Só o Amor Liberta
Os pais de Juliana ajudaram-na a se…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Quando terminou de falar, concordamos com ele. Sim, sabíamos dessa realidade, visto já termos participado de outras atividades do gênero. Contudo, ainda encontrávamos dificuldade de nos afastarmos deixando aqueles irmãos infelizes em seu ambiente, mesmo sabendo que não estavam sendo injustiçados e que colhiam o que tinham plantado.
Henrique, que permanecera calado, considerou:
— Não devem se envergonhar desse sentimento de impotência, nem do desejo de ajudar que agasalham no coração. Tudo isso faz parte do nosso crescimento como seres que já pensam no próximo e que ensaiam o amor mais amplo, como Jesus ensinou. Devemos, isto sim, temer nos mantermos insensíveis diante dos irmãos que sofrem, em qualquer lugar que estejam.
Dario concordou com Henrique:
— Sem dúvida, meu amigo. O fato de entendermos a impossibilidade de socorrer a todos não significa que estejamos livres de sentimentos mais nobres. Mostra, apenas, que confiamos em Deus, e que entendemos que para tudo existe uma ocasião certa.
Conversando, chegamos aos muros do posto de socorro. Conquanto fosse dia, as luzes permaneciam sempre acesas, em virtude da escuridão ambiente.
Fomos recebidos com alegria por Silas, que exaltou o sucesso da excursão de resgate.
As seis entidades foram recolhidas, recebendo os primeiros cuidados. Depois de devidamente higienizadas, alimentaram-se e foram levadas para uma enfermaria, onde repousariam em leitos limpos e macios, o que não acontecia fazia muito tempo. No dia seguinte, três prosseguiriam conosco com destino à casa espírita, na crosta, onde ficariam albergados, aguardando a ocasião de serem levados a uma reunião mediúnica. Lá teriam a oportunidade de se comunicar com os encarnados, através de um médium, dando seqüência à atividade de socorro.
No dia seguinte, nos despedimos dos novos amigos de "Luz Bendita", em transportes de carinho fraternal. Silas havia nos cedido um veículo fechado para a locomoção das três entidades necessitadas. Após despedir-me dos servidores de "Luz Bendita" com os quais tivemos mais contato, aproximei-me dos companheiros que aguardavam no pátio, e percebi que as entidades socorridas já estavam dentro do veículo. Acenando uma última vez para nossos novos amigos, iniciamos a viagem de volta, que transcorreu sem maiores problemas.
Ao chegar à crosta planetária, nos dirigimos à cidade onde se localiza a casa espírita em que ficariam os três enfermos espirituais.
Deixem-me explicar a situação para que possam entender-me, pois não desejo parecer insensível diante dos leitores com relação às entidades enfermas e necessitadas.
A verdade é que, em nossas atividades de socorro aos irmãos em sofrimento, lidamos com uma infinidade deles, espíritos que geralmente não conhecemos, não tendo nenhuma ligação conosco. É raro encontrarmos algum conhecido no meio deles.
Não tive maior contato com esses irmãos em virtude de essa tarefa não estar a meu cargo. Sei que ali eles permaneceriam por algum tempo até que estivessem em condições de serem levados a uma reunião de desobsessão.
Capítulo 31
Aprendendo a perdoar
"Então Pedro, aproximando-se, lhe perguntou: Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes? Respondeu-lhe Jesus: Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete."
(MATEUS, 18:21 E 22)
A vida continuava seu curso. Entregue às tarefas sob minha responsabilidade, mantive-me afastado dos irmãos que tinham sido socorridos. Alguns dias depois, lembrando-me deles, busquei notícias e fui informado de que dois dos espíritos resgatados, conduzidos para esclarecimento numa reunião, a seu tempo foram ajudados, recomeçando uma nova vida plena de esperanças.
O terceiro espírito, embora submetido ao mesmo processo, recusava-se a modificar suas idéias, atitude imprescindível para a renovação de sentimentos, mostrando-se impermeável à ajuda que lhe ofereciam. Permaneceu mais algum tempo em local adequado às suas condições e, como não demonstrasse desejo de melhora, nossos maiores permitiram que seguisse seu curso.
Explico-me. Aqui, na espiritualidade, não podemos obrigar ninguém a agir contra sua vontade. Tentamos ajudar, esclarecer; oferecemos informações, expomos a realidade. Todavia, não podemos desrespeitar o livre-arbítrio de ninguém. Se o espírito, apesar de nossos esforços e das condições que lhe são dispensadas, opta por prosseguir em sua vida de erros, nada podemos fazer a não ser entregá-lo a si próprio, deixando que siga seu caminho. Mesmo porque a condição vibratória o atrai para os sítios onde estão seus interesses maiores, sejam afetos, desafetos, tesouros amoedados, poder de mando e/ou de autoridade. Aqui, do outro lado, a densidade vibratória é algo que arrasta irresistivelmente, tanto para mais alto quanto para mais baixo.
Informado do fato, lamentei o ocorrido, porém estava fora do nosso âmbito de ação. Como os necessitados não parassem de chegar, acabei por esquecer-me daquele caso.
Algum tempo depois, logo pela manhã chegamos à casa espírita onde nosso grupo presta colaboração na crosta. Como haveria reunião mediúnica à noite, conforme programado, nosso dia seria intenso e logo começamos as tarefas de rotina. A equipe da qual faço parte tem a função específica de percorrer as residências de todos os integrantes do grupo encarnado, especialmente os médiuns e doutrinadores, para conferir se está tudo bem, em ordem, e se nenhum deles vai deixar de comparecer à atividade mediúnica. Caso haja algum problema, buscamos a solução, auxiliando para que a paz se restabeleça, seja em virtude de problema material ou espiritual. Apesar dos nossos esforços, nem sempre conseguimos realizar nossa tarefa a contento, isto é, tendo a presença de todos os companheiros encarnados, em vista das dificuldades e obstáculos que fazem parte da vida material.
