Só o Amor Liberta

Célia Xavier de Camargo · Capítulo 1 de 4 · parte 2/3

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Só o Amor Liberta

Seção 2

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Este foi dos exemplos mais belos que tive a oportunidade de ver. Erlan demonstrou generosidade e renúncia pela vida ao proteger seus irmãos. Sua recuperação foi rápida, porque dotado de bom coração e nobres princípios. Adquirindo condições, recebeu dos orientadores a bênção de continuar amparando os irmãos.

Juntamente com a mãe, participa de equipe que executa dignificante trabalho na ajuda aos encarnados com problemas gerados pela guerra, e assim tem a oportunidade de permanecer perto dos irmãos e do pai que, atingido por uma explosão, desmemoriado e em estado gravíssimo, foi levado para um hospital. Permanece encarnado, porém sem condições de procurar e ajudar os filhos.

Erlan denota grandeza de alma e profundo amor, sentimento que ele nutre por sua família.

Da última vez que o encontrei, antes de retornar para Céu Azul, conversamos longamente. Ao nos despedirmos, falou-me de seus propósitos: quer trabalhar pela paz para evitar que irmãos se destruam barbaramente, como na guerra. Trabalhará como desencarnado e, mais tarde, quando estiver preparado, pretende reencarnar no seio do seu povo para plantar sementes de paz e de luz, direcionando os corações para o exercício da fraternidade e da solidariedade universais.

Capítulo 4

Malefícios da guerra

"Qual é a causa que leva o homem a guerra?" "Predominância da natureza selvagem sobre a espiritual e satisfação das paixões. No estado de barbárie, os povos conhecem apenas o direito do mais forte; é por isso que a guerra é para eles um estado normal. Contudo, à medida que o homem progride, ela se torna menos freqüente, porque evita as suas causas, e quando é inevitável sabe aliar à sua ação o sentimento de humanidade."

(O LIVRO DOS ESPÍRITOS, ALLAN KARDEC, QUESTÃO 742)

A história de Erlan ilustra bem os malefícios da guerra. Na verdade, as pessoas que habitam países em que não existem conflitos armados, que estão legalmente em estado de paz, dificilmente poderão entender o que seja viver no meio de combate, destruição e morte. Seria necessário estar lá, viver e sofrer com essas populações, para se ter uma idéia dos horrores da guerra. Manter-se em estado de tensão física, mental e emocional, retesado como um arco cuja flecha deva ser atirada a qualquer momento, permanentemente em guarda, inseguro e angustiado, estremecendo de medo a cada ruído por menor que seja; sempre dormir preocupado, acordar durante a noite com o coração disparado, ao ouvir uma explosão, os clarões das bombas, os tiros soando bem próximo. Difícil sentir alívio quando o silêncio se faz, e poder respirar mais tranqüilamente.

Mas não é só isso. Além do medo e da insegurança, as populações convivem com a mais absoluta miséria. Muitas vezes, não morrem por um ferimento à bala, mas de fome.

De todas as dores, a moral é a que mais atormenta e desencoraja o ser humano. Como é difícil para o homem, quando distante, não saber o que está acontecendo com os entes queridos, não poder defendê-los; e quando perto, presenciar o desespero de um familiar ou amigo sendo abatido por uma rajada de metralhadora; ver uma filha, esposa, mãe, irmã ou noiva, aos gritos de horror, sendo estuprada por soldados violentos e de mentes ensandecidas, sem poder fazer nada para ajudar, casos em que se prefere a morte do ente querido para livrá-lo dos sofrimentos e das humilhações.

Isso acontece, na atualidade, em diversos pontos do globo.

E por quê? Como pólo central de onde partem e para onde convergem essas questões, temos sempre o egoísmo, o orgulho e a ambição dos homens, que lutam para defender seus interesses, sejam raciais, territoriais ou econômicos. A luta sempre acontece porque uns se consideram injustiçados e, outros, detentores de todo o direito.

Estabelece-se aí, sem dúvida, um contra-senso, pois todos esses absurdos irrompem em sociedades que, no fundo, desejam a paz.

Mas o que é paz?

É poder viver num mundo sem violências ou perturbações sociais, onde exista concórdia e entendimento entre as pessoas e entre os inúmeros grupos da sociedade, como conseqüência da tranqüilidade da alma, da ausência de conflitos íntimos do homem.

Dessa forma, três situações básicas se deparam na relação entre os seres humanos: 1. problemas sociais, públicos; 2. problemas grupais ou com outras pessoas; 3. problemas individuais, de foro íntimo.

Desde que o homem existe sobre a crosta planetária, a defesa dos seus interesses sempre foi primordial. No começo, para preservar-se dos animais selvagens, da natureza inclemente e de outros seres humanos hostis. A existência era simples, despojada. À medida que progride, o homem sente-se compelido a viver em grupo, para uma mais eficiente defesa.

Com a vida grupai, surge a necessidade de serem criadas normas para defender os interesses de cada um em particular e do grupo como um todo. Aparecem as primeiras regras para uma convivência pacífica e harmônica, possibilitando grande salto para o progresso social.

Enquanto os grupamentos se desenvolvem, as relações se complicam. Das tribos surgem as nações, depois as sociedades organizadas em Estados; os conflitos, porém, jamais cessam, aumentando sempre em intensidade, com a progressiva complexidade das sociedades até atingir seu clímax nas civilizações atuais. Alguns países chegam a ser habitados por bilhões de pessoas, com cidades de vida tão complexa e sofisticada que se configuram em verdadeiras megalópoles. Outros em exíguo território.

Neste ponto, aos interesses da nação juntam-se os interesses de grupos econômicos, de cidadãos que ganham enormes fortunas, não raro incentivando os conflitos armados, como guerrilhas, revoluções, guerras civis ou guerras entre países, para auferirem exorbitantes lucros com a venda de material bélico, que fabricam e estocam, mancomunados com políticos e autoridades corruptas.

Só falamos até agora dos prejuízos materiais. E os danos causados ao homem como ser integral? Aos males tipicamente orgânicos somam-se outros de ordem emocional, mental, espiritual, que o atingem causando doenças psicossomáticas, neuroses, psicoses e todo tipo de loucura. Os povos envolvidos na guerra, inclusive os próprios soldados, são incapazes de digerir as cenas violentas que deparam. Se, por um lado, se vêem obrigados a matar outras criaturas iguais a eles, por outro, vivem o temor do que encontrarão ao virar uma esquina e a incerteza do futuro, tudo isso gerando desequilíbrio íntimo devastador, que os deixa enlouquecidos. Também as emanações pútridas de corpos de animais e de seres humanos em decomposição, denominadas miasmas, causam terrível mal-estar e doenças infecto-contagiosas gravíssimas, visto que a freqüência e a continuidade dos combates nem sempre permitem que as pessoas neles envolvidas enterrem os mortos.

