Serões da Província
Justiça da sua Majestade
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Foi só então que reparou no ar de tristeza que as feições acentuadas e expressivas lhe refletiam naquele momento.
— Que é isso, major? Se me não enganei, ouvi-o agora suspirar — disse o alferes, dando um certo entono jovial à interpelação.
O major conservou-se algum tempo calado, depois respondeu, afetando indiferença:
— Que quer você, Rialva? O meu reumatismo não se esquece de me dar de vez em quando notícias suas.
— Ai, major! major! a não descrer muito da minha experiência na matéria, aquele suspiro não era desafiado por uma dor articular.
— E então que quer dizer com isso? Vejo-o com ares de quem me supõe apaixonado. Olhe bem para mim, Rialva. Acha-me com cara de poeta erótico ou de galã de romance? Na minha idade!
— Um militar é sempre jovem, major É aforismo de quartel. O coração não teve tempo de envelhecer no campo da batalha.
— Mas contrai outros hábitos e afeições por lá, e perde essa extrema inflamabilidade, que ameaça a de pessoas, como você, de continuados incêndios. O meu não está sujeito àquelas enxaquecas de que ontem nos falava o nosso amigo José Urbano. Se se não curtiu, como o dele, nos calores dos sertões americanos, temperou-se no fogo da metralha.
— Mas aquele suspiro, major?
— Que tem aquele suspiro? Que significa isso? Suspira-se sem motivo também e quantas vezes?
— Oh! mas é um terrível sintoma. Deve confessá-lo.
— Olhe, Rialva, — disse o major depois de alguns minutos de silêncio — vou falar-lhe com toda a franqueza. Não é com indiferença e de ânimo tranquilo que tenho feito esta viagem do Minho. Sabe que militei no Porto. Sabe que, sob o comando de D. Pedro, ganhei muitas das minhas patentes e quase todas as minhas condecorações. A história das minhas cicatrizes está escrita por estes sítios. Os episódios das campanhas gravam-se-nos na memória e deixam saudades sempre. Sinto-as agora e vivas e profundas! Se as sinto! E verdade. Conheço ainda tudo isto! Acodem-me à imaginação coisas que julguei esquecidas para sempre. Lances arriscados, situações difíceis, entusiasmos de vitória, desesperos das derrotas, episódios cómicos no meio dos horrores da guerra, banquetes, onde folgavam e riam, ao nosso lado, muitos que momentos depois estavam inanimados na campa... mil aventuras enfim, pecados velhos, que agora vão recordando com certo travor.
— Pecados velhos também? — disse o alferes, sorrindo.
— Que dúvida? E oxalá que fossem todos leves!
— E não serão?
— Nem todos, Rialva, nem todos. E se tiver de ser franco consigo, talvez que vá prender a um dos mais graves o suspiro de que há pouco você me pediu a explicação.
— Ah! Bem que me parecia que vinha do coração.
— Mas não de um coração namorado e casquilho. Entendamo-nos. Graças a Deus e à minha boa sorte, tenho sido preservado desse mau achaque de velhice. Mas de um coração arrependido... pode ser... é. São remorsos de um mal feito, desejos de o remediar, desejos irrealizáveis agora, e que por isso me serão perpétuos tormentos.
— Repare, major, que está dando às ideias uma direção demasiado sinistra. Nunca assim o conheci apreensivo e lúgubre.
— Tenho por costume não manifestar os meus sentimentos. E pudor de coração que se não quadra com a empáfia militar. Mas, à vista destes lugares, tão cheios de recordações para mim, a comoção foi mais forte do que eu, venceu-me, zombou da minha repressão, transbordou. Já agora deixá-la.
— Confie em mim, major; eu sei compreender esses sentimentos.
— Não sabe tal. Na sua idade não se pensa nisto. Somos imprudentes; mais tarde, demasiadamente tarde é que sentimos o mal.
O alferes, longe de protestar contra o conceito formulado pelo seu velho companheiro, calou-se e pareceu meditar.
— Desde 1843 que não voltei a estes sítios — continuou o major. — Deveres em parte, e em parte o natural descuido de ânimo dos que vivem aquela vida de Lisboa, mo impediram. E, contudo, alguma coisa me devia ter trazido aqui há mais tempo.
— Vestígios de passadas afeições?
— Sim; mas vestígios tristes, vestígios de lágrimas talvez. Entre muitas aventuras da mocidade, eu tive também o meu romance, Rialva. Sossegue, que não gastarei estilo em lho narrar. Eu não me entendo com a vossa literatura de agora. Bem sabe que sou contemporâneo dos sonetos, e por isso abstenho-me de fazer narrações a rapazes que se alimentam de romanticismo puro. Em vez de arroubamentos, e enleios que estão agora na moda, eu poderia falar-lhe nas clássicas setas de Cupido e nas pouco ideais seduções das três filhas de Vénus.
— Ora vamos, major Quer-me parecer que, ainda que tarde, também se sujeitou àquela vacina, de que fala Garrett, para se preservar das bexigas, as quais, na frase dele, matavam a fazer odes pindáricas e sonetos os rapazes da sua época. Conte-me o seu romance.
— É preciso que lho conte? Pois não o adivinhou já? Não o ia escrever capítulo por capítulo, prescindindo da minha narração? É o eterno romance de um rapaz estouvado que, no meio das suas afeições efémeras, costumado a acreditar na inconstância dos corações, não recua diante de nenhuma conquista; que se julga um profundo conhecedor da humanidade, só porque lhe ignora o seu lado melhor. A quem seduz a fama de um D. João ou Lovelace, e, como esses belos modelos, que pretensiosamente procura imitar, fazendo de todas as mulheres um leviano juízo, joga com as afeições de todas, sem se lembrar que um só coração que sacrifique nesse jogo é pagar muito cara uma distração de rapaz.
— Bravo, major! Nunca me lembra de o ter ouvido falar assim!
