável, dos prazeres que um soldado espera quando está de licença. Estarás com certeza ansioso por te encontrares com a tua m ulher, e, se ela for tão bonita quanto m e dizem , é um a ansiedade com preensível. Por isso libertar-te-ei agora para os braços e para o am or dela. Não tenho dúvidas de que te sairás tão nobrem ente no leito com o no cam po de batalha. E para m ostrar que aprovo a tua conduta, e tam bém para com pensar a tua senhora, de cuj o nom e, envergonho-m e de o dizer, não m e recordo, tal é, m eu am igo, a m arca da idade, ou m elhor, o castigo por se envelhecer, darei ordem para que enviem um prato de rara e excelente com ida das m inhas cozinhas para tua casa, se m e deres a tua m orada, assim com o vinho da m elhor colheita, e, desta form a, espero apaziguá-la, para que m e perdoe pelo tem po que, inconscientem ente, te m antive longe dela. Podes, assim , retirar-te, com os m eus agradecim entos e o desej o sincero de que passes um a noite de am or, m eu j ovem touro, com o bem m ereces.

As m inhas últim as palavras podem ter tido um sentido duplo, m as parece-m e que ele não reparou. Na verdade, ignorante com o ele era, não havia razão para supor que ele repararia. Urias retirou-se, e, depois, quando virou costas após ter recuado vinte passos e de se ter afastado de m im , cam inhou daquela form a vaidosa, enfatuada e m al-educada que eu sem pre detestei, vendo nela um a arrogância física

que reflete um a alm a de bruto.

No entanto, eu estava satisfeito com a conversa que tivéram os. Por um lado, a aversão que ele despertara em m im libertou-m e de quaisquer sentim entos de culpa que eu poderia ter tido ao pensar que fizera dele um cornudo - na verdade ele despertara em m im tal repugnância que, m esm o que eu não m e tivesse j á deitado (m uitas vezes) com sua m ulher, poderia ter desej ado fazê-lo agora. Por outro lado, eu fizera o que decidira fazer. Penso que não o poderia ter feito de um a form a m ais clara sem lhe ordenar expressam ente que... não, até m esm o agora fuj o da palavra certa, exatam ente com o naquela altura o sim ples fato de pensar nele a fazer am or com Betsabé - a m inha adorada e encantadora Betsabé - enj oava-m e e revoltava-m e as entranhas.

Bem , disse a m im próprio, podia vingar-m e quando ele tivesse feito aquilo que tinha de fazer.

Em seguida, aflorou-m e à m ente o m esm o pensam ento, pois via que, em bora eu ansiasse por hum ilhá-lo e reduzi-lo a um m onte de carne abj eto im plorando m isericórdia perante m im , não poderia fazê-lo sem abandonar Betsabé - o que era im pensável.

Nessa noite não consegui dorm ir, e, pouco depois de am anhecer, cham ei Jonadab ao m eu quarto. Ele chegou a esfregar os olhos.

- Manda im ediatam ente alguém - disse eu - a casa de Urias, o hitita, e cham a-o à m inha presença. Tenho de voltar a falar com ele antes que regresse ao exército.

- Não haverá necessidade de o m andar cham ar - disse ele -, pois tropecei nele quando cam inhava através da sala dos guardas. Não acordou, em bora eu lhe tivesse dado um pontapé na cabeça. Duvido que estej a em condições de viaj ar cedo. Sentir-se-á m al de m ais.

- Estás a dizer-m e - perguntei eu - que ele não se deitou com a esposa na noite passada?

Pensei: « ela não foi dele, talvez o tivesse recusado, incapaz de ultrapassar a repulsa que a dom inava com a perspectiva dos seus abraços» . Em seguida pensei: « m as, se assim foi, ela destruiu-se» .

Jonadab sabia do m eu caso com Betsabé. Não sabia que ela estava grávida. Por isso, quando m e contou que Urias estava deitado, ébrio, na sala dos guardas, estava convencido de que m e trazia notícias que eu desej ava ouvir. E, um a vez que ele pensava que era assim , poderia estar a m entir. Mas não ousei m andar cham ar Betsabé para perguntar.

Jonadab disse:

- Quando ele te deixou, pode ter sido sua intenção ir ter com a esposa, m as deparou com velhos com panheiros entre os oficiais da guarda. Com eçaram a beber, e Urias a vangloriar-se das suas façanhas j unto a Rabá. Um a coisa levou à outra, e, quando m e retirei, Urias m al estava consciente. E assim , o idiota está deitado, em briagado. É tudo.