Existe, porém, outro tipo de prejuízo de valor incalculável: o que se refere à contaminação ambiental por miasmas psíquicos.

Liberadas pelos encarnados envolvidos na luta, as emissões mentais de ordem inferior, como sentimentos de revolta, ódio, desejo de vingança, crueldade, geram miasmas — larvas psíquicas contagiosas de alto poder de destruição —, que atingem rapidamente populações inteiras. Acrescente-se a isso a participação dos desencarnados em combate, os quais, pelas suas condições, continuam guerreando e ajudando os que ficaram. Com isso, tem-se farto e explosivo material que, se não for retirado das frentes de batalha, só irá piorar o ambiente, produzindo por sua influência maléfica verdadeiras epidemias.

Em vista disso, formam-se grandes nuvens fluídicas de material psíquico inferior que se aglutinam sobre as regiões em conflito. Como existem inúmeros focos de combate na atualidade, notadamente no Oriente Médio, na África, na Europa e na América, essas nuvens caminham pelo espaço e já tomam grandes territórios, uma vez que, pelo processo de sintonia, são atraídas pelos sentimentos inferiores das populações. No caso específico dos Estados Unidos da América e de sua vinculação em recentes guerras, conquanto não haja combate dentro de seu território, o povo americano acaba envolvido, ficando em sintonia com as emanações maléficas.

Não percebem como os conflitos se alastram? Quantas guerras aconteceram no pequeno espaço de alguns anos — em regiões asiáticas -, só para falarmos das mais recentes? E as do continente africano?

Imprescindível trabalharmos no sentido de não permitir a entrada dessas nuvens deletérias em território brasileiro, evitando-se assim males maiores.

Ainda bem que o modo de ser do brasileiro é diferente. As populações são mais humanas, fraternas, solidárias e religiosas, tornando o ambiente mais preservado. Não quero dizer que inexiste o mal dentro de nossas fronteiras; existe sim, e muito. Seria preciso ter uma venda nos olhos para não enxergá-lo. Felizmente, a atmosfera fluídica é afetada de maneira positiva pelo sentimento de uma parte da população que se dedica ao bem e cujos pensamentos são de ajuda ao semelhante, de doação em serviços comunitários, de voluntariado na assistência social, o que produz, na média, um tônus vibratório especialíssimo e mais elevado.

Parece que estou sendo condescendente demais com o nosso povo? Afinal, muitos acham que este país não tem jeito, que só existem corruptos, criminosos, traficantes. Que a violência existe em todos os níveis da sociedade e que não se pode sair à rua nas grandes cidades sem temer um assalto ou um acidente.

Tudo isso acontece, sim. Morrem muitas pessoas no trânsito e vítimas de assassinato tanto quanto numa guerra. Contudo, a situação é diferente. Não existe aquele clima contínuo de pânico e insegurança que se experimenta no meio de uma região de combate. Aqui no Brasil, de modo geral, as pessoas vivem normalmente, têm seu emprego, sua família, saem para passear, vão à praia, comem e dormem sem escutar barulho de bombas o tempo inteiro. As cidades geralmente são tranqüilas, limpas; as casas bem construídas, que oferecem segurança, não irão desabar com uma explosão; as crianças vão à escola, passeiam, brincam. Nas regiões de conflitos, só se conhece destruição e morte; as crianças vivem assustadas, não vão à escola, e, se brincam, é com armas de verdade, artefatos que matam e destroem as esperanças de uma vida melhor e mais feliz.

Por tudo isso, nós, da espiritualidade, pensamos de forma diferente. A verdade é que, se uma parcela da população pensa no mal, envolvendo-se com drogas, criminalidade, corrupção e malandragem, uma grande parte é constituída de pessoas ordeiras, amantes da paz, que trabalham muito, se esforçam e desejam o melhor para si e para os outros.

O sol brilha no céu, as árvores se enchem de flores na primavera, os animais domésticos correm satisfeitos, os pássaros voam pelo espaço com seus gorjeios, as crianças brincam nas calçadas, os pais vão trabalhar.

Só a felicidade de olhar para cima e ver o céu limpo, as cores do entardecer quando o sol se põe; as estrelas que brilham na imensidão, convidando a elevar o pensamento a Deus... é uma grande bênção.

Não, nada disso existe num país em conflito, porque o céu está sempre carregado de fumaça. Não existe perfume de flores na primavera, só o cheiro de enxofre, de pólvora, de queimada.

O grande público só enxerga aquilo que a mídia deseja que veja, ou seja, o pior: desastres, tragédias, crimes, corrupções. Contudo, examinando a vida nas cidades, nos bairros, o que vemos?

Uma população constituída de famílias que trabalham muito para sobreviver, de crianças que freqüentam escolas, de jovens que estudam ou trabalham, não raro fazendo as duas coisas ao mesmo tempo.

Como podemos pensar que o mal está vencendo? Basta ter "olhos de ver e ouvidos de ouvir", analisando tudo o que nos cerca, para termos a certeza de que o bem está vitorioso e que o amor é a resposta para nossos problemas.

Certamente o ser humano está longe da perfeição. Embora venha, através do tempo, progredindo paulatinamente e acrescentando valores morais às suas conquistas, a caminho da felicidade, não conseguiu ainda vencer os vícios e defeitos que lhe atestam a condição de espírito em evolução.

A Terra é um planeta de provas e expiações em final de ciclo, devendo transformar-se lentamente em mundo de regeneração, o que representa importante etapa evolutiva. E essa mudança de nível é patenteada pela média do progresso moral e intelectual da civilização.

As criaturas que resistirem a essa transformação, imprescindível ao novo estágio terrestre, prosseguindo no mal, chafurdando-se na lama da criminalidade e nos interesses pessoais e egoísticos, não poderão mais permanecer neste planeta, sendo alijadas para mundos de categoria inferior compatíveis com a faixa vibratória delas.

O saneamento já começou e de forma tão natural que nem se percebe. Um grande número de espíritos rebeldes, entre eles criminosos de alta periculosidade para a sociedade terrena que vierem a desencarnar, ou que já se encontram no Além, não poderão mais voltar ao planeta, sendo atraídos magneticamente para outros mundos.

