Só o Amor Liberta
Os pais de Juliana ajudaram-na a se…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Sentou-se na sala e ligou a televisão. Assistiu ao jornal e acabou cochilando. Acordou com a sensação de que havia mais alguém em casa.
Deve ser o Rúdi. Foi até a cozinha e encontrou o filho com a porta da geladeira aberta, tomando água no gargalo da garrafa. Ia corrigi-lo, porém achou melhor ficar calada.
O rapaz olhou a mãe e, sem dizer palavra, pegou a embalagem de leite, o pão, um pote com geléia de laranja e colocou na mesa. Depois, sentou-se e começou a comer. Havia tal rusticidade nas atitudes dele, uma grosseria tão grande nos gestos, que Manuela ficou horrorizada.
Rúdi era alto, rosto bem-feito, olhos escuros e cabelos ondulados; seu sorriso cativante conquistava as garotas. Uma sensação de orgulho materno a envolveu.
Meu filho é lindo!
De relance, Rúdi olhou para a mãe, que continuava parada na porta.
— O que foi, nunca viu? — perguntou, irritado.
— Calma, meu filho. Não quero brigar com você. Como foi na escola hoje? — disposta a não responder à provocação, ela acalmou-o com voz serena, tentando entabular um diálogo.
— Uma droga. Não vou mais à escola.
— Por que, meu filho? Você sempre gostou de estudar, dos seus amigos, dos professores. O que houve?
— Tudo isso é culpa sua, maldita. Detesto você. Tudo o que estou passando é por sua culpa — acusou-a com voz grossa e de tonalidade rouca.
— Meu filho!... O que é isso? Como pode falar assim com sua mãe? — reagiu, indignada.
— Cale-se. Não fale comigo. Não sou seu filho. Nunca mais me chame de filho. Você vai ter de pagar por tudo o que me fez. Entendeu?
Ele levantou-se, dirigindo-se com passos duros e pesados para a porta da rua. Manuela foi atrás dele, suplicando:
— Meu filho, volte. Vamos conversar. O que é que eu fiz? Por favor, Rúdi, volte. Não me deixe assim sem uma explicação.
Tudo inútil, porém. Rúdi já tinha saído batendo a porta com violência. Manuela jogou-se no sofá desesperada, em prantos.
Quando o esposo voltou para casa, encontrou Manuela de olhos vermelhos, rosto inchado, ainda chorando. Ela contou o que tinha acontecido entre eles, as palavras incompreensíveis que ele dissera, falou sobre os hábitos estranhos dele, suas maneiras grosseiras.
— Querida, não está exagerando? Além disso, tomar água e leite no gargalo é comum na adolescência! — considerou ele, tentando contemporizar.
— Não para nosso filho, Matias. Não foi essa a educação que lhe demos. Além disso, Rúdi nunca agiu assim antes. Você o defende porque não viu como ele me tratou. Acusou-me de alguma coisa. Disse que vou pagar por tudo o que lhe fiz. Chegou a chamar-me de maldita! Não entendi nada. Ah, também disse que detesta a escola e não ia mais às aulas. Você acredita numa coisa dessas?
Matias sorriu, conciliador.
— Talvez você não tenha entendido direito, querida. Quem sabe você esteja com uma visão distorcida da realidade? Tenha mais paciência com ele. Talvez Rúdi tenha tido um dia ruim e sinta-se irritado. Só isso.
— Visão distorcida da realidade? Você quer dizer o quê com isso? Que estou ficando louca? Ou que não estou escutando direito? A culpa, então, é minha? — reclamou ela surpresa e indignada com a reação do marido.
Matias colocou-lhe a mão na cabeça, acariciando-lhe os cabelos, conciliador:
— Talvez eu tenha me expressado mal. Vamos, não se aflija sem motivo, Manuela. Nosso filho sempre foi um bom menino. Olhe, prometo-lhe que vou conversar com ele assim que surgir a ocasião.
— Promete?
— Prometo. Acho que está estressada. Fique tranqüila e não trabalhe tanto. Relaxe.
Estressada, eu? Agora a culpa é minha? Essa é boa!
Quando Rúdi chegou, tarde da noite, o pai estava acordado esperando para falar com ele. Conversaram. Matias achou o filho normal, como sempre.
— Meu filho, sua mãe disse que você a destratou hoje.
— Não, pai, não foi nada disso. O senhor sabe como a mamãe é, fica cobrando, reclamando, e tem horas que não agüento.
— Eu sei, filho, mas tenha paciência com ela. Evite discussões.
— Mas não discuti com a mamãe, pai! — retrucou o rapaz, inconformado.
— Está bem, meu filho. Eu entendo. Mas evite brigas. Agora, vamos dormir que já é tarde.
Despediram-se e Matias foi para seu quarto. Manuela, que aguardava acordada, quis saber:
— E daí? Falou com ele? Como foi a conversa?
— Foi boa. Ele prometeu que vai tomar jeito. Agora, durma. Deve estar cansada.
Desse dia em diante, as coisas se complicaram. As brigas se tornaram mais freqüentes, os desentendimentos mais sérios. Rúdi a cada dia mostrava-se mais grosseiro e agressivo.
Geralmente, na presença do pai, comportava-se bem. Era a mãe ficar sozinha e ele se transformava. Manuela parou de reclamar para o marido, vendo que ele não lhe dava crédito. Talvez até a julgasse louca pelo modo como a olhava em determinados momentos.
Manuela estava cada vez mais desesperada. Perdida, sem saber o que fazer ou a quem recorrer, sentia-se escorregando para um abismo fundo e amedrontador, que a estava engolindo, sem que pudesse reagir.
Capítulo 28
Visita oportuna
"Seja o que for que peçais na prece, crede que o obtereis e concedido vos será o que pedirdes."
JESUS (MARCOS, 11: 24)
Dois meses se passaram. Certa ocasião, Manuela estava sozinha em casa e chorava na sala, sem saber o que fazer, inconformada com as atitudes do filho, cada dia pior. Nisso, ouve a campainha da porta. Uma vez, duas vezes. Na terceira vez, como a pessoa não desistisse, enxugou os olhos e foi atender.
