Saúde da família: boas práticas e círculos virtuosos
Capítulo II – Saúde da família no Brasil: do movimento ideológico à ação política
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Capítulo II - Saúde da família no
Brasil: de movimento
ideológico a ação política
Formação da política
É na década de 60 que se situam alguns dos eventos-chave para
o entendimento da formação das idéias que acabaram
desembocando no caudal que deu origem ao Programa de Saúde
da Família no Brasil.
Paim (1997) resgata um pouco da história de tais idéias, a partir
dos movimentos do “preventivismo”e da “saúde comunitária” e
também de uma produção teórica e crítica da saúde coletiva no
Brasil, chamando a atenção para uma “luta contra-hegemônica” que
envolveu a construção de novos modelos de atenção à saúde.
Assim, mediante seus componentes de saber, ideologia e ação
política, teria ocorrido o deslocamento de uma ênfase centrada
meramente nos serviços para as condições de saúde e seus
determinantes, com práticas imbuídas de caráter social e dimensões
simultaneamente técnicas, políticas e ideológicas.
Este mesmo autor percorre a trajetória de alguns dos paradigmas
de saúde-doença, entre eles o PSF, destacando que alguns dos
mesmos foram elaborados em contextos externos ao país, sendo
apenas atualizados no Brasil. Tais seriam os casos das teorias do
campo da saúde de origem canadense, da promoção da saúde
(OPAS/OMS) e da vigilância à saúde, capazes de conferir novos
sentidos para as questões formuladas pelo movimento sanitário em
décadas passadas. É assim que um certo movimento ideológico
passaria a possuir um caráter de ação política, conduzida por atores
dos serviços de saúde, da academia e da sociedade como um todo.
Tal “importação” de idéias e projetos não está, naturalmente,
isenta de críticas e contradições. Testa (1992), por exemplo, detém-
se às propostas de saúde que têm origem estrangeira, como os
casos citados acima. Segundo este autor, as diferenças econômicas
e culturais entre os países acabam por resultar em imposição de
cópias ineficazes daquilo que é funcional apenas em outras
realidades. O problema, segundo este autor argentino, é que os
receptores de tais propostas raramente detêm condições de realizar
uma “conceituação totalizante”, incorporando elementos diversos,
tais como: contexto político, participação e ideologia dos grupos
sociais, tecnologia disponível no setor, além das relações que tais
elementos possuem com a sociedade global e seus conflitos. Assim,
pode-se dizer que o fracasso de muitas tentativas de transplante de
propostas entre realidades diferentes seria o resultado da não-
observância dos aspectos acima considerados, ou, textualmente:
“[…] por isso é que existem tantos tipos de sistemas […] quase
todos consideravelmente ineficazes”. (TESTA, 1992).
Um dos paradigmas que fazem parte do percurso ora comentado
é o da Medicina Comunitária. Sua trajetória no Brasil foi analisada
por diversos autores, como Donnangelo e Pereira (1979), Arouca
(1975), além de outros. Na origem da importação de tal conceito,
ocorrida nos anos 60, estariam algumas experiências e programas
desenvolvidos e mantidos por universidades, entre elas a Unicamp.
Suas raízes, entretanto, estão vinculadas tanto à crise do
capitalismo como ao impacto dos resultados da implementação dos
welfare states na Europa ou ainda à formação do National Health
System no Reino Unido, entre outras. Esta vertente estaria também
associada à política externa norte-americana dos anos 60, voltada
para os países pobres da América Latina, também conhecida como
Aliança para o Progresso, que difundiu nos países-alvo sua
proposta de saúde, com o apoio das agências internacionais. É
dessa forma que surgem programas experimentais em diversos
países, inclusive no Brasil, que propõem modelos de assistência nos
quais a extensão de cuidados à saúde às populações pobres estaria
garantida.
A medicina comunitária viria a ter seu substrato teórico, político e
ideológico consagrado e expandido na Conferência Internacional de Alma Ata, em 1978, a partir da qual ela praticamente se confunde
com as palavras de ordem geradas no evento, particularmente
atenção primária à saúde (APS). O relatório final da conferência
(WHO, 1978) transformar-se-á, a partir de então, em peça
fundamental do proselitismo dos organismos internacionais, não só
sanitários como de fomento econômico, junto aos países periféricos.
As propostas aqui referidas, seja de medicina comunitária, na
vertente norte-americana, ou da APS, na proposta da OMS e
UNICEF se constituem em torno de alguns elementos estruturais, os
quais, segundo Silva Junior (1998) são: (a) coletivismo (embora
criticado como “restrito”); (b) integração da promoção, prevenção e
cura; (c) desconcentração de recursos; (d) adequação das
tecnologias; (e) aceitação e inclusão de práticas não oficiais; (f)
novas práticas interdisciplinares e multiprofissionais e, finalmente,
(g) participação da comunidade. Tais propostas sempre estiveram
no foco de intensas polêmicas, mobilizando energias intelectuais
para sua crítica, não só no Brasil como em toda a América Latina. É
o caso dos inúmeros trabalhos publicados na década de 70 por
Donnangelo, Paim, Tambelini, Loureiro, além de outros, citados por
Silva Junior (1998). As denúncias dirigiam-se contra as
possibilidades de controle sobre a sociedade, imposição de
mecanismos de participação social, favorecimento da acumulação
de capital aos produtores, manutenção e aprofundamento das
desigualdades de acesso, entre outras.