Sorria com feliz m alícia, confiante de que m e agradava. Talvez, com esse fim em vista, ele próprio tivesse tentado Urias a beber m ais. Por um m om ento, pensei depositar nele toda a m inha confiança, m as, não sendo o segredo m eu m as do m eu am or, não o fiz. Em vez disso, m andei-o em bora, perm aneci, por longos m om entos, em perplexidade, não recebendo ninguém senão o m eu aj udante de cam areiro. Antes de Jonadab sair, todavia, encarreguei-o da tarefa de cancelar os m eus com prom issos para essa m anhã.

- Eras para dar um a audiência a Aitofel - disse ele.

- Diz-lhe que não posso. Diz-lhe que estou m aldisposto. Mas fá-lo com bons m odos e sem ênfase, para que ele não fique ofendido nem curioso.

Pensei em Betsabé, feliz porque o m arido não estivera com ela, aterrorizado por causa das conseqüências do fato de ele não o ter feito. Ela recusara-se a recebê-lo, e agora eu im aginava a sua brilhante coragem a escurecer à m edida que o m edo a invadia com o um vento do deserto.

À tarde, m andei novam ente cham ar Urias à m inha presença. Ele veio, o hálito a tresandar do deboche da noite anterior. Ri com o um veterano pode rir para outro, sim ulando solidariedade, e m andei vir vinho. Em purrei-lhe um a taça, e eu próprio tam bém bebi, e, olhando por cim a do rebordo do m eu copo, disse:

- Que indivíduo estranho m e saíste que pareces tão relutante em sentir prazer com um a senhora que todos dizem que é tão bonita!

Dei-lhe um a palm adinha nas costas, e servi-lhe m ais vinho.

- Meu rei e senhor - disse ele -, sou um sim ples soldado e não sei falar.

Fez um a pausa, e eu conheci um m om ento de apreensão, pois ele falava com o um hom em que descobriu a infidelidade da esposa, e perguntei-m e que rum ores é que ele poderia ter ouvido dos oficiais seus com panheiros. Em bora eu tivesse tom ado todas as precauções possíveis para m anter secreto o m eu caso com Betsabé, e para a proteger da descoberta daquilo que os sacerdotes e o m undo cham ariam à sua vergonha, há quase sem pre em tais assuntos, no entanto, algum a coisa que se sabe, algum a suspeita que é levantada, e eu não podia ter a certeza de que Urias ainda não soubesse da sua desonra. Além disso, eu não tinha dúvidas de que Aitofel pagava a agentes dentro da m inha própria casa para que lhe relatassem todas as m inhas entradas e saídas. Na m inha disposição som bria, eu tive subitam ente a certeza de que fôram os traídos.

Mas sorri:

- Até um soldado que não sabe falar anseia por m ulheres. Até o m ais nobre dos guerreiros tem de satisfazer outros desej os.

- Senhor, m eu rei - disse ele -, a Arca do Senhor, e Israel e Judá habitam em tendas, e eu vim do exército, onde o m eu senhor Joab e os servos do m eu senhor estão acam pados na planície árida. Porque deveria eu então ir para m inha casa, para dorm ir em lençóis e ter prazer com um a m ulher? A idéia repugna-m e, e não o farei.

A estupidez e a com placência do discurso irritou-m e de tal m aneira que tive dificuldade em m e controlar para não lhe bater nem o prender - para lhe ensinar a ser razoável e a ter m elhores m aneiras. Não tinha eu, o rei, insistido para que ele visitasse a esposa, e ele não m e desobedecera?

Mas sorri novam ente, e atirei para o ar um a piada sobre o dever de um soldado, que se estende à criação de guerreiros.

- Mas vej o - disse eu -, que és um hom em de firm es princípios. Jantarem os j untos esta noite, e aproveitarei então a oportunidade para te persuadir de que um dever, o dever que tens para com o teu rei, não exclui um outro, que tens para com a tua esposa, e que, na realidade, am bos se m isturam no dever que tens para com Israel.

Passei o dia ansioso por m andar alguém a casa de Betsabé para saber com o ela estava. E, contudo, não ousei fazê-lo. Ocorreu-m e durante a tarde que Urias poderia ter ido ter com ela nessa altura, e perguntei a Jonadab onde ele se encontrava.

