Serões da Província

Júlio Dinis · Capítulo 2 de 6 · parte 3/4

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Serões da Província

Justiça da sua Majestade

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

O concerto das selvas compõe-se de gemidos e cantos, harmonizados em misteriosa consonância. A natureza é então como a donzela que só cura de atavios e enfeites, e se entrega descuidada à alegria do viver; refletem-se-lhe desanuviados os sorrisos nos lábios inquietos, exalam-se-lhe do seio irreprimíveis os suspiros de envolta com os cânticos, pulsa-lhe o coração ansioso como se fosse excesso de vida. Mais tarde a maternidade tem também sua beleza, mas há alguma coisa de melancólico nas alegrias de então; o futuro, que à donzela fulgurava de esperanças, à mãe anuvia-se-lhe de preocupações; o coração sobressalta-se-lhe de contínuo repartido por tantos afetos. A natureza do Outono tem também o carácter grave da maternidade, mas na Primavera só há a despreocupação da virgem.

Não sei se estes mesmos, se análogos pensamentos, suscitava ao major Samora o belo espetáculo campestre que se gozava dali; é certo que parecia não se saciar de correr com os olhos por aquele horizonte vasto e pitoresco, e não participar da impaciência que manifestava José Urbano pela demora que havia em lhe abrirem o podão, ao qual estava batendo havia cinco minutos.

Respondiam-lhe do interior os latidos formidáveis de dois cães, mas não se observava o menor vestígio de uma existência.

— Onde estará metida esta gente? — exclamou José Urbano com azedume notável.

O major nem deu fé da demora que assim exasperava o seu anfitrião.

Finalmente ouviu-se o estalar da areia do jardim: o ruído de uns passos ligeiros e uma voz feminina, cujo timbre agradável e sonoro veio despertar o major da sua contemplação extática, fez-se ouvir de uma das janelas do muro.

— Ah! é o padrinho! estava bem longe de o esperar aqui a esta hora — disse aquela voz ao reconhecer José Urbano; e o major elevando a cabeça na direção donde lhe tinham vindo aquelas palavras, pôde perceber, ainda que de passagem, a forma elegante de uma rapariga que se retirava com agilidade.

— Abre, Micas, abre — disse José Urbano, cujo mau humor se desvaneceu ao ouvir aquela voz. — Ainda não sei o que fez a Roberta a esta gente toda! — E voltando-se para o major, acrescentou: — e a minha sobrinha. Uma boa rapariguinha; coitada. — E suspirou.

Ouviu-se o correr de um ferrolho no portão do quintal, que girou sobre os gonzos e se abriu aos recém-chegados, que se apearam rapidamente, e recolheram os cavalos.

O major, com a amabilidade de um militar sensível aos encantos da beleza, cumprimentou a gentil porteira, que meio enleada pelo inesperado da visita, se ia sorrindo ao corresponder ao cumprimento.

— O meu padrinho é só o responsável da má receção que o senhor tem. Se me tivesse prevenido quando partiu de madrugada...

— Minha senhora — disse o major em tom jovial. — Va Exa há de permitir que, fazendo eu próprio a minha apresentação, lhe diga que tem na sua presença um velho soldado, que dormiu muita vez no terreno e no agradável leito das tarimbas, comeu o caldo pouco apetitoso do rancho, e saciou muita vez a sede na água dos rios. Quando bato a uma porta a demandar quartel, só peço o pão, sal e água, de que costumam rezar os boletos.

— Nesse caso ganho ânimo, porque espero satisfarei a tão pouco exigente peregrino; mas está-me parecendo que o padrinho não se satisfaz com tão pouco.

— Não, Micas, pelo menos não te perdoo aquele pudding de batatas que sabes cozinhar tão bem; o mais fica por conta de Roberta.

— De Roberta, sim! Quando a teremos nós cá!

— Como?

— Disse-me, depois do padrinho ter partido, que tinha que fazer na cidade. Uma compra de linho ou estopa, ao que julgo. Ou é natural que aproveite a ocasião para ver a rainha...

— A rainha? hoje!

— Pois não entra hoje em Braga?

— Amanhã.

— Disse-nos aqui a leiteira que entrou já ontem, e à Roberta afirmaram-lhe que era hoje de tarde...

— Deixa afirmar. Mas então quem ficou em casa?

— Eu. Os criados foram para a lavoura.

— Só! — exclamou José Urbano com certo ar de censura e desagrado.

— Com estes — respondeu, voltando-se para ele sorrindo, a gentil rapariga, ao passo que afagava a cabeça de dois enormes cães acorrentados que, como se desejassem justificar a confiança que depositava neles, a afagavam com humildade.

O major não disse palavra. Não se cansava de admirar a singeleza e graça da interlocutora.

Para justificar esta contemplação admirativa do major, precisamos nós também de esboçarmos aqui o perfil desta nova personagem da nossa história, minudência cuja falta nenhuma leitora me perdoaria por certo.

E contudo a tarefa é de desanimar.

A HEROÍNA DO ROMANCE — A AÇORDA DO MAJOR

Não sei de maior dificuldade que a de descrever a heroína de um romance. Tão pouca coisa basta para a desconceituarmos aos olhos da leitora!... Eu, porém, sacrificarei à verdade algumas simpatias que poderia angariar a maior, se a menosprezasse. Descrevo-a tal qual ela era. Em primeiro lugar começarei por dizer que o modo porque ela trajava, realçava-lhe tudo que eram dotes naturais.

