Serões da Província

Júlio Dinis · Capítulo 2 de 6 · parte 4/4

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Serões da Província

Justiça da sua Majestade

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Hoje de madrugada, vendo partir o padrinho para a cidade, fiquei tão contente, que por pouco não me deu o sono. Boa te vai. Olha agora se eu adormecia nesta ocasião, estava bem servida! E levantei-me logo, e quando foram horas pedi à menina que me deixasse ir a Braga comprar linho, mas fui ter com a rainha, que já estava à minha espera. Pelos modos parece que também madruga, porque ainda não era meio-dia! Depois ela... a rainha... fez-me entrar na carruagem. Oh! Eu bem não queria, mas não houve de quê. Hem? Que lhe parece? desta poucas se gabarão! Não é assim? Ora aqui tem como a rainha aqui veio ter.

Mas julgue como eu ficaria quando vi o Sr. José Urbano à janela. Credo! Fiquei sem pinga de sangue, e por pouco não caí redondamente no chão. Decerto me valeu o meu padre Santo António. Também olhe que uma aquela assim como esta poucas vezes acontece à gente. O que me admirou foi o padrinho não a conhecer. Agora, quando a vir em Braga, é que há de ser bonito. O major, esse logo vi que a conheceu; porém ela fez-lhe sinal, que eu bem reparei. Mas como veio o major cá ter...? E como se arranjaram com o jantar? É verdade, ó menina, quem fez aquela sopa, que... santo nome de Deus! por pouco me não punha a boca em carne viva! Onde aprendeu a menina a cozinhar aquilo?»

Maria Clementina sorriu-se a esta referência à açorda do major. Mas naquele momento achava-se possuída de veemente desejo de estar só, e por isso, voltando-se para Roberta, disse-lhe:

— É necessário ir tratar do chá do padrinho, que ele não tarda por aí. Vá; depois conversaremos.

Roberta retirou-se murmurando:

— A rainha nesta casa e eu na carruagem da rainha! Quando me lembro!

Maria Clementina ficou outra vez só. Outra vez se deixou arrebatar pelos devaneios da sua fantasia. Ficar só é a suprema felicidade em situações como a sua. Escuta-se melhor o que murmura o coração agitado, percebem-se todas as íntimas vibrações dos misteriosos sentidos donde procedem os afetos. Nas trevas, em que a imaginação de Maria Clementina se confundia, via raiar enfim um raio de luz. Não era pois ainda desesperada a sua situação. Seria possível desanuviar-se-lhe ainda o céu, para o qual já não olhava com esperança? Não seria ainda a resignação a única arma que lhe podia dar a paz do coração que perdera?

Tudo isto lhe propunha o pensamento, e entre estas questões vacilava aquele pobre coração, que julgava ter abafado todas as esperanças, e agora as via surgir de súbito umas após outras, a povoarem-lhe de novo a fantasia, mais inquieta que nunca, e a seduzirem-na com o esplendor do seu brilho, com o vivo das suas cores.

Como é ilusória a placidez dos vinte anos! O fogo latente alimenta uma iminente erupção. Ó transparente máscara de sisudez posta nestes lindos rostos de mulher, como ocultas mal os risos inquietos que se agitam por debaixo! pensai, pensai, sonhai, imaginações juvenis; pulsai, amai, corações virginais; a vida na vossa quadra é isto. Não há gelo que apague o fogo que vos escalda; e, se o sufocais com gelo, funde-se em lágrimas e a paixão rebenta mais forte.

Deixemos Maria Clementina entregue aos seus pensamentos de amor, acompanhem-na as imaginações dos leitores, mais capazes de as seguirem aí, e vamos nós a outro ponto, onde o desfiamento desta narração nos chama.

CAPÍTULO VII

O ENCONTRO INESPERADO

 

Ao separar-se do major, perto da quinta onde devia pernoitar a senhora de Lisboa, a que este chamara D. Joana, disse-lhe ela, estendendo-lhe a mão:

— Então ficamos nisto, major?

— Pela minha parte prometo cumprir quanto Va Exa me ordene.

— Não diga ordene, por quem é. Eu peço só...

— Não é o mesmo que ordenar?

— Bem, major, não insistamos em galanteios. Combinamos então o major em colher informações de família. Eu em sondar o coração de Filipe.

— Eu posso dar a Va Exa informação nesse ponto.

— Como?!

— Filipe falou-me nesta inclinação, e confessou conservar da pequena uma ideia muito superior à de todos quantos amores tem experimentado. Mas Va Exa está resolvida...

— A evitar que Filipe cometa uma deslealdade. Que quer, major? meteu-se-me na cabeça fazer do meu filho um perfeito cavalheiro...

— E não lhe será muito difícil o empenho na execução, minha senhora. Mas adiante. Va Exa e Maria Clementina serão tudo, menos o fruto de alguma antiga árvore genealógica.

— Olhe, major, eu não tenho o defeito de me esquecer que o meu pai era um negociante da capital; e se o pai de Filipe não julgou desonrar-se aliando-se com a minha família, eu renegaria a minha procedência, se adotasse esses preconceitos. Ora agora, para o mundo, que para desculpar uma ação boa precisa de a explicar por uma ideia interesseira, ficarei absolvida dizendo-se que os capitais de José Urbano sossegaram os escrúpulos aristocráticos, que, como sabe, eu nunca tive.

— Bem, minha senhora. Agora, que recebi as suas instruções, retiro-me e até à vista.

— Conto com a sua aliança?

— De vida e de morte.

E o major despediu-se de D. Joana Rialva com a galanteria de um perfeito militar; e montando a cavalo partiu em direção a Braga.