— Olá, Manuela, boa tarde! Cheguei em momento errado?
— Não, Terezinha. Entre, por favor. Como vai? Desculpe a demora em atender.
A recém-chegada entrou sorridente.
— Tudo bem por aqui?
— Tudo bem. Você veio experimentar seu vestido? — perguntou Manuela, tentando disfarçar seu estado de espírito.
— Isso mesmo. Tinha esquecido e somente hoje me lembrei.
— Está pronto para a prova. Vamos até minha sala. Acompanhando a dona da casa, Terezinha sentia-se preocupada.
Ao chegar, quando Manuela abriu a porta, imediatamente notou que ela estivera chorando. O rosto inchado e os olhos vermelhos eram vestígios difíceis de ser ignorados. De temperamento afável, naturalmente alegre e bem-disposta, nesse dia achou-a triste e melancólica.
Experimentando a roupa, observava Manuela que se controlava com dificuldade, parecendo prestes a cair no choro. Com delicadeza, Terezinha indagou:
— Desculpe se sou indiscreta, Manuela. Mas está acontecendo algo? Você não me parece bem...
Manuela, que, naquele momento, marcava a altura da barra da saia com alfinetes, confessou:
— Estou passando por alguns problemas difíceis, Terezinha. É tão evidente assim?
— Talvez não para outras pessoas, minha amiga, mas como a conheço de longa data, não pude deixar de perceber. Você sempre foi alegre, risonha, dinâmica. Notei-a o oposto de tudo isso: está triste, séria e parece cansada, sem disposição.
— Pois é exatamente como me sinto. Um trapo.
— Não foi isso o que eu quis dizer — explicou Terezinha, sorrindo.
— Mas é a pura verdade. Você não imagina como tenho sofrido. Depois, voltando a uma atitude mais profissional, Manuela perguntou:
— Está bom neste comprimento?
— Sim, está perfeito.
Nada mais havendo a observar, Terezinha tirou o vestido.
Ambas deixaram a sala de costuras e Manuela levou a amiga para a cozinha e colocou água no fogo para fazer um chá. Enquanto esperava a água ferver, pegou as xícaras e um pote com biscoitinhos de nata. Depois, coou o chá e sentaram-se para conversar. Respirando fundo, Manuela contou à Terezinha o problema que estava passando dentro de casa.
A outra ouviu com interesse, sem interromper. Depois de desabafar, Manuela concluiu, afirmando em lágrimas:
— Eu precisava mesmo falar com alguém, colocar para fora tudo o que tem acontecido durante esses últimos meses e que tenho guardado dentro de mim. O pior, Terezinha, é que esse estado de coisas está me deixando doente. Tenho dores no corpo inteiro, sem explicação. Nunca tive problemas de saúde, nem gripe pego!
Terezinha pensou um pouco e considerou:
— Não sei se você acredita no que lhe vou dizer, Manuela. Porém, já lhe passou pela cabeça que pode ser um problema espiritual?
— Como assim? — indagou a outra, surpresa.
— Bem... você mesma disse que seu filho parece outra pessoa. Não é verdade?
— Sim. Fala de coisas que eu teria feito e de que não me lembro. Sua conduta, suas maneiras, sua voz, tudo está diferente nele. De outras vezes, especialmente com o pai, parece o mesmo de sempre. Estou a ponto de enlouquecer! Acho até que Matias julga que estou louca.
— Pois é. E se não for realmente ele?
— Explique-se melhor, Terezinha. Não entendi.
— E se quem estiver fazendo cobranças a você não for realmente seu filho?
— Aí, eu enlouqueço de vez — respondeu, arregalando os olhos.
Terezinha acomodou-se melhor na cadeira e, pensando um pouco, explicou:
— Manuela, nós somos amigas há anos e nunca falamos sobre religião, porém eu sou espírita.
Diante da expressão assustada da dona da casa, ela esclareceu:
— O Espiritismo é uma Doutrina codificada por Allan Kardec, um pedagogo francês do século 19. Não se trata de uma seita afro-brasileira, Umbanda ou Candomblé. Vou explicar-lhe direitinho.
Terezinha falou dos postulados da Doutrina, da imortalidade da alma e da meta que é a evolução; falou da comunicabilidade entre os dois mundos e sobre as vidas sucessivas, como uma conseqüência lógica da imortalidade e do progresso. Afirmou também que, nessas múltiplas existências, fazemos o bem e o mal, adquirindo com nossas atitudes afetos e desafetos. Aqueles que nos querem bem procuram nos auxiliar, secundando-nos na vida e tornando-se anjos da guarda, espíritos protetores, amigos espirituais, benfeitores enfim. Aqueles a quem fizemos mal e que, portanto, não gostam de nós, tentam nos prejudicar, vingando-se, para que soframos o que os fizemos sofrer.
A essa altura, Manuela que ouvia calada e cada vez mais interessada, sugeriu:
— Você quer dizer que junto de Rúdi pode ter alguém que já morreu e que é um inimigo meu?
— Exatamente.
Manuela refletiu por alguns instantes, depois disse:
— Faz sentido. Sua teoria explicaria por que ele parece ser outra pessoa e age de modo tão estranho, grosseiro mesmo. Supondo-se que isso seja verdade, por que normalmente não acontece quando meu marido está perto?
— Porque, provavelmente, Matias tem ascendência sobre ele. Ademais, o problema dele é com você, não com seu marido, segundo o que me contou.
— Tem razão.
Manuela estava surpresa e maravilhada. Terezinha lhe apresentara coisas de que nunca tinha ouvido falar antes. Era um novo mundo de idéias e conhecimentos que se abriam à sua frente. Verdade ou não, explicaria muitas coisas.
Manuela refletiu um pouco, depois perguntou interessada:
— Terezinha, tudo o que você me disse tem lógica. Então, se tudo isso for verdade, o mais importante para mim no momento é saber como posso resolver esse problema.