Maria Clementina, sobrinha de José Urbano, era de uma configuração elegante, na qual se observavam as regulares proporções que a arte não teria decerto a corrigir. De um porte desafetadamente majestoso, inexplicavelmente combinado a uma expressão de bondade insinuante e atrativa, havia no andar, nas feições, na maneira de olhar, um ar de dignidade e de nobreza, que intimidava os mais ousados. Um singelo vestido de riscado escocês adornado apenas por um colarinho liso, e por uns punhos apertados por duas coralinas, deixava-lhe sobressair todo o correto contorno daquelas gentis formas femininas, de uma flexibilidade admirável. No rosto não havia aquela combinação de rosas e neve, que para muita gente constitui o supremo grau de beleza, e contudo não era trigueira, nem de uma alvura desmaiada dos tipos alemães que tão frequentemente se combinam com cabelos ruivos, antipática combinação; mas para lhes dar uma ideia daquele colorido encontro-me gravemente embaraçado; a natureza concedeu àquelas tintas uma singular influência sobre a fantasia do coração, empregou-as apenas em alguns rostos de mulher, que exercem então um poder verdadeiramente magnetizador. Um romancista português, e outros franceses, comparou uma dessas cores à da pérola; e tem um pouco disto efetivamente, mas excede-a em beleza. Quanto a mim considero-as as mais perigosas. Imaginem um rosto assim, animado pelo cintilar de uns olhos negros, orlado por uma moldura de cabelos também pretos, cujas ondulações naturais semelhavam elegantes ornatos; concebam a mais bem modelada boca, cujos lábios, convenientemente grossos, agitava incessante um mal percetível tremor, sinal evidente de uma exaltada sensibilidade; suponham agora toda esta simpática cabeça, graciosamente coberta por um largo chapéu de palha, que a assombrava de uma penumbra de feitos óticos e fascinadores, e terão explicada a razão pela qual o major não se fartava de fixar esta rapariga com os mais inequívocos sinais de uma sincera admiração e decidida simpatia.

Caminharam todos os três por entre ruas orladas de arbustos que se entrelaçavam, formando um toldo de folhagem, e cobertas de areia que fazia sobressair a verdura matizada dos tabuleiros em que estava repartido o jardim.

José Urbano fazia notar ao major o desenvolvimento de algumas árvores fruteiras, à afilhada a raridade de certas flores. E assim chegaram à entrada de casa, que não desdizia do aspeto festival de toda a vivenda. José Urbano subiu mais apressado os quatro degraus de pedra que davam entrada por a porta envidraçada, e abrindo-a de par em par, disse, voltando-se para o major:

— Tenho a honra de o receber na minha casa, senhor major.

— E agora hão de me dar licença, o senhor major e o padrinho — disse a elegante sobrinha do proprietário — que me retire para tratar do seu jantar.

— A falar verdade, minha senhora, eu preferia o pão do boleto, a privar-me do prazer da sua companhia.

— Mas o padrinho é mais exigente. Não tem esses hábitos militares.

— Mas se nós esperássemos por a Roberta...?

— Não pode ser.

— Porém, Micas, a falar verdade tu só...

— Meu caro Sr. José Urbano, — disse o major em tom meio jovial — estou tentado a fazer-lhe uma proposta...

— Qual é major?

— Receio que não ma admitam; mas desde já lhes declaro que mau é que a chegue a formular, porque sou teimoso.

— Vamos, major, diga. A Micas já está cheia de curiosidade. Repare...

— A falar verdade... Ainda quando não seja senão para ver como o Sr. major é teimoso — observou esta sorrindo.

— Proponho que nós todos colaboremos no jantar.

— Essa agora! — disse José Urbano admirado.

— Pois o Sr. major também cozinha?

— Oh! minha senhora. Um militar precisa de saber de tudo um bocado; pois deve afazer-se a contar consigo apenas. Tenho tido ocasião de cozinhar para mim mesmo, de compor a minha própria roupa, e até de me medicamentar.

— Confesso-lhe, Sr. major, que estava com a minha vontade de experimentar o seu talento culinário.

— Pois com permissão aqui do seu padrinho, minha senhora, parece-me que chegou a ocasião.

— Não, senhor, a minha permissão não pode...

— Meu caro José Urbano, você, que viajou também, deve saber alguma coisa de cozinha. Eu pela minha parte prometo uma saborosa açorda, na confeção da qual granjeei certa fama entre os meus antigos camaradas, que também me diziam inimitável em manejar o espeto; e, se houver ocasião, folgarei de lhes demonstrar que não sou indigno de crédito. E você que sabe fazer, ó José Urbano? diga lá, ande, e vamos a isto.

— Confesso que nunca tive disposição para a cozinha.

— Nem se atreverá a fritar uns ovos com umas rodelas de salpicão? pois eu creio que o fumeiro deve estar bem provido, hem? — Não é por falta de materiais...

— E verdade que isto de fritar uns ovos ainda requer seu engenho e tato culinário; no grau devido, é um prato delicioso, um pouco acima é detestável. Mas eu vigiarei, vamos.

— Ora, o Sr. major está a gracejar.

— Basta-me saber — disse a sobrinha de José Urbano — que posso contar com o seu auxílio em caso de maior urgência.

— Minha senhora, eu não lhe disse que era teimoso? É fama que tenho no exército, e já agora não a hei de desmentir.

— Mas...

— Para outra vez...

— Não recuo, faço disto questão ministerial... O meu amor-próprio exige que eu lhes faça apreciar as qualidades da minha açorda.

E o major, gracejando e rindo, de tal maneira insistiu, que os três acabaram por passar todos para a cozinha às risadas e já sem o menor constrangimento.

O major era destas pessoas, cujo bom humor se comunica, e que põe à vontade e nas mais joviais disposições as pessoas com quem se acha. Logo às primeiras palavras que se tivesse com ele cessava todo o constrangimento, e estabelecia-se uma familiaridade e sem-cerimónia, como um amigo de longos anos.

O próprio José Urbano participava daquela alegria e arregaçava as mangas do casaco, preparando-se para a tarefa culinária às ordens do seu comensal.