"Bem-aventurados os que são brandos, porque possuirão a Terra. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus". 9 Em face dessas afirmações do Cristo, mas sem o conhecimento da lei das vidas sucessivas ou reencarnação, impossível nos seria entender seu verdadeiro significado. Com a chave que as múltiplas existências propiciam, torna-se fácil a compreensão, visto que ninguém poderia transformar-se em brando e pacífico no exíguo espaço de uma única existência, deixando de lado a agressividade e a violência.

Aí entra outro problema que o ser humano enfrenta e ao qual já me referi anteriormente: as dificuldades dele para consigo mesmo e para com os semelhantes. O mundo íntimo é complexo; renasce o espírito trazendo a bagagem que conquistou em sua trajetória ao longo do tempo. Traz vitórias e fracassos clamorosos, construiu relacionamentos de afetos e desafetos, plantou o bem e o mal. Na verdade, errou bastante, prejudicando outras criaturas, e, no seu retorno ao mundo material, Deus lhe concede abençoada oportunidade de aprendizado, para refazer seus passos, reparar os danos causados a outrem e a si mesmo. Ao deixar o corpo físico, estará mais amadurecido e terá galgado mais um degrau na escala evolutiva. Daí a necessidade de buscar sempre o aprimoramento íntimo, crescendo moralmente à medida que reduz as próprias imperfeições.

Devemos aprender a nos relacionar de maneira pacífica e harmoniosa com outros seres, lembrando-nos a cada momento de fazer ao próximo o que gostaríamos que ele nos fizesse, conforme ensinou Jesus. E de desenvolver o amor em suas múltiplas facetas, respeitando o semelhante, bem como toda expressão viva em que a natureza se manifesta.

Por essa razão é que só de modo muito lento o progresso moral se instala e se consolida no íntimo das criaturas, diferentemente do material, do científico e do tecnológico, que crescem bem mais rápido, porque a eles o ser humano tem dado prioridade através do tempo.

Mediante as múltiplas experiências, o homem vai despertando a consciência, exercitando a aprendizagem, desenvolvendo os sentimentos, amadurecendo física, moral e espiritualmente, e preparando um futuro melhor e mais feliz, para si e para toda a humanidade.

 

9 Mateus 5: 5 e 9.

Quando esse tempo chegar, aí, sim, teremos o merecimento de habitar um planeta onde exista liberdade, igualdade, fraternidade e paz para todos. Um planeta onde os homens vivenciem a lei de amor, justiça e caridade.

Capitulo 5

Decisão filial

"Se há males dos quais o homem é a principal causa nesta vida, há outros que, pelo menos na aparência, lhe são completamente estranhos e parecem atingi-lo como que por fatalidade. "

(O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 5, ITEM 6)

Sentada ao lado da janela, nas mãos uma revista aberta, Adelaide pensa. Olhos fixos ao longe, não vê o belo céu azul nem sente o ar fresco que entra quarto adentro. Alheia a tudo, também não ouve o burburinho da rua, o trânsito intenso àquela hora do dia.

Pela tela da memória, passam-lhe imagens de seis meses atrás, levando-a a recordar-se de como tudo tinha começado...

No confortável quarto de hospital, o leito está vazio. Nesse momento, uma atendente entra e Adelaide pergunta:

— Os exames ainda demoram?

— Não. Estão quase terminando. Logo irão trazer o paciente para o quarto — responde a moça, ajeitando rapidamente os lençóis.

A atendente sai e Adelaide volta seus olhos para a ampla janela, de onde descortina o belo dia de sol, o céu sem nuvens e o jardim do hospital. Cinco minutos depois, a porta se abre e dois enfermeiros entram empurrando uma maça. Com a agilidade daqueles que estão familiarizados com a tarefa, passam o enfermo para o leito, cobrem-no com o lençol e lhe ajeitam o travesseiro. Adelaide aproxima-se do doente, que geme baixinho.

— Como está, papai? Sente dor?

O paciente responde com uma careta.

— Quer tomar um analgésico?

— Agora não, minha filha. Mais tarde.

— Acho que já pode se alimentar, papai. O que deseja?

O doente balança a cabeça negativamente. A moça insiste:

— Papai, o senhor está fraco. Desde ontem está de jejum. Precisa se alimentar. Um chá, talvez?

— Não, filha. Quero apenas descansar. Estou exausto.

Ela entendeu. Não insistiu. Ele queria sossego. Alisou os lençóis delicadamente e concordou:

— Está bem, papai. Descanse. Está precisando mesmo dormir um pouco. Se precisar de algo, estarei aqui a seu lado.

Voltou para a cadeira perto da janela, observando o pai, que fechara os olhos tentando dormir. Achou-o muito pálido, emagrecido.

O doente era um homem de sessenta e oito anos de idade, forte e resistente, que até o último ano nunca apresentara problemas de saúde. De repente, passou a ter alguns sintomas inquietantes que os médicos não conseguiam diagnosticar. A circulação estava alterada e a pressão, instável; o eletrocardiograma acusava também problema cardíaco. Tinha desmaios, e, muitas vezes, Adelaide o encontrara caído no chão, desacordado.

Com o passar do tempo, as coisas foram piorando e agora os médicos estudavam a possibilidade de fazer uma cirurgia, desde que o estado do paciente permitisse.

Mais tarde, o médico entrou no quarto para a visita habitual. Adelaide abriu a boca para falar, mas antes que lhe perguntasse, ele adiantou-se, informando ao paciente:

— João, os exames mostram que suas condições orgânicas no momento são boas, estáveis, e achamos que é a ocasião mais adequada para a cirurgia. O que acha?

O enfermo, confortavelmente recostado nos travesseiros tomando uma xícara de chá, respondeu com voz fraca:

— Você é meu amigo, Monteiro, e mais do que ninguém sabe como me sinto, o que estou passando. Se você acha que essa é a solução, eu aceito.

Adelaide, de pé ao lado do leito, questionou preocupada:

— Meu pai ficará curado, doutor Monteiro? Quais são suas chances? Correrá perigo?

— Sua preocupação é legítima, Adelaide, porém nada posso garantir. Toda cirurgia envolve riscos, e a do seu pai é uma cirurgia extensa e de gravidade. O que posso lhe assegurar é que ele tem chances de uma existência mais normal se for operado.

— E se não for?...

— Lamento — murmurou o médico com expressão grave. Assustada, Adelaide virou-se para o pai com os olhos úmidos, apertando-lhe a mão. Com ternura, João fitou a moça a seu lado, afirmando com voz embargada:

— Não se preocupe, minha querida, confie em Deus; tudo correrá bem.

E, virando a cabeça, olhou para o médico, que esperava uma decisão:

— Monteiro, estou pronto. Confio em você.

