Só o Amor Liberta
Seção 2
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— E então, doutor? Como está meu pai? — indagou Adelaide, tentando parecer aflita.
O médico olhou para a moça e sorriu:
— Acalme-se, Adelaide. Seu pai está bem. Contra todos os prognósticos, as funções vitais dele estão normais! E surpreendente!
— Normais? O que isso quer dizer? O que vai acontecer com ele agora, doutor?
— Não sei, Adelaide. Só Deus o sabe!
— Como assim? Meu pai não deveria estar morto?
— Sem dúvida. Porém, existem outros casos iguais ao dele na literatura médica. Pessoas que viveram anos em coma profundo e depois, ao serem desligados os aparelhos que lhes mantinham a vida orgânica — até em cumprimento de decisão judicial, é preciso que se diga! —, não morreram. Você mesma já deve ter ouvido falar de casos assim.
Adelaide jogou-se numa cadeira, apoiando a cabeça com as mãos.
— Sim, já ouvi falar desses casos. Raros, por sinal. E têm que acontecer logo comigo? Tudo está perdido! Eu me arrisquei para matar meu pai e ele continua vivo! O que pode significar isso?
Entendendo equivocadamente os sentimentos da moça, que julgou fossem os de uma filha preocupada com o pai, Monteiro consolou-a:
— Minha filha, acalme-se! O pior já passou. Este é um momento de alegria! Afinal, seu pai está vivo e poderá continuar com você por mais algum tempo.
Entendendo que precisava conter-se para não levantar suspeitas, Adelaide ergueu a cabeça, chorosa:
— Eu sei, doutor Monteiro. Estou contente, sim. Só o fato de meu querido pai não ter morrido é suficiente para mim. Mas... tenho medo dessa mudança, do que poderá vir depois... Por quanto tempo o senhor acha que ele permanecerá assim... como está agora?
O médico olhou para o enfermo e, encolhendo os ombros, virou-se para a jovem:
— A medicina não tem resposta para todos os nossos questionamentos, Adelaide. Também nós, os médicos, muitas vezes ficamos pasmos diante de determinadas situações. Esta é uma delas. Não posso fazer prognósticos. João poderá ficar assim um dia, um mês, um ano, dez anos... quem sabe? É imprevisível. Só Deus tem a resposta para essa pergunta.
Nada mais tendo a fazer ali, o médico despediu-se, colocando-se à disposição para o que fosse necessário:
— A qualquer hora do dia ou da noite, se houver alguma mudança no quadro, por menor que seja, avisem-me. Vou mandar um amigo, especialista na área, neurologista famoso, para examiná-lo e dar sua opinião sobre o caso.
— Sim, doutor. Se acha que é importante, faça o que for preciso — concordou Adelaide.
O médico fez mais algumas recomendações à enfermeira e deixou a casa. Aos poucos, tudo foi voltando ao normal. Os empregados retornaram às suas ocupações e Adelaide sentou-se numa poltrona, ao lado do leito, ali permanecendo, calada e imóvel. Olhava fixamente o pai, porém sua expressão era vaga, distante.
Na verdade, sua cabeça fervilhava. Aquele fato a tinha deixado muito mais abalada do que gostaria de admitir. No momento em que o médico se referiu a Deus, como se a vida de seu pai estivesse nas mãos Dele, Adelaide sentiu um calafrio da cabeça aos pés. Tinha de reconhecer agora que, além da vontade dela e até da medicina terrena, alguma força superior existia e governava. Suas esperanças de libertação e felicidade estavam destruídas.
De vez em quando, um das criadas entrava no quarto, ficava um pouco e saía. Estavam todos preocupados com Adelaide, vendo-a naquele estado.
Certo momento em que ela deu acordo de si, notou que a enfermeira Ema estava a seu lado, já no cumprimento de suas obrigações. Ao chegar para o plantão, Clara a informara das novas condições do enfermo, das recomendações médicas e da necessidade de ficar atenta à menor mudança em seu estado.
Afeiçoada a Ema, que sempre havia demonstrado mais equilíbrio e competência, Adelaide perguntou-lhe:
— O que acha de tudo isso, Ema?
A enfermeira pensou um pouco, como se refletindo na conveniência do que iria dizer. Depois, falou suavemente:
— Penso que é a bondade de Deus se fazendo presente na vida do senhor João e também na sua.
— Como assim?
— Significa que ainda não chegou a hora dele partir, entende? Certamente seu pai tem necessidade de permanecer mais um tempo aqui na Terra.
— Você acredita realmente? Supondo-se que isso seja verdade, Ema, do jeito que meu pai está, em que lhe poderia ser útil esse tempo? — indagou Adelaide, cética.
A enfermeira explicou-lhe que todos somos espíritos imortais a caminho do progresso. Que já vivemos outras existências, sempre aprendendo, para nos tornarmos pessoas melhores moralmente. Que, através do tempo, nos comprometemos perante a justiça divina, ao prejudicarmos o próximo e a nós mesmos. E que, em virtude disso, somos constrangidos a enfrentar a conseqüência de nossos atos, reparando os erros cometidos e nos reajustando com os desafetos.
A medida que ela falava, Adelaide fitava-a, cada vez mais perplexa. Jamais tinha cogitado dessas coisas. Aproveitando uma pausa que Ema fizera, perguntou:
— Qual a sua religião?
— Sou espírita.
— Ah! Logo vi. Meu pai também tinha uma queda por essas coisas.
— "Essas coisas", como você diz, são muito sérias e respeitáveis. O Espiritismo é baseado num corpo de doutrina sintetizado em O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec. Se tiver interesse em ler, Adelaide, posso emprestar-lhe essa obra, que, tenho certeza, lhe trará muitos esclarecimentos.
Lembrando-se de algo, Ema levantou-se, foi até o lugar onde guardava sua bolsa, abriu-a e retirou dali um volume, que passou às mãos de Adelaide:
— Olhe, Adelaide, não tenho aqui O Livro dos Espíritos, do qual lhe falei. Porém, aqui está um livro que, acredito, lhe fará bem. Trata-se de O Evangelho Segundo o Espiritismo, que é um trabalho do mesmo autor, e que sempre trago comigo. Gosto de ler e, nas horas vagas, aproveito o tempo com leituras edificantes.
Adelaide pegou o volume nas mãos, agradecendo à enfermeira.
— Obrigada, Ema. Agora vou descansar um pouco. Qualquer novidade me chame.