— Pois aproveite a ocasião, que talvez seja a última. Eu não gosto de andar a fazer pelo mundo estas profissões públicas de sentimentalismo. Mas a verdade é essa. Na época em que eu vivi por estes sítios... Era eu então alferes como você, Rialva, e igualmente estouvado.
— Agradecido pelo conceito, major.
— Sabe que digo sempre o que sinto. Nessa época contava as minhas aventuras pelos dias da semana, e esquecia-as tão prontamente como elas se sucediam. Já ao terminar a campanha e próximo a partir para Lisboa, pela primeira vez me encontrei com um coração, que me coube em sorte despedaçar. Soube-o tarde, mas soube-o para a minha condenação. Foi uma mulher que, mais que todas as que até então conhecera, me produzira uma profunda impressão. Era uma rapariga que vivia nas imediações de Barcelos só com uma criada, que fora sua ama de leite, e nesse tempo exercia as funções de governanta da casa. A fortaleza não estava bem defendida; pode prever que me não foi difícil a conquista, desde que consegui obter simpatias na praça. Entreguei-me de olhos fechados a todos os prazeres e a todas as consequências daquele amor Os primeiros pode concebê-los; estas porém talvez lhe transtornassem as previsões que formasse.
Voltei para Lisboa desde que uma paz definitiva se consolidou; e, confesso-lhe francamente, na vida da capital, onde aos vencedores esperavam outras vitórias fáceis, e delícias dignas de Cápua, esqueci-me daquela mulher Lembrei-me tarde. Quando escrevi para Barcelos, pedindo cautelosas informações a respeito dela, responderam-me que a infeliz tinha morrido logo depois da minha partida.
— E o major ficou acreditando que ela morreu de amores!
— Rialva, não se faça cético — disse Clemente Samora, tomando um ar de serenidade. — Não há nada que fique tão mal a um rapaz, do que essa endurecida descrença, que está agora na moda. Com sinceridade, você não acredita que possa haver um amor verdadeiro?
— Acredito, mas julgo-o a civis rara, que só a poucos felizes se mostra.
— Ora adeus! Em todo o caso, se quiser que mais tarde o coração lhe não dê destes momentos de amargura que me está dando hoje, não se deixe aconselhar por essa descrença. Receie sempre do remorso.
— Remorso! É dura a palavra.
— E verdadeira. Quando em 1846 voltei ao Podo, tremia só em lembrar-me que os incidentes de campanha, que ia empreender, me poderiam levar àqueles sítios, e hoje vê que não sou tão senhor de mim, que domine a comoção que eles me despertam.
Depois destas palavras, que o major efetivamente pronunciou comovido, reinou por algum tempo o silêncio entre os dois.
— Sabe o major que possui um notável poder de catequese? — disse Rialva, passada esta pausa, procurando conservar às suas palavras o tom jovial em que até ali as mantivera.
— Por que diz isso?
— Porque estou quase arrependido de uma pequena aventura, que o ano passado tive nos arredores de Braga, quando, por ocasião dos movimentos militares que se seguiram à Regeneração, me demorei alguns meses naquela cidade.
— Alguma imprudência sua.
— Sossegue, major; eu não sinto grandes apreensões a respeito do caso, porque, como lhe disse, não creio que se mona de amores cá por este mundo, e muito menos que seja eu o destinado para inspirar uma dessas paixões excecionais.
— Mas enfim?
— Vi uma rapariga num convento de Braga...
— E escalou-o, arrombou-o, incendiou-o?
— Não, major E verá, pela narração que lhe vou fazer, que nestas coisas ainda não deixei de ser noviço!
— Ouçamos a narração.
— Que interessantes olhos, meu amigo! Uns olhos que valiam poemas; o rosto de uma cor de pérola fascinadora, e a voz com mistérios de melodia, que a arte ainda não decifrou. Não havia ser-lhe indiferente, major, acredite. O major que fosse...
— Bem, bem, adiante. Fale-me de si, Rialva, fale-me de si. De mim sei eu de sobra o que devo pensar Conheço-me há muito.
— Perdi a cabeça por aquela mulher Não havia dia em que eu não procurasse vê-la, e consegui fazer-me notado. Passando agora pelos pormenores desta inocente afeição, basta que lhe diga que ela me correspondia. Parece-me que o vi sorrir quando pronunciei a palavra inocente! Mas juro-lhe que é o epíteto apropriado.
— Longe de mim duvidá-lo. Continue.
— Sob o pretexto de visitar a escrivã do convento, que era das relações da minha família, fui admitido à grade, e ela, não sei sob que pretexto, lá estava sempre também.
Cada vez a admirava mais, porém ardia de impaciência por lhe não poder falar de viva voz. O acaso...
— Mau, — disse o major com um meio sorriso. — Agouro mal da intervenção do acaso no romance. É sempre perigosa e inconveniente.
— Ouça, — continuou Rialva, sorrindo também como se não fora sem fundamento a observação do seu companheiro. — O acaso um pouco e muito a boa vontade dela, fez com que esta rapariga viesse passar alguns dias fora do convento e em casa de um comerciante de Braga, de cuja filha ela era íntima amiga. Eu tinha relações com este comerciante, e pude então, mais à vontade, conversar com ela.
— Ora prossiga, prossiga.
— Pouco mais tenho para lhe dizer. O meu amor foi tímido e respeitoso, como nem eu próprio suspeitava que fosse possível sê-lo. Diante daquela mulher, diante daquela candura, desconhecia-me, achava-me acanhado como qualquer rapaz de dezasseis anos. Creia, major, que não sabia o que tinha feito da minha audácia habitual. Tinha de partir para Lisboa. A minha mãe havia-me alcançado do ministro uma transferência de como. Disse-o à pobre menina, que se banhou em lágrimas ao sabê-lo. O seu amor havia adquirido uma intensidade que o denunciara. Em Braga falava-se muito nisso. Na noite da minha partida consegui uma entrevista dentro do jardim da casa onde ela ainda então se achava.
