Saúde da família: boas práticas e círculos virtuosos
Capítulo V – Círculos virtuosos e boas práticas
Capítulo V - Círculos virtuosos
e boas práticas
Fatores de acerto, fatores de
desacerto
Existe, inquestionavelmente, um vasto conjunto de pontos de
convergência entre as diversas experiências, mas seria possível
também indagar sobre o conteúdo das diferenças que
apresentaram. Propõe-se, à guisa de conclusão, a análise de tais
diferenças em termos dos antecedentes e conseqüências da ação
política de implementação do PSF, mediante um pequeno exercício
que tem por objetivo apreender um pouco mais da dinâmica das
experiências. O quadro abaixo organiza as categorias de análise
que serão desdobradas logo adiante.
QUADRO 16 – Contextos e desempenho das
experiências
ANTECEDENTES CONSEQÜENTES CASOS
(CONTEXTOS) (DESEMPENHO) CONCRETOS
Favoráveis Alto Curitiba,
niterói
Desfavoráveis Alto Ibiá, vitória da
conquista
Mistos Alto, depois Contagem
retrocesso
Dito de outra forma, o primeiro caso seria aquele em que “tudo
convergia para o melhor dos mundos” e, de fato, os acontecimentos
confirmaram os indicativos do contexto social e político. No segundo
caso, nem tudo era serenidade, no entanto, o desenvolvimento dos programas apresentou bons resultados. Já no terceiro, tanto havia
fatores negativos como positivos no contexto, mas o sucesso obtido
frustrou-se depois de uma eleição mal-sucedida, aliás, o único
evento dessa natureza entre todos os casos examinados.
Como interpretar estes fatos? Espera-se que uma retrospectiva
analítica das condições contextuais de cada caso (antecedentes) vis
a vis com o desempenho das respectivas experiências
(conseqüentes) poderia, quem sabe, elucidar as relações existentes
entre ambos.
Assim, em Curitiba e Niterói, o cenário prévio era de continuidade
política, tradição de luta e discussões pela saúde; presença de
lideranças de base carismática, empreendedora e ideológica;
equipes técnicas qualificadas; sociedade local com um bom grau de
organização; condições de sustentabilidade adequadas (pelo menos
em relação aos principais obstáculos políticos); presença marcante
de inovações (mais em Curitiba); forte articulação externa, além de
fatores culturais com peso positivo sobre as experiências.
O que aconteceu, nestas cidades, era o esperado: experiências
duradouras, sem diástoles marcantes, empenho de uma
comunidade epistêmica na saúde, enraizamento social dos projetos
e, também, não se pode esquecer, vitória e continuidade nas
eleições municipais. Como pano de fundo, práticas de bom governo
geral. Nestas duas cidades, valeria a conhecida afirmativa bíblica:
“onde mais se tem mais ainda será dado”.
Em Vitória da Conquista e Ibiá, ao contrário, os antecedentes das
experiências eram mais sombrios. O peso do clientelismo, da
influência do poder central do Estado e das tradições políticas
conservadoras era muito grande. A alternância de poder era apenas
formal, com revezamento de correntes políticas tradicionais e pouco
propensas a mudanças. A organização da sociedade e a presença
de uma tradição cívica apresentavam-se pouco relevantes. No
campo específico da saúde a situação era de baixo investimento,
pouca priorização e sucateamento, o que aliás afetava as políticas
sociais como um todo. Além disso, a iniciativa privada em saúde
mostrava-se pujante e agressiva, graças ao estado precário da
saúde pública, aliado a práticas ilícitas freqüentes. O que se chamou
de questão médica revelou-se de forma paradigmática nestes dois municípios. As condições sociais e econômicas diferiam nos dois
casos, apresentando o município mineiro uma economia com
resultados mais satisfatórios do que os de Vitória da Conquista,
devido ao declínio da cafeicultura nesta última cidade.