Nesse dia, muitas horas depois, quando as sombras da noite desciam sobre a Terra, estando tudo em ordem e as atividades preparatórias encerradas, quase no horário de dar início à reunião, tive vontade de ver quem eram os irmãos candidatos à comunicação mediúnica naquela noite.
Entrei no recinto onde eles eram mantidos separados dos demais, assistidos por auxiliares da nossa equipe. Passei os olhos sobre eles, cheio de compaixão. Eram cinco. O primeiro gemia de dor, curvado sobre si mesmo, com o abdome aberto e o sangue a escorrer da ferida, um corte longitudinal, evidentemente feito à faca. O segundo e o terceiro, pelas expressões zombeteiras e os olhares cáusticos, pelas vibrações pesadas que exteriorizavam, deixavam visível a condição de obsessores contumazes, vingadores impenitentes; eram estranhos para mim, provavelmente ligados a alguém da equipe encarnada ou a pessoas necessitadas, cujos nomes constavam do caderno de preces, por intercessão de um amigo ou parente preocupado. Os dois últimos eram sacerdotes, fato comum em reuniões mediúnicas, em vista das tradicionais e constantes perseguições religiosas que atingem o movimento espírita, o que não me causou nenhuma surpresa. Ao fitar um deles, no entanto, algo dentro de mim se agitou. Senti-me dominado por uma sensação profundamente desagradável. Parecia-me conhecer aquele padre. Mas, de onde?
Em virtude das nossas diferenças vibratórias, ele não conseguia perceber-me a presença. Discretamente observei-o por alguns instantes. Tratava-se de um homem de idade avançada, alto, algo encurvado, e com a barriga saliente dos que se alimentam em profusão; cabelos brancos, fisionomia avermelhada e intumescida, característica dos usuários de substâncias alcoólicas. Na expressão atormentada, os olhos claros, injetados, impressionaram-me sobremaneira. Onde já o teria visto?
Por mais que rebuscasse na memória, não conseguia localizar onde o teria encontrado. Quedei-me por alguns minutos, pensativo e preocupado, tendo em vista o mal-estar que sua presença me causava. De repente, eu me lembrei.
Era aquele mesmo sacerdote que conheci na minha infância e que me deixara marcas indeléveis por toda a existência. O sangue subiu-me à cabeça sem que pudesse evitar. Afastei-me dali, tentando controlar meus sentimentos, e confesso que tive grande dificuldade. Discretamente procurei um recanto mais tranqüilo e deixei-me cair numa cadeira. Com a cabeça entre as mãos, dobrei-me sobre mim mesmo entregue a um turbilhão de sensações diferentes e contraditórias, permitindo que lágrimas amargas corressem pelo meu rosto.
Sim! Era ele mesmo! Não havia dúvida possível. Diferente, bem mais velho, porém era ele mesmo. Como e por que aquela criatura estava ali?
Nesse momento, senti uma mão pousar sobre minha cabeça e levantei os olhos nublados de pranto. Era meu amigo Henrique. Fitava-me com afeto e uma profunda piedade.
— Acalme-se, Paulo. E chegada a hora da verdade para você, companheiro. Nosso irmão aqui está por misericórdia divina, para receber o socorro de que precisa.
De repente, ao ouvi-lo, me dei conta do absurdo do que pensara. Está claro que, se aquele padre se encontrava ali, na casa espírita, era porque precisava de socorro!
Henrique colocou delicadamente a mão em minhas costas, perguntando:
— Está melhor?
— Sim, Henrique. Abalou-me rever essa criatura depois de tanto tempo. Foi um choque. Não estava preparado para esse encontro. Sabia que isso fatalmente iria acontecer, mas não esperava que fosse hoje.
— No entanto, meu amigo, você estava sendo preparado para este momento e já esteve bem perto do seu desafeto em outras ocasiões, conquanto não tenha notado. Esse religioso, que hoje tanto o impressionou, é um daqueles irmãos que foram resgatados nas imediações de "Luz Bendita", quando de nossa última excursão. Percebe que a bondade divina laborava para criar as condições necessárias à imprescindível reaproximação de ambos? A hora é agora, Paulo. Aproveite a oportunidade que se lhe oferece, meu amigo.
Com os olhos arregalados de espanto, dei-me conta, tardiamente, da ajuda do Alto a meu favor.
Como fora cego! Por que não prestei atenção aos fatos, à época?
Balancei a cabeça, concordando com Henrique, ainda incapaz de falar. Depois, limpei o rosto e respirei fundo, procurando readquirir o controle das emoções. Mais equilibrado, afirmei:
— Não se preocupe comigo. Já estou bem. Afinal, tudo o que aprendemos tem de servir para alguma coisa, não é verdade?
— Sem dúvida. E você, Paulo, tem todas as condições para vencer. Estes anos de vivência e aprendizado aqui na espiritualidade lhe deram o suporte imprescindível. Agora, vamos. Faltam poucos minutos para o início da nossa reunião.
Dirigimo-nos à sala, onde todos da esfera material já se encontravam reunidos, em silêncio, buscando as ligações com a nossa esfera. A equipe espiritual, cada qual em seu posto, auxiliando os irmãos encarnados.
No horário determinado, o dirigente encarnado deu início à reunião com uma prece, rogando o amparo divino, e as atividades passaram a transcorrer normalmente. Após as leituras de praxe para preparar o ambiente, passou-se à fase de intercâmbio mediúnico. As entidades comunicantes foram se sucedendo, e auxiliadas cada uma a seu turno.