Momentos depois estava D. Joana no salão do visconde de P.... onde a aventura da estrada ainda era comentada com alegria. D. Joana contou ao seu modo o que lhe sucedera na visita que acabava de fazer, inventando uma história de uma família desgraçada, que a exoneração de um emprego público reduziu à miséria, e agradeceu a Filipe o haver-lhe fornecido a ocasião de reparar um mal.

— E Va Exa visitou essa família? — perguntou Filipe — se é que a mãe não exige que a trate por majestade também.

Nova hilaridade das senhoras do salão.

— Visitei, e voltarei ainda a vê-la. Assim lho prometi. Já agora quero tomar a sério o papel de rainha. Imaginei que devia levar a felicidade àquela família que assim recorreu a mim. Parece que andou aqui a mão da Providência. E tu, Filipe, terás também o teu papel em tudo isto. Preciso da tua coadjuvação para secundar os meus projetos.

— De todo o coração, minha mãe, lha prometo.

— Reclamo já a tua companhia para a visita que tenciono fazer-lhe.

— Da melhor vontade... prometo.

— E nós todas vamos também — exclamaram algumas senhoras.

— Não vai nenhuma. Eu quero continuar a ser suposta rainha, e 2 o riso das meninas não mo permitiria.

— Prometemos estar serias.

— Não creio na promessa. Desta vez irei eu só com Filipe...

E, combinando nisto, passou-se a conversar noutros assuntos, a discutir toilettes, a planear projetos de passeios, voltando-se de vez em quando ao objeto que evidentemente mais preocupava D. Joana.

O dia seguinte foi de grande alvoroço para Braga. Todos os nossos conhecidos, à exceção de Maria Clementina e de Roberta, andavam envolvidos naquele mare magnum de povo, e tomando parte no tumulto e agitação, em que a chegada da sua majestade lançou a população de Braga.

Deixemos porém passar este dia, pois que não nos compete tomar parte naqueles regozijos, e juntemo-nos às personagens desta história no dia seguinte a esse para seguirmos a série de acontecimentos que formam o entrecho desta narração.

O carro, que já uma vez havia conduzido D. Joana à quinta de José Urbano, corria agora com ela e Filipe de Rialva pela estrada de Braga na mesma direção. O major encarregou-se de conservar na cidade o proprietário da quinta, porque a visita evidentemente não se destinava a este.

Rialva fazia notar a sua mãe as belezas do caminho, e exaltava os encantos da província do Minho com entusiasmo de artista.

— Deve Va Exa concordar que é uma aprazível província esta. Os campos são jardins, os montes são cômoros de verdura, parece que se sente tudo cantar e sorrir.

— E efetivamente esta gente do campo é essencialmente amante da música. Ainda não cessámos de ouvir cantar.

Naquele mesmo momento uma fresca e suave voz aldeã cantava num campo:

 

Aquele que tanto amei

Esqueceu o meu pensamento,

Como o rio esquece as rosas

Que retratou um momento.

 

— É uma acusação de infidelidade — disse D. Joana, fitando no seu filho um olhar malicioso, que este não percebeu.

— Mas que bonita voz a da cantora! Parece-me que ainda em S. Carlos não se ouviu tão sonoro timbre.

Mais adiante uma lavadeira cantava num ribeiro, vizinho à estrada:

 

O amor que me juraste

Bem cedo o vi acabar,

Foi fumo de lavareda

Que já se desfez no ar.

 

— Outro queixume. Parece-me que a cada passo se ergue uma voz a acusar a inconstância do coração.

— É porque só os corações infelizes é que cantam; a alegria e a felicidade são mudas.

Ao voltar um ângulo do caminho era outra rapariga que fiava à porta, cantando:

 

O teu amor era falso,

Teve pouca duração,

Mas deixou mágoas eternas

No meu pobre coração.

 

— É singular! — disse D. Joana com certa intenção. — Parece de propósito; sempre a mesma poesia. Nem que nos perseguisse uma voz como a da consciência a acusar-nos de alguma culpa de inconstância. Ora dos dois, quem com mais alguma probabilidade poderá ser acusado disso, não serei eu decerto. Se fosses tu, Filipe?...

— Quem sabe, minha mãe? — respondeu Filipe com uma seriedade que não estava em harmonia com o tom jovial em que D. Joana lhe fizera a observação.

— Ah! quem sabe? Ninguém senão tu e a Providência, que talvez esteja falando pela boca desta pobre gente. Só me admira que fale no Minho para emendar o mal feito em Lisboa.

— E se fosse o mal feito no Minho?

— No Minho? mas... ah? sim, tu estiveste alguns meses aqui. Então, Filipe, por acaso inspirar-te-iam estas belas paisagens alguns capítulos do romance? porque mo não contaste? Sabes que tudo quanto escreves e contas me excita sempre interesse; pois nem te lembras que até os teus trabalhos académicos eu gostava de ler? Nem aos de matemática perdoava: não os decifrava, mas entendia-os. Não sei se me admites este paradoxo.

— Eu sei, minha mãe, avaliar o seu muito afeto, mas que quer? O conceito elevado que Va Exa na sua indulgência materna faz de mim, lisonjeia-me tanto, causa-me tal orgulho, que recuo perante a ideia das confissões que lhe podem lançar a mais leve sombra na imagem que a sua muita bondade formou de mim.

— Deve ser bem grave a culpa cometida, que assim te está causando remorsos.

— Ainda não pude avaliar toda a extensão e gravidade dela.

— Porquê?

— Porque não pude saber ainda as consequências que resultaram.

— E se eu exigir que ma confies?

— Basta que lhe diga, que essas cantigas populares que nos têm acompanhado, podem considerar-se, como Va Exa disse há pouco, a voz da minha consciência ou dos meus remorsos.