Apesar de tudo, como se viu, os dois municípios obtiveram
resultados satisfatórios na implementação de seus programas. Mais
do que isso, apresentaram práticas políticas de bom governo
evidentes, em muito ultrapassando a área da saúde, como
atestaram as premiações auferidas nacionalmente. Uma tríade de
participação social, substituição de modelo assistencial e
responsabilização pública foi marcante e com certeza produziu
resultados materiais importantes. Os dois municípios diferiram em
sua capacidade de articulação externa, principalmente pela
presença da rede PT em Vitória da Conquista (embora em menor
grau também em Ibiá). Em Vitória da Conquista foi possível também
um maior grau de conscientização e obtenção de adesão das
equipes ao projeto, sendo a ideologia o conhecimento técnico de
base de sustentação.
Outra característica que unia estas duas experiências e que as
diferenciava da de Contagem, cidade em que os antecedentes da
política forammais ou menos semelhantes, foi o fato de que em
ambas foi possível o prosseguimento das mudanças encetadas no
período iniciado em 1997, graças à reeleição dos respectivos
mandatários.
Havia uma série de fatores, de natureza política, envolvendo
inclusive os complexos bastidores das articulações eleitorais, mas
caberia indagar se o enraizamento social dos programas, mais
efetivo em Ibiá e Vitória da Conquista do que em Contagem, não
seria um atestado de sucesso político refletido no cenário das
eleições.
A situação dos antecedentes em Contagem teve
aproximadamente as mesmas características de Ibiá e Vitória da
Conquista. Mas, se por um lado nesta cidade atuava a força
avassaladora do populismo cardosista, por outro lado pode-se dizer
que ali também vigiam tradições de luta política sindical e mesmo
uma atuação histórica do poder público em saúde, com uma rede de
serviços relativamente bem estruturada. Configurava-se, assim, uma mescla de fatores favoráveis e desfavoráveis. A interpretação
possível dos descaminhos do PSF em Contagem poderia ser, em
primeiro lugar, o peso do fator tempo, dadas as características do
mandato-tampão recebido pelo prefeito e de sua equipe, que tinham
pela frente a execução de um grande projeto de mudanças na
saúde e não dispuseram de um prazo suficiente para fazê-lo, com a
marcante mudança de rumos políticos dada pela frustração nas
eleições de 2000. Além disso, a alta polarização eleitoral que se deu
em torno do PSF e de outras propostas da municipalidade, parece
ter provocado prejuízos políticos de monta e de certa forma
irreversíveis. Ao contrário, em Ibiá e Vitória da Conquista, onde este
fator também esteve presente, o mesmo não só foi neutralizado no
calor da campanha como até mesmo parece ter sido revertido em
benefício da proposta política do programa.
O PSF nacional e os programas
locais: sintonia ou dissenso?
Uma questão colocada no preâmbulo desta tese e para a qual se
poderia, nesta etapa, enunciar algum tipo de resposta é a da
procura de pontos de convergência e de divergência entre o
programa formulado nacionalmente vis a vis com os programas
supostamente apenas implementados nos municípios estudados.
Deve-se firmar alguns conceitos.
Primeiro: seria engano supor que a formulação do PSF seja uma
prerrogativa exclusiva do Ministério da Saúde, enquanto aos
gestores locais caberia apenas sua implementação. Ao gestor
federal cabe, sem dúvida, a ação de formular, mas ao mesmo tempo
está imerso em processos de implementação, recebendo
permanentemente retro-alimentação dos níveis locais. Ao mesmo
tempo, aos gestores locais cabe implementar mas têm de estar
atentos às nuances da dinâmica e do câmbio permanente da
realidade local – o resultado é que sua ação se dá em torno de um
complexo de interações que inclui formulação-implementação-avaliação-reformulação, nem sempre necessariamente nesta ordem
e com conexões importantes entre si.