— Fique tranqüila. Estarei atenta.
A dona da casa procurou uma pequena sala onde gostava de passar o tempo e acomodou-se num aconchegante sofá. Abriu o livro e tentou ler algumas linhas, mas seu pensamento estava muito tumultuado. Fechou os olhos procurando relaxar. Acabou por adormecer.
Algum tempo depois, a criada veio acordá-la, avisando que um senhor a procurava.
— Quem é, Mercedes? — perguntou.
— Veio a mando do doutor Monteiro.
— Ah, eu já sei de quem se trata.
Adelaide levantou-se, passou as mãos pelo rosto, pelos cabelos, ajeitou a roupa e, respirando fundo, foi atender o recém-chegado.
Era um homem alto, moreno, ainda novo e de semblante sereno. Ao vê-la, leve sorriso abriu-se em seu rosto, tornando-o mais simpático.
— Bom dia! Senhorita Adelaide?
— Sim.
— Como vai? Sou Fernando Amaral, e fui enviado pelo doutor Monteiro.
— Muito prazer, doutor. Eu o aguardava. O senhor é o neurologista que veio examinar meu pai, não é?
— Exato. Poderia levar-me até o doente?
— Claro. Por obséquio, acompanhe-me, doutor Fernando. Adelaide levou o médico até o quarto do pai. Aproximando-se do leito, ele examinou o paciente meticulosamente. Fez algumas perguntas à enfermeira Ema e, ao terminar, virou-se para Adelaide e informou:
— Parece que, dentro das suas condições, está tudo normal. Gostaria de submetê-lo a um eletroencefalograma e fazer outros exames. Mas não se preocupe. Trarei meu aparelho aqui para não precisarmos locomover seu pai.
— E quando fará isso, doutor?
— O mais rápido possível. Infelizmente, hoje terei a tarde toda ocupada. Tenho três cirurgias e não sei quando ficarei livre. Amanhã cedo, porém, por volta das nove horas, estarei aqui. Combinado?
— Claro. Estarei esperando. Aceita um café, doutor?
— Com muito gosto.
Adelaide virou-se para a criada, que aguardava.
— Mercedes, duas xícaras de café, por favor. Estaremos na sala íntima.
Conversando gentilmente, Adelaide conduziu-o até a pequena sala onde estivera repousando. Sentaram-se, e ele pegou um volume que estava na mesa ao lado do sofá.
— O Evangelho Segundo o Espiritismo! Você é espírita? Adelaide justificou-se com certo constrangimento:
— Não, claro que não! Ema, a enfermeira, emprestou-me este livro, desejando ajudar-me, mas ainda não tive tempo de lê-lo. Na verdade, nem sei se o farei. Aceitei-o para não ser indelicada.
— Pois creio que deve ler. É excelente obra, e Ema tem razão; com certeza lhe fará muito bem. É uma visão extremamente lúcida do Evangelho de Jesus. Creio que irá gostar. Eu mesmo o tenho como livro de cabeceira.
— É espírita?
— Sim, com muita satisfação. O Espiritismo nos auxilia a ver tudo o que se passa conosco e ao redor de nós com outra visão.
Mercedes serviu o café, fumegante e de agradável aroma. Conversaram mais um pouco, o médico lhe fez perguntas sobre o doente. Em seguida, ele ergueu-se, despedindo-se:
— Agora devo ir. A conversa está muito agradável, porém meus pacientes me aguardam. Senhorita Adelaide, aceita uma sugestão? Abra o livro ao acaso, leia algumas páginas. Geralmente, o assunto tem relação com nossas necessidades mais íntimas. Amanhã voltaremos a conversar. Passe bem.
Adelaide acompanhou-o até a porta e, ao fechá-la, percebeu que estava encantada com o carisma do médico. Ele era gentil, delicado, simpático, sereno; passava segurança, deixando-a mais confiante.
Sentia-se ansiosa para vê-lo novamente. Teria de esperar até o dia seguinte. Pegou o livro com renovado interesse, apertando-o entre as mãos.
Foi para o quarto, acomodou-se na cama e, abrindo-o ao acaso, como ele sugeriu, leu em voz alta:
— "Deve-se pôr um fim às provas do próximo?"
Assustada, com o coração acelerado, empurrou o livro, afastando-o de si. Encolhida na cama, olhou ao redor com medo de que alguém tivesse ouvido. Depois, deu-se conta de que sua preocupação era bobagem. Estava sozinha no aposento!
A curiosidade fez com que pegasse o livro de novo. Com as mãos trêmulas de medo, abriu-o e, para surpresa sua, caiu na mesma página. Achou que, de alguma forma, "alguém" estava querendo que a lesse.
Munindo-se de coragem, leu: — "Deve-se pôr um fim às provas do próximo, ou é preciso, por respeito às vontades de Deus, deixá-las seguir o seu curso?10
Começou a ler a mensagem, e os conceitos ali expressos atingiam-lhe profundamente o íntimo. Sentia-se culpada, embora ninguém a estivesse julgando. O texto, ao contrário, não era de acusação, mas de incentivo a fazer o melhor, ajudando e abrandando a expiação dos semelhantes, de acordo com a lei de amor e de caridade.
10 O Evangelho Segundo o Espiritismo. Allan Kardec, capítulo 5, item 27, Petit Editora.
Logo em seguida, leu outra mensagem: "É permitido abreviar a vida de um doente que sofre sem esperança de cura?"
"Um homem está agonizante, vítima de cruéis sofrimentos. Sabe-se que seu estado não tem esperanças. É permitido poupar-lhe alguns instantes de agonia, apressando o seu fim?"
"Quem, no entanto, vos daria o direito de prejulgar os planos de Deus? Não pode o Senhor conduzir um homem à margem do abismo para retirá-lo de lá, a fim de fazê-lo voltar-se sobre si mesmo e de conduzi-lo a outros pensamentos? Ainda que se pense que haja chegado o momento final para um moribundo, ninguém pode dizer com certeza que essa hora tenha chegado. A Ciência nunca se enganou nessas previsões?
Sei muito bem que há casos que se podem considerar, com razão, como desesperadores. Mas, se não há nenhuma esperança fundada de um retorno definitivo à vida e à saúde, não há também incontáveis exemplos de que, no momento de dar o último suspiro, o doente se reanima e recobra sua lucidez por alguns instantes? Pois bem! Essa hora de graça que lhe é concedida pode ser para ele da maior importância, pois ignorais os pensamentos que seu Espírito pôde fazer nos momentos finais da sua agonia e quantos tormentos pode lhe poupar um minuto, um momento de arrependimento.