— Remorsos! Repara que são a consequência de um crime. Por acaso...

— Pelas convenções sociais não me pode ninguém chamar criminoso; mas por um outro código, pelo código da consciência, eu sou acusado.

— De que crime?

— De ter feito nascer uma paixão, prevendo quase que ela teria de morrer sufocada, prognosticando-lhe o seu nenhum futuro.

— E que motivos tens para julgar nela mais sincera essa paixão do que o era em ti? Vaidoso! Imaginas que ninguém te poderia aceitar a corte sem morrer de amores por ti?

— Por um lado tem razão no que diz; mas um pressentimento...

— Bem. A coisa não passa de um pressentimento? Pois nesse caso oponho-lhe um outro pressentimento meu. Já nem sequer pensa em ti essa em quem pensas ainda tanto. E o mais natural. Tranquiliza os teus escrúpulos; mas parece-me que não te seria demasiado lisonjeiro o convencimento desta verdade. Ora diz-me: tu ainda a amarás?

— Julgo que não, minha mãe. Eu sinto-me tão volúvel!

— Mas como tu dizes isso! que ar de remorso! Nunca te acusaste com tanta contrição do teu rompimento com a Alberta dos Prazeres, com quem estiveste quase esposado. Ó Filipe, dar-se-á que o teu coração entre deveras nisso?

— Quero acreditar que não, minha mãe. Seria uma calamidade.

— Porquê?

— Va Exa permite-me que fale francamente?

— Ordeno-te.

— Pois bem. É porque se eu me sentisse deveras apaixonado, podia estabelecer-se entre mim e Va Exa um conflito, do qual, fosse o resultado qual fosse, eu sairia sempre com feridas que não sarariam nunca, ou acabaria por lhe não obedecer; e se o amor fosse verdadeiro, sofrendo por ele, eu venceria a paixão, e nunca me perdoaria a desobediência.

— E qual a razão porque julgavas inevitável um conflito? Essa mulher era indigna de ti?

— A sociedade em que Va Exa vive é de umas exigências ridículas, mas a que se costumam a obedecer os que a frequentam. Conveniências sociais. A mulher a quem me refiro era filha de um negociante de Braga.

— Não te sabia desses preconceitos heráldicos tão arreigados!

— Em mim? Engana-se, minha mãe, se eu fosse só... Mas sabe que lhe não quero dar desgosto...

— Se me não engano, achamo-nos em frente da casa da família que vamos socorrer.

Efetivamente a carruagem parou diante do portão da quinta de José Urbano, e o boleeiro, apeando-se, puxou o cordão da sineta, cujo ruído se fez ouvir ao longe, despertando os latidos dos cães, fiéis guardadores daqueles jardins.

Passados tempos o portão abriu-se, e Roberta apareceu, depois de perguntar de dentro quem era, com voz um pouco resolvida; ao dar com os olhos na carruagem, deu um salto, como se a picasse uma víbora.

— Vossa... — ia exclamar a pobre velha atónita.

— Psiu! — disse D. Joana, pondo o dedo na boca e com um sorriso benevolente.

Roberta calou-se, mas, ao ver saltar Rialva do carro, fez um novo movimento de surpresa.

— Agora é o outro. Pelo que vejo eram grandes fidalgos ambos. Rialva, que conheceu logo em Roberta a velha da estrada, procurou tomar-se ouvido dela, dizendo à mãe, ao ajudá-la a descer:

— Se vossa majestade se quiser utilizar do meu braço...

D. Joana sorriu, e, saltando junto de Roberta, perguntou-lhe em voz baixa:

— Onde está a menina?

— Deve andar pela quinta. Eu vou chamá-la.

— De modo nenhum. Iremos ter com ela.

— Como vossa majestade quiser; nesse caso eu vou adiante.

— Também não. Se me quiser antes fazer o favor de me preparar um copo de água chalada...

— Com todo o gosto. Mas se a vossa majestade se engana no caminho?...

— Melhor, mais tempo gozaremos da quinta.

E tomando o braço de Filipe, D. Joana desceu as escadas que conduziam à quinta.

— Sabe, minha mãe, que para um empregado demitido é esta uma magnífica vivenda? — disse Rialva, admirando o bom aspeto de quanto o rodeava.

— Restos de um bem-estar passado — respondeu D. Joana, entranhando-se num a rua orlada de roseiras todas enfloradas.

— Que deliciosa habitação! — exclamava Rialva a cada passo.

— Sigamos na direção donde nos chega o sussurro do cair da água.

Rialva atrasara-se de D. Joana alguns passos de distância, tendo-se demorado a colher um botão de rosa que se pendurava num a das ruas...

Preparava-se a apressar o passo para alcançar a sua mãe, quando viu esta levantar pé ante pé, e com a mão nos lábios como a recomendar-lhe silêncio.

Filipe parou.

D. Joana chegou-se a ele e disse-lhe baixinho:

— Devagar, muito devagar. Dorme alguém ali adiante. Quero preparar-te um belo espetáculo. Devagar!

E os dois caminharam tão de manso, que mal se escutava o estalar da areia da rua e de uma só folha seca que o vento destacava das árvores.

— É agora — disse D. Joana, desviando-se para deixar patente ao seu filho a vista do largo junto a uma pequena cascata, no qual penetraram.

Rialva olhou e estremeceu de surpresa.

Reconhecera Maria Clementina adormecida.

A mãe e o filho permaneceram silenciosos perante aquele espetáculo.

Quem o poderia conceber tão belo!

Languidamente recostada no banco rústico que existia ao lado da cascata, conservara Maria Clementina uma posição naturalmente artística, na qual lhe sobressaíam todas as formas elegantes e corretas daquele corpo flexível e delicado.

