Saúde da família: boas práticas e círculos virtuosos
Capítulo III – Cada caso, um caso
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Capítulo III - Cada caso, um
caso
Retomando explanação já feita na Apresentação, foram
selecionados seis casos para estudo, com o pressuposto essencial
de que constituíssem experiências bem-sucedidas de
implementação do programa, ou seja, aquela de Contagem-MG,
Curitiba-PR, Ibiá-MG, Niterói-RJ e Vitória da Conquista-BA, além
das duas experiências pioneiras: as do Grupo Hospitalar Conceição
e a da Unidade de Saúde Escola de Murialdo, ambas em Porto
Alegre.
Dentre as experiências municipais, Contagem foi escolhida pelas
evidências de sucesso presentes (publicações DAB/MS e
premiações), bem como pelo seu caráter até certo ponto “radical” de
implementação em condições institucionais adversas em área de
forte problemática urbana. As evidências de sucesso estavam
presentes também em Curitiba, onde também se valorizou a forte
tradição de inovações e boas práticas de governo em geral e de boa
gestão em saúde características desta cidade. Em Ibiá, estavam
presentes também as tais evidências de sucesso, seja em
publicações do DAB/MS ou premiações nacionais, mas o fator
principal foi a sua radicalidade em termos de caráter substitutivo do
sistema anteriormente vigente. Para Niterói, o principal fator de
escolha foi caráter diferenciado e singular da experiência ali
implementada (Médico de Família), bem como seu pioneirismo na
formulação e na implementação. Finalmente, em Vitória da
Conquista não só pesavam as mesmas evidências de sucesso
presentes em outros municípios, mas também outras evidências de
bom governo e inovação em geral na administração municipal.
Finalmente, a escolha das duas experiências de Porto Alegre se
deu por seu pioneirismo, em termos de formulação e de
implementação, como também pelo caráter diferenciado e singular
da experiência de Medicina Geral Comunitária do GHC.
Elas serão mostradas a seguir, em seus aspectos essenciais, ou
seja, (a) informações gerais sobre os contextos sociais e políticos do
município; (b) a formação da política e a estrutura de saúde local; (c)
a implementação do PSF: antecedentes, atores, processos; (d)
síntese interpretativa, abrangendo atores, contextos, processos e
conteúdos; (e) as lições aprendidas.
Contagem-MG: forças que erguem e
destroem coisas belas
Contexto político
A antiga Contagem das Abóboras é uma cidade cuja existência
esteve ligada ao ciclo do gado em Minas, por fazer parte da rota por
onde passavam as boiadas que demandavam os centros
consumidores de carne, particularmente o Rio de Janeiro e Ouro
Preto, vindas das regiões criadoras do oeste da Província. Seu
nome deriva da “contagem” de cabeças de gado, para efeitos
fiscais. Na segunda metade do século XX, a cidade adquiriu
importante status econômico e demográfico – depois político – pela
implantação de uma Cidade Industrial em seu território, como parte
da estratégia governamental desenvolvimentista de então
(BARBOSA, 1995).
O município de Contagem localiza-se na zona metalúrgica
mineira, fazendo parte da região metropolitana de Belo Horizonte,
distando não mais que 20 Km do centro da capital, com a qual é
conurbada. Sua população é de 537.806 habitantes, da qual cerca
de 99% reside em zona urbana, conforme estimado pelo IBGE para
o ano 2000. Representa o segundo maior contingente populacional
de Minas Gerais, sendo também seu maior pólo industrial, com um
PIB que é considerado o segundo do estado em valor. Sua
densidade demográfica, expressivamente alta, é de 2762,84
hab/Km².
A industrialização da região, que prosseguiu na década de 70 em
diante, inclusive nos municípios vizinhos, tais como Betim, onde foi implantada a montadora Fiat de automóveis, levou à formação de
uma extensa região conurbada, com alta densidade populacional e
problemas infra-estruturais de toda ordem, tais como deficiências de
saneamento básico, de equipamentos escolares, sanitários, sociais,
de lazer, precária segurança pública, etc. Tais problemas se
agravam pela contínua migração que recebe de outras regiões do
Estado, levando a um padrão anárquico de crescimento urbano.
A formação política de Contagem assemelha-se, à primeira vista,
a de outras cidades brasileiras, com grupos políticos rivais
alternando-se no poder e exercendo práticas populistas e
clientelistas permanentes. Há alguns aspectos distintivos, porém.
Contagem foi, também, um importante foco de luta política e de
resistência ao regime militar, sendo considerados históricos alguns
movimentos grevistas e de protestos levados a efeito por operários
da Cidade Industrial, durante as décadas de 70 e 80 e que foram
fortemente reprimidos. Transformou-se, ao longo do tempo, em
reduto eleitoral do antigo MDB, sendo um dos municípios brasileiros
que elegeu um prefeito de oposição em 1974, fato que fez parte da
grande “virada” política contra a ditadura na época.
A tradição de luta da cidade, porém, veio a se identificar com sua
principal liderança da década de 70, Newton Cardoso, político do
antigo MDB, prefeito do município por três vezes e depois
governador e vice-governador do estado de Minas Gerais. O modo
de fazer política a ele associado, o cardosismo, tem como
característica certas práticas populistas e clientelistas, aliadas a um
ímpeto exacerbado de ocupação de espaço e poder, que conferiram
a Cardoso a alcunha de Trator, além de atuação também no
domínio de meios de comunicação. Pode-se dizer que, nos últimos
anos, Contagem viveu sob as influências diretas do cardosismo,
mesmo quando seu líder não estava presente diretamente no poder
local.
A saúde em Contagem
Uma política de saúde de responsabilidade municipal constitui
antiga história em Contagem. Desde a década de 70, já havia sido criado um ente municipal para a área de saúde, a FAMUC
(Fundação Municipal de Saúde de Contagem) que, de certa forma,
representou um marco importante, por ter sido instituída em
momento histórico no qual era pouco visível e menos ainda
incentivada a atuação municipal em saúde. Como fatores
determinantes das origens da FAMUC estavam as pressões de um
movimento sindical organizado na cidade e também as históricas
práticas sociais clientelistas das administrações locais, além da
disponibilidade de recursos tributários gerados pela industrialização
da cidade. A FAMUC é, ainda nos dias de hoje, grande
empregadora de médicos e outros profissionais de saúde em toda a
região, se não a maior delas, excetuando apenas o órgão gestor da
capital.
O sistema de saúde que se estabeleceu em Contagem mostrou
forte permeabilidade à iniciativa privada, cujas lideranças não
raramente ocuparam postos de direção na área pública, com um
verdadeiro caráter “invasivo e fraudulento” de práticas, conforme a
expressão de um dos entrevistados.
De qualquer forma, tratava-se de uma sólida estrutura de saúde
sob gestão municipal, com quantitativos expressivos de oferta de
serviços. No ano de 2000, havia 85 Unidades Básicas de Saúde, 70
Unidades de Saúde da Família, 15 Postos de Saúde tradicionais, 4
Unidades de Referência e 4 Unidades 24 horas, além de Hospital,
Maternidade, Centro Especializado e serviços de apoio diagnóstico
(SAMPAIO, 2000). O território estava dividido em seis Distritos
Sanitários: Nova Contagem, Ressaca, Petrolândia, Sede, Centro e
Industrial.