O materialista que apenas vê o corpo e não se dá conta da alma não pode compreender estas coisas. Mas o espírita, que sabe o que se passa Além-túmulo, conhece o valor do último pensamento. Suavizai os últimos sofrimentos tanto quanto vos seja possível fazê-lo; mas guardai-vos de encurtar a vida, que seja apenas por um minuto, pois esse minuto pode poupar muitas lágrimas no futuro. "11
Ao acabar de ler toda a página, que vinha assinada com o nome venerável de São Luís, Adelaide percebia que uma nova concepção de vida se delineava diante de seus olhos. Essa vida futura que ela nunca entendera nem aceitava, por desconhecimento, agora aflorava com contornos mais nítidos em sua mente.
Buscou o índice. Desejava ver os assuntos enfocados. Deteve-se no capítulo 14, "Honrai vosso pai e vossa mãe". Abriu e leu "A ingratidão dos filhos e os laços de família". Chorou copiosamente. Depois leu vários outros capítulos, surpreendendo-se e maravilhando-se a cada passo.
Era tarde quando conseguiu conciliar o sono. Sentia-se leve, e uma nova esperança vibrava em seu íntimo, como prenuncio de paz e de crescimento espiritual.
Pela primeira vez, elevou o pensamento numa prece de agradecimento a Deus. A mãezinha, a seu lado, sorria com imenso carinho, também se associando à filha querida na prece de gratidão ao Criador, pelas bênçãos desse dia, envolvendo em seus braços o ente querido que despertava para as realidades espirituais.
Capítulo 8
11 Obra citada, capítulo 5, item 28.
A bênção do sofrimento
"Se perdoardes aos homens as faltas que cometerem contra vós, também vosso Pai Celestial vos perdoará os pecados."
JESUS (MATEUS, 6: 14)
Desse dia em diante, Adelaide passou a interessar-se pela literatura espírita, na qual encontrava respostas para seus questionamentos mais íntimos. Sentia cada vez mais prazer em ler, se entrosando com seu conteúdo, até para poder dialogar com o jovem médico por quem tanto estava atraída. Logo passou a demonstrar certa familiaridade com os livros que ele lhe emprestara.
E o que havia começado por interesse, numa tentativa de prender a atenção do atraente doutor, acabou por se tornar vital para ela. Agora, quando Adelaide se aproximava do leito paterno, trazia outros pensamentos na mente. Tentava adivinhar se o pai saberia o que estava acontecendo, se ele estaria ali, lúcido, vendo-a a seu lado, e, em caso positivo, o que estaria pensando. O mais importante: ele saberia o que ela fez? Teria visto a ação dela, naquela noite, desligando os aparelhos?
Por tudo o que já tinha lido na literatura espírita e pelas informações de Fernando, seu novo amigo, sim, seu pai deveria estar ciente do que ela tinha feito. Essa constatação caiu com a violência de um raio em sua cabeça. Não era o fato da sua atitude criminosa o que mais a incomodava, e sim saber que essa ação teve observadores. Que, enquanto ela agia, certa de estar sozinha, o pai — sua vítima — poderia estar vendo tudo!
Essa possibilidade levou-a a outra sensação profundamente incômoda: a vergonha perante esse pai que tanto a amava e que agora deveria odiá-la.
Meditando sobre o assunto, que se lhe tornou uma idéia fixa, passou Adelaide a sentir remorso pela atitude indigna, criminosa e covarde que tomara contra alguém indefeso, que, além de tudo, era seu pai.
Olhando-o deitado, inerte, sem reações, fisionomia cadavérica, sentiu necessidade imperiosa de conversar com ele, de pedir-lhe perdão. O momento era favorável: a enfermeira tinha saído, e ela estava a sós com ele.
Adelaide levou a mão para acariciar-lhe o rosto, mas não teve coragem. Afinal, respirando fundo, murmurou:
— Papai, se você realmente puder me ver, se estiver consciente, por favor, me ouça! Sei que tenho errado muito, mas estou só, papai, sem ter alguém para me ajudar, esclarecer, amparar. Mamãe partiu há muito tempo e nós dois ficamos sozinhos. Por longos anos, você foi meu esteio, minha proteção, meu tudo. Depois, você também se afastou de mim, entrando nesse seu mundo particular e indevassável que só você conhece. Quando mais precisava de você, fiquei desamparada, sem ter quem me aconselhasse, quem em guiasse através da vida.
Fez uma pausa, tentando perceber alguma reação no rosto do pai, mas foi inútil. Adelaide tomou fôlego e prosseguiu:
— Você sabe, papai, nunca fui ligada à religião. Jamais tive interesse por Deus nem por essas coisas transcendentais. Para mim, morreu acabou. E quando o vi nesse estado, sem poder falar comigo, sem um gesto amistoso, sem poder responder a meus questionamentos e dúvidas, me desesperei. Achei que estaria sofrendo! E pensei: se meu pai não tem condições de voltar à vida, não será melhor morrer de uma vez? Depois, a verdade é que também senti desejo de ser dona da minha vida, de poder comandar meus atos, namorar, casar, ser feliz! Parou de falar, enxugou uma lágrima e continuou:
— Hoje eu sei, papai, que as coisas realmente não são assim. Aprendi que ninguém morre e que o espírito continua vivo, mais vivo do que nunca; que a morte é apenas uma mudança de endereço. Porém aprendi mais: que a vida nos foi dada por Deus para nosso aprendizado intelectual e crescimento moral, e que deve ser aproveitada ao máximo. Que, se você está neste estado de coma, é que, por algum motivo, precisa ainda desse prazo aqui na Terra, e que ninguém tem o direito de decidir o contrário. Hoje eu sei que nada acontece por acaso, papai, e que esse período é muito importante para você.
Fez nova interrupção, colocou a mão sobre o braço do doente e, ganhando forças, prosseguiu:
— Por isso, humildemente, quero lhe pedir o seu perdão, papai, pois eu não sabia o que estava fazendo. Deus foi muito bom comigo, pois impediu um mal maior, permitindo que você continuasse vivo. Perdoe-me, papai!