Maria Clementina assistia rindo com vontade a toda aquela azáfama dos dois.

O major era admirável de atividade. Tomara posse do terreno e não se mostrava constrangido.

— Minha senhora — dizia ele, voltando-se para a afilhada de José Urbano — porá Va Exa à minha disposição um fornecimento de água, pão, sal, azeite, vinagre, pimenta, alho, cravo, cebola, salsa, salpicão e toucinho.

— Misericórdia, major... Tenha misericórdia dos nossos estômagos... Os desgraçados não resistem a essa metralha.

— José Urbano, você não sabe o que diz. Não há tónico mais eficaz do que a açorda preparada assim! Verá, verá.

— Pode satisfazer a minha requisição, minha senhora?

— Prontamente.

— Bem; agora, José Urbano, vai você empunhando essa sertã para logo, e partindo os ovos já...

— Confesso-lhe que é uma tarefa melindrosa. Partir ovos!

— Que pusilânime! Homem, é assim! — E com a maior presteza, o major prelecionava praticamente o seu hospedeiro, que ria a bandeiras despregadas.

— A Va Exa declaro-a emancipada da minha tutela e livre em todos os seus movimentos.

— Ainda bem — disse José Urbano — quando não, recearia pelo destino do nosso jantar.

— Homem, não faça injustiça à experiência da vida de campanha. Prometo-lhe que se há de lembrar com saudade da minha açorda.

Na cozinha ia uma desusada animação. Parecia que se preparava um banquete, esplêndido. O major, de per si só, fazia mais ruído que meia dúzia de cozinheiros. E com uma gravidade, que Maria Clementina não podia ver sem se perder de riso, mexia e remexia a açorda, que exalava um cheiro apetitoso, e de vez em quando ia vigiar o trabalho de José Urbano, que ele empregara a bater uns ovos, aos quais associara uma quantidade de ingredientes. José Urbano executava fielmente as ordens do major, e havia um quarto de hora que estava batendo os ovos com um escrúpulo e regularidade admiráveis.

Ao meio-dia, graças aos esforços combinados dos três, o jantar foi declarado completo, e José Urbano, que observava os costumes patriarcais folgou ao antever que não seria alterada a sua hora do costume.

Enquanto o major dava a última demão à sua decantada açorda, Maria Clementina pôs a mesa, à qual deu um ar festivo, graças às flores com que a adornou: e José Urbano, descendo à garrafeira, foi procurar o mais precioso vinho de que ela constava. No entretanto o major apareceu na sala de jantar, junto de Maria Clementina.

— Pois já está posta a mesa! — exclamou ele ao entrar na sala.

— E eu que vinha para a ajudar!

— Mil vezes agradecida; mas o coronel...

— Assim me despacha já, se os ministros lhe quiserem honrar a palavra.

— O Sr. major, queria dizer, foi apenas justo para o serviço da cozinha.

— Há de fazer-me a honra de provar a minha açorda, não é verdade?

— Decerto. E parece-me poder já assegurar que há de estar deliciosa.

— Não me queira mal pela minha impertinência; mas é génio meu...

— Querer-lhe mal! Se eu lhe assegurar que há tempo que não rio como hoje... O Sr. major conseguiu fazer-me esquecer por algumas horas as mortificações da minha vida.

— Pois também tem mortificações? — perguntou-lhe o major com um carinho que a maior parte das pessoas que o conhecessem lhe estranhariam, ouvindo-o.

— E pergunta-mo?

— E duvido-o. Chama mortificações a quê? Desgostos por o padrinho não viver aqui, saudades de alguma amiga mais íntima, zangas pela rabugice da sua criada, a doença de algumas das suas pombas mais bonitas... pretextos para mostrar mais uma maneira de serem belos esses bonitos olhos que tem.

Maria Clementina sorriu a este galanteio do velho militar; mas através deste sorriso descobriam-se uns longes de tristeza.

— Se o major soubesse o motivo porque eu vivo triste, talvez, longe de me estranhar a tristeza, se admiraria ainda de me ver sorrir... as vezes.

— Ora adeus. Não é difícil penetrar no seu segredo. Perdoe dizer-lho. Afinal é o segredo dos... vinte anos... não é essa a sua idade?

— E — disse Maria Clementina, corando e desviando os olhos do major. — Mas ainda não adivinhou tudo.

Nisto ouviram-se passos no corredor, e a conversa, com aprazimento de Maria Clementina, foi interrompida por José Urbano, que voltava da sua excursão à garrafeira, exclamando ao entrar na sala:

— Major! Eu cá sou nacional. Porto e Madeira.

— Apoiado, Sr. Urbano. Eu secundo o seu patriotismo.

E sentaram-se todos os três à mesa. José Urbano, contente e jovial; o major fazendo as despesas da conversa com anedotas que faziam rir até às lágrimas o negociante, e assomar um sorriso aos lábios de Maria Clementina, que, da curta conversa que tivera com o major, conservava uns vislumbres de melancolia.

A açorda preparada pelo major teve um efeito monumental. José Urbano declarou-a a mais deliciosa comida que na sua vida tinha provado. E não obstante ao princípio não poder eximir-se em fazer uma careta, abrindo a boca para minorar o excesso dos condimentos, depois de costumar o paladar, reclamava repetições com uma insistência, que lisonjeava um pouco o orgulho do major.

— Bravo, major! Já vejo que o cheiro da pólvora apura e aperfeiçoa o paladar. É deliciosa!

— Mais outra vez, Sr. José Urbano.

— Vá mais outra.

— Tenha cautela, meu padrinho, que lhe não vá fazer mal. E tão forte!

— Deixe, minha senhora, isto dá tom ao estômago. E com um cálice de Madeira por cima... Va Exa é que não lhe é afeiçoada.