Curioso constatar, entretanto, que em anos seguintes,
particularmente na década de 90, esta crítica se atenua bastante, ou
por outra, as citadas energias intelectuais vão se concentrar em
encontrar soluções, não mais apenas em demolir as propostas
colocadas em campo, vistas como eram sob uma ótica fortemente
ideológica e até certo ponto “conspiratória”.
Mais uma vez recorrendo a Paim (1997), autor cuja produção
acompanhou de perto a evolução dos conceitos aqui discutidos,
revela-se uma síntese das concepções de saúde do chamado
movimento sanitário brasileiro, mostrando que, para além dos
conflitos das propostas acima citadas, teria ocorrido um certo
“renascimento” da Medicina Social nas décadas de 70 e 80, como
um paradigma alternativo ancorado nas concepções fundamentais relativas à determinação social do processo saúde-doença, bem
como na dinâmica do processo de trabalho em saúde e, dessa
forma, passaria a orientar as propostas democratizadoras e de
reforma do sistema vigentes na década de 80, resultando daí o
conceito ampliado de saúde e de seus determinantes, incorporado
na Constituição de 1988.
Observa-se, também, que a história das discussões e da
formação de modelos alternativos de atenção à saúde no Brasil
sempre foi tensa e contraditória. É o que se verifica, por exemplo,
partir das vertentes originais e conflituosas de sanitarismo e de
previdência, bem como, mais tarde, em relação ao aparecimento da
medicina comunitária e de correntes sucedâneas a esta. Todas
essas tendências foram alvo, a seu tempo, de críticas ferrenhas,
sendo vistas como propostas conservadoras ou componentes de
pacotes externos ou de ajuste estrutural, com a denúncia aos
aspectos controlistas e reprodutores de ideologia. O próprio objeto
da presente discussão, a saúde da família, já foi taxada de
manipuladora, eleitoreira e contrária aos princípios do SUS
(MISOCZKY, 1994) e, em outro momento, redimida como uma
proposta inovadora, de caráter antagônico ao de uma “antiga
medicina de família” (TRAD; BASTOS, 1998).
Especificando agora o caso da atenção à saúde das famílias,
ocorre na década de 60, nos Estados Unidos, o resgate histórico de
programas voltados à saúde do grupo familiar, como um “movimento
político” de mudanças no modelo assistencial (PAIM, 1986). Neste
momento, também, adquire especial importância uma publicação da
Organização Mundial da Saúde, resultante da reunião de um
“comitê de experts”, intitulada Training of the physician for family
practice (WHO, 1963). Em tal documento aparecem o escopo e os
objetivos da medicina de família, referidos como acesso direto da
clientela; continuidade da atenção; cuidado ao grupo familiar; ênfase
na prevenção e promoção da saúde; responsabilização profissional,
além de provimento de capacitação e atividades de pesquisa.
A partir de 1966, o movimento da family medicine dissemina-se
nos Estados Unidos, com interveniência da poderosa American
Medical Association (AMA), com a produção de numerosos
documentos versando sobre as bases de tal prática e até mesmo sua incorporação oficial, como uma política federal para a formação
profissional em tal campo. A partir da experiência americana, o
movimentos dissemina-se para outros países, particularmente
Canadá e México, já na década de 70 (PAIM, 1986).
O movimento internacional que gerou as propostas de saúde da
família é caracterizado por Paim (1986) como de fundo ideológico,
dado sua constituição a partir de um conjunto de práticas que busca
substituir a formação especializada e técnica dos médicos por uma
outra alternativa, que propõe a atenção integrada e completa.
Registram-se, no caso, vertentes de interpretação mais
“saudosistas”, de resgate histórico de antigas práticas sepultadas
pela tecnificação e pela mercantilização da medicina, de um lado,
em contraposição a outras concepções mais “racionalizadoras” e
preocupadas, por exemplo, com a redução de custos, com o
impacto das tecnologias, bem como com a pressão da população
pela reorganização dos serviços de saúde.
No caso brasileiro, tal fundamento ideológico e seus
desdobramentos conflituosos parecem acentuar-se e mesmo
aprofundar-se na década de 70 e nas seguintes. É o que se verifica
nos conflitos políticos existentes entre as propostas de medicina
geral comunitária (MGC) e medicina social (e congêneres), conflitos
esses que teriam como desdobramento contemporâneo o embate
entre o que seria um “novo paradigma”, o PSF dos anos 90, e uma
antiga medicina da família (TRAD; BASTOS, 1998).
O chamado movimento de medicina da família tem sua entrada
nos países da América Latina e no Brasil na década de 70, em um
momento que Paim conceituou como fase acadêmica do mesmo,
com a realização de inúmeras reuniões e seminários sediados em
universidades, entre elas a Unicamp, sobre o tema, o primeiro dos
quais em Campinas-SP, em 1973 (CEITLIN, 1982).