— Aproxima-se a peripécia — disse o major. — Adeus timidez...
— Juro-lhe, major, que a respeitei, como se a protegesse um ambiente de pureza e castidade. Davam onze horas na igreja de S. Marcos, e pela primeira e única vez os nossos lábios se encontraram, e logo depois eu saltava o muro do jardim, montava o cavalo e seguia o caminho do Porto, donde me transportei para Lisboa. E assim terminou este inocente episódio da minha vida.
— E ela?
— Que lhe posso eu dizer dela? A impossibilidade de nos correspondermos era manifesta. Dois dias depois devia ela voltar ao convento, onde não podia receber cartas minhas. Ainda lhe escrevi do Porto, esperando receber a resposta em Lisboa. Esperei debalde, e...
— E esqueceu-a, não é verdade? Nem mais pensou nessa rapariga, que talvez a estas horas esteja chorando por si, ou pela sua causa.
— Acredita, major? Não acha mais natural que esteja pensando em outro?
— Pode ser. Em todo o caso, basta que por uma efémera distração arriscasse dessa maneira o destino do coração, que é o destino inteiro de uma mulher, para que não possa ou não deva, pelo menos, encarar levianamente o sucedido e deixar de sentir uns indícios de remorso.
— Acreditasse eu que produzira um padecimento real...
— Que faria?
— Nunca o perdoaria a mim próprio.
— Cingia os cilícios e disciplinava as carnes, não é assim?
— Condenar-me-ia a uma completa abstenção de galanteios, pelo menos.
— E dessa maneira secaria as lágrimas que fizera derramar!
— Qual era então o meu dever, major? diga.
— Quando estiver em Braga, se se demorar por lá averigue do sucedido e depois falaremos. Escusamos de estar agora a traçar planos de imaginárias campanhas.
A estas palavras do major seguiu-se um silêncio prolongado, durante o qual as ideias tomaram outra direção a ponto de que, ao restabelecer-se, o diálogo versou sobre assuntos indiferentes que não precisamos de referir, e assim se manteve até à chegada dos dois cavaleiros a Braga, ainda com algumas horas de dia.
Desempenhando nesta cidade a missão oficial de que viera encarregado, Filipe de Rialva propunha-se no dia seguinte começar as averiguações a que o major e a sua própria curiosidade o convidavam, quando um acontecimento imprevisto o veio impedir de as realizar.
Pela madrugada do dia seguinte chegara a Braga uma notícia telegráfica, que lançara o espanto e consternação nos ânimos de todos os seus habitantes.
Constava que às onze horas da noite antecedente o palácio onde repousava em Barcelos a família real havia sido devorado por um incêndio.
Os noveleiros políticos, sempre prontos a darem aos mais insignificantes acontecimentos um colorido lúgubre, filiavam aquele facto casual num a trama premeditada e misteriosa. As notícias que se davam em voz alta, comentavam-se depois ao ouvido. As insinuações transluziam das frases estudadamente formuladas. Os ociosos agrupavam-se em frente das repartições públicas e das casas das autoridades, como se, das fachadas desses edifícios, esperassem elucidações. Exagerava-se o sucedido. Houve tal que condenou às chamas a vila de Barcelos inteira! Em outros grupos enumeravam-se as vítimas e especificavam-se com escrupulosa exatidão a natureza e carácter dos ferimentos! Uns revelavam a descoberta de uma máquina infernal; outros noticiavam a prisão dos criminosos.
Os ódios partidários, então mais acesos que hoje, todos estes boatos acolhiam, e de boa ou má-fé concorriam para os divulgar, ampliando-os.
A nova, ao chegar aos ouvidos dos nossos dois conhecidos, Clemente Samora e Filipe, havia adquirido já as mais formidáveis dimensões, e revestira-se das cores menos para tranquilizar.
Desesperando de saber a verdade no meio de tantas variantes, e até encontrando incertezas nas informações oficiais, os dois, que tinham em Barcelos por quem se inquietar e que nada os prendia atualmente a Braga, resolveram informar-se pelo seus próprios olhos, e com este intuito partiram essa mesma manhã em direção à vila.
Algum tempo mais que se tivessem demorado, teriam serenado as suas inquietações.
O pânico desvanecera-se afinal. Sabia-se enfim que o incêndio não atingira nunca as proporções medonhas que se dissera. A inverosimilhança dos romances inventados, com grande desespero dos seus autores, ia já fazendo sorrir.
CAPÍTULO IV
FOGOS DE MOCIDADE
Quatro dias depois dos sucessos do capítulo anterior, percorria a estrada de Barcelos, em direção a Braga, uma jovial cavalgada de oficiais do exército e de alguns estudantes do Porto, que a promessa de um segundo perdão de acto trazia naquele tempo muito jubilosos e como que em férias já.
Filipe de Rialva e o major Samora tinham-se-lhe incorporado. Do rancho era talvez este último o único melancólico. A sua estada em Barcelos avivara-lhe as saudades que o perseguiam. Nenhumas informações pudera obter, nem sequer do Lugar onde repousava a morta. Nem um só vestígio dos seus passados amores tinha encontrado o pesaroso velho. Uma estrada em construção acabara de derrubar a pequena casa, que a imaginação lhe estava agora ainda reproduzindo, e com ela dir-se-ia haver destruído todas as memórias desse drama obscuro, que terminara em túmulo.
Rialva, ao inverso do seu companheiro, no descuido dos vinte e dois anos, entregara-se inteiro ao prazer da jornada.
Pouco avultavam já na memória do estouvado alferes as recordações da sua aventura de Braga. Tivera tempo e ocasião de se distrair. De Barcelos seguira a corte a Viana, e nessa marítima cidade do Minho foram demasiados os prazeres em que tomara parte, para que lhes resistisse qualquer ideia melancólica. Vinha-lhe o coração desafogado ao voltar a Braga, onde se antecipava um dia à comitiva real, que só no dia 12 devia sair de Barcelos.
