Só o Amor Liberta

Célia Xavier de Camargo · Capítulo 1 de 4 · parte 1/3

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Só o Amor Liberta

Seção 2

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Sumário

Apresentação

1 O coroinha.

2 Dimensão do problema

3 Sementes de Erlan

4 Malefícios da guerra

5 Decisão filial

6 Socorro inesperado

7 O despertar da consciência

8 A bênção do sofrimento

9 Reflexões

10 O jogo de futebol

I I Novos conhecimentos

I 2 Superação do sofrimento

13 Momentos de decisão

14 Nuvens que se dissolvem

15 Solucionando problemas

16 Assédio sexual

17 Tomada de decisão

18 Ajuda providencial

19 Mudanças importantes

20 Novos tempos

21 Preparativos

22 Voltando à vida

23 Tomando decisões

24 Enfrentando as adversidades

25 Reencontro

26 Reconciliação

27 Estranho comportamento

28 Visita oportuna

29 Tudo se encaixa

30 Excursão de resgate

31 Aprendendo a perdoar

32 Libertação

Conclusão

Apresentação

Diante dos inúmeros casos que nos chegam com solicitações de ajuda e que, em virtude disso, nos dispomos a acompanhar, auxiliando na medida do possível, um imenso aprendizado se delineia. Passamos a observar todas as situações com os olhos da misericórdia e da compaixão, do entendimento e da compreensão, diante dos erros gerados pelo mal, conseqüência da imperfeição humana.

Tornamo-nos mais sensíveis e tolerantes, por sabermos que todas as vivências representam etapas úteis e necessárias ao processo evolutivo.

A cada novo acontecimento, o espírito se torna mais forte e amadurecido, adquire consciência nova, analisa melhor os fatos, compreende que, à medida que erra, sofre o mesmo que fez o outro sofrer; em contrapartida, ganha em experiência, e, ao entender que o bem gera o bem, carreia para si mesmo bem-estar, harmonia e felicidade.

Aprende que, à medida que exercita a compreensão, a tolerância e a paciência, perdoando as ofensas que lhe foram feitas, torna-se um ser melhor, mais livre e mais tranqüilo. Por outro lado, ao reconhecer que errou, a consciência o acusa e, conforme o grau de entendimento alcançado, se arrepende, desejando reparar o prejuízo causado a seu semelhante e, candidatando-se, assim, à mudança de atitudes, passa a trabalhar em benefício do próximo, gerando o bem. Essa transformação produz tal sensação de bem-estar íntimo que o espírito sente-se repleto de contentamento e paz.

Certamente, para que essas mudanças ocorram, faz-se necessário o despertamento da consciência, o que nem sempre se dá naquela oportunidade, exigindo do faltoso ainda mais tempo de aprendizado.

No entanto, ao perceber que os obstáculos se dissolvem, que os problemas se resolvem, que as situações se aclaram e os envolvidos caminham no rumo do entendimento e da concórdia, vencendo rancores, mágoas, ressentimentos e gerando clima de fraternidade entre si, quando não de amizade, experimentamos imensa satisfação de dever cumprido.

Posso afirmar tal coisa, pois, durante a execução deste trabalho, defrontei-me com uma situação de conflito que durante longo tempo gerara trauma em mim, levando-me à amargura e à revolta, por não conseguir perdoar.

Quando a situação se apresentou, e fui obrigado a enfrentar o problema, sofri bastante. Diante, porém, do sofrimento daquele que considerava meu algoz, consegui vê-lo como realmente era, alguém ainda lutando com suas imperfeições. E como exigir de alguém algo que ainda está além de sua capacidade?

E analisando com sinceridade e isenção de ânimo, quem de nós não está lutando para vencer a si mesmo?

Ao conseguir perdoar aquele que considerava meu desafeto, o benefício maior foi meu, pois me libertei das amarras do passado e passei a vê-lo como um irmão com dificuldades, sofredor e aflito. Tornamo-nos bons amigos e hoje trabalhamos juntos.

Espero que as experiências aqui relatadas possam trazer para os leitores idêntica compreensão e o mesmo crescimento que trouxe à nossa equipe.

Agradeço a confiança que Jesus depositou em mim, concedendo-me a oportunidade de realizar este trabalho, que é fruto de serviço em equipe, mas que coube a mim a responsabilidade de traduzi-lo em palavras, enviando-o em textos para conhecimento dos encarnados.

Agradeço também aos nossos benfeitores que nos orientaram, e a todos os que colaboraram para que este livro viesse a lume.

Esclareço, também, que os nomes foram modificados para evitar uma identificação, conforme manda a caridade cristã, não obstante a concordância dos envolvidos na divulgação das histórias.

Quanto a mim, em virtude do entendimento que me felicitou o espírito em relação ao meu antigo confessor, e da melhor compreensão dos fatos, passei a repensar a primitiva idéia de assinar este livro com meu verdadeiro nome para que meus genitores, ainda encarnados, pudessem inteirar-se do passado. Não poderia mais fazer isso. Assim, escolhi um sobrenome fictício, mantendo o anonimato, e o faço com a mais pura alegria.

Que as bênçãos de Deus nos iluminem no roteiro, de modo a executarmos a mudança interior que ora nos esforçamos para implantar, como conseqüência do aprendizado das inolvidáveis lições evangélicas.

Que Jesus nos envolva em paz e desejo de servir!

Capitulo 1

O coroinha

"As contrariedades da vida são de duas espécies, ou, pode-se dizer, de duas origens diferentes, as quais é muito importante distinguir: umas têm sua causa na vida presente, outras, não nesta vida. "

(O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 5, ITEM 4)

Nasci em uma família de tradição católica apostólica romana; meus pais sempre foram bastante religiosos. Desde pequeno fui encaminhado à igreja e obrigado a participar de todas as atividades compatíveis com minha faixa etária. Assim, quando chegou a época de fazer a primeira comunhão, minha mãe pegou-me pela mão e, cheia de orgulho, levou-me para a catequese.

Gostava dos amigos, das meninas, e, para mim, aquela reunião — mais um divertimento do que outra coisa — dava a oportunidade de nos encontrarmos após as aulas, o que era sempre gratificante.