Em determinado momento, Henrique aproximou o religioso de uma médium, o qual, acoplando-se à senhora, se pôs a falar. Irritado, nervoso, mostrava grande agitação, que era transmitida fielmente por ela. Bradava, chorava, demonstrando enorme desespero.
— Não basta tudo o que já passei? Por que ele faz isso comigo? Não vê como estou sofrendo? Não chega a humilhação e o remorso que tenho enfrentado? Agora, fica aí, anotando, anotando. Precisa ficar escrevendo e expondo minha vida? O que ele pretende? Expor-me aos olhos de todos para ser julgado?
Nesse instante, percebi a quem se referia. Aquele "ele" era eu! Eu, que estava enviando um livro por meio da psicografia, e que fizera questão de iniciar a obra falando sobre minha vida, meus problemas, desejando realmente que todos soubessem do meu drama, que era ignorado por meus pais e por todos os que conviveram comigo. Sim, era verdade! Eu queria expor o criminoso aos olhos do mundo. Não pretendia nomeá-lo, mas iria assinar o livro colocando meu nome e sobrenome, desejando que meus pais, católicos ortodoxos, algum dia viessem a tomar conhecimento do que eu tinha sofrido em vida, e que eles ignoravam. Queria tornar pública, sim, a minha experiência, alertar meus pais e todos os outros para que tomassem mais cuidado com seus filhos; que não os entregassem aos cuidados de pessoas que não conheciam devidamente e nas quais não podiam confiar.
Nesse momento, uma senhora do grupo captou o meu pensamento e, compreendendo a situação, afirmou:
— Sinto que esse caso tem a ver com um livro que a Célia está recebendo.
Ao ouvir essas palavras, a médium de que me sirvo percebeu o que estava acontecendo na espiritualidade. Como sabia que o comunicante era um sacerdote, imediatamente lembrou-se da obra que estou a escrever por seu intermédio, vinculando a comunicação à história que inicia o livro e relata minha experiência de vida. Com serenidade, ela dirigiu-se ao inconformado espírito:
— Meu irmão, não se preocupe. Acalme-se. Ninguém deseja prejudicá-lo. O seu nome não será citado, fique tranqüilo.
No auge do desespero e da indignação, ele gritou:
— E precisa? E precisa? O nome dele é suficiente! Não percebem? Ao ver-lhe o nome no livro, todos na nossa cidade saberão que se refere à minha pessoa! Por quê? Por quê? Já não basta o que tenho sofrido?
E ele continuou falando, expondo o seu sofrimento, as torturas por que tinha passado durante esse período no Além-túmulo, enquanto o doutrinador dialogava com ele, lembrando-lhe a necessidade de buscar Jesus por meio da oração, de modo a obter uma vida nova, ao mesmo tempo que lhe acenava com o socorro que lhe seria prestado no hospital da espiritualidade.
Aos poucos, o religioso foi serenando, auxiliado pelas vibrações amoráveis do ambiente com o apoio de todos os integrantes do grupo, condoídos da sua situação e do seu desespero. Ele acabou por adormecer, e deixou o recinto numa maca, amparado por servidores do bem.
Eu estava pasmo. Nesse momento, me dei conta de que só pensara em mim, em meus próprios problemas, traumas e sofrimentos. Não me dei conta de que poderia prejudicar outras pessoas. Que, desejando expor fatos que se passaram comigo havia tantos anos, atingia emocionalmente alguém que também estava sofrendo.
A verdade é que eu não fazia idéia de que ele sofresse tanto. Como disse no início do livro, nunca mais tivera contato com esse sacerdote, nem tinha idéia de onde ele poderia estar. Em nossas reuniões na espiritualidade, tínhamos tocado no assunto algumas vezes, como terapêutica de ajuda e análise das emoções, mas os orientadores sempre disseram que tudo aconteceria na hora certa e que eu não me preocupasse por antecipação.
Então, o momento havia chegado!
Capítulo 32
Libertação
"Perdoar aos inimigos é pedir perdão para si mesmo. Perdoar aos amigos é dar-lhes uma prova de amizade. Perdoar as ofensas é mostrar que se tornou melhor do que se era antes. "
(O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, ALLAN KARDEC, CAP. 10, ITEM 15)
A atividade mediúnica terminou e nem me dei conta. Permaneci entregue a mim mesmo, pensando nos novos fatos. Os demais companheiros se aproximaram cercando-me com carinho, em silêncio; notei que eles estavam cientes das ocorrências. Henrique envolveu-me os ombros com o braço.
— Como está, Paulo?
Sem responder diretamente à sua pergunta, levantei para ele os olhos úmidos:
— Não sabia que "ele" estava sofrendo tanto, Henrique. Lamento profundamente tudo isso, o fato de escrever sobre o passado...
Estávamos numa sala, no próprio ambiente terreno, utilizada para fazermos uma reavaliação das atividades, após as reuniões. Os demais foram se acomodando em silêncio, enquanto Henrique considerava:
— Não lamente, Paulo. Tudo tem uma razão de ser. O fato de escrever sobre o tema possibilitou-nos ajudar a você e também ao seu desafeto, o antigo confessor.
— Já era tempo, meu amigo. Você precisava enfrentar "seus fantasmas". O alívio será muito grande, acredite — afirmou César Augusto, que estava a meu lado.