Com delicadeza e seriedade Terezinha explicou:
— Manuela, em primeiro lugar, é importante você entender que, quem estiver ao lado de seu filho, seja quem for, é um irmão nosso que precisa de ajuda. E alguém que foi prejudicado no passado e que agora deseja se vingar de você. Não é um estranho, geralmente. E alguém muito ligado à sua vida e que se considera seu credor.
— Faz sentido — murmurou Manuela. — Meu filho, ou seja quem for, sempre diz que vou pagar por tudo o que o fiz sofrer.
— Exatamente. É alguém que, muitas vezes, foi da nossa família e que traímos, prejudicamos, roubamos, destruímos a existência, e muito mais. Quem sabe o que já fizemos? Então, para que você e seu filho sejam ajudados é imprescindível socorrer o desencarnado antes. Caso contrário, ele continuará em seu processo de vingança.
— Entendo. E como se faz isso? Isto é, como ajudar essa alma penada?.
Terezinha sorriu ao vê-la se utilizar de uma expressão corrente no vulgo.
— Essa "alma penada" como você diz, é um espírito como nós; a única diferença é que já deixou o corpo material que usava quando aqui na Terra. Para ajudar, se faz preciso, em primeiro lugar, manter o pensamento elevado. Você tem uma religião? Costuma orar?
— Sou católica por tradição, mas raramente assisto missa ou vou à igreja rezar. Mesmo porque não tenho tempo.
— Tempo é algo que se arruma quando se quer, Manuela. Para orar não é preciso gastar muito tempo, poucos minutos bastam. Além disso, você pode orar em casa mesmo, varrendo, costurando, cozinhando. Se seu pensamento estiver elevado, sua prece é válida esteja você onde estiver, independente do que está fazendo. O que importa é a intenção. Também seria importante — isto é, se você concordar — fazermos uma reunião, aqui em sua casa, que chamamos de Evangelho no Lar. Essa providência irá ajudá-la bastante.
— Sem problemas. E quando podemos fazer isso?
— Vamos estudar um dia da semana e um horário que não atrapalhe outras obrigações já estabelecidas. Disponho ainda de algum tempo e, se você quiser, agora mesmo podemos orar em conjunto.
— Ótimo! Já me sinto mais esperançosa.
Terezinha pediu licença e foi até o carro buscar O Evangelho Segundo o Espiritismo. Retornando, ela solicitou à dona da casa que trouxesse uma jarra com água pura e dois copos. Em seguida sentaram-se em torno da mesa da cozinha para orar.
Terezinha pediu que Manuela abrisse o livro ao acaso. A página mostrava a abertura do capítulo 6, cujo título é "O Cristo Consolador", e a página, "O jugo leve". Manuela leu o texto deixando que aquelas palavras impregnassem seu íntimo.
"Vinde a mim, vós todos os que andais em sofrimento e achais carregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis repouso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve. (Mateus, 11:28 a 30)"
Ao terminar de ler todo o texto, Manuela sentia-se mais leve e tranqüila. As palavras de Jesus eram confortadoras e davam-lhe esperança, confiança e paz.
Terezinha teceu alguns comentários sobre a vida futura, a que Jesus se refere no texto, e, em seguida, fez uma prece de agradecimento, suplicando ao Mestre que amparasse a família, especialmente o jovem Rúdi e os desencarnados que porventura estivessem junto com ele, e impregnasse toda a casa com eflúvios balsâmicos e renovadores.
Ao terminarem esse primeiro Evangelho no lar, Manuela sentia-se outra. Estava maravilhada. Um bem-estar enorme inundava-lhe o íntimo fazendo-a ver as coisas com muito mais clareza e serenidade.
Agradeceu à Terezinha o auxílio que lhe dera naquela tarde, perguntando:
— O que mais posso fazer para que a situação melhore?
— Essa sua disposição, Manuela, já é de grande ajuda. Procure manter o ambiente da sua casa sempre saudável, pela elevação mental. Conservar o otimismo, o bom ânimo e a confiança em Deus, pois representam cuidados básicos para que todos possam sentir-se bem dentro de casa. Quando seu filho estiver para chegar, ou quando se lembrar dele durante o dia, faça uma prece, mesmo rápida, pedindo a Deus que o abençoe.
— Só isso?
— Por enquanto, só. Deixarei este livro com você para que o leia sempre que tiver vontade ou quando não estiver bem. Depois, voltaremos a conversar.
Terezinha saiu, deixando a amiga com outra disposição.
Ainda teria outras importantes informações para passar-lhe, porém preferia dar tempo para que Manuela assimilasse tudo o que ouvira naquele dia. A terapêutica espírita teria de ser aplicada para um melhor resultado, contudo desejava que ela mesma sentisse a necessidade de procurar ajuda.
Enquanto isso, na reunião da casa espírita que freqüentava, iria pedir vibrações a benefício daquela família.
No dia seguinte, Manuela telefonou-lhe informando que a costura estava pronta. Poderia ir buscá-la à tarde.
Terezinha entendeu que a outra tinha pressa em conversar com ela novamente e foi logo perguntando:
— Como estão as coisas, Manuela?
— Maravilha! Conversaremos quando vier buscar o vestido. Mais tarde Terezinha dirigiu-se à casa da costureira. Ao ver
Manuela, que atendeu à porta, notou a mudança que se operara. Fisionomia radiante, ela trazia um largo sorriso na face e um brilho nos olhos.
— Minha amiga, seja bem-vinda! Não sabe o bem que me fez. Abraçou a recém-chegada com imenso carinho.
— Você mudou minha vida! Nem sei como lhe agradecer! — dizia eufórica.
Terezinha cortou aquelas efusões, serenando-a:
— Calma, Manuela. Primeiro, eu nada fiz. Simplesmente orei com você. Tudo o que você possa ter recebido veio do Alto, da ajuda de Deus, de Jesus.
— Sim, mas seja o que for não importa. Você não acredita! Ontem, quando estava na hora de meu filho chegar, fui para meu quarto e li uma página do Evangelho, depois fiz uma oração. Ele entrou em casa completamente diferente, voltou a ser o que era. Nem acredito que tudo passou!
Terezinha levou-a para o sofá e fez com que ela se sentasse, segurando-lhe as mãos entre as suas.