Entre 1998 e 1999, foi realizado um diagnóstico da situação de
saúde do município que apontou, entre outros aspectos, a virtual
inexistência de uma política de saúde pública formalizada para o
município e uma rede de serviços públicos de saúde desarticulada e
fragmentada, além de grande fragmentação de responsabilidades
entre a Secretaria Municipal de Saúde e a FAMUC, dificultando a
integração necessária à implantação de um projeto de saúde no
município. Como pano de fundo, indefinição das atribuições e
responsabilidades de gestão, carência de informações
epidemiológicas básicas, baixa resolutividade do conjunto de Unidades de Saúde, descrédito, desmotivação, sucateamento,
desabastecimento e demanda crescente, com marcante insatisfação
dos usuários. Além disso, o Hospital Municipal, um dos orgulhos da
gestão cardosista, foi considerado “ineficiente e oneroso” e, além
disso, destituído de uma vinculação de fato com a rede pública de
serviços. O Conselho Municipal de Saúde mostrava-se pouco
atuante e pouco participativo.
Diante de tais desafios, tratou-se de rearticular e reorientar as
ações de saúde no município, contexto em que surge o PSF.
A implantação do PSF
No final de 1998, ao assumir a Prefeitura em substituição a
Newton Cardoso, que se afastara para se candidatar a vice-
governador do estado de MG, assume o vice-prefeito Paulo Mattos,
que decidiu imprimir novos rumos à saúde, diante da gravidade da
situação encontrada, até porque tinha em vista, também, a
continuidade de sua curta administração, por meio da reeleição.
Naquele momento, correspondente aos primeiros meses da gestão
de José Serra no Ministério da Saúde, bem como à reeleição de
Fernando Henrique Cardoso, o Programa de Saúde da Família
estava na ordem do dia no país, por fazer parte formal da estratégia
de governo, estabelecida no Programa de Pronta Ação – PPA.
Como o governo municipal de Contagem, mesmo sendo do
PMDB, não se encontrava em linha de oposição direta ao Governo
Federal, a decisão de implantar o PSF no município fez parte, sem
dúvida, de um cálculo político, tanto de demonstrar (ou procurar)
afinidade com a atuação do Governo Federal, como tentar uma
estratégia de retomada da ordem e da credibilidade dentro do
sistema municipal de saúde, com vistas à campanha eleitoral que se
instalaria um ano depois.
Parece ter pesado, também, na opção pela implantação do PSF
em Contagem, o prestígio auferido pela administração do PT no
município vizinho de Betim, que investiu muito na área de saúde,
inclusive implantando um programa PSF-símile. A ex-prefeita de
Betim, aliás, havia conseguido expressiva votação para deputada federal em Contagem, aspecto que parece ter motivado a decisão
pelo PSF como parte de uma estratégia de deter o crescimento do
PT nesta cidade, já que este partido fazia forte oposição ao
cardosismo e ao novo prefeito.
Ao que tudo indica, portanto, o PSF foi implantado em Contagem
com marcante motivação política, associada a um discurso de
resgate de credibilidade e da baixa auto-estima na área de saúde.
A implantação do PSF em Contagem ocorreu de acordo com
diretrizes estabelecidas no Plano Municipal de Saúde e aprovadas
pelo Conselho Municipal de Saúde, contexto em que se inseriu a
implantação do PSF e do PACS, como “estratégias de reordenação
do sistema de saúde municipal e de reversão do modelo de
assistência” (CONTAGEM, 1999). O discurso vigente era de resgate
do compromisso público com a saúde no município bem como de
reorientação e a integração das atribuições e das competências das
diversas instâncias institucionais.
O processo representou, primordialmente, um esforço de levantar
a baixa credibilidade do setor saúde no município. A primeira opção
foi a de implantar o programa em um bairro, aliás uma verdadeira
cidade, Nova Contagem, com perto de 60 mil habitantes e situado a
cerca de 25 km do centro administrativo do município, o que ocorreu
nos últimos meses de 1998, com 15 equipes iniciais. Tratava-se de
uma área com indicadores sociais e sanitários muito desfavoráveis,
além de isolada do restante do município, cuja criação, duas
décadas antes, teve como objetivo remover populações pobres que
haviam invadido áreas mais nobres do município. A implantação em
Nova Contagem foi uma opção baseada em indicadores sociais, não
ocorrendo qualquer intervenção política do prefeito ou de outra
autoridade nesta escolha inicial. Somente em outra etapa do
processo, no caso do distrito Ressaca-Nacional, que era reduto de
oposição ao governo municipal – embora também fosse um setor
desassistido – é que uma decisão de cunho mais político-eleitoral
prevaleceu.
O primeiro momento foi considerado de teste da proposta, para se
avaliar melhor a necessidade de ampliação mais tarde. Em Nova
Contagem a rede era formada por alguns Postos de Saúde já
existentes, instalados em condições físicas bastante precárias. Após quatro meses de implantação do programa na área, uma espécie de
“crise de identidade” em relação ao PSF se espalhou na
administração, na qual o tópico de custo versus benefício foi
levantado insistentemente. Foi encomendada, então, um pesquisa
de opinião (uma prática comum nas administrações de Contagem)
que revelou “mudanças radicais” na percepção que a população
local tinha acerca da atuação da saúde, quando comparada a outra
área sem PSF. Assim, viu-se superada a referida crise e foi
reforçada a linha assumida, com intensa ampliação do programa
nos meses subseqüentes.
A segunda etapa de implantação, já em 1999, ocorreu no Distrito
da Ressaca – Nacional, contíguo à área urbana da Capital, com
uma população estimada de 110 mil habitantes e que, a exemplo de
Nova Contagem, contava com atendimento muito precário em
saúde. No restante do município, a expansão do PSF foi iniciada em
maio de 2000, tendo como critério de implantação a busca de
cobertura mais elevada em algumas áreas de risco.
No final de 2000, mais precisamente ao se encerrar o período
eleitoral, a cobertura oferecida pelo PSF chegava a 59% da
população do município. Foi, como se viu, um processo explosivo,
em que se saltou de quatro para 84 equipes em menos de dois
anos, com o ritmo profundamente marcado pelo momento eleitoral
e, ao que tudo indica, com enormes dificuldades de que certos
investimentos se concretizassem, por exemplo na infra-estrutura, na
capacitação, na gestão e na manutenção de rede.
As práticas de gestão, pelo menos tentativamente “reorientadas”,
esbarraram em inúmeros entraves culturais e dificuldades de
comunicação interna, associados ao pouco tempo para desenvolver
todo o necessário em termos de estruturas e processos de gestão.