Paim (1986) destaca os conflitos que marcaram o advento e a
implantação das várias propostas de medicina de família ou
similares no Brasil, sem que nenhuma delas tenha chegado à
hegemonia no sistema de saúde. Aponta, por exemplo, já no início
das discussões encabeçadas pela ABEM (Associação Brasileira de
Educação Médica), em 1973, um conflito de posições entre o
“saudosismo” e o “racionalismo”. O autor destaca uma sugestiva frase de um famoso clínico e professor de medicina, registrada em
uma entrevista à Revista da ABEM, na mesma ocasião: “[…] para
que não vivamos novas e futuras angústias – a de formar sociólogos
incompetentes e médicos despreparados”, como uma insurgência
da clínica contra aquilo que pareceria lhe tomar de assalto as
prerrogativas (PAIM,1986).
Santos (1978), um protagonista da saúde no Brasil desde a
década de 70, em trabalho da época analisou alguns aspectos
desse período inicial da discussão sobre a medicina de família,
destacando os conflitos existentes entre o discursos das entidades
nacionais e internacionais ligadas ao ensino, bem como de fóruns
oficiais, de um lado e, de outro, o “currículo real” das faculdades de
medicina e a realidade do mercado de trabalho. Considerando,
ainda, que tanto o aparelho formador como o utilizador são
determinados por interesses externos à saúde, o autor almeja e
propõe o desenvolvimento de políticas de saúde que, através de
estratégias adequadas, venham a promover a redistribuição do
poder nos centros que determinam o setor saúde, buscando uma
necessária coerência com as demandas de saúde da população. Só
assim, constatava, ter-se-ia a adequação do binômio formação-
utilização, para que fossem minimizados os entraves vigentes à
formação e utilização dos médicos de família.
Realizam-se, assim, os primeiros enfrentamentos das várias
tendências presentes no cenário da saúde nacional, apresentando-
se, no caso, a saúde pública (e por extensão tudo que parecia afim
a ela), como um “inimigo a ser neutralizado” pelos setores mais
conservadores, ligados à clínica. A própria expressão médico de
família experimentou percalços significativos em sua trajetória,
sendo freqüentemente rejeitada ou substituída por outras como
“clínico geral”, “médico geral” ou simplesmente “médico”, nos fóruns
constituídos para tratar da questão. O grande conflito ideológico
viria, sem dúvida, com os embates travados nos processos de
credenciamento perante o MEC, na Comissão Nacional de
Residência Médica, das modalidades de residência de medicina
preventiva e social (MPS) e de medicina geral e comunitária (MGC).
A primeira modalidade possuía pressupostos metodológicos
inspirados na utilização das ciências sociais em saúde e voltados para uma ação racionalizadora na organização dos cuidados de
saúde. Já a segunda, inspirava-se no modelo americano de
medicina de família, com valorização dos conteúdos clínicos na
formação.
A batalha entre a medicina preventiva e a MGC foi resolvida,
entretanto, de forma um tanto casuística com a edição de uma
portaria da Comissão Nacional de Residência Médica do MEC ao
arrepio do consenso obtido entre o corpo funcional dos programas
de residência, sendo dado como vencedora, no âmbito oficial, a
segunda vertente, dando lugar a manifestações triunfalistas de seus
mentores, que chegaram a considerar o médico egresso das
residências de MGC como o “agente catalisador” de importantes
mudanças na graduação em medicina (PAIM, 1986). Com certa
veemência, este autor denuncia, no calor dos acontecimentos de
então, “[…] a falta de opções mais realistas e criativas” (PAIM,
1986). Nesta área da formação de recursos humanos e se refere à
derrota do projeto preventivista-social como um escape à “lógica
capitalista que orienta o complexo médico-industrial”, escamoteando
as estruturas de poder na saúde, dissimulando, além do mais, a
ideologia dominante no saber médico e obscurecendo os
determinantes da produção das doenças. Assim registra o autor
“[…] as mudanças prometidas são substituídas por apelos à
pertinácia dos seus profetas e pela esperança na lucidez e firmeza
decisória do Príncipe” (Era uma época na qual o debate se firmava,
mas também esgotava-se na ideologia, sem dúvida.
O futuro, contudo, não se apresentou tão risonho para o
movimento da MGC. Alguns anos depois, a maioria das residências
com tais características não sobreviveram ou simplesmente
mudaram seu objeto de prática. Mas também suas opositoras
ideológicas viriam a experimentar substanciais transformações ao
longo dos anos.
Aqui cabe a pergunta: que fatores influenciaram tais
transformações, permitindo, entre outras coisas, a passagem de um
movimento ideológico à ação política, conforme a expressão de
Paim?
A resposta não parece muito obscura. Com a redemocratização
do país, abriram-se possibilidades para a ação política, à luz do dia, exercida mediante parcerias institucionais ampliadas, envolvendo
novos e diferentes atores sociais. De maneira diferente das décadas
anteriores, quem agora estava com a palavra e a “vez” não eram
apenas as academias, nem os organismos internacionais, nem
mesmo os órgãos centrais dos governos federal e estaduais. Havia
simplesmente novos atores no jogo, os quais passaram também a
formular e colocar em prática novas propostas no cenário – os
municípios – como de resto o fizeram em relação a todo um
conjunto de políticas públicas a partir dos anos 90 (MENDES, 1991;
ESCOREL, 1987; GOULART, 1996).