— Estava excelente, Sr. major. Bem viu que comi.

Aqui para nós, a sensação que a açorda deixara em Maria Clementina não era das mais favoráveis ao talento culinário do major.

Reinou em todo o resto do jantar a mesma jovial animação com que começara a manhã. O major fez um brinde a Maria Clementina, José Urbano outro ao major; este outro a José Urbano, ambos um a sua majestade; o comerciante ao exército, o militar outro ao comércio; e estavam no seu undécimo brinde, quando se ouviu bater à portaria duas grandes argoladas.

CAPÍTULO VI

A VISITA INESPERADA

 

O som estridente das argoladas no portão da casa determinou, por alguns momentos, completo silêncio na sala, e os três convivas, olhando-se interrogativamente, como que se perguntavam — quem será?

— Já sei. É a Roberta — disse Maria Clementina, respondendo à interrogação tácita dos dois. — Ninguém senão ela podia entrar no quintal.

E levantando-se chegou à janela, cuja vidraça correu para ver quem batia.

— É você, Roberta?

— Sou eu, menina, sou eu — respondeu uma voz de mulher, na qual se notava um evidente cansaço. — Ai que venho mais morta que viva! Depressa, faz favor de atirar cá abaixo a chave da portaria, e abrir a sala das visitas...

Pois quem vem lá?

— Uma senhora de carroça, para visitar a menina.

José Urbano levantou-se sobressaltado.

— Uma senhora!

— Mas quem é? — perguntou Maria Clementina, igualmente admirada.

— Depressa, menina, depressa, que está à espera.

— Mas que senhora é? — insistiu Clementina.

— Eu não conheço — respondeu Roberta, já impaciente — mas ande depressa, pelo amor de Deus.

Clementina voltou para dentro a procurar a chave da portaria.

— Diz que é uma senhora que me procura.

— Mas quem pode ser? — perguntou José Urbano, admirado.

— Ignoro-o.

E deitando a correr com uma graciosa agilidade, foi buscar a chave que Roberta lhe pedia.

José Urbano chegou à janela, e dirigindo-se a Roberta:

— Ó Roberta, quem é que vem lá?

A criada ouvindo a voz do seu amo, estremeceu e mostrou-se profundamente embaraçada.

— Pois o Sr. José Urbano... Boa te vai! Então o senhor... olhem os meus pecados!... Pois na verdade... Em nome do Padre... Então que quer isto dizer!... Temo-la travada!

E continuava resmungando como se a presença do amo a contrariasse.

— Responde: quem é que vem lá?

— Aí tem a chave — disse Maria Clementina, atirando-lha pela janela e voltando para ordenar a sala das visitas.

A velha não esperava por mais nada; sem atender ao seu amo, fugiu com uma ligeireza de que ninguém julgaria capazes as suas pernas estropiadas.

— Roberta, ó Roberta! demónio de mulher.

O major, que nesse tempo se aproximara da janela, fez um movimento de surpresa ao observar a mulher que corria em direção ao portão.

— Ah! é aquela a sua criada?

— E, uma velha já meio tonta e teimosa, mas, coitada, conheceu-me pequeno. Veja, major, a idade que ela terá.

O major calou-se. O motivo da sua surpresa fora o ter reconhecido na criada de José Urbano a velha que ele e o seu jovem companheiro Rialva tinham encontrado no dia antecedente na estrada, e que lhes perguntou pela chegada da rainha.

— Mas quem poderá ser? — perguntou a si próprio José Urbano. — Uma senhora que procura a minha sobrinha!

Durante este tempo passeava Maria Clementina na sala de receção, igualmente preocupada em saber quem seria a pessoa que a procurava.

Desde que Maria Clementina vivia no campo, raras tinham sido as visitas que recebera; por isso a surpreenderam as palavras de Roberta, e mais ainda a expressão da sua fisionomia, na qual se lia um certo espanto inexplicável. Absorvida por estes pensamentos, a sobrinha de José Urbano desceu ao jardim a receber a sua desconhecida visita.

Não esperou muito tempo. Roberta assomou pouco depois à entrada de uma das ruas que conduziam ali, e após ela uma senhora de meia-idade magnificamente vestida e com certo ar de nobreza e dignidade, que revelavam distinção.

Maria Clementina foi ao seu encontro.

Roberta, colocando-se por detrás da recém-chegada, a quem tributava extremas atenções, fazia sinais telegráficos a Maria Clementina, que esta não podia entender, o que cada vez mais a embaraçava, pois nada lhe recordava as feições da senhora que pretendia visitá-la.

— Não sei a quem nem ao que devo a honra desta inesperada visita, mas em todo o caso é-me sumamente agradável receber uma tão lisonjeira distinção — disse Clementina, aproximando-se da senhora, cuja fisionomia denotava um ar de bondade simpática e atraente, que dispôs o ânimo de Maria Clementina no seu favor.

— Minha senhora — disse a recém-chegada, fixando em Maria Clementina um olhar penetrante — ainda que lhe pareça estranha a minha visita, peço-lhe que me dispense de a explicar enquanto não estivermos mais à vontade.

— Essa é boa — disse Clementina, sorrindo. — Se Va Exa até não quiser dar-me explicações algumas, não serei eu por certo que me atreva a pedir-lhas. Quer ter a bondade de entrar?

— Se o ordena? Mas para falar verdade, se lhe não fosse incómodo, aquela rua de romãzeiras tem uma sombra convidativa...

— Como Va Exa quiser.

E as duas desviaram-se na direção da rua de romãzeiras.

Maria Clementina, cada vez mais admirada da estranheza da visita; a senhora idosa envolvendo-a nos seus olhares vivos e penetrantes.

Roberta, ao afastar-se delas, pôde obter oportunidade de dizer a sua ama em tom enigmático:

— Cautela! trate-a com muito respeito! Eu depois lhe direi...

