Rei Davi

Allan Massie · Capítulo 3 de 4 · parte 2/3

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Rei Davi

Livro Dois

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Por todas estas razões, Jerusalém parecia-m e ser a cidade ideal para estabelecer a m inha residência. Assim , anunciei que era vontade do Senhor que Jerusalém caísse nas m ãos de Israel, para que fosse a capital e a Cidade de David.

Tam bém m e parecia benéfico para m im , logo no início do m eu reinado, realizar algum feito que im pressionasse todas as tribos com a m inha grandeza. Os reis vivem e prosperam de acordo com a sua autoridade e o seu poder. A autoridade depende da estim a, assim com o o poder depende da capacidade de suscitar m edo. Eu não tinha dúvidas de que possuía poder, m as procurava a autoridade que um feito brilhante, e que apelasse à im aginação geral, m e pudesse trazer. E assim , poucas sem anas após ter sido reconhecido rei de Todo o Israel, dei instruções a Joab para que preparasse planos para um ataque a Jerusalém .

De início, ele estava duvidoso, em bora com preendesse as m inhas

razões.

- São boas razões - disse ele, coçando o nariz com prido -, e

persuasivas, David. No entanto... - fez um a pausa, ainda a coçar o nariz - se falhássem os... e podem os falhar, pois Jerusalém está tão bem fortificada que os j ebuseus têm um provérbio que diz que os cegos e coxos são suficientes para a defender, se falhássem os, o golpe para a tua autoridade e para o teu poder seria tal que não seria fácil recuperares dele.

- Bem , Joab - respondi eu -, o teu conselho é, com o sem pre, bom . E, na verdade, quem m e dera ter-te consultado m ais cedo, pois se o tivesse feito, poderias ter-m e convencido, j á que és, com o sabes, capaz de o fazer. Mas, infelizm ente, num m om ento que adm ito ter sido de precipitação, j á anunciei que é vontade do Senhor que tom em os Jerusalém e que sej a conhecida com o a Cidade de David. Sendo assim , perceberás que é im possível recuar.

Joab voltou a coçar o nariz, e concordou, em bora com relutância. Fora, é claro, a prever as suas obj eções que eu fizera o m eu anúncio público.

-Joab - eu falava agora num tom suave -, sei que tens pensado m uito na form a de concretizar isso, e eu recordo-m e, j á passaram tantos anos, de com o sugeriste que a cidade poderia ser tom ada se dividisses o exército, e fingisses que o ataque principal seria lançado do Sul, de m aneira a atrair os defensores para longe das m uralhas a norte, que são m enos bem protegidas por natureza, e em seguida, quando essas defesas tivessem sido, desta form a, enfraquecidas, lançarias um violento ataque desse lado, usando o corpo principal do exército.

- Lem bro-m e que esse era o m eu plano - disse Joab.

- Era o teu plano - disse eu -, por isso m esm o, confio-te a organização do ataque, para que possas ter a honra e a glória de ser tanto o autor com o o executor. Mas não te esqueças do seguinte: quando a cidade tiver sido tom ada, eu desej o poupar os j ebuseus. Ser-nos-á útil ter um a cidade povoada por gente que nos deve tudo, até a vida, e que não tem am igos em Israel, a não ser o rei e o seu nobre general.

Joab viu aonde eu queria chegar. Ele próprio não teria pensado nisso, e, entregue ao seu próprio expediente, teria perm itido aos seus soldados que satisfizessem os seus desej os num a orgia de sangue. Mas, quando o assunto lhe foi explicado, ele com preendeu m uito bem a sabedoria daquilo que eu sugeria.

De fato, não m e lem bro bem qual fora o plano que Joab sugerira durante aquela conversa distante. Pode, na verdade, ter sido parecido com aquele que eu agora lhe avançava.

- Que o Senhor dos Exércitos estej a contigo - disse eu. Tudo decorreu com o eu pretendia. A cidade que se vangloriava de

tão boas defesas caiu nas nossas m ãos a pouco custo. Quando os j ebuseus souberam que as suas vidas e propriedade seriam poupadas, ficaram surpreendidos, e saudaram -m e m ais com o libertador do que com o conquistador.

Assim , ganhei a m inha capital, e atirei-m e im ediatam ente à reorganização do estado. Ao m esm o tem po, decidi construir um palácio para m im , um palácio digno do um grande' rei. Para Isso, encetei negociações com Iliram , rei de Tiro. Quando era j ovem , eu ficara im pressionado pelo que m e parecia ser a civilização superior dos filisteus, e com os êxitos por eles conseguidos na arte de construir. Mas durante o tem po que passei na corte do m eu am igo Aquis, eu descobrira que os filisteus eram , neste cam po, inferiores ao povo fenício de Tiro e Sidon; e até Aquis m e confessou que, orgulhoso com o era do seu próprio povo, os seus edifícios m ais requintados não eram senão um a hum ilde im itação daquilo que os fenícios tinham alcançado.

Assim , enviei Aitofel, com o o hom em m ais sutilm ente inteligente ao m eu serviço, a Tiro, com o obj etivo de propor um a aliança com o rei Hiram . É verdade que havia pouca coisa que eu lhe pudesse oferecer em troca do que esperava receber dele. Mas, em conversa com Aitofel, concordam os em relação aos m eios de conseguirm os a sua am izade.