As transformações citadas tiveram o condão de retirar as
propostas de mudança na saúde de um limbo de forte polarização
ideológica e fraca operacionalização concreta, para um estatuto
diferenciado, de programas oficiais, respaldados não só
normativamente, mas também tecnicamente, pelos próprios serviços
de saúde, pelas universidades e centros de pesquisa e ainda,
socialmente, por parte de segmentos organizados de usuários do
SUS. A implantação das reformas do sistema de saúde no Brasil, na
década de 80, preliminarmente com as AIS e os SUDS e depois
com o SUS, com a conseqüente municipalização das
responsabilidades, por certo representou um estímulo fundamental
para que os fenômenos de oficialização e ampliação de tais
programas acontecesse. Nesse quadro, certamente se inserem
outros determinantes, como: o incremento de intercâmbio de
modelos com outros países; o desenvolvimento da capacidade
formuladora dos organismos gestores; a qualificação da participação
social; a ruptura com o caráter meramente demonstrativo e
experimental das experiências realizadas nas décadas anteriores,
além de outros. Independente das causas, o certo é que, na década
de 90, políticas de governo como a de Saúde da Família
reingressam com novo ímpeto e vigor no cenário da saúde, com
aparente capacidade de permanência e enraizamento.
Carvalho (1994) discute a “introdução da família” nas políticas
sociais brasileiras, situando-a dentro de três modalidades de ação, a
saber: programas de geração de renda e emprego; programas de
complementação da renda familiar e rede de serviços de apoio.
Nesta última categoria é que se inserem os programas do tipo PSF, que podem variar quanto a seu foco de ação, desde abordagem aos
problemas de cada indivíduo até o apoio intensivo a famílias em
situações críticas. A autora entretanto esclarece que nem toda a
problemática social é passível de uma abordagem via famílias,
constituindo a família apenas uma das instâncias de resolução dos
problemas individuais e sociais. Embora reconheça que a família
vem recebendo por parte das políticas públicas no Brasil uma
atenção especial ao longo da década de 90, a autora adverte que há
muito o que caminhar na superação de uma tradição normatizadora
e autoritária de tais ações do Estado.
Vasconcelos (1999) descreve esta “valorização da família nas
políticas sociais” como algo instituído, na verdade, ao longo de toda
a história da construção do sistema de saúde brasileiro, relatando os
diversos componentes desta natureza encontrados na legislação
previdenciária, desde seus primórdios na década de 20, apesar da
vigência das contradições dadas pelo médico-centrismo e pela
dependência tecnológica e de capital de tal sistema. A criação da
Fundação SESP na década de 40, em que pese seu caráter
normatizador e autoritário, também representou um marco
importante, com suas tradições de visitas domiciliares,
territorialização, etc. Entretanto, foi na sociedade civil que este
aspecto obteve maior visibilidade, citando os casos da Sociedade
São Vicente de Paulo e Pastoral da Criança, entre outros.
A escolha do ano de 1994, pela ONU, como o Ano Internacional
da Família teria tido impacto indutor sobre a política brasileira e de
outros países do mundo, ao valorizar os conceitos de família e de
comunidade, ainda segundo Vasconcelos (1999). Dentro do quadro
de valorização do tema da família nas políticas sociais, este autor
adianta alguns fatores que influíram em tal ação, identificando o
problema da criminalidade praticada por crianças e adolescentes, as
reações violentas de alguns setores da sociedade a eles, as
epidemias de cólera e dengue bem como o próprio acúmulo de
experiências locais que rompem com os modelos tradicionais de
assistência. Criaram-se assim as condições, segundo este autor,
para o advento de um “clima cultural” propício para determinadas
inovações das política sociais, com elas os próprios programas
PACS e PSF.
Houve, portanto, muitas mudanças na saúde, desde meados da
década de 80, dadas pela intensa movimentação política e social
pela reforma da saúde no país (ESCOREL, 1987; GOULART, 1996)
e pela “construção local” do sistema de saúde que resultou da
ampliação da atuação municipal na saúde. Concorreu também para
tal quadro de transformações a consolidação de um novo e efetivo
arcabouço legal para o sistema, com as Normas Operacionais
Básicas de 1993 e 1996, que sem dúvida forneceram um inédito
substrato para que experiências como as de Saúde da Família
pudessem florescer. E floresceram, sem dúvida, libertas das
amarras de um debate profundamente ideológico e marcado pelo
(legítimo) sentimento de resistência ao arbítrio, que se viu superado
após a passagem dos anos de chumbo.
A proposta de Saúde da Família, entretanto, somente alcançaria
sua maturidade nos anos 90, galgando então o estatuto de política
pública no Brasil. Isto equivaleria a “uma mudança no paradigma
assistencial”, passando de um eixo curativo para o preventivo, da
ação mono-setorial para a intersetorial, em direção à universalidade,
conforme Trad e Bastos (1998). Mesmo alguns críticos das opções
de implementação do SUS em curso no país, como é o caso de
Mendes (2000), tendem a admitir avanços possibilitados por tal
política. Este autor, aliás, ao se referir ao atual PSF no contexto do
SUS, admitiu que o advento do PSF demonstra que “nem tudo são
espinhos” no cenário geral.