O génio expansivo e bom humor de Filipe valeram-lhe uma certa preponderância sobre o rancho, que parecia havê-lo tacitamente elegido para seu chefe. Isto lisonjeava-o e obrigava-o a fazer todos os esforços para justificar a escolha.
A cada passo, estridentes gargalhadas e hurras espantosos partiam em coro do bando turbulento. Por vezes a algazarra subiu a ponto que o major Samora, em poucas disposições para tomar parte nela, sopeou o passo ao seu cavalo para se distanciar do tropel.
— Meus senhores! — disse um dos estudantes, a quem no ano anterior um perdão de acto, poderoso Deus ex-machina, arrebatara milagrosamente dos nevoeiros da matemática, onde se vira perdido, e que esperava que um outro o ajudasse a livrá-lo da botânica, mau grado do Sr. Costa Paiva que não conseguira ensinar-lhe a classificar nem a Digitalis purpurea. — Meus senhores, nem todo o tempo gastemos a rir. A divina arte do canto está em decadência entre nós. De todas as nações do mundo a portuguesa é a que menos canta! Vergonha! Eu, digno e degenerado representante daquela antiga e característica classe de estudantes que corria as estradas e estacionava nas praças de capa traçada, espada ao lado e guitarra em punho, coro ao repeti-lo! O estudante de Salamanca, cantando seguidillas debaixo da ventana da senhorita de tez morena e olhos travessos, um pobre diabo sem dinheiro, mas cantando, cantando a escalar janelas, no meio das rixas, cantando na cara dos guardas civis, e dançando, ao som da pandereta, o fandango e o bolero — eis o tipo ideal, que se perde, que degenera desde que a filosofia o estragou. O estudante hoje é folhetinista, é político, é erudito, é sisudo e, mais que tudo, é sensaborão! Dá-lhe mais canseira a salvação da república, do que o penteado da sua amante! Que tremenda responsabilidade nos cabe, meus amigos! Nós, indignos depositários de um grande legado, que deixamos esbanjar! Reajamos quanto nos seja possível, e reajamos cantando. A cantar se têm feito revoluções. Dêem-me o poder das canções, e eu revolverei o mundo. Cantemos!
— É justo que abras tu o exemplo — respondeu-lhe um dos companheiros. O convite foi repetido por toda a companhia.
O orador não se fez muito rogado, e num a toada popular, que então andava na boca de todos, cantou as seguintes coplas, que nos parece serem da sua lavra:
Ouvia gabar os beijos,
Dizer deles tanto bem,
Que me nasceram desejos
De provar alguns também.
Que esta fruta não é rara,
Mas nem toda tem valor:
A melhor é muito cara,
E a barata é sem-sabor.
Colhi-os dos mais mimosos;
Provei três, mas, pelo meu mal,
Ao princípio saborosos,
Amargaram-me afinal.
Um colhi eu de uma bela,
Que era Rosa, sem ser flor.
Se tinha espinhos como ela,
Dela também tinha a cor.
Vi-a a dormir, e furtei-lhe
Um beijo que a acordou.
Eu gostei, porém causei-lhe
Tal susto, que desmaiou.
Logo que a vi sem sentidos, Fugi, sem outro lhe dar;
Que beijos, sem ser pedidos,
Não são coisas para brincar.
Outra vez, de uma morena.
Olhos azuis, cor de céu,
Corpo esbelto, mão pequena,
Um beijo me apeteceu.
Pedi-lho — e então por bons modos,
Pedi-lho do coração.
Zombou dos meus rogos todos
E respondeu-me: que não.
Zombei, como ela zombava,
E um beijo, à força, lhe dei;
Mas... bem dado ainda não estava
E com um bofetão o paguei.
Custou-me caro o desejo,
Que muito caro ela o vendeu.
Pagar por tal preço um beijo!
Assim não os quero eu.
Este, mais do que o primeiro,
Me deixou fraca impressão;
Quis provar ainda um terceiro
Para não jurar em vão.
Mas não quis fruta roubada,
Que mal com ela me dei.
Uma dama delicada Ofereceu-ma... Eu aceitei.
Ai, que boa fruta que era!
Estava mesmo a cobiçar.
Passar a vida quisera
Tal fruta saborear.
Mas, no meio da colheita...
Da fruta, o dono apareceu.
Zelosos olhos me deita:
Se zelava o que era seu!
Vendo o caso mal seguro,
Eu logo ali lhe jurei
Restituir e até com juro
A fruta que lhe tirei.
E, caso não discordasse,
Não me parecia mal
Que a ele os juros pagasse
E à senhora... o capital.
Esta sensata proposta
Em fúrias o arrebatou,
E, por única resposta,
A lutar se preparou!
Ouço ainda gabar os beijos,
Dizer deles muito bem:
Mas findaram-me os desejos,
Já sei o sabor que têm.
Uma estrepitosa algazarra rompeu do grupo, quando o académico terminou a sua cantiga.
— Visto isso, — disse um dos cavaleiros — puseste-te em dieta dessa fruta? Tenho piedade da tua higiene meticulosa! Possuis um estômago demasiado suscetível. Eu por mim, meus senhores, confesso-lhes que, verde ou madura, não sei de outra fruta que me agrade tanto.
— Alto lá! — respondeu o que cantara. — Nada de responsabilidades absurdas. Eu não subscrevo todas as legítimas consequências da canção. E se julgam necessário neutralizar-se o efeito, eu estou pronto a cantar-lhes uma outra. Possuo-as para todos os gostos.
— Por esta vez dispensamos-te da retratação. Acreditamos-te. Nada de lógica em assuntos destes. Que os céticos cantem de crentes e os crentes encham as estrofes de ceticismo. Ninguém lhes deve pedir contas. Outro cantor!
— Eu por mim, estou pronto a cantar, — disse um alferes de Caçadores, — mas não a mulher nem o amor; inspira-me mais um charuto, um cachimbo e até um cigarro, sendo o tabaco forte e mortalha boa.