Reconhecia-me bastante reconfortado com as emanações de carinho que vinham dos companheiros. No fundo, porém, sentia-me envergonhado, embora ninguém me acusasse, e externei meus sentimentos:
— Agradeço-lhes o apoio e a compreensão diante das minhas dificuldades. No entanto, não posso deixar de lamentar o vexame pelo qual estou passando. Refletindo com tranqüilidade, depois de tudo o que estudamos, aprendemos e vivenciamos aqui no Além, julgo inconcebível que eu ainda dê vazão aos pensamentos e sentimentos que experimentei nessas últimas horas. Julgava-me superior a tudo isso. Acreditava piamente que não mais conservava mágoa pelo que me fizeram, compreendendo que todos nós estamos sujeitos a erros e acertos.
Parei de falar por alguns momentos, fitando a cada um dos companheiros da equipe que ali estavam preocupados comigo, e concluí:
— Chego à dolorosa constatação de que, depois de todos esses anos, ainda não mudei intimamente.
Os amigos sorriram trocando um olhar de cumplicidade e entendimento.
— E não é exatamente esse o sentimento que nos domina a todos? — considerou Eduardo, externando o pensamento dos demais. O processo evolutivo não é rápido nem fácil, meu amigo, você sabe disso. E cada um, a seu tempo, é levado a enfrentar o passado.
Henrique concordou, considerando com seriedade:
— Paulo, veja o meu caso! Tenho maior tempo de vivência aqui na espiritualidade do que vocês. Contudo, acredita você que estou livre de enfrentar o pretérito? Não, meu amigo! A misericórdia de Deus é tão grande que nos manda as contas parceladas, porque não teríamos condições de enfrentar nossos débitos em bloco, na totalidade. E o Pai, certamente, manda os menores problemas em primeiro lugar, para nos preparar o íntimo e amadurecer na trajetória, testando nossa capacidade de resolução. Se conseguirmos reparar esses erros menores, aos poucos nos mandará outros, proporcionalmente maiores e mais complexos. E assim que funciona a misericórdia divina.
Concordei com um gesto de cabeça. Depois, indaguei:
— E agora? Terei forças para procurá-lo, conversar com ele? Sim, porque sei que é isso o que tenho de fazer.
— Vamos devagar. Tudo a seu tempo, Paulo. Hoje você o enfrentou pela vez primeira. Relaxe. Tranqüilize-se. Digira o encontro e reflita sobre essa ocorrência. Quando estiver em condições, sentirá espontaneamente o desejo de procurá-lo, conversar com ele. Agora, deve repousar, agradecendo a Jesus a oportunidade de aprendizado que lhe proporcionou nesta noite.
Eu sabia que Henrique tinha razão.
Nas horas que se seguiram, a sós, refleti bastante e supliquei o amparo do Mestre para meu coração atormentado. Não ignorava que precisava perdoar, sentia que o esquecimento daquilo que considerava um crime era fundamental para minha paz de espírito e bem-estar futuro. Estava consciente do mal que a mágoa e o ressentimento causam naquele que o sente. Sim, estava convencido de que precisava perdoar. Não apenas esconder, jogar para os porões escuros da mente, mas perdoar de forma profunda e verdadeira. E isso só aconteceria se conseguisse digerir o fato que tanto dano tinha me causado e, por conseqüência, compreender que as imperfeições são etapas de aprendizado úteis e imprescindíveis ao progresso do espírito.
Durante muitas horas orei, dando o melhor de mim, buscando em pensamento as esferas superiores da vida, de modo a encontrar forças e vencer a mim mesmo.
Afinal, adormeci, exausto.
Vi-me em um lugar estranho, onde se realizava um banquete. O burburinho era grande; sons de vozes e risadas misturavam-se ao tinir dos metais. No imenso salão, belo e suntuoso, as paredes e o piso eram de mármore; guirlandas de flores contornavam as colunatas, produzindo lindo efeito decorativo, enquanto de tripés colocados em pontos estratégicos ervas odoríferas queimavam, perfumando o ambiente e misturando-se aos odores das iguarias e dos vinhos capitosos.
Chegou o momento em que os participantes, já completamente embriagados, iniciavam uma orgia. A época, a depravação dos costumes era grande e todos se comportavam de forma lasciva. A certa altura, quando a noite avançava pela madrugada, para aumentar ainda mais as sensações dos convidados, já amodorrados pela comida e pela bebida, foram trazidos vários garotos, que entraram no salão apavorados e trêmulos, chorando e se apoiando uns nos outros.
As cenas que presenciei, então, são terríveis, não me cabendo descrevê-las, para não criar imagens negativas na mente de ninguém. Só posso afirmar, com profundo asco, que eu fazia parte daquele banquete. Reconheci-me num daqueles convidados, bêbados e debochados, que abusaram de crianças indefesas.
Acordei assustado, banhado em suor álgido. As cenas não me saíam da memória.
Chorei. Chorei muito.
Compreendi que a divina misericórdia atendera às minhas súplicas, socorrendo-me. Permitira-me ver uma réstia do passado, mostrando-me que a ninguém é lícito julgar o semelhante. Que a colheita é sempre proporcional à sementeira.
Na manhã seguinte, logo cedo, dirigi-me ao local onde se encontrava albergado meu antigo confessor. Entrei na enfermaria e lentamente caminhei pelos leitos, até que o avistei.
Estava deitado, de olhos cerrados, testa franzida e fisionomia atormentada. Aproximei-me. Sabia que ele estava acordado.
Parei ao lado do leito, sem dizer nada. Sentindo a presença de alguém, ele virou-se lentamente. Quando me viu, de pé, se assustou e seus olhos se arregalaram. Depois, o instinto de defesa o fez reagir; preparava-se para recriminar-me, provavelmente jogar-me no rosto tudo aquilo que já dissera na reunião, quando o interrompi com um gesto amigável.
— Como vai, meu irmão?
