Relíquias de Casa Velha
Scena Ix
O , MAGALHÃES
MAGALHÃES, a D. Leocadia.
Cavalcante disse-me que vae embora; eu vim correndo saber o que é que lhe receitou.
D. LEOCADIA
Receitei-lhe um remedio energico, mas que ha de salval-o. Não são consolações de cacaracá. Coitado! Soffre muito, está gravemente doente; mas, descancem, meus filhos, juro-lhes, á fé do meu gráo, que hei de cural-o. Tudo é que me obedeça, e este obedece. Oh! aquelle crê em mim. E vocês, meus filhos? Como vão os meus doentesinhos? Não é verdade que estão curados? (Sae pelo fundo.)
SCENA X
MAGALHÃES, D. ADELAIDE
MAGALHÃES
Tinha vontade de saber o que é que ella lhe receitou.
D. ADELAIDE
Não falemos disso.
MAGALHÃES
Sabes o que foi?
D. ADELAIDE
Não; mas titia disse-me que a cura se fará em dez annos. (Espanto de Magalhães.) Sim, dez annos; talvez dous, mas a cura certa é em dez annos.
MAGALHÃES, atordoado.
Dez annos!
D. ADELAIDE
Ou dous.
MAGALHÃES
Ou dous?
D. ADELAIDE
Ou dez.
MAGALHÃES
Dez annos! Mas é impossivel! Quiz brincar comtigo. Ninguem leva dez annos a sarar; ou sára antes ou morre.
D. ADELAIDE
Talvez ella pense que a melhor cura é a morte.
MAGALHÃES
Talvez. Dez annos!
D. ADELAIDE
Ou dous; não esqueças.
MAGALHÃES
Sim, ou dous; dous annos é muito, mas, ha casos... Vou ter com elle.
D. ADELAIDE
Se titia quiz enganar a gente, não é bom que os estranhos saibam. Vamos falar com ella, talvez que, pedindo muito, ella diga a verdade. Não leves essa cara assustada; é preciso falar-lhe naturalmente, com indifferença.
MAGALHÃES
Pois vamos.
D. ADELAIDE
Pensando bem, é melhor que eu vá só; entre mulheres...