O braço direito, dobrado sob a cabeça e um pouco descoberto, exagerava pela flexão as curvas graciosas e suaves do seu regular contorno; o esquerdo, pendente ao longo do corpo, permitia observar uma mão encantadora. Não era destas pequeninas mãos, galantes como as de uma criança, e que se abrangem num a só das nossas; reconhecendo a graça desses modelos, confesso que me produzem mais sensação as mãos como as de Maria Clementina. Algum tanto compridas e estreitas, cobertas por uma pele alvíssima e transparente, sob a qual se desenhava uma complicada rede de veias azuladas, tinham estas mãos assim o que quer que seja de distinção e encanto, que atrai as vistas, que as fixa, que as fascina.

Eu, a respeito de belezas femininas, não sou partidário ardente do galante, do mignon, como os franceses dizem; prefiro-lhe o ar de dignidade e grandeza que se lê em certos tipos, temperado pelo que possui de brandura todo o rosto de mulher verdadeiramente bela. A cabeça de Maria Clementina, um pouco inclinada para trás, descobria, em toda a sua vantajosa forma, o colo, cuja transição para a face e para os seios se fazia por curvas tão disfarçadas e brandas, que a vista insensivelmente deslizava por elas e perdia-se a divagar naqueles lábios, que a respiração entreabria, pousava amorosamente nas suas graciosas comissuras, que se elevavam num quase impercetível sorriso, nas pálpebras, que pareciam denunciar o fulgor dos olhos que mal encobriam; ou baixava ardente como insinuando-se por entre o corpilho do vestido, que subia até o pescoço, avaro das belezas que ocultava, e como fascinada por aquele movimento cadenciado e um respirar tranquilo.

— É ela — disse afinal Filipe, olhando para a sua mãe e ainda comovido por sentimentos encontrados que o dominavam.

— Eu sei! — respondeu D. Joana, continuando a sorrir.

— Sabe?!

— Bem vês que te trouxe aqui.

— Mas... como foi isto?

— Pediam justiça, enviaste a queixosa para mim. Eu prometi fazê-la. A isso venho.

— A fazer justiça?

— Sim.

— E o ofendido é...

— E ela e o culpado és tu. Não to diziam há pouco os teus remorsos, Filipe? Ao partires para Lisboa deixaste comprometida a reputação desta menina.

— Pois acaso...

— Viram-te descer o muro do jardim...

— Oh! meu Deus...

— Desde então a sociedade escrupulosa obrigou-a a procurar esta solidão. Deves supor se lhe terão sorrido os dias passados aqui. E no entretanto tu esquecia-la na capital...

— Oh! minha mãe... juro-lhe...

— Não jures, Filipe; ora que vais tu jurar? Confessa, é melhor; e arrepende-te, que é mais nobre.

— Eu sou um miserável, minha mãe.

— Que nome tão feio! Agora cais-me num outro extremo. E preciso emendar o mal feito.

— E como?

— De uma maneira possível.

— Pois quer...

— Então que é? Hesitas em fazer justiça, quando não hesitaste em cometer a culpa...

— E consente...

— Ordeno, se ainda podem ter para ti valor as minhas ordens.

— Mas essas são para mim uma bênção do Céu, creia-me! — exclamou Filipe, apoderando-se da mão da sua mãe e beijando-lha com efusão.

Um movimento de Maria Clementina deu a conhecer que ela despertava, enfim, do seu sono tranquilo ao rumor do diálogo, que se travara entre D. Joana e o seu filho. Esta correu ao encontro de Maria Clementina, ocultando por este movimento a presença de Filipe.

— Va Exa aqui! — disse Maria Clementina sobressaltada ao abraçar D. Joana.

— Estava a gostar de a ver dormir...

E depois de a beijar afetuosamente, D. Joana afastou-se, descobrindo assim a figura de Filipe, que se conservara imóvel a distância.

Maria Clementina, dando com os olhos nele, estremeceu, exclamando:

— Oh! meu Deus.

— E meu filho — disse D. Joana, beijando-a na cara com uma carinhosa solicitude.

Maria Clementina vacilou, deixou-se cair no banco em que estivera sentada, e pelas faces, que passavam de uma súbita palidez a um intenso rubor, deslizaram as lágrimas que lhe inundavam os olhos... Nisto assomava na extremidade de uma das ruas a velha Roberta com o copo de água e chá, que D. Joana lhe pediu.

Esta correu a encontrá-la para lhe encobrir a turbação dos dois.

— Agradecida pelo incómodo que teve. Agora faz-me um favor? Ajuda-me a cortar um ramo de japoneiras? — E aproximando-se de Roberta, acrescentou a meia voz:

— Deixemos sós os dois; este é o tal alferes...

— E este! — disse Roberta, olhando para Filipe com os olhos espantados e com certa indignação. — E logo foi a ele que eu...

— Está bom, deixemo-los, que tudo se há de arranjar.

— Deveras?

— Comprometo a minha palavra.

— É a palavra real... — disse Roberta.

— Tem razão... não volta atrás — terminou, sorrindo, D. Joana de Rialva.

E D. Joana, conduzida pela velha, foi efetivamente cortar um ramo de camélias, com grande orgulho de Roberta, que toda se desvanecia em estar colhendo flores para sua majestade.

Filipe e Maria Clementina ficaram. Esta, vendo afastar-se D. Joana, levantou-se para segui-la; mas viu diante de si Filipe ainda imóvel e atencioso, e as forças faltaram-lhe, deixando-se cair de novo.

— Ainda poderei esperar de si a minha absolvição, Maria? — disse Filipe aproximando-se da donzela.

— Pois eu já o acusei? — respondeu timidamente Maria Clementina.

— Acusa-me a consciência.