Experiências pioneiras
A história dos programas de atenção à família no Brasil ainda não
se encontra totalmente resgatada.
Na década de 80, começaram a aparecer experiências que
vieram a ter repercussão importante nos programas atualmente
desenvolvidos, enfeixadas como Programas de Agentes
Comunitários de Saúde (PACS) particularmente na Região Nordeste
(CARVALHO; RIBEIRO, 1998). Tais programas podem ser
considerados herdeiros, de forma pioneira, das propostas de
atenção primária à saúde, adscrição de clientela e extensão de cobertura, dentro do figurino definido na reunião de Alma Ata,
realizada na década anterior. Esses programas desenvolveram,
como característica principal, o enfoque nas clientelas de alto risco
para doenças infecciosas e desnutrição, tanto nas regiões rurais
como nas periferias das grandes cidades, e primaram pela baixa
densidade tecnológica de suas ações.
Do ponto de vista da atenção médica, destacam-se as
experiências pioneiras realizadas em Porto Alegre (Vila de São José
do Murialdo), ainda na década de 70, e no Estado de São Paulo.
Não se pode esquecer que em inúmeros municípios brasileiros
vigoraram programas assemelhados, como em Niterói, Campinas,
Londrina e outros (GOULART, 1996), surgidos dentro de propostas
mais amplas de reorientação do modelo assistencial, com extensão
de cobertura, participação social, integração docente assistencial,
etc.
As experiências do Grupo Hospitalar
Conceição (GHC) e da Unidade de São
José do Murialdo, em Porto Alegre
As experiências pioneiras, desenvolvidas nas décadas de 70 e 80,
na cidade de Porto Alegre, dentro do enfoque da Medicina Geral
Comunitária, serão objeto de segmento deste trabalho. Trata-se de
casos que possuem uma história comum em muitos aspectos
essenciais, por exemplo: os mesmos atores fundadores e
apoiadores; os vínculos institucionais públicos; as preocupações
com formação e capacitação; o caráter de efeito demonstrativo (pelo
menos em seu início); a sucessão de sístoles e diástoles, ou seja,
movimentos de expansão e retração em sua trajetória, entre outros.
Além disso vieram a se caracterizar por um forte grau de articulação
externa, com a formação gradual de uma rede importante de
contatos e apoios externos técnicos e políticos, além de busca
crescente de institucionalização.
GHC e Murialdo tiveram, ainda, uma tendência de gradual
inserção nos sistemas de saúde locais, mediante ajuste e sintonia
política com seus gestores, e mediante incorporação de sua
“gramática”, o que inclui as diretrizes de responsabilização,
territorialização, hierarquização, regionalização, participação, etc.
Nesta condição, primaram também por buscar a superação da
condição de serem meros exercícios de efeito demonstrativo ou de
visibilidade acadêmica, sendo notório que, em sua evolução
obtiveram amplo reconhecimento externo e de transformação em
centros de referência regionais e nacionais na capacitação para
Saúde da Família e Atenção Básica, em geral.
Da mesma forma que outros programas, enfrentaram e vêm
enfrentando marcantes dificuldades derivadas das inconsistências
quantitativas e qualitativas das políticas de financiamento vigentes
para a atenção básica no País.
De forma sintética, as duas experiências mostraram, ao longo de
sua existência, uma marcante diferenciação da natureza das
práticas desenvolvidas em cada instituição: hospitalar, clínica, de
resolução individualizada no GHC, enquanto em Murialdo o caráter
sempre foi comunitário, social, com ênfase na vigilância à saúde.
A experiência do Médico de Família
da SES de São Paulo
Esta foi uma experiência de curta duração, que aparentemente
deixou poucas marcas locais, mas que teve a importância, segundo
um interlocutor (SANTOS, 2002), de ter aberto as portas para a
ampliação da discussão sobre a medicina de família e a atenção
primária à saúde no Brasil.
Seu início se dá na segunda metade dos anos 80, quando
Orestes Quércia assume o governo de São Paulo e nomeia
secretário de saúde do estado José Aristodemo Pinotti, que foi o
grande mentor da experiência. Pinotti era um médico ginecologista
de Campinas e professor titular da UNICAMP de renome nacional
na área de saúde da mulher e, naquele momento, parecia inclinado em dar uma “virada” em uma carreira docente e científica bem
sucedida, incursionando também pela política partidária. Pinotti era
o que se poderia chamar de “déspota esclarecido”: um médico da
elite, voltado para a política e para as ações de impacto social, mas
com uma prática política que tendia a valorizar pouco os
movimentos sociais e profissionais atuantes no campo da saúde.
Pinotti aparentemente estava em busca de incrementar sua
visibilidade através de projetos inovadores na área de saúde e foi
assim que entrou em contato com consultores cubanos, dadas as
ligações que intelectuais paulistas ligados ao PMDB, na ocasião,
capitaneados pelo escritor Fernando de Moraes, tinham
desenvolvido com o governo de Cuba. Foi assim que a experiência
de “médico de família”, então incipiente na ilha, foi trazida ao Brasil.