— Manuela, as coisas não são tão simples assim. É todo um processo que precisa ser revertido. Ninguém muda da noite para o dia. Certamente, o acompanhante de Rúdi deve ter sido afastado para que seu filho tenha demonstrado essa melhora, porém o processo é longo e difícil. Temos todo um caminho a percorrer. Não estranhe, até, se Rúdi tiver uma reação e ficar pior. É normal nesses casos. Acontece que, ao perceber que estão perdendo terreno, os inimigos desencarnados reagem com nova ofensiva. Tudo isso, porém, está previsto e não nos assusta.
— Você acha mesmo? — indagou Manuela, preocupada.
— Acho. Então, você precisa se fortalecer, estudando o Espiritismo para entender o que está acontecendo aqui dentro da sua casa e com seu filho, se quiser realmente ajudá-lo.
— Estou disposta a tudo. O que devo fazer? Percebendo-lhe a firmeza, Terezinha prosseguiu:
— Muito bem. Então, temos que agir. Venha comigo ao centro espírita. Aos sábados temos uma reunião com palestra, sempre de conteúdo evangélico e, depois, são aplicados passes. Você vai gostar; além disso, terá ocasião de ver como trabalhamos.
— Existem outras reuniões?
— Sim. Temos todos os dias ocupados com cursos, reuniões mediúnicas e assistência social.
Combinaram que, no sábado, meia hora antes do horário marcado para início das atividades, Terezinha passaria na casa de Manuela para irem juntas à reunião.
Manuela sentiu-se muito bem na casa espírita. Gostou bastante da palestra, cujo tema enfocou os relacionamentos familiares, o que parecia que lhe fora particularmente endereçado. Especialmente, guardou o que o palestrante tinha afirmado: o melhor antídoto para qualquer problema é o amor.
Logo após o passe, a reunião foi encerrada. Manuela experimentava um bem-estar que havia muito não sentia. Notava-se mais fortalecida, confiante e desejosa de trabalhar a benefício de todos.
Uma nova esperança inundava seu íntimo de felicidade e paz.
Capítulo 29
Tudo se encaixa
"O sono é o repouso do corpo; o Espírito, porém, não tem necessidade de repouso. Enquanto os nossos sentidos físicos estão adormecidos, a alma se liberta em parte da matéria e assume o domínio de suas capacidades espirituais. O sono foi dado ao homem para a reposição das forças orgânicas e das forças morais. Enquanto o corpo recupera as energias que perdeu pela atividade no dia anterior, o Espírito vai fortalecer-se entre outros Espíritos. As idéias que encontra ao despertar, em forma de intuição, ele as obtém do que vê, do que ouve e dos conselhos que lhe são dados. Equivale ao retorno temporário do exilado à sua verdadeira pátria, como um prisioneiro momentaneamente libertado."
(O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 28, ITEM 38)
Naquela noite, Manuela foi deitar pensativa.
Por tudo o que já lera sobre Doutrina Espírita, que não era muito, juntando com o que Terezinha lhe explicara e acrescentando ainda a palestra que ouvira na casa espírita, podia ter uma noção mais clara da situação.
Terezinha afirmou que os espíritos continuam nos vendo e pensando como éramos no passado. Então, se prejudiquei alguém, certamente esse alguém estará com raiva de mim. E com toda razão. Jesus ensina que devemos nos colocar no lugar do outro, e, em caso de dúvida, é o que sempre faço. Então, se eu, Manuela, estivesse no lugar do desencarnado, como estaria? Com certeza, com o mesmo ódio que ele demonstra agora, tentando fazer justiça.
Refletindo sobre o assunto, Manuela decidiu que, se o caminho era o amor, desse dia em diante ela procuraria mudar. Faria orações pelo desafeto desencarnado sempre que se lembrasse dele, e, ao encontrar-se com Rúdi, procuraria demonstrar amor, exatamente o que não conseguia fazer desde que tudo tinha começado. Como Rúdi estivesse sempre com uma pedra na mão, disposto a atacá-la, agredi-la com palavras, acusando-a de alguma coisa, ela se afastara dele até por temer os encontros — sempre extremamente difíceis -, que a deixavam aflita e angustiada.
Assim, no dia seguinte, quando o filho se levantou, Manuela muniu-se de coragem para enfrentar a rejeição que ele sentia. Aproximou-se como se nada estivesse acontecendo, envolveu-o com olhar carinhoso e perguntou, afável:
— Bom dia, meu filho. Dormiu bem?
— Pessimamente — grunhiu ele, mal-humorado.
Ela acercou-se dele e, antes que Rúdi pudesse impedir, abraçou-o, afirmando:
— Você vai ficar bem, meu filho. Deus vai ajudá-lo e você terá um bom dia. Vamos tomar café?
Surpreso, ele não conseguiu reagir. Ficou calado. Colocou um pouco de leite numa caneca, que bebeu de um gole, e saiu mastigando um bocado de pão, a caminho da escola.
Era a primeira tentativa de aproximação. Manuela, esperançosa, notou que ele, diante do comportamento dela, ficara sem ação. Pelo menos, não a agredira verbalmente, o que já era um avanço.
Dali por diante, mais animada, passou a agir diferente, trabalhando naquilo que denominava sua "campanha de desarmamento".
Perto do horário de Rúdi voltar, Manuela orou a Jesus, elevando o pensamento em súplicas ao Mestre para que o filho chegasse bem, ao mesmo tempo que o envolvia com ternura. Lembrava-se também do desafeto desencarnado, mentalmente pedindo-lhe perdão pelos males que lhe causara e dispondo-se a ajudá-lo no que fosse possível.
Apesar dos seus esforços, nos momentos que Rúdi entrava em crise e soltava uma enxurrada de acusações, com os olhos a lançar chamas odientas, Manuela procurava vencer a rejeição. Aproximava-se dele cheia de coragem e determinação, abraçava-o com amor, afirmando em lágrimas:
— Perdoe-me. Ignoro o que lhe fiz, mas sei que o magoei muito. Perdoe-me. Quero ajudá-lo. Acredite em mim, aceite minha boa vontade e meu carinho.