Nesse instante, por entre as lágrimas, Adelaide teve a impressão de que o semblante de seu pai ficou mais ameno e que um ligeiro sorriso tinha surgido em seus lábios. Segurou a mão do pai e — coisa extraordinária! — sentiu uma leve pressão dos dedos dele na sua mão.
Forte emoção tomou conta de Adelaide, que se pôs a abraçar e a beijar o pai, chorando convulsivamente:
— Papai! Você me perdoou! Sei que me perdoou. Obrigada! Obrigada!
O médico, que tinha acabado de chegar àquela hora, entrou no quarto e admirou-se ao ver a reação de Adelaide.
— O que houve, Adelaide?
— Fernando, meu pai se comunicou comigo! Ele sorriu e até apertou minha mão! Não é uma alucinação. Eu vi! Eu senti! Ele realmente se comunicou comigo. Isso é possível?
— Sem dúvida! Pode acontecer, sim. Nunca sabemos quando o estado do paciente vai sofrer alteração, para melhor ou para pior. Neste caso, para melhor!
Enquanto examinava João, o médico pediu para Adelaide descrever o que havia acontecido. E ela começou a relatar com entusiasmo a ocorrência. Como Fernando ignorava completamente a participação dela no desligamento dos aparelhos, ela contou apenas que estava falando com o pai, desabafando, sem especificar o assunto.
Os criados, atraídos pelo barulho, correram aos aposentos do patrão, encontrando Adelaide risonha e feliz. Ao serem informados do acontecido, eufóricos, puseram-se a agradecer a Deus pela melhora do enfermo.
Desse dia em diante, Adelaide tornou-se mais tranqüila e mais atenta às necessidades do pai, não se afastando dele um momento sequer.
Quando Humberto se dignou a aparecer, ela o tratou com gentileza, mas sem intimidades. Algo dentro dela se rompera em relação a ele; não sentia mais o mesmo interesse e entusiasmo de antes pelo rapaz. Agora ela o olhava e o via como realmente era: interesseiro, egoísta e manipulador. Ele não a amava de verdade, e Adelaide sentiu-se livre.
Certo dia, sem avisar, Humberto voltou a procurá-la. Estava cansado de evasivas. Telefonava, mas, invariavelmente, a criada informava que Adelaide não podia atender, dando as mais diferentes desculpas: ora porque tinha saído, ora porque estava cuidando do pai, ou qualquer outra justificativa. Por isso, tinha decidido ir sem avisar. Adelaide voltou a recebê-lo com atenção e cortesia, como se faz com qualquer visita, mas se comportou de maneira fria e distante. Quando Humberto tentou abraçá-la, ela o afastou, firme.
— O que aconteceu, minha querida? Não está com saudade de mim? — reclamou ele com voz melosa.
Munindo-se de coragem, Adelaide respirou fundo e considerou:
— Humberto, foi bom você ter vindo. Precisávamos mesmo conversar e colocar tudo em pratos limpos.
Falou longamente com ele, enfatizando a necessidade de terminar a relação. Explicou que já não sentia nada por ele e queria dedicar toda a sua atenção ao pai doente.
Humberto reagiu. Esperava outra atitude da namorada, uma vez que ela, havia algum tempo, mostrava-se distante e desinteressada. Ele porém, contava dissuadi-la com sua presença, com a influência e a atração que sempre exerceu sobre ela. Como Adelaide permanecesse irredutível, desequilibrou-se, perdeu o controle, ficou bravo, agitado, nervoso e sentiu-se impotente diante da firmeza dela.
Quando Humberto ainda tentava convencê-la a mudar de idéia, chegou Fernando. Ao ver os olhares que Adelaide e o médico trocaram, percebeu que não havia mais jeito. Ele era realmente "carta fora do baralho". O rapaz deixou o quarto tremendo de raiva. Não se conformava em perder Adelaide, cuja riqueza tanto o interessava. Além disso, tinha até reservado passagem para a Europa, contando com o dinheiro dela... E agora, tudo caíra por terra!
— Maldito intruso! — resmungou entredentes, encaminhando-se para a porta, a pisar duro.
Após a saída de Humberto, Adelaide respirou aliviada, satisfeita por ter-se livrado do incômodo rapaz.
— Desculpe-me ter entrado assim, sem avisar, Adelaide. Interrompi alguma coisa? — perguntou o médico com delicadeza.
— Não, em absoluto, Fernando. Humberto é alguém que fez parte da minha vida, mas que não me interessa mais. Estava exatamente explicando-lhe que meus sentimentos mudaram, quando você chegou.
— Namorado?
— Sim. Felizmente acordei a tempo. Ele só queria meu dinheiro. Fernando abriu um grande sorriso e fez uma carícia no rosto dela, enquanto dizia:
— Não posso dizer que lamento sua atitude.
Adelaide sentiu-se dominar por grande emoção. Aquele era o primeiro momento mais íntimo que surgia entre eles. Durante os últimos trinta dias, não conseguia pensar em outra coisa. Só tinha olhos para o jovem doutor, cuja presença se tornava cada vez mais freqüente na casa, sendo motivo até de cochichos por parte dos criados, o que a enchia de prazer.
Passaram-se três meses. O estado de João piorou de repente. O médico diagnosticou pneumonia dupla. Alguns dias depois, João se despediu da vida sem voltar à consciência.
Adelaide aceitou o falecimento do pai com naturalidade e fortaleza de ânimo. No velório, os amigos mais chegados, as pessoas que a conheciam, estranharam seu comportamento, tentando saber o que a fizera modificar-se tanto. Estava mais segura, equilibrada e serena, mesmo diante da morte do pai, a quem tanto amava.
Na espiritualidade, a alegria era imensa. João foi recebido com carinho por amigos e familiares desencarnados.
Ao abraçar a esposa, trazia o coração pleno de satisfação.
— Querida Amália! Graças a Deus conseguimos encaminhar nossa Adelaide a novos rumos. Sinto-me aliviado por deixá-la sob os cuidados de Fernando, criatura excelente e que terá todas as condições para ampará-la.
— Sim, meu querido João. Agora que nossa filha encontrou aquele que lhe foi destinado e com quem programou a realização de importante tarefa, teremos algum tempo de paz, que você aproveitará para o refazimento espiritual a que faz jus. Agora, descanse. Teremos bastante tempo para conversar.