Maria Clementina estava vendida, como vulgarmente se diz. Estranhava os modos da criada pelo menos tanto quanto o inesperado da visita.

— Quer dar-me o seu braço? — disse a Clementina à senhora, cuja visita tanto a preocupava.

— Com todo o gosto.

E as duas mulheres penetraram, assim juntas e silenciosas, durante algum tempo, pela copada rua do jardim. Chegaram à extremidade oposta à rua, onde, junto de uma pequena fonte, havia um convidativo banco de cortiça assombrado por um toldo de trepadeiras.

— Quer-me fazer o favor de se sentar aqui comigo?

— Com muito prazer.

A desconhecida, tomando então as mãos de Maria Clementina, disse-lhe com um tom meigo e afetuoso:

— Sabe que me está inspirando muita simpatia?

— Oh! minha senhora...

— Quero enfim dizer-lhe o que me trouxe aqui. Eu sou de Lisboa.

— Ah! de tão longe!? — exclamou Maria Clementina, para dizer alguma coisa.

— E verdade. E havia muito que desejava conhecê-la.

— A mim!? em Lisboa...

— Admira-se?

— Não sei como Va Exa me pudesse conhecer num a terra, onde ninguém me conhece.

— Ninguém?

— Decerto. A minha única família resume-se no meu tio, que vive comigo.

— Mas algumas amigas...

— Amigas! Engana-se Va Exa; eu não tenho amigas.

— Diz-me isso com um ar de descrença, que é de estranhar num a menina tão nova.

— Há pessoas para quem a experiência é prematura.

— Santo Deus! que desconsoladora dúvida! Ora vamos, quer-me parecer que é menos justa nesse seu ceticismo.

— Não chame a isto ceticismo, minha senhora; graças a Deus, eu tenho a amizade do padrinho.

— Só?!

— Tem razão; era injusta. E a da minha criada Roberta.

— E a de mais ninguém? Parece-me que ainda mais uma vez terá de reconhecer a sua injustiça. Em Lisboa alguém existe que a estima.

— A mim? — perguntou Maria Clementina, corando enleada sob os olhares da sua interlocutora.

— E é dessa pessoa que eu lhe queria falar.

— Va Exa?

— Eu, sim. Quer ser franca comigo?

— Eu? Mas...

— Ouça-me. Uma das minhas amigas tem um filho oficial no exército.

Maria Clementina sobressaltou-se a estas palavras.

— No ano passado — continuou a senhora — este rapaz, que é meu afilhado, e por quem eu me interesso muito, passou algum tempo em Braga em serviço. Quando voltou a Lisboa, por diligências da mãe, ia preocupado e triste. Estranhavam-no todos que o tinham conhecido o mais alegre, e direi mesmo, estouvado rapaz da capital. A mãe dele, sobressaltada no seu coração materno, escreveu para alguém do seu conhecimento, residente aqui próximo, e a carta que obteve... Quer-me fazer o favor de a ler? — continuou a senhora idosa, oferecendo uma carta a Maria Clementina. — E neste ponto...

— Mas para que hei de eu... — dizia Clementina, tremendo e estendendo quase involuntariamente as mãos para aquela carta: apesar da sua turbação lançou-lhe os olhos, e pôde ler as seguintes linhas:

«Quanto ao que me perguntas a respeito do teu filho, colocas-me em sérios embaraços; pois não sei se o mau pensamento lisonjeará demasiado a tua vaidade maternal. Em todo o caso, eu com a franqueza que sempre me conheceste, dir-te-ei que, a meu ver, o teu filho Filipe é digno de censura...»

As mãos de Maria Clementina tremiam cada vez mais ao ler estas palavras; vencendo a sua comoção prosseguiu:

«Há tempos que a sua assiduidade junto de uma menina destes lugares havia sido notada; no dia da sua partida uma imprudência dele sacrificou a reputação daquela que inocentemente confiara nele e...»

Maria Clementina devolveu a carta que estava lendo.

— Entendo, minha senhora — exclamou ela com a voz alterada e com as faces tingidas de um vivo rubor. — Va Exa sabe que eu sou a pessoa assim caluniada, não é verdade?

— Sei.

— E então com que fim me procurou? — prosseguiu Maria Clementina com certo tom de amargura.

— Para lhe assegurar que a mãe de Filipe de Rialva, ao receber esta carta, comoveu-se, e que, por secreto pressentimento, acreditou na pureza da mulher que uma imprudência do seu filho assim sacrificara; que ela me pediu que se pudesse encontrá-la, lhe assegurasse isto mesmo, e que lhe transmitisse um beijo, que eu espero me não recusará.

— Oh! minha senhora! — exclamou Clementina, verdadeiramente comovida.

E as duas mulheres por muito tempo confundiram seus beijos e as suas lágrimas.

— Ora agora — continuou afinal a senhora de Lisboa — faça-se justiça a todos. Filipe ainda não é tão culpado, como nesta carta se diz. Ele, quer-me parecer, ainda se não esqueceu da menina.

Maria Clementina abanou a cabeça em ar de dúvida.

— Oh! não faça esse movimento que se não quadra com esses olhares tão cheios de confiança, com uma expressão de lábios, que, mesmo contra sua vontade, se conformam num sorriso. Não seja desconfiada. Sobretudo não me fique odiando Filipe... não?

Desta vez o sorriso de Maria Clementina tinha outra significação.

— Odiá-lo! — dizia-lhe, baixinho, o coração. — E julgam necessário recomendar-me que o não odeie!

Ora, apesar do coração falar tão baixo, não sei que admirável acústica era a senhora lisbonense que o percebeu, e aproximando-se de Maria Clementina disse-lhe com voz afetuosa:

— Ainda o ama, não é verdade? Diga-me que sim.