- A j ogar dados com os teus oficiais e a gabar-se do favor que encontrou j unto de ti, m eu rei e senhor.

Servi-lhe vinho ao j antar e conduzi um a conversa obscena, falando do m eu gosto por m ulheres e contando histórias de am or, na esperança de que isso lhe agitasse o desej o e que fosse ter com a esposa. Mas em bora Urias risse, e respondesse com histórias suas, em que não havia nem inteligência nem beleza, m as nas quais eu lia antes um ódio por m ulheres e um prazer em hum ilhá-las, e que m e faziam sentir enoj ado ao pensar neste bruto a fazer am or com a m inha am ada, ele não m ostrava qualquer vontade de estar com ela.

No entanto, quando m e deixou, vacilante e ébrio, eu não podia ter a certeza de que ele não iria ter com ela. E o ódio apoderou-se da m inha alm a.

No escuro da noite, eu revirava pensam entos negros na m inha cabeça, e quando os galos cantaram , à m edida que o prim eiro toque da aurora ilum inava o céu, eu soube que não podia estar contente enquanto Urias partilhasse a terra com igo.

Disse para m im próprio: ele vangloria-se de ser soldado... bem , deixá-lo m orrer um a m orte de soldado.

Pela m anhã, m andei cham ar Urias novam ente à m inha presença e ordenei-lhe que regressasse ao exército. Confiei-lhe um a m ensagem que deveria entregar a Joab. Ele recebeu-a com orgulho, ignorando que carregava consigo a sua própria sentença de m orte.

É claro que não ordenei a Joab que m andasse m atar Urias. Não havia necessidade disso. Eu podia confiar que Joab leria entre as linhas. Era o tipo de tarefa em que ele sentia prazer. Por isso, pude consolar Betsabé com a certeza de que tudo acabaria em bem . Exprim i o m eu alívio por o m arido não se ter m exido para ir visitá-la, e, se ela sentia que o fato de ele não o ter feito era um a prova duvidosa dos encantos dela, depressa consegui, com o m eu ardor, convencê-la de que isso era m eram ente prova do m au gosto de Urias. Para j á, ela estava feliz por deixar que o futuro cuidasse de si próprio, por confiar em que eu a visitaria, e por colher as rosas do am or enquanto ainda estavam frescas.

Três dias depois - penso que foram três dias, m as podem bem ter sido quatro, sim , talvez fossem quatro - chegou até m im um m ensageiro, enviado por Joab, do acam pam ento de Rabá. Era um j ovem , que não reconheci, e estava suj o e parecia nervoso. Aj oelhou-se perante

m im .

- Meu rei e senhor, grande na batalha, venho da parte do m eu senhor Joab, o m ais fiel ao serviço de sua m aj estade, o rei, e, pede-m e ele que te diga, que é hoj e o teu m ais infeliz servo. É que Rabá, que cercávam os, ainda se encontra nas m ãos do inim igo, e lançam os contra as m uralhas da cidade um grande ataque, que falhou.

Então, de cabeça baixa, descreveu-m e com o Joab lançara um ataque frontal a um a parte da m uralha que ele pensava que estava m al defendida, pelo m enos em com paração com outras partes. Mas, ou ele fora enganado ou os espiões tinham descoberto a sua intenção j á que o ataque fora rechaçado com - ele soltou um soluço - grandes perdas hum anas.

Interroguei-o intensam ente, pois parecia-m e que, ao expor um a parte tão significativa das suas forças a um a em presa tão dúbia Joab agira com im perdoável precipitação, arriscara desnecessariam ente Um a vez que tinha apenas de m anter o bloqueio da cidade para assegurar a sua captura final. Reprim i a sugestão de que as capacidades de Joab estavam a falhar, o poder de avaliação a faltar, pois não teria sido adequado expressar tais dúvidas a um sim ples m ensageiro.

Então, com o se pressentisse a m inha raiva a acum ular-se o j ovem levantou a cabeça e disse:

- O m eu senhor Joab tam bém m e disse que te inform asse que para seu grande pesar, o teu servo Urias, o hitita, se encontra entre os m ortos.

Eu virei costas, e toquei os olhos com um pano, com o que para secar as lágrim as. Olhei por cim a da cidade. O ar estava m uito calm o e havia silêncio no calor do Sol da tarde, que fazia com que as folhas das oliveiras do outro lado do vale brilhassem e refulgissem . Olhei o terraço da casa de Betsabé e pensei com o ela esperara, trem ula com receio de ouvir os passos de Urias. Um a grande paz desceu sobre m im , e o m eu coração cantou para o Senhor.