Os fenícios são um povo m ais dado ao com ércio do que à guerra; e, com o todos aqueles que têm prosperado e aprendido os prazeres do luxo, eles receiam hom ens que tenham levado vidas duras e que, não tendo nunca experim entado o conforto, desprezam aqueles que levam vidas fáceis e luxuosas. Aitofel devia im pressionar o rei Hiram , dando-lhe a entender que nós, israelitas, éram os um povo assim . Ele devia tam bém dizer m al do m eu caráter e descrever-m e com o um hom em que abrira cam inho para o trono à custa de sangue, que m e regozij ava com a guerra, e a quem um m onarca prudente e pacífico gostaria m ais de ter com o aliado do que com o inim igo. Além disso, Aitofel devia dizer:

- A oriente do Jordão há tribos ainda m ais selvagens do que as doze tribos de Israel, que David uniu e transform ou num a poderosa nação arm ada. Essas tribos para lá do Jordão anseiam pelos despoj os de Tiro e Sidon, m as entre ti e elas encontra-se David, que procura a tua am izade. Se lha concederes, ele servirá de baluarte e defesa segura contra as cruéis e gananciosas tribos do deserto. Mas se lha recusares, e um a vez que David se irrita facilm ente, será difícil para um hom em de paz com o eu controlá-lo. Ele será tentado a dar ouvidos aos seus guerreiros, com o Joab e Abisai, filhos de Seruia, e a colocar-se à cabeça das tribos selvagens do deserto e lançar um poderoso exército contra ti.

Hiram , um hom em inteligente, preferia a paz e a am izade aos perigos certos e ao resultado incerto de um a guerra. Por isso concordou rapidam ente em fazer um tratado com igo, e, em troca da segurança que eu lhe oferecia, em fornecer-m e os habilidosos artífices e os m ateriais de que eu necessitava para realizar o m eu sonho de construir um palácio para m im , pois desej ava rodear-m e de esplendor e beleza visíveis, iguais àquilo que eu próprio tinha capacidade de conseguir nas artes da poesia e da m úsica.

Assim , o ano que se seguiu foi passado a observar a construção do m eu palácio, feliz no conhecim ento de que, ao criá-lo, eu estava não só a trazer um novo esplendor a Israel, com o tam bém a afirm ar-m e na nação com o um rei superior em glória e m agnificência ao pobre Saul, que vivera (com o eu agora via) rudem ente. Divertia-m e pensar - à m edida que via o m eu sonho a realizar-se a cada dia que passava com o, na m inha ignorante e inocente j uventude, eu ficara im pressionado com o palácio de Saul.

Era m eu desej o viver em paz com os vizinhos, m as o m eu êxito causava neles invej a e m edo. Eu acreditava que não tinha desavenças com os filisteus, e conservava um a cálida recordação da generosidade que Aquis dem onstrara para com igo. Mas Aquis estava m orto, e os novos reis dos filisteus ficaram receosos ao verem crescer o m eu poder e a m inha fam a. Provocados apenas por isso, j untaram um grande exército e invadiram a terra de Israel. Fui, assim , obrigado a retom ar a vida m ilitar que eu esperava, para honra e glória do Senhor, ter deixado para trás.

Levei o m eu exército para o vale de Efraim , a norte de Jerusalém , e esperei a investida. À m edida que eles se aproxim avam , eu recuava à frente deles, aparentem ente em direção à cidade, com o se, assustado com as dim ensões das suas forças, eu tivesse resolvido refugiar-m e dentro das m uralhas e suportar um cerco. No entanto, usando o terreno ressequido do pequeno vale, m udei a direção da nossa m archa, de form a a m anobrar as m inhas forças para o flanco do inim igo, onde ficam os escondidos num bosque de am oreiras.

Sentia, apesar da m inha relutância, um certo prazer em estar de volta ao cam po de batalha, pensando estratégias para vencer um inim igo. Da m inha longa experiência de guerra desigual, eu aprendera a conhecer o terreno e a observar as variações e hábitos do tem po atm osférico. Eu sabia que, naquele vale, se levantava um a leve brisa pouco antes do Sol m ergulhar atrás das colinas e o som do vento nas am oreiras lem brava a m archa de um poderoso exército. Disse aos m eus soldados que, antes do pôr do Sol, o Senhor enviaria um a força invisível em nosso auxílio, e que o sinal para o nosso ataque aos filisteus seria o som de pés a m archarem . Passam os o calor da tarde deitados à som bra das árvores, enquanto eu observava o exército dos filisteus avançar em coluna por cim a da colina e descer para o vale que o levaria a Jerusalém . Marchavam com o hom ens decididos a term inar um a tarefa. Um a trom beta tocou apenas três vezes com o que para os encoraj ar. Mas havia silêncio quando o Sol se pôs, e o pó elevava-se da coluna que passava em frente de nós. Então, com o eu previra, com eçou a soprar um a leve brisa. Abanava as árvores e as folhas soltavam um leve frêm ito...

- O Senhor dos Exércitos veio em nosso auxílio - gritei eu, e caím os sobre o flanco dos filisteus. A surpresa foi com pleta. Não tiveram tem po de se colocarem em ordem de batalha. Dispersam o-los com o folhas de Outono, e eles fugiam à nossa frente, aterrorizados e confusos. A perseguição durou até que a Lua subiu no firm am ento, e o exército da Filisteia deixou de existir.

Eu haveria de conduzir outras guerras contra Edom e Moab e tam bém aí triunfaria, m as esta vitória sobre os filisteus no vale de Efraim foi a m aior da m inha carreira m ilitar. Os filisteus tinham oprim ido Israel ao longo de m uitas gerações, desde o tem po dos Juizes. O poderoso Sansão lutara contra eles. Tinham subj ugado e saqueado no tem po de Eli. Saul com batera coraj osam ente contra eles até que foi vencido no m onte Guilboa. Mas nunca m ais. Eu quebrei o poder dos filisteus no vale de Efraim , à m edida que o vento abanava as am oreiras, quebrei-o em fragm entos com o um vaso despedaçado, e obriguei-os a pedir a paz em term os m ais im plorativos do que algum a vez haviam feito.

Im pus condições rígidas, obrigando os filisteus a desm antelarem os lugares fortificados, e a aceitarem a m inha autoridade sobre eles. Recrutei alguns dos seus m ais valentes guerreiros para a m inha guarda pessoal, para os honrar e para m e m ostrar coraj oso e m agnânim o, e tam bém porque eu concluíra que um a guarda pessoal constituída em grande parte por estrangeiros proporcionar-m e-ia um a defesa m ais segura do que- se a selecionasse entre as invej osas tribos de Israel. E, m ais im portante de tudo, exigi-lhes que devolvessem a Arca da Aliança que tinham levado de Israel no tem po de Eli. E assim , eu trouxe o local em que o Senhor habita de volta a Israel, a terra do Senhor.