Maria Clementina corou e calou-se.

— Bem, bem, este rubor é também uma resposta. Adeus. Permite-me que volte a visitá-la?...

— Quando Va Exa quiser.

— Agora retiro-me.

— E nem ao menos há de descansar na nossa casa?

— Se me dispensa...

— O meu padrinho há de sentir.

— Quê! pois não está só? Tinham-me dito...

— O meu padrinho chegou, sem ser esperado, com um amigo que jantou connosco. Eles lá vêm ao nosso encontro.

A senhora de Lisboa seguiu com os olhos a direção em que apontou Maria Clementina, e não pôde disfarçar um movimento de espanto ao reconhecer o major.

— O Sr. Clemente Samora aqui?

O major pela sua parte parecia tê-la também reconhecido, e não mostrava menor estupefação.

— Longe estava eu de esperar encontrar Va Exa neste lugar, Sra. D. Joana.

— Não menos alheia estava eu ao prazer do seu encontro, major.

José Urbano, depois de cumprimentar, segundo a etiqueta, a dama desconhecida, voltou para sua afilhada e para o major olhares interrogadores.

— Para evitar-lhes o incómodo de uma apresentação, eu própria me apresento — disse ela, olhando para o major de uma maneira particular, como se lhe quisesse recomendar o silêncio.

— Va Sa é, segundo julgo, o tio desta menina, não é verdade? — disse D. Joana, sorrindo-se amavelmente para José Urbano.

— As ordens de Va Exa aqui e em toda a parte. José Urbano, negociante em Braga.

— Muito bem, Sr. José Urbano. Pois eu sou de Lisboa, e aproveitei a vinda da rainha para visitar o Minho, que há muito tinha desejos de ver. Ao despedir-me de algumas minhas amigas em Lisboa recebi de uma a incumbência agradável de procurar esta menina para lhe assegurar da parte dela que, apesar da ausência, sempre a teve presente no coração. O acaso fez com que eu na estrada encontrasse a sua criada, de cuja conversa vim a saber ser aqui a morada de quem eu procurava, e resolvi por isso cumprir imediatamente a minha comissão. Agora retiro-me, mas já autorizada para voltar a visitá-la pela minha própria conta, se o Sr. José Urbano se não opõe...

— Oh! minha senhora! Va Exa honra-nos muito com a sua visita.

— O major fica?

— Vinha também despedir-me desta menina, e se Va Exa quiser aceitar a minha companhia...

— Porém, o major vai para Braga, e eu fico em casa do Visconde de P...

— Pessoa de bem — disse José Urbano ao ouvir este nome. — Mas o major pode acompanhar Va Exa até perto da quinta do visconde, sem torcer muito caminho.

E José Urbano, profundamente conhecedor da topografia do lugar, indicou ao major Samora o itinerário que devia seguir.

— Então até breve... É verdade; quer-me fazer o obséquio de aceitar um lugar na minha carruagem para vermos amanhã a entrada da rainha? — perguntou D. Joana, voltando-se para Maria Clementina.

— Peço a Va Exa que me dispense de aceitar tão lisonjeiro favor; mas não me agrada o tumulto.

— Basta; eu também prefiro falar-lhe mais com sossego. Adeus.

E aproximando-se de Maria Clementina beijou-a afetuosamente, dizendo-lhe ao mesmo tempo:

— É verdade, peço-lhe que não dissuada a sua criada das ideias que formar ao meu respeito.

O major Samora, ao ajudar D. Joana a subir para a carruagem, estava pensativo, e olhava para Maria Clementina de um modo particular.

— Entre, major. O André que lhe conduza o cavalo até ao sítio onde teremos de nos separar.

E depois de fazer um último sinal de afetuosa despedida a Maria Clementina, cortejar José Urbano, e ter enviado a Roberta, que se desfazia em mesuras, um gesto particular, deu ordem de partir, e em pouco tempo a carruagem se afastava do lugar.

— Parece uma excelente senhora — disse José Urbano, fechando a porta. — Mas de quem te trouxe ela visitas, Micas?

— Ah!... — respondeu Maria Clementina, turbada — da filha do juiz de Direito, que se retirou o ano passado.

Em todo o resto da tarde Maria Clementina mostrou-se preocupada. José Urbano passeava no quintal, examinando minuciosamente o estado dos enxertos, o adiantamento dos renovos, e limpando os alegretes com a solicitude de um horticultor de vocação.

Maria Clementina permaneceu imóvel, encostada à varanda, seguindo com os olhos o volutear das andorinhas no espaço, nessa posição cheia de languidez e poesia de mulher de vinte anos que sonha. O sonhar nesta idade é uma das variadas manifestações do amor e a mais ideal, a mais pura, e mais sublime. Pensa-se antes que o coração tenha decifrado o enigma proposto, antes que o amor tenha recebido uma solução real. E o estremecimento da alma, precursor de uma vida nova. Após uma longa viagem, e depois de flutuar suspenso entre o céu e o abismo no mar, o nauta, encostado um dia à amurada do navio, estendendo os olhos pela amplidão das águas, sublimes de mais para lhe bastarem por muito tempo ao coração, e procurando ao menos nas nuvens um simulacro de montanhas, lagos fantásticos, campinas e florestas, sente que o vento, que lhe agita os cabelos e que sibila pelas enxárcias, o perfuma de fragrâncias suaves; que lhe recorda a terra porque suspira, e que lhe anuncia prazeres que ainda não vê. Então aspira com sofreguidão estas brisas, que roubaram às flores os seus perfumes, e deixa-se cair num a contemplação extática, imaginando os bosques e os vergéis da terra de que se sente próximo.