Não há maiores registros escritos sobre o projeto, ou não foi
possível resgatá-los, baseando-se o presente relato apenas em
entrevista (SANTOS, 2002). A condução do projeto Médico de
Família foi entregue à médica Eliane Dourado, que tinha experiência
em projetos inovadores de natureza semelhante em município da
Região Metropolitana da capital paulista. A concepção era
eminentemente cubana, ou seja, centrada em médicos generalistas
residindo na própria comunidade, em prédios especialmente
projetados, englobando moradia e consultório. Pouco mais de uma
dezena destas unidades foi construída então, por volta de 1988,
todas na periferia do município de São Paulo.
O projeto teve vida curta. Pinotti foi envolvido em acusações
sobre desvio de recursos e afastou-se do cargo, supostamente para
candidatar-se ao Governo de São Paulo, mas a ele retornou depois
de alguns meses, quando Quércia preferiu apoiar para sua
sucessão Luiz Antônio Fleury, que foi eleito. Neste interregno, o
programa teve solução de continuidade, não se tendo notícia de
como foram aproveitados seus quadros (se é que o foram) e do
destino dado às unidades construídas.
O Programa foi na época bastante criticado, seja pela direita, seja
pela esquerda (SANTOS, 2002). De um lado, a poderosa
Associação Paulista de Medicina, suspeitando da esquerdização
que poderia ser propiciada por uma idéia gerada em Cuba; de outro,
o Sindicato dos Médicos, denunciando o caráter paliativo ou de cesta básica do mesmo. No próprio movimento sanitário da época,
ou seja, nas entidades nacionais como o CEBES e a ABRASCO, ou
entre os secretários municipais de saúde, o projeto não obteve
aprovação ou maior penetração, ficando como uma ação até certo
ponto marginal.
O Programa do Médico de Família de São Paulo teria passado em
brancas nuvens não fossem alguns de seus desdobramentos, de
natureza ideológica e intelectual, conforme a visão de Santos
(2002), um “ator” estratégico na ocasião, já que assumiu a SES-SP
no lugar de Pinotti durante seu afastamento no final do governo
Quércia. Segundo tal interlocutor, o programa, em primeiro lugar,
permitiu introduzir no país uma discussão que deu frutos positivos
em anos posteriores – a da atenção primária à saúde. Fez parte da
re-aproximação diplomática de Cuba com o Brasil, mas também foi
decorrência de uma nova forma de internacionalismo desenvolvida
pelos cubanos, não só constituído de intenções solidárias, mas
também como busca de recursos para uma economia devastada
pelo bloqueio americano. Outra repercussão do programa, segundo
esse interlocutor, teria sido a de contribuir para a dissolução de
algumas resistências que setores de esquerda ou progressistas em
geral tinham em relação ao tema da medicina de família, ou mesmo
da atenção primária à saúde, o que ficou muito nítido na década
seguinte.
Outro desdobramento deste programa pioneiro, teria sido de gerar
um mote captado por muitos secretários municipais de saúde, que
passaram a incluir o tema da APS em suas agendas,
desenvolvendo diversas experiências bem sucedidas de atenção à
saúde, que até mesmo influenciaram o programa nacional surgido
em meados da década de 90, das quais um exemplo paradigmático
é o de Niterói. Assim se deu o que Santos denominou de “[…] uma
ação política construtiva e realista, que elaborou e construiu um
novo projeto, superando uma etapa anterior profundamente
ideologizada, porém sem que houvesse uma `satanização à
ideologia” (SANTOS, 2002).
A formulação da política de saúde da
família nos anos 90
Os contextos
O quadro da saúde no momento da formulação do PSF não era,
de forma alguma, favorável ao desenvolvimento de propostas novas
ou inovadoras no setor. Com efeito, o Governo Fernando Collor
havia retrocedido nos avanços obtidos durante a Nova República,
particularmente na questão do financiamento. Neste aspecto, aliás,
o período de Collor levou a uma redução do gasto médio em saúde
até um patamar mínimo de US$ 40 per capita em 1992, versus US$
80 em 1987. Em 1993, já no governo de Itamar Franco, Antônio
Britto, Ministro da Previdência Social, determinou unilateralmente as
transferências do MPAS para a saúde, resultando em perdas da
ordem de US$ 2 bilhões. Inicia-se nessa época, também, o
controverso uso de algumas fontes alternativas de recursos para a
saúde, por exemplo o FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador. Em
1994, dando a tônica dos discursos de seus antecessores, o
Ministro da Saúde Henrique Santilo divulgava publicamente que,
pelo menos, US$ 5 bilhões adicionais a um orçamento de 9 bilhões
seria o mínimo necessário para “bem gerir a saúde no país”
(SINGER, 2002).