Todavia, as noções que nos eram passadas, apesar do meu pouco discernimento, pareciam-me falhas, sem conteúdo real. Meus pais, como afirmei, eram muito devotos e possuíam livros que, a bem da verdade, não eram lidos, mas que serviam para dar-lhes status, como se a biblioteca lhes atestasse o grau de religiosidade.

Quando o padre vinha nos visitar, e o fazia com freqüência, convidado para almoços e jantares, chás e festas de aniversário, era com orgulho que meus pais exibiam as obras na estante de jacarandá.

Sempre curioso e gostando de ler, vez por outra pegava um desses livros e mergulhava na leitura. O que eu mais apreciava era uma obra que contava a história de Jesus, suas curas, seus feitos. No entanto, nas aulas de catequese, tudo o que nos era passado referia-se à Igreja. Perguntas e respostas entediantes que éramos obrigados a decorar, e, o mais importante, jamais fazer questionamentos à catequista.

Ela era uma senhora alta e magra, de cabelos grisalhos amarrados em coque na nuca; trazia consigo sempre um xale, ora usado nos ombros para se agasalhar, ora para cobrir a cabeça ao entrar na igreja. Àquela época, é preciso que se diga, mulher alguma entrava na igreja sem cobrir-se. Pois esta senhora e seu xale eram motivos de brincadeiras e chacotas entre nós, seus alunos, irreverentes e imaturos, que a imitávamos.

Lembro-me com saudade daquela época, das amizades puras, da alegria, da escola. Freqüentava havia tanto tempo a igreja que me parecia não saber viver longe daqueles ambientes. Contando com o ardoroso entusiasmo de minha mãe, desejei ser coroinha. O padre incentivou-me, e era uma honra apresentar-me na missa, todo paramentado, diante da igreja lotada de fiéis. Era a glória!

Meus pais acompanhavam-me os movimentos cheios de orgulho, completamente esquecidos do padre, que oficiava a missa, do sermão (tenho certeza de que eles não saberiam dizer o tema) e do real sentido da liturgia.

Ainda hoje tenho na lembrança o odor característico da sacristia, misto de poeira, mofo, naftalina e cera; cheiro de coisas velhas, antigas, guardadas há longo tempo. Quando volto ao passado, lembro-me da luz difusa, das sombras existentes que me pareciam tão ameaçadoras e que nos levavam a falar baixo, como se a voz alta fosse uma profanação daquele ambiente que eu julgava sagrado.

A cena que se repete em minha tela mental, porém, e que me emociona até hoje, é uma que ocorria quando eu estava perto do altar.

A imagem central da igreja, em posição de relevo, colocada atrás e acima do altar, era uma belíssima escultura de madeira, em tamanho natural, obra de um artista da própria cidade. Com rara sensibilidade, esculpira Jesus na cruz, mostrando tal sofrimento em seu divino rosto, nos cambiantes de sombra e luz, que a imagem parecia ter vida! Das feridas abertas pelos cravos nas mãos e nos pés, o sangue parecia gotejar, vivo, pulsante.

Pois bem. Durante certo momento do dia, lá pelas quatro horas da tarde, dependendo da época do ano, uma réstia de luz se escoava pelos vitrais e incidia exatamente sobre a imagem do Cristo crucificado, no altar-mor. E eu gostava de apreciar esse momento mágico e cheio de encanto, mas fugaz, porque logo o sol mudava de posição e a magia era rompida. Gostava de ver os infinitos grãos de poeira existentes no ar e que viajavam nessa réstia de luz, à semelhança de mundos que rodopiassem pelo céu; tinham cores diferentes e pareciam ter vida própria.

Nessas ocasiões, eu conversava com Jesus, falava-lhe das minhas dificuldades, dos meus problemas, das travessuras e até das coisas de que me sentia culpado e não tinha coragem de contar a ninguém, nem ao meu confessor.

E, na verdade, fui um menino muito travesso. Certa ocasião aconteceu um fato que marcou o início do meu desligamento da igreja. Estava com dois amigos na sala da catequese. Por qualquer razão, a professora não compareceu aquele dia, e, na falta de atividades, resolvemos fazer uma brincadeira: testar se realmente a hóstia se transformava no corpo de Cristo, como o padre afirmava.

Aproveitamos que o pároco tinha saído em visita a duas beatas enfermas e roubamos um punhado de hóstias, que, a tremer de medo, fomos comer debaixo de uma mesa, cuja ampla toalha branca bordada nos esconderia de eventuais olhares indiscretos, se alguém aparecesse repentinamente.

Naquela hora, começou a ruir minha crença nos dogmas da Igreja, em especial, a eucaristia, cuja legitimidade púnhamos em dúvida, listávamos realmente apavorados. Arrependidos já da brincadeira que os custaria caro se alguém descobrisse. Cada um de nós mastigou uma hóstia trocando olhares cúmplices e assustados, esperando pelo pior. Porém, nada aconteceu conosco, e os castigos horríveis com que o padre nos ameaçava se comêssemos o "corpo de Cristo" não se verificaram. Então, pela lógica, chegamos à conclusão de que o sacerdote estava mentindo, ou realmente acreditava nas coisas que nos ensinava, caso em que estaria se iludindo. Esse fato foi apenas o começo.

Continuei com minhas atividades na paróquia, embora sem tanto entusiasmo, até porque minha mãe não entenderia nem aceitaria se eu quisesse deixá-las. O ambiente, porém, começou a ficar muito ruim; eu não tinha mais o mesmo empenho de antes, e o padre também se tornara diferente. Ou talvez, na minha boa fé, nunca tivesse notado suas atitudes estranhas. Um dia, em que eu estava sozinho colocando as vestes para a missa da manha de domingo, vi que ele se aproximara de mim. Achegou-se com naturalidade e afagou-me os cabelos e o pescoço. Ele já tinha feito isso outras vezes, mas nesse dia pareceu-me diferente, com outra intenção. Fiquei tenso. Como estava na hora da atividade litúrgica, caminhei apressado para o altar.

Depois da missa, meus pais se aproximaram e ficaram conversando com o padre, que me pareceu ter voltado ao normal, mostrando-se digno, alegre e bem-humorado como sempre.