O j ovem recitava agora um catálogo dos que tinham tom bado na batalha, e, quando ouvi o nom e de Laís entre eles, chorei a sério.

- E que os lugares escuros da terra estão cheios das habitações da crueldade - m urm urei eu, e recordei a form a com o ele viera ter com igo, confiante e ávido de am or. E agora a sua carne era alim ento para as aves da m orte. Mas quando o m ensageiro concluiu com a repetição do nom e de Urias, enxuguei os olhos e m andei vir vinho para que o j ovem se refrescasse, e disse-lhe:

- Diz ao m eu senhor Joab para não ficar desanim ado e para não sentir pesar, pois esta é a sorte da guerra, e a espada devora tanto um hom em com o outro. Por isso exorta-o para que renove a batalha pela cidade e a vença, para que os nossos m ortos não tenham tom bado em vão. E diz-lhe que, agora com o sem pre, ele encontrou favor a m eus olhos, pois sei que não há hom em m ais coraj oso em Israel e nenhum em quem eu deposite confiança m ais absoluta.

Em seguida cham ei Jonadab e ordenei-lhe que m andasse inform ar Betsabé da m orte do m arido, destem ido em batalha, e que lhe transm itisse as m inhas condolências, e lhe pedisse que pusesse luto por um hom em que m orrera a servir Israel e o seu rei.

E fi-lo para que ninguém pudesse apontar um dedo a Betsabé.

Quando fui a sua casa, secretam ente, nessa noite, não falám os de Urias, que era agora para am bos com o palha levada pelo vento.

Ela ainda estava de luto quando se tornou visível que estava grávida, e os hom ens diziam que triste que era que Urias lhe tivesse sido levado antes do nascim ento do filho. Disse-m e Betsabé que apenas o avô, Aitofel, a olhou com curiosidade, e pareceu que queria dizer qualquer coisa.

- Não m e saía da cabeça que ele m e ia censurar - disse ela -, m as depois sossegou. Quando nos casarm os, gostaria que o dem itisses do seu cargo e o m andasses sair de Israel. Ou, pelo m enos, de Jerusalém . Perturba-m e vê-lo, pois penso que ele suspeita.

- Suspeita? O que há para suspeitar? De que a criança é m inha? Quando nos casarm os, quem quererá saber quem é o pai da criança?

- Penso que ele não suspeita só disso. Tom ei-a nos m eus braços.

- O que há para suspeitar, para além disso? Urias veio cá, eu usei-o com honra. Pedi-lhe que fosse ter contigo. Quem ousará j urar que ele não o fez, que desobedeceu à ordem do rei? Nem sequer Aitofel. E depois Urias m orreu na batalha, com o um bravo, teve um a m orte de soldado, na batalha em que o m eu íntim o, m uito am ado e fidelíssim o am igo Laís tam bém tom bou. O m ensageiro que m e trouxe a notícia das suas m ortes viu-m e chorar. Além disso, m eu am or, Aitofel deveria ficar orgulhoso e feliz por te ver rainha.- Mesm o assim - disse ela -, tenho m edo dele.

Betsabé fez um j ulgam ento m ais sensato do que eu. Isso pode parecer estranho, pois não passava de um a m enina, ignorante das coisas do m undo. Com o foi que Aitofel chegou à conclusão de que eu era responsável pela m orte de Urias - não sei. Mas tenho a certeza de que os rum ores sobre, na m enor das hipóteses, a m inha cum plicidade

- rum ores de que Jonadab m e inform ou - tiveram origem naquele conselheiro que eu em tem pos honrara com a m inha confiança, m as que agora procurava destruir-m e.

- Os hom ens acusam -m e de assassínio? - perguntei a Jonadab.

- Não precisam ente, m eu rei e senhor, m as dizem que a m orte de Urias foi um a felicidade para ti; e há alguns que m urm uram entredentes, segundo dizem , que Joab ordenou que os hom ens se afastassem de Urias na batalha.

- Isso é disparate. Não sabem eles que Laís tam bém m orreu, e será que supõem que tam bém isso « foi um a felicidade» para m im ?

Mas Jonadab afastou o olhar e não respondeu a essa pergunta. E era com o se eu ouvisse a voz fina de Aitofel a insinuar que David sacrificou até o seu m ais querido am igo para destruir Urias, cuj a esposa ele cobiçava.