Na glória orvalhada de um a aurora de Verão, eu trouxe a Arca da Aliança para Jerusalém .

O nevoeiro ainda pairava em volta das franj as das oliveiras e o Sol estava ainda obscurecido, quando a Arca foi trazida da casa de Obededom , um levita, onde repousara três m eses, enquanto eu preparava a sua entrada na m inha cidade, que tam bém é do Senhor. E quando os sacerdotes a trouxeram para fora e a colocaram com a devida reverência sobre um carro de bois, eu atirei-m e ao chão, e adorei o espírito do Senhor dos Exércitos.

Em seguida foram oferecidos sacrifícios, de acordo com a Lei, e j untaram -se sete com panhias de cantores para m archarem à frente da Arca, louvando o Senhor, enquanto subíam os a colina em direção a Jerusalém . À m edida que a procissão com eçava a deslocar-se, o Sol rom peu as nuvens que se dissolviam e ouviu-se um grito que dizia que o Senhor estava satisfeito.

Eu cam inhava, sozinho, atrás da últim a com panhia de cantores, e tocava a pequena harpa, e a m úsica fora eu que a com pusera. Assim avançávam os em direção a Jerusalém , e a m ultidão engrossava, à m edida que nos aproxim ávam os da cidade. Em purravam -se para verem a Arca, e atiravam -nos flores. Um a m enina destacou-se do aj untam ento e colocou-m e um a coroa de flores ao pescoço.

Ora acontece que, na praça ou espaço aberto em frente do m eu palácio, eu m andara erguer um grande tabernáculo para receber a Arca, e, à m edida que nos aproxim ávam os dele, eu levantei a voz e cantei:

 

Do Senhor é a terra e a sua plenitude;

O m undo inteiro e todos os que nela habitam .

Foi Ele quem a fixou sobre os m ares

E a colocou sobre os rios.

Então, um coro de j ovens de vozes vigorosas que se encontravam perante o tabernáculo vestidos de túnicas de linho puro, entoaram o desafio:

 

Quem será digno de Subir ao m onte do Senhor?

Quem poderá perm anecer em Seu lugar santo?

 

Fez-se silêncio, com o eu ordenara, para que o conteúdo da pergunta fosse totalm ente com preendido, e, em seguida, os sacerdotes responderam , o olhar fixo em m im :

 

O que tem as m ãos lim pas e o coração puro,

Que não pensa nas vaidades

Nem j ura com perfídia.

Esse receberá a bênção do Senhor

E a recom pensa de Deus, seu Salvador.

 

Agora toda a com panhia de cantores entoava:

 

Esta é a geração daqueles que O buscam ,

Dos que buscam a presença do Deus de Jacob.

 

As trom betas soaram e os cím balos produziram um som m etálico, e toda a m ultidão de Israel ali reunida abriu o coração para saudar o regresso da Arca:

 

Levantai, ó pórticos, os vossos dintéis,

Levantai-vos, ó pórticos eternos,

Para que entre o rei da Glória!

 

Mas o coro de j ovens, com todos os instrum entos m usicais em repouso, entoou a pergunta:

 

Quem é este rei glorioso?

 

E eu respondi:

O Senhor forte e poderoso, O Senhor herói nas batalhas.

 

Toda a com panhia com eçou a cantar:

 

Levantai, ó pórticos, os vossos dintéis,

Levantai-vos, ó pórticos eternos,

Para que entre o rei da Glória!

Quem é este rei glorioso?

O Senhor dos Exércitos,

Ele é o rei glorioso.

 

Coloquei a m inha harpa de lado, e, avançando para o centro do espaço aberto em frente ao tabernáculo, subi a um plinto e falei ao povo. Falei em voz baixa, e, contudo, as m inhas palavras foram ouvidas por todos, e ecoaram pelas m ontanhas em redor:

- Quando os nossos antepassados se encontravam no deserto depois de terem fugido à tirania do Egito, o Senhor fez um a aliança com Moisés e com todos os Filhos de Israel, para que esta terra de Israel fosse nossa por todas as gerações vindouras. E a Arca, a habitação do Senhor, m arcou essa aliança.

« Depois, nos dias negros de Israel, no tem po do sum o sacerdote Eli, os filisteus conduziram um a guerra cruel contra Israel, e colocaram as suas m ãos ím pias na Arca da Aliança, tendo-a levado para as suas próprias cidades, para que Israel receasse que o Senhor tivesse virado as costas ao Seu povo. E quando a Arca nos foi tirada, a escuridão abateu-se sobre a terra, um a escuridão tão profunda com o um a noite de Inverno. Mas os Filhos de Israel continuaram a confiar no Senhor dos Exércitos, e o Senhor continuou a cuidar de nós. O grande rei Saul lutou contra os filisteus, e, ao seu serviço, um sim ples rapaz pastor, pela Graça do Senhor dos Exércitos, m atou o cam peão dos filisteus, o gigante Golias. Mas continuávam os privados da Arca.

« Sam uel ungira esse rapaz pastor com óleo para significar que ele era o Eleito do Senhor, e quando Saul, poderoso em batalha, foi cruelm ente m orto, esse rapaz pastor, eu próprio, tornou-se rei neste palácio. Em m uitas batalhas, com a aj uda dos m eus nobres soldados e a bênção e o braço forte do Senhor dos Exércitos, derrotei os filisteus e expulsei-os de Israel, até às portas de Gat. E obriguei-os a subm eterem -se a m im , à vontade de Israel e do Senhor dos Exércitos. Por isso eles entregaram a Arca da Aliança, que devolvem os hoj e à glória do Senhor, nesta cidade de Jerusalém , que a partir de hoj e será um lugar santo.»