Alguns dias depois, no entanto, tudo mudou. Eu tinha ido à igreja buscar um livro da escola que esquecera por ocasião da aula de catequese. Já nem me lembrava mais do acontecido no domingo de manhã. Estava só, pegando o livro que deixara sobre um móvel, quando o padre chegou. Brincou comigo e me convidou para ir à sua casa, onde tinha um bolo de chocolate à minha espera; sabia que eu apreciava muito. Aceitei sem reservas uma vez que este era um procedimento normal. Chegando lá, porém, ele fechou a porta à chave e depois me chamou para junto dele, alegando que precisávamos conversar. Queria mostrar-me um novo livro que recebera pelo correio. Quando me sentei no sofá, ele me agarrou e, respiração opressa, fungando, começou a acariciar meu corpo.

O padre era um homem de seus quarenta e cinco anos, grande, robusto, e tinha muita força. Eu, ao contrário, era um menino pequeno, franzino, e, naquele momento, muito assustado. Não consegui me soltar dos seus braços possantes. Murmurava palavras indecentes ao meu ouvido enquanto me tocava todo o corpo. Apesar dos meus gritos, dos meus rogos e das minhas lágrimas, ele não me soltou.

O desespero, a humilhação, a dor que senti então, só quem passou por esse tipo de violência pode compreender.

Depois desse dia, recusei-me terminantemente a voltar à igreja. Não podia dizer a verdade a meus pais. Tinha vergonha e asco, por eles e por mim. Então, inventava desculpas e mais desculpas: que estava doente, tinha trabalhos da escola para fazer, tinha jogo de futebol marcado, e outras mais.

Com o passar dos dias, fui-me acalmando. Meus pais entenderam que, agora com mais idade, eu tinha outras atividades que não poderia relegar a segundo plano, se quisesse realmente ir para a universidade algum dia. Acabaram por esquecer o assunto, embora contra a vontade, sempre procurando justificar meu comportamento perante o pároco.

Esse fato deixou marcas profundas no resto da minha curta existência.

Nunca ninguém desconfiou da verdade, e hoje confesso que, se tivesse sido mais corajoso, teria denunciado o padre. Vim a saber, muitos anos depois, que ele também abusara sexualmente de outras crianças, as quais, como eu, esconderam o fato sem coragem de contar a alguém. Por um tempo, o remorso me consumiu, pois tivera, à época, a oportunidade de salvar esses meninos. No entanto, eu era apenas uma criança assustada, insegura e envergonhada.

Se tivesse contado a verdade a meus pais, certamente eles não me teriam dado crédito, visto que jamais se tinha ouvido qualquer referência menos digna a respeito da conduta desse sacerdote. Ao contrário, ele era sempre elogiado, tanto é que gozava da absoluta confiança de todos os pais da comunidade, que lhe entregavam os filhos com tranqüilidade, acreditando estarem em boas mãos.

Talvez vocês possam pensar que esse relato agora, tanto tempo depois, irá expor minha família sem necessidade e causar-lhe maior sofrimento.

Posso assegurar-lhes que meus pais dificilmente irão ler estas linhas, uma vez que continuam sendo católicos fervorosos e tradicionais. Jamais se aproximariam de um livro espírita, que têm até medo de tocar, julgando-o obra do demônio.

E se porventura vierem a folhear estas páginas, tomarão conhecimento de fatos que ocorreram há dezenas de anos e que, na verdade, ignoravam. Se tivessem sido informados, com certeza teriam compreendido melhor minhas atitudes naquela época, minhas reações, meu estado emocional e até meus desequilíbrios graves, o que os levou a procurar um psicólogo para me ajudar. E entenderiam também por que me mantive calado e me neguei a dar qualquer tipo de informação. Nem mesmo diante do profissional contei a verdade, conservando o sigilo que, se rompido conforme eu acreditava, respingaria lama em mim e me teria desacreditado perante todos. Na minha inocência, de alguma forma julgava-me culpado, uma vez que aquele padre tinha reputação inatacável, e todos acreditariam nele, e não em mim.

Só mais tarde vim a saber que o que sofri foi uma violência inominável.

Exatamente por isso é que tive vontade, num primeiro momento, de revelar o meu verdadeiro nome, para que meus pais se inteirassem daquilo que de fato aconteceu e passassem, principalmente, a acreditar que seu filho está vivo e muito vivo, numa outra realidade — o que julgo bem mais importante. Essa revelação, no entanto, não é ainda oportuna.

Minha esperança é de que meus pais venham a crer na imortalidade da alma — não da forma que aprenderam (a alma tem um destino certo e inexorável), mas do modo mais racional (ela é o princípio inteligente criado para a perfeição) — e na comunicabilidade existente entre os dois mundos, o que nos permite manter um contato maior e nos dá a esperança de estarmos reunidos um dia.

Visito regularmente o lar terreno, porém meus entes queridos mantêm uma postura tão rígida e negativa em relação à espiritualidade que não consigo aproximar-me e conversar com eles. Certa ocasião, num momento em que julguei ter criado um clima mais propício a um intercâmbio, cheguei perto de meu pai, e ele sentiu minha presença. Imediatamente, aterrorizado, levou a mão ao crucifixo que trazia pendurado ao pescoço e falou em voz alta:

— Arreda-te de mim, satanás!

Desnecessário dizer que não tentei outras aproximações. E espero que o tempo siga seu curso e possa modificar o entendimento deles. Sabemos que tudo se transforma, tudo evolui, e meus pais não constituem uma exceção à regra.

Em minha existência terrena passada, cheguei à fase adulta. Era um rapaz bem apessoado, de estatura alta, de pele clara e cabelos escuros, que as garotas achavam bonito. Dediquei-me aos estudos, com ênfase para outros idiomas. Fui muito popular, especialmente entre as mulheres; tive muitos relacionamentos, várias namoradas, porém nunca deixei de sofrer o trauma causado por aquela violência da infância.

Agora tudo isso pertence ao passado. Retornei mais cedo para a verdadeira vida, por imprudência na condução de uma moto, cujo acidente, felizmente para mim, só fez uma vítima: eu. Ajudado pelos amigos e benfeitores da espiritualidade, recuperei-me mental e emocionalmente. Hoje tenho uma visão mais clara do problema e não acuso ninguém. Ao contrário, sinto compaixão por todos os que erram.