Manuela sabia que estava falando com o desencarnado e procurava envolvê-lo com amor, o que o deixava sem defesa. A entidade começava a chorar e se afastava. Então, Rúdi voltava a si dizendo:
— O que está acontecendo aqui, mamãe? Parece que andei chorando. Tem horas que não sei o que faço.
— Está tudo bem, meu filho. Está tudo bem.
— Sinto-me tão estranho às vezes! Não sei o que está havendo comigo. Mamãe, acreditaria se lhe dissesse que tem hora que parece que sou outra pessoa? Nesses momentos, fico muito mal.
Manuela acariciou os cabelos do filho, enquanto lhe dizia:
— Acredito, meu filho. Talvez você esteja precisando de ajuda. Quer me acompanhar a uma reunião espírita? Tenho participado algumas vezes e asseguro que você vai gostar e lhe fará muito bem.
Rúdi aceitou, embora com reservas. Nada conhecia sobre Espiritismo, todavia, intimamente, sabia que estava precisando de ajuda, o que deixou Manuela surpresa e animada.
A situação começou a melhorar, porém Manuela ainda sentia, algumas vezes, rejeição nas atitudes do filho, conquanto de forma bem menos acentuada.
Certa noite, alguns meses depois, Manuela deitou-se e demorou a dormir, pensando em seu filho e no espírito tão necessitado de socorro.
De repente, se viu num lugar desconhecido. Era uma sala ampla e bonita, onde estavam várias pessoas, inclusive seu filho e seu marido. Cogitava que reunião seria aquela, quando viu alguém se aproximar. Era um senhor alto, de cabelos brancos e idade indefinível; simpático, tinha sorriso terno e olhos expressivos. Manuela nunca o tinha visto, e, todavia, experimentou íntima certeza de que já o conhecia de longa data.
Acercando-se dela, ele falou, com uma voz firme e serena, que ela tentou encontrar nos refolhos da memória onde já a teria ouvido:
— Minha filha, existe um momento que é crucial em nossa existência. O momento de assumirmos a responsabilidade pelos atos praticados e tentar repará-los, socorrendo aqueles que prejudicamos no passado.
Aquela voz doce e, ao mesmo tempo enérgica, fazia Manuela sentir uma alegria enorme por estar a seu lado, como se por longo tempo tivesse sido privada desse prazer. Agora, dando um passo para o lado, o benfeitor apresentou um homem que ela ainda não tinha notado: extremamente magro, nas faces encovadas havia tristeza e dor; trazia os olhos vermelhos e congestos, a cabeleira suja e desgrenhada, as roupas maltrapilhas. Uma figura de causar piedade.
Com ternura, o benfeitor aproximou-os um do outro e disse:
— Manuela, este é Cirilo, nosso irmãozinho que precisa de amparo. Só você pode ajudá-lo.
Ao ouvir essas palavras, Manuela entendeu. Ao fitar o infeliz que ali estava à sua frente, viu a mesma expressão que havia no olhar de Rúdi quando a fitava. Entendeu que era ele, Cirilo, o desafeto que a acusava de tê-lo feito sofrer.
Diante dele sentia-se culpada, sem saber por quê.
— Perdoe-me, meu irmão — repetiu novamente, levada por incoercível impulso, como tantas vezes o fizera.
Incentivado gentilmente pelo orientador, o desconhecido que ali estava fitou-a e disse, com alguma dificuldade:
— Tenho... ouvido suas preces... e... seus... pedidos de perdão. Acredito que esteja... sendo sincera. Sua atitude... me tem... comovido bastante. Resolvi... aceitar sua vontade... de reparar o passado.
Aquela voz vinha lá do pretérito, revolvendo em seu peito emoções adormecidas.
— Sim, meu irmão. Sou sincera em minhas intenções. Acredite-me. O que posso fazer por você?
Cirilo tentou falar, mas não conseguiu. Seu olhar era um pedido de socorro, porém, inclinou a cabeça e pôs-se a chorar. Euclides, o generoso benfeitor envolveu-o com os braços, aconchegando-o ao coração, e explicou:
— Cirilo precisa tomar um novo corpo, Manuela. Dentro de sua família ele encontrará o ambiente adequado para refazer a vida, quando poderá estar sob sua responsabilidade e amparo, para ser educado e protegido com amor.
Manuela experimentava imenso júbilo ante a idéia de receber alguém em seu lar. Todavia considerou, desapontada:
— Bondoso amigo, teria enorme satisfação em aconchegar Cirilo em meus braços como filho, todavia minhas condições orgânicas não o permitem. Não posso mais ser mãe.
Euclides sorriu como se estivesse ciente desse fato, e esclareceu:
— Não se preocupe, Manuela. Ele voltará a seus braços, minha irmã, como neto do coração. Será filho de Rodolfo.
O benfeitor fez uma pausa, depois esclareceu, vendo a expressão de surpresa de sua interlocutora:
— Esses planos só serão executados daqui a alguns anos. Enquanto isso, o nosso Rodolfo terá ocasião de amadurecer para a vida, e, Cirilo, de se preparar convenientemente para essa nova empreitada.
Manuela experimentava grande alegria. Vendo aquele ser que ali estava defronte dela, de cabeça baixa, humilhado pela sua condição, experimentou imensa compaixão. Com espontaneidade, aproximou-se de Cirilo e abraçou-o com amor. Depois, fitando Rúdi e seu marido que estavam mais distantes a palestrar com outras pessoas, alheios, como se não soubessem exatamente a importância do que estava acontecendo, indagou vertendo lágrimas:
— Rúdi já sabe?
— Ainda não foi consultado, porém não encontraremos dificuldade em conseguir sua aprovação. Entre o planejamento reencarnatório de Cirilo e a sua preparação, teremos alguns anos, como já expliquei. Tenho certeza de que Rodolfo não se recusará a prestar ajuda a nosso irmão Cirilo, mesmo porque eles têm grandes afinidades entre si.