Deve-se admitir, contudo, que mudanças ocorreram, configurando
até mesmo algumas situações de vanguarda, tendo como pano de
fundo, a opção radicalmente substitutiva de PSF, a formação de
equipe multiprofissional de coordenação, a divisão de trabalho entre
os membros da equipe de coordenação, a regionalização por
distritos, entre outros aspectos destacados.
A questão das referências era considerada uma das maiores
dificuldades a serem enfrentadas por parte da nova equipe. Neste aspecto, havia uma problemática extremamente complexa na
Região Metropolitana de BH, com soluções muito difíceis e
controversas, dado o enorme desequilíbrio entre oferta e demanda
que ali se verificava, com sobrecarga muito grande para os serviços
da capital. Embora existissem desde há algum tempo centrais de
marcação de consultas e de leitos, na prática, viabilizar as
referências por meio dessas instâncias continuava sendo uma
operação de resultados insuficientes para as necessidades locais.
Procurou-se incrementar as referências na própria rede, liberando
as unidades tradicionais do peso da demanda (via PSF),
reestruturando-as ou mesmo capacitando suas equipes através dos
especialistas consultantes. Os problemas envolvendo os Centros de
Especialidade e as Unidades de Pronto-atendimento remanescentes
continuavam sendo de alto impacto e podiam ser traduzidos por
baixa produtividade, resistências corporativas, ambientes pouco
humanizados, etc.
O processo de mudança de modelo assistencial desenvolvido em
Contagem foi melhor entendido pela pesquisa realizada em 1999,
nos quatro centros de referência para as equipes do PSF (as
chamadas UAI), visando avaliar e acompanhar o impacto da
implantação do PSF no perfil de atendimento das unidades de
urgência. O foco da pesquisa voltou-se para a demanda por
consulta médica e por alguns procedimentos como injeções,
curativos, micro-nebulização e suturas simples. A expectativa dos
investigadores era de que a redução da demanda atendida nas UAIs
já fosse notada no primeiro ano de implantação do PSF, o que, de
fato, não aconteceu. A explicação oferecida foi de que prevaleceria
um aspecto cultural de forte vinculação dos usuários aos
profissionais e equipes das unidades tradicionais. Foi observado,
ainda, um incremento do número de pacientes atendidos de outros
municípios em algumas unidades, tendo como origem dessa
demanda externa os municípios vizinhos de Esmeraldas e Betim,
que fazem parte da mesma conurbação de Contagem. Concluiu-se,
apropriadamente, que a possível expectativa de um impacto rápido
na redução da demanda, como verificada na implantação do PSF
em municípios de pequeno porte, não se aplicaria a municípios
maiores, como Contagem.
Uma série de fatores – facilitadores, de um lado e dificultadores,
de outro – podem ser apontados, merecendo destaque, no primeiro
grupo, a forte decisão política da administração municipal, dentro de
um contexto de mudanças, tendo como pano de fundo o cenário
eleitoral, e também traduzida pela alocação de recursos no
programa de saúde, por exemplo pela criação de cargos específicos
para o PSF, com nível salarial mais elevado e atrativo, mobilizando o
interesse de muitos médicos e enfermeiros de toda a região.
Externamente, a experiência foi apoiada por determinados
incentivos financeiros e políticos do Ministério da Saúde,
importantes para desencadear a ação, cobrindo parte do acréscimo
de despesas originadas da nova proposta, embora em momento
posterior tenha sido pouco satisfatório.
Aponta-se ainda alguns fatores de natureza “imponderável” (a
fortuna maquiaveliana) verificados no fato de se juntar profissionais
com o perfil empreendedor e sintonizado ideologicamente com o
programa, sob uma liderança competente e carismática, apesar de
suas diferentes origens e ausência de um perfil partidário típico. Isso
pode ter facilitado o entrosamento das equipes sob a liderança de
médicos e enfermeiros sintonizados com a proposta e também de
determinados círculos virtuosos entre equipes e comunidade,
ocorridos em muitos locais, dentro de uma lógica de boa
comunidade – boa equipe.
Entre os fatores dificultadores podem ser citados: a tradição
clientelista e populista do município, especialmente na área de
saúde; a baixa adesão de servidores; (c) a resistência e tentativas
de desestabilização em vários momentos, particularmente no início
(vereadores e corporações), traduzidas por “apostas no fracasso”
por parte de alguns setores e mobilizações para impedir a
implantação do PSF em algumas áreas; o baixo valor das
transferências financeiras do MS, particularmente diante do alto
custo da etapa de implantação.
Outros fatores dificultadores que podem ser arrolados são: fatores
culturais da gestão, com especial dificuldade diante de um quadro
de mudança acelerada: insegurança, resistência, descrédito,
apostas no fracasso, etc; carência de teoria e prática de
planejamento na realidade institucional local; estrutura precária da rede de serviços; baixa auto-estima de muitos servidores, além de
outros fatores culturais, afetando não só os servidores como a
população, com resistência a mudanças, particularmente do modelo
médico assistencialista vigente; dificuldades de comunicação entre
dirigentes e as equipes, entre as equipes e entre a administração e
a população; carência de tempo para formação de vínculos da
população com o programa e para a produção concreta de
resultados do novo modelo; permanência de elementos ideológicos
do velho regime nas unidades de emergência, centros de
especialidades e outros setores, servindo como pano de fundo para
boicotes.
Síntese interpretativa
Nesta seção serão postos em destaques quatro dimensões da
experiência local de implementação do PSF e de mudança de
modelo assistencial, traduzidos por atores, contextos, processos e
conteúdos
ATORES
O que salta aos olhos em relação à atuação dos atores individuais
envolvidos com a implementação do PSF em Contagem é algo que
se poderia chamar de empreendedorismo público, modulado por
decidida vontade política associada à decisão conseqüente. Uma
possível contradição seria dada pelo fato de entre os atores
envolvidos encontrarem-se, de um lado, agentes políticos bastante
típicos, fortemente imbuídos de um fazer e de um pensar de cunho
político-partidário – como era o caso do prefeito e da maior parte de
sua equipe – e, de outro lado, técnicos também típicos, não
portadores de nenhuma forma de militância partidária, pelo menos
em termo locais.
Mas a contradição tende a se resolver quando se declara o perfil
desses técnicos, pessoas experientes, capacitadas, reivindicadoras
de autonomia para agir. Eram também forasteiros, sem maiores
laços afetivos, políticos e familiares com a cidade, tendo, mesmo assim, abraçado uma proposta que não era deles. Esta ainda é a
aparência, contudo. Abraçaram e incorporaram a proposta de
construção de um novo modelo em saúde em Contagem não porque
estivessem ligados às estruturas e super-estruturas locais; tinham
histórias de vida e trajetórias de pensamento e prática condizentes
com o desafio que aceitaram enfrentar. Isto, os mais calejados. Os
outros, mais jovens, aderiram por razões não muito distantes
destas. O modelo de Contagem pode ser considerado, assim, uma
construção voluntarista, porém fundamentada em bons princípios
filosóficos e ideológicos de saúde.