Capitulo 2

Dimensão do problema

"O dever íntimo do homem é governado pelo seu livre-arbítrio, este aguilhão da consciência, guardião da integridade interior, o adverte e o sustenta; mas permanece, muitas vezes, impotente perante os enganos da paixão. O dever do coração, fielmente observado, eleva o homem, mas, como este dever pode ser determinado? Onde ele começa? Onde termina? O dever começa precisamente no ponto onde ameaçais a felicidade ou a tranqüilidade de vosso próximo, e termina no limite em que não desejaríeis vê-lo transposto em relação a vós mesmos. "

(O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 17, ITEM 7)

Fatos como esse que narrei acontecem com freqüência na sociedade terrena. Todavia, como a luz — que vara as trevas mais espessas levando a claridade a todos os lugares, mesmo aos mais recônditos -, a verdade acaba sempre surgindo para dar a devida dimensão da realidade. Felizmente, agora, relatos emergem de todos os lados abordando o assunto, sendo de extrema importância que isso ocorra.

A Igreja Romana, na atualidade, passa por inúmeras provações, amargas e difíceis de digerir. Os meios de comunicação em todo o mundo têm divulgado sucessivos escândalos envolvendo padres pedófilos e crianças desprotegidas. Diante da avalanche de novos casos, não há mais como ocultar essas mazelas. Por longo tempo, a Igreja fez vista grossa para os escândalos que ocorriam em seu seio, dentro de paróquias, de seminários e conventos. Conhecia o problema, porém evitava falar no assunto. Mais do que isso: escondia a verdade, mantendo a impunidade dos seus sacerdotes, não raro à custa de grandes somas com que comprava o silêncio das vítimas inocentes.

Talvez muitos estranhem a colocação neste livro de fatos de tal natureza. Contudo, julgo necessário que assim seja. Basta de enfiarmos a cabeça num buraco, como o avestruz tentando se esconder, achando que estamos protegidos. A verdade cedo ou tarde aparece.

Por muito tempo, a Igreja se recusou a falar no assunto, mantendo sigilo sobre os atos hediondos que aconteciam sob suas asas e gerados pela tolerância que sempre demonstrou no correr dos séculos para com aqueles que os praticavam, o que a tornou conivente com tais delitos.

É a própria instituição multissecular que está em jogo e que precisa discutir suas regras em face dos resultados negativos que vem colhendo, conseqüência da fragilidade de seus postulados.

E não se pense em culpar apenas os sacerdotes por esses crimes e violências que ocorrem à sombra das sacristias e sob a vista das imagens sacras. Não, certamente. Eles também são vítimas da instituição. São vítimas e algozes. Na verdade, toda uma série de fatores entra na composição da ocorrência desses abusos.

Para que eu visualizasse a verdadeira dimensão do problema, foram necessárias décadas. Eu não conseguia perdoar a violência que fora cometida contra mim; fiquei traumatizado. E esse choque me abalou profundamente, desencadeando perturbações emocionais e orgânicas durante a existência. Na espiritualidade, felizmente, recebi amparo e orientação de muitos instrutores. Além disso, freqüentei inúmeros cursos, o que me permitiu conhecer as verdades eternas, que se desvendavam diante de meus olhos e me foram de capital importância. Esses ensinamentos já faziam parte da cultura de civilizações mais antigas da Terra, mas somente foram estudados e analisados em profundidade com o advento da Doutrina Espírita, pelo trabalho notável de Allan Kardec, que codificou as orientações dos espíritos. E, sem dúvida, o estudo metódico do Evangelho de Jesus, que nos faz ver o semelhante como um irmão necessitado de entendimento e ajuda.

Freqüentei o Centro de Estudos da Individualidade, onde participei de reuniões evangélico-doutrinárias, em que eram analisados temas de conteúdo moral. Elas funcionavam como uma terapia em grupo, pois percebíamos nossas falhas morais em sessões de auto-analise e aprendíamos com a troca de experiências de cada participante, conforme já relatou o César Augusto Melero1.

Hoje acredito poder dizer que não mais guardo mágoas pelo que me fizeram, pelo menos conscientemente. Compreendo que nós, espíritos, não somos diferentes uns dos outros, criados por Deus da mesma maneira e sujeitos a erros e acertos. Que, ao longo do tempo, podemos ter cometido faltas muito mais graves do que aquelas de que acusamos nosso irmão.

Desse modo, com a visão ampliada e clarificada pelo Evangelho do Cristo, esforcei-me por ver naquele sacerdote alguém necessitado de compreensão e ajuda. Movido de compaixão pelas suas fraquezas, dispus-me a ampará-lo. Ainda não me deparei com ele do lado de cá da vida, mas sei que precisarei fazê-lo, e os amigos espirituais encontrarão uma ocasião adequada. Tenho notícias de que ele, desencarnado, sofre e expurga seus erros em região sombria do umbral, sem condições ainda de receber socorro.

O conhecimento da Doutrina Espírita nos leva a refletir sobre o tema de forma bem mais profunda. Não ignoramos que todos somos espíritos criados para a perfeição, ora estagiando em níveis diferentes de evolução. Que, através do tempo, progredimos sempre, adquirindo conhecimentos e valores morais que nos tornarão um ser melhor no futuro. Não ignoramos que, ao renascer, fomos beneficiados pelo esquecimento do passado, trazendo conosco as conquistas e os fracassos, as tendências instintivas e a voz da consciência que nos alerta diante de possíveis erros. Que, com o livre-arbítrio, conquista que nos permite o direito de escolha, podemos decidir como agir, mas ficaremos condicionados às conseqüências que gerarmos com nosso comportamento, em observância à Lei de Causa e Efeito que vigora na obra da criação. Assim, trazemos como bagagem o nosso acervo individual: tudo de bom e de ruim que já realizamos, e que permanece arquivado em camadas profundas da memória integral.

Dessa forma, os encarnados devem entender que, quando os pais recebem uma criança no lar, não sabem quem é esse espírito, onde e por que fracassou, quais suas potencialidades e imperfeições. Ao espírito é concedido um novo corpo, pequeno e indefeso, que representa sua possibilidade de construir uma nova vida, progredir e realizar o melhor.

 

1 De volta ao passado, de César Augusto Melero, psicografia de Célia Xavier de Camargo, Editora Boa Nova.

Esse espírito, porém, não é um bebê, como geralmente se pensa. Apenas o é o corpo material, dependente e frágil, e Deus assim o permite para que ele possa despertar o amor no coração das pessoas, em virtude dos cuidados e da proteção de que necessita para o seu desenvolvimento. Na realidade, ali está um espírito antigo, que já teve uma infinidade de existências e que volta à carne trazendo seus vícios e defeitos, virtudes, inclinações, valores ético-morais conquistados.