Sem que Manuela precisasse exteriorizar seu desejo de conhecer o passado, o benfeitor espiritual se antecipou:
— Em reencarnação pretérita, ambos foram suas vítimas, Manuela, o que explica a afinidade e a empatia que sentem um pelo outro, e foi exatamente essa ligação que possibilitou a ação de Cirilo através de Rodolfo, naturalmente facilitada pela sensibilidade mediúnica que seu filho possui. No fundo, ambos pensam da mesma forma. No entanto, na época, Rodolfo, menos rebelde e em melhores condições espirituais, aceitou o socorro que lhe era oferecido e renasceu em seu lar, ao contrário de Cirilo, que se recusou terminantemente a perdoar e a mudar de vida.
Manuela começava agora a entender a mecânica celestial, percebendo a bondade e a justiça de Deus em tudo.
Com os olhos úmidos, comentou emocionada:
— Bem dizem que não existe o acaso.
— Sim, minha irmã. Tudo tem sua razão de ser, mesmo aquilo que nos parece estranho e sem propósito. No fundo, tudo se encaixa perfeitamente, quando analisamos o passado e conhecemos todos os fatos.
Manuela ficou pensativa por alguns minutos, depois perguntou:
— E agora, meu irmão, o que preciso fazer? Como devo agir?
— Necessário sedimentar o interesse de Rodolfo pelas coisas do espírito. Não deixe de levá-lo à casa espírita. Ele possui uma faculdade que precisa ser estudada e trabalhada para, futuramente, prestar socorro a outras pessoas. Ao mesmo tempo, continue orando por Cirilo que, ainda muito frágil e indefeso, ensaia uma nova vida e precisa de sustentação nas diretrizes que estabeleceu para o futuro. Nosso irmãozinho, após recuperar-se na espiritualidade, preparando-se e reeducando-se à luz do Evangelho do Cristo, voltará para junto de vocês, onde permanecerá algum tempo, fazendo as ligações vibratórias com a família, em virtude da futura encarnação. Todavia, não tema. Dessa vez a presença dele não será mais para perturbar e influenciar de forma negativa. Será para ajudar.
Manuela experimentava indizível bem-estar e uma alegria contagiante. O futuro delineava-se de maneira promissora. Fiel aos costumes ancestrais, fitou aquele ser iluminado que ali estava e ajoelhou-se, tomando-lhe a mão e fazendo menção de depositar ali um beijo. Percebendo-lhe a intenção, o amigo espiritual levantou-a, colocando-a de pé.
— Minha irmã, não me creia um ser especial. Sou apenas Euclides, alguém que lhe quer muito bem e que tem acompanhado seus passos em diversas épocas. Somos velhos conhecidos e espíritos ligados por laços de profunda simpatia.
Abraçou-a longamente, transmitindo-lhe energias fortalecedoras e benéficas. Ao afrouxar os braços, Manuela inclinou-se diante dele, afirmando:
— Deixe-me pelo menos pedir sua bênção como o faria a um pai. Tomando-lhe a mão, beijou-a com ternura, enquanto as lágrimas banhavam seu rosto.
— Sua bênção, meu pai.
— Deus a abençoe, minha filha.
Nós que estávamos ali juntos, percebemos nos olhos dele um brilho intenso e uma luz radiante de emoção. Sentimos, também, que nosso benfeitor estava muito mais ligado àquela família do que poderíamos supor.
Levantando a nobre fronte, ele dirigiu os olhos para o Alto, pondo-se a orar. E nós o acompanhamos, elevando os pensamentos, gratos pela oportunidade de servir e de participar de momento tão especial.
Manuela despertou no corpo físico com a sensação de que tivera uma reunião de extraordinária importância para sua existência. Acordou em lágrimas, sentindo ainda repercutir em seus ouvidos a prece que um ser iluminado fizera, mexendo com suas fibras mais profundas.
Permaneceu a imagem indelevelmente gravada em sua memória: um senhor de beleza serena, rosto afável e olhos ternos. Ao lembrar do seu sorriso, um misto de amor, veneração e saudade inundou-a por dentro. Intimamente, tinha a convicção de que o conhecia de longa data. A sensação que a presença dele lhe dava era a de um pai. Por mais que tentasse, não conseguia lembrar-se de onde. Como era o nome dele mesmo?
Sentada para tomar o café-da-manhã, não conseguia conter as lágrimas.
— Aconteceu alguma coisa, Manuela? — perguntou o marido, preocupado.
— Tive um sonho lindo, Matias. O melhor que já tive em toda a minha vida.
Rodolfo, que levava a caneca de leite à boca, parou a meio caminho, pensativo por alguns instantes, e comentou em seguida:
— Ouvindo-a falar, mamãe, lembrei-me de que também sonhei esta noite, o que raramente acontece. Estava numa sala clara e grande com várias pessoas, algumas que não conheço. O que me causou estranheza foi ver um maltrapilho naquele lugar elegante, o que me encheu de compaixão.
— Pois eu não me lembro de nada, nunca. Acho que não costumo sonhar. Durmo como uma pedra — resmungou Matias.
Manuela sorriu levemente, sem esclarecer o filho que tinham estado no mesmo lugar, entendendo que as lembranças de Rúdi confirmavam o sonho que tivera. Concluiu também que, cada pessoa guarda o que tem condições de assimilar; e que o esposo, talvez por não aceitar a idéia de espiritualidade, permanecia embotado durante a noite, sem conseguir liberar-se como espírito para vôos mais altos.
Durante todo o dia esteve emocionada, envolta em harmonia e bem-estar, sem conseguir esquecer-se daquele belo sonho. Sensibilizada, compreendeu que era a misericórdia divina agindo em sua vida. Com o socorro do Alto, tudo mudaria desse dia em diante.
Levantou o olhar para o céu, onde brilhava um lindo sol, e agradeceu a Deus, sem palavras, a ajuda que recebera.
Capítulo 30
Excursão de resgate
"Deus quer o progresso de todas as suas criaturas, e é por isso que nenhum desvio do caminho reto fica impune. Não há uma só falta, por menor que seja, uma única infração a sua lei que não tenha forçosas e inevitáveis conseqüências, mais ou menos lastimáveis, e disso conclui-se que, tanto nas pequenas como nas grandes coisas, o homem sempre é punido pelo erro que cometeu."