O segundo aspecto é que falar em convergências e divergências
entre a política nacional e as políticas locais talvez não seja o mais
apropriado. Ao ser implementada, nenhuma política ou ação de
governo obedece rigorosamente ao roteiro traçado quando da sua
formulação. Os fatores perturbadores de natureza política,
institucional, cultural, conjuntural são muito variados e dificilmente
estariam sob controle, como enfatiza a literatura referente à análise
de políticas, já debatida no Capítulo 2 deste trabalho. No caso do
PSF esta “falta de controle” é uma possibilidade concreta,
confirmada sobejamente pelas experiências visitadas, à medida que
as soluções locais diferenciadas, e até mesmo personalizadas, são
bastante freqüentes.
Há um terceiro aspecto a considerar, que está ligado à dinâmica
de funcionamento do organismo federal encarregado de coordenar o
PSF nacionalmente, ou seja, o Departamento de Atenção Básica da
Secretaria de Políticas de Saúde do Ministério da Saúde (DAB).
Este é o setor que centraliza as demandas encaminhadas pelos
municípios que operam o PSF, que já se contam em alguns milhares
no país. Uma das características distintivas do setor é o seu corpo
técnico, formado por gerentes e técnicos freqüentemente oriundos
de estados e municípios, muitos deles ex-coordenadores locais de
PSF, com atribuições de realizar a condução do Programa. A
compreensão do papel de tal burocracia deve distanciar-se de
alguma das teorias conspiratórias e satanizadoras ainda vigentes a
respeito da mesma, mesmo porque este ator não é e jamais foi
monolítico – afinal, a burocracia é um agente que institui para a
sociedade, mas também é instituído por esta e assim transita
permanentemente dentro de um sistema de contradições e brechas,
de equilíbrios que se refazem a cada momento, de processos
negociados que predominam sobre as imposições ou meras
concessões, conforme foi explorado no Capítulo 11. Este seria
atualmente um caso comum nos órgãos públicos federais, com
novos estratos de gerentes – uma nova burocracia – exercendo
papéis de formulação e acompanhamento de políticas. Isto reforça a
hipótese de que o tema das divergências e convergências deva ser tratado de forma relativizada, apontando mais para uma situação em
que predominam os ajustes mútuos e não as imposições.
O DAB reúne algumas características marcantes, que dão a
tônica de sua atuação em termos da condução do PSF no país. Em
primeiro lugar, sua equipe tem articulações e origem municipais
freqüentes, configurando um quadro autêntico de executivos
públicos da saúde. Sua prática administrativa tem sido não só
trabalhar com técnicos arregimentados nas bases do sistema, como
também envolver estas mesmas bases na execução de tarefas sob
responsabilidade do DAB, formando, por vezes, estruturas matriciais
típicas para o desempenho das mesmas. O Departamento, assim,
se torna sede e também propulsor de alguns círculos virtuosos
políticos e administrativos trilaterais, envolvendo os gestores federal,
estaduais e locais.
Nestes aspectos, aliás, o DAB tem mostrado diferenças em
relação às práticas de outros setores mais tradicionais e autônomos,
vinculados à estrutura do Ministério da Saúde. Veja-se, por exemplo,
a FUNASA e os extintos CEME e INAN, entidades portadoras de
práticas historicamente centralizadoras, pouco afeitas ao grau de
compartilhamento de responsabilidades, como se vê nos domínios
dessa nova burocracia, salvo exceções.
Além disso, é importante lembrar que o DAB tem sido um ator
externo importante e destacado entre os interlocutores municipais.
Em muitos casos ele é arrolado entre os principais apoios que o
programa recebeu, maior até do que alguns que seriam mais lógicos
ou mais próximos. A maneira como o setor vem conduzindo suas
atribuições mostra também uma certa visão de processo, ou seja,
uma posição evolutiva, em que prevalece a cooperação e o
aprendizado mútuo, dentro do qual o normativismo e o dogmatismo
de alguns anos atrás vem sendo substituído por uma visão mais
pragmática e flexível, o que, mais do que apenas afirmado
textualmente, é objeto de constatação ao se analisar a trajetória do
órgão. “há um passado rígido, mas o momento atual é de
flexibilização sem perder a inflexibilidade nos princípios, com
atenção especial para a riqueza das inovações”, nas palavras de
sua Diretora na entrevista concedida para este estudo.