O sexo, criado por Deus para servir à reprodução, é lei natural e fundamento da vida, atendendo ao impositivo da evolução dos seres, das raças, da própria humanidade, sendo imprescindível ao progresso dos espíritos. Através do tempo, o ser imortal tem desenvolvido qualidades de masculinidade ou feminilidade, de acordo com as características mais acentuadamente ativas ou passivas que conserve. Desse modo, todos os espíritos poderão encarnar na condição de homem ou de mulher. Condenável, portanto, não é o sexo, mas o abuso, o excesso e o aviltamento das energias sexuais pelas criaturas.

Numa nova existência, acredita-se que o sexo só irá despertar na fase da puberdade. Todavia, o espírito renasce com todas as condições para que os impulsos sexuais se manifestem mais tarde, jamais perdendo a sexualidade mesmo em criança; que, na puberdade, irá apenas acentuar-se uma tendência que já existe no espírito, em decorrência dos hormônios que são liberados, quando o corpo físico se desenvolve e se prepara para a vida adulta e para exercer funções fundamentais com vistas à conservação e perpetuação da espécie.

Então, o espírito não está iniciando sua vida sexual; está retomando a sexualidade que trouxe de outras experiências. Dessa forma, deve-se ter o maior cuidado com a educação da criança, com a orientação que os pais passam a ela, especialmente as de caráter ético-moral-religioso, que lhe irão servir de balizas no futuro, direcionando seu comportamento.22

A fase infantil é a oportunidade dos pais de transmitirem bons conceitos para seus filhos, e é imprescindível que assim o façam enquanto há tempo, porque, depois de crescidos, será mais difícil, não impossível, uma vez que o espírito aprende sempre, mas os obstáculos serão muito maiores, visto que o espírito terá retomado sua verdadeira identidade.

Enfocando o assunto, necessário entendermos que a homossexualidade, hoje também conhecida por transexualidade, representa a tendência da criatura para a comunhão afetiva com uma outra criatura do mesmo sexo. A psicologia, em bases materialistas, não encontra explicação fundamental para tais ocorrências, que são absolutamente compreensíveis sob a ótica da reencarnação.

 

2 Desafios da educação, de Camilo, psicografia de José Raul Teixeira, pág. 51, Editora Frater.

É necessário esclarecer também que homossexualidade e homossexualismo são diferentes. O indivíduo pode ter tendências homossexuais, isto é, ter afinidade e/ou atração por pessoas do mesmo sexo, e não ser homossexual. Em outras palavras, não se dá à prática do homossexualismo, o que equivale a não ter comportamento homossexual.

Nesses casos não incluímos aqueles espíritos que, em virtude da necessidade de realizar uma missão em área específica, por ocasião do planejamento reencarnatório, pedem para voltar à carne com caracteres sexuais diferentes dos da encarnação anterior, renunciando aos mais belos e íntimos sentimentos.3

Trata-se de Espíritos com elevação moral e espiritual, o que lhes garante a disciplina das emoções e a responsabilidade no exercício das tarefas que escolheram executar a benefício da humanidade. Para isso, procuram se prevenir contra situações que poderiam facilitar-lhes condutas inadequadas e colocar em risco o objetivo reencarnatório.4

Imprescindível estabelecermos essas diferenças tendo em vista as vivências anteriores do ser espiritual.

A Doutrina Espírita nos alerta para a nossa realidade como espíritos, afirmando que fomos criados simples e ignorantes, mas com infinitas possibilidades de evolução, objetivo esse que alcançaremos mediante nosso próprio esforço e vontade perseverante; que a sede real do sexo se encontra radicada na estrutura complexa do ser espiritual, e não no veículo físico que lhe serve à manifestação5. Assim, o espírito não tem sexo da forma como se entende na Terra e considerando-se as características sexuais apenas pelos órgãos genésicos 6— uma vez que Deus não criou espírito-homem e espírito-mulher, mas apenas espíritos; que, dessa forma, os sexos só existem no organismo, sendo necessários à reprodução dos seres materiais; todavia, os espíritos não se reproduzem uns pelos outros, razão por que o sexo é inútil no mundo espiritual7; que não sabemos quais as tendências sexuais do espírito reencarnante, uma vez que as desenvolvem através do tempo, em virtude da constância em reencarnações neste ou naquele sexo, inclinações e afinidades essas que são predominantemente masculinas ou femininas, conforme as características mais acentuadamente ativas ou passivas que conservem. Existem espíritos que se sentem melhor renascendo como mulheres, outros como homens. Salvo em casos de inversão sexual gerada por disfunções orgânicas, quando o espírito reencarna para sofrer determinadas

3 "(•••) em corpos que não lhes correspondem aos mais recônditos sentimentos, posição solicitada por eles próprios, no intuito de operarem com mais segurança e valor, não só o acrisolamento moral de si mesmos, como também a execução de tarefas especializadas, através de estágios perigosos de solidão, em favor do campo social terrestre que se lhes vale da renúncia construtiva para acelerar o passo no entendimento da vida e no progresso espiritual." Ação e reação, de André Luiz, psicografia de Francisco Cândido Xavier, capítulo 15, pág. 209, FEB.

4 "Escolhem com isso viver temporariamente ocultos na armadura carnal, com que se garantem contra arrastamentos irreversíveis, no mundo afetivo, de maneira a perseverarem, sem maiores dificuldades, nos objetivos que abraçam." Vida e sexo, de Emmanuel, psicografia de Francisco Cândido Xavier, capítulo 21, pág. 92, FEB.

5 Evolução em Dois Mundos, de André Luiz, psicografia de Francisco Cândido Xavier, capítulo 18, pág. 138, FEB. 6 O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, questões 200 a 202, Petít Editora. 7 Revista Espírita de 1866, Allan Kardec, pp. 2 e 3. limitações, o que vai prevalecer em matéria de sexo serão suas tendências íntimas já desenvolvidas; que, em razão dessas vivências mais num determinado sexo, ao precisar mudar de polaridade sexual, encontre dificuldades para exteriorizar suas tendências.