— Ótimo. Agradeço-lhe a confiança, João. Você estará sob os meus cuidados, como também de toda uma equipe de médicos, os melhores desta cidade. Comeu alguma coisa, João?

— Não, doutor. Estava começando a tomar este chá por insistência minha — respondeu a filha.

— Bem, como ficou de dieta durante todo o dia, em virtude dos exames, não há problema. Pois então, João, saboreie bem o seu chá. É só o que terá por hoje. Amanhã cedo virão prepará-lo e conduzi-lo à sala de cirurgias. Durma bem.

O médico saiu e João acabou de tomar o chá. Ambos permaneceram calados.

Aquela noite, Adelaide não conseguiu dormir. Na manhã seguinte, João foi levado para o centro cirúrgico. Durante muitas horas, ela aguardou notícias do pai. Pelo meio da tarde, o cirurgião entrou no quarto informando que tudo correra bem, que o paciente ficaria na UTI por algum tempo.

— Mas por que, doutor Monteiro?

— É de praxe, Adelaide. João está sendo monitorado por aparelhos, e lá terá o acompanhamento direto de que precisa, em virtude da gravidade da cirurgia. Você poderá vê-lo, com os cuidados devidos. Não podemos correr o risco de infecção.

— Entendo doutor. Obrigada.

Tudo corria bem. Na véspera de sair da UTI e voltar para o quarto, o quadro clínico se complicou. João teve uma parada respiratória e entrou em coma. Às pressas foi levado para o centro cirúrgico e a equipe médica tudo fez para ajudá-lo, sem resultados.

Desse dia em diante, João não mais acordou. Continuou em coma profundo por longos meses. Como o estado do paciente permanecia inalterado, a direção do hospital sugeriu a Adelaide que o melhor seria levar o enfermo para casa e contratar enfermeiras. O próprio Monteiro aconselhou essa decisão porque, não obstante João ser um homem rico, a sua permanência no hospital era desnecessária, acarretando sem razão gastos expressivos para a família e submetendo-o ao risco de contrair uma infecção hospitalar, sempre temível.

Adelaide tomou todas as providências: adaptou o quarto do pai, equipando-o com o indispensável para seu atendimento, e contratou enfermeiras para assisti-lo o tempo todo. Quando tudo estava pronto, uma ambulância levou-o para casa.

A partir desse dia, a vida de Adelaide se resumiu à preocupação e aos cuidados com o pai. Deixou o emprego, os amigos, os divertimentos, tudo, para dedicar-se a ele.

Nos primeiros tempos, cuidava do enfermo com desvelo e carinho. Depois, como não visse mudança, cansou-se. Com o passar dos meses, a rotina dessa situação foi deixando-a insatisfeita, irritada, descontente.

Afinal, sou solteira, tenho vontade de sair, arranjar um namorado, casar, ter filhos, trabalhar, e não posso, irremediavelmente presa ao meu pai. E eu não tenho muito tempo! A vida é curta. Estou com quase 40 anos e quero viver! Mas como?

A moça começou a acalentar pensamentos menos puros. Também precisava de dinheiro e estava tudo em nome do pai. Enquanto ele estivesse vivo, tinha de se contentar com a retirada mensal estipulada, conforme cláusula estabelecida na empresa. Nada lhe faltava, é certo, mas Adelaide queria ter liberdade para gastar dinheiro como lhe aprouvesse, comprar roupas, jóias, um carro novo. Seu pai, conquanto muito rico, sempre fora comedido nas despesas.

Sem a influência benéfica que o pai exercia sobre ela — falando-lhe de religião e incutindo-lhe nobres valores morais -, Adelaide se deixou envolver por vibrações nocivas de entidades desencarnadas, inimigas de João e dela própria, que desejavam destruí-los.

Assim, passou a considerar-se injustiçada pela vida, uma vez que, tendo tudo, não podia usufruir de coisa alguma.

Certo dia, fazendo compras, casualmente encontrou um antigo namorado, e o coração bateu forte. O rapaz convidou-a para tomar um suco e Adelaide aceitou, satisfeita. Era a primeira coisa interessante que acontecia em sua vida desde que o pai ficara doente.

Humberto, o antigo namorado, retornava à cidade depois de passar dois anos fora. Estava curioso para saber das novidades, queria notícias dos amigos. Adelaide, sorridente, contou-lhe tudo o que sabia. Depois, desculpou-se:

— Lamento não poder dar-lhe outras informações, Humberto. Embora tenha permanecido na cidade, ao contrário de você, quase não saí de casa em virtude do estado de meu pai — E contou ao rapaz tudo o que tinha acontecido nos últimos meses.

Penalizado, ele confortou-a. Saíram outras vezes, reatando o namoro, e, uma noite, Humberto foi até a casa de Adelaide fazer uma visita ao doente.

Assustou-se com a aparência do enfermo. No passado, conhecera um executivo forte, decidido, cheio de vida, e agora o encontrava nessa situação — quase vegetativa. Apesar da compaixão que sentiu pelo enfermo, passou a vibrar no mesmo padrão da namorada.

— É uma pena que continue sofrendo desse jeito. Afinal, já está praticamente morto.

— Pensa realmente assim, Humberto?

— Claro! Ele não está sendo mantido com vida apenas pelos aparelhos?

— Sim. Mas meu pai sempre me afirmou que a vida é sagrada; e, se há vida, há esperança.

— Não neste caso, meu bem. Só existe vida vegetativa. Adelaide ficou pensativa. Após a saída de Humberto, retornou ao quarto do pai, onde a enfermeira vigiava. Verificou se estava tudo bem, deu um boa-noite para a moça e foi para seus aposentos.

Sozinha no escuro, não conseguia dormir. Sentiu um arrepio, e uma sensação de medo fez com que acendesse a luz do abajur. A pequena claridade espalhou-se no ambiente, deixando-a mais tranqüila.

As idéias começaram a se avolumar em seu íntimo, idéias que tinha medo até de pensar.

Mas... e se os aparelhos fossem desligados? Eu ficaria livre dessa prisão e meu pai também, visto que ele deve estar sofrendo, embora não demonstre. Papai sempre me falava da "outra vida". Assim, ele ficaria livre para viver a "verdadeira vida", e eu ficaria pronta para recomeçar a viver.

Seus pensamentos se voltaram para o namorado, a quem se sentia presa por intenso amor. Lembrou-se de que, alguns dias antes, Humberto, delicadamente, deixou escapar que não desejava ficar preso a nada; não estava se adaptando bem ao Brasil, sentia falta da vida que levava na Europa. Queria encontrar a mulher ideal para casar-se e aproveitar a vida, viajar pelo mundo inteiro e divertir-se muito.