(O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 5, ITEM 5)
Entregues às nossas atividades cotidianas não víamos o tempo passar, célere. As tarefas eram muitas, vários projetos em andamento, o que nos tomava grande parte do tempo. O livro, sob a minha responsabilidade, estava bem adiantado e eu não tardaria a terminá-lo; assim, ultimávamos os preparativos para o próximo.
Tudo isso me proporcionava satisfação íntima e agradável sensação de dever cumprido. Então, por que, bem lá no fundo, havia alguma coisa a me incomodar, como um espinho na carne? Era algo pequeno, qual ferida não cicatrizada, que refletia um sentimento inquietante que me pressionava, produzindo certa ansiedade e tensão, que eu não conseguia definir. Por que nem tudo era perfeito como eu desejava acreditar que fosse? Todavia, como as bênçãos que fluíam em minha vida fossem muitos maiores, procurava não prestar atenção a esse ligeiro incômodo que por vezes me assaltava.
Nesse dia, ao término de uma reunião no Centro de Estudos da Individualidade16, nos separamos em grupos e passamos a conversar informal e animadamente sobre os assuntos abordados de mais interesse. Não demorou, porém, em virtude do horário, os participantes foram se retirando; muitos retornaram para casa, buscando o repouso necessário, após uma jornada de trabalho; outros, apressados para entrar em serviço, encaminharam-se para os locais onde dariam plantão; os demais, que estavam de folga, como no meu caso, tinham tempo para dialogar sem pressa. Em poucos minutos, o salão estava quase vazio, permanecendo apenas os falantes inveterados.
Henrique, com quem tenho grande afinidade, após despedir-se de alguns amigos, aproximou-se de mim.
— Quase não temos conversado, Paulo. Mal trocamos algumas palavras, sempre ocupados com a execução de nossas tarefas.
— E verdade, Henrique, e sinto falta dos nossos longos papos. Trocando idéias sobre o aproveitamento da noite, deixamos o
salão e saímos do prédio, procurando refúgio num banco do agradável jardim. Na noite aprazível, o aroma das flores trazido pela aragem fresca nos envolvia em bem-estar.
— Está tudo bem com você, Paulo?
— Muito bem. Melhor não poderia estar. Sinto-me em paz comigo mesmo — respondi com meu melhor sorriso.
Henrique balançou a cabeça, fitando-me sério e compenetrado.
— A que se deverá, então, esse brilho de inquietação que vejo no fundo de seus olhos?
Henrique me conhece melhor do que eu mesmo! — pensei.
Ele sorriu ante minha surpresa. Levantei a cabeça e olhei o céu, onde miríades de estrelas cintilavam. Não adiantava fugir de mim mesmo. Melhor encarar a realidade.
— Também ignoro, Henrique, o que está acontecendo comigo — confessei em voz baixa. — Alguma coisa dentro de mim não vai bem, mas não consigo detectar o problema. E sensação de algo muito pequeno, insignificante, mas que cresce, lentamente, ameaçando dominar-me por inteiro.
O amigo deu uma batidinha amigável em meu ombro, tranquilizando-me:
16 Citado na obra De volta ao passado.
— Não se preocupe, Paulo. Você sabe, muitas vezes acontece de sentirmos o impacto de pensamentos que nos são enviados da crosta, ou mesmo de desencarnados. Isso não é nada. Talvez algo que tenha ficado sem solução, quem sabe? Você acabará por descobrir a origem. Pense, reflita, e encontrará a resposta.
Como já era tarde, e no dia seguinte teríamos serviço logo cedo, nos despedimos. Antes que eu me afastasse, Henrique lembrou:
— Não se esqueça de que amanha teremos uma atividade socorrista.
— Sim, estou ciente. Boa noite, Henrique.
— Boa noite, Paulo.
No dia seguinte, à hora combinada, nos reunimos em nossa sede para dar seqüência à programação estabelecida. A caravana constituía-se de alguns dos membros da nossa equipe de jovens: Marcelo, Eduardo, Irineuzinho, César Augusto, Virgínia, Padilha, Melina e eu, além de Henrique e alguns outros servidores que eu não conhecia.
Após a oração em conjunto, suplicando o amparo de Mais Alto para a nossa excursão, nos locomovemos pelo espaço rumo a nosso objetivo: certa região de trevas densas próxima da crosta terrestre.
Após algumas horas, atingimos "Luz Bendita", posto de socorro localizado no umbral inferior e mergulhado em névoas, instituição benemérita que nos serviria de base e sustentação para a ação de resgate.
Fomos recebidos com imenso carinho pelos irmãos da instituição. Silas, o responsável, abriu os braços fraternalmente, sorrindo:
— Nós os esperávamos, meus irmãos. Sempre gratificante recebermos visitas de esferas mais elevadas.
Henrique nos apresentou ao dirigente Silas, de quem era velho amigo, trocando cumprimentos efusivos. Todos se mostraram extremamente simpáticos e acolhedores.
Dentro em pouco, era como se nos conhecêssemos de longa data. Silas e seus assistentes mais diretos, Dario, Rogério e Vilmo, nos conquistaram o coração.
A atividade socorrista estava planejada para o dia seguinte. Assim, aproveitamos as horas disponíveis para conhecer as instalações e as diversas atividades que ali se realizavam.
Na manhã seguinte, logo cedo nos pusemos a caminho, assessorados por Dario, profundo conhecedor da região.
Com extrema dificuldade, atingimos um local em que havia algo que se poderia chamar — na falta de expressão melhor -, de aldeia. Tudo ali era coberto de lama, inclusive algumas taperas, que se espalhavam pelo terreno encharcado.
Jamais tínhamos presenciado algo semelhante. Com a experiência de anos de serviço naquela região, em voz baixa, Dario deu uma ordem aos tarefeiros e rapidamente algumas maças surgiram. Movimentando-se pelas ruas da aldeia, sabendo exatamente onde procurar, os servidores entravam nas casinholas e traziam as entidades em condições de serem socorridas. Ao cabo de uma hora de serviço, deram por encerrada a operação. Seis entidades seguiriam conosco.