A experiência produzida em Contagem teve enorme influência
desse pessoal adventício. Ela ilustra uma situação destacada, que é
a da busca intensiva da participação de agentes externos, quando a
situação interna apresenta-se pouco confortável e, ao mesmo
tempo, se requer mudanças substantivas. Estas pessoas, parecem
formar parte do que seria um novo estrato de gerência, com papéis
de formulação e acompanhamento de políticas dos órgãos gestores
públicos do SUS, principalmente nos municípios, muitos deles
autenticamente profissionalizados em suas funções, principalmente
no âmbito dos próprios serviços, a ponto de se transformarem em
autênticos executivos da saúde, disputados em um mercado de
trabalho competitivo, embora eminentemente estatal. Aliás, casos
de secretários municipais de saúde que assumem o cargo
novamente em municípios diferentes, após o término de seu
mandato, ou mesmo de equipes inteiras que fazem o mesmo
percurso, são bastante conhecidos no panorama atual.
Alguns atores institucionais mostraram-se pouco relevantes ou,
pelo menos, dotados de menor visibilidade do que seria esperado.
Dois casos específicos são: a Secretaria de Estado da Saúde e a
Universidade Federal de Minas Gerais. Não se trata de um
fenômeno isolado, conforme outras experiências estudadas
demonstram de sobra. As raízes de tal fenômeno não são obscuras:
de um lado, o modo de construção do SUS, que só tardiamente vem
incorporando de maneira efetiva e integrada as três esferas de
governo; de outro, a tradicional dificuldade da academia em fazer
parte dos dinâmicos movimentos que caracterizam a gestão e a
assistência no âmbito do sistema de saúde da “vida real”.
Dos organismos de controle social, seja o Conselho Municipal de
Saúde ou as próprias entidades dele participantes, pode-se dizer
que também não tiveram a atuação pulsante, embora fossem
prestigiados e demandados ao longo do processo estudado. A
situação prévia de Contagem, com a presença de uma
administração fortemente clientelista e, provavelmente, pouco
propensa a valorizar e respeitar as deliberações da representação
social no Conselho, explica tal dificuldade.
A atuação do Departamento de Atenção Básica do Ministério da
Saúde foi muito destacada, particularmente diante da oportunidade
aberta a Contagem e a muitos outros municípios pela realização da I
Mostra Nacional do PSF e da publicação de um relato da
experiência local na Revista de Saúde da Família. Estas ações, sem
dúvida, trouxeram impacto bastante positivo para o processo de
implantação do PSF em Contagem, inclusive ajudando a convencer
alguns aliados e atenuar as resistências de adversários renitentes.
CONTEXTOS
O contexto social que serviu como pano de fundo em Contagem
constituiria, em princípio, um obstáculo de monta, pela suas marcas
de pobreza, marginalidade, carências urbanas, insegurança,
violências, etc. Tratava-se de um panorama bastante eloqüente e
que constituiu, sem dúvida, o grande definidor das ações de saúde
ali empreendidas. O fato é que o processo histórico de
industrialização e de urbanização não foi capaz de gerar as
soluções almejadas pela sociedade local, antes, em muitos
aspectos, agravou os problemas referidos acima.
Do ponto de vista político, Contagem ainda se ressentia da
vigência local, por mais de duas décadas, do modo cardosista de
fazer política, com a cooptação de aliados, o alijamento de
adversários, o manuseio de recursos dentro de um escopo
clientelista e eleitoreiro.
A chegada ao poder de uma nova administração, embora nascida
diretamente da outra, da qual, entretanto, buscava (discretamente)
se afastar, não deixa de representar uma certa contradição. Assim,
foram contrapostos no cenário não só uma possível virada radical no modo de atuação da municipalidade, como o continuísmo de
fato, denunciado largamente pelos opositores à esquerda.
O cenário eleitoral praticamente se impôs durante todo o
processo, pois ao momento do afastamento de um prefeito e da
conseqüente transferência do cargo para outro, muitas das cartas
do jogo de poder já estavam postas na mesa, em função de uma
disputa muito maior do que o âmbito municipal, a saída daquele que
foi eleito como titular e que se afastou do cargo, já que visava alçar
vôo mais amplo.
Havia também, como contraponto, a tradição de Contagem na
área de saúde, embora com permeabilidade ao interesse privado,
com uma sólida estrutura física de serviços. É bem verdade que
toda esta engrenagem enfrentava uma forte crise de fundo
institucional e financeiro e também motivacional.
O fato é que a saúde passou a ser incorporada com intensidade
na agenda eleitoral de 1999-2000, tornando-se impossível, seja para
a situação, seja para a oposição, escapar de sua discussão e ter
formulações adequadas para a solução de seus problemas – no que
a discussão do PSF acabou tendo um papel destacado.
É neste contexto de complexos fatores, nem sempre
desfavoráveis, que se move e se constrói a experiência de
implantação do novo modelo assistencial em Contagem.
PROCESSOS
Do ponto de vista do processo de implementação, tudo o que
aconteceu em Contagem teve como marca e limite o fator tempo.
Foi uma verdadeira corrida contra o calendário, ou como um
entrevistado se referiu, “contra o relógio”. As mudanças tinham de
ser feitas, bem feitas, mas sempre com pressa. Isto pode ter
ajudado a desencadear muitos processos, que em situações
normais teriam sido postergados, embora também possa ter
causado dificuldades em outros.
A capacitação de pessoal, por certo, foi uma atividade que se
ressentiu do pouco tempo disponível, da mesma forma que outras
ações que dependiam de uma mudança de fundo cultural para se
concretizarem, como foi o caso da adesão afetiva e ideológica dos servidores e da população ao novo modelo que se queria implantar
no sistema de saúde da cidade.
Outra característica do esforço de Contagem em busca de
mudança no modelo assistencial foi ter tido, como ponto de partida,
uma situação de crise na saúde, em muitos aspectos beirando o
caos e o sucateamento. A baixa de credibilidade e a carência de
auto-estima dos servidores só faziam piorar os problemas. “O fundo
do poço” se mostrava e o caminho mais visível era o de tentar
seguir em frente, sem recuos. As mudanças encetadas foram
muitas, com a ação concentrada em várias frentes, tanto nas áreas
de fins como nas de meios, tendo ritmo marcado pelo metrônomo do
processo eleitoral. Mesmo assim, uma certa radicalidade se fez
presente, como no caso da opção substitutiva, levada às últimas
conseqüências possíveis. O clima era realmente de transformações,
de explosão, “Mudança mesmo!”, como se expressou um
entrevistado.
As inovações gerenciais e assistenciais conseguidas foram sem
dúvida expressivas, apesar dos contextos muitas vezes inóspitos. O
desenvolvimento de uma autêntica inteligência institucional,
sintonizada a um pensamento atualizado em teoria administrativa,
embora possivelmente desenvolvido de forma intuitiva, foi uma
marca do andamento dessas inovações. É verdade que a
governabilidade dos processos que se enfrentavam nem sempre era
alta, como no caso das referências. Mas em outros aspectos, como
nas práticas bastante positivas de avaliação e, particularmente, no
desenvolvimento de uma cultura específica nesta área, os avanços
foram palpáveis. Da mesma forma, o programa de assistência
farmacêutica, outra grande inovação desenvolvida localmente, foi
reconhecido nacionalmente como um instrumento eficaz de
promoção de acesso a um item costumeiramente relegado a
segundo plano nas políticas públicas.