— De que o acusa então? De me ter mentido?...

— Não, que lhe não mentia quando lhe disse que a amava...

— Então? De me ter esquecido?

— Também não. Podia eu esquecê-la?

— Não sei. Mas de que o acusa a consciência? Diga.

— De não ter sido eu próprio que há mais tempo tivesse vindo oferecer-lhe a reparação do mal que lhe fiz.

— Do mal? Pois sabe se me fez mal?

— Sei. Soube-o agora... da minha mãe.

— Entendo. E vem oferecer-me uma reparação?

— Era o meu dever, mesmo quando...

— É uma generosidade. Mas ouça-me — disse Maria Clementina, levantando-se e caminhando para Filipe, com uma resolução que contrastava com a sua timidez de há pouco. — Eu não posso aceitar um sacrifício.

— Um sacrifício...

— Olhe, Filipe, um ano de solidão faz-nos pensar com madureza. Há um ano receberia com alvoroços de alegria as palavras que me disse. Hoje não. Sou culpada para com o mundo. Que me importa! Sou inocente para com a minha consciência. Mas quando mesmo esta me acusasse, acredite que não me moveria a aceitar de si isso que 3 chama o cumprimento de um dever. Deveres! Quem lhos impôs? A sociedade? Eu não lhe pedi que advogasse a minha causa. Eu? Bem vê que não. Tranquilize os escrúpulos da sua consciência; se é ela que o impele a esse passo, desista de obedecer-lhe; eu absolvo-o de toda a responsabilidade. Obrigada, Filipe, mas bem vê que não devo aceitar.

— E se a voz da consciência se harmonizar neste caso com a do coração?

— E quem mo há de assegurar? — disse Maria Clementina, voltando à sua anterior confusão.

— Incrédula? Exigir provas é renegar a persuasão do amor. Sabe porque há um ano me acreditava e hoje duvida?

— Porque se passou um ano! E que ano, Filipe! que experiência colhida nestes doze meses passados a sós com o meu pensamento e com o desprezo dos outros...

— Do desprezo, pois acaso...

— Oh! Não julgue que lhe falei nisto como uma arguição. Não era o que mais me fazia sofrer esse desprezo; esquecia-me dele. Outra causa movia as minhas lágrimas.

— E era?

Maria Clementina calou-se embaraçada.

Filipe aproximou-se dela, e tomando-lhe a mão insistiu:

— O que a fazia chorar então, Maria?

Maria Clementina levantou os olhos húmidos de lágrimas e com um sorriso angélico respondeu suspirando:

— E pergunta-mo? Chorava, chorava de saudade.

— Pois lembrava-se de mim?...

— Duvida, e quer que acredite no seu amor!

— Se eu era indigno de tanto! E agora...

— Agora?

— Por que mudou de pensar?

— Por que mudei? Eu mudei! E julga que posso deixar de acreditar; julga que me restam forças para resistir a uma tentação! Devia pedir-lhe misericórdia, mas... Nem sei... Olhe, que exige de mim? que diga que o amo?... Pois sim, amo-o, amo-o. Que mais quer? É a minha perdição talvez.

— E a sua salvação, minha filha — disse D. Joana, que se aproximou de Maria Clementina e a apertou nos braços.

Nisto ouviu-se tocar a sineta do portão.

CAPÍTULO VIII

EXPLICAÇÕES — NÃO HÁ JUSTIÇA

COMO A JUSTIÇA DE SUA MAJESTADE

 

Os sons vibrantes da sineta interromperam de chofre as carinhosas efusões de D. Joana e Maria Clementina, que se olharam como se perguntassem uma à outra — quem será?

Em seguida novos e mais rápidos sons se fizeram ouvir, ecoando pelo jardim, indicando que quem tangia a sineta queria ser ouvido e tinha pressa de transpor o portão.

— Quem será — disse Maria Clementina — que tão apressado se mostra?

— Deve ser — respondeu D. Joana — seu padrinho e o major, que ficou de estar aqui com ele por estas horas. Filipe conservar-se-á por enquanto aqui fora; a menina quer-me acompanhar ao encontro dos recém-chegados?

Maria Clementina cedeu o braço a D. Joana, que, apoiando-se nele, caminhou na direção do portão.

— Vamos trabalhar no seu futuro; quero dispor tudo antes de partir.

— Pois quando parte?

— Depois de amanhã.

— Já? Tão cedo.

— Assim me é indispensável. Mas em breve a tomarei a ver em Lisboa. Não é verdade?

— Em Lisboa?... — disse Maria Clementina, corando.

— Sim, e bem junto de nós. Sempre desejei ter uma filha. Dou graças por me deparar uma tão boa.

— Oh! minha senhora — exclamou Maria Clementina, não podendo conter o seu reconhecimento e apoderando-se-lhe da mão, que beijou comovida.

— Vejo que me aceita por mãe... Obrigada.

— E é a senhora que me diz obrigada? A mim, que pela primeira vez conheço a ventura que há em ser filha!

— Pobre menina. Mas vamos, não nos sensibilizemos, que estamos próximos ao último ataque decisivo.

Esta observação foi sugerida a D. Joana pela vinda de José Urbano, que na companhia do major se aproximava delas.

— Que agradável surpresa! Va Exa aqui?

— E verdade, Sr. José Urbano. Espero que me perdoará esta invasão da sua propriedade.

— Oxalá que ela se reproduzisse.

— Mas veja que não me retiro sem paga! — acrescentou, mostrando-lhe o ramo de camélias que colheu.

— E na verdade só agora que começo a conhecer o preço dessas flores...

— A benevolência do proprietário anima-me a confessar-lhe que as minhas intenções vão mais longe. Premedito um roubo de mais valor.