Os infelizes habitantes do lugar, em silêncio, acompanhavam toda a movimentação, aguardando ansiosamente serem escolhidos. Em seus olhos, as únicas coisas que escapavam à lama geral, notava-se a esperança de sair daquele antro de sofrimento. Todavia, ao perceberem que nos dispúnhamos a partir, sem levá-los, puseram-se a gritar, suplicando ajuda em pranto comovente. Seus brados nos cortavam o coração.
Lançando um olhar para o responsável pela expedição, analisamos a difícil decisão do companheiro, também condoídos da situação daqueles infelizes. Dario, porém, mais experiente, não se deixou convencer, explicando com serenidade:
— Sei o que estão sentindo, meus amigos, ante a situação dessas criaturas. No entanto, não se iludam. Apesar das súplicas comoventes, esses irmãos não têm condição de serem resgatados. São perversos, maus e vingativos. O que fazemos, normalmente, é dar-lhes palavras de consolo e de esperança.
A um gesto seu, os padioleiros se afastaram com as maças, transportando os irmãos que tinham sido socorridos. Dario fez outro gesto, quase imperceptível, e um dos servidores trouxe uma grande rede com uns três metros de altura e pelo menos trinta de largura, presa por tubos que pareciam de metal que foram fincados no solo, o que permitiu à imensa rede ficar estendida a alguns metros à nossa frente, separando-nos e protegendo-nos dos habitantes do lugar, que ameaçavam atacar nossa equipe. Depois, acenderam-se luzes, visto que a escuridão era grande, o que nos permitiu enxergar melhor o mar de lama que tínhamos diante de nós. Em seguida, Dario pediu a Henrique que dirigisse algumas palavras aos habitantes do lugar.
Nosso orientador adiantou-se alguns passos, aproximando-se da rede magnética, e, depois de concentrar-se por alguns segundos, começou a falar:
— Meus irmãos! Que a paz de Jesus esteja com todos! O Cristo legou-nos em sua passagem pela Terra lições de extraordinária importância e que nos compete lembrar. "Vinde a mim, vós todos os que andais em sofrimento e vos achais carregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis repouso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve. "
As palavras do Mestre não são expressões vazias de significado. Jesus nos convida a segui-lo, acenando-nos com a felicidade futura. Somos todos nós filhos de Deus, Pai Misericordioso que nos ajuda e ampara em qualquer situação. Mesmo quando nos consideramos sozinhos e abandonados, Ele está sempre conosco. Todavia, é necessário fazermos por merecer o amparo divino, realizando a parte que nos compete.
Por isso, o Cristo afirma: "Pedi, e se vos dará; buscai, e achareis; batei, e se vos abrirá. Pois todo que pede, recebe; o que busca, encontra; e a quem bate, a porta lhe será aberta. Ou qual dentre vós é o homem que, se porventura o filho lhe pedir um pão, lhe dará pedra? Ou se pedir um peixe, lhe dará uma serpente? Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos céus dará boas coisas aos que lhe pedirem?"
Henrique fez uma pausa, perpassando o olhar sereno sobre todos os que o ouviam. Ao recomeçar a falar, o vozerio era grande. As primeiras palavras foram saudadas com gritos, palavrões obscenos, insultos. Alguém mais afoito gritava:
— Cale-se! Fora daqui! Não precisamos de vocês. Desapareçam! Aqui mandamos nós!
Henrique prosseguiu, porém, e, diante de sua voz serena e de timbre agradável, mesmo os mais exaltados foram se calando aos poucos, e agora havia o maior silêncio.
Nosso instrutor aproveitando o momento continuou:
— Meus irmãos! A hora da libertação chegará para todos. Imprescindível, porém, nos despojarmos dos sentimentos inferiores, de ódio, de vingança, de mágoa, de ressentimento. Modificando nossas disposições íntimas, serenando o coração e elevando a mente para Jesus, pela oração, estaremos prontos para uma vida melhor e mais feliz.
Por ora, meus queridos irmãos, permaneçam em paz, meditando em tudo o que eu lhes disse e preparando-se para um futuro encontro com os servidores do bem.
Que o Mestre Jesus, Divino Amigo de todos nós, nos envolva em amor e paz!
Por alguns segundos, a multidão dos ouvintes ainda permaneceu estática. Depois, percebendo que nada tinha se alterado, que não seriam socorridos, puseram-se novamente a gritar, blasfemando e deblaterando contra Deus, contra Jesus e contra todos nós.
Dario mandou apagar as luzes, recolher a rede e todo o material de apoio que ali estava, e afastamo-nos sem demora.
Com a escuridão, o vozerio foi diminuindo até cessar de todo, retornando eles para suas taperas.
Em nós permanecia uma desagradável sensação de incapacidade, de impotência. Era sempre assim que nos sentíamos ao terminar uma ação de resgate, em que a grande maioria dos irmãos sofredores não recebia socorro.
Ao nos ver com o semblante desconsolado, Dario animou-nos:
— Sei exatamente o que estão sentindo. Também nós, que habitamos estas plagas, nos primeiros tempos não nos conformávamos por não podermos socorrer a todos os irmãos em sofrimento. No entanto, vocês tiveram a oportunidade de ver como as súplicas mais enternecedoras transformam-se em dardo venenoso a expelir emanações maléficas, quando não recebem o que pedem.
O assistente de Silas parou de falar por alguns instantes, depois prosseguiu compenetrado:
— Na verdade, são como crianças que não sabem o que é melhor para elas, que querem um brinquedo e se irritam se o pai lhes nega, jogando-se no chão e pondo-se a chorar. Por isso, em nossas atividades, todo cuidado é pouco. A responsabilidade do trabalhador do bem é imensa no que tange aos socorros que presta. Devemos entender que as conquistas do espírito são lentas, que seu amadurecimento se denota pelas emanações mentais. Além disso, aqueles que não foram socorridos hoje poderão sê-lo em uma nova oportunidade, quando de nossas excursões periódicas. Deus é Pai e nenhum de seus filhos está perdido. Ao contrário, todos atingirão a felicidade um dia.