Relíquias de Casa Velha

Machado de Assis · Capítulo 37 de 46

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Relíquias de Casa Velha

Scena V

D. LEONOR

Estou ás suas ordens.

D. CECILIA

Com licença. (Áparte, olhando para o ceu.) Ah! minha Nossa Senhora! (Retira-se pelo fundo.)

 

SCENA V

 

D. LEONOR, BARÃO

(D. Leonor senta-se, fazendo um gesto ao Barão que a imita)

BARÃO

Sou o Barão Sigismundo de Kernoberg, seu vizinho, botanico de vocação, profissão e tradição, membro da Academia de Stockolmo, e commissionado pelo governo da Suecia para estudar a flora da America do Sul. V. Ex. dispensa a minha biographia? (D. Leonor faz um gesto affirmativo.) Direi sómente que o tio de meu tio foi botanico, meu tio botanico, eu botanico, e meu sobrinho ha de ser botanico. Todos somos botanicos de tios a sobrinhos. Isto de algum modo explica minha vinda a esta casa.

D. LEONOR

Oh! o meu jardim é composto de plantas vulgares.

BARÃO, gracioso

É porque as melhores flores da casa estão dentro de casa. Mas V. Ex. engana-se; não venho pedir nada do seu jardim.

D. LEONOR

Ah!

BARÃO

Venho pedir-lhe uma cousa que lhe ha de parecer singular.

D. LEONOR

Fale.

BARÃO

O padre desposa a egreja; eu desposei a sciencia. Saber é o meu estado conjugal; os livros são a minha familia. N'uma palavra, fiz voto de celibato.

D. LEONOR

Não se case.

BARÃO

Justamente. Mas, V. Ex. comprehende que, sendo para mim ponto de fé que a sciencia não se dá bem com o matrimonio, nem eu devo casar, nem... V. Ex. já percebeu.

D. LEONOR

Cousa nenhuma.

BARÃO

Meu sobrinho Henrique anda estudando commigo os elementos da botanica. Tem talento, ha de vir a ser um luminar da sciencia. Se o casamos, está perdido.

D. LEONOR

Mas...

BARÃO, áparte

Não entendeu. (Alto.) Sou obrigado a ser mais franco. Henrique anda apaixonado por uma de suas sobrinhas, creio que esta que saiu d'aqui, ha pouco. Impuz-lhe que não voltasse a esta casa; elle resistiu-me. Só me resta um meio: é que V. Ex. lhe feche a porta.

D. LEONOR

Senhor barão!

BARÃO

Admira-se do pedido? Creio que não é polido nem conveniente. Mas é necessario, minha senhora, é indispensavel. A sciencia precisa de mais um obreiro: não o encadeiemos no matrimonio.

D. LEONOR

Não sei se devo sorrir do pedido...

BARÃO

Deve sorrir, sorrir e fechar-nos a porta. Terá os meus agradecimentos e as benções da posteridade.

D. LEONOR, sorrindo

Não é preciso tanto; posso fechal-a de graça.

BARÃO

Justo. O verdadeiro beneficio é gratuito.

D. LEONOR

Antes, porém, de nos despedirmos, desejava dizer uma cousa e perguntar outra. (O barão curva-se) Direi primeiramente que ignoro se ha tal paixão da parte de seu sobrinho; em segundo logar, perguntarei se na Suecia estes pedidos são usuaes.

BARÃO

Na geographia intellectual não ha Suecia nem Brazil; os paizes são outros: astronomia, geologia, mathematicas; na botanica são obrigatorios.

D. LEONOR

Todavia, á força de andar com flores... deviam os botanicos trazel-as comsigo.

BARÃO

Ficam no gabinete.

D. LEONOR

Trazem os espinhos sómente.

BARÃO

V. Ex. tem espirito. Comprehendo a affeição de Henrique a esta casa. (Levanta-se) Promette-me então...