— Va Exa?

— É verdade, e receio não lhe encontrar tão boas disposições de mo perdoar como agora.

— Deveras! — respondeu José Urbano, sorrindo.

— Vou fazer-lhe a confissão dele, se me quiser ouvir.

— Com a melhor vontade. Quer Va Exa entrar?

— Aceito. Venha, major.

— Pois também entro na confidência?

— Não o dispenso.

Maria Clementina deixou-se ficar um pouco atrás, enleada e confusa, porque previa do que se ia tratar.

D. Joana aproximou-se dela e disse-lhe a meia voz:

— Poupo-lhe o dissabor de assistir ao processo; dentro em pouco lhe comunicarei a sentença.

Maria Clementina retirou-se.

José Urbano, D. Joana e o major entraram no salão.

José Urbano tinha um ar prazenteiro, o major puxava o bigode com certo embaraço, D. Joana meditava um plano de campanha.

Sentaram-se todos.

— Sr. José Urbano, eu não sou partidária dos rodeios. Costumo ir direita ao fim. O roubo que eu lhe premedito fazer é nada menos que o da sua sobrinha.

— De minha sobrinha! — repetiu José Urbano, entre sério e risonho, como se esperasse a explicação destas palavras.

— E verdade. Queria pedir-lha para filha.

— Como?!...

— Imagine, Sr. José Urbano, que eu tenho um filho por quem sou doida, perdidamente doida, e que concebi que era Maria Clementina a mulher que lhe podia dar a felicidade que eu ambiciono para ele.

José Urbano olhava estupefacto para D. Joana, como se não tivesse compreendido.

— Então diz Va Exa que...

— Que lhe peço a mão da sua afilhada para...

— Mas um projeto tão pouco meditado...

— Talvez menos do que julga.

— Menos do que julgo.... — disse José Urbano com manifesta intenção. Seja assim; mas o que Va Exa me pede não pode realizar-se.

— Que diz, Sr. José Urbano?! Não posso acreditar que me negue a satisfação de obter o que lhe peço, porque já considero sua sobrinha como minha filha muito amada.

— Não duvido; mas Maria Clementina, que é um anjo, não pode casar com o filho de Va Exa, porque se opõem a isso... circunstâncias e melindres que é necessário respeitar.

E José Urbano carregou de tal maneira o rosto, que parecia indicar à sua interlocutora que não continuasse a falar-lhe naquele assunto.

D. Joana, porém, pareceu não atentar nisso, e, mostrando-se risonha, continuou, dizendo:

— Parece-me compreender, Sr. José Urbano, que tem receio do meu filho não ser digno da sua sobrinha, nem capaz de a fazer feliz.

— Não é isso, minha senhora — interrompeu José Urbano, com vivacidade. — São motivos particulares, que dizem respeito a uma pessoa da minha família, que já não vive e a quem muito amei.

— Mas — disse D. Joana — se não há desonra para sua sobrinha no enlace dela com o meu filho, porque me recusa a sua mão? Dar-se-á que a destine para outro mais digno que o meu filho?

— Não destino, não. Enfim — disse José Urbano, um pouco enfadado — acabemos com isto. Para Va Exa conhecer a razão da minha negativa, era necessário contar-lhe a minha e a história da minha irmã, que não vive há muito e a quem amei extremosamente. Essa história cansará a paciência de Va Exa e do Sr. major, que desejo poupar...

— Conte, conte — disse D. Joana — que nos dará com isso muito prazer. Não é assim, major?

— Decerto — respondeu este — porque estou ansioso de a ouvir.

O rosto de José Urbano empalideceu e mostrou-se anuviado de tanta tristeza que causou profunda impressão em D. Joana e no major.

— Seja como querem — disse por fim José Urbano, depois de ter estado algum tempo silencioso, e como que invocando as recordações do passado. — E doloroso avivar feridas que desejo cicatrizadas, mas não tenho outro meio de acabar com isto. Ouçam: «Quando a minha mãe morreu, tinha eu vinte anos. Foi em 1818. Até aí, vivera eu como rapaz.

De pequeno senhor da minha vontade, eu não sabia o que eram sujeições e constrangimentos. A minha mãe era uma santa mulher, que vivia absorvida entre as suas devoções e as suas economias. Os pequenos haveres em bens rurais, que o meu pai deixara ao morrer, eram por ela tão bem administrados, que nunca a menor sombra de privações nos veio amargurar a vida.

Quando morreu, achei-me eu à testa da família. A minha mãe tinha-me dito pouco antes: «Tenho-te deixado gozar a tua vida de rapaz, porque bem sabia que dentro em pouco terias de renunciar a ela. Vê se compreendes o teu dever. Deixo-te uma irmã de oito anos.»

Aterrou-me ao princípio esta responsabilidade, e o novo encargo fez-me pensar seriamente. Obedeci a minha mãe; desde o dia da sua morte, abandonei a companhia dos meus companheiros de prazer e votei-me de coração ao trabalho. Sentia-me recompensado com a alegria que experimentava quando podia dar um vestido novo a minha irmãzita.

Cedo as minhas ambições começaram a crescer. E sempre a mesma história. Já me não contentava com os modestos, mas continuados, proventos que tirava do meu negócio de cereais. Queria lucros mais visíveis.

O Brasil começou-me então a sorrir com as suas promessas de riquezas, com que a tantos atrai. Não descansei mais enquanto não realizei o meu intento. Regulei com um negociante meu amigo uma mesada a minha irmã, e deixei-a em companhia da Roberta, que foi ama de nós ambos, e parti.