É bem verdade que os indicadores de saúde vinham em melhora
progressiva já no início da década, como, por exemplo, na
mortalidade materna e infantil. Porém, nesse período observou-se
uma certa mudança de ritmo de queda e, no caso da mortalidade
materna, chegou a haver mesmo um ligeiro aumento da taxa entre
1993 e 1995, embora tal mudança não possa ser imputada
diretamente a alguma piora, mesmo momentânea, das condições de
vida e saúde da população. A crise do financiamento atingiu em
cheio a rede hospitalar, tanto pública como privada, estimando-se
que, em 1993, teriam sido paralisados cerca 4.500 leitos no país,
reduzindo em 80% o atendimento hospitalar contratado pelo SUS
(SINGER, 2002).
Os anos 90, particularmente seu início, albergariam uma autêntica
crise da saúde, ou, para ser mais preciso, a continuidade e o
agravamento de uma crise precedente. Vários fatores encontravam-
se presentes, entre eles, queda do financiamento, irracionalidade,
exclusão social, problemas de imagem do sistema perante seus
usuários, etc. Para sintetizar tal tema, sem preocupações de
abrangência, citam-se algumas contribuições a respeito do
fenômeno. Faveret Filho e Oliveira (1989) cunharam a expressão
“universalização excludente” para qualificar a associação entre uma
“expansão por baixo”, pela inclusão de milhões de indigentes e uma
“exclusão por cima”, mediante a qual segmentos de trabalhadores
mais qualificados e a classe média em geral renunciam à
assistência pública pelo SUS, em busca de atendimento mais
qualificado nos planos de saúde. Vianna (1997) deplora que, apesar
da concepção “européia” cogitada pelos legisladores constituintes
de 1988, a proteção social e à saúde no Brasil vem acumulando
evidências de uma verdadeira “americanização”, especializando-se
em parcos benefícios para os mais pobres, enquanto ao mercado
fica reservada a atenção aos mais aquinhoados e capazes de
remunerar serviços diretamente ou mediante seguro. Mendes (2000)
compara o sistema de saúde nacional a uma “pia entupida”, pelo
combinação de dois fatores nocivos: as dificuldades inerentes à
gestão do setor e, principalmente, a formulação equivocada, já que
inspirada em modelos segmentados de sistemas de saúde, já
superados em todo o mundo.
Estes são alguns elementos do contexto em que o PSF foi
formulado no país. O programa, além disso, nasceu em um
momento em que a questão da pobreza estava bastante em
evidência no País, traduzida, por exemplo, pela utilização do “Mapa
da Fome” na alocação dos recursos previstos (VIANA, 2000). Havia,
de um lado, um movimento civil coordenado pelo sociólogo Herbert
de Souza, o Betinho, e de outro, a atuação do Governo Itamar
Franco, buscando sintonia com as propostas oriundas da sociedade.
Era bastante acalorada a discussão sobre o real número dos muito
pobres no País, variando intensamente o acordo sobre sua cifra, em
alguns milhões de pessoas, de acordo com o estudo ou o
pesquisador.
O contexto social e econômico do início dos anos 90 era, em
resumo, o seguinte: (a) o número de pobres era estimado em cerca
de 59,4 milhões em 1993 e o de miseráveis no mesmo período em
27,8 milhões e a desigualdade na distribuição da renda nacional era
– como continua sendo – marcante, com o chamado Índice de Gini
de 0,605, em 1993 (LAHÓZ, 2002); (b) a taxa de desemprego aberto
era de 5,32, em 1994, considerada emblemática da mais grave crise
de emprego na história do Brasil e aprofundada nos anos seguintes
(OLIVEIRA, 2002); (c) embora aquém de metas desejáveis, a partir
de 1995, as aplicações em saneamento e infra-estrutura urbana, da
ordem de US$ 5,29 bilhões, foram cerca de 35% superiores à média
anual registrada entre 1980-1993 (PAULA, 2002); (d) o processo de
urbanização do País prosseguia de forma acelerada e, no início da
década, apenas cerca de 20% da população vivia nas chamadas
cidades pequenas, com menos de 20 mil habitantes e o déficit
habitacional brasileiro, em 1995, era quatro milhões de unidades
nas zonas urbanas e 1,6 milhão nas rurais, além de 10,6 milhões de
unidades sem infra-estrutura adequada; (e) além disso, entre 1991 e
2000, o número de favelas cresceu cerca de 22,5% (PAULA, 2002).
A formulação e início da implementação do PSF praticamente
coincidiu com o advento do Plano Real, um conjunto de políticas
que, nos anos seguintes, produziu marcantes transformações
sociais e econômicas na vida dos brasileiros, podendo ser
destacadas entre elas: (a) o Plano Real pode ser considerado como
a principal ação social de governo em toda a década, pois, na
vigência do mesmo, mais de 9 milhões de pessoas deixaram de ser
tecnicamente pobres e cerca de 80% das famílias tiveram aumento
efetivo de renda – a renda real dos 10% mais pobres simplesmente
dobrou entre 1993 e 1995; (b) o crescimento econômico
proporcionado por esse plano foi mais acentuado entre 1994 e
1995, depois deteriorando-se (LAHÓZ, 2002).