Dizendo estas palavras, deixei escorregar do corpo o m eu m anto real, e caí ao chão, e fiquei nu em frente- de todo o povo, com exceção de um pano de linho am arelo que m e cingia os rins, com o se fosse o m ais hum ilde dos sacerdotes do Senhor. Em seguida, a um sinal m eu, os m úsicos tocaram e eu com ecei a dançar.

Não m e lem bro dessa dança; nunca a poderia ter repetido. Os m eus prim eiros passos, penso eu, foram lentos, m esm o, parece, sendo inseguros, com o se eu tivesse consciência da m inha tem eridade ao despir a alm a perante o Senhor.

Que é o Hom em , dizia a dança, para que Tu não o esqueças? E, à m edida que os passos colocavam esta que era a m aior das perguntas, eu inclinava o corpo, prim eiro para trás, depois para a frente, para que os m eus cabelos tocassem o pó da terra. Parecia, lem bro-m e, que estava fora de m im , e que testem unhava os m ovim entos deste corpo que se tornara servo da dança do Senhor.

Em seguida a m úsica tornou-se m ais rápida e a dança m ais selvagem , à m edida que falava da grandeza e da graça da criação do Senhor, das Suas dádivas a Israel e da grande generosidade que Ele dem onstrara para conosco. Fiz um a pausa, num m om ento de silêncio entre a m udança de ritm o, e coloquei os braços em volta do m eu corpo, parecendo encolher perante a m aj estade e o terror do Senhor. Então a dança voltou selvaticam ente a tom ar posse do intérprete, à m edida que falava do Senhor, poderoso na batalha, cuj o servo na destruição dos inim igos de Israel era o seu intérprete.

•E, enquanto isso, as pessoas que assistiam continuavam silenciosas

e quedas, com o as estrelas de Inverno, m as todas estavam dom inadas pelo êxtase, com o um am ante que contem pla a beleza do seu am or.

A m úsica parou quando a dança e o seu intérprete caíram ao chão,

hum ildes perante a Arca. E, daquela posição, sentindo a areia quente

do solo contra o corpo nu, levantei a cabeça e, sem acom panham ento,

cantei aquele salm o que fizera para Saul, quando a loucura o possuía:

O Senhor é o m eu pastor, nada m e falta...

Quando cheguei ao últim o verso: « A m inha m orada será a casa do

Senhor ao longo dos dias» , um arrepio de reconhecim ento perpassou

as pessoas que assistiam e estávam os todos unidos com o um só corpo,

um a só alm a, unidos em adm iração e tem or respeitoso pela m aj estade

e bondade do Todo-Poderoso.

Nesse m om ento, eu estava verdadeiram ente unido ao m eu povo, e m antive aquele silencio por m ais tem po do que necessitaria um hom em para inserir um a seta num arco e o deixar voar até ao coração do alvo. Mantive-o ainda por m ais tem po, até que o trem or dos m eus m em bros se apaziguou, e o bater acelerado do m eu coração abrandou. Então prostrei-m e perante a Arca, e com prim i o m eu corpo contra a m adeira, enquanto os sacerdotes entoavam a sua oração de graças ao Todo-

Poderoso. E, quando m e levantei, lim pei o suor da testa com o braço. Eu fizera tudo o que procurara fazer, e sabia que o m eu triunfo era absoluto. Mas sabia tam bém que era preciso guiar as pessoas que assistiam , das alturas do êxtase a que eu as elevara, pois um a grande m ultidão naquelas condições é algo incalculável. Por isso pareceu-m e que seria bom para m im conduzir as pessoas até aos planos da experiência com um , para que a intensidade das cerim ônias fosse seguida de um a disposição de dia santo feliz. Assim , eu dera instruções para que se preparasse um festim público, e fui eu próprio que orientei a distribuição do pão, carne, um bolo de passas e vinho a cada um dos presentes. Então, quando todos festej avam com alegria, retirei-m e para o m eu palácio.

O dia passava do seu zênite e eu ainda descansava, ao m esm o tem po que os sons de festa se elevavam até m im vindos da cidade por baixo. Eu estava consciente, lem bro-m e, de um a paz profunda, um a felicidade que vinha da m inha com preensão de que, naquele dia, eu m e ultrapassara a m im próprio, de que, para glória do Todo-Poderoso, eu criara, na cerim ônia, um a perfeita obra de arte.

Mandei cham ar um a das m inhas concubinas - não m e lem bro qual - e deitei-m e com ela para que fôssem os um a só carne, e, em seguida, m andei-a em bora, e adorm eci.

Quando acordei, a luz estava a desaparecer, e um servo entrou no m eu quarto com um a lam parina, e inform ou-m e de que Mical, sua senhora, desej ava falar-m e. Antes que eu pudesse dar o m eu consentim ento, a cortina foi puxada para o lado, e Mical encontrava-se na m inha presença. Ficou de pé j unto ao m eu leito, e, à luz tênue, a beleza angular do seu rosto foi suavizada, e eu senti por ela um desej o que m ão experim entava havia m uitos m eses. Estendi os braços, e ela cuspiu-m e na cara.

- Artista de circo - disse ela -, bobo. Que fiz eu para ser tão hum ilhada?

Eu pensei: •ela está zangada porque eu cham ei aquela concubina para o m eu leito e não a ela, no dia do m eu triunfo. Mas certam ente que ela se apercebe de que eu j am ais a trataria com o um obj eto cham ado para satisfazer as m inhas necessidades» . Pensei: « não se aperceberá de que o m eu am or por ela é de outro tipo? De outra natureza?-. Eu queria dizer-lhe tudo isto, m as, antes que eu pudesse falar, ela tirou-m e os agasalhos de cim a para revelar a m inha nudez.

- Desonraste-m e - disse ela, e a sua voz era fria com o as noites do deserto -, hum ilhaste-m e em frente de todo o povo. Com o foste capaz, tu, um rei, de dançar nu em frente das j ovens da cidade, sim , até em frente das prostitutas?! Com o pudeste? Não tens dignidade-? Achas que o m eu pai, o rei Saul, se teria exposto perante o povo, e esfregado a cabeça no pó com o um estúpido ou um louco?