João foi colocado numa maça e levado para um local da espiritualidade onde seria atendido e receberia toda a assistência de que precisava. Antes de adormecer, com um resto de consciência, João olhou para a esposa desejando dizer algo. Seu olhar era eloqüente, e Amália entendeu.
— Conheço sua preocupação, meu querido. Quer notícias dos adversários que tanto tentaram prejudicá-lo. Fique tranqüilo. Eles estão sendo socorridos e, quando for possível, poderá vê-los. Agora, pense em você.
João sorriu levemente e murmurou:
— Obrigado.
Capítulo 9
Reflexões
"Aquele que dentre vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra."
JESUS (JOÃO, 8: 7)
Alguns meses depois, estavam todos reunidos na antiga residência de João. Adelaide e Fernando iam se casar. A cerimônia seria simples, porém elegante e de bom gosto. Em virtude do recente falecimento de João, os noivos preferiram uma recepção pequena, para a qual foram convidados apenas os familiares e amigos mais íntimos.
Quase na hora do casamento, uma criada veio chamar Fernando a pedido de Adelaide, que não estava bem. O noivo apressou-se a ir ao encontro da amada. Bateu levemente na porta e entrou no quarto, encontrando-a chorosa. Ainda não estava pronta; vestia apenas um roupão e mostrava-se tensa e preocupada. O noivo abraçou-a ternamente.
— Saudades do pai? Ele certamente estará aqui conosco, minha querida.
Enxugando as lágrimas, Adelaide meneou a cabeça:
— Não, não é por isso, Fernando. É que sinto necessidade de falar com você, contar-lhe um segredo que muito me angustia. Não posso casar-me sem abrir-lhe meu coração.
— Adelaide, nada do que possa me dizer vai mudar meus sentimentos em relação a você. Mas, se deseja desabafar, estou aqui.
Fernando sentou-se na frente dela, segurando-lhe as mãos para transmitir-lhe forças e coragem.
— Pode falar, minha querida. Estou ouvindo.
Com dificuldade, Adelaide começou a contar a ele sobre sua vida desde o princípio. Lembrou a perda da mãe, falou a respeito da doença do pai; a relação com Humberto, seu desejo de liberdade para viajar com o namorado e ser feliz. Depois, veio a parte mais dolorosa.
Respirou fundo e prosseguiu: lembrou como tinha resolvido desligar os aparelhos que mantinham a vida orgânica do corpo do pai, mas que, graças a Deus, não deu certo. Ele continuou vivo.
Após a confissão, não conseguia erguer a cabeça e olhar o noivo nos olhos. Depois de uma pausa, ela comentou:
— Foi exatamente nessa época que você entrou em minha vida, lembra-se? Doutor Monteiro chamou-o para examinar meu pai e, desse dia em diante, senti que você era o homem da minha vida. Meus conceitos mudaram. Passei a conhecer a Doutrina Espírita, e a enormidade do que tinha feito me assustou. Sou uma criminosa, Fernando, e se você não quiser mais saber de mim, posso entender perfeitamente. Tentei muitas vezes encontrar coragem para contar-lhe este segredo, mas não consegui. E você sabe como é... o tempo passa tão rápido que a gente nem percebe. Afinal, chegou o dia do nosso casamento. Eu não podia adiar mais, convencida de que não seria feliz construindo o nosso futuro baseado numa mentira.
Parou de falar. Após alguns segundos, ergueu a cabeça, fitando o noivo que a ouvia calado.
— Fale, Fernando, diga alguma coisa. Se não pode me perdoar, se me julga um monstro, faça o que quiser. Saberei entender. Dispense os convidados. Avise a todos que não haverá mais casamento. Invente uma desculpa qualquer...
Fernando, com os olhos úmidos, murmurou:
— Adelaide, não imagina há quanto tempo espero ouvir isso de você.
— Você sabia? — gaguejou perplexa.
— Intuitivamente, percebi o que tinha acontecido naquela noite. Os aparelhos não se desligam sozinhos. Depois, tive ocasião de ver o espírito de seu pai abalado com seu comportamento, e não tive mais dúvidas...
— Mas... por que não me disse?
— Cabia a você me contar. O segredo era seu, e eu não tinha o direito de tocar no assunto.
-Que vergonha! Você não me perdoará nunca!
— Deus é Pai e quer o melhor para seus filhos, minha querida. Não os premia nem os pune; dá-lhes oportunidade de reparar o erro que cometeram. Se Deus não a condena, também eu não posso fazê-lo. Mesmo porque nossa responsabilidade é sempre proporcional ao conhecimento que tínhamos no momento do fato. E você ignorava tudo sobre espiritualidade, reencarnação, Lei de Causa e Efeito e tantas outras coisas que nos modificam a maneira de pensar, embora soubesse que eutanásia é crime segundo as leis de nosso país. Sua situação só não ficou mais grave, porque seu pai, felizmente, sobreviveu.
— Quer dizer que você me perdoa?
— Nada tenho a perdoar, Adelaide. Agora, lave o rosto, retoque a maquiagem e se vista, porque nossos convidados já devem estar impacientes.
— Sim, meu amor. Obrigada pela compreensão que demonstra diante do meu erro. Antes, porém, gostaria de lhe dizer algo que venho amadurecendo nos momentos de íntima reflexão. Depois que meu pai desencarnou, de certa forma minha existência ficou vazia de atividades.
— E eu não represento nada? — brincou ele.
— Você é tudo para mim, sabe disso, meu querido. Falo de serviço, de objetivo de vida. Daqui por diante, terei os cuidados da casa, naturalmente; todavia, sempre poderei dispor de algumas horas para trabalhar.
— Acho muito louvável, querida. O que está pensando fazer?
— Bem, gostaria de ajudar pessoas que possam estar enfrentando as mesmas dificuldades que meu pai passou, conscientizando famílias da importância da continuidade da vida, essas coisas... O que acha?
Fernando abraçou-a, comovido.
— Creio que encontrou um grande objetivo para sua existência, meu amor. Desde que não se esqueça de mim, naturalmente.
— Nunca... nunca... Ter encontrado você foi o que de mais importante me aconteceu até hoje.
— Então, vamos! Arrume-se, que os convidados já devem estar pensando que não haverá mais casamento!
Meia hora depois, Adelaide desceu. Estava linda no seu vestido branco de noiva e tinha um ar de radiante felicidade.
Todos, encarnados e desencarnados, estavam contentes, vibrando amor e alegria pela vitória alcançada.