Não posso perder essa oportunidade de ser feliz! — pensou ela.

Não queria perder o namorado, de quem tão oportunamente se reaproximara. Humberto era um rapaz bom, gentil, delicado, mas não tinha tido muitas oportunidades na vida. Falava em viagens, em divertimentos, porém não tinha recursos. Ele lhe confidenciara que tinha voltado ao Brasil com os recursos que conseguira economizar trabalhando no exterior, porém não eram muitos e logo acabariam. Portanto, vamos precisar do "meu" dinheiro, ou melhor, do dinheiro que receberei de herança quando meu pai morrer. E daí? Isso não tem nenhuma importância! Para que serve o dinheiro se não for para gastar? Com certeza meu pai compreenderá minha atitude e me perdoará, como sempre fez desde que eu era criança e fazia alguma arte.

Acalmada a consciência com essas justificativas, decidiu que realmente o melhor a ser feito era desligar os aparelhos.

Mas como agir? Como desligar os aparelhos? Não poderia envolver mais ninguém, e as enfermeiras não desgrudavam de seu pai, por ordem dela mesma. Resolveu que daria um sonífero à enfermeira da noite. Depois, seria fácil. Desligaria os aparelhos sem problemas.

Assim resolvida a questão, Adelaide teria de pensar no melhor momento para agir. Era uma quarta-feira. Decidiu que seria na sexta-feira, quando a responsável pelo turno da noite seria Clara, moça boa mas desatenta, e que por duas vezes já estivera para ser dispensada, exatamente por dormir em serviço.

Os desencarnados vingadores vibraram com a decisão. Tudo caminhava bem. Se ela titubeasse, eles estariam ali para garantir o sucesso da operação.

Capítulo 6

Socorro inesperado

"Temos pensamentos próprios e outros que são sugeridos? "

"Vossa alma é um Espírito que pensa; não ignorais que muitos pensamentos vos ocorrem às vezes ao mesmo tempo sobre um mesmo assunto e freqüentemente bastante contrários uns aos outros; pois bem, nesses pensamentos há sempre os vossos e os nossos. Isso vos coloca na incerteza, porque, então, tendes duas idéias que se combatem."

(O LIVRO DOS ESPÍRITOS, ALLAN KARDEC, QUESTÃO 460)

Esta era a situação no momento e, em virtude da emergência da crise em via de manifestar-se, pedidos de socorro começaram a chegar à espiritualidade. Nossa equipe, sob a orientação de Eusébio, dedicado benfeitor espiritual, foi chamada para atender ao caso.

Deslocamo-nos de Céu Azul rapidamente, vencendo as distâncias, e ainda era manhãzinha quando chegamos à grande cidade, buscando o endereço que nos tinha sido passado.

Não foi difícil localizar a casa, situada em bairro nobre da cidade. Entramos. A cena que se apresentou a nossos olhos era comovente.

João, considerado organicamente em coma, incapaz de reagir, conservava-se lúcido espiritualmente. Eram dele os pedidos de socorro que nossos delicados sensores do Além tinham captado. Ajoelhado em espírito, suplicava de mãos postas:

— Senhor Jesus! Ajude-me. Não posso morrer ainda! Não quero morrer! Sinto que preciso ficar mais algum tempo na carne para ajudar minha filha. Porém, estou assustado! Minha querida Adelaide, razão da minha vida, planeja matar-me. Não quero que ela se comprometa com mais esse crime. Por favor, Jesus, socorra-me!

A cena era tocante e nos sensibilizou. Logo em seguida, notamos duas entidades, servidoras do bem, que se mantinham no ambiente e protegiam o enfermo das investidas das sombras. Aproximamo-nos. A primeira era Amália, esposa de João e mãezinha de Adelaide; a outra era seu avô Terêncio, ambos desencarnados fazia muitos anos.

Receberam-nos com carinho, agradecendo nossa presença. Feitas as apresentações, Amália esclareceu-nos:

— João, meu esposo na encarnação passada, está extremamente preocupado desde que percebeu as intenções de nossa filha, Adelaide. Por isso, também solicitamos reforços espirituais, porque vamos precisar de muita ajuda. Temos boa vontade, caro Eusébio, mas nossas condições são limitadas, como pode perceber.

Eusébio ofereceu-se, gentil:

— Conte conosco, minha irmã. Estamos aqui prontos para o trabalho e desejamos ser úteis.

Demonstrando grande inquietação, Terêncio implorou:

— Alguma coisa precisa ser feita em caráter de urgência, nobre Eusébio. A situação é crítica. Adelaide pretende desligar os aparelhos ainda esta noite!

— Estou ciente, caro Terêncio. Mantenha a serenidade e confie. Vamos ver o que pode ser feito — disse o orientador.

Depois, como João continuasse repetindo suas súplicas, Eusébio achegou-se a ele, tranqüilizando-o. Com as mãos sobre a cabeça do enfermo, envolveu-o com energias balsamizantes:

— João! Acalme-se, meu amigo. Confie em Jesus. Você está muito agitado, nervoso e tal estado lhe é prejudicial. Tranqüilize-se. Estamos atentos. Nada tema. Repouse.

Ouvindo essas palavras, como se tivesse recebido uma ordem, João acomodou-se numa cama ao lado do seu leito, serenando o espírito. Víamos-lhe o corpo de carne, com as funções reduzidas ao mínimo, completamente imóvel, quase um cadáver. Ao lado, o corpo espiritual repousando. Percebíamos que, à medida que o organismo físico se enfraquecia paulatinamente, o corpo espiritual se fortalecia na mesma proporção.

Algumas horas depois, Adelaide chegou da rua. Sua escolta consistia em três entidades de aspecto vingativo e cruel que não se afastavam dela um momento sequer, mantendo-se ligadas ao seu psiquismo. Notamos fios escuros e viscosos que saíam da mente de Vado, aquele que parecia ser o chefe da pequena falange, e ligavam-se à mente da jovem.

Quando Adelaide aproximou-se da porta do quarto do pai, ficamos um pouco preocupados, conquanto soubéssemos que o enfermo estava sob a proteção do Alto. Todavia, uma cena interessante deparou-se a nosso olhar, tranqüilizando-nos: seus acompanhantes não puderam entrar, sendo obrigados a retroceder, permanecendo fora do aposento, a contragosto.