Fitou-me sem responder. Esperava tudo, menos que eu o chamasse de "irmão". A princípio, ele ficou alguns segundos calado, examinando-me. Ao perceber que não havia ironia, que minha atitude era de paz, sua fisionomia foi serenando aos poucos. Afinal, murmurou:
— Você... Não me odeia? O que faz aqui?
— Vim visitá-lo. Saber como está.
— Você me odeia. Não deseja acusar-me? Destruir-me? — questionou-me, de testa franzida.
— Não, meu irmão. Não tenho a intenção de acusá-lo ou destruí-lo. Por muito tempo, confesso-lhe, conservei mágoa em meu coração. Porém, não agora; não mais.
De seus olhos azuis o pranto jorrou, abundante.
— Você me perdoa o mal que lhe fiz?
Pensei um pouco e respondi consciente de que estava sendo verdadeiro:
— Meu irmão, eu compreendo hoje que não temos o direito de julgar ninguém. Atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado, foi a lição de Jesus aos acusadores da mulher adúltera, legando à posteridade um dos mais belos ensinamentos evangélicos. Todos nós somos imperfeitos e já erramos muito, precisando extirpar de nosso íntimo as mazelas que ainda conservamos. Não nos cabe, portanto, o direito de apontar erros. Tudo o que fazemos de negativo redunda em nosso próprio prejuízo.
Ele fechou os olhos, respirou fundo e disse, mais tranqüilo:
— Há quanto tempo não escutava palavras tão consoladoras! Tenho sofrido muito, Paulo. As vítimas me perseguem e a própria consciência não me permite ter paz. Você não conhece a imensidão dos meus erros. Na existência terrena fiz muito mal aos outros e a mim mesmo. Cometi muitos crimes e me afundei na degradação e nos vícios. O remorso faz com que eu viva num inferno permanente. Ah! Tão diferente do Céu que eu esperava encontrar, segundo a promessa de meus direitos como servo do Cristo!
Fitei-o, penalizado, depois considerei:
— Padre, o Céu é local reservado para aqueles que cumprem as leis do Senhor da Vida. O fato de ser sacerdote não lhe daria direito a uma posição de relevo após a morte do corpo físico. Seu problema é que lhe informaram que o Evangelho de Jesus era para ser ensinado e não vivido, quando o Mestre disse que o reino de Deus está dentro de nós.
Humildemente, ele respondeu:
— Agora compreendo essa verdade. No fundo, conhecer a Bíblia não significa mudança interior, não é?
— Exato, meu amigo. As lições evangélicas são luzes para nos iluminar por dentro, extirpando as trevas existentes em nós. Certamente, seus superiores erraram, seguindo a tradição da Igreja, ao não lhe passar a necessidade da vivência dos postulados cristãos. Todavia, uma parte da responsabilidade lhe cabe, pois a consciência, onde estão nossas conquistas através do tempo, nos mostra como devemos agir.
— Tem razão. Como estudioso do Novo Testamento, por que não percebi essa verdade que salta aos olhos?
Como ele permanecesse alguns instantes pensativo, preocupado, procurei mudar o tom da conversa:
— Mas não se aflija demasiadamente, padre. O Pai sempre tem muito a nos conceder. Aqui, terá oportunidades de aprender, de entender a mecânica das leis divinas e também de reparar os erros cometidos. Há tempo para tudo.
Ele sorriu mais confiante. Senti que estava emocionado.
— Você é bom, Paulo. Ouvi-lo chamar-me de amigo fez-me enorme bem. Não me deixe sozinho.
— Engana-se, padre. Não sou bom. Sou apenas alguém que também tem problemas, mas que se esforça por aprender alguma coisa do lado de cá da vida. Não o deixarei sozinho. Pode contar comigo. Temos muito que conversar. Virei vê-lo sempre que me for possível. Agora, repouse. Fique com Deus.
Lançando-me um olhar úmido e agradecido, ele murmurou:
— Obrigado. Esperarei sua visita.
Afastei-me do leito e caminhei pela enfermaria, sentindo-me muito leve.
Ao sair do hospital, contemplei o belo sol que iluminava o jardim e sorri para mim mesmo, grato a Jesus pela bênção daquela hora.
Tive vontade de contar ao padre o que descobrira sobre o meu passado, para que se sentisse menos culpado, mas achei que não era o momento. Voltaria a procurá-lo e não faltariam, mais tarde, oportunidades para isso.
Entendi, finalmente, por que o perdão transforma as pessoas, liberando-as do sofrimento, da inconformação, da mágoa.
Sentia como se densas nuvens escuras saíssem de dentro de meu corpo espiritual, tornando-me mais leve e mais luminoso.
Nada há no mundo que possa se comparar ao sentimento de paz, de harmonia e de bem-estar que envolve aquele que conseguiu perdoar, liberando-se de resquícios do passado.
Lembrei-me de uma mensagem do apóstolo Paulo, recebida na cidade de Lyon, em 1861, e inserida em O Evangelho Segundo o Espiritismo, cujo texto tem uma frase que sempre me tocou o coração e que agora se mostrava de grande verdade: "Perdoar aos inimigos é pedir perdão para si mesmo. Perdoar aos amigos é dar-lhes uma prova de amizade. Perdoar as ofensas é mostrar que se tornou melhor do que se era antes".
O coração enchia-se de paz e amor. Sim, conceder o perdão ao inimigo é pedir perdão para si mesmo, é libertar-se de elos de ódio que nos acorrentam ao solo.
Intima convicção afirmava-me que minha vida na espiritualidade seria bem diferente depois daquele dia. Sentia-me pronto para mais altos vôos da alma, rumo às moradas celestes.