Na vida há uma situação idêntica, em que também a atmosfera nos vem perfumar de misteriosa fragrância, e em que ao aspirá-la sonhamos venturas e esquecemos os dissabores de viagens empreendidas. É a aurora do amor; quadra de devaneios e fantasias, em que a vida do coração começa e exerce sobre nós o seu mágico influxo.

Maria Clementina estava naquele momento num a dessas situações. O que lhe estaria a fantasiar a imaginação? Imaginem as leitoras.

E tão absorvida estava naquele seu íntimo cismar, que nem dava pela presença da sua criada Roberta, cujo entrar e sair, e ruído que de propósito fazia, tinha o que quer que fosse de suspeito, e noutra ocasião teria já evidentemente sido notado por ela.

Roberta acabou de se convencer que não conseguira tomar-se notada; por isso, aproximando-se de Maria Clementina, dirigiu-lhe a palavra.

— Então diga-me cá, menina, que lhe pareceu a visita daquela senhora?

Maria Clementina olhou para a criada com certo sobressalto, como se aquelas palavras a desviassem, mau grado seu, de um agradável meditar.

— Que me havia de parecer, Roberta? Uma delicadeza daquela senhora, que assim quis ter um incómodo pela minha causa.

— Sabe quem ela é? — perguntou Roberta com certo ar de mistério.

— Uma senhora de Lisboa.

— Mas que senhora?

— Que senhora?! Não entendo a pergunta.

— Sim; pergunto eu se sabe quem é aquela senhora?

— Eu, não.

Roberta tomou-se cada vez mais misteriosa; foi à porta observar se alguém a escutava; depois aproximou-se de Maria Clementina, e disse-lhe em voz baixa:

— Quer que lhe diga quem ela é?

— Diga lá.

— E promete segredo?

— Prometo — respondeu Maria Clementina, sorrindo ao lembrar-se da recomendação de D. Joana.

— Pois olhe; mas não se assuste, nem diga nada ao padrinho.

— Mas então quem é?

— É a rainha!

— A rainha? Ah! ah! ah! — disse Maria Clementina, não podendo reter uma gargalhada.

— Olhem! E a menina ri-se! É o que eu lhe digo.

— Então era a rainha?

— Era, sim, senhora, era. E sabe quem a trouxe aqui?

— Eu não.

— Fui eu.

— Ah! Então você tem esse poder sobre a rainha?

— Ora escute.

E Roberta, com toda a familiaridade, puxou uma cadeira para junto de Maria Clementina e prosseguiu:

— Aquela história do alferes...

— Roberta! já lhe disse que não queria que me falasse mais nisto.

— E não tenho falado. Agora, o que eu não podia era deixar de pensar também. Que quer a menina? Eu vi-a nascer, assim como vi nascer a mãezinha, e já que não pude dar àquela as venturas que lhe desejei sempre, disse cá de mim para mim: Esta não há de ter uma sorte infeliz, ao poder que eu possa.

— Mas a que vem isso agora, Roberta?

— A que vem? Ora escute. Aquela doida da leiteira veio-nos aqui dizer que a rainha chegava ontem. Quando ela me disse aquilo, eu pus-me cá a malucar. A rainha é rainha. Ela é quem manda e governa, os outros têm de lhe obedecer. Se eu lhe contasse tudo...

— Se lhe contasse o quê, Roberta? — exclamou Maria Clementina com certa inquietação.

— Tudo. A história do tal alferes.

— Roberta!

— Ora valha-me Deus, menina. Com esses escrúpulos não se faz nada de jeito. Se eu tivesse estado com a menina em Braga, eu me acautelaria; assim ao menos vamos a remediar o mal. A rainha dizem que é boa senhora. Se eu lhe fizer constar que, por causa de um alferes, as más-línguas se atreveram a murmurar da mais virtuosa menina que eu tenho conhecido, ela há de tomar as suas medidas e remediar tudo.

— Você tem coisas, Roberta!

— Diga-lhe que sim. Eu o que não tenho são papas na língua. Sabe a menina que para dizer a verdade, tanto a digo diante dos reis como dos da minha igualha. Já uma vez fui jurar como testemunha de dizer o que sabia, e até o juiz disse que eu era uma mulher desenganada. Eu cá sou assim. Pedi-lhe ontem licença e fui-me pôr na estrada à espera da rainha. Bem podia esperar até pela manhã. Passou este senhor general, que cá jantou hoje; quando me lembro como a menina cá se arranjou sem mim, ainda me benzo; o que valeu é que ele é um homem como se quer, e o padrinho estava hoje de boa maré. Ainda assim! Mas não tem dúvida, ainda que tivesse de cair a sé, por bem empregado dava eu o meu tempo... Mas como ia dizendo, passou este senhor e um rapazote novo, e foram eles que me disseram que a rainha só chegaria daí a duas ou três horas, e até me deram os sinais certos para eu a conhecer. Esperei, esperei e por fim sempre apareceu: conheci-a logo.

— Ah! então conheceu-a?

— Conheci logo. Vi a carruagem e disse com os meus botões: E aquela. Vinham dois criados a cavalo atrás e outra carruagem com senhoras também. Não trazia estadão, porque, como me disse o tal rapaz, ela viaja... viaja... ora como disse ele?... Era assim uma coisa como em cólicas, mas que vinha a dizer que viajava sem estrondo. Cheguei-me à carruagem, apesar do sinal do boleeiro, e ela ao ver-me fez logo sinal para parar. Atenciosa é ela com os pobres, Deus Nosso Senhor lho pague.

Maria Clementina ouvia com curiosidade a narração desta aventura da criada.

— Qual de V.^ Ex.^ é a rainha? — disse eu para as três senhoras que iam dentro, apesar de logo ver que havia de ser a mais idosa. As mais novas desataram a rir... como a menina ri também... não sei porquê. Lembrou-me que seria por eu não dar o tratamento que devia e emendei a tempo: Qual das vossas majestades é a rainha? As outras riam ainda... Eram uns galos dourados, coitadinhas, nem por estarem diante de quem estavam!... Raparigas. Mas a senhora então, tocando-lhes com o cotovelo, disse muito séria, voltando-se para mim:

«— Sou eu; por quê?