Na verdade, é bom lembrar que o projeto do Ministério da Saúde
iniciouse em 1993, justamente com uma consulta a um grupo de
municípios e outras entidades que já então praticavam algo
semelhante ao que o ministro Henrique Santillo e seus assessores
desejavam. Não surgiu do nada e nem tampouco de elucubrações
tecnocráticas, portanto.
Em tentativa de sistematizar as dinâmicas de relacionamento
entre Ministério da Saúde e municípios, particularmente no caso
presente do PSF, pode-se enumerar alguns padrões de contato
entre os dois níveis, a saber: (a) os municípios elaboram propostas
que se antecipam às do nível central; (b) o Ministério demanda
ativamente a cooperação dos municípios em seus processos
internos específicos; (d) as propostas próprias dos municípios
caminham de forma inercial e involuntária e, às vezes, até se
disseminam, com, sem ou apesar do gestor federal; (e) o Ministério
da Saúde provoca ajustes em sua propostas, de forma a atender o
que se evidencia como fato social.
Estas considerações permitiriam enunciar o que pode também ser
denominado de boas práticas de gestão verificadas no
relacionamento entre o Ministério da Saúde e municípios, quando o
tema é o PSF, delineadas a seguir:
a. Parece produtivo o exercício de uma visão de processo em
relação ao acompanhamento das experiências e à própria
proposição de normas e instrumentos, dada a capacidade
freqüentemente demonstrada, mesmo pelos gestores
“pequenos”, de produzirem inovações e até mesmo se
anteciparem à diretriz superior. Veja-se os casos de Ibiá e
Vitória da Conquista, por exemplo;
b. A tônica no aprendizado mútuo é fundamental, principalmente
considerando as muitas situações de antecipação ou mesmo de
propostas municipais que passam a ter curso livre entre pares,
até de forma extemporânea ou paralela em relação ao
movimento ou ao desejo do Ministério de valorizá-las ou
aproveitá-las;
c. Como decorrência do postulado anterior, abrem-se
possibilidades de cooperação horizontal, ou seja, aquela que
surge de forma até mesmo espontânea (às vezes formalizada)
entre os próprios municípios, para a qual cabe ao Ministério da
Saúde não só o papel de identificar e sistematizar, como
também de fomentar e facilitar sua circulação;
d. É ainda necessário aprofundar a melhor definição de papéis
das esferas de governo, como decorrência do pacto federativo
complexo brasileiro. Neste aspecto, ausências notáveis, no
caso, das SES em relação ao PSF, deveriam ser justificadas ou,
senão, corrigidas;
e. Práticas de incentivos e emulações, não necessariamente de
base material, como a mostra de PSF, premiações e honrarias
demonstrou ter um papel fundamental, não só em termos
simbólicos, como, também, como base concreta da
sustentabilidade política de algumas experiências em curso,
particularmente daquelas instaladas em ambientes políticos e
sociais adversos;
f. A questão das áreas de sombra, por exemplo, financiamento,
referências, recursos humanos, implantação em grande
centros, cobertura a setores especiais (populações rurais,
dispersas, assentamentos de reforma agrária, índios e outros)
deve receber prioridade absoluta por parte da atuação dos
gestores;
g. O PSF tem se revelado uma modalidade de integração de
políticas públicas em saúde como ainda não se viu na história
sanitária do país, formando autênticos amálgamas, em que
finalmente integramse os aspectos individuais e coletivos,
preventivos, promocionais e curativos da atenção à saúde – isto
evidentemente deve continuar a ser levado em consideração
nos processos de decisão internos e na definição das
prioridades da ação.