Eu pensei: « ela não m e com preende. Nunca m e com preendeu. não tem qualquer conhecim ento do que devem os ao Todo-Poderoso» . Pensei: « e eu próprio tenho estado errado. Pensei que ela fosse um a criatura diferente das outras, alguém possuído de sublim idade, cuj a beleza exterior refletia a beleza da alm a. E iludi-m e, enganei-m e» .

Pensei: « é neste aspecto que eu tenho sido um louco» .

No entanto, não lhe respondi, pois não conseguia pensar em palavras que não fossem duras, e que não exprim issem a tristeza que eu agora sentia ao olhá-la. Ao m esm o tem po que o fazia, parecia que o tem po, a decepção e o desdém lhe tinham corroído até a beleza.

- Que glorioso foste! - disse ela. - Que coisa m aravilhosa, ver o rei a contorcer-se, nu, no pó!

- Mical - disse eu -, eu dancei perante o Senhor para honrar o Seu santo nom e, porque Ele m e escolheu com o rei de Israel, quando rej eitou o teu pai, Saul. Se achas que é desonra e desprezo eu m ostrar a m inha hum ildade perante o Senhor, lam ento por ti. Deixa que te diga, até as raparigas pobres da cidade, sim , e as prostitutas tam bém , com preenderam o que eu estava a fazer hoj e. Elas estavam em consonância com a m inha dança, porque, por m ais m iseráveis que possam ser na sua vida diária, elas hoj e vislum braram um reflexo da m aj estade do Todo-Poderoso. Mas tu, fechada em palácios, e desprezando o povo, desprezas tam bém o Todo-Poderoso, se m e desprezas a m im , Seu servo. Entristece-m e ver-te fechada no teu orgulho, egoísm o e ignorância, a ponto de não seres capaz... - estendi as m ãos quando vi o seu rosto gelado de incom preensão.

- Palavras - disse ela -, palavras. Sabes sem pre encontrar palavras para j ustificar tudo o que fazes, David. Usas palavras para fugires

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de m im , David, sem pre o fizeste. Saltas e escorregas para os lados, depois desapareces, e, contudo, insistes sem pre em que a luz brilha sobre ti, e até tu próprio és a causa da luz. Eu pensei: « o que ela está a dizer pode, de fato, ser verdade, m as não está relacionado com o que ela diz que lhe provocou a raiva. Ela tem vivido com igo com o a esposa que eu m ais am o, e, no entanto, não m e conhece, porque nunca quis conhecer-m e. Talvez nunca m e tenha am ado. Talvez sej a incapaz de am ar e sej a por isso que nunca tivem os filhos» .

Em seguida pensei: « m as eu tenho sido um louco. Fui capaz de a am ar, de lhe dizer que a am o, e de ter a certeza de que isso era verdade, apenas porque talvez eu próprio tenha recusado conhecê-la, e m e tenha convencido de que ela é o que eu queria que ela fosse e não aquilo que ela é verdadeiram ente, sej a o que for. Talvez essa sej a a coisa m ais pequena, m ais contrária à vida e a Deus que m e aparece agora pela frente» .

Este pensam ento deixou-m e triste, m as eu estava tam bém zangado. Deixei o m eu leito e enfrentei-a. Éram os da m esm a altura e olhei-a nos olhos, aqueles lagos escuros que eu achara tão m isteriosos e encantadores, e disse:

- Sim , Mical, pode ser que as prostitutas da cidade sej am m ais queridas ao Senhor do que tu, pois elas não O negam nos seus corações.

- Coisa vil - disse ela -, ator - e virou costas, abandonando os m eus aposentos.

Eu bebi vinho do j arro e descobri que trem ia. Tivéram os m uitas discussões ao longo dos anos que geralm ente term inavam conosco a fazer am or. Mas esta não podia term inar dessa form a. Eu via isso. Pensei: « chegam os realm ente ao fim . E não tenho a certeza se estou infeliz. Som os com o pessoas que se separam ao fim de um a viagem , e não há nada que se possa fazer» .

Dei ordens para que Mical fosse tratada com todas as honras e cortesia, m as que ficasse lim itada aos seus aposentos - até que, pensei,eu a pudesse estabelecer num a residência que fosse só dela -e que lhe fosse negado o acesso ao m eu espaço e à m inha pessoa.

Quando rej eitei Mical e ordenei que fosse excluída da m inha presença, o sopro frio do Inverno caiu sobre m im . Dera a Mical tudo o que podia; as m inhas m aiores façanhas foram realizadas por causa dela. No exílio, nas longas noites do deserto, a beleza dela viera ter com igo em sonhos, e tivera am antes que choravam quando eu acordava com o nom e dela nos lábios.

Agora eu pensava: « ela não passava de um a m ulher com um . A Mical dos m eus sonhos fora eu que a inventara. E esse pensam ento causava-m e dor. Eu supusera que a m inha casa estava construída sobre um a rocha, e descobri que as suas fundações m oviam -se com o as areias do deserto» .

Algo em m im se quebrou naquela altura, e j am ais foi reparado. Durante m eses não tive qualquer prazer com m ulheres, e as m inhas outras esposas e concubinas, de olhos baixos e pestanas úm idas de lágrim as, censuravam a m inha falta de interesse.

Para m e consolar, atirei-m e ainda m ais energicam ente à tarefa para a qual o Todo-Poderoso m e escolhera: transform ar as tribos de Israel num a nação poderosa e num estado uno. Trabalhava longas horas. Muitas vezes, a aurora tocava o céu de cor-de-rosa antes que a lam parina se extinguisse no m eu quarto, que era ao m esm o tem po local de trabalho.