— Ah! eu logo vi, ora primeiro que tudo seja vossa majestade muito bem-vinda a esta sua terra, onde tem muitos amigos. O meu amo fala muito no paizinho da vossa majestade. Ora muito bem. Vossa majestade há de ter pressa; mas é que eu sempre lhe queria pedir...

A rainha julgou que era esmola, pois já ia a meter a mão ao bolso...

— Em cortesia — disse eu, que a percebi — não é isso que eu peço, é justiça.

— Justiça! — disse a rainha, tomando-se logo séria. — Fale, fale... quem lhe fez mal?

— Eu lhe conto, não foi a mim verdadeiramente, mas... e o mesmo que se fosse, se fui eu que a trouxe ao colo...

— A quem? — perguntou a rainha.

— À minha menina!

— Roberta — disse Maria Clementina, interrompendo-a — você não tem juízo! Ir assim, diante dessa gente toda, falar em coisas das quais eu já lhe tinha proibido de dizer uma palavra mais!

— Ora venha cá ensinar-me como as coisas se fazem! Cuida que me pus mesmo agora a tagarelar para quem me quisesse ouvir. Era o que faltava. Eu disse à... à rainha: se a vossa majestade quiser ter o incómodo de se chegar aqui, eu conto-lhe tudo. Ela chegou à porta da carruagem, e eu disse-lhe tudo ao ouvido.

— Tudo o quê?

— Contei-lhe que, estando eu na quinta e o padrinho no Porto, a menina fora para o convento. Que foi por ocasião do Saldanha andar por cá e que deixara ficar em Braga um tal alferes, que inquietou a menina; porquanto enfim, como eu disse à rainha, quando a gente é nova o coração é o coração, o sangue ferve...

— Jesus, meu Deus! que mulher esta! — exclamou Maria Clementina, corando.

Roberta não atendeu à interrupção, e continuou:

— Que depois a viu em casa do Sr. Domingos Pedral, e que na noite em que o tal alferes tinha de partir para Lisboa, foi falar com a menina ao jardim do Sr. Pedral, onde a menina estava. Asneira, como eu disse à rainha, em que se eu lá estivesse, a não deixaria cair. E logo então com tanta infelicidade, que ao saltar o muro foi visto por um grupo de estudantes que dobrava uma esquina, e o mesmo foi verem-no eles que vê-lo toda a cidade, a qual já falava nestes amores há muito. No dia seguinte, a reputação da menina andava já por essas bocas do mundo; as delambidas das freiras puseram-se a fazer biquinhos à volta da menina para o convento. E eu e a quem contaram isto fomos buscar a menina para a quinta, porque, graças a Deus, a sobrinha do Sr. José Urbano não precisa dos favores de ninguém. Disse-lhe que o Sr. José Urbano chegara aqui a Braga espavorido, mas que depois de falar com a menina ficara manso como um cordeiro, e nunca falara mais nisto.

— Sabe, Roberta, que se o meu padrinho soubesse o que você fez havia de ficar muito satisfeito! Não viu como ele lhe ordenou que nunca mais falasse em tal?

— Pois sim; com esses escrúpulos ficávamos sempre nesta vida. A menina sem voltar à cidade, sem visitar ninguém, aqui metida.

— Bem me importa a cidade. Que canseira lhe dá isso a você? Eu já lhe disse que não me distraio aqui?

— Ora deixemo-nos disso. Os passarinhos cantam muito bem, as flores são muito bonitas; mas, vindo o Inverno, nem passarinhos nem flores. Depois sempre quero ver como a menina se diverte. E como o ano passado. Chorava, chorava...

— O ano passado estava doida. Já sabe que me curei daquela loucura.

— Diga-o a quem quiser, menos a mim. Olhem para onde ela vem com os seus esquecimentos!

— Mas que lucrou você em contar a essa senhora a minha história?

— À rainha...

— A rainha, seja lá rainha. Para quê?

— Pois quem lhe pode dar remédio, senão ela? Eu lá lhe disse:

Agora veja vossa majestade se isto deve ficar assim. Se os militares que a vossa majestade para cá nos manda vêm para manter a paz, ou para meter a desordem nas famílias e fazer a infelicidade de meninas bem-educadas...

Como se chamava esse oficial? — perguntou a rainha, e eu bem vi que ela já estava interessada por a história.

— Olhe, eu só sei que ele era Filipe.

— E disse-lho! valha-me Deus!

— Disse, disse... Era o que faltava se eu me punha com biocos.

— Filipe de Rialva?! — perguntou a rainha assim com mostras de o conhecer...

— Tanto não posso dizer a vossa majestade; eu só sei que ele é Filipe.

A rainha não perguntou mais nada dele.

— Mora daqui longe essa menina?

— É ali logo.

— Pode lá ir uma carruagem?

— Indo pela banda de cima, estou que pode.

— Ela estará amanhã só?

— De todo só. Porque não esperava que o padrinho viesse de Braga.

— Vou ficar hoje em casa do visconde de P., sabe onde é?

— Perfeitamente, majestade, é logo ali — e apontei para o sítio.

— Amanhã, a esta mesma hora, esteja lá para me guiar no caminho. Vá com Deus.

Eu desviei-me da carruagem, que desapareceu num abrir e fechar de olhos.

Quando cheguei a casa e vi o Sr. José Urbano, fiquei atarantada de todo, porque me lembrei que já não podia ir buscar a rainha. Passei a noite muito triste, e nem dormi, mas rezei muito a Nossa Senhora.

Continuar: parte 4 de 4