Em busca de uma síntese
Em busca de uma síntese abrangente de todo o caminho
percorrido caberia agora as questões seguintes: o que realmente as
experiências visitadas têm em comum? Embora as muitas diferenças encontradas, o que não seria inesperado aliás, dada a
diversidade e a heterogeneidade das situações sobre as quais
foram construídas, uma série de pontos comuns podem ser
arrolados entre as referidas experiências:
a. Realizam-se em ambientes em que as condições de gestão do
SUS já se encontram amadurecidas, com a Gestão Plena do
Sistema Municipal formalmente implementada, nos termos da
nob 96 e que, além do mais, as práticas de assistência e gestão
encontradas são de perfil mais avançado, configurando uma
gama ampliada de responsabilidades: individuais e coletivas;
preventivas e curativas; técnicas e políticas; locais e regionais;
imediatas e remotas;
b. Acumulam evidências de que resultam de um somatório de
práticas inovadoras e bem-sucedidas de assistência e gestão,
não só no campo restrito e específico da saúde, mas também
em outras áreas de governo; e, mais ainda, que esse cenário
de práticas está inserido em um ambiente onde predominam: a
decisão política forte; a continuidade administrativa e política; a
qualificação técnica significativa; o engajamento consciente dos
servidores nos projetos de mudança;
c. Articulam-se a amplas redes de contatos externos, nacionais e
internacionais, de natureza formal ou informal, configurando um
cenário de cosmopolitismo político e sanitário;
d. Desfrutam, de modo geral, de ampla visibilidade externa,
graças não apenas à rede de contatos referida, como ao
esforço local de envolvimento no cenário nacional das
discussões e da produção científica relativas ao sistema de
saúde;
e. Nelas despontam freqüentemente lideranças jovens, altamente
articuladas fora das fronteiras municipais, qualificadas
empiricamente e, sobretudo, portadoras de traços de
personalidade carismáticos e voluntaristas além de serem
militantes partidários assumidamente imbuídas de ideologia
política;
f. A ação é subsidiada pelos conteúdos essenciais da Reforma
Sanitária e do SUS, sem impedimento de que já despontem no
horizonte tendências de incorporação de uma nova pauta de
discussões contemporâneas envolvendo, por exemplo,
qualidade de vida, vigilância e promoção da saúde, ética,
humanização, além de outros temas;
g. São portadoras de um discurso especialmente alinhado com a
democratização e a participação social no sistema de saúde,
fazendo do mesmo um instrumento de proselitismo político que
nem sempre corresponde à mobilização objetiva da sociedade
em torno das propostas defendidas, particularmente no campo
da Saúde da Família, embora o cumprimento formal dos
dispositivos do SUS referentes à participação e controle social
constitua regra geral;
h. Embora o PSF seja bem aceito pelas comunidades,
predominam em relação ao mesmo, por parte das
representações de usuários, posturas de “gratidão” e
reconhecimento em relação ao que já foi alcançado e de
manutenção das conquistas, mas não necessariamente
reivindicações pró-ativas para a implantação ou para a
reformulação dos conteúdos dos programas oferecidos;
i. São mais expressivas as possibilidades de se ter melhores
Programas de Saúde da Família, como de resto práticas de
políticas e serviços sociais mais qualificadas naqueles
municípios onde a sociedade se encontra melhor organizada
nas suas entidades representativas, seja no plano político geral
ou em relação a temas e setores específicos, como, por
exemplo, moradores, portadores de patologias e outros grupos
de interesse, configurando o que se denominou de comunidade
cívica e capital social.