— Pois canta o cigarro. Admite-se o culto. Vai entoando a antífona, enquanto nós acendemos os fachos do rito sagrado — respondeu Filipe, distribuindo cigarros por todos os da cavalgada.
E dentro em pouco o bardo novamente indigitado, começava cantando:
No centro de círculos
E nuvens de fumo,
Um deus me presumo,
Um deus sobre o altar!
Nem doutros turíbulos
Me apraz tanto o incenso,
Como o deste imenso
Cachimbo exemplar!
Em divãs magníficos
De seda e veludo
Repousa sisudo
O ardente Sultão.
Fumando, inebria-se
E esquece odaliscas.
E os beijos, faíscas
De amor, e o Alcorão.
Longe, oh! longe o ópio,
Que os sonhos deleita
Da mísera seita
Dos Teriaquis,
Horror ao narcótico,
Que vem das papoulas
E ao que arde em caçoulas
No harém dos Alis!
Que a África tórrida
De areias candentes
Consuma as sementes
Do arábio café.
Bebido nas chávenas
De Índia e porcelana
A negra tisana
Veneno me é.
E a folha asiática,
Delícias da China,
Por nossa má sina
Trazida para cá?
Sorvida em família,
Em momo hidro-infuso!
Anátema ao uso Das folhas de chá!
Nem tu, ó alcoólico
Licor dos lagares,
Terás meus cantares,
Meus hinos terás.
Embora das ânforas
Vazado nas taças,
Aos outros tu faças
A boca loquaz.
Meu canto é da América,
Pais do tabaco,
Melhor do que Baco,
Que o ópio melhor.
Que a Europa, Ásia e África E a terra hoje toda
Já fuma por moda
O heroico vapor.
Até na Lapónia,
Da gente pequena,
Se fuma, e no Sena,
No Tibre e no Pó,
No Volga e Danúbio,
No Tejo e no Douro...
Que grande tesouro
Se deve a Nicot!
Nem venha da cânfora
Contar maravilhas
O das cigarrilhas Famoso inventor.
Raspail é cismático,
E eu sou ortodoxo;
O seu paradoxo
Não me há de ele impor.
E os áridos lábios
Mais fumo ainda aspirem.
Que os néscios suspirem
Por beijos febris.
Não quero outros ósculos,
Não quero outra amante,
Qual mais doudejante
Que os fumo subtis?
Tomadas Vesúvios, As bocas fumegam,
De nuvens que cegam,
Vomitam legiões.
Fumar! Oh, delícias!
Prazer de Nababo!
E leve o diabo
Do mundo as paixões!
É indescritível o entusiasmo que se manifestou em seguida às últimas palavras da canção ou hino do tabaco. Foi tal a gritaria que os ecos das montanhas vizinhas despertaram estremunhados, e, como dizia Fernão Mendes Pinto, as carnes tremiam de medo.
Todas as bocas pediram bis, e de novo se guardou um silêncio solene para escutar as estâncias de tão popular produção, algumas das quais muitos já repetiam em coro.
— E tu, Filipe? — disse o cantor favorecido da aura de popularidade — não cantas também?
— Depois do teu triunfo, julgo prudente prescindir dos meus direitos. Desisto da palavra.
— Não admito. Não é facultativo, é obrigatório o cantar.
— Isso é crueldade. Queres imolar-me nas aras da tua musa rodeadas de fumo de tabaco?
— Isso é modéstia mal cabida. Ou temes ferir a delicadeza da tua musa sentimental com as baforadas do meu cachimbo?
— Apelo para a decisão do conclave — disse o estudante que cantara primeiro.
— A votos! A votos! — bradaram algumas vozes.
No momento em que isto se passava havia a cavalgada chegado a um ponto da estrada erma de habitações e perfeitamente deserta de viajantes. Era um extenso lanço que seguia em linha reta por meio de lezírias sem cultura, e tapadas de tojo e pinheirais ainda novos. A vista alcançava de extremo a extremo deste lanço tanto mais facilmente, porque a atmosfera densa de vapores apresentava, sob uma ótica favorável, os planos mais distantes.
Isto permitiu que os cavaleiros avistassem ao longe sentada, a fiar, sobre as pedras de um dos muros que flanqueavam a estrada, uma mulher, que na aparência mostrava já ser de avançada idade, a qual, ao ver aproximarem-se os viajantes, se levantou açodada e colocou-se no meio da estrada como se lhes desejara falar.
— Aí tens quem te vai inspirar, Filipe. Uma princesa desconhecida que desce a escutar as namoradas endeixas do trovador — exclamou um dos que primeiro a avistara.
— Vem à fala. Respeito, senhores; quem sabe se estaremos na presença da rainha das fadas? Esta nossa peregrinação, digna de um segundo Ariosto para a cantar, precisava de uns jardins de Armida, eis aqui quem no-los vai abrir...
— Restos do terremoto, eu vos saúdo — disse um outro, tirando o chapéu e vergando a cabeça.
— Coitada! Alguma pobre mendiga — disse Filipe, procurando já nas algibeiras com que satisfizesse a que ele julgava indigente pela atitude que a vira tomar águardando-os...
— Em todo o caso, vejamos o que ela nos quer. Portemo-nos sérios para lhe inspirarmos confiança. Está-me a parecer que se pode tirar partido disto.
E, seguindo este parecer, todos guardaram silêncio e marcharam na maior compostura.
Estavam finalmente na presença da velha. Era de facto de aspeto centenar; engelhada, curvada e trémula, mas ainda assim com certo ar de resolução.
Logo que os viu chegar, dirigiu-lhes a palavra:
— Ora, Nosso Senhor venha na sua companhia!
— Amém! santinha, e que também esteja consigo.
— Ele está em toda a parte onde o procurem. Boa é a sua assistência, e a da Virgem Nossa Senhora, e a do milagroso Padre Santo António, que nos livre dos perigos e de trabalhos, de testemunhos falsos e de ferros de el-rei e de maus vizinhos de ao pé da porta. Ora para bem os fade a sua sorte. Amém.