— Perceberam? Ninguém está desamparado sob a vista de Deus. A proteção de que goza o enfermo não é favoritismo divino, mas representa conseqüência justa de uma existência reta e digna, das boas ações que ele praticou, créditos esses que agora o beneficiam e o envolvem em branda luminosidade, afastando os adversários e impedindo-os de atormentá-lo — comentou Eusébio discretamente.

Aproximando-se do leito, Adelaide olhou o pai imóvel. Naquele momento, nenhum sinal de afeto, nenhum gesto de carinho. Sem olhar para a enfermeira, ela resmungou:

— Que calor! Tudo bem por aqui, Ema? Precisa de algo?

— Está tudo em ordem, dona Adelaide. Não preciso de nada.

— Ótimo. Então vá almoçar, que eu ficarei aqui. Tomei um suco na rua e estou sem fome.

A enfermeira saiu, estranhando a inusitada delicadeza da patroa. Adelaide sentou-se junto à janela pondo-se a pensar.

E chegado o dia. Já que preciso tomar uma atitude, que seja o mais rápido possível. Tem de ser esta noite. Só assim ficarei livre desse empecilho a minha felicidade.

Na espiritualidade, nós percebíamos-lhe os criminosos pensamentos. Julgando-se sozinha, refletia com frieza, mentalmente estudando os passos que teria de dar para terminar com a vida do pai. Felizmente, João dormia em espírito; caso contrário, ficaria deveras decepcionado ao ver a filha do coração referir-se a ele como um traste inútil e incômodo, depois de toda uma vida de dedicação e carinho.

Aproveitando a oportunidade, Eusébio pediu que Amália se acercasse da filha e a envolvesse em emanações benéficas, sugerindo-lhe atitudes mais sadias.

— Adelaide, minha querida filha, pense bem no que vai fazer. Lembre-se do amor que sempre recebeu de seu pai, que agora aí está, indefeso. João não apenas lhe deu a oportunidade de viver, mas como pai amoroso, durante toda a sua existência, ele a cercou de cuidados, dando-lhe o melhor. Quando fui obrigada a deixá-la, por determinação divina, partindo para a espiritualidade, foi ele quem me substituiu, suprindo minha falta e tornando-se pai e mãe para você, de modo que nada lhe faltasse. É justo que agora, quando ele mais precisa, você lhe negue amparo? Não se macule, minha filha, sujando as mãos com o ato nefando que planeja. Acredite, seu pai não permanecerá muito tempo na Terra. Tenha um pouco mais de paciência, Adelaide, e você ficará legalmente com tudo a que tem direito. Piedade, minha filha. Lembre-se da orientação de Jesus: fazer aos outros o que gostaríamos que os outros nos fizessem.

A mãezinha fez breve pausa, dando à filha tempo para refletir, enquanto acariciava delicadamente seus cabelos. Notamos que fios brilhantes e tenuíssimos ligavam a fronte de Eusébio à cabeça de Amália. Depois ela prosseguiu:

— Você é jovem, minha filha, ainda tem uma existência pela frente. Seu pai já está no término da dele, e precisa desse tempo, infinitamente precioso para concluir seu aprendizado aqui na Terra. Pense, Adelaide. Eleve seu pensamento a Jesus, o Mestre Maior, libertando-se da influência desses inimigos que tentam destruir seu pai por suas mãos. Que Deus a ampare e ilumine para que tome a decisão certa.

Enquanto Amália falava, Adelaide não a ouvia com os ouvidos do corpo, mas recebia as sugestões na acústica da alma. A imagem do pai, sempre cheio de amor e carinho, surgiu-lhe em diversos momentos de sua existência, evocados pela mãezinha: consolando-a numa queda da bicicleta, levando-a para passear, para tomar sorvete, comprando-lhe presentes, ajudando-a nos deveres escolares, orando com ela antes de dormir, e muitos outros que agora lhe afloravam à mente.

A imagem da mãe surgiu nítida e forte em sua tela mental, com intenso sentimento de amor e saudade. Sim, desde que a mãezinha morrera, o pai fora toda a sua família, cercando-a de cuidados e de atenções. Como havia se esquecido disso? O coração se lhe confrangeu ao pensar na atitude que iria tomar. Sentiu-se indecisa, sem forças.

Quem sabe não é melhor aguardar? Talvez ele morra logo, está tão fraco! Por que sujar minhas mãos com esse crime?

As idéias plantadas na sua mente por Amália vingavam. Respiramos mais aliviados, considerando afastado o perigo. Eusébio, cauteloso, considerou:

— Não cantem vitória antes do tempo. O perigo ainda não foi afastado. Adelaide terá de enfrentar sérios problemas durante o resto deste dia. Observem.

Nesse momento, Ema voltava do almoço e Adelaide, entregando-lhe o posto, saiu do quarto para igualmente fazer a refeição.

Algo havia mudado nela. A diferente disposição íntima deixou os adversários em alerta vermelho.

Sentando-se à mesa, onde as iguarias estavam servidas, Adelaide continuava pensativa. Os acompanhantes Vado, Crepaldi e Quintino, igualmente se aproximaram e passaram a inalar as substâncias nutritivas por meio do vapor que se desprendia dos alimentos, com isso demonstrando enorme satisfação.

Adelaide continuava refletindo na situação do pai e no pouco tempo de vida que provavelmente ele teria. Se a mãe falecida estivesse viva em algum lugar e pudesse vê-la desejando a morte do pai, o que pensaria dela?

Percebendo que ela lhes escapava, os obsessores aumentaram o cerco. Vado, incisivo, considerava:

— Deseja passar o resto da vida sozinha e sem dinheiro? Sim, porque é isso o que vai acontecer! Humberto não terá paciência de esperar, partindo para outra. Tome uma atitude. Você já decidiu! Por que esperar mais? O tempo urge! Amanhã mesmo, a esta hora, você será uma mulher rica. Pense em como sua vida será diferente e feliz com o homem que ama, vivendo ao lado dele e com muito dinheiro para satisfazer seus caprichos. Pense! Pense! Não hesite!...

A medida que a envolviam com suas sugestões maléficas, os adversários do bem readquiriam seu império sobre ela, e tínhamos dificuldade em nos aproximar.

— E agora, o que faremos? — indagou Amália, apreensiva.

— Acalme-se, minha irmã. Confiemos em Jesus. Não nos esqueçamos, todavia, de que o livre-arbítrio é atributo do espírito e cada um é livre para tomar as próprias decisões, ficando responsável pelas conseqüências geradas por elas.

— Concordo, caro Eusébio. No entanto, minha infeliz Adelaide está sendo coagida pelos seus obsessores.