j. Os ritmos de implementação dos PSF têm como regra a
aceleração, ou mesmo uma autêntica explosão (big bang),
guardando, por vezes, sintonia com os ciclos do calendário
político-eleitoral vigente nos municípios;
k. Mesmo as experiências que propuseram-se a um caráter
substitutivo mais radical em relação ao modelo de assistência
tradicional, muitas vezes mostraram dificuldades em assumir tal
característica de forma abrangente, tendo em vista a
persistência de elementos tradicionais no padrão da atenção e
a competição destes com os novos dispositivos implantados,
neutralizando-os ou enfraquecendo-os;
l. Os obstáculos comprometedores da sustentabilidade dos
programas, representados pelas questões do financiamento,
das referências especializadas, da cultura e dos recursos
humanos apresentaram-se de forma generalizada, constituindo
muitas vezes situações que escapavam ou ultrapassavam a
governabilidade local;
m. No caso da política de recursos humanos, ao lado das
pendências ainda pulsantes, mostrou-se também uma
extraordinária capacidade local de articulação para a solução
de problemas, de que um bom exemplo é o processo de
capacitação e de contratação;
n. A questão médica continua a ser um dos aspectos
problemáticos e propensos ao desenvolvimento de dificuldades
tardias que poderão comprometer a sustentabilidade de muitos
programas;
o. As experiências tiveram como característica marcante o fato de
representarem um efeito “espelho”, ou seja, de se converterem
em pontos de atração da visão externa sobre a realidade local,
cumprindo um importante papel pedagógico e de cooperação
técnica horizontalizada;
p. Saúde da Família mostra-se contemporaneamente como um
grande e competitivo mercado de trabalho no país, não só para
os membros das equipes técnicas das diversas formações,
como também para os cargos de direção superior, configurando
mesmo uma nova categoria de agentes, os executivos públicos
da saúde;
q. Fatores culturais de diversas naturezas, sejam ligados aos
usuários, sejam aos profissionais, perpassam o quadro das
experiências, influenciando seu desenvolvimento de forma
negativa ou mesmo positiva, mas, de toda forma, exigem maior
investimento material e intelectual na sua compreensão e na
sua abordagem;
r. As ausências notáveis na cooperação técnica aos municípios,
no caso das instituições de ensino superior na área da saúde e
das Secretarias de Saúde estaduais, são questões
perturbadoras sobre o desenvolvimento do sistema de saúde e
do PSF em particular, que exigem maior atenção das
autoridades da área educacional e do SUS;
s. Revelam-se áreas de sombra diversas, algumas desveladas,
outras não, que denunciam a necessidade de avanço em
relação a muitos dos desafios ainda enfrentados pelo PSF,
citando-se, como exemplos, a abordagem da questão cultural, o
desenvolvimento de processos de avaliação de impacto, a
articulação com a sociedade, o desenvolvimento de protocolos
assistenciais, entre outros.
As boas práticas e os ciclos virtuosos
no PSF
Como decorrência imediata da síntese acima procedida, em que
linhas de união mostram-se ao longo do conjunto de casos, uma
última questão pode ser colocada: “que lições (“boas práticas”)
foram possíveis de serem apreendidos nestas experiências?”
A lista abaixo oferece uma tentativa de sistematização, mas
certamente não tem caráter exaustivo, dada a riqueza e a
complexidade dos processos em jogo. Além do mais, procurou-se
inserir nestas linhas apenas aquilo que parece interessar ao maior
conjunto possível de atores, deixando de lado, portanto, aspectos
considerados demasiadamente particulares ou de aplicação muito
restrita.