Seria curiosa e rica de experiência a história da minha vida no Rio de Janeiro, se o contá-la me não afastasse do fim que tenho em vista. Basta que diga que trabalhei! Trabalhei deveras. Não .me fazia hesitar qualquer trabalho, por penoso que fosse. Recusava apenas as empresas menos honestas.

Tive que sofrer e muito. Estive no Brasil por ocasião da guerra da independência. Basta que diga isto. Mas a minha perseverança valeu-me e não me deixou soçobrar. No fim de seis anos, aumentava consideravelmente a mesada a minha irmã. No fim de oito, podia-me dizer rico. Mais um ano no Brasil, e voltarei para Portugal, disse eu comigo.

Não havia dia em que não pensasse nisto com entusiasmo.

Por meados de 1833, andava eu tratando da liquidação, quando, ainda me lembro bem, recebi de Portugal uma carta tarjada de preto. Abri-a a tremer. Era do negociante meu amigo, participando-me que a minha irmã, que havia tempos se achava incomodada, morrera no dia 23 de Julho de 1833, apesar de todos os socorros da medicina.

Não posso dizer como fiquei quando li esta carta. Caí em tal abatimento, que os médicos agouraram mal da minha vida. Aconselharam-me ares pátrios. Mas eu já não tinha coração para voltar aqui; ao mesmo tempo, a minha vida no Rio de Janeiro era-me insuportável. Terminei a liquidação do meu negócio, e fui viajar.

Percorri a Europa; durante quatro anos, vivi vida errante e aventureira. No fim deste tempo, conheci que estava cicatrizada a chaga do meu coração, começaram a crescer em mim uns veementes desejos de voltar à minha terra. A mesma saudade me chamava. Não pude resistir-lhe. Entrei em Portugal em 1837. Quando avistei a casa onde eu nascera e onde vivi com a minha irmã, senti uma profunda comoção interior. Vir encontrá-la vazia, sem aquela linda menina, que eu deixara de dez anos a brincar, que viera à janela ver-me dobrar a esquina quando eu parti, para a não tomar a ver! E, pensando isto, eu parei em frente da casa a olhá-la e sem forças que me levassem mais adiante. Quando de repente — que ilusão aquela, meu Deus! — a mesma janela se abriu, e ela... a minha irmã, tão pequena como eu a deixara, se encostou ao peitoril, olhando-me exatamente como me olhava dantes.

Eu não pensei no impossível da visão. Acreditei nela. Corri, corri como um louco, e bati à porta, gritando:

— Abre, Roberta, abre... A minha irmã ainda está viva!... Eu logo vi que não podia ser.

Roberta veio-me abrir a porta a tremer. Não sei como ela me reconheceu nem o que me disse. Eu estava alucinado.

— Deixa-ma ver, deixa-ma ver! Para que me tinham dito que ela morrera?

Não posso dizer como corri e o que se passou; lembra-me que dentro em pouco tempo eu abraçava e beijava uma bonita criança de dez anos, julgando beijar minha irmã. E ela também me abraçava, sorrindo e a chorar... a pobre pequena. Porém, a ilusão passou; a razão voltou-me, reconheci que havia nisto tudo um engano. Mas a semelhança era tanta! Um ar de tristeza se apoderou de mim; e voltando-me para Roberta, que chorava a um canto, perguntei-lhe:

— Quem é esta menina, Roberta?

— E sua sobrinha, filha da sua irmã.

Dei um salto, como se aquelas palavras me atravessassem o coração. Um relâmpago terrível me iluminou o espírito; ia a passar das carícias talvez a alguma crueldade, quando aquele anjo, ouvindo as palavras de Roberta, exclamou:

— Ai, pois, é este o meu tio! e saltou-me ao pescoço, beijando-me com meiguice. Desarmou-me; desatei a chorar, e não pude deixar de a apertar ao coração.

Passados poucos instantes, Maria retirou-se para ir buscar flores, disse ela, e eu fiquei só com Roberta. Voltou-me o ar sinistro que aquela criança me havia conjurado, e disse a Roberta que me contasse a história da minha irmã. A história era curta.

— A infeliz foi enganada por um infame, que, abusando da sua inocência, fora a causa do seu infortúnio e da sua morte.

— E era assim que vigiavas pela irmã que eu te confiei, Roberta? A pobre mulher respondia-me chorando.

Mas a voz da minha consciência acusava-me mais do que a ela. Eu é que não devia ter abandonado a irmã, para satisfazer ambições desmedidas. Agora, cumpre-me chorá-la e proteger-lhe a filha melhor do que a protegera a ela. Pobre criança! Quem podia deixar de querer-lhe? Ela reproduziu-me as venturas que eu julgava perdidas para sempre. Nela cri renascer minha irmã. E por isso a amei. Amei-a logo e cada vez mais! E veja como parece a sorte perseguir-me; durante meses que tive de passar no Porto, por pouco a não ia sacrificando, e lhe causei, sem querer, um mal irremediável! Está terminada a história de Maria Clementina.

A sorte infeliz da minha irmã era muito notória, para que eu pudesse viver feliz na minha terra. Vim por isso para Braga, deixando Barcelos, onde nascera, com vivas saudades.»

— Barcelos! — exclamou o major, que havia momentos não podia dissimular a sua agitação.

— Sim — respondeu José Urbano — julgava ter já dito que tinha sido em Barcelos que eu nasci. Agora, já vê Va Exa a razão porque eu há pouco lhe dizia que a proposta que se dignou fazer era impossível. Maria Clementina é filha ilegítima e eu não conheço o pai.

— Não conhece? — perguntou D. Joana com interesse.