No tem po de Saul, as responsabilidades pela adm inistração e pelo governo do povo eram distribuídas de um a form a casual e à sorte - o pobre Saul não percebia nada de m étodo. No seu tem po, os efeitos não foram calam itosos, pois a casa do rei era pequena, a sua autoridade fraca, e o alcance do governo lim itado. De fato, para dizer a verdade, eu chegara a ver que Saul, que eu receara e a quem servira com reverência na m inha j uventude, não era m ais do que um chefe guerreiro tribal. Com andava o exército, m as, entre o povo, eram os chefes das tribos e os hom ens m ais im portantes das aldeias que orientavam as coisas. E, nos assuntos da Lei, a ordem dos sacerdotes ainda vigorava, por vezes num a associação difícil com o costum e.

Agora eu via que isso não poderia ser assim . Por um lado, eu agora governava m ais povos do que os Filhos de Israel. Entre os m eus súbditos incluíam -se m uitos de outras tribos, e era necessário que eu regulam entasse as relações entre eles e im pusesse um a certa uniform idade. Nisso fui im ensam ente aj udado pela sagacidade de Aitofel, que quase com preendeu na totalidade quais eram os m eus obj etivos, aproxim ando-se m ais deles do que qualquer outro hom em -independentem ente da causa por que eu m ais tarde teria de censurar Aitofel, nunca escondi a m inha adm iração pela sua inteligência. Tam bém fui aj udado por Huchai, o erequita, que entrara ao m eu serviço com o funcionário, m as que eu depressa prom ovi devido à sua evidente inteligência. Huchai, sendo fraco de estatura e um pouco coxo da perna esquerda, não era soldado, e por isso, era desprezado por Joab. Mas, lem brando-m e dele, pensei: « aquilo que eu estou a tentar criar necessita de todos os tipos de talento, e um hom em desprovido de virtudes m ilitares pode, ainda assim , ser útil» . Verificou-se que eu estava certo quando pensara assim , pois o conselho de Huchai era astuto, e, encontrando-se m ais próxim o dos m eus filhos em idade do que eu próprio, ele podia m anter-m e inform ado quanto aos sentim entos que dom inavam os hom ens m ais j ovens. Tenho observado m uitas vezes com o os reinos entram em declínio à m edida que o rei avança em idade.

Um a das m inhas preocupações principais era fortalecer o exército, pois Israel estava rodeado de vizinhos invej osos e hostis. Recrutei um a esplêndida brigada de guardas - um corps d'élite, com o os sírios lhe cham am . Um batalhão estava sem pre ligado à m inha própria pessoa, para servir de guarda pessoal real, enquanto o outro servia com o corpo principal do exército, no ponto de m aior perigo. Os dois batalhões trocavam de posição de seis em seis m eses. Desta form a, eu assegurava que am bos estivessem em contacto pessoal com igo, e, na realidade, cada guarda prestava j uram ento de fidelidade ao rei, m ais do que a Israel. Muitos eram recrutados de tribos do outro lado das nossas fronteiras, especialm ente entre os filisteus, e eu estava sem pre pronto a adm itir no corpo estrangeiros de terras m ais distantes. Eu continuava m uito consciente das rivalidades e invej as que dividiam Israel. Assim , dava valor aos guardas que estavam livres de fidelidades tribais e que

serviam unicam ente a m im . Alistavam -se por um período de vinte anos, ao passo que o corpo principal do exército consistia de recrutas a curto prazo.

Manter um a tal força era caro, e eu dedicava m uita atenção à reform a do sistem a adm inistrativo, necessária para garantir o pagam ento de Im postos num a base regular e satisfatória. Eu sabia que isso poderia não ser um a m edida popular, m as, acreditando que era necessária, não fugi à tarefa, e confiei que a m inha reputação e autoridade natural seriam suficientes para assegurar a não totalm ente relutante obediência dos m eus súbditos. Além disso, eu estava ansioso por acum ular riqueza para poder, com o tem po, construir um tem plo digno da grandeza do Senhor dos Exércitos.

O com andante da guarda era Benaías, da m inha própria tribo de Judá, um hom em da m aior integridade. Não m e desagradou com pletam ente descobrir que Joab não gostava dele, e que Benaías não sentia qualquer afeição pelo m eu segundo com andante. De qualquer m aneira, Joab desej ava que o com ando da guarda fosse para o seu irm ão Abisai. Mas eu preferia Benaías. Muitos dos guardas, com o eu disse, eram filisteus, e Abisai m antinha o seu velho preconceito contra a nação deles. Não teria sido preciso m ais do que este fato para fazer dele um com andante inadequado - m esm o que não tivesse havido outros m otivos.

Um a vez que m encionei o m eu obj etivo de acum ular riqueza para construir um a casa digna do Senhor, parece-m e ser bom para m im dar com o falsas certas histórias que m e contam que foram inventadas relativam ente a este assunto.

Diz-se que, quando eu contei a m inha intenção a Natan, o profeta, ele m e censurou em nom e do Senhor, e m e disse que o m eu obj etivo era um a ofensa ao Todo-Poderoso. Este é, claro está, exatam ente o gênero de história em que os hom ens gostam de acreditar. Aparentem ente, Natan -por quem eu, incidentalm ente, sem pre tive a m ais elevada estim a - disse-m e, prim eiro, que o Senhor preferia habitar num a tenda do que num a casa de cedro; e, segundo, que o Senhor m e rej eitara com o construtor do Seu tem plo porque eu era um hom em de guerra, m anchado de sangue. O fato de se contarem estas duas histórias contraditórias com o se fossem com patíveis um a com a outra deveria ser suficiente para colocar am bas em questão.

É verdade, certam ente, que Natan, com o profeta itinerante, não gostava da idéia. Por outro lado, a casta sacerdotal dos levitas, de que o m eu am igo Ahiatar era agora chefe, apoiava entusiasticam ente a m inha am bição, e não tinha quaisquer dúvidas de que o Senhor veria com bons olhos a construção de um tem plo que testem unharia a Sua glória. Quanto à acusação de que eu era um hom em de sangue, era absurda; todas as m inhas guerras foram conduzidas em nom e do Altíssim o.