Não raro, isso ocorre tanto no sexo masculino quanto no feminino, como conseqüência de abusos perpetrados contra o sexo oposto, quando tem necessidade o espírito de renascer com inversão sexual, o que se constitui numa grande expiação, servindo-lhe também de prova. Por conta disso, o ser espiritual passando da experiência masculina para a feminina ou vice-versa, ao envergar o veículo corpóreo, inevitavelmente irá demonstrar as características de masculinidade em que terá transitado durante vários séculos, apesar do corpo feminino que enverga no momento, o mesmo ocorrendo com o espírito feminino que passe a ocupar um corpo masculino. Esses casos de anomalias são claramente percebidos em mulheres que carregam um corpo másculo e agem como homens, e homens que possuem uma estrutura física mais delicada, com traços claramente feminis, o que lhes demonstra as inclinações, independente de manterem ou não relações sexuais.

Muitas vezes pode ocorrer de não existir inversão sexual, mas comportamento que redunda da influência do meio ou depois de experiências homossexuais em que a pessoa pode ficar condicionada àquele tipo de conduta.

Desse modo, pode iniciar-se um problema quando se colocam meninos de várias faixas etárias, com amadurecimento orgânico e psíquico diferenciado, em colégios internos e seminários para conviverem sob o mesmo teto. Não raro os maiores, com a libido exacerbada pelo início da fase de puberdade, quando modificações psicofísicas começam a ocorrer, os abusos vão acontecendo, geralmente contra os menores e mais fracos, sem o conhecimento das autoridades responsáveis pela instituição e dos vigilantes, que ignoram o que se passa na calada da noite.

Prossegue o problema quando o rapaz é levado a ordenar-se ainda muito jovem e sem consciência do que realmente deseja, visto que por muitos anos foi mantido entre quatro paredes sem participar da sociedade, o que limita sua capacidade de análise e decisão.

A obrigatoriedade do celibato para os sacerdotes é uma regra injusta, artificial e que tem causado imensos males aos padres e às comunidades em que vivem. O mesmo acontece com as freiras, que sofrem iguais restrições.

Certamente importante considerar aqui a responsabilidade das pessoas que chegam a praticar tais abusos, sem dúvida por inferioridade do espírito. Os que se permitem tais condutas demonstram que são criaturas com dificuldades na área sexual e que renasceram para tentar corrigir esse desajuste. Não raro, porém, influenciados pelo meio, podem voltar a errar.

Provavelmente trata-se de uma expiação, que poderá até servir-lhes de prova, e tanto maior a dificuldade que encontre, maior mérito terá aquele que conseguir vencer suas tendências negativas. E não estamos nos referindo aqui apenas às pessoas de comportamento homossexual, e sim do heterossexual, cuja prática de atos pedófilos e homossexuais fica facilitada pelo meio e pelas condições que a Igreja estabelece.

Entregar os filhos a Deus...! Não deveria ser outro o motivo que levava famílias a encaminharem seus jovens para os seminários, desejando vê-los seguindo a carreira religiosa. Antigamente, duas situações básicas se apresentavam ao rapaz: ou servia à Igreja, ou ao Exército. Hoje isso já não ocorre. Grande parte dos jovens que opta pelo seminário, porém, o faz por apresentar propensão para os estudos e não ter recursos, utilizando-se das excelentes condições que a Igreja oferece para poder estudar. Uma pequena parcela deles tem real vocação para o sacerdócio, objetiva servir a Deus na pessoa do próximo e sonha orientar e consolar o rebanho que lhe for destinado. São religiosos que, não importa a tentação, se manterão firmes em seus propósitos, não se deixando levar por tendências negativas, portando-se sempre como dignos representantes do clero.

E não pensem que esses problemas ocorram somente com indivíduos do sexo masculino. Muitas moças também, por vontade própria ou não, acabam internadas em colégios ou conventos. Para elas, antigamente, a situação era ainda pior, não lhes restando senão a submissão: sem direitos, sem poder estudar ou decidir sobre a própria vida, livravam-se da autoridade dos pais passando para a do marido, pelo casamento, ou eram encaminhadas aos conventos para servir a Deus.

A realidade é que os abusos são igualmente praticados em todos os lugares, tanto nos redutos masculinos quanto nos femininos, já que o ser humano é o mesmo onde quer que esteja e carregará sempre suas tendências e dificuldades.

A convivência em claustro tem gerado forte tendência para o homossexualismo, problema que a Igreja evita olhar de frente com medo de encará-lo.

Atualmente o Vaticano vem sofrendo campanha cerrada contra padres pedófilos, e a imprensa de todo o mundo faz denúncias nesse sentido, revelando casos e apontando culpados pelo abuso perpetrado contra crianças. E a sociedade, horrorizada, se movimenta e exige uma postura firme das autoridades para reprimir e evitar esse tipo de crime. Também os pais deveriam ter mais cuidado com seus filhos, não confiando cegamente nos indivíduos que trabalham com crianças e cuidam delas, especialmente aqueles a quem está afeta a educação religiosa.

Muito já se falou sobre os problemas gerados pela imposição do celibato religioso. Quantos males causou à sociedade e às pessoas a obrigatoriedade da confissão? É possível imaginar a extensão dos danos quando se colocam padres carentes e atormentados por secretos desejos diante de mulheres jovens, bonitas e igualmente carentes, com problemas conjugais e emocionais, obrigadas a relatarem seus dramas em minúcias, criando vínculos afetivos e propiciando atração sexual? Quantos lares foram desfeitos, famílias destroçadas, separações conjugais ocorreram através do tempo por relacionamentos espúrios nascidos no confessionário? Quantos abortos cometidos, na impossibilidade de se tornar pública uma relação? Quantas crianças cresceram à sombra das sacristias, ao lado de pais— sacerdotes, sem conhecerem sua verdadeira filiação?

Dentre as páginas mais tristes e escabrosas da História, está este capítulo da Igreja, com os problemas gerados pelo celibato sacerdotal e os crimes cometidos dentro de conventos e seminários para esconder relacionamentos entre padres e freiras, e entre padres e paroquianas.

Não nos cabe aqui o levantamento desses dados, que já foram divulgados à saciedade por quantos se interessaram em estudar o assunto.