O respeito à vida é algo que, se deixarmos de observar, vai nos comprometer gravemente.
Indivíduos materialistas, homens de ciência, equivocadamente, muitas vezes baseiam suas teorias sobre a eutanásia vestindo-as com palavras delicadas e dourando a ação maléfica sob a forma de "morte suave", "morte digna", e afirmando que temos o direito de dispor de nossa vida conforme nossa vontade.
Os que assim pensam cometem terrível engano e serão responsabilizados por suas ações delituosas, uma vez que, não tendo condições de dar a vida, também não têm o direito de tirá-la, nem a própria nem a de outrem.
E essa é uma realidade que salta aos olhos. As leis da grande maioria das nações atestam essa verdade, punindo como crime a interrupção da vida, tanto em casos de aborto quanto em relação à eutanásia.
Que não nos passe pela cabeça cometer um ato tão bárbaro, interrompendo a vida por um minuto que seja. A existência, não importa o tempo que ainda se tenha, seja uma hora, um dia ou um ano, é sagrada e merece ser preservada.
Não conhecemos as razões que determinaram o sofrimento do nosso ente querido, uma vez que ignoramos seu passado. Deus, porém, que é a suprema sabedoria, misericórdia e justiça, que tem a ciência de todas as coisas, não estará lhe dando o que precisa? Tudo tem uma razão de ser e um motivo justo.
O que podemos afirmar com certeza é que aquele período de dores acerbas, de extraordinária importância para o espírito, permitirá que ele deixe esta existência em situação bem melhor do que a que tinha quando aqui chegou. O sofrimento pode associar-se à expiação pela qual o encarnado precisa passar para liberar-se de compromisso assumido anteriormente; ou a uma prova que ele pediu, para verificar se já consegue vencer determinada imperfeição. É irrelevante saber se o sofrimento se refere a expiação ou prova. O que importa é conseguir vencer, tornando-se moralmente melhor.
Não raro, o sofrimento é maior para quem acompanha a dor do outro, como familiares e amigos, do que para quem passa por ele. Normalmente, a assistência dos amigos da espiritualidade é tanta, que o doente vive mais do lado de lá da vida do que do lado de cá. Na verdade, é uma preparação para o retorno ao verdadeiro lar.
Existem casos em que a demora em partir tem relação com a presença de inimigos desencarnados ao pé do leito. Quando o enfermo é espírito bastante comprometido, em virtude de erros cometidos no passado, quando prejudicou muitas pessoas — hoje desencarnadas e que ainda não lhe perdoaram, mantendo-se irredutíveis no mal e no desejo de vingança -, a bondade do Pai faz com que o faltoso permaneça no corpo físico para ajudar aqueles que um dia lesou. Esse tempo, então, é utilizado no socorro a essas entidades obsessoras, de modo que ele, ao voltar à espiritualidade, encontre um caminho mais aplainado. Caso contrário, o recém-desencarnado poderá ficar nas mãos dos seus inimigos e irá sofrer muito mais ainda. Os sofrimentos superlativos que terá de enfrentar no Além-túmulo nem de leve poderão ser comparados aos que ele atravessou no mundo material. A prisão, as torturas, as dores, as necessidades cruciais a que estará submetido, o farão lembrar com saudade do tempo em que estava encarnado e cujas dores lhe pareciam insuportáveis.
Assim, mesmo que o enfermo implore pela sua morte, os familiares e amigos deverão conscientizá-lo de que só Deus poderá libertá-lo do sofrimento. E incutir nele pensamentos de fé e de confiança no Criador, ajudando-o a orar.
Todas as pessoas têm o amparo divino e sempre poderão contar com os recursos do Alto. Todavia, aos espíritas é facultada melhor utilização desses recursos, com maior eficácia, pelos conhecimentos que a doutrina propicia. A prece, quando feita com amor, é veículo de bênçãos infinitas, a qual deverá ser potencializada com a aplicação de energias por meio do passe e da água fluidificada, momento em que o Alto aproveitará para socorrer o necessitado, proporcionando-lhe mais paz, tranqüilidade, confiança e amenizando-lhe as dores.
Uma coisa é certa: mesmo que o organismo do enfermo esteja em estado de vida vegetativa ou de coma, não importa, e que a ciência julgue que ele não mais ali está, mas somente o seu corpo físico, mantido vivo unicamente com a ajuda de aparelhos, mesmo assim, o espírito continua ligado àquele corpo, aguardando a decisão do Criador.
Há a crença, entre os profissionais da saúde materialistas, de que, pelas conquistas da ciência, a vida corporal poderá ser mantida por tempo indefinido. 12
12.
No entanto, se enganam esses profissionais, pois em vários casos, depois de desligados os aparelhos, o veículo físico continuou vivo. Se assim ocorreu, mesmo nos aparelhos, é porque ainda existe fluido vital, e o espírito — responsável e inquilino daquele corpo — ainda estava ligado ao organismo pelo seu envoltório semimaterial ou perispírito.13
A grande verdade é que, nesses fatos, vemos a presença de Deus. Só a vontade divina tem condição de saber o que o espírito precisa ou o que merece.
Pense nisso!
Capítulo 10
O jogo de futebol
12 Ver O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, questões de 61 a 67 e de 154 a 162, Petit Editora. 13 O Conselho Federal de Medicina estabeleceu, em 1991, por meio da Resolução nº 1346, que a morte encefálica corresponde a um estado definitivo e irreversível de morte, condição que permite, sem dúvida, a retirada de órgãos para transplantes. Morte encefálica significa que as estruturas vitais do encéfalo, necessárias para manter a consciência e a vida vegetativa, encontram-se lesadas irreversivelmente. Em outras palavras, o tronco cerebral não funciona, não existe mais a atividade cerebral, há total ausência de circulação sangüínea no cérebro e o eletroencefalograma mostrará o silêncio elétrico cerebral. Não confundi-la com estado vegetativo, pois neste uma parte do cérebro ainda funciona, visto que a lesão terá atingido parte das células neurológicas, mas não as estruturas do encéfalo.
"Por que a vida ê muitas vezes interrompida na infância?"
"A curta duração da vida de uma criança pode ser, para o Espírito que nela está encarnado, o complemento de uma existência anterior interrompida antes do tempo. Sua morte é, muitas vezes, também uma provação ou uma expiação para os pais."