A emulação e competição com Betim, até por motivos ligados
puramente a uma lógica partidária e eleitoral, parecem ter sido
impulsionadores da experiência que, aparentemente, superou a
atuação do município vizinho no aspecto específico da implantação
do PSF.
A experiência de Contagem foi ainda marcada por uma forte
decisão política na origem, do que se viram exemplos significativos,
mas sempre associada à expertise e competência técnica,
valorizadas no processo. O peso das decisões técnicas no processo
de implantação foi, de certa forma, impactante – até um limite
razoável. Aliás, destaque especial deve ser conferido às assessorias
técnicas externas recebidas pela SMS, muito valorizadas e dotadas
de caráter de continuidade e compromisso com objetivos e que, sem
dúvida, contribuíram para o sucesso alcançado em muitos aspectos.
Não foram poucos os conflitos enfrentados na caminhada da
saúde em Contagem. O estudo revela exemplos significativos, como
os confrontos da administração com as oposições, com o
funcionalismo mais tradicional, com a iniciativa privada, com os
médicos, com os próprios tomadores de decisão dentro da
municipalidade, dotados de uma visão mais economicista, etc. Uma
certa dinâmica de deixar as coisas se acomodarem na caminhada
parece não ter sido de todo inócua, até pela carência de
governabilidade em relação a muitas dessas questões. O que se viu
foi a emergência e a manutenção de questões antigas, ao lado de
novas, um permanente embate entre o velho e o novo. A tradicional
questão médica, presente com intensidade no panorama de
Contagem, é bem uma marca desse conflito entre o presente e o
passado.
A autonomia e o espontaneísmo parecem também ter sido
marcas da experiência de Contagem, como se viu, por exemplo, na
comunicação com os usuários e em outras ações, facilitadas que
foram pelo ritmo acelerado das mudanças. A I Mostra local do PSF
mostrou, contudo, que esses traços trouxeram resultados também
positivos
CONTEÚDOS
Analisando, finalmente, os conteúdos que pautaram as
mudanças, mesmo dentro de um quadro de processos acelerados
como aqueles presenciados em Contagem, em relação aos quais
nem sempre seria possível o exercício aprofundado da reflexão e da
busca de marcos teóricos e conceituais para presidir a ação gerencial, destacam-se algumas referências que sintonizam as
práticas desenvolvidas com discussões contemporâneas no
panorama da saúde coletiva.
Assim, é bem visível o apoio, explícito muitas vezes, outras vezes
nem tanto, nos conceitos do Planejamento Estratégico Situacional,
de resto tão proeminente na área de saúde do País ao longo da
década de 90, o que certamente traduz a proximidade de alguns dos
atores locais com instituições acadêmicas, particularmente o
NESCON/UFMG, um dos centros difusores de tal metodologia.
A construção, embora não necessariamente consciente, e a
atuação de uma inteligência institucional são marcas demonstrativas
de uma aproximação a conceitos que marcam, na atualidade, as
preocupações com a eficiência organizacional. Trata-se, sem
dúvida, de um viés que foge ao padrão tradicional da organização
pública, particularmente no contexto de pouca “modernidade” dado
pela história da FAMUC e das demais instituições do poder público
na cidade.
Encontrar-se-ão, ademais, em pontos diferentes da máquina
administrativa e também na assistência, a vigência de processos
analíticos qualitativamente diferenciados, com fortes implicações na
tomada de decisões, como se viu em algumas análises referentes
aos processos de trabalho, na avaliação da assistência e outros
casos, processos esses levados a efeito pela inteligência já referida.
As lições de Contagem
A partir da identificação dos fatores que foram fortalecedores ou,
ao contrário, que criaram obstáculos ao pleno desenvolvimento da
atuação do gestor municipal, em termos dos processos de
implementação de sua política de saúde, bem como da análise de
atores, contextos, processos e conteúdos, levada a efeito nas linhas
acima, algumas supostas lições puderam ser enumeradas,
ressaltando-se também os aspectos distintivos apresentados pela
experiência de Contagem. São elas:
a. Um processo de implementação realmente substitutivo, fugindo
do pontualismo, de natureza explosiva e acelerada;
b. Um processo que interferiu com a estrutura de toda a rede e
não apenas com a atenção básica, produzindo mudanças
profundas, sem perder de vista a integração e a necessária
horizontalização dos programas verticais;
c. Uma situação política peculiar (sucessão e campanha para
reeleição do prefeito) obrigando a práticas de mudança rápida e
concreta no panorama;
d. Presença de lideranças empreendedoras no Executivo
Municipal, tendo como casos típicos o prefeito, além do próprio
gestor municipal da saúde;
e. Um ponto de partida quase caótico, com a implantação do PSF
como esforço de levantar a credibilidade da saúde no
município;
f. Quebra de vínculos clientelísticos históricos no Legislativo, por
exemplo, como durante o processo de seleção de ACS;
g. A captação intensiva da ajuda de atores externos;
h. Processos intensivos de discussão e reprogramação de ações,
pelo menos no nível das coordenações da SMS e do PSF;
i. Pragmatismo na tomada das decisões, por exemplo, em
relação à manutenção de critérios de produtividade nas ações
do PSF.
Curitiba: a força da comunidade
cívica e da continuidade
administrativa
Contexto político
Curitiba, capital do Paraná, é uma cidade três vezes centenária,
com uma história ligada aos vários ciclos (mineração, gado, café e
industrialização) que fazem parte da herança cultural e econômica
típica da Região Sul do Brasil. É uma cidade-pólo típica, agregadora
de conhecimentos e de tecnologia, não só na área da saúde como
em outras. Exerce grande atração sobre uma vasta região, pelos seus serviços de saúde de alta complexidade, sendo mesmo uma
referência nacional para alguns deles, como é o caso do transplante
de medula. A cidade é também um grande centro de cultura e de
ensino, com grande número de cursos universitários situados em
universidades ou faculdades isoladas, representando uma área de
atração para todo o Estado do Paraná, demais estados das regiões
Sul e Sudeste do Brasil e mesmo para países da Bacia Platina.
De acordo com análises constantes no seu Plano Municipal de
Saúde (CURITIBA, 2001), seu quadro nosológico assemelha-se ao
de outras cidades de grande porte no Brasil, com incidência
expressiva e crescimento nos indicadores de mortalidade por
causas externas (violências, suicídios, acidentes de trânsito e
homicídios) e doenças degenerativas (cardiovasculares e câncer,
por exemplo). Do ponto de vista demográfico, a estimativa de
população para o início do século XX é de pouco mais de um milhão
e meio de pessoas, com uma taxa de urbanização de praticamente
100%, e densidade demográfica de 3690 habitantes por km 2. A
cidade polariza uma região metropolitana extensa, com 22
municípios e população estimada em 2,5 milhões de habitantes. Na
estimativa para o ano 2000, o número de mulheres sobrepõe-se ao
de homens em cerca de 60 mil; 68% da população está na faixa de
15 a 64 anos de idade. Em média, os anos de estudo situam-se na
faixa de 6,87.