Todos esses abusos só terão fim quando a Igreja modificar suas leis, tornando-as mais humanas e mais justas, e quando resolver enfrentar os problemas com transparência e lisura, deixando de acobertar erros e crimes hediondos para manter as aparências.

Sobretudo, tais violências desaparecerão quando o homem ascender-se moralmente, transformando-se à luz do Evangelho redentor, e vivenciar o mandamento cristão de fazer ao próximo o que gostaria que os outros lhe fizessem. Quando, direcionado pelo amor, o ser humano passar a viver fraternalmente com todos os seus irmãos.

A luz da Doutrina Espírita, que se alteia como libertadora de consciências, compreende-se perfeitamente que as opções em matéria de sexo são da responsabilidade do espírito e diz respeito às suas escolhas afetivas, tendo como parâmetro o livre-arbítrio que deve ser respeitado.

Tratando de assunto tão polêmico na atualidade, não nos cabe aqui emitir julgamentos quanto às escolhas de ninguém em relação a comportamentos sexuais, sabendo que cada um estagiará em níveis de entendimento e amadurecimento que já conseguiu alcançar no seu trajeto para a perfeição.

Hoje, facilitado pelo fenômeno da globalização, temos acompanhado a saga de milhões de pessoas em experiências desse gênero e que merecem atenção e respeito, consideração e ajuda, em igualdade de condições com a grande maioria de criaturas da sociedade terrena que é constituída de heterossexuais, que nem por isso estão livres de problemas e dificuldades.

Com o tempo, a sociedade terrena entenderá que os conceitos de normalidade e de anormalidade carecem de substância, olhando-se apenas do ponto de vista da estrutura física, quando o que realmente importa é a dignidade humana que se alteia por meio do comportamento ético a favor do bem de toda a comunidade, e se degrada diante do mal que espalha, prejudicando a si próprio e a todos com quem convive.

Capítulo 3

Sementes de Erlan

"Bem-aventurados os que choram, pois que serão consolados."

JESUS (MATEUS, 4: 5)

A exortação de Jesus para que nos amemos uns aos outros é divino convite ao entendimento e à paz. Quando o ser humano consegue pensar nas outras pessoas e não apenas em si mesmo, deixando de lado o egoísmo, denota expressivo progresso, uma vez que o amor é sentimento que brota e lentamente se desenvolve no íntimo da criatura após longo trajeto ascensional.

Não raro, vemos exemplos de dedicação, renúncia e altruísmo em pessoas nas quais nunca suporíamos tal atitude. Contudo, dão-nos exemplos de rara beleza e de uma grandeza tocante.

Certa ocasião, era virtude de apelos provindos de uma colônia espiritual localizada no continente europeu, a qual pedia a colaboração de outras cidades espirituais na forma de envio de pessoal para trabalhar em favor das populações envolvidas com a guerra na Bósnia-Herzegovina, candidatei-me ao serviço.8

Pela experiência anterior e pelo conhecimento de idiomas ao qual me dedicara, fui aceito. Reuni-me ao contingente de Céu Azul, visto que outras pessoas atenderam ao chamado, e partimos após os necessários preparativos, inclusive um treinamento de emergência, uma vez que nenhum de nós tinha trabalhado em situação de guerra.

Não obstante alertados para o que iríamos encontrar, em palestras e por um farto material de imagens que mostrava os horrores do conflito, estávamos animados e estimulados pela oportunidade de servir que se nos deparava. Era um serviço em terras estranhas, diferente de quantos havíamos realizado, e isso nos entusiasmava. Ao chegarmos, porém, sofremos um duro impacto. Conquanto a veracidade e crueza das imagens que tínhamos visto antes, dos alertas que recebêramos de nossos superiores, a realidade superava em muito todas as expectativas.

Cenas de selvageria campeavam em todos os lugares. A dor, a morte, o desespero e a miséria eram companheiros inseparáveis daquela população que sofria toda sorte de necessidades: sem água, sem comida, sem agasalho, sem teto.

 

8 De volta ao passado, de César Augusto Melero, Editora Boa Nova.

O pior, entretanto, era a desesperança que víamos nos olhares tristes e melancólicos. Especialmente nas crianças, cujos olhos grandes, encimados por longas pestanas, se mantinham secos, já sem lágrimas para chorar em face do excesso da dor e das perdas sofridas.

A população civil, composta basicamente de mulheres, crianças, velhos e doentes, não tinha como se proteger, visto que os homens válidos tinham sido recrutados e estavam todos nas frentes de batalha.

Quando os inimigos chegavam — e me refiro a ambos os adversários; os dois lados eram igualmente cruéis —, torturavam e matavam com requintes de crueldade. Estupravam as mulheres, muitas delas jovenzinhas, ainda crianças, como se tivessem perdido todo o senso da realidade, e como se os valores que haviam cultivado até aquela época nada significassem.

O mais absurdo é que não eram criminosos à solta. Não. Eram pessoas comuns, amantes da paz e da ordem, religiosas, que tinham tido uma existência pacífica, ordeira, de trabalho, até então.

Mas o sentimento de ódio liberado pela guerra faz com que os seres humanos se modifiquem radicalmente. No afã de vencer o inimigo, usam a violência até como tática de combate, para despertar insegurança, minar a resistência e a disposição dos adversários, causando desânimo, angústia e dor. Contudo, não se dão conta de que as mesmas coisas podem estar acontecendo do lado oposto com suas mulheres, filhas, irmãs, namoradas.

As cenas eram tão fortes que precisávamos de todo o nosso equilíbrio para nos mantermos isentos. Nossa atividade principal era ajudar na retirada dos espíritos de combatentes mortos, para que não continuassem a guerrear, acirrando ainda mais os ânimos. Amparávamos também a população nas suas dificuldades, consolando, dando ânimo, esperança, instilando fé nos corações desvalidos.

Durante esse período, fiquei conhecendo um garoto de uns dez anos aproximadamente, e me liguei a ele, comovido com sua história, narrada por um dos nossos colegas de trabalho que estava havia mais tempo na região.

O garoto chamava-se Erlan. O pai estava na guerra, e a mãe sobrevivia como possível junto aos seis filhos. Erlan era o mais velho e se dedicava à mãe e aos irmãos com veneração. O pai, antes de partir, lhe dissera:

— Você é meu primogênito. Agora, meu filho, você é o homem da casa e tem o dever de proteger sua mãe e seus irmãos menores.