(O LIVRO DOS ESPÍRITOS, ALLAN KARDEC, QUESTÃO 199)
Cheio de alegria, Carlinhos preparou tudo o que precisava. Vestiu a camisa do time do coração, pegou a bandeira, um boné e correu para a sala.
— Papai, estou pronto!
— Então vamos. Temos um longo trajeto pela frente e quero achar um bom lugar para assistirmos ao jogo.
O garoto despediu-se da mãe, que recomendou:
— Tenham cuidado! Fuja de confusão, Jairo. Sabe como é... Futebol pode acabar em briga, especialmente esse jogo que é decisão de campeonato. Temos visto tantas notícias de violências!...
Jairo abraçou a esposa, serenando-lhe o espírito:
— O que é isso, Marta? Não se preocupe! Sei tomar conta de nosso filho. E, afinal, ele já é um rapazinho de sete anos! No final da tarde, estaremos de volta com uma pizza e refrigerante para comemorar a vitória do nosso time, não é Cadinhos?
O garoto sorriu. Marta, porém, não estava tranqüila. Com o coração apertado, viu os dois se dirigirem até o ponto do ônibus. Não gostava de futebol, porém não tinha o direito de impedir Cadinhos de sair com o pai, especialmente para assistir a um jogo do Tricolor, do qual era torcedor fanático.
Entrou em casa e logo, envolvida com o serviço doméstico, esqueceu-se do assunto. Era domingo, considerado dia de descanso, mas ela tinha uma pilha de roupas para passar.
Rumo ao campo, Cadinhos ia eufórico. Tudo era novidade. Pela primeira vez, iria assistir a um jogo no campo. Estava acostumado a ver partidas pela televisão, porém agora era diferente.
Aproximando-se do local, a multidão impressionou o garoto. Como o pai tinha comprado os ingressos com antecedência, entraram sem grande dificuldade, apesar da aglomeração no portão de entrada. — Viu, filho, como foi bom ter comprado os ingressos antes? Esses torcedores querem entrar e não podem porque a lotação do estádio está completa.
Assim falando, o pai agarrou a mão do menino para não correr o risco de se perderem um do outro na multidão, enquanto caminhava apressado. Cadinhos, quase arrastado, nem via por onde estavam andando, pois, como era pequeno, só enxergava homens grandes à sua volta. Quando afinal encontraram um bom lugar na arquibancada, Cadinhos sentou-se e só então conseguiu olhar em torno. Prendeu o fôlego. A vista do estádio enorme, o barulho ensurdecedor da multidão, as bandeirinhas tremulando, o colorido das torcidas, fizeram com que seu coração batesse mais forte. Era um espetáculo impressionante!
— E então, meu filho? O que acha?
Com os olhos úmidos de emoção, o menino olhou para o pai.
— Papai, eu jamais vou esquecer este dia em toda a minha vida. Obrigado. Aconteça o que acontecer, papai, lembre-se de que este é o dia mais importante da minha vida.
Jairo percebeu que o filho estava emocionado. No olhar do garoto notou um brilho diferente como jamais tinha visto. Por um momento, sentiu como se aquilo fosse uma despedida, como se estivesse para perder seu filho.
Que bobagem! — pensou.
Depois, com um nó na garganta, quase sem poder falar, disse:
— Isto não é nada, Cadinhos! Espere para ver quando o nosso time entrar em campo.
E, realmente, o garoto prendeu a respiração quando o Tricolor pisou no gramado. Fogos de artifício estourando, a gritaria da torcida, que se tinha colocado de pé, davam a impressão de que o estádio viria abaixo.
O jogo começou e Cadinhos concentrou-se na partida. No intervalo, o pai comprou um saco de pipocas e refrigerante. Era preciso relaxar. O time não estava jogando bem, embora o placar marcasse 1 a 0 para o Tricolor.
No segundo tempo, a situação se complicou. Um jogador do Tricolor se desentendeu com outro do time adversário, e a agressividade explodiu no gramado. Com os ânimos à flor da pele, a violência foi aumentando entre os jogadores, tanto que o árbitro, sem muita experiência, não teve pulso para controlar a situação. De repente, a um golpe mais forte, um jogador caiu no chão, desacordado.
O juiz apitou, paralisando o jogo. Correu para verificar o que aconteceu. O jogador continuou imóvel no meio do campo. Os demais jogadores se aproximaram e, de um lado e de outro, passaram a se agredir, acusando-se mutuamente. Golpes, bofetões, pontapés surgiram — agora sem a bola, com violência explícita -, e a confusão armou-se.
Os policiais responsáveis pela segurança entraram em campo e cercaram os agressores. Prenderam alguns jogadores mais violentos e membros da torcida que tinham invadido o campo. Contudo, eram impotentes para conter a enxurrada de gente que, deixando as arquibancadas, derrubaram o alambrado e partiram para a briga dentro do gramado.
A polícia pediu reforços. O jogo foi suspenso. Não havia condição de dar prosseguimento à partida. Carlinhos estava assustado. Sem que se soubesse como, surgiram pedras e paus nas mãos de torcedores, que se agrediam. De longe, Jairo e Carlinhos viam pessoas feridas, algumas sangrando, caídas no gramado; além de outras, atropeladas pela multidão enfurecida. Viam também inúmeros torcedores sendo levados presos para os camburões da polícia.
A ambulância entrou em campo e o atendimento de urgência começou. Mas era precário, ante a necessidade do momento. Médicos e enfermeiros que estavam na assistência, bem como outros torcedores, se apresentaram para socorrer os feridos, sendo que muitos destes, pela gravidade do quadro, eram encaminhados para o hospital mais próximo.
Jairo, preocupado e inquieto pela segurança do filho, pegou Carlinhos pelo braço e, ao ver que a situação tendia a se complicar ainda mais, correu em direção à saída:
— Vamos, meu filho! E perigoso ficar aqui. Vamos, rápido!
O acesso à saída, porém, não estava fácil. Pelos corredores, a mesma confusão. Todo mundo querendo sair ao mesmo tempo, o que dificultava a passagem. Afinal, quando ultrapassaram os portões e chegaram à rua, Jairo respirou, aliviado.
— Graças a Deus! — murmurou.