— Nunca me puderam dar sinais dele. Em Roberta encontrei sempre uma reserva, nesse ponto, que me fez julgar ser recomendação da minha irmã. Sei apenas que era um militar, um dos muitos que por aqueles tempos (foi em 1832) cobriam o reino. Era vida de guerra a de então... algum aventureiro, que nunca mais se lembrou da vileza que cometera, nem talvez mesmo ao cair no campo atravessado por uma bala inimiga.

— Sua irmã chamava-se...? — perguntou o major com voz alterada.

— Maria Luísa — respondeu José Urbano.

O major não se pôde vencer. Olhando para Maria Clementina, que passeava então no terraço adjacente, exclamou, juntando as mãos:

— Justo Deus! pois eu tinha uma filha?

Esta exclamação do major fez estremecer José Urbano, que empalideceu. D. Joana ergueu-se também sobressaltada.

— Sr. José Urbano — disse o major, comovido — o militar, o aventureiro, o miserável que acusou, sou eu; não ficou atravessado por uma bala no campo de batalha, mas por muito tempo o conservou num leito de doença, e quando se ergueu foi seu primeiro pensamento a mulher que verdadeiramente amara; disseram-lhe que tinha morrido, mas nunca ele soube que lhe ficara uma filha. Ai, se o soubesse! Eu, que tantas vezes me atormentava na minha solidão vazia de afetos... Se eu suspeitasse que existia na terra aquele anjo! — E o major juntava as mãos, olhando para Clementina.

José Urbano conservava-se mudo e taciturno.

— Quando mesmo Maria Clementina não tivesse achado um pai — disse D. Joana — não julgue que eu desistiria do meu pedido, Sr. José Urbano. Mas agora parece-me que cessam da sua parte todos os escrúpulos.

José Urbano ergueu a cabeça e, fitando o major, disse:

— Ainda bem, major Samora, que só nos reconhecemos na idade em que se apagaram os fogos da juventude; ainda bem.

— Então, é a ambos que peço a mão de Maria Clementina para o meu filho... — disse D. Joana; seja esta união a que faça desvanecer a nuvem que parece meter-se entre os senhores. Deem as mãos como amigos. Vamos.

O major ficou quieto, e José Urbano caminhou para ele com as mãos estendidas.

— Acredito, major, que foi leviano, mas não foi vil. A minha irmã mandar-me-ia perdoar.

Os dois apertaram as mãos.

Dentro em pouco tempo, eram tudo abraços na sala de José Urbano.

A um sinal de Joana, Maria Clementina entrara em casa, com o coração alvoroçado e as faces tingidas de rubor.

Filipe, que entendeu também o sinal da sua mãe, seguia a pequena distância. Quando Maria Clementina entrou, D. Joana foi-lhe ao encontro, e tomando-a pela mão levou-a junto do major.

— É de justiça que seja para o major o primeiro abraço — disse D. Joana.

O major tremia ao abrir os braços a Maria Clementina, e a custo exclamou:

— Minha filha!

Maria Clementina olhava com estranheza.

José Urbano disse-lhe, comovido, apontando para o major:

— Podes abraçá-lo, Micas, é teu pai... Filipe entrou neste momento.

Maria Clementina achava-se nos braços do major, desfeita em lágrimas, mal compreendendo ainda o que se passava.

Samora, que não se fartava de a abraçar, disse, meio a rir meio a chorar, para Filipe, que o olhava estupefacto:

— E o complemento daquela minha história; eu tinha uma filha... Era esta... este anjo.

E desprendendo-a dos braços, acrescentou:

— Como vamos ser felizes todos!

José Urbano aproximou-se de Filipe, e disse-lhe:

— E tem fé que a tomará feliz?

— Quanto a puder fazer um amor verdadeiro.

— Ora não desanimem então.

Imaginem as efusões mútuas que se seguiram.

Ao entrar Roberta na sala, o major foi-lhe ao encontro, exclamando:

— Roberta ! Lembra-se ainda do alferes Clemente Samora?

— Santo nome de Deus! Que nome foi dizer! — exclamou a velha, olhando para seu amo com ar de mistério e susto.

— Saiba que ele vive ainda, e que encontrou sua filha, a que abraço agora...

— Quê?... pois então... E verdade que tem avultações. Mas... santo nome!... Santo... então?

— Então, este dia é um dia de ventura. Achei minha filha, e exatamente na ocasião de encontrar também um filho no melhor rapaz do exército.

— Oh! major!

Os dois militares apertaram as mãos afetuosamente.

— Ah! pois já está tudo arranjado? — exclamou Roberta, exultando de contente.

— Tudo, graças ao seu expediente, Roberta. Pode ufanar-se de ter feito a felicidade dos seus amos.

— Como? — perguntou José Urbano.

— Ora como? — disse Roberta — indo a fonte limpa. Quem pode...

— Psiu ! ... — disse D. Joana, olhando-a com mistério.

— Ah! pois ele não sabe ainda? — murmurou Roberta, olhando para seu amo com ar de mistério. — Não importa; eu não posso deixar de bradar: Viva a sua majestade a rainha!

A saudação foi jovialmente acolhida.

Do mais que se seguiu, deixo-o à imaginação do leitor concebê-lo.

D. Joana partiu no dia seguinte para Lisboa.

O major Samora, Filipe, José Urbano e Maria Clementina seguiram-na passados oito dias.

O casamento fez-se na capital, onde os noivos ficaram residindo na companhia do major, que remoçava com o inesperado sucesso, e recebendo visitas amiudadas de José Urbano, que reside ainda em Braga. Roberta vive na firme persuasão que foi a rainha D. Maria II quem interveio no casamento dessa menina, e toda ufana repete muitas vezes, com grande prazer de José Urbano.

— Aqui está quem deslindou este negócio todo. Não fora eu, que ainda hoje estaríamos como dantes: eu nem sei o que seria. Não há justiça como a justiça da sua majestade.