O generoso orientador ponderou:

— Sim, certamente Adelaide não está sozinha em suas decisões. Cabe-nos lembrar, porém, que os inimigos desencarnados apenas se beneficiam das brechas morais que nossa irmãzinha exterioriza, incentivando-lhe os desvios de comportamento, mediante clichês que ela própria mantém em seu psiquismo. Os adversários não criaram nada. Apenas sugerem-lhe as idéias negativas. Percebe a diferença? Se nossa Adelaide pensasse de outra forma, conservando o respeito à vida, a dignidade própria e o amor filial, como seria de esperar, nada disso estaria acontecendo.

Amália baixou a cabeça, aceitando as ponderações de Eusébio, justas e sábias.

— Sei que tem razão, meu amigo. Compreendo-o e lamento por minha pobre filha. Então, nada podemos fazer? Temos de aceitar passivamente os acontecimentos?

— De forma alguma, minha irmã. Vamos usar todos os recursos à nossa disposição para evitar o pior, ajudando não apenas João, mas também Adelaide e os irmãos desencarnados, vítimas de ontem, evitando que se comprometam ainda mais com a justiça divina.

Durante o resto do dia, Adelaide manteve-se inquieta, atormentada e indecisa. Em sua mente, duas posições antagônicas se entrechocavam. Uma, continuar a cuidar do pai, que provavelmente não duraria muito, pelo estado de fraqueza orgânica de que dava mostras. Outra, desligar os aparelhos e provocar-lhe a morte, ficando livre para decidir o que fazer de sua vida.

Os inimigos desencarnados não lhe davam tréguas, mas percebiam que ela estava em dúvida. Trocaram idéias entre si e decidiram: precisavam de reforço. A presença de Humberto era indispensável naquela casa.

Uma hora depois, a campainha toca. Era o namorado que chegava, acompanhado de Quintino e Crepaldi, os obsessores que tinham ido buscá-lo. Adelaide recebeu Humberto, satisfeita pela visita inesperada do amado, secundada por Vado, que exultava diante da operação vitoriosa.

Beijaram-se. Humberto percebeu que ela estava pálida e abatida. Adelaide levou-o para um sofá, onde se acomodaram. Com carinho ele perguntou:

— Noto que você está inquieta, nervosa... Aconteceu alguma coisa, minha querida?

Não suportando mais a pressão, ela caiu em pranto.

— E meu pai, Humberto. Essa situação me enlouquece. Vejo-o definhar a cada dia sem poder fazer nada.

Aconchegando-a ao peito, com delicadeza e extremo tato, o rapaz considerou:

— Ele deve estar sofrendo muito com essa situação, apesar de só existir vida vegetativa. Se pudéssemos fazer alguma coisa para ajudá-lo, libertando-o desse sofrimento inútil!...

Adelaide desejou confessar seus planos ao namorado, contudo um resto de prudência fez com que se calasse. Deu um suspiro e concluiu, desalentada:

-Quem sabe Deus resolve libertá-lo?

— E. Nunca se sabe quando chegará a hora. Pode ser amanhã, como daqui a dez anos — ele ponderou, lentamente, frisando as palavras.

Ouvindo-o, Adelaide arregalou os olhos, espantada.

E verdade! Não tinha pensado nisso. E se ele durar mais dez anos? Ou vinte? Meu Deus!

Conversaram mais um pouco, depois Humberto despediu-se, alegando providências urgentes a tomar. Pretendia viajar por alguns dias e precisava ultimar negócios.

Adelaide sentiu todo o seu sistema de defesa em alerta.

— Você pretende viajar, meu amor? E não me disse nada? Com quem? Quando?

Humberto desconversou:

— Ainda não sei, Adelaide, estou analisando a situação. Vai depender de alguns negócios que tenho em vista. Vamos ver. Quando souber, lhe comunico, está bem? Boa noite, querida.

Reconhecendo a ameaça de abandono vibrando no ar, a jovem sentiu-se ainda mais desnorteada. Compreendeu que se não fizesse algo rápido, perderia o impaciente namorado para sempre.

Naquele momento, sentimos que a vida de João corria sério risco. Os adversários desencarnados comemoravam por antecipação fazendo grande algazarra.

Eram nove horas da noite; às dez, haveria a troca de plantão das enfermeiras.

Eusébio pediu que ficássemos atentos. Ele teria que se ausentar, mas voltaria no menor espaço de tempo possível.

Quando Clara, a plantonista da noite, chegou, nosso orientador ainda não tinha retornado, o que nos deixou preocupados. Adelaide, gentil, se pôs a conversar com a enfermeira. A certo momento, comentou:

— Está tão quente hoje! Quer um suco de laranja bem geladinho? -Aceito com prazer, dona Adelaide. A senhora acertou. Estou mesmo com sede.

A dona da casa saiu para providenciar o suco. Alguns minutos depois, voltou com dois copos, oferecendo um deles à enfermeira.

Depois de tomar a bebida refrescante, Adelaide alegou estar com sono e despediu-se:

— Boa noite, Clara. Se precisar de alguma coisa, não hesite em me chamar.

— Chamarei, não se preocupe. Boa noite, dona Adelaide. Adelaide ainda não tinha começado a subir as escadas quando ouviu o som da televisão, que fora ligada. Sorriu. Agora sim é que Clara dormiria ainda mais rápido.

Logo em seguida, Eusébio entrou acompanhado de uma senhora de elevada hierarquia espiritual, deixando-nos mais aliviados. Antes que ele fizesse as apresentações, Amália adiantou-se, abraçando a recém-chegada com grande respeito e admiração:

— Esta é Laura, que na encarnação passada foi mãe de João e avó de Adelaide.

Trocamos cumprimentos. Depois, aguardávamos os acontecimentos conversando sobre elevados assuntos com Amália, Terêncio, Eusébio e Laura, quando fomos alertados de que a filha de João se aproximava.

Fazia uma hora que ela se recolhera. Desceu a escadaria sem fazer ruído e abriu a porta do quarto do pai. Aliviada, reconheceu que a enfermeira dormia a sono solto.

Também, com a quantidade de sonífero que lhe dei!— pensou.

Nesse momento, a um gesto de Eusébio, acercamo-nos, fazendo um círculo em torno de João.

Vimos quando Adelaide aproximou-se do leito paterno e, sem titubear, desligou os aparelhos, retirando da tomada o fio condutor de energia. Quase a correr, abandonou o aposento. Naquele instante, sentiu medo das conseqüências da sua ação, como toda criatura covarde.