— Então veio fiar para o descampado? É melhor, são os ares mais livres — disse Filipe, para desviar a atenção da velha do riso mal disfarçado dos seus companheiros.
— Nada, não senhor, eu digo-lhe. O menino...
Desta vez os risos rebentaram.
— Olhem! Estão-se a rir por eu lhe chamar menino. E eles que são todos para mim, que para um cento só me faltam quatro anos! Vejam os grandes homens.
— Não faça caso, não faça caso. Deixe-os lá. Diga o que ia a dizer.
— Ah! perguntava eu se os... vá lá, senhores, se os senhores eram... criados da sua majestade? Sim, porque ser criados dos reis não é baixeza nenhuma. Um morgado da minha terra, fidalgo dos quatro costados e homem de teres e haveres, pois senhores, deu um bom par de centos de mil réis para ser jovem do paço, e pelos modos suas obrigações são as da mesma gente, mas aquele ainda assim quer que lhe paguem para as fazer, por isso é que eu pergunto.
— Não se enganou, minha tia, — disse Rialva, fazendo um sinal aos companheiros — eu sou estribeiro-mor da casa real, aquele monteiro-mor, este copeiro-mor, camareiro-mor o outro, esmoler-mor...
— Vejam que graça! Pelo que estou ouvindo todos os empregos mores são para os fidalgos, menos o de tambor-mor, que nesse tenho eu um neto, que é um rapagão como uma casa.
De novo a seriedade dos ouvintes esteve para os abandonar.
— Visto que são o que eu suspeitava, sabem dizer-me se a rainha se demorará ainda muito?
— Então queria vê-la?
— Vê-la? Não era só vê-la, é que lhe queria também falar.
— Falar-lhe?! Aqui?
— Aqui mesmo, sim senhor, e porque não?
— Então tem a pedir-lhe alguma coisa?
— E verdade que tenho. Tenho a pedir-lhe justiça.
— Justiça! — disseram admiradas algumas vozes do grupo. — E contra quem?
— Isso basta que ela o saiba.
— Mas na estrada, boa mulher, a falar verdade, não é das melhores ocasiões, — disse o major Samora, que tendo-se agora reunido ao rancho, de que se separara, acabava de ouvir as últimas palavras do diálogo.
A velha voltou-lhe uns olhos desconfiados, e respondeu com certa aspereza:
— Para fazer justiça é sempre ocasião.
— Bravo! — disse o estudante da canção.
A velha, estimulada pelo sinal de aprovação, prosseguiu:
— Não é ocasião! tem graça. Nem que a gente não tenha mais que fazer do que largar barcos e redes para ir ao palácio procurar sua majestade. E então para quê? Para vir o senhor porteiro-mor, o senhor escudeiro-mor, o senhor lacaio-mor, e nos mandar pôr fora sem que a rainha o saiba. Temos outro com as justiças dos tribunais. Andar uma criatura num a barafunda de escrivães e procuradores e letrados e testemunhas e jurados, e a gastar dinheiro, e tanto mais ganha quem mais gasta, e tanto mais gasta quem mais tem. Nada, não serve para mim. Aqui, no meio da estrada. Se me não deixarem chegar à carruagem, ponho-me a gritar: Aqui-d'el-rei! aqui-d'el-rei e veremos então o que vai. Forte coisa! Olha agora a grande dúvida!
— E assim, é assim, minha tia — diziam do lado alguns oficiais.
— Vamos cá a saber, tardará muito a rainha?
— Rialva, trocando um olhar com os circunstantes, apressou-se a responder, fazendo por dissimular um certo ar de malícia, que olhos mais exercitados que os da velha, poderiam reconhecer:
— Duas horas o mais tardar. Conhece-a?
— Nunca a vi, mas isso logo se tira, pouco mais ou menos. Sempre há de vir vestida de modo que...
— Não, não — disse Rialva. — A rainha traja como qualquer outra senhora; para além do mais como vem incógnita, nem acompanhamento traz. Não vê que nos mandou adiante?
— Sim, sim. Mas então como há de ser?
— Olhe, daqui por duas ou três horas pouco mais ou menos, vendo chegar duas carruagens com criados de casaco azul, botões de prata e colete vermelho, e dentro da primeira uma senhora de meia idade vestida de verde com xale e um chapéu branco...
— E ela?
— É ela. Acompanham-na talvez algumas mais novas, são damas do Paço. Na segunda carruagem vêm os criados.
— E o rei e os príncipes?
— Esses vêm mais tarde, a cavalo, e com os generais. Não lhe disse já que a sua majestade quis vir incógnita?
— Bem, bem.
— E olhe lá. É provável que por isso mesmo ela se ponha a rir se vossemecê lhe chamar rainha e o negue; mas teime e diga-lhe que vai pedir justiça, que ela há de escutá-la.
— Isso fica ao meu cuidado. Então diz que daqui por duas horas?
— Duas ou três.
— Isto vai nas nove, — disse a velha, falando consigo e fitando as nuvens — com mais três, nove, dez, onze, doze. Meio-dia. Chega não chega, uma hora; janta não janta são duas, às seis é noite. Não tem dúvida; uma vez não são vezes. E isto como assim há de fazer-se. Ora então, muito obrigada, vão com a nossa Senhora.
— Adeus, minha tia — disseram todos com a possível gravidade. — Deus permita que se saia bem da empresa.
— Amém! amém!
E o alegre bando, despedindo-se da velha, que voltou a tomar a sua primeira posição, partiu a galope em direção a Braga.
Quando a considerável distância do sítio, onde esta cena se passara, afrouxaram o passo às carruagens para pedirem a Filipe explicações sobre o que ultimamente dissera à velha.