Haveria m uitos, tal é a baixeza do hom em , que o acreditariam .

Ordenei a Jonadab que colocasse espiões atrás de Aitofel. Ele estava claram ente a espalhar o descontentam ento, e havia alguns, especialm ente entre os j ovens, prontos para lhe darem ouvidos. Eram aqueles que tinham crescido enquanto eu era rei, que não conheciam outro e que estavam im pacientes e ansiosos por um a m udança. Mas, em bora eu tivesse a certeza de que Aitofel fom entava o descontentam ento, não conseguia obter quaisquer provas. Por isso m antinha-o perto de m im , e no seu cargo, pensando que ele podia ser ainda m ais perigoso se eu o destituísse e tornasse público o seu agravo e a m inha desconfiança.

Ao m esm o tem po, eu perguntava-m e se Joab falara de m ais, talvez em briagado, com o por vezes fazia. E m antive tam bém contra ele esta suspeita.

Algum as sem anas depois do m eu casam ento com Betsabé, e do nascim ento do nosso filho, Natan, o profeta, um hom em que eu estim ava, veio visitar-m e.

- Abençoado sej a o Senhor Deus de Israel - disse ele, e sentou-se no chão à m inha frente, puxando a barba. - David, sabes, m eu rei

e senhor, que sem pre te am ei e servi com todo o m eu coração, sob a Lei do Senhor.

- Bem sei - respondi, não gostando de algo que lia nos seus m odos.- Deixa que te conte um a história - disse ele. - Havia dois hom ens que viviam num a certa cidade. Um deles era extrem am ente rico

,$. e o outro igualm ente pobre. O hom em rico possuía m uitos rebanhos e m anadas, m as o hom em pobre não tinha nada, a não ser um pequeno cordeiro, que tinha criado e de que cuidava com grande atenção e am or, com o se se tratasse da sua filha ou até da sua esposa. Ora, um dia, vem um viaj ante ter com o hom em rico, e ele tratou de o alim entar. Mas em vez de ir buscar um cordeiro ao seu próprio rebanho Natan fez um a pausa, levantou a cabeça e olhou-m e nos olhos, e o seu olhar era som brio e m elancólico e parecia cheio de dor -, em vez de fazer isso, apoderou-se do cordeiro do hom em pobre para dar um festim em honra do seu convidado.

Natan olhava-m e, inquiridor. Eu fiquei inquieto com a sua história, e falei quase sem refletir.

- Se houver algum a j ustiça - disse eu -, o teu hom em rico deveria ser castigado. E, um a vez que sou j uiz em Israel, assim será. Diz-m e quem ele é, e m andá-lo-ei cham ar à m inha presença.

Natan abanou a cabeça.

- Não há necessidade disso, David. Tu és esse hom em rico. E levantou-se, enquanto eu ficava em silêncio, e disse:

- Esta é a palavra do Senhor dos Exércitos, o Senhor Deus de Israel: Ungi-te rei de Israel, pela m ão de Sam uel, Meu profeta, e, quando Saul se levantou contra ti, salvei-te da sua raiva. Fiz-te rei e dei-te esposas e grandes riquezas. Mas tu viraste-te contra m im , e fizeste m al a m eus olhos, desdenhando do m eu m andam ento; e m ataste Urias, o hitita, de m odo vil, e tom aste a sua esposa, de m odo vil. Por isso, j am ais se afastará a espada da tua casa, porque Me desprezaste, e tom aste a esposa de Urias, o hitita. Ouve a palavra do Senhor, ó rei; vou fazer sair da tua própria casa m ales contra ti, e tirar-te-ei as tuas esposas, e dá-las-ei ao teu vizinho para que se deite com elas abertam ente, à vista do m undo. Porque, David, fizeste isto ocultam ente, m as o Senhor agirá abertam ente, para que o m undo inteiro vej a a tua transgressão e saiba que nem sequer o rei está acim a da Lei do Senhor dos Exércitos.