a. Boa condução é muito importante e, entre seus atributos,
podem ser arrolados capacidade de tomada de decisões,
liderança, carisma, espírito empreendedor, embasamento
ideológico, além de qualificação técnica e continuidade;
b. A boa condução teria pouco a oferecer se não contasse com
boas equipes técnicas, aspecto que pode ser traduzido por
qualificação de conhecimentos, tradição de discussões em
saúde, base ideológica, capacidade empreendedora associada
a militância, sintonia com o projeto político, aceitação da
liderança, organização e inserção em entidades
representativas;
c. Boas práticas sociais também possuem um lugar de destaque,
traduzidas por equilíbrio e sintonia entre as propostas de
participação originadas do governo e as da sociedade;
associação sinérgica entre as noções de responsabilidade
pública e de direito à saúde, bem como produção de efeitos
concretos como resultado de tais práticas;
d. Como decorrência, a presença de um bom governo, que se
traduz por práticas políticas e administrativas transparentes,
efetivas e socialmente aceitáveis, que se estendem bem além
do campo da saúde, tendo como substrato ideológico as
noções de cidadania, direitos coletivos e responsabilidade
pública;
e. Boa articulação externa ou a prática de um cosmopolitismo
político e sanitário, de preferência direcionada a interlocutores
seletos individuais ou institucionais, que sejam capazes de
oferecer respaldo técnico e cobertura política ao
desenvolvimento dos projetos e programas de governo;
f. Boa implementação programática, o que significa investimento
em padrões efetivamente substitutivos dos modelos de atenção,
buscando a neutralização da competição e do antagonismo
com os elementos estruturais e ideológicos dos velhos regimes
de práticas;
g. Desenvolvimento de inovações, seja do ponto de vista gerencial
ou assistencial, diferenciando-as das meras novidades, mas
tendo como diretriz norteadora a ousadia e o destemor frente às
possibilidades de erro e reversão;
h. Busca decidida da sustentabilidade das práticas desenvolvidas,
não só em termos financeiros e de estrutura e processos, mas
também nos planos cultural, simbólico e político, resultando no
necessário enraizamento das experiências no imaginário da
comunidade de usuários e dos tomadores de decisão;
i. Efeito espelho: articulação e difusão da experiência local entre
interlocutores externos, diferenciados ou não, configurando a
responsabilidade por uma pedagogia do exemplo fundamental
no processo de construção de políticas públicas.
Rio de Janeiro, Brasília, Povoado do Moinho-Goiás
setembro de 1999 a outubro de 2002
(Revisado em agosto de 2006)
SIGLA SIGNIFICADO
AB Atenção Básica
ABEM Associação Brasileira de Ensino Médico
ABRASCO Associação Brasileira de pós-Graduação
em Saúde Coletiva
ACS Agente Comunitário de Saúde
AIH Autorização de Internação Hospitalar
AIS Ações Integradas de Saúde
AMA American Medical Association
ANC Assembléia Nacional Constituinte
APM Associação Paulista de Medicina
APS Atenção Primária à Saúde
ASAS Associação de Apoio à Saúde
Conquistense (de Vitória da Conquista)
BA Bahia (estado)
BM Banco Mundial
CEBES Centro Brasileiro de Estudos de Saúde
CIB Comissão Intergestores Bipartite
(estadual)
CIT Comissão Intergestores Tripartite
(nacional)
CLT Consolidação das Leis do Trabalho
CMS Conselho Municipal de Saúde
CNRM Comissão Nacional de Residência
Médica
CNS Conselho Nacional de Saúde
CONASEMS Conselho Nacional de Secretários
Municipais de Saúde
COSAC Coordenação de Atenção à Saúde da
Comunidade (extinta)
COSEMS Conselho Estadual de Secretários
Municipais de Saúde
CPMF Contribuição sobre Movimentação
Financeira
CSEM Centro de Saúde Escola Murialdo
DAB Departamento de Atenção Básica (do
Ministério da Saúde)
DST Doenças Sexualmente Transmissíveis