Característica marcante da capital paranaense é a migração,
principalmente européia, tendo como etnias predominantes a
polonesa e a italiana, além da japonesa. O próprio prefeito municipal
à época do estudo, Cássio Taniguchi, é nissei.
Curitiba, nos últimos 30 anos, teve administrações que mostraram
um tônica de continuidade. Só Jaime Lerner teve três mandatos
nesse período e em dois deles, pelo menos, foi sucedido por aliados
políticos, Rafael Grecca e Cassio Taniguchi, sendo que este último
cumpriu dois mandatos sucessivos. Mesmo quando houve
alternância de poder por mudança partidária no comando da cidade,
como ocorreu nas gestões de Roberto Requião e Maurício Fruet, a
análise feita pelos entrevistados é de que se mantiveram as
disposições das gestões anteriores, além das próprias equipes
técnicas da administração municipal. Trata-se de um padrão civilizado de fazer política, sem os efeitos destrutivos da alternância
de poder, o que ficará mais destacado quando se comparar Curitiba
às demais cidades estudadas.
Além da continuidade política, a cidade se notabiliza, há décadas,
por representar um padrão de referência nacional em matéria de
inovações urbanísticas e projetos de alcance social, que têm seus
pontos fortes nos sistemas de transporte, lazer e cultura, além da
saúde. Isto também é um aspecto diferencial em relação às outras
experiências estudadas neste trabalho.
O prefeito Taniguchi, um engenheiro, foi eleito pela primeira vez
em 1996, sucedendo a Jaime Lerner, de cuja administração
participara como secretário de Planejamento e reeleito em 1999,
tendo a questão “saúde” como forte argumento de campanha,
particularmente a ampliação da implementação do PSF. Aliás, um
aspecto digno de nota nesse período é que o PSF foi defendido por
todos os candidatos na campanha eleitoral de então, mesmo pela
oposição ao Governo Federal.
A saúde em Curitiba
A saúde em Curitiba, pode-se dizer, tem uma história bem
documentada e detalhada. Em seus primórdios, que remontam aos
anos 60, já havia o que se chamou, com reverência aliás, de “ações
isoladas” da municipalidade, ainda dentro de uma estrutura precária
de gestão, pois a própria Secretaria Municipal de Saúde só foi
criada em 1985, durante a gestão de Roberto Requião. Nesse
momento inicial, foi a área de odontologia quem teve primazia na
formulação de propostas, dado o conhecimento acumulado nos
aspectos preventivos, característicos da mesma, aliado à presença
de lideranças influentes no cenário dos serviços públicos, inclusive
municipais.
Destacou-se, em tal período primordial, mesmo dentro do quadro
de perda de autonomia das capitais vigente durante o regime militar,
a realização de certos avanços surpreendentes para a época, como
a elaboração de um Plano Municipal de Saúde, a orientação da
política sanitária para aspectos não comumente vinculados à saúde, tais como saneamento e meio ambiente, bem como uma primeira
expansão da rede e da responsabilização municipal em saúde, com
foco no trabalho multidisciplinar e inter-setorial.
No período entre 1971 e 1975, surgia e se aprofundava no
cenário local a discussão da Atenção Primária à Saúde e da
extensão de cobertura, certamente influenciada pelo ideário
difundido por organismos internacionais de saúde. Os reflexos de tal
discussão se deram com a marcante expansão da rede pública
ambulatorial municipal vista nos anos seguintes, dentro de uma
filosofia de cuidados primários. Nasceram, nessa época, as idéias
de desenvolvimento de uma filosofia de planejamento urbano na
cidade, com a criação do Instituto de Pesquisa e Planejamento
Urbano de Curitiba, bem como o lançamento de um Plano de
Desenvolvimento Comunitário. Na década de 80, a rede municipal
passa por vigorosa ampliação, com a criação das “Unidades 24h” e
do esboço dos primeiros “Distritos Sanitários”, uma outra marca
registrada de Curitiba. Já neste momento, a cidade se antecipou em
realizar sua I Conferência Municipal de Saúde, bem como a própria
criação do Conselho Municipal de Saúde.
A década de 90 é considerada crucial para a evolução do atual
modelo assistencial em saúde de Curitiba. Nesse período, são
identificadas algumas etapas, a primeira delas de municipalização
das unidades estaduais e federais (1991), seguida da
descentralização (1992-1993) com do desenvolvimento do processo
de territorialização e regionalização. Em seguida vem a fase de
gestão do sistema municipal (1996-1998), com o recebimento dos
recursos transferidos fundo a fundo e a responsabilização plena da
municipalidade. A fase atual, iniciada em 1999, seria a da mudança
do processo de trabalho nas unidades, com a introdução do sistema
integrado de saúde (MENDES, 2000). Foram estabelecidos alguns
objetivos estratégicos para a saúde: a melhoria da qualidade do
atendimento e da resolutividade dos serviços; a viabilização das
ações de prevenção, de promoção e de atenção à saúde; a busca
da excelência nas ações de vigilância à saúde, além da manutenção
da qualidade dos serviços prestados. Para tanto, foram definidas
algumas metas, dentre elas a constituição de mais 60 equipes de
Saúde da Família e a intesificação de diversos programas já existentes, tais como: Mãe Curitibana, Pacto pela Vida, Nascer em
Curitiba, Viva Mulher, Saúde Mental, Saúde Bucal, Saúde da
Família e Agentes Comunitários de Saúde, entre outros (ROMANÓ
et al., 1999; TANIGUCHI, 2000).
Na análise de alguns dos entrevistados, os acertos do caminho da
saúde em Curitiba devem-se, antes de mais nada, ao vigor de
propostas de trabalho defendidas por equipes ligadas
historicamente ao setor público, tendo ainda como fator favorável a
continuidade administrativa característica da cidade. Um outro
aspecto posto em destaque foi a vigência de uma carreira bem
estruturada na SMS, o que de certa forma se confirma pela inserção
na mesma do atual secretário municipal de saúde (que tem 20 anos
de carreira na SMS) e de seus principais assessores.
Implantação do PSF
Sem dúvida, os antecedentes históricos do Programa de Saúde
da Família de Curitiba estão dados pela própria trajetória das
propostas de saúde implementadas nas décadas anteriores, tendo
como pano de fundo as discussões referentes à APS. Além disso,
as idéias da regionalização e da territorialização do sistema de
saúde não só estiveram na pauta das discussões técnicas e
políticas como foram efetivamente praticadas em Curitiba, com a
criação dos Distritos Sanitários ainda na década de 80.