Natan falou na linguagem arcaica que os sacerdotes e os profetas usam para tornar os seus discursos m ais im pressionantes. Tal com o acontecera com Sam uel, dei com igo a perguntar-m e até que ponto aquelas palavras eram , de fato, do Senhor, e até que ponto eram do Seu profeta. No entanto, perturbavam -m e. Quando Sam uel falou contra Saul e o denunciou em nom e do Senhor, nenhum ouvinte que fosse sincero pôde evitar o pensam ento de que a raiva divina se encontrava anorm alm ente em harm onia com os próprios ciúm es que Sam uel sentia em relação a Saul, que o suplantara no governo de Israel. Mas Natan sem pre m e apoiara. Ele reclam ava apenas autoridade m oral, e eu sabia que ele m e am ava e adm irava.

Eu disse:

- Natan, de que m e acusas?

- Ouviste o que eu disse - respondeu ele.

- A língua é a língua de Natan, m as as palavras soam -m e com o se fossem ditas por Aitofel.

- As palavras são do Senhor, m eu rei.

Olhava-m e com tristeza, e, à m edida que o fazia, eu sentia-m e a encolher, pois sabia que ele falava verdade. Eu não lam entava a m orte de Urias, m as desej ava tê-lo m orto de um a form a m ais adequada, com a m inha própria m ão. A m aneira com o eu conseguira a sua m orte era m esquinha, eu não podia negá-lo. E, contudo, era im possível tê-lo feito de outro m odo, sem subm eter Betsabé abertam ente ao insulto, e, é

claro, a algo pior.

Eu disse:

- Natan, Betsabé não sabe o que eu fiz, estando, por isso, inocente. Mas estás certo.

Afastei-m e dele, e, estendendo o m eu olhar na direção das m ontanhas, senti-m e prisioneiro do m eu palácio, do ato que com etera, e do m eu am or.

- Pequei contra o Senhor - disse eu -, e, a seus olhos, fiz m al. Aj oelhei e gritei:

- Senhor, reconheço as m inhas transgressões. O m eu pecado existe até perante m im próprio. Contra Ti, ó Senhor, eu pequei, e todo o sacrifício que Te trago é um espírito atorm entado, um coração despedaçado e contrito, e rezo para que não o desprezes.

Enquanto eu rezava assim , Natan tocou-m e, suavem ente, na cabeça, e, tendo pousado aí a m ão por algum tem po, saiu e deixou-m e entregue à escuridão ansiosa e à m inha vergonha e ao m edo do Senhor.

Mas não contei nada disto a Betsabé.

Durante algum tem po acreditei que o Senhor m e tinha perdoado, e afastei a lem brança de Urias.

Quando Joab regressou, vitorioso, do cerco de Rabá, e m e inform ou de que a cidade fora tom ada e de que um a grande parte dos soldados inim igos fora m orta, abracei-o em frente de todo o povo, e dei um festim em sua honra. Mas nem sequer depois de ele ter bebido houve qualquer conversa sobre Urias. No entanto, eu não m e sentia à vontade com Joab, com o se, pela prim eira vez, ele estivesse em vantagem em relação a m im .

Pouco depois, o filho que Betsabé m e dera adoeceu. A sua febre era alta. Betsabé estava sentada j unto ao berço, vigiando a sua agonia, eu virei-m e para o Senhor e hum ilhei-m e perante Ele, pedindo-lhe que testem unhasse que eu m e arrependia do m eu pecado, e im plorando-lhe que poupasse o m eu filho. Durante sete dias não com i nem bebi: orava fervorosam ente num a tentativa de salvar o m enino.

Mas o m eu pecado era dem asiado grande. O Senhor não se com oveu e não teve m isericórdia. A criança m orreu, e, quando se encontrava perante m im , com o pequeno corpo nos braços, Betsabé soube o que se recusara a saber antes: o preço que eu pagara pela vida dela e pelo nosso am or.

Ela disse:

- Preferia ter sido apedrej ada até à m orte em vez de isto ter acontecido.

Virou costas e negou-se-m e.

Bem , foi assim que as coisas se passaram . As nuvens e um vento frio ensom bravam o nosso am or. Eu pecara por causa de Betsabé e fui castigado pelo pecado dela, e, durante m uito tem po, ela não m e ouviria, e negava-se-m e. Voltám os a unir-nos. Concebem os outro filho, a quem cham am os Salom ão - o j ovem pedante que está agora à espera da m inha m orte. Mas nunca voltou a ser a m esm a coisa. Havia um vazio no nosso am or, porque Betsabé não podia perdoar-m e pelo que eu fizera por ela. Ela sabia que estava errada ao não querer perdoar-m e. No entanto, não podia fazê-lo. A som bra da criança que m orrera existia até no nosso leito.