— Pois não compreenderam? É uma surpresa que preparei a minha mãe. A minha mãe devia partir de Barcelos duas ou três horas depois de mim com as meninas do Coural, minhas primas não sei em que grau, em casa de quem tenciona ficar esta noite para depois de amanhã assistir em Braga à entrada da rainha. Portanto, dentro de duas horas estará ela ouvindo uma reclamação em forma dirigida por esta pobre velha, o que não pouco a há de divertir e às priminhas.
— Mas que necessidade tinha você de enganar esta mulher? — disse o major com um certo ar de amigável censura.
— Deixe lá, major, — disse um dos oficiais — o episódio deve ser interessante, e aquelas senhoras devem agradecer-no-lo.
— Quem sabe o que esta pobre criatura teria a pedir à rainha?
— Se for esmola, não ficará sem ela, pedindo-a a minha mãe.
— Sim; mas se for justiça?
— E julga que irá mal encaminhada, se a minhamãe a guiar para obtê-la?
— Assim a julgue merecedora dela.
— Pois então, deixe correr, major. Pena tenho de não poder presenciar a cena.
CAPÍTULO V
A HEROÍNA DESTE ROMANCE NA CASA DE CAMPO DE JOSÉ
URBANO
A meia légua de Braga, Filipe de Rialva, o major Samora e os seus jovens companheiros tiveram a surpresa de um feliz encontro.
Ao dobrarem um ângulo de estrada, que nuns sítios aqui e ali era povoada de pequenas casas e vendas, como denunciando a vizinhança de uma grande povoação, acharam-se frente a frente com uma personagem muito nossa conhecida, José Urbano.
À ruidosa exclamação com que José Urbano saudou a cavalgada, rompeu desta um coro unânime de brados, que nuns desafiava o conhecimento que tinham do jovial negociante, e em outros o estranho costume de jornada de que ele vinha revestido.
José Urbano montava uma égua corpulenta, mas não de raça apurada. Um chapéu de palha de amplíssimas abas, preso por uma fita por baixo da barba, um barrete preto subjacente que lhe defendia as orelhas de um leste em perspetiva, que a sua ciência meteorológica prognosticava iminente; óculos verdes, baluarte contra a invasão da poeira; guarda-sol minhoto, com honras de barraca, mas o único que tem razão de ser; um capote de camelão, verdadeiro epigrama ao sol da Primavera; galochas capazes de arrostar com o dilúvio ao lado da arca; alforges repletos, uma cabaça ao tiracolo, diante de si uma trouxa e na garupa uma pequena mala; tal o conjunto de acessórios que concorriam para o efeito prodigiosamente cómico do recém-chegado.
— Aleluia! — exclamou José Urbano, elevando para a testa os enormes óculos verdes, que o incomodavam quase tanto como a poeira. — Aleluia! Encontro enfim Aníbal. Juraria que me andavam a fugir, meus companheiros de Vila Nova. Receiam-se da desforra que me devem ao voltarete. Inútil trabalho. Ela é inevitável como os fados. Persegui-los-ei até os confins do mundo. Mas de facto! Apresso os meus negócios em Barcelos para os encontrar em Braga. Chego. Qual! Tinham-se evaporado. Acordaram uma manhã com a febre de passear, e partiram para Barcelos! que eu acabava de deixar justamente em companhia do correio que trouxe a Braga a notícia da terminação do incêndio. Com os diabos! disse eu comigo. Os meus amigos teriam praça assente nalguma companhia de bombeiros? Voltam agora a Braga, quando eu estava em caminho da minha casa de campo.
— Eu iria jurar, meu caro José Urbano, — disse o major Samora — que partia para a Sibéria. — O aspeto respeitável do seu equipamento...
— Permita-me que lhe diga, major, que essa observação desacredita um pouco a reputação de homem experiente e cauteloso que merecia. Fie-se em calores de Maio! Bom, bom. Olhe-me para aqueles riscos brancos do céu, aquilo é leste, o impertinente, o endemoninhado leste. Eu nunca ouvi o sibilar dos pelouros, meu caro Cipião, mas afianço-lhe que me não pode ser mais desagradável que o do vento leste. Não o há assim.
— Nem o dos mosquitos? — perguntou um estudante.
— Nem esse. Os mosquitos matam-se, o leste... mata-nos. Bem vejo que o capote lhes está causando sensação. O capote, meus amigos, é o mais útil artigo de vestuário que desde a folha de figueira tem inventado o engenho do homem. Conserva-me o calor no Inverno e a frescura no Verão. Os óculos livram-me os olhos da poeira e conservam-me a vista. O guarda-sol, que os espanta pela enormidade, abriga a minha pessoa e a bagagem dos ardores do sol e das torrentes da chuva. A cabaça, meus amigos, contém o líquido que me sacia a sede, ou me dá o calor para arrostar com o frio...
— Basta, basta, amigo José Urbano — interrompeu Samora. — Vejo agora que sou imprevidente. Desse modo, tanto pode viajar pela Cítia fria como pela Líbia ardente.
Esta observação do major foi festejada com uma estrondosa gargalhada, na qual tomou parte José Urbano.
— Seja, — disse este, quando serenou a hilaridade — mas o facto é que os meus amigos vão para Braga e eu para a minha casa de campo. Não importa. Amanhã cedo cá estou de volta, e fiquem certos que me não tornam a fugir. Cobardes! São militares, e fogem de um paisano desarmado!
E José Urbano, despedindo-se de Rialva e Samora, saudou a cavalgada, que lhe correspondeu com estrepitosos hurras.
Daí a pouco entrava a cavalgada em Braga, e aquele grupo alegre e ruidoso dispersava-se, levando todos gratas recordações da viagem de Barcelos à capital do Minho.
Na manhã seguinte, véspera da entrada da rainha em Braga, passeava o major Samora com alguns oficiais militares no campo de Santana, quando um indivíduo bem-trajado, de idade avançada, mas de aspeto vigoroso, lhe foi ao encontro com os braços estendidos, dizendo-lhe com o sorriso nos lábios:
— O Sr. major Samora já tão cedo por aqui?!