No m eio de tudo isto, o fato é que construir um tem plo é um enorm e e dispendioso em preendim ento. Eu não desej ava deixar ao m eu sucessor um a carga de dívidas. Assim , decidi que não com eçaria a construir enquanto não reunisse riqueza suficiente para financiar a idéia. Agora que o fiz, estou dem asiado velho e desprovido de energia para em barcar num a em presa, cuj a conclusão é certo que eu não poderia ver, pois não viveria o suficiente para isso. Assim , confiei a tarefa a Salom ão. Ele desem penha-la-á adm iravelm ente, pois herdou um gosto excelente tanto da m ãe com o de m im próprio. Salom ão deveria estar-m e agradecido pela longa e paciente acum ulação de riqueza que lhe perm itirá realizar a tarefa sem extorquir dinheiro ao povo nem sacrificar a sua popularidade. Mas a sua alm a gelada é incapaz de um a em oção tão generosa com o a gratidão. E ele não desej ará de form a algum a reconhecer a dívida que tem para com igo.

Mas nenhum rei devia procurar popularidade, em bora possa ficar feliz por ser recom pensado com ela. Se a ganhar, deve ter cuidado. O nosso povo é inconstante, e a popularidade é efêm era. Eu próprio tenho sofrido vicissitudes da sorte e conspirações contra a m inha vida. Felizm ente, graças à eficiência dos m eus serviços secretos, cuj a gestão confiei a Aitofel, tenho-lhes sobrevivido.

Sobrevivi tam bém a m ais de cem batalhas, graças ao Senhor. Destruí o poder dos filisteus. Subj uguei o reino de Moab. Triunfei sobre Edom e sobre a Síria. Fiz com que o m eu nom e fosse receado pelo m undo inteiro. Consolidei as fronteiras de Israel e em purrei os m eus inim igos à m inha frente com o o vento leva no seu sopro as areias do deserto. Ninguém antes de m im tornou o nom e de Israel um a palavra a tem er entre as nações do m undo.

Suportei e ultrapassei a traição. Quando Naás, rei de Am on, m orreu, enviei em baixadores a seu filho Hanun, para lhe assegurar que continuaria firm e na am izade para com ele, com o fora com seu pai. O j ovem era im petuoso e invej ava a m inha grandeza, que, de fato, im pressionara de tal form a Naás que ele se subm etera a m im com o seu suserano. O seu filho recebeu os m eus em baixadores com insultos e um desafio: cortou-lhes a barba e rasgou-lhes as roupas de form a a exibirem os órgãos sexuais. Em seguida form ou um a aliança com as tribos selvagens dos sírios, oriundos do outro lado do grande rio Eufrates, e fez guerra a Israel. A conselho m eu, Joab dividiu as nossas forças, em purrou Hanun até à sua cidade de Rabá, desbaratou as tribos Sírias, e cercou a cidade. Esta encontrava-se bem fortificada e o cerco foi longo e duro, m as eu estava calm o, pois não duvidava do nosso êxito final.

Não participei diretam ente nesta guerra, contentando-m e em dirigir o seu rum o de Jerusalém . Cansara-m e da guerra, e procurava prazer noutras coisas. Mas, desde que rej eitara Mical, não conhecera qualquer prazer. A m inha vida caíra num a disposição outonal, e só a atenção ininterrupta que eu dedicava aos assuntos de governo servia para esconder de m im a dor que sentia, e m e arrancava ao desespero. Até a m inha vocação para a poesia secou. E sentia-m e um a casca seca. Olhava as estrelas e descobria-as obscurecidas por nuvens pesadas.

Nas noites quentes do início do Verão, eu não conseguia dorm ir. Durante o dia era assaltado por um a lassidão a que não estava habituado, e sentia-m e perpetuam ente exausto. No entanto, quando m e retirava para o m eu quarto, o sono era-m e negado. Antigam ente, teria cham ado um a concubina, ou, ainda em tem pos m ais antigos, cham ava Laís ou outro rapaz. Agora não sentia qualquer inclinação para aquilo que em tem pos tinham sido prazeres, m as que, sentia-o agora, não m e traria nem alívio nem satisfação.

Eu alcançara glória perante todos os hom ens, e encontrara favor aos olhos do Senhor. E estava aborrecido e cansado de todas as coisas, até da m inha posição.

Não conseguia rezar. Não conseguia com por m úsica nem poesia.

Por vezes recordava as noites da m inha j uventude quando apascentava os nossos rebanhos nas m ontanhas por cim a de Belém . Do que tinha agora saudades era do que sentira tão intensam ente naquela altura: a ansiedade do m eu corpo e a vivacidade da im aginação da m inha alm a. Olhava agora por cim a dos terraços de Jerusalém e perguntava-m e porque é que as pessoas dorm iam , quando o rei não conseguia.

Um a noite eu estava especialm ente perturbado. Tivera nesse dia um a conversa acrim oniosa com Aitofel, que m e relatara que os seus agentes o tinham inform ado de um encontro entre Am non, o m eu filho m ais velho, e certos reis filisteus.

- Quem te deu autoridade para colocares os teus espiões atrás dos m eus filhos?

- Meu rei e senhor - respondeu ele -, é em prol da segurança de Israel que eu atuo.

Mas não acreditei nele, suspeitando que, por razões e obj etivos pessoais, ele desej ava colocar-m e contra Am non, que nunca gostara dele.

Eu disse:

- Am non é um rapaz de tem peram ento difícil e instável, m as am a-m e e é-m e fiel. Não desej o ouvir m ais nada sobre este assunto, e ordeno-te que retires os espiões que colocaste atrás dele.

- Muito bem , m eu rei e senhor - respondeu ele, m as distingui um tom de ironia na sua voz, e não podia ter a certeza de que ele m e obedeceria. E, contudo, eu não ousava destituí-lo, pois sabia que ele usara a sua posição para ganhar m uitos am igos e dependentes. Na verdade, eu sentia-m e rodeado por aqueles que eram m ais leais a Aitofel do que a m im próprio, David, o rei. E sabia que ele andara especialm ente em penhado a form ar a sua clientela entre os j ovens da corte e do exército. Eu receava que ele os tivesse colocado contra Am non; e, no entanto, sentia-m e im potente para agir contra Aitofel, tal com o era im potente para agir contra Joab.