Conclusão
"Tendo-lhe feito os fariseus esta pergunta: Quando virá o Reino de Deus? Respondendo-lhe Jesus, disse: O Reino de Deus não virá com mostras algumas exteriores; nem dirão: Ei-lo aqui ou ei-lo acolá. Porque eis aqui está o Reino de Deus dentro de vós. "
(LUCAS, 17: 20 E 21)
Diante da imensidão dos problemas que observamos todos os dias em contato com as pessoas, nos veio o desejo de relatar esses dramas, tornando-os públicos, de modo que os irmãos ainda na carne possam beneficiar-se das lições de vida que deles extraímos.
Interagindo com encarnados e desencarnados, percebemos que os problemas atingem a uns e outros, indistintamente, causando sofrimento e dor. Na ação, porém, que nos compete, temos visto tristeza se transformar em alegria, sofrimento em consolo, desespero em esperança.
Para isso, basta que saibamos entender que os problemas que nos são apresentados exigindo uma solução são oportunidades de aprendizado e crescimento, na íntima análise da razão dos obstáculos que surgem e o que a vida quer nos ensinar com isso. De modo geral, ao refletir na dificuldade que nos aflige mais profundamente, com isenção de ânimo e sinceridade de intenções, no real desejo de encontrar a solução, a resposta brota de nosso interior com clareza e tranqüilidade. Basta que saibamos olhar para dentro de nós, sem medos, sem máscaras e sem justificativas, procurando analisar nosso comportamento, a situação de outros envolvidos na questão, e nos colocando no lugar deles.
Quando deixamos de pensar de forma egoísta — enxergando apenas a nós mesmos — e passamos a pensar no problema dos outros, reconhecendo nossa parcela de responsabilidade no acontecido, aceitamos o processo doloroso como etapa necessária de reparação, entendendo a dinâmica da Lei Divina que, através da vida, nos impulsiona para o aprendizado; passamos, então, a colaborar com as situações que surgem, transformando-as a nosso favor pelas ações direcionadas para o bem de todos.
Seja qual for o erro que tenhamos cometido ou o problema que nos surja, sempre despontará oportunidade de reparação. Nada há que seja definitivo sob as bênçãos do Criador.
A Doutrina Espírita nos esclarece que tudo o que semeamos ontem reaparece hoje como colheita obrigatória. Todos nós, como espíritos imperfeitos em processo evolutivo, por meio de múltiplas existências, temos nos cercado de amigos e inimigos, conseguido vitórias e fracassos, virtudes e defeitos. Conquistamos um acervo individual, pessoal e intransferível, que permanece arquivado em camadas profundas da nossa memória integral. Desse modo, a vida atual tem tudo que ver com a individualidade que somos, isto é, com o que pensamos, sentimos, desejamos e agimos.
Quando o espírito renasce, Deus lhe deixa a voz da consciência e as tendências instintivas como balizas que servirão para norteá-lo na nova existência. Retira-lhe as lembranças do passado que poderiam ou prejudicá-lo ou levá-lo a sentir-se em situação de vantagem diante daqueles que o prejudicaram, ou de humilhação perante aqueles que ele prejudicou.
Assim, as situações conflitantes que surgem têm que ver com a necessidade de reencontro com nossos desafetos, inimigos, adversários, rivais, ou qual for o nome que se lhe dê, e a conseqüente reparação dos erros cometidos. Nada acontece por acaso. Então, devemos estar atentos aos desafios que a vida nos apresenta para não perdermos a oportunidade que se apresenta a nosso benefício.
Diante dos dramas da nossa vida, dos erros cometidos, em relação aos quais somos algozes ou nos consideramos vítimas; diante de uma gravidez indesejada; de uma violência na rua, no esporte ou no reduto doméstico; da violência social de grupos que agem e assustam a população, da revolução ou da guerra; diante da tentação de cometer uma eutanásia, um aborto ou um homicídio; diante de uma agressão física, sexual, econômica, virtual ou de qualquer outro gênero; diante de uma obsessão grave, com a qual a maioria das pessoas se sente incapaz de lidar, e tantas coisas mais que ocorrem no dia-a-dia, devemos lembrar que tudo tem uma razão de ser.
Muitos problemas ou obstáculos surgem como conseqüências de nosso comportamento como pessoa, da maneira como tratamos os demais, de como falamos, das expressões que usamos, das atitudes que tomamos, no lar, no trabalho profissional, numa reunião social, na escola, no trânsito, na rua. Se agimos mal, tratando com indelicadeza especialmente subordinados ou aqueles que estejam sob nossa guarda, se não exercitamos a compreensão e a tolerância, podemos estar gerando antipatias que, dependendo do grau de insatisfação que criem no outro e da personalidade do descontente — mais pacífica ou mais rancorosa -, provavelmente trarão para nós mesmos problemas graves que poderão redundar até num crime, conforme a intensidade do ressentimento do ofendido.
Por essa razão, as lições evangélicas são tão importantes em nossa vida, norteando-nos para o perdão, a paciência, a tolerância, a compreensão, a mansuetude, enfim, para o amor. Tratando as outras pessoas como desejamos ser tratados, colocando-nos no lugar do outro para saber o que ele está sentindo, viveremos bem melhor, gerando um grau de satisfação muito maior para todos, a começar por nós mesmos.
Quando os problemas que despontam são resistentes aos nossos esforços para saná-los e que persistem não nos dando tréguas, entendamos que são aqueles que irão requerer maior dose de paciência e de compreensão de nossa parte. A resignação diante daquilo que não podemos mudar nunca deve ser passiva, mas caracterizar uma aceitação ativa, isto é, devemos nos esforçar para vencer os obstáculos com todos os meios de que dispomos. Se a questão diz respeito a uma enfermidade grave, buscar todos os recursos possíveis para reverter o problema, mesmo que não possa ser sanado de todo.