EC 29 Emenda Constitucional 29
ENSP Escola Nacional de Saúde Pública (da
FIOCRUZ)
ESF Equipe de Saúde da Família
EUA Estados Unidos da América
FAMUC Fundação Municipal de Saúde de
Contagem
FAT Fundo de Amparo ao Trabalhador
FHC Fernando Henrique Cardoso (governo)
FIOCRUZ Fundação Oswaldo Cruz (do Ministério
da Saúde)
FMI Fundo Monetário Internacional
FMS Fundação Municipal de Saúde (de
Niterói)
FUNASA Fundação Nacional de Saúde
GHC Grupo Hospitalar Conceição
GIH Guia de Internação Hospitalar
(substituída desde a década de 80 pela
AIH)
GPAB Gestão Plena da Atenção Básica
GPSM Gestão Plena do Sistema Municipal
IDH Índice de Desenvolvimento Humano
IMS Instituto de Medicina Social (da UERJ)
INAMPS Instituto Nacional de Assistência Médica
da Previdência Social (extinto)
INPS Instituto Nacional de Previdência Social
(extinto)
INSS Instituto Nacional de Seguridade Social
IPEA
Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada
ISC Instituto de Saúde Coletiva (da UFBA)
LAPA Laboratório de Planejamento Estratégico
(da Unicamp)
MEC Ministério da Educação do Brasil
MG Minas Gerais (estado)
MGC Medicina Geral Comunitária
MPAS Ministério da Previdência e Assistência
Social do Brasil
MPS Medicina Preventiva e Social
MS Ministério da Saúde do Brasil
NESUR Núcleo de Estudos Urbanos (da
Unicamp)
NHS National Health System (da Inglaterra)
NOAS Norma Operacional da Assistência à
Saúde
NOB Norma Operacional Básica
OMS Organização Mundial da Saúde
ONU Organização das Nações Unidas
OECD Organization of Economic Cooperation
for Development
OPAS
Organização Pan-Americana de Saúde
PAB Piso da Atenção Básica
PACS Programa de Agentes Comunitários de
Saúde
PAM Postos de Assistência Médica (da antiga
Previdência Social)
PEC Proposta de Emenda Constitucional
PDS Partido Democrático Social (ex ARENA)
PIB Produto Interno Bruto
PISUS Programa de Interiorização do Sistema
Único de Saúde (extinto)
PMDB Partido do Movimento Democrático
Brasileiro (ex MDB)
PMF Programa Médico de Família (de Niterói)
PMVC Prefeitura Municipal de Vitória da
Conquista
PPA Plano de Pronta Ação do Governo
Federal (1999)
PR Paraná (estado)
PRO-UNI Programa União Universidade,
Comunidade e Serviço (da Fundação
Kellog)
PSC Programa Saúde em Casa (do Distrito
Federal – extinto em 1999)
PSDB Partido da Social Democracia Brasileira
PSF Programa de Saúde da Família
PPI Programação Pactuada e Integrada
PT Partido dos Trabalhadores
PUC-MG Pontifícia Universidade Católica de
Minas Gerais
PV Partido Verde
REFORSUS Programa de Reforço à Reorganização
do SUS
RJ Rio de Janeiro (estado)
RS Rio Grande do Sul (estado)
SAS Secretaria de Assistência à Saúde (do
Ministério da Saúde)
SES Secretaria Estadual de Saúde
SESP Fundação Serviços Especiais de Saúde
(FSESP) Pública
SIAB Sistema de Informação da Atenção
Básica
SIA-SUS Sistema de Informações Ambulatoriais
do SUS
SILOS Sistemas Locais de Saúde
SINAN Sistema de Informação de Agravos
Notificáveis
SMS Secretaria Municipal de Saúde
SPS Secretaria de Políticas de Saúde (do
Ministério da Saúde)
SUDS Sistemas Unificados e Descentralizados
de Saúde
SUS Sistema Único de Saúde
UAI Unidade de Atendimento Integrado (de
Contagem)
UCA Unidade de Cobertura Ambulatorial
UERJ Universidade do Estado do Rio de
Janeiro
UESB Universidade Estadual do Sudoeste da
Bahia
UFBA Universidade Federal da Bahia
UFF Universidade Federal Fluminense
UFMG Universidade Federal de Minas Gerais
UFRGS Universidade Federal do Rio Grande do
Sul
UFU Universidade Federal de Uberlândia
ULBRA Universidade Luterana do Brasil
UnB Universidade de Brasília
UNICAMP Universidade de Campinas
UNICEF
Fundo das Nações Unidas para a
Infância
URV Unidade Real de Valor
VIII CNS Oitava Conferência Nacional de Saúde
(1986)
WB World Bank
WHO World Health Organization