— Tão cedo? — disse Samora — pois o amigo José Urbano não sabe que os militares se levantam ao toque de alvorada?
— E verdade, é verdade; mas quando se não está em serviço ativo... Naturalmente não quis que o inimigo o surpreendesse na cama! Muito bem; como o prometido é devido, aqui estou em cumprimento da minha palavra. Mas diga-me, major, onde está hospedado?
— No quartel.
— Tem necessidade de estar hoje em Braga?
— Nenhuma. Os meus deveres estão cumpridos e só amanhã...
— Nesse caso quer-me fazer um obséquio?
— Quantos quiser, meu caro senhor.
— Há de vir jantar comigo.
— O pior é que o meu antigo camarada, o capitão Melo, já me havia obrigado a prometer-lhe jantar com ele.
— O capitão pode esperar, não é verdade? — disse José Urbano, voltando-se para o capitão, entre quem e ele existia a maior familiaridade. — Pode até vir connosco também.
— Isso é que não, — disse o capitão interpelado — mas não quero também privar o Samora do agradável passeio que lhe proporcionará o amigo Urbano. Aconselho-te que vás, e amanhã será o meu dia.
— E não levas a mal?
— Essa é boa!
— As suas ordens, Sr. José Urbano. É longe?
— Um quarto de légua afastado de Braga. É um caminho excelente.
— Conta meia légua, Samora; o nosso amigo tomou os costumes da aldeia; para ele não há longes.
— Isso também é com o meu cavalo.
— Então vamos! — continuou José Urbano — mas, major, não julgue que pretendo com isto pagar-lhe os obséquios que me fez em Famalicão. Não, senhor.
— Basta de agradecimentos por tão pouco; não falemos mais nisso.
E os dois dirigiram-se para o quartel, onde o major Samora residia; este montou a cavalo; José Urbano tomou na alquilaria próxima uma possante égua que ali dera a guardar, e partiram em direção à morada do negociante bracarense, vivenda retirada da cidade na proximidade da estrada do Porto, mas afastada dela mais de um quarto de légua.
— Então reside na quinta permanentemente?
— Não, senhor. Eu vivo em Braga, porque a isso me obriga o meu negócio. Mas tenho há tempos a minha família fora da cidade, longe da qual, por gosto, eu viveria também.
— É numerosa a sua família?
— Uma sobrinha apenas. Pobre rapariga. Eu sei que não é esta a vida a que naquela idade se dirigem seus suspiros...
E os dois prosseguiram no seu caminho conversando acerca da agricultura, do comércio, da indústria, de política, até avistarem a casa onde José Urbano vinha descansar a miúdo das suas lidas comerciais.
Era uma agradável vivenda, circundada por um viçoso quintal todo orlado de limoeiros, e onde florejavam as mais formosas japoneiras e magnólias de algumas léguas em redor. Penduravam-se pelos muros festões virentes de jasmins e balsaminas, em volta dos quais zumbia incessante um buliçoso enxame de abelhas, atraídas pelos aromas suaves que se exalavam em torno. Na extensão destes muros abriam-se sobre o caminho duas janelas de grades, através das quais se descobria a abundante verdura daquele perfumado recinto, e de fora se escutava já o murmúrio contínuo e monótono de uma cascata, que derramava a frescura e a vida por toda aquela vegetação interior. Respirava-se ali uma tranquilidade que deliciava o coração. O horizonte, que rodeava esta pitoresca residência, era extremamente aprazível. Para qualquer lado que as vistas se dirigissem repousavam sempre agradavelmente sobre um ameno fundo de folhagem e verdores, onde se demoravam irresistivelmente, seduzidas pela alegria e festa que se refletia por toda a parte. No meio do repouso e silêncio que reinava em torno dessa habitação campestre, como que se adivinhava a vida latente da natureza que desperta no raiar da Primavera, e o azulado e tenuíssimo véu de nuvens da manhã, que o sol não dissipara ainda de todo, era como a garça transparente que longe de disfarçar, realça a formosura de certos rostos e o fulgor de certos olhos. Através daquele cendal vaporoso pressentia-se sorrir a natureza, mais fascinadora ainda nos seus trajos simples da manhã, que nas ostentosas galas do meio-dia. As ervas dos silvados, ainda húmidas do orvalho, dispersavam em cambiante íris os raios de luz, fulgindo como brilhantes nas suas mudanças contínuas, ou imitando o fulgor do rubi, a amenidade da safira, e limpidez da esmeralda e do topázio; só a Primavera tem destes encantos.
Digam o que quiserem das outras estações, nenhuma é tão agradável como esta. A natureza é sempre admirável, é sempre artística, é sempre poética, mas o carácter da sua poesia é variado. No Inverno é sublime e lúgubre como o Manfredo, o Corsário, o Giaour e muitos outros poemas: Byron admira-se, surpreende-nos, aterra-nos, faz-nos estremecer e mistura certo terror secreto ao seu entusiasmo: é entre o ritmo das rajadas, as estrofes do mar agitado o que caracteriza os seus hinos. No Estio é imaginosa, apaixonada, esplêndida, lasciva, como um frémito de Musset, como uma oriental, como um episódio de D. João. No Outono transparece nos seus cânticos o que quer que seja de utilitário, são os frutos sazonados pendentes das árvores, e das searas maduras, que chamam o pensamento para os sérios problemas da vida, como este género de poesia filosófica que entre as galas do estilo desenvolve um pensamento moral e humanitário. Mas na Primavera a poesia da natureza é destas composições fugitivas, em que tudo é harmonia e lirismo; abundam as flores, multiplicam-se as imagens, nos lagos e ribeiros onde se reflete o céu, nos ares onde os vapores se condensam fantasmagoricamente em pequenas nuvens de formas tão variadas como as conceções de fantasia de poeta, combinam-se surpreendentemente a luz e o orvalho como as lágrimas e os sorrisos num a balada germânica.