Outra característica da era que se sucede à formulação do PSF, e
que corresponde ao período inicial de implementação do mesmo,
refere-se ao padrão de relacionamento político entre o Executivo e o
Legislativo, caracterizado, segundo Chagas (2002), pela existência
de um autêntico “rolo compressor”, formado por uma poderosa base
parlamentar – politicamente, de alto custo – que, entre outras mudanças institucionais, viabilizou alterações no capítulo da Ordem
Econômica da Constituição; promoveu a quebra do monopólio
estatal do petróleo e das telecomunicações; incrementou as
privatizações das empresas estatais; aprovou reformas – embora
parciais – da Previdência e da Administração, garantindo, de
quebra, a reeleição do Presidente da República. Na saúde, através
do uso do “rolo compressor” governamental, foi possível não só
manter por períodos sucessivos a CPMF, como até mesmo alterar a
Constituição no ano 2000, em busca de novas fontes e vinculação
do financiamento setorial, com a promulgação da Emenda
Constitucional 29, formulada por deputados da oposição quase dez
anos antes.
Retomando o curso histórico da narrativa, o impeachment de
Fernando Collor, em 1992, e sua sucessão por Itamar Franco levou
à nomeação para o Ministério da Saúde de um Ministro – Jamil
Hadad – e de uma equipe de assessores não só vinculados a um
ideário dito progressista em saúde, como muitos deles de
incontestável militância na Reforma Sanitária e, inclusive, alguns ex-
secretários municipais de saúde. Formou-se, assim, um clima de
mudança, pois a nova gestão havia encontrado uma marcante
paralisia decisória no Ministério da Saúde, como de resto em outros
setores da administração federal, agravada nos estertores do
Governo Collor. Um pouco antes realizara-se a IX Conferência
Nacional de Saúde, a qual, embora defendida e conduzida de forma
destemida pelo ministro anterior, Adib Jatene, foi mais um evento
político a demonstrar a insatisfação no País. Não havia, na ocasião,
grandes propostas de avanço e, mesmo que as houvesse, a
conjuntura era francamente desfavorável a qualquer implementação
de inovações.
Contavam, os novos gestores, com um respeitável arco de forças
políticas favoráveis à mudança na saúde no esquema de alianças
do Governo Itamar Franco, tendo também como fator positivo o fato
de se ter um presidente mais preocupado com a economia (e talvez
com o resgate de sua imagem perante a sociedade) do que com os
detalhes da gestão em saúde. Assim, mesmo em conjuntura
econômica e institucional desfavorável, os ventos corriam a favor
das propostas de transformação, traduzidas pelas palavras de ordem daqueles tempos: “a ousadia de cumprir e fazer cumprir a lei”
(GOULART, 2001b).
O período de gestão da saúde iniciado nesse momento, que
correspondeu à formulação e implementação da Norma Operacional
Básica de 1993, foi marcado por fortes conflitos e antagonismos,
autênticas disputas intra-burocráticas, fora e dentro do Ministério da
Saúde. Setores ligados à estrutura tradicional do mesmo, tais como
procuradoria jurídica, auditoria, finanças, convênios e outros,
geralmente ocupados por funcionários de carreira egressos das
antigas Secretarias Nacionais, bem como do INAMPS e da
FUNASA, tinham sua atuação marcada pelo que posteriormente se
denominaria criação de factóides, seja levantando obstáculos
normativos (dentro do espírito de que só se pode fazer o que está
explicitado na lei, vedando qualquer incursão por terrenos em que
ela se omite), seja ressuscitando tecnicalidades, sempre de forma a
obstaculizar o processo de descentralização, principalmente nos
repasses entre fundos de saúde e nos pagamentos dos fatores de
incentivo, propugnando, ademais, uma visão controlista restrita
sobre os recursos, baseada no pressuposto de que os mesmos
eram “federais”.
Também em outros setores do governo (Planejamento,
Previdência Social e Secretaria de Orçamento e Finanças), o jogo
não era menos pesado. Em reuniões interministeriais para discutir a
questão orçamentária da saúde, freqüentemente, a argumentação
por parte dos técnicos destes setores, devidamente apoiados pelos
titulares, era de que a solução para os problemas da saúde estaria
na criação de barreiras financeiras para o usuário, distribuição de
vauchers, etc. Um golpe fatal veio, ainda em 1993, quando Antonio
Britto cancelou sumariamente a transferência de recursos da
contribuição sobre a folha de salários para a saúde. Como se não
bastasse, em 1994, novo golpe: Beni Veras, o Secretário de
Planejamento do Governo Federal, declara o Ministério da Saúde
suspeito na gestão dos recursos que lhe eram alocados, e abre uma
comissão de avaliação interministerial para a saúde. Foi esse
também, é bom lembrar, o tempo da reforma monetária, quando foi
criada a URV e depois o Real, processos que acabaram por agravar
os problemas financeiros da saúde, através de fórmulas de conversão muito questionadas na época (CARVALHO, 2002). O
resultado concreto dessa seqüência de conflitos foi, na prática, a
quase inviabilização da implementação da NOB 93 e de outras
ações do Ministério da Saúde. Além de tudo, tratavase de um ano
eleitoral, também marcado pela polarização entre o candidato do
governo (Fernando Henrique Cardoso) e o da oposição (Luiz Inácio
Lula da Silva).
Nesse período, ocorreria ainda a substituição intempestiva de
Jamil Hadad por Henrique Santilo, portador de um perfil mais