Em 1991 foram registradas as primeiras discussões que podem
ser consideradas os antecedentes mais diretos do PSF, compondo
uma pauta na qual o questionamento do modelo assistencial e o
aprofundamento das noções de território e de atenção primária
foram os tópicos principais. Registravam-se, desde o final de
década anterior, reivindicações comunitárias de mudança de modelo
assistencial, partindo da região da Pompéia que foi sede,
posteriormente, de uma primeira experiência-piloto neste sentido.
Esse primeiro movimento parece ter sido uma resposta local à
proposição do “médico de família”, que havia penetrado em Curitiba
sob influência do Grupo Hospitalar Conceição, de Porto Alegre, bem
como de contatos e troca de informações com consultores canadenses e com técnicos do Programa de Niterói. Estruturou-se
assim, a partir de 1992, uma proposta de intervenção inspirada na
vigilância à saúde e na prática da medicina geral comunitária. Nesta
etapa, a equipe da Universidade de Toronto colaborou com o
oferecimento e adaptação de algumas ferramentas assistenciais
originadas do Canadian College of Physicians para o projeto, bem
como com a capacitação das primeiras equipes. Já entre 1991 e
1992, com a implantação da primeira unidade de tal programa, na
região de Santa Felicidade, ocorre o apoio externo direto do Grupo
Hospitalar Conceição, de Porto Alegre, em trabalho coordenado
pelo médico Carlos Grossman, um ator importante, inclusive em
termos nacionais, no desenvolvimento da proposta de Saúde da
Família e congêneres.
Em 1996 ocorre a adesão ao PSF dentro dos padrões
estabelecidos pelo Ministério da Saúde, com a implementação de 16
equipes, ocorrendo simultaneamente um processo seletivo público e
a capacitação de 400 profissionais, mantendo-se um ritmo constante
de crescimento a partir de então. No ano 2000, é instalado o
primeiro Distrito Sanitário inteiramente coberto por equipes de
Saúde da Família, na região do Bairro Novo. Em outubro de 2001, o
PSF contava com 75 equipes, instaladas em 37 Unidades de Saúde
da Família, com cobertura estimada de pouco mais de 20% da
população curitibana (SILVEIRA FILHO et al., 2001).
Alguns marcos do desenvolvimento da proposta do PSF em
Curitiba são: (a) a articulação entre docência e serviço, presente
desde os primórdios, com participações do Grupo Hospitalar
Conceição, da Universidade de Toronto, da Universidade Federal do
Paraná, da PUC-PR, da Faculdade Evangélica, entre outros; (b) a
criação do Pólo de Capacitação, em 1997, com múltiplas instituições
atuantes; (c) a articulação com sociedades profissionais, como as
Sociedades Paranaenses de Saúde da Família e de Médicos Gerais
Comunitários e a Associação Médica do Paraná; (d) o
desenvolvimento de protocolos assistenciais, a partir de 1998; (e) a
criação do Núcleo de Estudos em Saúde da Família na UFPR,
também em 1998; (f) a realização do I Encontro Paranaense em
Saúde da Família, com mais de 200 profissionais participantes, em
1999; (g) o desenvolvimento de estudos voltados para detecção de resultados e impacto do programa; (h) a aceleração da
implementação do PSF após 1998, como parte do projeto político da
administração Taniguchi (SILVEIRA FILHO et al., 2001).
Em Curitiba a política de recursos humanos para a saúde como
um todo e para a atenção primária à saúde, em particular, obteve
grande relevância, dadas as práticas de integração e colaboração
desenvolvidas com universidades locais (UFPR e Faculdade
Evangélica). Em tal aspecto, é digno de destaque que a SMS não só
atuou como financiadora dos cursos ministrados pelas
Universidades, como também desenvolveu mecanismos de
incentivo interno para seus funcionários participarem dos mesmos,
num processo de investimento considerado muito intenso e muito
decidido por parte da administração.
A política de recursos humanos para o PSF tinha ainda outras
peculiaridades notáveis, ligadas ao padrão do processo de gestão
pública de Curitiba. Assim, todos os membros da equipe, salvo os
agentes comunitários de saúde, pertenciam aos quadros da carreira
pública municipal, sendo contratados por processos seletivos
formais. A exceção aos ACS devia-se à exigências a este respeito
do Ministério da Saúde, derivadas da própria concepção de
“comunitário” que permeia este recurso. Os contratos, neste caso,
eram realizados mediante uma entidade vinculada à Fundação de
Ação Social local, o Instituto Pro-Cidadania, que desenvolvia
também outras atividades, inclusive a contratação “triangulada” de
recursos humanos para o setor público, uma solução comum em
toda parte. Existiam também contratos mediante “credenciamento”
de médicos, visando suprir áreas estratégicas que estavam
desfalcadas de pessoal, mas esta pareceu ter sido uma situação
residual.
Outro aspecto relevante e seguramente distintivo em Curitiba era
o das parcerias estabelecidas também com instituições não
normalmente vinculadas à capacitação de recursos humanos,
particularmente com o setor público de serviços, como era o caso
das duas Sociedades de Especialistas (Medicina Geral Comunitária
e Saúde da Família), bem como com a Associação Médica do
Paraná, que se envolveram em projetos de cursos de aperfeiçoamento e especialização em Saúde da Família em anos
recentes.
Mais um aspecto a ser considerado no processo de
implementação do PSF dizia respeito aos modos de gestão
desenvolvidos, cujas origens estão certamente sintonizadas com as
tradições e práticas político-administrativas vigentes localmente.
Aqui, certamente, aspectos anteriormente mencionados, que faziam
o pano de fundo do que se poderia chamar de um “bom governo”,
como a continuidade política, os planos de carreiras definidas, a
ênfase em uma cultura de planejamento e avaliação bem como a
qualificação das equipes técnicas locais são fatores que estão em
jogo. Acresça-se a tudo isso o nível de aprofundamento conceitual
relativo à saúde e às áreas sociais em geral, em termos filosóficos e
operacionais, que parecia ser uma marca de Curitiba, com práticas
inter-setoriais daí decorrentes. Neste sentido, notava-se que a
experiência da saúde em Curitiba sempre pôde contar com forte
apoio externo e contínuo, conforme atestavam os diversos casos já
referidos. Acreditava-se, também, no valor e na influência de um
possível “fator cultural” como condicionante das práticas de gestão,
arrolando-se aí os aspectos da diversidade étnica tão marcante no
Paraná, bem como uma certa “auto-referência” e “auto-estima” que
também fariam parte do “modo de ser” curitibano e paranaense.
Sobre a proposta de Sistema Integrado de Saúde, desenvolvida
por meio de consultoria específica (MENDES, 2000) e que vinha
pontuando o cenário da saúde no município, com reflexos na
organização dos serviços e na própria estratégia de implantação do
PSF, suas características principais eram: (a) oferta de atenção à
saúde “no lugar certo, no tempo certo, na qualidade certa e com o
custo certo”; (b) serviços ofertados de forma integrada e orientados
às necessidades da população em cada área de abrangência; (c)
busca de satisfação da clientela do sistema de saúde; (d) ampliação
e diversificação dos pontos de atenção à saúde da rede; (e)
melhoria da comunicação entre os vários pontos de atuação; (f)
promoção do auto-cuidado; (g) integração inter-setorial dos serviços
e das políticas públicas.