Diante das dificuldades que surgem independentes da nossa vontade — e que muitas vezes entram por nossa casa como um furacão, levando a destruição e a dor, a perplexidade e o sofrimento -, manter inalterável a confiança em Deus, que nunca nos desampara. Não raro, são situações por que temos de passar e para as quais a vida se utiliza de pessoas como instrumentos da vontade divina.
"Ai do mundo por causa dos escândalos; porque é inevitável que venham escândalos, mas ai do homem pelo qual vem o escândalo" 17, disse Jesus, nos acautelando sobre tudo o que pode levar o homem à queda.
Não podemos perder de vista que Jesus falava a homens de um mundo de expiações e de provas, em que a predominância do mal e da ignorância era uma realidade. Não foi Deus quem criou o sofrimento e a dor, mas as criaturas humanas ao se afastarem das leis divinas. Sofrem, por isso, as conseqüências de seus atos e dos seus vícios, até que se cansem do mal, pelos efeitos que experimentam, ou aprendam a fazer o bem, de cujos benefícios usufruirão intensamente. O grau de inferioridade de um espírito é sempre proporcional ao mal que ele pratica. Na obra da criação, nada é inútil e assim o mal pune o mal e, em contrapartida, ajuda a promover o bem. Cada criatura traz em si dois objetivos fundamentais: deve agir a benefício de sua própria evolução e, ao mesmo tempo, colaborar para o progresso da sociedade na qual está inserido. E assim que do mal se pode extrair o bem, visto que a criatura que praticou o mal e experimentou em si as conseqüências desse mal, isto é, o choque de retorno pela ação da Lei de Causa e Efeito, evitará igual atitude, tornando-se mais maleável e propenso a realizar o bem no futuro.
Mais adiante, Jesus recomenda: "Se a vossa mão ou o vosso pé é objeto de escândalo, cortai-os e lançai-os longe de vós; melhor será para vós que entreis na vida tendo um só pé ou uma só mão, do que terdes dois e serdes lançados no fogo eterno. Se o vosso olho vos é objeto de escândalo, arrancai-o e lançai-o longe de vós; melhor para vós será que entreis na vida tendo um só olho, do que terdes dois e serdes precipitados no fogo do inferno" 18
Por certo, o Mestre não deseja que saiamos cortando mãos e pés, ou arrancando olhos, tornando-nos uma sociedade de deficientes físicos. Suas palavras representam apenas imagens de colorido vibrante para gravar suas lições com tintas indeléveis na mente daqueles que o ouvem, fazendo-as repercutir nas fibras mais profundas, para que as pessoas entendam a necessidade de
17 Mateus, 18:7.
18 Mateus, 18: 8 e 9.
extirpar de si toda causa de mal, isto é, de não manter vícios, nem guardar no coração sentimentos impuros, nem defeitos de qualquer ordem.
Mostra-nos Jesus, por meio dessas imagens fortes, as conseqüências que advirão através das vidas sucessivas, se não destruirmos em nós o mal que ainda carregamos no íntimo. Por isso nos diz que é melhor entrarmos na vida tendo uma só mão, um só pé ou um só olho, do que termos dois e sermos atirados ao fogo do inferno, isto é, de nos comprometermos com a Lei Divina e sofrermos as conseqüências do nosso comportamento negativo. Cristo deixa claro que, sempre que reencarnamos com deficiências é porque estamos colhendo hoje o que semeamos no passado.
Dessa forma, diante do sofrimento que nos advém, seja ele físico ou moral, mantenhamos a irrestrita confiança em Deus, sabendo que estamos recebendo o remédio que irá produzir a cura.
A sociedade terrena sonha transformar a Terra em um mundo de paz e de harmonia, onde não existam mais ódios, guerras, doenças, fome, ignorância, miséria; onde todos os seus habitantes possam conviver como irmãos, unidos por laços de fraternidade e solidariedade, sendo pacíficos, indulgentes, benevolentes e amorosos entre si.
Esse sonho só se tornará realidade quando extirparmos de nosso coração o egoísmo, o orgulho e a ambição (esta última, descende dos dois primeiros), e que constituem nossas maiores chagas. Quando isso acontecer, não haverá mais ódios, ressentimentos ou desejos de vingança; não haverá mais ambição desmedida que leva o ser humano a apropriar-se do que pertence a seu irmão; não haverá mais fome e miséria, pois o que sobrar da mesa de um abastado reverterá em benefício de outro que tem menos; não haverá mais enfermidades, pois os recursos serão utilizados em saneamento básico, em atendimento médico, em hospitais para socorro à população e, especialmente, quando a educação for uma conquista de todos, a ignorância deixará de existir.
As conquistas irão muito mais além. Livre do egoísmo e do orgulho, terá o espírito conquistado nobres valores morais, o que fará com que se ilumine, libertando o ser humano de vibrações pesadas e nocivas que lhe facilitavam as doenças psicossomáticas. O perispírito, menos denso, lhe proporcionará maior nível de elevação, com a conseqüente sensação de bem-estar e harmonia. Nessa fase, o homem terá suas potencialidades mais desenvolvidas, sua visão ampliada e pensará no próximo antes que em si próprio. Desse modo, viverá o bem, exercitando-o em todos os momentos.
E a felicidade, sonho a que todos aspiramos, estará ao alcance de nossas mãos, pois será uma conquista do ser imortal, vivendo em plenitude.