Erlan aceitara a incumbência, cumprindo à risca sua tarefa, com orgulho e coragem. No fundo, gostaria mesmo era de estar lutando ao lado do pai, como um homem, mas, em virtude da pouca idade, não podia. Assim, teve de ficar em casa e cumprir sua missão.

Certo dia, nosso grupo saiu para uma de nossas rondas. Éramos três: um francês, um angolano e eu. Passávamos por uma rua quando ouvimos choro convulsivo em uma das ruínas, justamente o lugar onde essa família estava abrigada. Imediatamente nos dirigimos ao local. Deparamo-nos com uma das mais tristes cenas que tive a oportunidade de presenciar: as seis crianças estavam ao redor do corpo da mãezinha, que tinha sido atingida por uma bala, e não resistira.

Chegamos a tempo de ver o espírito da mãe se desligando do veículo corpóreo, sem mais condições de sobrevivência.

Louis, o francês, era o chefe da equipe e sem demora acabou de cortar os últimos elos que mantinham o espírito preso ao organismo físico. Tobi, o angolano, e eu o auxiliamos na operação, ao mesmo tempo suplicando ajuda do Alto.

A mãe, recém-liberta, ignorando que já passara para o outro lado da vida, mas sentindo-se atingida, com as mãos tentava conter o sangue que se esvaía da ferida. Desesperada ao ver os filhinhos chorando, com dificuldade procurava tranqüilizar as crianças:

— Não chorem, não foi nada! Vou ficar boa para cuidar de vocês. Confiem em Deus! Erlan, meu filho, cuide de seus irmãos.

Os pequenos, porém, não podiam mais ouvi-la. Nós nos aproximamos, fazendo com que ela nos visse, e a convencemos de que precisava de socorro médico. Aceitando o tratamento, ela foi retirada do local e levada para um de nossos hospitais de emergência, para que não piorasse, com suas condições, a situação das crianças.

Erlan, entendendo sua responsabilidade diante dos irmãozinhos, enxugou as lágrimas e, abraçando-os, disse:

— Agora eu sou o chefe da família. Não deixarei que nada de mal lhes aconteça. Prometo.

Desse dia em diante, a vida dos garotos tornou-se pior, pois não mais tinham pai nem mãe que pudesse protegê-los. Erlan arrumou um lugar para ficar com os irmãos, visto que tinham sempre de mudar de esconderijo, e empenhava-se em suprir as necessidades da família, arranjando comida e água.

Passaram a viver escondidos num tipo de gruta que Erlan descobrira por acaso ao andar pela cidade à procura de algo que pudessem comer. Como fosse protegida do vento e da chuva, achou que era o local adequado às suas necessidades.

Certa manhã Erlan saiu com os irmãos para dar uma volta. Tudo estava tranqüilo. Desde a noite anterior, o barulho de explosões havia cessado e nenhum tiro se ouvia.

Estavam com fome e resolveram arriscar. Sempre encontravam algo nos bolsos dos soldados mortos, ou nas casas abandonadas pelos moradores.

Nisso, ao virar uma esquina, no meio dos escombros, Erlan viu um grupo de soldados inimigos que vinha em sentido contrário, ao encontro deles. Em silêncio, fez sinal aos irmãos para se esconderem. Todavia, o movimento já tinha sido detectado pelos soldados, que imediatamente reagiram, jogando uma granada de mão.

Atônitas, as crianças viram cair o objeto no meio delas e ficaram paradas, sem ação. Erlan virou-se e, vendo o perigo, não teve dúvidas: jogou-se, pegou a granada, evitando que estourasse no meio dos irmãozinhos, e correu para longe. Não teve tempo, porém, de largá-la. A granada estourou na sua mão.

Morreu bravamente. Seu gesto heróico foi um exemplo para todos nós.

Os inimigos se aproximaram de armas em punho, gritando:

— Alto! Não se mexam! Saiam com as mãos para cima.

Após alguma hesitação, os pequenos começaram a sair. Os soldados ficaram perplexos: eram apenas cinco crianças aterrorizadas e uma delas não tinha mais do que dois anos!

Ficaram olhando aqueles rostinhos sujos de fuligem, as roupas esfarrapadas, sem saber o que fazer. Perguntaram pela família e ouviram a história do maior deles, menino de oito anos e agora o chefe da família. Ficaram sabendo que os ferozes soldados que pensaram estar atacando eram seis crianças indefesas, e que o irmão mais velho havia se sacrificado heroicamente para salvar suas vidas.

Trocaram um olhar, como que se consultando sobre o que fazer. Todavia, nada poderia ser feito. A guerra era cruel e milhares de crianças estavam nas mesmas condições, sem família e sem lar. Em seguida, viraram as costas e foram embora.

Jamais esqueci Erlan, o garoto que conheci na Bósnia.

Ele foi atendido em um de nossos hospitais itinerantes e fiz questão de acompanhar-lhe a recuperação.

Naturalmente, foi um longo período, em que tivemos oportunidade de conversar muitas vezes. A princípio, ele ficou espantado ao perceber o conhecimento que eu tinha da sua vida e da sua família. Depois, mais perplexo ainda, quando lhe contei que o conhecia havia meses e que sempre procurávamos ajudá-los.

Com olhos arregalados, ele exclamou:

— Vocês, anjos da guarda! Paulo, meu anjo da guarda!

— Bem, nem tanto, Erlan. Apenas amigos — tentei explicar.

Em nossos encontros, procurava levar-lhe notícias dos irmãos, e ele mostrava-se satisfeito e agradecido, conquanto um pouco triste por não poder estar ao lado deles. Todavia, inteligente e desejoso de aprender, em pouco tempo entendeu que era preciso recuperar-se para ter condições de amparar os irmãozinhos. Quanto à mãe, ficou contente de saber que ela tinha sido encaminhada para um local de atendimento na espiritualidade, e que logo poderiam se encontrar.

As histórias de guerra são sempre tristes e raramente têm um final feliz.

Neste caso, os garotos sobreviveram, e, depois que os conflitos terminaram, foram levados para um abrigo de atendimento a crianças desamparadas, visto que nenhum parente foi localizado. Nessa instituição, apesar da precariedade, eles têm a felicidade de crescer juntos, como uma família, cada vez mais unida.

Continuar: parte 2 de 3