No entanto, sem que ela pudesse imaginar, ali estávamos nós, reunidos em prece em torno do leito de João. Laura, espírito de maior elevação presente no ambiente, orava, elevando os braços para o Alto e suplicando às potências superiores da vida socorro naquele momento tão delicado.

— Senhor da Vida! Pai Amantíssimo! Neste momento, externando nossos melhores sentimentos e irmanados em pensamento, nos dirigimos a Ti, sabedores de que jamais deixas um filho Teu desamparado. Suplicamos-Te por todos os envolvidos neste drama que se arrasta há longos séculos; contudo, Senhor, direciona Tuas bênçãos para nosso irmão João, mais necessitado de socorro nesta hora. Rogamos Tua permissão, Senhor, para que ele permaneça algum tempo ainda na matéria densa, de modo a cumprir a tarefa de ajuda com a qual se comprometeu, se for da Tua vontade.

"Lança também, Pai, Teu olhar compassivo sobre os demais envolvidos. Não desejamos emitir julgamentos, pois tanto nossa querida Adelaide quanto os infelizes irmãos desencarnados que a influenciam são necessitados de socorro e de assistência. Apesar da nossa súplica, reconhecemos que nada sabemos e que Tu tens o conhecimento de todas as coisas. Dessa forma, curvamo-nos diante de Ti, pedindo que se cumpra sempre a Tua vontade, Senhor, em todos os momentos e em todos os lugares.

Abençoa-nos a todos, Senhor, e aceita a nossa gratidão, envolvendo-nos com Tua luz terna e misericordiosa."

A medida que Laura orava, todo o seu corpo se modificava, ficando nimbado de luz. Suas vestes pareciam tecidas em delicados arabescos luminosos; seus cabelos, seu rosto, seus braços, brilhavam intensamente. Sentimos que as vibrações do ambiente se tornavam suaves e elevadas, enquanto uma claridade azulada, um foco de luz iridescente, descia sobre o leito, envolvendo o enfermo, que passou a refletir a luminosidade que vertia sobre ele. O bem-estar, a alegria, a harmonia interior que senti então eram desconhecidos para mim. Em minhas lembranças mais caras desde que aportara na espiritualidade, jamais tinha experimentado tal sentimento de plenitude. Deixei que lágrimas de emoção rolassem pelo rosto. Num relance, abri os olhos e percebi que os demais também choravam, sensibilizados e irmanados pelas mesmas impressões que me atingiam.

Por alguns minutos, o ambiente permaneceu nas mesmas condições. Terminada a oração, aos poucos tudo foi voltando ao normal.

Olhei para João. Oh! Maravilha! Conquanto Adelaide tivesse desligado os aparelhos, ele continuava respirando. Estava vivo!

Sorrimos, satisfeitos e agradecidos. Todos estavam felizes.

Nosso amigo João permaneceria mais algum tempo encarnado na Terra.

Capítulo 7

O despertar da consciência

"Onde está escrita a lei de Deus?" "Na consciência."

(O LIVRO DOS ESPÍRITOS, ALLAN KARDEC, QUESTÃO 621)

Adelaide acordou com fortes pancadas na porta do seu quarto. A noite tinha sido difícil e quase não conseguiu dormir, só o fazendo às primeiras claridades do dia. Assim, levantou-se sonolenta, sem entender o que estava acontecendo. Era a empregada, extremamente aflita.

— O que houve? Você quase derrubou a porta, Mercedes! A mulher torcia as mãos em extremo nervosismo.

— Fale logo, criatura! O que houve? E com meu pai?

— Rápido, senhora! Clara pede sua presença imediata no quarto do senhor João.

Adelaide, meio atordoada, somente naquele momento lembrou-se da atitude que tinha tomado na noite anterior.

— Meu pai! Meu querido pai! — gritou ela, saindo a correr pela casa e descendo as escadas como louca, enquanto a serviçal tentava acompanhá-la.

A jovem entrou nos aposentos do pai e jogou-se sobre seu peito, chorando convulsivamente por acreditá-lo morto.

— Papai! Papai! O senhor me deixou! Por que, papai? Por quê? Os empregados, de olhos arregalados, acompanhavam a cena

sem conseguir dizer nada. Até que a enfermeira, controlando o nervosismo, tocou no ombro da patroa.

Virando-se, Adelaide viu quem estava a seu lado.

— Clara, como foi acontecer isso? Por que não me chamou? — inquiriu a moça.

— Não sei, senhora. Não entendo!

— Meu pai morreu e a culpa é sua, imprestável! — gritou ela, recomeçando a chorar.

Compreendendo o que se passava na cabeça da patroa, a enfermeira esclareceu:

— Acalme-se, senhora! Creio que há um engano. Seu pai não está morto!

— O quê? Não está morto?... — balbuciou ela, incapaz de acreditar.

— E isso o que estou tentando lhe dizer, dona Adelaide — respondeu Clara, trêmula.

Rapidamente dirigiu-se para a parede do fundo e levantou o cabo elétrico, desligado da tomada, mostrando-o à patroa:

— Veja! Não sei como tal fato sucedeu. O fio que mantinha os aparelhos funcionando amanheceu desligado da tomada. Mas, apesar disso, o senhor João continua vivo!

Procurando readquirir o equilíbrio, Adelaide questionou:

— Mas... mas... Como isso foi acontecer? Ainda ontem estive aqui até tarde e tudo estava bem! — gritou exasperada.

— Não sei, senhora. Só sei que hoje cedo os aparelhos estavam desligados. Achei muito estranho...

— Certamente você, andando pelo quarto, desligou sem querer. Ou então dormiu e teve um ataque de sonambulismo! Se meu pai morrer, eu processo você por negligência profissional. Chame o médico imediatamente.

— Já chamei, senhora. Ele não deve demorar.

Poucos minutos depois, a campainha soa. Era o doutor Monteiro, que foi rapidamente introduzido nos aposentos do enfermo. Adelaide acompanhou-o, aproximando-se do leito com expressão preocupada.

O médico examina cuidadosamente o doente. Sua fisionomia é grave e compenetrada. Quando termina, pergunta à enfermeira:

— Clara, desde quando os aparelhos estão desligados?

— Ignoro, doutor. Até ontem à noite tudo estava normal. Verifiquei pessoalmente, como sempre faço. Não sei como isso foi acontecer, doutor. Depois que dona Adelaide saiu, ninguém mais entrou no quarto. E estranho... Só se eu desliguei sem perceber. Mas não consigo entender como faria isso. Estou pasma!

Monteiro ouviu calado. Depois, passou a mão na cabeça e sentou-se, observando o enfermo.

Continuar: parte 3 de 3