Então, depois de o ter m andado em bora, dei com igo a perguntar-m e se a notícia que ele m e trouxera sobre os encontros de Am non com os filisteus poderiam não ser verdade. Eu am ava Am non, o m eu prim ogênito, filho de Aínoam , nos dias em que eu ainda não era rei, m as um fugitivo do ciúm e de Saul. Talvez porque a sua infância fora tão perturbada e perigosa, Am non crescera sem aquela confiança que eu sem pre senti, e que era tão evidente no seu irm ão m ais novo e m ais bonito, Absalão, filho de Maaca. Eu sabia que Am non tinha ciúm es de Absalão e receava que ele acreditasse, contra toda a lógica e todas as evidências, que eu preferia o seu irm ão m ais novo. Assim , em bora eu tivesse dado a Am non todas as provas do m eu am or e favor, ele não conseguia acreditar nessa realidade, pois não conseguia acreditar em si próprio.

Desta form a, eu não podia pôr com pletam ente de parte as inform ações dos espiões de Aitofel, e, no entanto, achava-as intoleráveis, e ficara ofendido com o que Aitofel afirm ava saber. Eu estava perplexo e perturbado, e a m inha alm a estava pesada de m aus presságios.

Nesta disposição de descontentam ento, deixei o m eu leito sem sono e cam inhei para o terraço que se abria para fora do m eu quarto.

O ar estava quente e a Lua erguia-se, alta, por cim a da cidade. No entanto, eu não conseguia sentir a glória do Senhor. Encostei-m e ao parapeito, e pensei que nunca estivera tão-só em toda a m inha vida, j á que, nas noites da m inha j uventude passada nas m ontanhas por cim a de Belém , eu sem pre estivera consciente do futuro glorioso que m e esperava. E agora tudo era pó e cinzas e desânim o.

Então um a figura m oveu-se num dos terraços das casas por baixo do palácio. Era um a m ulher. Alheia à m inha presença, ela despiu-se e com eçou a passar a esponj a pelo corpo, m olhando a esponj a num a bacia e deixando a água fresca deslizar-lhe pelo corpo. Por um m om ento, observei-a apenas com indolente curiosidade, e então, quando ela se inclinou de novo sobre a bacia, a Lua vagabunda ilum inou-a, e eu sustive a respiração. Nunca vira, eu estava disso plenam ente consciente, tal graciosidade de m ovim entos, tal perfeição de form as. O cabelo pendia-lhe sobre os seios e ela atirou a cabeça para trás, e as tranças caíram -lhe sobre as costas e ela passou a esponj a pelos seios. Depois, inclinando-se novam ente para a frente, passou a esponj a por entre as pernas. E o desej o cresceu em m im , e era com o se eu pudesse provar a m aciez húm ida da sua carne.

Ainda inconsciente de que eu a observava - agora com um a urgência que parecia im possível não dever ser-lhe com unicada, m esm o através dos terraços - ela ficou, por um m om ento, nua, os braços estendidos em direção à Lua que a adm irava. Em seguida, cobrindo-se com a fina túnica, desceu para a escuridão da sua casa.

Durante o que m e pareceu m uito tem po, observei o local por onde ela tinha desaparecido, com o se a força do m eu desej o a pudesse trazer de volta. Esse desej o tornara-se-m e de fato evidente. Agradeci ao Senhor por m e ter concedido tal visão e voltei para o m eu quarto e toquei um a sineta para cham ar um escravo, a quem ordenei que acordasse o m eu sobrinho Jonadab, que fizera m eu cam areiro.

Ele veio rapidam ente, esfregando o sono dos olhos, e, contudo, os m inutos que esperei pareceram -m e horas. Descrevi-lhe o que vira e perguntei-lhe diretam ente quem era a m ulher. Jonadab riu. Era um rapaz alegre, delgado e de rosto m agro, am ante da bisbilhotice (razão pela qual eu o selecionei para aquele cargo) e da intriga.

- É extraordinário, m eu rei e senhor - disse ele -, que perguntes, pois o nom e dela é Betsabé e é a m ulher m ais bonita de Jerusalém .

- Mas quem é ela e porque é que eu não a vi antes?

- Meu senhor, ela é m uito j ovem , é neta de Aitofel e só há pouco tem po veio para a cidade. Na verdade, só há pouco tem po é que se transform ou num a beldade. Há seis m eses era um a m enina engraçada e roliça e nada m ais. Conheci-a quando era criança, e devo dizer que nunca pensei...

- Vai-m a buscar.

- com certeza, m eu rei e senhor, só que - fez um a pausa e dirigiu-m e um sorriso no qual li m alícia e talvez algum a hesitação - há outra coisa que deves saber. Ela não é virgem , é um a m ulher casada.

- Um a m ulher casada? E Aitofel é avô dela?

- Assim é. Mas... - Jonadab voltou a sorrir, e, desta vez, só se lia m alícia - o m arido dela não está em Jerusalém . É um tal Urias, um hitita, oficial da tua guarda pessoal presentem ente ao serviço do rei no cerco de Rabá. O m eu tio desej a que a vá buscar?

-Jonadab - disse eu -, tenho de a possuir. É tão sim ples e terrível quanto isso. Sej am quais forem as conseqüências. Ele sorriu.

- Com preendo perfeitam ente - disse ele. - Mas ela não é um a m ulher que possa ser cham ada abertam ente para o que eu com preendo tão perfeitam ente. Sendo assim dir-lhe-ei que o rei recebeu notícias do m arido através de um m ensageiro do exército, notícias essas que desej a transm itir-lhe im ediatam ente e em pessoa.

Continuar: parte 3 de 3