Relíquias de Casa Velha
Scena V
D. LEONOR
Estou ás suas ordens.
D. CECILIA
Com licença. (Áparte, olhando para o ceu.) Ah! minha Nossa Senhora! (Retira-se pelo fundo.)
SCENA V
D. LEONOR, BARÃO
(D. Leonor senta-se, fazendo um gesto ao Barão que a imita)
BARÃO
Sou o Barão Sigismundo de Kernoberg, seu vizinho, botanico de vocação, profissão e tradição, membro da Academia de Stockolmo, e commissionado pelo governo da Suecia para estudar a flora da America do Sul. V. Ex. dispensa a minha biographia? (D. Leonor faz um gesto affirmativo.) Direi sómente que o tio de meu tio foi botanico, meu tio botanico, eu botanico, e meu sobrinho ha de ser botanico. Todos somos botanicos de tios a sobrinhos. Isto de algum modo explica minha vinda a esta casa.
D. LEONOR
Oh! o meu jardim é composto de plantas vulgares.
BARÃO, gracioso
É porque as melhores flores da casa estão dentro de casa. Mas V. Ex. engana-se; não venho pedir nada do seu jardim.
D. LEONOR
Ah!
BARÃO
Venho pedir-lhe uma cousa que lhe ha de parecer singular.
D. LEONOR
Fale.
BARÃO
O padre desposa a egreja; eu desposei a sciencia. Saber é o meu estado conjugal; os livros são a minha familia. N'uma palavra, fiz voto de celibato.
D. LEONOR
Não se case.
BARÃO
Justamente. Mas, V. Ex. comprehende que, sendo para mim ponto de fé que a sciencia não se dá bem com o matrimonio, nem eu devo casar, nem... V. Ex. já percebeu.
D. LEONOR
Cousa nenhuma.
BARÃO
Meu sobrinho Henrique anda estudando commigo os elementos da botanica. Tem talento, ha de vir a ser um luminar da sciencia. Se o casamos, está perdido.
D. LEONOR
Mas...
BARÃO, áparte
Não entendeu. (Alto.) Sou obrigado a ser mais franco. Henrique anda apaixonado por uma de suas sobrinhas, creio que esta que saiu d'aqui, ha pouco. Impuz-lhe que não voltasse a esta casa; elle resistiu-me. Só me resta um meio: é que V. Ex. lhe feche a porta.
D. LEONOR
Senhor barão!
BARÃO
Admira-se do pedido? Creio que não é polido nem conveniente. Mas é necessario, minha senhora, é indispensavel. A sciencia precisa de mais um obreiro: não o encadeiemos no matrimonio.
D. LEONOR
Não sei se devo sorrir do pedido...
BARÃO
Deve sorrir, sorrir e fechar-nos a porta. Terá os meus agradecimentos e as benções da posteridade.
D. LEONOR, sorrindo
Não é preciso tanto; posso fechal-a de graça.
BARÃO
Justo. O verdadeiro beneficio é gratuito.
D. LEONOR
Antes, porém, de nos despedirmos, desejava dizer uma cousa e perguntar outra. (O barão curva-se) Direi primeiramente que ignoro se ha tal paixão da parte de seu sobrinho; em segundo logar, perguntarei se na Suecia estes pedidos são usuaes.
BARÃO
Na geographia intellectual não ha Suecia nem Brazil; os paizes são outros: astronomia, geologia, mathematicas; na botanica são obrigatorios.
D. LEONOR
Todavia, á força de andar com flores... deviam os botanicos trazel-as comsigo.
BARÃO
Ficam no gabinete.
D. LEONOR
Trazem os espinhos sómente.
BARÃO
V. Ex. tem espirito. Comprehendo a affeição de Henrique a esta casa. (Levanta-se) Promette-me então...