O sentimento dominante entre os entrevistados era o de que, em
Curitiba, a saúde estava indo bem, o que não deixava de ser confirmado pela visibilidade nacional que os programas
desenvolvidos na cidade obtinham, entre eles o PSF. Analisar este
aparente bom caminho pode ser, sem dúvida, um processo para
melhor compreendê-lo, sem cair nas malhas de um otimismo
superficial. Foi isto que os atores locais entrevistados foram
solicitados a fazer, pontuando aspectos favoráveis e desfavoráveis,
bem como as lições e os aspectos distintivos da experiência que
vivenciavam, com ênfase no Programa de Saúde da Família.
Fatores favorecedores: (a) o fato de o discurso de Atenção
Primária à Saúde ter curso histórico em Curitiba, desde a década de
70, com as influências de Alma Ata e de outras discussões
internacionais e nacionais; (b) como um dos entrevistados pontuou
com precisão, “a SMS sempre teve dirigentes e equipes ligados ao
setor público”; (c) a existência de uma estrutura de gestão pública
eficiente e atenta aos direitos dos servidores, um fator importante no
crescimento e na qualificação da área da saúde, traduzida, por
exemplo, pelos planos de carreira, que restringiam o acesso aos
cargos principais da SMS apenas a funcionários, com limitação de
cargos comissionados externos; (d) o “pessoal da casa” – os atores
internos – sempre tiveram peso importante na escala de influências;
um exemplo marcante seria o caso da odontologia; (e) destacou-se
o investimento em capacitação desde o início do programa, com a
participação de atores externos que tinham contribuições
expressivas a dar, como os canadenses, OPAS, instituições locais,
GHC, além de outros; (f) vontade política e “crença no modelo”, com
alocação de recursos de forma condizente; (g) adesão social à
proposta, não só da comunidade como das próprias equipes da
SMS; (h) práticas de “boa implementação” traduzidas por discussão
permanente com as equipes e com a população, por intermédio dos
conselhos, com busca ativa de adesão e consenso; (i) vigência de
um possível “fator cultural”, cultura cívica ou algo equivalente, de
natureza étnica, social, histórica e mais os atributos de
autoreferência e auto-estima que seriam característicos da
comunidade local.
Fatores dificultadores: (a) o financiamento insuficiente, um
verdadeiro “nó a ser desatado” e que limitava a expansão das
atividades de saúde em geral, inclusive do PSF; (b) os dilemas impostos pela formação profissional, pelo mercado de trabalho, pela
ideologia e pelo corporativismo médico; (c) o ritmo, por vezes
demasiadamente acelerado, da implantação do PSF; (c) ainda no
campo do financiamento, a cobertura do PSF de 28% deixava
Curitiba em situação difícil, por ser uma faixa de baixa remuneração,
de acordo com as normas do MS; (d) pouco avanço em aspectos
como resolutividade e referência, preparação e amadurecimento das
equipes, persistência de médicos credenciados, “competição” no
atendimento entre as Unidades 24 h e as UBS e USF.
Síntese interpretativa
Buscando uma síntese finalizadora da presente seção, será
tomada uma questão essencial que a experiência de implantação do
PSF em Curitiba levanta, tomada, aliás, de forma textual de um dos
depoimentos colhidos, qual seja: “por que estas coisas vingaram em
Curitiba”? Para respondê-la, obedecendo à matriz de análise de
políticas que constitui a referência metodológica deste trabalho, será
aprofundada, nas páginas seguintes, uma síntese interpretativa a
respeito das quatro categorias propostas, a saber: atores, contextos,
processos e conteúdos.
ATORES
Chama a atenção, já à primeira vista, a marcante diversificação
das pessoas e das instituições que, de alguma forma, se relacionam
com o processo de formulação e implementação do PSF de
Curitiba, configurando uma vasta gama de atores governamentais e
não-governamentais, nacionais e internacionais, individuais e
institucionais.
No trato com os atores externos destaca-se o fato de que a
autoridade local é que de modo geral detém a prerrogativa da
tomada de decisões na formulação e na implementação da política.
Um bom exemplo disso é a mudança de rumo da antiga proposta de
medicina geral comunitária do início da década de 90, modelada em
matriz oriunda do GHC e do Canadá, que aos poucos transforma-se em modelo adaptado às condições de Curitiba, realizando assim
uma síntese das propostas originais e superando-as ao final.
A participação dos atores externos tem tido atributos de grande
seletividade ou, em outras palavras, uma preocupação com a
captação das pessoas certas, na “hora certa”, para fazer a coisa
certa, ou seja, aquilo que já faz parte dos projetos do governo local,
mesmo quando definidos apenas preliminarmente, o que não
impede que a última palavra esteja reservada à autoridade
municipal. Além desta peculiaridade, é notória também a
continuidade do contato desses atores com os serviços locais,
alguns deles atravessando três administrações municipais. Este
processo de cooperação, além de ser continuado, também tem
proporcionado ao sistema local a construção de pontes para fora
muito abrangentes.
O que um entrevistado chamou de “o pessoal da casa” é
certamente outro fator diferencial. Sobre este ator percebe-se sua
vinculação histórica ao setor público, tendo como contrapartida
virtuosa a vigência de políticas de valorização de pessoal, por
exemplo, através dos planos de carreira, das oportunidades de
capacitação e dos incentivos financeiros e de natureza simbólica
oferecidos pela administração municipal. Seu perfil poderia ser
definido como um quadro jovem, de extração mais técnica do que
políticopartidária, com passagens por diversas instâncias da rede de
serviços, muitos com militância em movimentos de saúde locais,
além de formação acadêmica, pertinência à carreira pública,
capacitação específica para as funções exercidas – inclusive em
gestão – planejamento e epidemiologia.
O significado de um grupo político na saúde, como foi constatado,
ou de lideranças não estritamente técnicas, como é o caso do atual
Secretário de Saúde, é também um dos fatores que certamente
contribui para o sucesso da implementação de políticas. Isto estaria
relacionado à existência de uma estirpe de autênticos intelectuais
orgânicos da saúde entre os servidores públicos municipais, no
sentido gramsciano do termo, do que em Curitiba pode-se encontrar
muitos exemplos, como é o caso do secretário e seus assessores
principais.
Há ainda outros aspectos relevantes na relação do poder público
com os atores sociais. Chama atenção, por exemplo, o investimento
material e simbólico realizado para a adesão às propostas de
governo, seja do corpo funcional, seja dos atores sociais em geral,
conforme muito dos depoimentos destacam, o que parece ser uma
tônica consagrada pela história dos governos em Curitiba.
Uma forma de cooperação produtiva e exemplar, sem dúvida um
tanto rara, é aquela que se estabeleceu entre a academia e os
serviços de saúde em Curitiba, mesmo com alguns percalços às