Andaram apressados até o ponto do ônibus. Contudo, também na via pública as coisas estavam agitadas. Tinham caminhado aproximadamente uns cem metros, quando viram alguns torcedores brigando; ao mesmo tempo, com alívio, notaram a polícia que chegava, trazendo reforços, com os cassetetes em punho, prontos para enfrentar os rapazes. Nesse momento, um dos contendores tirou uma faca que trazia escondida na bota; um dos policiais percebeu a manobra e, imediatamente, sacou o revólver e mirou o rapaz, que se virou. O policial acompanhou seu movimento e atirou. A vista do perigo, Jairo segurou com força a mão do menino e, assustado, jogou-se no asfalto ao mesmo tempo que gritou:
— Pro chão, meu filho!
Tarde demais, porém. O projétil atingiu Carlinhos em pleno peito. O menino caiu, desamparado.
Num primeiro momento, Jairo não percebeu o que tinha acontecido. Depois, viu seu querido filho caído no chão, a seu lado, em meio a uma poça de sangue. Começou a gritar, desesperado:
— Socorro! Acudam! Meu filho foi atingido!
Os policiais ouviram os gritos, perceberam o drama ocorrido e apressaram-se a socorrer o garoto. Ambulâncias chegaram, atendendo ao alerta que fora expedido pelas autoridades. A primeira delas foi interceptada pelos policiais, e Carlinhos prontamente foi conduzido para o hospital mais próximo, inconsciente.
Jairo acompanhou-o na ambulância. Desnorteado, confuso, não conseguia entender o que havia acontecido. Carlinhos foi levado às pressas para o centro cirúrgico.
Só restava aguardar. Na sala de espera, Jairo lembrou-se da esposa. Fez uma ligação, e, não muito tempo depois, a esposa chegou apavorada.
Ao vê-la, Jairo abraçou-a com desespero.
— Perdoe-me, Marta. Foi culpa minha. Não devia ter levado nosso filho ao jogo.
— Como está ele? — ela balbuciou num fio de voz. Limpando as lágrimas, Jairo respirou fundo e conseguiu responder:
— Não sei. Ninguém diz nada, nenhuma informação por enquanto. Temos de aguardar.
Marta entrou em estado de choque; nem pôde falar. Apenas os olhos retratavam a dor que estava sentindo. No fundo, durante todo o dia, ela tinha se preparado para o que ia acontecer.
Eles se acomodaram num banco e se dispuseram à longa espera. Duas horas depois, um médico se aproximou.
— E então, doutor? Como está nosso filho? — perguntou Jairo.
— Lamento. Ele não resistiu.
O mundo desabou sobre a cabeça dos pais. O filho querido, a luz de seus olhos, não existia mais. Uma bala perdida pusera fim a uma vida plena de esperanças e alegrias.
Após o enterro, a vida do casal mudou radicalmente. Não tinham mais razão para lutar, para viver, para trabalhar, para nada.
Jairo e Marta, que eram tão ligados, que possuíam tantas afinidades, afastaram-se. Já não encontravam mais satisfação na companhia um do outro.
Na verdade, Marta não conseguia perdoar Jairo pela morte do filho. Considerava-o culpado por ter levado o menino ao campo, acusando-o diretamente pela morte do garoto.
Jairo, por sua vez, tentava conversar com a esposa, explicar em detalhes o que tinha acontecido, que ele fizera tudo para proteger o filho, que fora uma fatalidade, mas ela se recusava a falar com ele, a ouvi-lo. E, no íntimo, ele também se sentia culpado. Se não tivesse tido a infeliz idéia de levar Cadinhos para assistir àquela partida, tudo seria diferente. Acompanhariam o jogo pela televisão, como tantas outras vezes fizeram. Tranqüilamente acomodados no sofá da sala, comeriam pipocas, tomariam refrigerantes, e o filho querido ainda estaria vivo.
Lembrava-se das cenas de violência que presenciara; pessoas batendo em outras pessoas; jovens gritando, xingando e esmurrando outros jovens; mãos que surgiram portando pedras, pedaços de concreto, de madeira e de metal — provavelmente da queda do alambrado — e que atacavam indiscriminadamente criaturas indefesas, que não estavam envolvidas na briga, que apenas observavam a confusão, tal como ele. Mas como as pessoas chegam a esse nível de violência?
Nos seus momentos de reflexão, Jairo lembrava-se dos dias em que ele também tinha dito palavrões, xingado a mãe do juiz e dado vazão a instintos brutais, colocando para fora tudo o que trazia dentro de si, enfim comportando-se exatamente como qualquer outro torcedor. E o mais grave é que até se vangloriava disso na roda de amigos, ou mesmo em família, afirmando que essa atitude era positiva porque descarregava as tensões. Dizia também que depois voltava para casa mais tranqüilo e em condições de enfrentar os problemas do dia-a-dia. Reconhecia que nesse último jogo fora diferente porque, como estava acompanhado de Cadinhos, não quis dar mau exemplo ao filho, comportando-se de maneira civilizada. Só por isso.
Agora, refletindo sobre o assunto, pensava se também não havia colaborado para que a violência eclodisse no campo. No fundo, todos haviam colaborado, inclusive ele. Talvez não nessa oportunidade, mas em muitas outras.
E os cônjuges cada vez mais se afastavam um do outro, ficando em cantos diferentes da casa, entregues aos próprios pensamentos, chorando e lembrando do filhinho que tão cedo os tinha deixado.
Os amigos mais chegados se preocupavam com a situação, mas nada podiam fazer para ajudá-los.
E além de todo o sofrimento, ainda havia a imprensa, que não lhes dava tréguas, batendo à porta da casa, tocando a campainha, ou procurando Jairo na empresa onde ele trabalhava. Queriam detalhes, lembrar o acontecimento, expor ao público a dor dos pais.
Marta e Jairo não podiam sair de casa, que topavam com os repórteres. Já tinham dado entrevistas, falado do assunto, mas eles queriam mais, sempre mais.
Certo dia eles não conseguiram impedir que esses profissionais entrassem em sua casa. A moça que passara a ajudar Marta nos serviços domésticos — filha de uma vizinha que se condoera da situação dela, depressiva e incapaz de fazer serviço algum —, jovem e inexperiente, não conseguiu evitar a invasão. Diante do inevitável, Jairo e Marta aceitaram voltar ao assunto.
Sentaram-se na sala, lado a lado. Os repórteres, com microfones e câmeras funcionando, flashes espocando de todos os lados, começaram a entrevista.
— Como estão se sentindo? — perguntou um deles, mostrando total insensibilidade diante do sofrimento e da tragédia que se abatera sobre o casal.