Será em vão procurar a felicidade em coisas exteriores, em valores materiais, em poder, notoriedade, glória ou nos prazeres da carne, buscando a satisfação dos sentidos e afundando-se nos vícios. Não. A felicidade, fugidia e tênue, é diferente para cada um. Preocupado com o assunto, Allan Kardec questionou: "'A felicidade terrena é relativa à posição de cada um; o que basta a felicidade de um faz a infelicidade de outro. Existe, entretanto, uma medida de felicidade comum a todos os homens?"
E os espíritos responderam; "Para a vida material, é aposse do necessário; para a vida moral, a pureza da consciência e a fé no futuro".19
Realmente, aqui na Terra, o homem só será verdadeiramente infeliz se não tiver condições de sobrevivência. Assim, a posse do necessário lhe permitirá viver com relativa tranqüilidade, desde que não deseje o supérfluo, o que o levará a sofrer inutilmente. Com respeito à vida moral, a paz de uma consciência tranqüila é bênção que não sabemos valorizar devidamente. Poder colocar a cabeça no travesseiro e adormecer serenamente, em paz, é algo que muita gente não logra.
Quanto à fé no futuro, é sem dúvida essencial para nos sentirmos bem. Ter consciência de que a morte não existe, e que preexistimos ao corpo material e sobreviveremos a ele, dá ao ser humano uma visão ampla e cósmica a respeito de Deus e da Criação. Faz com que entendamos a beleza das vidas sucessivas e da comunicação existente entre os planos físico e espiritual, que interagem. Leva-nos a aceitar melhor os problemas, os obstáculos, os sofrimentos e as dores que surgem em nosso trajeto, e a compreender que estamos recebendo hoje o que plantamos ontem, como oportunidade de aprendizado, de reparação e de amadurecimento espiritual, na execução da Lei de Causa e Efeito. Resignados, aceitaremos melhor as pedras do caminho, ultrapassando-as ou contornando-as à medida que surjam. E a benevolência fará com que tratemos a todos como irmãos, exemplificando-a com a indulgência para com as imperfeições alheias, entendendo a grandeza do perdão das ofensas pela tolerância, pela paciência e pela compreensão para com todas as pessoas que fazem parte da nossa vida, conforme Cristo ensinou.
A grandeza de Deus, sua misericórdia e seu amor por todos nós, seus filhos, se patentearão diante de nossos olhos, pois, sempre ao lado de um problema ou de uma desgraça, Ele coloca uma consolação e os meios de vencermos as dificuldades. Entenderemos assim, analisando nossa existência, que sempre, mesmo nas maiores dificuldades, recebemos o sustentáculo por intermédio de amigos generosos, desta e da outra vida, de criaturas que nos amam e nos amparam com seu amor e sua presença — seja um familiar querido, um amigo, seja um companheiro, um irmão. Não há quem não receba fortalecimento através do amor, da
19 O Livro dos Espíritos, Allan Kardec, questão 922, Petit Editora. amizade, do companheirismo. E, do Além, seres muito amados, muitos dos quais conhecidos de outras existências e dos quais não nos lembramos na atualidade, torcem por nós, dando-nos amparo moral, conforto espiritual, sustentação nas horas de dificuldade, orientações e sugestões, assistindo-nos nas vicissitudes da vida e alegrando-se com nossas vitórias.
Graças a esses generosos amigos e benfeitores, temos mais facilidade para enfrentar os problemas, as situações e os obstáculos, e mais coragem para vencer a nós mesmos, buscando o aprimoramento moral.
E aí entenderemos mais claramente as palavras de Jesus quando afirmou:
"O reino de Deus está dentro de vós".
Ao terminar a leitura deste livro, talvez você tenha ficado com algumas dúvidas e perguntas a fazer, o que é um bom sinal. Sinal de que está em busca de explicações para a vida. Todas as respostas que você precisa estão nas Obras Básicas de Allan Kardec.
Se você gostou deste livro, o que acha de fazer com que outras pessoas venham a conhecê-lo também? Poderia comentá-lo com aquelas do seu relacionamento, dar de presente a alguém que talvez esteja precisando ou até mesmo emprestar àquele que não tem condições de comprá-lo. O importante é a divulgação da boa leitura, principalmente a da literatura espírita. Entre nessa corrente!
Esta a obr ra f foi di igitalizad da e revis sada a pe el lo gru upo D Digita al Source para p pr rop po orcion nar, , de maneira a totalmente gra atu uita, o ben nefíci io de s sua leit tur ra àq queles qu ue não o p podem m com mprá--la a o ou àqu uele es que e n e ecessi ita am de e meios el letrô ôn nic cos par ra le er. Dess sa f for rma, a v venda a d de este e-b book ou até mesmo a a s sua tr roca a p o or q qualque er c contra apre estação o é tot tal lmente c cond denáv ve el em qua alq quer r ci irc cunstância. A A g ge ener ros sid dade e e a a h u umi ildad de é a a marc ca d da a di istribui içã ão, p po ortanto d di istribu ua es ste e li ivro liv vr rem men nte e. Ap ó ós sua l lei itu ura con nsidere se eri iam men nte a po ossibi ili ida ade d de ad dquirir o orig gi ina al, , p pois assi im você ê es stará á ince enti ivando o au ut tor r e a a publ licaç ção d de no ovas obr ras. Se qu uiser o outro os t títul los s nos s p procu ure: ht t tp://grou ups. .google.co om/gro ou up/Vi ic ciados_em_Livros, se er rá á um m pr ra azer recebê-l lo em nos sso grup po.
h ht tt tp p: :/ // /g gr roups.google. .com/ /g group/Viciados_e em_L Livros
h ht tt tp p: ://gr ro ou up ps s. .google.c co om m/ /gr ro ou up p/ /d di igi it ta al ls so ou ur rc ce e
Você terminou Só o Amor Liberta
Célia Xavier de Camargo